dezembro 16, 2008

Millôr Fernandes


O tradutor, escritor, desenhista e humorista Millôr Fernandes reivindica a invenção do frescobol ("la pelote basque sans fronton", pelota basca sem paredão) acha que a tecnologia franqueou a escrita a gente sem talento e esnoba a ABL, numa entrevista à BRAVO!!! deste mes. Deliciosa! Para acessar clique no título desta postagem.
Millôr Fernandes, o grande filósofo brasileiro (na definição do jornalista Sérgio Augusto), vai completar 85 anos no dia 27 de maio de 2009. Esta é a versão oficial. Na verdade, nascido no subúrbio carioca do Méier em 16 de agosto de 1923, Milton Viola Fernandes já passou dessa idade. Foi registrado com quase um ano de atraso pelo pai, o engenheiro espanhol Francisco Fernandes, e sua certidão de nascimento merece respeito. É o mesmo documento que, numa bem-vinda combinação entre a caligrafia torta do escrivão e uma decisão tomada por ele mesmo no fim da adolescência, transformou Milton em Millôr.
Qualquer que seja a idade, o ano que vem será de festa. Não para o próprio Millôr, que continua trabalhando todo dia em seu estúdio numa cobertura do bairro de Ipanema, perto da praia, onde cria suas colunas para a revista Veja. Foi na militância diária do profissionalismo que, órfão muito cedo de pai e mãe, esse autodidata radical construiu desde o início dos anos 40 — "há 250 anos", como ele diz — sua obra fabulosa de escritor, humorista, desenhista, artista plástico, dramaturgo, tradutor e mais um número indefinido de títulos menos vistosos, entre eles o de inventor do frescobol. Não adianta lhe pedir que mude a esta altura. Aliás, Millôr se arrepia quando ouve falar de obra: "Obra é com o pedreiro".

Barcelona

Luz Casal



Un año de amor. Com esta música...


...recebi hoje estas flores de uma pessoa especial!

Avós cibernéticas


Como sexo, tricô virtual não vai ter a menor graça...

Tango ao masculino


Quem disse que homem não dança com homem?
Enrique y Guillermo de Fazio dançam lindamente!

dezembro 15, 2008

OUTRAS CANÇÕES

Por uma nova lista de clássicos da MPB!

"Meu caro Zé Renato, eu acabei de ouvir seu disco sobre a Jovem Guarda e, se você me perdoa a marra, era exatamente o que eu estava dizendo pro pessoal aqui no botequim do Alfredinho.
Chegou a hora de mexer nos clássicos, nos standards, na listas das canções essenciais da música popular brasileira. Mudar o disco, tá compreendendo? Ouvir o lado B.
Descobrir os prazeres que estão escondidos nesta velha existência de artistas geniais e dar uma rabanada aos ouvidos, que eles estão loucos por um bom ruído na informação.
Ninguém aqui é maluco de achar "Carinhoso", "Águas de março" e "João Valentão" canções que devam ser esquecidas. Tom levantou a tampa do piano e, olho fito na menina que passava, fez um país. Dorival tirou o violão da capa e encheu o tal país com baianas de acarajé namorando brigões de camisa listrada.
Baluartes. Pixinguinha já tinha feito o som para essa gente toda fazer o footing ao redor do coreto do Jardim do Méier.
Cada um deles inventou uma oração que nos identifica, decifra e reinventa, melhores, o coração batendo feliz quando nos vemos tão bem retratados.
Mas é aí, meu bom Zé Renato, é aí que eu te reconheço nas proximidades do meu balcão e concordo. Está na hora de balançar esse abacateiro.
Acatarmos novas frutas delicadas, que façam todo mundo dizer o óbvio: "Caraca! Como é que eu não tinha percebido essa maraviha antes!!!???" Eu ouvi seu disco, Zé, no mesmo instante em que folheava o número especial da revista "Bravo" com "100 canções essenciais da MPB".
Lá estavam os sabichões de sempre com medo de avançar sobre os ídolos dantanho. Votaram no que não tem erro, do "Carinhoso" ao "Mundo é um moinho", com uma passagem de leve pelo "Alegria, alegria", para não ficarem com cara de tão dogmáticos assim.
Queriam ficar bem na foto de sempre, essa fraqueza tão humana, sem saber que essencial mesmo, na vida e na música, é renovar o ritmo.
Inventar novos requebros e admirações.
Por que a resistência em listar uma marchinha de carnaval sequer entre as cem músicas essenciais da MPB — ou ainda se pauta a qualidade da arte pela quantidade de tristeza que ela projeta? Qual o preconceito que risca do mapa toda a produção desbragadamente romântica dos grandes cantores populares — ou para sempre será confirmado que fazer sucesso no Brasil é sinal de mau gosto? Se o paladar muda e agora descobre que a velha quinoa dá salada; se a arquitetura tem a humildade de permitir os espaços que ela havia roubado e derruba as paredes nos lofts — por que a música brasileira não remexe mais nas suas verdades para, vamos combinar, hein!, sair da chatice em que está? Foi aí, grande Zé, eu estava ouvindo as pepitas que você foi pegar no baú, sempre execrado, sempre amaldiçoado como tolinho, dos caras da Jovem Guarda — foi aí que tudo fez mais sentido.
Justo você, autor de um inesquecível CD apenas com canções de Silvio Caldas, um desses cantores antigos que bastava colocar os dentes numa letra e ela virava um filé clássico.
Justo você me deu a certeza de que eu não estou maluco — e eis o ponto, Zé. Está na hora de ouvir tudo de novo. Aproveitar que a indústria não sabe mais o que fazer com a música, e consagrar novos clássicos. Agradecer todo esse tempo entretido com "Aquarela do Brasil", "Último desejo" e "Asa branca", delícias que ninguem quer esquecer, mas rearrumar a hierarquia da canção brasileira. Botar outros cânones na roda.
As listas do cinema só nos anos 60 colocaram o "Cidadão Kane", de 1941, como o primeiro colocado dos seus dez mais de todos tempos — e hoje nenhum dos novos críticos é capaz de repetir a indicação. Os jovens dos "bonequinhos" inventaram Coppola, Kubrick e Spielberg, certos de que as cabeças mudam, os penteados e os clássicos também. Na MPB, desde que Caetano fez o trabalho sujo de descobrir pérolas, corações maternos, entre a lavagem servida aos porcos, ninguém muda de opinião. Bom mesmo é Pixinguinha, Tom e Noel — o resto joga na segunda divisão.
Você, bom Zé, fez a sua parte. Desenhou em arranjos sofisticados, como se fossem os clássicos que merecem ser, canções belíssimas como "Com muito amor e carinho" e "Eu não sabia que você existia". Ficou excepcional.
Um trabalho de quem parte para as músicas com ouvidos limpos por cotonetes da marca "Sem Preconceito". Estou contigo e não abro.
A MPB estava precisando de um disco assim. Dizendo o contrário das listas de canções essenciais. Propondo outras. O mesmo cara que, dois CDs atrás, fez um inteirinho só com Zé Kéti, chega agora e, tremendão, coloca Ronnie Vonn, Martinha, Erasmo e Roberto no mesmo patamar. Tem que ser macho.
Vamos ver se os críticos entendem, Zé, e na próxima listagem do que é essencial na MPB perdem a vergonha. Se ponham ao respeito.
Onde já se viu uma lista de cem mais canções brasileiras sem uma marchinha do Lalá, sem outra ainda do Braguinha, sem um escurinho sequer do Geraldo Pereira, sem um cachorro que late do Waldick, sem uma aquarela que reluz do Silas, sem a "Verdade" do repertório do Zeca e — onde já se viu tamanho despautério — sem Roberto mandando tudo pro inferno?! Eles estão surdos, Zé, mas eu sou todo ouvidos ao seu belo disco".

Joaquim Ferreira dos Santos
(Jornal O Globo, 15/12/2008)

HISTÓRIA POSSÍVEL

"Alguns dos que participaram dos acontecimentos das últimas décadas começam a pensar em escrever sua história de vida. Há muitos modelos possíveis.Os meus são certamente inatingíveis — mas ficam colocados como pontos no infinito. Um deles é o estupendo livro "My past and thoughts", de Alexander Herzen, o chamado pai do populismo, escrito ao longo de 10 anos e que revela os meandros da vida política e intelectual dos exilados russos na segunda metade do século XIX.
Recentemente, Gabriel García Márquez publicou a pérola de sabedoria, beleza e correção que se chama "Vivir para contarla". São obras que valem muito mais do que pesam e cujos autores se confrontam aos dilemas biográficos por todos os lados: afetivo, literário, histórico, sociopolítico.
Trata-se de uma forma de exposição social das mais fortes que conheço.
Dou por suposto que quem se dispõe a escrevê-la tem em alta conta seus eventuais leitores. Seleção de fatos, restrições mentais e distorções são inevitáveis, mas o sentido de tal esforço não é o uso da palavra escrita para impor versões para a posteridade. Também não pode ser um samba-exaltação nem uma tentativa de "corrigir" seu próprio percurso.
A força da história de uma vida está no testemunho de uma época, com suas contradições, seus sofrimentos, equívocos, fracassos, suas alegrias e seus prazeres. Quanto mais fundo se é capaz de penetrar em seus próprios sentimentos, de se entender a si mesmo no passado (como alguém que já não é) olhando os outros e a sua própria história com a complacência e a sabedoria da velhice, de colocar fatos cotidianos num contexto que transcende o indivíduo, mais sentido tem contá-la.
Enumerar autores é tão fácil quanto fazer uma lista de nomes e encadear a trama como nas antigas colunas sociais; mas é também de pouco interesse.
Serve à auto-estima, estimula a pretensão de apontar eleitos nos salões e à expressão de velhas querelas que só têm valia para quem escreve. Um livro não é um divã, mesmo que sirva a considerações de um psicanalista — como a Freud serviu a biografia de Schreber.
Mas, quem narra tem virtudes e limites intelectuais, emocionais e morais e não se pode exigir de ninguém ir além daquilo que lhe permite sua estrutura psíquica, seus conflitos, seus valores, seu nível de lucidez sobre sua vida interior.
Ela é sempre a história possível.
O Brasil é país ainda sem tradição nessa espécie de narrativa, além de ser capaz de mostrar — em áreas cosmopolitas — um notável provincianismo permeando histórias de vida que integram estratégias de luta contra a morte pela santificação intelectual ou política.
A exposição de sofrimentos e de dores provoca solidariedade e pena, mas — sem limites — gera seu contrário, incomoda o dia-a-dia das pessoas. O ajuste de contas pode ser tentador, mas não é um bom caminho. É preciso encontrar a justa direção através de um trabalho difícil e demorado sobre si mesmo. Estimular a elaboração de boas biografias pela geração que hoje atravessa a barreira dos 60 é uma forma de preservar a memória do país, de reduzir a perda das formas subjetivas de perceber e de viver o social e o político e de reter expressões da mentalidade do período.
São testemunhos que ajudarão as novas levas de intelectuais a compreender o turbilhão que assolou o mundo neste meio século."
(Jornal O Globo, 15.12.2008)
VANILDA PAIVA (Professora e pesquisadora)

Folheando

Estão anunciando o desaparecimento de livros e jornais. Se retornaremos aos tempos em que não se publicava tantos livros, jornais, revistas, nem se produzia cinema, TV, CD/DVD, que surgiram no século passado, ninguém pode prever.
Por enquanto, livros continuam sendo publicados aos milhões. O hábito da leitura é que, cada vez mais, se torna uma atividade que não desperta interesse. Reluto em concluir o pensamento atribuindo tal comportamento às “novas gerações”. O hábito de ler não foi tão presente na minha (velha) geração. Onde vivi, eram poucas as mulheres que liam e as que o faziam, estiveram limitadas à considerada literatura feminina (coleção “biblioteca das moças“) mais precisamente, aos romances de M. Delly e Corin Tellado.
Quando, aos 14 anos, ganhei de presente de meu pai uma coleção com as obras do Machado de Assis (em capa verde e letras douradas) fiquei meio encabulada de contar para minhas amigas. Sabia que aquele presente não significava nada para elas.
Como faço aniversário na segunda quinzena de novembro, logo que ficava de férias, viajava para a serra que tinha clima mais ameno naquela época do ano. Ficava na casa de minha tia e madrinha.
Naquele ano levei uns dois ou três volumes do meu precioso presente (até hoje adoro cheiro de livro novo) e os guardava (não lembro porque) embaixo do colchão. Começava a ler tão logo me acordava (à noite não dava, não existia energia elétrica) e esquecia do tempo....Por não comparecer à mesa para o café da manhã, levei uma bronca em cujo texto constou também que eu não participava (interagia era uma palavra que não existia), me isolava, não ajudava, etc etc. Fiquei esperta, passei a fazer tudo direitinho, até ajudava a tirar a mesa. Só depois disso e de molhar as plantas me considerava livre. Passei a ler no jardim, sob um caramanchão lindíssimo (todo o jardim era lindo), na passagem do portão para a casa.
Num desses dias, minha tia recebeu a visita de um monsenhor que era amigo/orientador espiritual dela. Ao passar por mim, me perguntou o que eu estava lendo, não respondi com palavras, mostrei-lhe o dorso do livro. Ele olhou, não disse nada e continuou seu caminho em direção à casa, agora mais apressado.
O dia continuou normal. Apenas o “banquete” que lhe foi oferecido e o anúncio inesperado de uma viagem de minha tia à cidade quebraram a rotina.
Hoje, vendo de longe, me parece que o motivo principal da viagem foi comunicar ao meu pai as minhas "leituras inconvenientes" e o meu comportamento inadequado, o que me foi dito antes de partir, meio em tom de ameaça.
Além de não haver me deixado nem um pouco preocupada, antegozei o sermão que ela iria ouvir dele.
Dito e feito!

dezembro 14, 2008

Longevidade funcional


Deve fazer umas duas semanas que li este texto, na FSP, cujo título é Claro ou escuro. À falta de tempo naquele momento, guardei para voltar a ele com mais vagar. Relendo-o agora, achei interessante ao ponto de transcrevê-lo aqui. A autoria é de Wilson Jacob Filho, prof.da USP, geriatra no HC/SP e autor do livro "Atividade Física e Envelhecimento Saudável" .
A modificação do título na postagem foi proposital, a fim de permitir o acesso dos que pesquisam o tema no google.

"Recentemente, deparei-me com uma frase que perseguiu-me até que eu conseguisse fazer uma reflexão mais profunda: "Mamãe, para onde vai o escuro quando você acende a luz?" Proferida pelo pequeno Max Grinberg há quase seis décadas, consta do livro do médico e dramaturgo Pedro Bloch ("Criança Diz Cada Uma!", 1963) e também do memorial acadêmico de seu autor, hoje professor de medicina.
Tentei obter sua opinião atual sobre a questão formulada na infância, mas a situação em que nos encontrávamos não permitiu maiores divagações.
Não consegui esperar outra oportunidade. Ampliei o sentido dos dois termos principais da frase a fim de entender as entrelinhas dessa oposição.
O escuro esconde o perigo, a ameaça, aquilo que pode fazer mal sem boa possibilidade de defesa. No escuro, nos tornamos inseguros, dependentes.
Como sinônimo, há o obscuro, que também significa desconhecido, sombrio. Natural, portanto, que o obscurantismo seja a doutrina que se opõe à divulgação do conhecimento.
A luz, por sua vez, além das suas definições físicas, é usada como sinônimo de inteligência ou cultura, mais especificamente à divulgação de informações de interesse popular.
Compreensível, portanto, que tenha sido denominado de iluminismo o movimento francês do século 18 que propôs maior esclarecimento do ser humano.
Não foi difícil transferir essa condição de desconhecimento, muitas vezes proposital, para a necessidade de uma sistematização do saber nos conceitos e preconceitos que se relacionam ao envelhecimento.
Inacreditável como esse fenômeno natural, comum a praticamente todos os seres vivos, seja ainda tão desconhecido e estigmatizado, uma vez que essa evolução está sendo vivenciada por um número cada vez maior de pessoas e por tempo cada vez mais prolongado.
Não há nenhum motivo para que o idoso continue sendo considerado, fundamentalmente, um grande acumulador de doenças e fadado obrigatoriamente à decrepitude.
Os obscurantistas propõem a inexorabilidade da perda funcional com o avançar da idade e não aceitam a possibilidade do envelhecimento saudável. Criticam, com isso, a importância dos modernos conhecimentos e ações geriátricas e gerontológicas. Curiosamente, divulgam essas idéias mesmo quando em idade mais avançada e demonstrando plenas capacidades funcionais. Em verdade, acreditam que "velhos são os outros".
Mesmo assim, não há por que temer o escuro. Haveremos de ter a curiosidade e a persistência do pequeno Max e entender que, na obscuridade por vezes intencional que cerca o envelhecer, muitas luzes já se acenderam e outras tantas estão por fazê-lo cada vez mais rápido.
Nem por isso, porém, o escuro vai acabar. Simplesmente mudará de lugar, à espera que o conhecimento lá chegue para afastá-lo um pouco mais.
Felizmente, cada vez mais gente está acendendo suas luzes e iluminando suas expectativas de uma crescente longevidade funcional".

Não, não e não


Se eu tivesse que fazer uma avaliação dessas que se costuma fazer a cada fim de ano, diria que nesse que termina dei início a prática intensiva, sem dor, culpa nem piedade, do NÃO!
Pensava nisso, quando ontem me deparo com a matéria da Vida Simples a respeito do grande não :"Ter firmeza de atitude e saber negar é uma arte que pode transformar sua vida."
E como!
Um não aqui outro ali, a gente vai se reconstruindo e se sentindo muito bem. Não fazer nem ir para onde não quer, com quem não quer, é só uma questão de começar. Depois não se quer mais abrir mão dessa delícia. Venho reafirmando para os mais próximos que sempre que estiver ao lado deles ou fazendo alguma coisa por, ou para eles, é por puro gosto e prazer. A fim de que saibam que não fosse por isso, nada daquilo aconteceria.
Mas precisa treino, não pode descuidar. Se não praticar, quando menos se espera se está caindo na tentação mais fácil de "ser legal".
Cada um tem as suas razões para achar que ceder, ir, concordar dá menos trabalho do que dizer não quero, não vou, não concordo. Já tive as minhas dificuldades nesta área. E até psoríase!
Afinal, ninguém quer pagar o preço. Não mais ser visto como “legal”, é só um deles. Os seus amigos (as) se surpreendem: o que estaria se passando? será só comigo?
Até perceberem que o seu NÃO não deve ser intrepretado como agressividade leva um tempo. Para alguns pode ser definitivo.
Se, justificar os raros NÃO! deixar de ser a sua prática, saiba que isto implica alguns riscos de perdas que podem não ser apenas imaginárias. Mas, comparadas aos sapos que não mais serão engolidos, o saldo pode ser positivo.
Discordar, logo de cara, no começo da conversa, não sorrir quando se estar a ponto de explodir, mudar de opinião quantas vezes quiser, não se colocar na defensiva, não tem preço.
Ser muito legal o tempo todo, acaba não sendo legal!

dezembro 13, 2008

R A S T R O

Sob o título de Presas Fáceis , Joyce Pascowitch (a revista) traz relatos de casos de pessoas de bem que não sairam em boa companhia...
Dentre eles Aparício Basílio da Silva "Um gentleman"
"O segredo é surgir, sorrir e sumir”, este era o ditado de Aparício Basílio da Silva, um dos homens mais elegantes, talentosos e antenados que São Paulo já teve. Não era raro vê-lo em mais de uma festa na mesma noite – e nas colunas sociais dos dias seguintes figurava sempre. Suas festas, antológicas. E o apartamento tríplex na rua da Consolação, entre a Oscar Freire e a Estados Unidos, de extremo bom gosto. Sabia compor um mix de convidados como ninguém. Em uma mesma ocasião podia-se ver reunidos Lucía Curia, Fernando Henrique Cardoso, Paulo Malzoni, Tonia Carrero, José Duarte Aguiar, Severo Gomes, Vinicius de Moraes, Christiana Neves da Rocha, Rosita Thomaz Lopes, Tarso de Castro e Consuelo Leandro. Todos entrosadíssimos.
Quem foi Aparício? Bom, para os poucos que não sabem, Aparício Basílio da Silva nasceu em São Paulo, no dia 12 de dezembro de 1935, em casa, na rua Sena Madureira. Filho mais velho do senhor Antonio, corretor de imóveis, e de Virgília, dona de casa e cozinheira de mão cheia, fez o primário no Assis Pacheco e seguiu para o Caetano de Campos. Tinha o maior xodó pela irmã temporã, Maria Helena, oito anos mais nova. Artes, adorava, e, danado, aos 15 anos foi monitor da primeira Bienal, em 1951. Aprendeu inglês sozinho e chegou – anos mais tarde – a publicar mais de um livro nessa língua.
Além disso, era escultor, pintor, crítico de arte e estilista. Com uma sócia, foi um dos primeiros a ter uma butique, a Rastro, na rua Augusta. A loja virou moda e só era freqüentada pelos “prafrentex” – os modernos de hoje. Ao fim do dia, todos os amigos iam para lá. Alguns anos depois, realizou seu maior sonho: produzir uma colônia brasileira sofisticada, que levou o nome da butique. Surgia então a Rastro, cujo frasco já era arrojado e a fragrância sofisticada. Fez fortuna. Um verdadeiro self-made man.
Aparício também deu um up, mais do que necessário, ao Museu de Arte Moderna, MAM, quando assumiu a presidência do museu em 1983, cargo em que ficou até 1992. Homem de visão, na mocidade, quando viu que a pintura não iria lhe conceder o que queria, tornou-se um colecionador. Nas paredes do apartamento, Volpi, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Aldemir Martins e Carlos Prado. Anos e anos mais tarde, criou uma galeria de arte em sua loja, onde Pinky Wainer fez sua primeira exposição.
O closet dele sempre rendia matérias de revistas. Transbordava Gucci, que, às vezes, vestia da cabeça aos pés. Ternos azul-marinho e óculos, suas marcas registradas. Sua elegância sempre foi propagada em verso e prosa. Sagitariano, com rodinha nos pés, não parava: projetos mil e viagens, quatro vezes por ano, ao exterior.
Alto, 1,87 metro – sempre bronzeado e trepidante – arrebatava corações, mas teve em Walter Zaniratto um bom companheiro por mais de uma década. Em português bem claro: Aparício era um gatão em qualquer idade, um homem ao estilo de Cary Grant e Sean Connery – bonito, independentemente da estação da vida.
Não freqüentava a noite gay, não gostava e tampouco sabia seus códigos, malícias e roubadas. Numa noite resolveu ir à boate Rave, na rua Bela Cintra, a mais badalada da cena homossexual na época. Saiu acompanhado. Bem mal acompanhado. Além do rapaz, um casal os esperava do lado de fora da boate.
Ele foi encontrado com 97 facadas e tesouradas num terreno baldio em São Bernardo do Campo, em agosto de 1992. Os assassinos foram presos em menos de dez dias – um deles já está morto – e a amizade de Aparício com o poder e a imprensa contribuiu muito para o desfecho rápido do caso. Sua morte brutal horrorizou o hi-society paulistano. Seu corpo foi velado no MAM."

Por Renato Fernandes, do RJ (o link clicando o título)

desmemória

Após transcrever (abaixo) a crônica do Ruy Castro, deparei-me com matéria na mesma FSP, comentando resultado de pesquisa apontanto como resultado da deficiência no ensino de história que “oito em cada dez brasileiros nunca ouviram falar do AI-5”. Dos 18% que dizem conhecer a sigla, só um terço sabe relacioná-la ao ato da ditadura.
Editado há 40 anos pelo general Costa e Silva, o Ato Institucional nº 5. foi o principal símbolo da ditadura militar: autorizava o Executivo a fechar o Congresso, cassar mandatos, demitir e aposentar funcionários de todos os poderes. O governo podia legislar sobre tudo. Suas decisões não podiam ser contestadas judicialmente, as prisões eram arbitrárias. Foram cassadas garantias constitucionais como as do habeas corpus. Em dez anos, o AI-5 serviu de base para a cassação de mais de cem congressistas e a censura atingiu cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e 500 canções.
O pior é que a população, que mal lê jornal, continua muito desinformada sobre questões políticas. Não que sirva de consolo, mas consta que isto não se passa apenas no Brasil. Segundo a mesma matéria, foi feita uma pesquisa com jovens da Alemanha, e a grande maioria nunca tinha ouvido falar de Hitler!
Clique no título para ler mais.

O coração como arma

Quem tem uma certa idade lembra (com vergonha, trauma e medo) do fechamento do Congresso, da edição do AI-5 e dos funestos desdobramentos. Era 12 de dezembro de 1968.
Sobre o Paulo Francis, postei no marcador "gente". Sempre fui sua fã e admiradora. Ele era o tipo de pessoa a quem se ama ou odeia. Ninguém ficava indiferente ao que ele pensava e dizia, nem a maneira como o fazia. À medida que o tempo passa têm se revelado facetas do Francis que o tornam ainda mais interessante!

O texto abaixo é do Ruy Castro na FSP de hoje:
"Na noite de 13 de dezembro de 1968, Paulo Francis tomou um avião em Nova York e mandou tocar para o Rio, onde morava. Enquanto ele lia Geoffrey Barraclough a 30 mil pés, os militares faziam horrores por aqui -fechado o Congresso e abolido o habeas corpus, estavam indo buscar em casa quem eles consideravam perigosos para o regime: políticos, editores, poetas, repórteres, caricaturistas.
Na manhã de 14, ao pousar no Galeão e aberta a porta do avião, Francis teria posto o pé na escadinha e, de nariz em pé, perguntado sorridente, para ninguém em particular: "E aí, como se comportou o Brasil na minha ausência?". Em resposta, mãos truculentas o teriam algemado e levado preso para o quartel. Segundo outra versão, mais correta, Francis só foi preso no dia seguinte, 15, de pijama, em seu apartamento em Ipanema.
Hipótese também mais heróica, porque, já sabendo da prisão de tantos de seus amigos, poderia muito bem ter ido se esconder em um sítio na roça. Mas preferiu ficar e ver no que dava. Deu cana, da qual só foi libertado no Natal, por interferência de outro amigo, ligado ao general Sizeno Sarmento.
Eu próprio, julgando-me um alvo, também andei escondido por alguns dias. Mas saí da toca e estive com Francis logo depois que o soltaram. Perguntei-lhe: "Foi torturado?". E ele: "Barbaramente. O carcereiro escutava Vandeca [a cantora Wanderléa] pelo radinho de pilha o dia inteiro".
Por várias razões, é Francis que me vem à cabeça em todo aniversário do AI-5. Mas, desta vez, há mais um motivo: o belo documentário "Caro Francis", que acaba de sair, produzido por Nelson Hoineff. É o retrato de um homem cuja principal arma retórica não era a inteligência, a mordacidade ou o destempero verbal, mas -agora ficou claro-o coração
".

dezembro 11, 2008

Zoé e o demônio do meio-dia

--------------------------------------------------------------------------------
O demônio do meio-dia é o tédio moderno, efeito de um mundo com poucos mistérios
--------------------------------------------------------------------------------
DESDE PEQUENA, Zoé, 9 anos, adora filmes e histórias de terror. Seus pedidos espantam a moça da locadora de DVDs, que, provavelmente, duvida da sanidade mental dos pais.
De fato, Zoé assiste com prazer a filmes que, às vezes, deixam insones seu irmão mais velho, suas baby-sitters e mesmo sua mãe. Talvez Zoé seja cinéfila a ponto de assistir aos ditos filmes com o distanciamento de um crítico dos "Cahiers du Cinéma". Ela desmontaria os "truques" destinados a produzir espanto nos espectadores e, com isso, os filmes lhe proporcionariam uma experiência parecida com a de um bom exorcista: ela venceria o mal desvendando seus estratagemas.
Mas a paixão de Zoé pelas histórias de terror tem outra explicação possível, que me apareceu quando Zoé quis que sua festa de aniversário fosse o cenário de um filme.
Com a ajuda de um cineasta amigo da família, Zoé e seus convidados foram co-autores e protagonistas de um curta que, claro, é a história do aniversário de uma menina, durante o qual um monstro diabólico e sedento de sangue etc.
Graças ao filme (que, aliás, é bem legal) pensei o seguinte: talvez Zoé queira sobretudo convencer-se de que sempre, mesmo no dia ensolarado de seu aniversário, há zonas de sombra, por onde andam seres repugnantes e perigosos. Alguém perguntará: "Mas por que ela gostaria de pensar assim?"Pois é, eu acho que essa idéia é, para qualquer um, uma fonte de alívio. Explico por quê.
O Salmo 90 (na numeração Clementina) expressa a esperança de que Deus nos guarde tanto das abominações "que circulam pelas trevas" quanto "do demônio do meio-dia". Sobre o tal demônio do meio-dia muito foi escrito e dito: diferente dos diabos que se escondem nos cantos escuros, o que será esse malefício que nos espreita justamente quando o sol está no zênite e o mundo nos aparece sem sombras?
Uma leitura moderna diz que o demônio do meio-dia não é um bicho do inferno, mas é um sofrimento insidioso, específico de uma época em que faltam cantos escuros.
Ele é nossa própria tristeza, a depressão e o tédio produzidos por um mundo com poucas sombras e poucos mistérios.
Em outras palavras, as luzes da razão e da ciência acabaram com aquele sentido que só uma transcendência (divina ou diabólica, benéfica ou maléfica, tanto faz) podia conferir à vida. Por excesso de luz, em suma, o mundo perdeu seus horrores, mas também seu encanto; com isso, é preciso que Deus nos proteja do demônio do meio-dia, ou seja, do tédio e da tristeza.
Ao inventar cantos escuros e ao povoá-los de "troços" inquietantes, Zoé está se protegendo contra o demônio do meio-dia -com toda razão, pois esse é provavelmente o mais pernicioso de todos. Muito melhor se deparar com Freddy Kruger do que não achar graça no mundo.
"Filosofia do Tédio", de Lars Svenden (Zahar), é uma brilhante meditação sobre a dificuldade moderna em nos interessarmos pela vida, uma vez que ela não é mais justificada pela palavra divina ou por nossa luta heróica contra os "troços" que circulam pelas trevas. Para Svenden, contra o tédio, ainda não inventamos nada melhor do que o remédio do Romantismo: uma mistura de anestesia (drogas lícitas e ilícitas) com transgressões que deveriam provar que estamos vivendo grandes aventuras e experiências "incríveis". Se for para escolher, prefiro os esforços de Zoé para repovoar o mundo de monstros e demônios.
Mas há uma terceira via. Li, nestes dias, "O Olho da Rua", de Eliane Brum (Globo). Brum, repórter especial da revista "Época", reúne dez grandes reportagens escritas entre 2000 e 2008. Fazia tempo que um livro não me tocava tanto. Que Brum fale das parteiras do Amapá, da guerra em Roraima, dos velhos da casa São Luiz para Velhice, ou mesmo que ela acompanhe o fim da vida de uma paciente terminal, seu texto é uma verdadeira alegria - pois ele nos lembra, simplesmente, que o mundo importa, que ele vale a pena. Como ela consegue?
O tédio moderno é uma forma de arrogância: a vida é chata porque nós seríamos maiores que sua suposta trivialidade insossa; tendemos a menosprezar o cenário onde nos toca viver, como se ele fosse demasiado banal para nossas façanhas. Pois bem, o segredo de Brum é o oposto disso, é uma extraordinária humildade diante do que existe.
Quando Zoé cansar de inventar monstros para dar sentido ao mundo e à vida, vou lhe sugerir o livro de Eliane Brum.

CONTARDO CALLIGARIS na FSP

E R U D I T U


Recebi do meu amigo James, que é cantor na Eruditu, o convite para o espatáculo que acontecerá no Guairão, dias 16 e 17, "Natal enfim Natal". Reunirá 30 músicos da Eruditu Philharmonic Orchestra, o coral Tessitura Plena Singers e atores que farão narrativas. No repertório, obras clássicas tradicionais de Natal: Glória & Cum Sancto Spiritu, de Vivaldi; Hallelujah Chorus, de Handel; Jesus Cristo Alegria do Homens, de Bach; Ave Maria, de Gounod, The Nun's Chorus, de Strauss II; Jingle Bells. (Tradiconais Medleys – Handel) Jingle Bells - Adeste Fideles – Joy To The World; Hark! The Herald Angels Sing; Deck To The Hall; Silent Night; We Wish You A Mery Christmas. White Christmas; Carol Of The Bells; (Brasileiras) Vira, de Vila Lobos; Já Vem Chegando o Natal, de Melara. (Vocal a capela) Canção Alegre de Natal; Natal Nordestino. (Instrumental) Z. Narodzenia Pana - Scherzo; Arrival of teh Queen of Sheba, Hendel; Divertissement em Re, Mozart e Concerto em La, Vivaldi.
Quem assistiu ao ensaio me disse que está lindissimo!

dezembro 10, 2008

N A T A L - momento de reflexão


sempre tem alguém em situação pior do que a nossa...

Coroas

Coroas – Corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade é o novo livro da antropóloga Mirian Goldenberg.
Abaixo um trecho de sua entrevista no blog máquina de escrever do Luciano Trigo que pode ser lida na íntegra clicando no título da postagem.
"Simbolicamente, no Brasil, as mulheres envelhecem muito mais cedo do que os homens. Quanto mais velhas, menos chances no mercado afetivo-sexual. Por sua vez, quanto mais velho, mais o homem pode escolher no mesmo mercado. Como mostro no livro Coroas, numa cultura em que ter um marido é um verdadeiro capital - o que chamo de “capital marital” – envelhecer, para a mulher, é um momento de perdas. Elas se queixam de dois problemas: falta de homem e decadência do corpo. Já os homens se preocupam muito menos com a aparência e mais com a perda de poder e de prestígio social. Eu encontrei três tipos de discursos femininos, que classifiquei como de falta, invisibilidade e aposentadoria do mercado afetivo-sexual. Eles podem ser vistos como uma postura de vitimização das mulheres nesta faixa etária, que apontam, predominantemente, as perdas, os medos e as dificuldades associadas ao envelhecimento. Nesse sentido, numa cultura em que o corpo é outro importante capital, talvez o mais importante de todos, o processo de envelhecimento pode ser vivido como um momento de importantes perdas, especialmente de capital físico. Há muitas mulheres que estão começando a se mutilar aos 40 ou 50 anos para atender a uma cultura que impõe isso. A cobrança aqui é diferente da que acontece na Alemanha, por exemplo. Lá, a questão é por que fazer isso com o próprio corpo. Aqui, há uma obrigação de fazer. As escolhas das mulheres brasileiras são muito mais limitadas do que as escolhas de uma mulher alemã. Ninguém diz que uma alemã é uma fracassada porque ela não se casou ou não teve filhos. É isso que eu chamo de miséria subjetiva: aceitar a invisibilidade que é imposta à mulher que envelhece".

Decálogo fashion

Hoje é aquele dia da semana reservado (quando possível) para "levezas" que aqui têm significado usar o marcador futilidades. Nem sempre tão fúteis. Esta, por exemplo, vem da revista da Le Lis Blanc (aquela boutique cheirosa que tem em todos os shoppings). É uma citação de Louise Wilson (diretora do Saint Martins College of Art and Design, de Londres) apresentando o seu decálogo sobre o mundo fashion. :
1. Incomodar, provocar, divertir e envolver

2. Está errado estar correto. Os corretos são chatos

3. Criatividade é o oposto da experiência

4. É preciso correr riscos

5. Adeus às referências

6. Criar é uma tortura

7. Uma pessoa precisa inspirar pelo que ela é

8. Não se levar muito a sério

9. Fracasse, fracasse, como dizia Samuel Beckett'

10. O que começa errado tem mais chance de dar certo


Seriam tais regras aplicáveis somente ao mundo fashion?

HAPPY-GO-LUCKY


Que eu adoro cinema todo mundo sabe. Falar de cinema com quem também gosta é um desdobramento deste prazer. Ontem, no "frescobol" que joguei com o Fer, volta e meia, estávamos falando de algum filme. Sempre registrei o que leio ou ouço sobre filmes para não esquecer de assistir. O que fazia em qualquer lugar e acabava perdendo, agora compartilho com os amigos aqui, trago o trailer, algum comentário...
Nem todo mundo está encarando, com facilidade, sair de casa, enfrentar trânsito/estacionamento/fila, sem saber o que vai ver. Outros me escrevem contando que, simplesmente, o cinema de sua cidade fechou e que tem "baixado"(!?) filmes recomendados aqui no blog.
Este pode não ser "o filme" (como ressalvou o meu amigo), mas é muito provável que seja interessante. As suas dicas sempre são boas!
O nome do filme HAPPY-GO-LUCKY - não sei se já tem título em portugues - é uma expressão idiomática britânica que descreve a pessoa que passa pela vida sem preocupação, sem problemas, como se vivesse no melhor dos mundos.
A personagem Poppy é uma professora solteira que vive em Londres e que nunca se deixar contagiar pelo mau-humor de seu diretor nem pela sua dominadora professora de flamenco e muito menos por sua irmã, grávida e infeliz. Sempre vestida de cores berrantes, sacolas friques, brincos vermelhões e botas de pele de cobra, ela anda por Londres como quem salta por campos floridos. E quando lhe roubam a bicicleta (o que acontece no início do filme), o máximo de sua reação é dizer: “Ora bolas. Nem tive tempo de me despedir dela.”
Com este perfil Poppy tem tudo para nos irritar ("quem é que aguenta uma pessoa que nunca se chateia com nada?"). Acontece que esta aparente cabeça no ar mascara os seus pés bem assentados no chão e , na verdade, não passa de uma estratégia de sobrevivência tão válida como qualquer outra: aproveitar cada dia, ver sempre o lado bom das coisas, deixar-se deslumbrar pelos pequenos nadas do quotidiano...
O que qualquer um de nós devia fazer.
Do site CINERAMA:
“Happy-Go-Lucky” é também um ensaio sobre a educação e a aprendizagem, de como uns usam o conhecimento para se libertarem e outros acorrentam as suas mentes com regras e falsas expectativas. Ao contrário de ambas as suas irmãs (Kate O'Flynn e Caroline Martin), Poppy recusa-se a que a vida a derrube ou a deprima, elevando-se acima do cinismo que o sorriso da sua companheira de casa Zoe (Alexis Zegerman) já não consegue esconder. Num mundo onde os pais cada vez mais abdicam das suas responsabilidades como educadores, “Happy-Go-Lucky” fala ainda da responsabilidade dos professores em identificar as dificuldades emocionais dos seus alunos.
“Happy-Go-Lucky” contraria a miséria pessoal que habitualmente habita o universo de Mike Leigh e é, possivelmente, a sua obra mais refrescante (colorida da forte paleta da fotografia de Dick Pope). Felizmente, isso não impediu que o seu trabalho com os actores (“explorados” em workshops de improvisação) mantivesse uma caracterização detalhada. Sally Hawkins (“Cassandra’s Dream”), vencedora do Urso de Prata da última edição do Festival de Berlim, vai de uma exuberância que começa por ser estranha, porque atípica, passando por uma fase quase irritante (quem é que aguenta uma pessoa que nunca se chateia com nada?) e terminando por se adentrar e contagiar-nos com a vontade de ser também a assim (a expressão ‘lust for life’ é incontornável).
Talvez num mundo cheio de tragédias, numa vida onde a sorte não tem lugar, seja possível manter-se a inocência, a abertura aos outros, a compaixão, tudo isso sem ter de pedir desculpa por quem somos. Um filme sobre a aprendizagem a vários níveis. Porque ser feliz também é disciplina".