Por uma nova lista de clássicos da MPB!"Meu caro Zé Renato, eu acabei de ouvir seu disco sobre a Jovem Guarda e, se você me perdoa a marra, era exatamente o que eu estava dizendo pro pessoal aqui no botequim do Alfredinho.
Chegou a hora de mexer nos clássicos, nos standards, na listas das canções essenciais da música popular brasileira. Mudar o disco, tá compreendendo? Ouvir o lado B.
Descobrir os prazeres que estão escondidos nesta velha existência de artistas geniais e dar uma rabanada aos ouvidos, que eles estão loucos por um bom ruído na informação.
Ninguém aqui é maluco de achar "Carinhoso", "Águas de março" e "João Valentão" canções que devam ser esquecidas. Tom levantou a tampa do piano e, olho fito na menina que passava, fez um país. Dorival tirou o violão da capa e encheu o tal país com baianas de acarajé namorando brigões de camisa listrada.
Baluartes. Pixinguinha já tinha feito o som para essa gente toda fazer o footing ao redor do coreto do Jardim do Méier.
Cada um deles inventou uma oração que nos identifica, decifra e reinventa, melhores, o coração batendo feliz quando nos vemos tão bem retratados.
Mas é aí, meu bom Zé Renato, é aí que eu te reconheço nas proximidades do meu balcão e concordo. Está na hora de balançar esse abacateiro.
Acatarmos novas frutas delicadas, que façam todo mundo dizer o óbvio: "Caraca! Como é que eu não tinha percebido essa maraviha antes!!!???" Eu ouvi seu disco, Zé, no mesmo instante em que folheava o número especial da revista "Bravo" com "100 canções essenciais da MPB".
Lá estavam os sabichões de sempre com medo de avançar sobre os ídolos dantanho. Votaram no que não tem erro, do "Carinhoso" ao "Mundo é um moinho", com uma passagem de leve pelo "Alegria, alegria", para não ficarem com cara de tão dogmáticos assim.
Queriam ficar bem na foto de sempre, essa fraqueza tão humana, sem saber que essencial mesmo, na vida e na música, é renovar o ritmo.
Inventar novos requebros e admirações.
Por que a resistência em listar uma marchinha de carnaval sequer entre as cem músicas essenciais da MPB — ou ainda se pauta a qualidade da arte pela quantidade de tristeza que ela projeta? Qual o preconceito que risca do mapa toda a produção desbragadamente romântica dos grandes cantores populares — ou para sempre será confirmado que fazer sucesso no Brasil é sinal de mau gosto? Se o paladar muda e agora descobre que a velha quinoa dá salada; se a arquitetura tem a humildade de permitir os espaços que ela havia roubado e derruba as paredes nos lofts — por que a música brasileira não remexe mais nas suas verdades para, vamos combinar, hein!, sair da chatice em que está? Foi aí, grande Zé, eu estava ouvindo as pepitas que você foi pegar no baú, sempre execrado, sempre amaldiçoado como tolinho, dos caras da Jovem Guarda — foi aí que tudo fez mais sentido.
Justo você, autor de um inesquecível CD apenas com canções de Silvio Caldas, um desses cantores antigos que bastava colocar os dentes numa letra e ela virava um filé clássico.
Justo você me deu a certeza de que eu não estou maluco — e eis o ponto, Zé. Está na hora de ouvir tudo de novo. Aproveitar que a indústria não sabe mais o que fazer com a música, e consagrar novos clássicos. Agradecer todo esse tempo entretido com "Aquarela do Brasil", "Último desejo" e "Asa branca", delícias que ninguem quer esquecer, mas rearrumar a hierarquia da canção brasileira. Botar outros cânones na roda.
As listas do cinema só nos anos 60 colocaram o "Cidadão Kane", de 1941, como o primeiro colocado dos seus dez mais de todos tempos — e hoje nenhum dos novos críticos é capaz de repetir a indicação. Os jovens dos "bonequinhos" inventaram Coppola, Kubrick e Spielberg, certos de que as cabeças mudam, os penteados e os clássicos também. Na MPB, desde que Caetano fez o trabalho sujo de descobrir pérolas, corações maternos, entre a lavagem servida aos porcos, ninguém muda de opinião. Bom mesmo é Pixinguinha, Tom e Noel — o resto joga na segunda divisão.
Você, bom Zé, fez a sua parte. Desenhou em arranjos sofisticados, como se fossem os clássicos que merecem ser, canções belíssimas como "Com muito amor e carinho" e "Eu não sabia que você existia". Ficou excepcional.
Um trabalho de quem parte para as músicas com ouvidos limpos por cotonetes da marca "Sem Preconceito". Estou contigo e não abro.
A MPB estava precisando de um disco assim. Dizendo o contrário das listas de canções essenciais. Propondo outras. O mesmo cara que, dois CDs atrás, fez um inteirinho só com Zé Kéti, chega agora e, tremendão, coloca Ronnie Vonn, Martinha, Erasmo e Roberto no mesmo patamar. Tem que ser macho.
Vamos ver se os críticos entendem, Zé, e na próxima listagem do que é essencial na MPB perdem a vergonha. Se ponham ao respeito.
Onde já se viu uma lista de cem mais canções brasileiras sem uma marchinha do Lalá, sem outra ainda do Braguinha, sem um escurinho sequer do Geraldo Pereira, sem um cachorro que late do Waldick, sem uma aquarela que reluz do Silas, sem a "Verdade" do repertório do Zeca e — onde já se viu tamanho despautério — sem Roberto mandando tudo pro inferno?! Eles estão surdos, Zé, mas eu sou todo ouvidos ao seu belo disco".
Joaquim Ferreira dos Santos
(Jornal O Globo, 15/12/2008)







