dezembro 18, 2008


Django Reinhardt - New York City Festival - Dark Eyes - Nov. 10, 2005
Personnel: Dorado Schmitt, Angelo Debarre, Ludovic Beier, Pierre Blanchard, Brian Torff, Samson Schmitt, Gordon Lane, Lew Tabackin, Roger Kellaway, David Langlois


R E F L E X O L O G I A
Houve um tempo em que fiz atividade física no SESC, quando tive uma "professora" que desenvolvia o seu trabalho a partir dos pés. Não sabia se tinha nome o que ela fazia , se era uma técnica ou era daquele jeito por ela ser japonesa. Não tinha tempo para me informar ou não dava importância. Mas fazia e me sentia bem.
Passado tanto tempo,lendo sobre reflexologia (no caderno equilíbrio da FSP) me dou conta de que o que ela fazia era alguma coisa próxima a isto. Ela nos orientava no sentido de conhecer o que eu chamava de "mapa do pé". Na nossa atividade, o "aquecimento" consistia em massagear os pés rolando-os sobre pequenas varas de bambu e descobrindo o que se sentia em cada parte do pé que tinha o seu correspondente reflexo no corpo.
Se alguns pontos doiam, deveria ser interpretado como sinal de que algo não estava bem naquela região. Algumas pessoas não conseguiam passar o pé no bambu diziam parecer que nele haviam espinhos.
Prosseguíamos deitadas com aqueles macarrões de isopô (usados por crianças na natação) cortados em banda e dispostos em paralelo ao longo da coluna para ser massageada. Ainda deitadas, substituíamos os isopôs por bolas de tenis em cada lado das costas para massageá-la. E assim íamos nos auto-massageando até concluirmos massageando nossos próprios pés.
Naquele tempo para fazer uma atividade como esta, ou qualquer outra que apaziguasse o peso na consciência por "não fazer nada por mim", siginificava chegar correndo e sair voando...Não me ocorria que seria mais prático e direto ser massageada por outra pessoa. Mas era um tempo em que, para mim, contatos como estes seriam muito penosos...Com a Sueli (era este seu nome) eu podia entrar muda e sair calada. Apenas sorrir para ela, de vez em quando.
Hoje em dia, sou massageada, duas vezes na semana por uma moça alegre e tagarela. Sou toda ouvidos para o que ela me conta sobre o que se passa na TV, na cidade e no mundo. Ela sabe tudo, sem sair daquela salinha...
Segundo a reflexologia, "o pé reflete órgãos e estruturas do corpo, e a massagem nessa região estimula e equilibra as funções orgânicas".
As regras de como fazer uma massagem para se beneficiar dos princípios da reflexologia, de acordo com o prof.Henrique Cirilo (da Universidade Anhembi Morumbi) são:
1-Comece com um escalda-pés, deixando os pés em água quente por cerca de dez minutos
2-Enxugue o pé e aplique um creme hidratante para facilitar o deslizamento das mãos. Massageie toda a extensão da planta e do peito do pé
3-Ao encontrar um ponto mais dolorido, faça uma pressão com o dedão e massageie em forma de círculos, até sentir a tensão dissolver
4-Massageie a lateral interna do pé com movimentos de vai-e-vem. Isso ajuda a aliviar dores de coluna
5-Massageie cada um dos dedos para aliviar dores de cabeça e pescoço

PONTOS DA SOLA DO PÉ
1 - Cabeça e pescoço
2 - Órgãos dos sentidos
3 - Tireóide e paratireóide
4 - Pulmão e diafragma
5 - Nervos
6 - Intestino grosso
7 - Vias urinárias
8 - Área gastrointestinal
9 - Área pélvica
10 - Nervo ciático
Hoje é dia! Fui...

dezembro 17, 2008

Praça Portugal em Fortaleza


Árvore de Natal montada com toalhas de mesa bordadas.
VIVA a criatividade dos cearenses!!!

Sempre o trânsito...lá como aqui.

Campanha "Mudemos de conduta. Compartilhemos Paris" traz estas fotos de acidentes em frente a grandes monumentos para sensibilizar sobre os riscos de agir com imprudência no trânsito. Dos quase 8 mil feridos em acidentes de trânsito até outubro deste ano, 1,6 mil são pedestres. O número fica atrás apenas da quantidade de motociclistas feridos. Apesar do grande aumento do número de ciclistas - devido ao sistema de aluguel de bicicletas públicas implantado no ano passado -, o número de vítimas fatais entre eles permaneceu estável e o de feridos, entre leves e graves, até diminuiu este ano.
É provável que a inusitada associação de imagens dos lugares simbólicos da cidade à ocorrências desta natureza garanta o sucesso da campanha.
AUSÊNCIA

Eu deixarei que morra em mim o desejo
de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa
de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa
como a luz e a vida

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto
e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque
em meu ser está tudo terminado.
Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados

Para que eu possa levar uma gota de orvalho
nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne
como uma nódoa do passado.
Eu deixarei ... tu irás e encostarás
a tua face em outra face

Teus dedos enlaçarão outros dedos
e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei a minha face
na face da noite e ouvi a tua fala amorosa

Porque meus dedos enlaçaram os dedos
da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência
do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só
como os veleiros nos portos silenciosos

Mas eu te possuirei mais que ninguém
porque poderei partir
E todas as lamentações do mar,
do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente,
a tua voz serenizada.
(Vinicius de Moraes)

Como disse o Mário Quintana "Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente ... e não a gente a ele!"

dezembro 16, 2008

Millôr Fernandes


O tradutor, escritor, desenhista e humorista Millôr Fernandes reivindica a invenção do frescobol ("la pelote basque sans fronton", pelota basca sem paredão) acha que a tecnologia franqueou a escrita a gente sem talento e esnoba a ABL, numa entrevista à BRAVO!!! deste mes. Deliciosa! Para acessar clique no título desta postagem.
Millôr Fernandes, o grande filósofo brasileiro (na definição do jornalista Sérgio Augusto), vai completar 85 anos no dia 27 de maio de 2009. Esta é a versão oficial. Na verdade, nascido no subúrbio carioca do Méier em 16 de agosto de 1923, Milton Viola Fernandes já passou dessa idade. Foi registrado com quase um ano de atraso pelo pai, o engenheiro espanhol Francisco Fernandes, e sua certidão de nascimento merece respeito. É o mesmo documento que, numa bem-vinda combinação entre a caligrafia torta do escrivão e uma decisão tomada por ele mesmo no fim da adolescência, transformou Milton em Millôr.
Qualquer que seja a idade, o ano que vem será de festa. Não para o próprio Millôr, que continua trabalhando todo dia em seu estúdio numa cobertura do bairro de Ipanema, perto da praia, onde cria suas colunas para a revista Veja. Foi na militância diária do profissionalismo que, órfão muito cedo de pai e mãe, esse autodidata radical construiu desde o início dos anos 40 — "há 250 anos", como ele diz — sua obra fabulosa de escritor, humorista, desenhista, artista plástico, dramaturgo, tradutor e mais um número indefinido de títulos menos vistosos, entre eles o de inventor do frescobol. Não adianta lhe pedir que mude a esta altura. Aliás, Millôr se arrepia quando ouve falar de obra: "Obra é com o pedreiro".

Barcelona

Luz Casal



Un año de amor. Com esta música...


...recebi hoje estas flores de uma pessoa especial!

Avós cibernéticas


Como sexo, tricô virtual não vai ter a menor graça...

Tango ao masculino


Quem disse que homem não dança com homem?
Enrique y Guillermo de Fazio dançam lindamente!

dezembro 15, 2008

OUTRAS CANÇÕES

Por uma nova lista de clássicos da MPB!

"Meu caro Zé Renato, eu acabei de ouvir seu disco sobre a Jovem Guarda e, se você me perdoa a marra, era exatamente o que eu estava dizendo pro pessoal aqui no botequim do Alfredinho.
Chegou a hora de mexer nos clássicos, nos standards, na listas das canções essenciais da música popular brasileira. Mudar o disco, tá compreendendo? Ouvir o lado B.
Descobrir os prazeres que estão escondidos nesta velha existência de artistas geniais e dar uma rabanada aos ouvidos, que eles estão loucos por um bom ruído na informação.
Ninguém aqui é maluco de achar "Carinhoso", "Águas de março" e "João Valentão" canções que devam ser esquecidas. Tom levantou a tampa do piano e, olho fito na menina que passava, fez um país. Dorival tirou o violão da capa e encheu o tal país com baianas de acarajé namorando brigões de camisa listrada.
Baluartes. Pixinguinha já tinha feito o som para essa gente toda fazer o footing ao redor do coreto do Jardim do Méier.
Cada um deles inventou uma oração que nos identifica, decifra e reinventa, melhores, o coração batendo feliz quando nos vemos tão bem retratados.
Mas é aí, meu bom Zé Renato, é aí que eu te reconheço nas proximidades do meu balcão e concordo. Está na hora de balançar esse abacateiro.
Acatarmos novas frutas delicadas, que façam todo mundo dizer o óbvio: "Caraca! Como é que eu não tinha percebido essa maraviha antes!!!???" Eu ouvi seu disco, Zé, no mesmo instante em que folheava o número especial da revista "Bravo" com "100 canções essenciais da MPB".
Lá estavam os sabichões de sempre com medo de avançar sobre os ídolos dantanho. Votaram no que não tem erro, do "Carinhoso" ao "Mundo é um moinho", com uma passagem de leve pelo "Alegria, alegria", para não ficarem com cara de tão dogmáticos assim.
Queriam ficar bem na foto de sempre, essa fraqueza tão humana, sem saber que essencial mesmo, na vida e na música, é renovar o ritmo.
Inventar novos requebros e admirações.
Por que a resistência em listar uma marchinha de carnaval sequer entre as cem músicas essenciais da MPB — ou ainda se pauta a qualidade da arte pela quantidade de tristeza que ela projeta? Qual o preconceito que risca do mapa toda a produção desbragadamente romântica dos grandes cantores populares — ou para sempre será confirmado que fazer sucesso no Brasil é sinal de mau gosto? Se o paladar muda e agora descobre que a velha quinoa dá salada; se a arquitetura tem a humildade de permitir os espaços que ela havia roubado e derruba as paredes nos lofts — por que a música brasileira não remexe mais nas suas verdades para, vamos combinar, hein!, sair da chatice em que está? Foi aí, grande Zé, eu estava ouvindo as pepitas que você foi pegar no baú, sempre execrado, sempre amaldiçoado como tolinho, dos caras da Jovem Guarda — foi aí que tudo fez mais sentido.
Justo você, autor de um inesquecível CD apenas com canções de Silvio Caldas, um desses cantores antigos que bastava colocar os dentes numa letra e ela virava um filé clássico.
Justo você me deu a certeza de que eu não estou maluco — e eis o ponto, Zé. Está na hora de ouvir tudo de novo. Aproveitar que a indústria não sabe mais o que fazer com a música, e consagrar novos clássicos. Agradecer todo esse tempo entretido com "Aquarela do Brasil", "Último desejo" e "Asa branca", delícias que ninguem quer esquecer, mas rearrumar a hierarquia da canção brasileira. Botar outros cânones na roda.
As listas do cinema só nos anos 60 colocaram o "Cidadão Kane", de 1941, como o primeiro colocado dos seus dez mais de todos tempos — e hoje nenhum dos novos críticos é capaz de repetir a indicação. Os jovens dos "bonequinhos" inventaram Coppola, Kubrick e Spielberg, certos de que as cabeças mudam, os penteados e os clássicos também. Na MPB, desde que Caetano fez o trabalho sujo de descobrir pérolas, corações maternos, entre a lavagem servida aos porcos, ninguém muda de opinião. Bom mesmo é Pixinguinha, Tom e Noel — o resto joga na segunda divisão.
Você, bom Zé, fez a sua parte. Desenhou em arranjos sofisticados, como se fossem os clássicos que merecem ser, canções belíssimas como "Com muito amor e carinho" e "Eu não sabia que você existia". Ficou excepcional.
Um trabalho de quem parte para as músicas com ouvidos limpos por cotonetes da marca "Sem Preconceito". Estou contigo e não abro.
A MPB estava precisando de um disco assim. Dizendo o contrário das listas de canções essenciais. Propondo outras. O mesmo cara que, dois CDs atrás, fez um inteirinho só com Zé Kéti, chega agora e, tremendão, coloca Ronnie Vonn, Martinha, Erasmo e Roberto no mesmo patamar. Tem que ser macho.
Vamos ver se os críticos entendem, Zé, e na próxima listagem do que é essencial na MPB perdem a vergonha. Se ponham ao respeito.
Onde já se viu uma lista de cem mais canções brasileiras sem uma marchinha do Lalá, sem outra ainda do Braguinha, sem um escurinho sequer do Geraldo Pereira, sem um cachorro que late do Waldick, sem uma aquarela que reluz do Silas, sem a "Verdade" do repertório do Zeca e — onde já se viu tamanho despautério — sem Roberto mandando tudo pro inferno?! Eles estão surdos, Zé, mas eu sou todo ouvidos ao seu belo disco".

Joaquim Ferreira dos Santos
(Jornal O Globo, 15/12/2008)

HISTÓRIA POSSÍVEL

"Alguns dos que participaram dos acontecimentos das últimas décadas começam a pensar em escrever sua história de vida. Há muitos modelos possíveis.Os meus são certamente inatingíveis — mas ficam colocados como pontos no infinito. Um deles é o estupendo livro "My past and thoughts", de Alexander Herzen, o chamado pai do populismo, escrito ao longo de 10 anos e que revela os meandros da vida política e intelectual dos exilados russos na segunda metade do século XIX.
Recentemente, Gabriel García Márquez publicou a pérola de sabedoria, beleza e correção que se chama "Vivir para contarla". São obras que valem muito mais do que pesam e cujos autores se confrontam aos dilemas biográficos por todos os lados: afetivo, literário, histórico, sociopolítico.
Trata-se de uma forma de exposição social das mais fortes que conheço.
Dou por suposto que quem se dispõe a escrevê-la tem em alta conta seus eventuais leitores. Seleção de fatos, restrições mentais e distorções são inevitáveis, mas o sentido de tal esforço não é o uso da palavra escrita para impor versões para a posteridade. Também não pode ser um samba-exaltação nem uma tentativa de "corrigir" seu próprio percurso.
A força da história de uma vida está no testemunho de uma época, com suas contradições, seus sofrimentos, equívocos, fracassos, suas alegrias e seus prazeres. Quanto mais fundo se é capaz de penetrar em seus próprios sentimentos, de se entender a si mesmo no passado (como alguém que já não é) olhando os outros e a sua própria história com a complacência e a sabedoria da velhice, de colocar fatos cotidianos num contexto que transcende o indivíduo, mais sentido tem contá-la.
Enumerar autores é tão fácil quanto fazer uma lista de nomes e encadear a trama como nas antigas colunas sociais; mas é também de pouco interesse.
Serve à auto-estima, estimula a pretensão de apontar eleitos nos salões e à expressão de velhas querelas que só têm valia para quem escreve. Um livro não é um divã, mesmo que sirva a considerações de um psicanalista — como a Freud serviu a biografia de Schreber.
Mas, quem narra tem virtudes e limites intelectuais, emocionais e morais e não se pode exigir de ninguém ir além daquilo que lhe permite sua estrutura psíquica, seus conflitos, seus valores, seu nível de lucidez sobre sua vida interior.
Ela é sempre a história possível.
O Brasil é país ainda sem tradição nessa espécie de narrativa, além de ser capaz de mostrar — em áreas cosmopolitas — um notável provincianismo permeando histórias de vida que integram estratégias de luta contra a morte pela santificação intelectual ou política.
A exposição de sofrimentos e de dores provoca solidariedade e pena, mas — sem limites — gera seu contrário, incomoda o dia-a-dia das pessoas. O ajuste de contas pode ser tentador, mas não é um bom caminho. É preciso encontrar a justa direção através de um trabalho difícil e demorado sobre si mesmo. Estimular a elaboração de boas biografias pela geração que hoje atravessa a barreira dos 60 é uma forma de preservar a memória do país, de reduzir a perda das formas subjetivas de perceber e de viver o social e o político e de reter expressões da mentalidade do período.
São testemunhos que ajudarão as novas levas de intelectuais a compreender o turbilhão que assolou o mundo neste meio século."
(Jornal O Globo, 15.12.2008)
VANILDA PAIVA (Professora e pesquisadora)

Folheando

Estão anunciando o desaparecimento de livros e jornais. Se retornaremos aos tempos em que não se publicava tantos livros, jornais, revistas, nem se produzia cinema, TV, CD/DVD, que surgiram no século passado, ninguém pode prever.
Por enquanto, livros continuam sendo publicados aos milhões. O hábito da leitura é que, cada vez mais, se torna uma atividade que não desperta interesse. Reluto em concluir o pensamento atribuindo tal comportamento às “novas gerações”. O hábito de ler não foi tão presente na minha (velha) geração. Onde vivi, eram poucas as mulheres que liam e as que o faziam, estiveram limitadas à considerada literatura feminina (coleção “biblioteca das moças“) mais precisamente, aos romances de M. Delly e Corin Tellado.
Quando, aos 14 anos, ganhei de presente de meu pai uma coleção com as obras do Machado de Assis (em capa verde e letras douradas) fiquei meio encabulada de contar para minhas amigas. Sabia que aquele presente não significava nada para elas.
Como faço aniversário na segunda quinzena de novembro, logo que ficava de férias, viajava para a serra que tinha clima mais ameno naquela época do ano. Ficava na casa de minha tia e madrinha.
Naquele ano levei uns dois ou três volumes do meu precioso presente (até hoje adoro cheiro de livro novo) e os guardava (não lembro porque) embaixo do colchão. Começava a ler tão logo me acordava (à noite não dava, não existia energia elétrica) e esquecia do tempo....Por não comparecer à mesa para o café da manhã, levei uma bronca em cujo texto constou também que eu não participava (interagia era uma palavra que não existia), me isolava, não ajudava, etc etc. Fiquei esperta, passei a fazer tudo direitinho, até ajudava a tirar a mesa. Só depois disso e de molhar as plantas me considerava livre. Passei a ler no jardim, sob um caramanchão lindíssimo (todo o jardim era lindo), na passagem do portão para a casa.
Num desses dias, minha tia recebeu a visita de um monsenhor que era amigo/orientador espiritual dela. Ao passar por mim, me perguntou o que eu estava lendo, não respondi com palavras, mostrei-lhe o dorso do livro. Ele olhou, não disse nada e continuou seu caminho em direção à casa, agora mais apressado.
O dia continuou normal. Apenas o “banquete” que lhe foi oferecido e o anúncio inesperado de uma viagem de minha tia à cidade quebraram a rotina.
Hoje, vendo de longe, me parece que o motivo principal da viagem foi comunicar ao meu pai as minhas "leituras inconvenientes" e o meu comportamento inadequado, o que me foi dito antes de partir, meio em tom de ameaça.
Além de não haver me deixado nem um pouco preocupada, antegozei o sermão que ela iria ouvir dele.
Dito e feito!

dezembro 14, 2008

Longevidade funcional


Deve fazer umas duas semanas que li este texto, na FSP, cujo título é Claro ou escuro. À falta de tempo naquele momento, guardei para voltar a ele com mais vagar. Relendo-o agora, achei interessante ao ponto de transcrevê-lo aqui. A autoria é de Wilson Jacob Filho, prof.da USP, geriatra no HC/SP e autor do livro "Atividade Física e Envelhecimento Saudável" .
A modificação do título na postagem foi proposital, a fim de permitir o acesso dos que pesquisam o tema no google.

"Recentemente, deparei-me com uma frase que perseguiu-me até que eu conseguisse fazer uma reflexão mais profunda: "Mamãe, para onde vai o escuro quando você acende a luz?" Proferida pelo pequeno Max Grinberg há quase seis décadas, consta do livro do médico e dramaturgo Pedro Bloch ("Criança Diz Cada Uma!", 1963) e também do memorial acadêmico de seu autor, hoje professor de medicina.
Tentei obter sua opinião atual sobre a questão formulada na infância, mas a situação em que nos encontrávamos não permitiu maiores divagações.
Não consegui esperar outra oportunidade. Ampliei o sentido dos dois termos principais da frase a fim de entender as entrelinhas dessa oposição.
O escuro esconde o perigo, a ameaça, aquilo que pode fazer mal sem boa possibilidade de defesa. No escuro, nos tornamos inseguros, dependentes.
Como sinônimo, há o obscuro, que também significa desconhecido, sombrio. Natural, portanto, que o obscurantismo seja a doutrina que se opõe à divulgação do conhecimento.
A luz, por sua vez, além das suas definições físicas, é usada como sinônimo de inteligência ou cultura, mais especificamente à divulgação de informações de interesse popular.
Compreensível, portanto, que tenha sido denominado de iluminismo o movimento francês do século 18 que propôs maior esclarecimento do ser humano.
Não foi difícil transferir essa condição de desconhecimento, muitas vezes proposital, para a necessidade de uma sistematização do saber nos conceitos e preconceitos que se relacionam ao envelhecimento.
Inacreditável como esse fenômeno natural, comum a praticamente todos os seres vivos, seja ainda tão desconhecido e estigmatizado, uma vez que essa evolução está sendo vivenciada por um número cada vez maior de pessoas e por tempo cada vez mais prolongado.
Não há nenhum motivo para que o idoso continue sendo considerado, fundamentalmente, um grande acumulador de doenças e fadado obrigatoriamente à decrepitude.
Os obscurantistas propõem a inexorabilidade da perda funcional com o avançar da idade e não aceitam a possibilidade do envelhecimento saudável. Criticam, com isso, a importância dos modernos conhecimentos e ações geriátricas e gerontológicas. Curiosamente, divulgam essas idéias mesmo quando em idade mais avançada e demonstrando plenas capacidades funcionais. Em verdade, acreditam que "velhos são os outros".
Mesmo assim, não há por que temer o escuro. Haveremos de ter a curiosidade e a persistência do pequeno Max e entender que, na obscuridade por vezes intencional que cerca o envelhecer, muitas luzes já se acenderam e outras tantas estão por fazê-lo cada vez mais rápido.
Nem por isso, porém, o escuro vai acabar. Simplesmente mudará de lugar, à espera que o conhecimento lá chegue para afastá-lo um pouco mais.
Felizmente, cada vez mais gente está acendendo suas luzes e iluminando suas expectativas de uma crescente longevidade funcional".

Não, não e não


Se eu tivesse que fazer uma avaliação dessas que se costuma fazer a cada fim de ano, diria que nesse que termina dei início a prática intensiva, sem dor, culpa nem piedade, do NÃO!
Pensava nisso, quando ontem me deparo com a matéria da Vida Simples a respeito do grande não :"Ter firmeza de atitude e saber negar é uma arte que pode transformar sua vida."
E como!
Um não aqui outro ali, a gente vai se reconstruindo e se sentindo muito bem. Não fazer nem ir para onde não quer, com quem não quer, é só uma questão de começar. Depois não se quer mais abrir mão dessa delícia. Venho reafirmando para os mais próximos que sempre que estiver ao lado deles ou fazendo alguma coisa por, ou para eles, é por puro gosto e prazer. A fim de que saibam que não fosse por isso, nada daquilo aconteceria.
Mas precisa treino, não pode descuidar. Se não praticar, quando menos se espera se está caindo na tentação mais fácil de "ser legal".
Cada um tem as suas razões para achar que ceder, ir, concordar dá menos trabalho do que dizer não quero, não vou, não concordo. Já tive as minhas dificuldades nesta área. E até psoríase!
Afinal, ninguém quer pagar o preço. Não mais ser visto como “legal”, é só um deles. Os seus amigos (as) se surpreendem: o que estaria se passando? será só comigo?
Até perceberem que o seu NÃO não deve ser intrepretado como agressividade leva um tempo. Para alguns pode ser definitivo.
Se, justificar os raros NÃO! deixar de ser a sua prática, saiba que isto implica alguns riscos de perdas que podem não ser apenas imaginárias. Mas, comparadas aos sapos que não mais serão engolidos, o saldo pode ser positivo.
Discordar, logo de cara, no começo da conversa, não sorrir quando se estar a ponto de explodir, mudar de opinião quantas vezes quiser, não se colocar na defensiva, não tem preço.
Ser muito legal o tempo todo, acaba não sendo legal!

dezembro 13, 2008

R A S T R O

Sob o título de Presas Fáceis , Joyce Pascowitch (a revista) traz relatos de casos de pessoas de bem que não sairam em boa companhia...
Dentre eles Aparício Basílio da Silva "Um gentleman"
"O segredo é surgir, sorrir e sumir”, este era o ditado de Aparício Basílio da Silva, um dos homens mais elegantes, talentosos e antenados que São Paulo já teve. Não era raro vê-lo em mais de uma festa na mesma noite – e nas colunas sociais dos dias seguintes figurava sempre. Suas festas, antológicas. E o apartamento tríplex na rua da Consolação, entre a Oscar Freire e a Estados Unidos, de extremo bom gosto. Sabia compor um mix de convidados como ninguém. Em uma mesma ocasião podia-se ver reunidos Lucía Curia, Fernando Henrique Cardoso, Paulo Malzoni, Tonia Carrero, José Duarte Aguiar, Severo Gomes, Vinicius de Moraes, Christiana Neves da Rocha, Rosita Thomaz Lopes, Tarso de Castro e Consuelo Leandro. Todos entrosadíssimos.
Quem foi Aparício? Bom, para os poucos que não sabem, Aparício Basílio da Silva nasceu em São Paulo, no dia 12 de dezembro de 1935, em casa, na rua Sena Madureira. Filho mais velho do senhor Antonio, corretor de imóveis, e de Virgília, dona de casa e cozinheira de mão cheia, fez o primário no Assis Pacheco e seguiu para o Caetano de Campos. Tinha o maior xodó pela irmã temporã, Maria Helena, oito anos mais nova. Artes, adorava, e, danado, aos 15 anos foi monitor da primeira Bienal, em 1951. Aprendeu inglês sozinho e chegou – anos mais tarde – a publicar mais de um livro nessa língua.
Além disso, era escultor, pintor, crítico de arte e estilista. Com uma sócia, foi um dos primeiros a ter uma butique, a Rastro, na rua Augusta. A loja virou moda e só era freqüentada pelos “prafrentex” – os modernos de hoje. Ao fim do dia, todos os amigos iam para lá. Alguns anos depois, realizou seu maior sonho: produzir uma colônia brasileira sofisticada, que levou o nome da butique. Surgia então a Rastro, cujo frasco já era arrojado e a fragrância sofisticada. Fez fortuna. Um verdadeiro self-made man.
Aparício também deu um up, mais do que necessário, ao Museu de Arte Moderna, MAM, quando assumiu a presidência do museu em 1983, cargo em que ficou até 1992. Homem de visão, na mocidade, quando viu que a pintura não iria lhe conceder o que queria, tornou-se um colecionador. Nas paredes do apartamento, Volpi, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Aldemir Martins e Carlos Prado. Anos e anos mais tarde, criou uma galeria de arte em sua loja, onde Pinky Wainer fez sua primeira exposição.
O closet dele sempre rendia matérias de revistas. Transbordava Gucci, que, às vezes, vestia da cabeça aos pés. Ternos azul-marinho e óculos, suas marcas registradas. Sua elegância sempre foi propagada em verso e prosa. Sagitariano, com rodinha nos pés, não parava: projetos mil e viagens, quatro vezes por ano, ao exterior.
Alto, 1,87 metro – sempre bronzeado e trepidante – arrebatava corações, mas teve em Walter Zaniratto um bom companheiro por mais de uma década. Em português bem claro: Aparício era um gatão em qualquer idade, um homem ao estilo de Cary Grant e Sean Connery – bonito, independentemente da estação da vida.
Não freqüentava a noite gay, não gostava e tampouco sabia seus códigos, malícias e roubadas. Numa noite resolveu ir à boate Rave, na rua Bela Cintra, a mais badalada da cena homossexual na época. Saiu acompanhado. Bem mal acompanhado. Além do rapaz, um casal os esperava do lado de fora da boate.
Ele foi encontrado com 97 facadas e tesouradas num terreno baldio em São Bernardo do Campo, em agosto de 1992. Os assassinos foram presos em menos de dez dias – um deles já está morto – e a amizade de Aparício com o poder e a imprensa contribuiu muito para o desfecho rápido do caso. Sua morte brutal horrorizou o hi-society paulistano. Seu corpo foi velado no MAM."

Por Renato Fernandes, do RJ (o link clicando o título)

desmemória

Após transcrever (abaixo) a crônica do Ruy Castro, deparei-me com matéria na mesma FSP, comentando resultado de pesquisa apontanto como resultado da deficiência no ensino de história que “oito em cada dez brasileiros nunca ouviram falar do AI-5”. Dos 18% que dizem conhecer a sigla, só um terço sabe relacioná-la ao ato da ditadura.
Editado há 40 anos pelo general Costa e Silva, o Ato Institucional nº 5. foi o principal símbolo da ditadura militar: autorizava o Executivo a fechar o Congresso, cassar mandatos, demitir e aposentar funcionários de todos os poderes. O governo podia legislar sobre tudo. Suas decisões não podiam ser contestadas judicialmente, as prisões eram arbitrárias. Foram cassadas garantias constitucionais como as do habeas corpus. Em dez anos, o AI-5 serviu de base para a cassação de mais de cem congressistas e a censura atingiu cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e 500 canções.
O pior é que a população, que mal lê jornal, continua muito desinformada sobre questões políticas. Não que sirva de consolo, mas consta que isto não se passa apenas no Brasil. Segundo a mesma matéria, foi feita uma pesquisa com jovens da Alemanha, e a grande maioria nunca tinha ouvido falar de Hitler!
Clique no título para ler mais.

O coração como arma

Quem tem uma certa idade lembra (com vergonha, trauma e medo) do fechamento do Congresso, da edição do AI-5 e dos funestos desdobramentos. Era 12 de dezembro de 1968.
Sobre o Paulo Francis, postei no marcador "gente". Sempre fui sua fã e admiradora. Ele era o tipo de pessoa a quem se ama ou odeia. Ninguém ficava indiferente ao que ele pensava e dizia, nem a maneira como o fazia. À medida que o tempo passa têm se revelado facetas do Francis que o tornam ainda mais interessante!

O texto abaixo é do Ruy Castro na FSP de hoje:
"Na noite de 13 de dezembro de 1968, Paulo Francis tomou um avião em Nova York e mandou tocar para o Rio, onde morava. Enquanto ele lia Geoffrey Barraclough a 30 mil pés, os militares faziam horrores por aqui -fechado o Congresso e abolido o habeas corpus, estavam indo buscar em casa quem eles consideravam perigosos para o regime: políticos, editores, poetas, repórteres, caricaturistas.
Na manhã de 14, ao pousar no Galeão e aberta a porta do avião, Francis teria posto o pé na escadinha e, de nariz em pé, perguntado sorridente, para ninguém em particular: "E aí, como se comportou o Brasil na minha ausência?". Em resposta, mãos truculentas o teriam algemado e levado preso para o quartel. Segundo outra versão, mais correta, Francis só foi preso no dia seguinte, 15, de pijama, em seu apartamento em Ipanema.
Hipótese também mais heróica, porque, já sabendo da prisão de tantos de seus amigos, poderia muito bem ter ido se esconder em um sítio na roça. Mas preferiu ficar e ver no que dava. Deu cana, da qual só foi libertado no Natal, por interferência de outro amigo, ligado ao general Sizeno Sarmento.
Eu próprio, julgando-me um alvo, também andei escondido por alguns dias. Mas saí da toca e estive com Francis logo depois que o soltaram. Perguntei-lhe: "Foi torturado?". E ele: "Barbaramente. O carcereiro escutava Vandeca [a cantora Wanderléa] pelo radinho de pilha o dia inteiro".
Por várias razões, é Francis que me vem à cabeça em todo aniversário do AI-5. Mas, desta vez, há mais um motivo: o belo documentário "Caro Francis", que acaba de sair, produzido por Nelson Hoineff. É o retrato de um homem cuja principal arma retórica não era a inteligência, a mordacidade ou o destempero verbal, mas -agora ficou claro-o coração
".