dezembro 14, 2008

Longevidade funcional


Deve fazer umas duas semanas que li este texto, na FSP, cujo título é Claro ou escuro. À falta de tempo naquele momento, guardei para voltar a ele com mais vagar. Relendo-o agora, achei interessante ao ponto de transcrevê-lo aqui. A autoria é de Wilson Jacob Filho, prof.da USP, geriatra no HC/SP e autor do livro "Atividade Física e Envelhecimento Saudável" .
A modificação do título na postagem foi proposital, a fim de permitir o acesso dos que pesquisam o tema no google.

"Recentemente, deparei-me com uma frase que perseguiu-me até que eu conseguisse fazer uma reflexão mais profunda: "Mamãe, para onde vai o escuro quando você acende a luz?" Proferida pelo pequeno Max Grinberg há quase seis décadas, consta do livro do médico e dramaturgo Pedro Bloch ("Criança Diz Cada Uma!", 1963) e também do memorial acadêmico de seu autor, hoje professor de medicina.
Tentei obter sua opinião atual sobre a questão formulada na infância, mas a situação em que nos encontrávamos não permitiu maiores divagações.
Não consegui esperar outra oportunidade. Ampliei o sentido dos dois termos principais da frase a fim de entender as entrelinhas dessa oposição.
O escuro esconde o perigo, a ameaça, aquilo que pode fazer mal sem boa possibilidade de defesa. No escuro, nos tornamos inseguros, dependentes.
Como sinônimo, há o obscuro, que também significa desconhecido, sombrio. Natural, portanto, que o obscurantismo seja a doutrina que se opõe à divulgação do conhecimento.
A luz, por sua vez, além das suas definições físicas, é usada como sinônimo de inteligência ou cultura, mais especificamente à divulgação de informações de interesse popular.
Compreensível, portanto, que tenha sido denominado de iluminismo o movimento francês do século 18 que propôs maior esclarecimento do ser humano.
Não foi difícil transferir essa condição de desconhecimento, muitas vezes proposital, para a necessidade de uma sistematização do saber nos conceitos e preconceitos que se relacionam ao envelhecimento.
Inacreditável como esse fenômeno natural, comum a praticamente todos os seres vivos, seja ainda tão desconhecido e estigmatizado, uma vez que essa evolução está sendo vivenciada por um número cada vez maior de pessoas e por tempo cada vez mais prolongado.
Não há nenhum motivo para que o idoso continue sendo considerado, fundamentalmente, um grande acumulador de doenças e fadado obrigatoriamente à decrepitude.
Os obscurantistas propõem a inexorabilidade da perda funcional com o avançar da idade e não aceitam a possibilidade do envelhecimento saudável. Criticam, com isso, a importância dos modernos conhecimentos e ações geriátricas e gerontológicas. Curiosamente, divulgam essas idéias mesmo quando em idade mais avançada e demonstrando plenas capacidades funcionais. Em verdade, acreditam que "velhos são os outros".
Mesmo assim, não há por que temer o escuro. Haveremos de ter a curiosidade e a persistência do pequeno Max e entender que, na obscuridade por vezes intencional que cerca o envelhecer, muitas luzes já se acenderam e outras tantas estão por fazê-lo cada vez mais rápido.
Nem por isso, porém, o escuro vai acabar. Simplesmente mudará de lugar, à espera que o conhecimento lá chegue para afastá-lo um pouco mais.
Felizmente, cada vez mais gente está acendendo suas luzes e iluminando suas expectativas de uma crescente longevidade funcional".

Não, não e não


Se eu tivesse que fazer uma avaliação dessas que se costuma fazer a cada fim de ano, diria que nesse que termina dei início a prática intensiva, sem dor, culpa nem piedade, do NÃO!
Pensava nisso, quando ontem me deparo com a matéria da Vida Simples a respeito do grande não :"Ter firmeza de atitude e saber negar é uma arte que pode transformar sua vida."
E como!
Um não aqui outro ali, a gente vai se reconstruindo e se sentindo muito bem. Não fazer nem ir para onde não quer, com quem não quer, é só uma questão de começar. Depois não se quer mais abrir mão dessa delícia. Venho reafirmando para os mais próximos que sempre que estiver ao lado deles ou fazendo alguma coisa por, ou para eles, é por puro gosto e prazer. A fim de que saibam que não fosse por isso, nada daquilo aconteceria.
Mas precisa treino, não pode descuidar. Se não praticar, quando menos se espera se está caindo na tentação mais fácil de "ser legal".
Cada um tem as suas razões para achar que ceder, ir, concordar dá menos trabalho do que dizer não quero, não vou, não concordo. Já tive as minhas dificuldades nesta área. E até psoríase!
Afinal, ninguém quer pagar o preço. Não mais ser visto como “legal”, é só um deles. Os seus amigos (as) se surpreendem: o que estaria se passando? será só comigo?
Até perceberem que o seu NÃO não deve ser intrepretado como agressividade leva um tempo. Para alguns pode ser definitivo.
Se, justificar os raros NÃO! deixar de ser a sua prática, saiba que isto implica alguns riscos de perdas que podem não ser apenas imaginárias. Mas, comparadas aos sapos que não mais serão engolidos, o saldo pode ser positivo.
Discordar, logo de cara, no começo da conversa, não sorrir quando se estar a ponto de explodir, mudar de opinião quantas vezes quiser, não se colocar na defensiva, não tem preço.
Ser muito legal o tempo todo, acaba não sendo legal!

dezembro 13, 2008

R A S T R O

Sob o título de Presas Fáceis , Joyce Pascowitch (a revista) traz relatos de casos de pessoas de bem que não sairam em boa companhia...
Dentre eles Aparício Basílio da Silva "Um gentleman"
"O segredo é surgir, sorrir e sumir”, este era o ditado de Aparício Basílio da Silva, um dos homens mais elegantes, talentosos e antenados que São Paulo já teve. Não era raro vê-lo em mais de uma festa na mesma noite – e nas colunas sociais dos dias seguintes figurava sempre. Suas festas, antológicas. E o apartamento tríplex na rua da Consolação, entre a Oscar Freire e a Estados Unidos, de extremo bom gosto. Sabia compor um mix de convidados como ninguém. Em uma mesma ocasião podia-se ver reunidos Lucía Curia, Fernando Henrique Cardoso, Paulo Malzoni, Tonia Carrero, José Duarte Aguiar, Severo Gomes, Vinicius de Moraes, Christiana Neves da Rocha, Rosita Thomaz Lopes, Tarso de Castro e Consuelo Leandro. Todos entrosadíssimos.
Quem foi Aparício? Bom, para os poucos que não sabem, Aparício Basílio da Silva nasceu em São Paulo, no dia 12 de dezembro de 1935, em casa, na rua Sena Madureira. Filho mais velho do senhor Antonio, corretor de imóveis, e de Virgília, dona de casa e cozinheira de mão cheia, fez o primário no Assis Pacheco e seguiu para o Caetano de Campos. Tinha o maior xodó pela irmã temporã, Maria Helena, oito anos mais nova. Artes, adorava, e, danado, aos 15 anos foi monitor da primeira Bienal, em 1951. Aprendeu inglês sozinho e chegou – anos mais tarde – a publicar mais de um livro nessa língua.
Além disso, era escultor, pintor, crítico de arte e estilista. Com uma sócia, foi um dos primeiros a ter uma butique, a Rastro, na rua Augusta. A loja virou moda e só era freqüentada pelos “prafrentex” – os modernos de hoje. Ao fim do dia, todos os amigos iam para lá. Alguns anos depois, realizou seu maior sonho: produzir uma colônia brasileira sofisticada, que levou o nome da butique. Surgia então a Rastro, cujo frasco já era arrojado e a fragrância sofisticada. Fez fortuna. Um verdadeiro self-made man.
Aparício também deu um up, mais do que necessário, ao Museu de Arte Moderna, MAM, quando assumiu a presidência do museu em 1983, cargo em que ficou até 1992. Homem de visão, na mocidade, quando viu que a pintura não iria lhe conceder o que queria, tornou-se um colecionador. Nas paredes do apartamento, Volpi, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Aldemir Martins e Carlos Prado. Anos e anos mais tarde, criou uma galeria de arte em sua loja, onde Pinky Wainer fez sua primeira exposição.
O closet dele sempre rendia matérias de revistas. Transbordava Gucci, que, às vezes, vestia da cabeça aos pés. Ternos azul-marinho e óculos, suas marcas registradas. Sua elegância sempre foi propagada em verso e prosa. Sagitariano, com rodinha nos pés, não parava: projetos mil e viagens, quatro vezes por ano, ao exterior.
Alto, 1,87 metro – sempre bronzeado e trepidante – arrebatava corações, mas teve em Walter Zaniratto um bom companheiro por mais de uma década. Em português bem claro: Aparício era um gatão em qualquer idade, um homem ao estilo de Cary Grant e Sean Connery – bonito, independentemente da estação da vida.
Não freqüentava a noite gay, não gostava e tampouco sabia seus códigos, malícias e roubadas. Numa noite resolveu ir à boate Rave, na rua Bela Cintra, a mais badalada da cena homossexual na época. Saiu acompanhado. Bem mal acompanhado. Além do rapaz, um casal os esperava do lado de fora da boate.
Ele foi encontrado com 97 facadas e tesouradas num terreno baldio em São Bernardo do Campo, em agosto de 1992. Os assassinos foram presos em menos de dez dias – um deles já está morto – e a amizade de Aparício com o poder e a imprensa contribuiu muito para o desfecho rápido do caso. Sua morte brutal horrorizou o hi-society paulistano. Seu corpo foi velado no MAM."

Por Renato Fernandes, do RJ (o link clicando o título)

desmemória

Após transcrever (abaixo) a crônica do Ruy Castro, deparei-me com matéria na mesma FSP, comentando resultado de pesquisa apontanto como resultado da deficiência no ensino de história que “oito em cada dez brasileiros nunca ouviram falar do AI-5”. Dos 18% que dizem conhecer a sigla, só um terço sabe relacioná-la ao ato da ditadura.
Editado há 40 anos pelo general Costa e Silva, o Ato Institucional nº 5. foi o principal símbolo da ditadura militar: autorizava o Executivo a fechar o Congresso, cassar mandatos, demitir e aposentar funcionários de todos os poderes. O governo podia legislar sobre tudo. Suas decisões não podiam ser contestadas judicialmente, as prisões eram arbitrárias. Foram cassadas garantias constitucionais como as do habeas corpus. Em dez anos, o AI-5 serviu de base para a cassação de mais de cem congressistas e a censura atingiu cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e 500 canções.
O pior é que a população, que mal lê jornal, continua muito desinformada sobre questões políticas. Não que sirva de consolo, mas consta que isto não se passa apenas no Brasil. Segundo a mesma matéria, foi feita uma pesquisa com jovens da Alemanha, e a grande maioria nunca tinha ouvido falar de Hitler!
Clique no título para ler mais.

O coração como arma

Quem tem uma certa idade lembra (com vergonha, trauma e medo) do fechamento do Congresso, da edição do AI-5 e dos funestos desdobramentos. Era 12 de dezembro de 1968.
Sobre o Paulo Francis, postei no marcador "gente". Sempre fui sua fã e admiradora. Ele era o tipo de pessoa a quem se ama ou odeia. Ninguém ficava indiferente ao que ele pensava e dizia, nem a maneira como o fazia. À medida que o tempo passa têm se revelado facetas do Francis que o tornam ainda mais interessante!

O texto abaixo é do Ruy Castro na FSP de hoje:
"Na noite de 13 de dezembro de 1968, Paulo Francis tomou um avião em Nova York e mandou tocar para o Rio, onde morava. Enquanto ele lia Geoffrey Barraclough a 30 mil pés, os militares faziam horrores por aqui -fechado o Congresso e abolido o habeas corpus, estavam indo buscar em casa quem eles consideravam perigosos para o regime: políticos, editores, poetas, repórteres, caricaturistas.
Na manhã de 14, ao pousar no Galeão e aberta a porta do avião, Francis teria posto o pé na escadinha e, de nariz em pé, perguntado sorridente, para ninguém em particular: "E aí, como se comportou o Brasil na minha ausência?". Em resposta, mãos truculentas o teriam algemado e levado preso para o quartel. Segundo outra versão, mais correta, Francis só foi preso no dia seguinte, 15, de pijama, em seu apartamento em Ipanema.
Hipótese também mais heróica, porque, já sabendo da prisão de tantos de seus amigos, poderia muito bem ter ido se esconder em um sítio na roça. Mas preferiu ficar e ver no que dava. Deu cana, da qual só foi libertado no Natal, por interferência de outro amigo, ligado ao general Sizeno Sarmento.
Eu próprio, julgando-me um alvo, também andei escondido por alguns dias. Mas saí da toca e estive com Francis logo depois que o soltaram. Perguntei-lhe: "Foi torturado?". E ele: "Barbaramente. O carcereiro escutava Vandeca [a cantora Wanderléa] pelo radinho de pilha o dia inteiro".
Por várias razões, é Francis que me vem à cabeça em todo aniversário do AI-5. Mas, desta vez, há mais um motivo: o belo documentário "Caro Francis", que acaba de sair, produzido por Nelson Hoineff. É o retrato de um homem cuja principal arma retórica não era a inteligência, a mordacidade ou o destempero verbal, mas -agora ficou claro-o coração
".

dezembro 11, 2008

Zoé e o demônio do meio-dia

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O demônio do meio-dia é o tédio moderno, efeito de um mundo com poucos mistérios
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DESDE PEQUENA, Zoé, 9 anos, adora filmes e histórias de terror. Seus pedidos espantam a moça da locadora de DVDs, que, provavelmente, duvida da sanidade mental dos pais.
De fato, Zoé assiste com prazer a filmes que, às vezes, deixam insones seu irmão mais velho, suas baby-sitters e mesmo sua mãe. Talvez Zoé seja cinéfila a ponto de assistir aos ditos filmes com o distanciamento de um crítico dos "Cahiers du Cinéma". Ela desmontaria os "truques" destinados a produzir espanto nos espectadores e, com isso, os filmes lhe proporcionariam uma experiência parecida com a de um bom exorcista: ela venceria o mal desvendando seus estratagemas.
Mas a paixão de Zoé pelas histórias de terror tem outra explicação possível, que me apareceu quando Zoé quis que sua festa de aniversário fosse o cenário de um filme.
Com a ajuda de um cineasta amigo da família, Zoé e seus convidados foram co-autores e protagonistas de um curta que, claro, é a história do aniversário de uma menina, durante o qual um monstro diabólico e sedento de sangue etc.
Graças ao filme (que, aliás, é bem legal) pensei o seguinte: talvez Zoé queira sobretudo convencer-se de que sempre, mesmo no dia ensolarado de seu aniversário, há zonas de sombra, por onde andam seres repugnantes e perigosos. Alguém perguntará: "Mas por que ela gostaria de pensar assim?"Pois é, eu acho que essa idéia é, para qualquer um, uma fonte de alívio. Explico por quê.
O Salmo 90 (na numeração Clementina) expressa a esperança de que Deus nos guarde tanto das abominações "que circulam pelas trevas" quanto "do demônio do meio-dia". Sobre o tal demônio do meio-dia muito foi escrito e dito: diferente dos diabos que se escondem nos cantos escuros, o que será esse malefício que nos espreita justamente quando o sol está no zênite e o mundo nos aparece sem sombras?
Uma leitura moderna diz que o demônio do meio-dia não é um bicho do inferno, mas é um sofrimento insidioso, específico de uma época em que faltam cantos escuros.
Ele é nossa própria tristeza, a depressão e o tédio produzidos por um mundo com poucas sombras e poucos mistérios.
Em outras palavras, as luzes da razão e da ciência acabaram com aquele sentido que só uma transcendência (divina ou diabólica, benéfica ou maléfica, tanto faz) podia conferir à vida. Por excesso de luz, em suma, o mundo perdeu seus horrores, mas também seu encanto; com isso, é preciso que Deus nos proteja do demônio do meio-dia, ou seja, do tédio e da tristeza.
Ao inventar cantos escuros e ao povoá-los de "troços" inquietantes, Zoé está se protegendo contra o demônio do meio-dia -com toda razão, pois esse é provavelmente o mais pernicioso de todos. Muito melhor se deparar com Freddy Kruger do que não achar graça no mundo.
"Filosofia do Tédio", de Lars Svenden (Zahar), é uma brilhante meditação sobre a dificuldade moderna em nos interessarmos pela vida, uma vez que ela não é mais justificada pela palavra divina ou por nossa luta heróica contra os "troços" que circulam pelas trevas. Para Svenden, contra o tédio, ainda não inventamos nada melhor do que o remédio do Romantismo: uma mistura de anestesia (drogas lícitas e ilícitas) com transgressões que deveriam provar que estamos vivendo grandes aventuras e experiências "incríveis". Se for para escolher, prefiro os esforços de Zoé para repovoar o mundo de monstros e demônios.
Mas há uma terceira via. Li, nestes dias, "O Olho da Rua", de Eliane Brum (Globo). Brum, repórter especial da revista "Época", reúne dez grandes reportagens escritas entre 2000 e 2008. Fazia tempo que um livro não me tocava tanto. Que Brum fale das parteiras do Amapá, da guerra em Roraima, dos velhos da casa São Luiz para Velhice, ou mesmo que ela acompanhe o fim da vida de uma paciente terminal, seu texto é uma verdadeira alegria - pois ele nos lembra, simplesmente, que o mundo importa, que ele vale a pena. Como ela consegue?
O tédio moderno é uma forma de arrogância: a vida é chata porque nós seríamos maiores que sua suposta trivialidade insossa; tendemos a menosprezar o cenário onde nos toca viver, como se ele fosse demasiado banal para nossas façanhas. Pois bem, o segredo de Brum é o oposto disso, é uma extraordinária humildade diante do que existe.
Quando Zoé cansar de inventar monstros para dar sentido ao mundo e à vida, vou lhe sugerir o livro de Eliane Brum.

CONTARDO CALLIGARIS na FSP

E R U D I T U


Recebi do meu amigo James, que é cantor na Eruditu, o convite para o espatáculo que acontecerá no Guairão, dias 16 e 17, "Natal enfim Natal". Reunirá 30 músicos da Eruditu Philharmonic Orchestra, o coral Tessitura Plena Singers e atores que farão narrativas. No repertório, obras clássicas tradicionais de Natal: Glória & Cum Sancto Spiritu, de Vivaldi; Hallelujah Chorus, de Handel; Jesus Cristo Alegria do Homens, de Bach; Ave Maria, de Gounod, The Nun's Chorus, de Strauss II; Jingle Bells. (Tradiconais Medleys – Handel) Jingle Bells - Adeste Fideles – Joy To The World; Hark! The Herald Angels Sing; Deck To The Hall; Silent Night; We Wish You A Mery Christmas. White Christmas; Carol Of The Bells; (Brasileiras) Vira, de Vila Lobos; Já Vem Chegando o Natal, de Melara. (Vocal a capela) Canção Alegre de Natal; Natal Nordestino. (Instrumental) Z. Narodzenia Pana - Scherzo; Arrival of teh Queen of Sheba, Hendel; Divertissement em Re, Mozart e Concerto em La, Vivaldi.
Quem assistiu ao ensaio me disse que está lindissimo!

dezembro 10, 2008

N A T A L - momento de reflexão


sempre tem alguém em situação pior do que a nossa...

Coroas

Coroas – Corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade é o novo livro da antropóloga Mirian Goldenberg.
Abaixo um trecho de sua entrevista no blog máquina de escrever do Luciano Trigo que pode ser lida na íntegra clicando no título da postagem.
"Simbolicamente, no Brasil, as mulheres envelhecem muito mais cedo do que os homens. Quanto mais velhas, menos chances no mercado afetivo-sexual. Por sua vez, quanto mais velho, mais o homem pode escolher no mesmo mercado. Como mostro no livro Coroas, numa cultura em que ter um marido é um verdadeiro capital - o que chamo de “capital marital” – envelhecer, para a mulher, é um momento de perdas. Elas se queixam de dois problemas: falta de homem e decadência do corpo. Já os homens se preocupam muito menos com a aparência e mais com a perda de poder e de prestígio social. Eu encontrei três tipos de discursos femininos, que classifiquei como de falta, invisibilidade e aposentadoria do mercado afetivo-sexual. Eles podem ser vistos como uma postura de vitimização das mulheres nesta faixa etária, que apontam, predominantemente, as perdas, os medos e as dificuldades associadas ao envelhecimento. Nesse sentido, numa cultura em que o corpo é outro importante capital, talvez o mais importante de todos, o processo de envelhecimento pode ser vivido como um momento de importantes perdas, especialmente de capital físico. Há muitas mulheres que estão começando a se mutilar aos 40 ou 50 anos para atender a uma cultura que impõe isso. A cobrança aqui é diferente da que acontece na Alemanha, por exemplo. Lá, a questão é por que fazer isso com o próprio corpo. Aqui, há uma obrigação de fazer. As escolhas das mulheres brasileiras são muito mais limitadas do que as escolhas de uma mulher alemã. Ninguém diz que uma alemã é uma fracassada porque ela não se casou ou não teve filhos. É isso que eu chamo de miséria subjetiva: aceitar a invisibilidade que é imposta à mulher que envelhece".

Decálogo fashion

Hoje é aquele dia da semana reservado (quando possível) para "levezas" que aqui têm significado usar o marcador futilidades. Nem sempre tão fúteis. Esta, por exemplo, vem da revista da Le Lis Blanc (aquela boutique cheirosa que tem em todos os shoppings). É uma citação de Louise Wilson (diretora do Saint Martins College of Art and Design, de Londres) apresentando o seu decálogo sobre o mundo fashion. :
1. Incomodar, provocar, divertir e envolver

2. Está errado estar correto. Os corretos são chatos

3. Criatividade é o oposto da experiência

4. É preciso correr riscos

5. Adeus às referências

6. Criar é uma tortura

7. Uma pessoa precisa inspirar pelo que ela é

8. Não se levar muito a sério

9. Fracasse, fracasse, como dizia Samuel Beckett'

10. O que começa errado tem mais chance de dar certo


Seriam tais regras aplicáveis somente ao mundo fashion?

HAPPY-GO-LUCKY


Que eu adoro cinema todo mundo sabe. Falar de cinema com quem também gosta é um desdobramento deste prazer. Ontem, no "frescobol" que joguei com o Fer, volta e meia, estávamos falando de algum filme. Sempre registrei o que leio ou ouço sobre filmes para não esquecer de assistir. O que fazia em qualquer lugar e acabava perdendo, agora compartilho com os amigos aqui, trago o trailer, algum comentário...
Nem todo mundo está encarando, com facilidade, sair de casa, enfrentar trânsito/estacionamento/fila, sem saber o que vai ver. Outros me escrevem contando que, simplesmente, o cinema de sua cidade fechou e que tem "baixado"(!?) filmes recomendados aqui no blog.
Este pode não ser "o filme" (como ressalvou o meu amigo), mas é muito provável que seja interessante. As suas dicas sempre são boas!
O nome do filme HAPPY-GO-LUCKY - não sei se já tem título em portugues - é uma expressão idiomática britânica que descreve a pessoa que passa pela vida sem preocupação, sem problemas, como se vivesse no melhor dos mundos.
A personagem Poppy é uma professora solteira que vive em Londres e que nunca se deixar contagiar pelo mau-humor de seu diretor nem pela sua dominadora professora de flamenco e muito menos por sua irmã, grávida e infeliz. Sempre vestida de cores berrantes, sacolas friques, brincos vermelhões e botas de pele de cobra, ela anda por Londres como quem salta por campos floridos. E quando lhe roubam a bicicleta (o que acontece no início do filme), o máximo de sua reação é dizer: “Ora bolas. Nem tive tempo de me despedir dela.”
Com este perfil Poppy tem tudo para nos irritar ("quem é que aguenta uma pessoa que nunca se chateia com nada?"). Acontece que esta aparente cabeça no ar mascara os seus pés bem assentados no chão e , na verdade, não passa de uma estratégia de sobrevivência tão válida como qualquer outra: aproveitar cada dia, ver sempre o lado bom das coisas, deixar-se deslumbrar pelos pequenos nadas do quotidiano...
O que qualquer um de nós devia fazer.
Do site CINERAMA:
“Happy-Go-Lucky” é também um ensaio sobre a educação e a aprendizagem, de como uns usam o conhecimento para se libertarem e outros acorrentam as suas mentes com regras e falsas expectativas. Ao contrário de ambas as suas irmãs (Kate O'Flynn e Caroline Martin), Poppy recusa-se a que a vida a derrube ou a deprima, elevando-se acima do cinismo que o sorriso da sua companheira de casa Zoe (Alexis Zegerman) já não consegue esconder. Num mundo onde os pais cada vez mais abdicam das suas responsabilidades como educadores, “Happy-Go-Lucky” fala ainda da responsabilidade dos professores em identificar as dificuldades emocionais dos seus alunos.
“Happy-Go-Lucky” contraria a miséria pessoal que habitualmente habita o universo de Mike Leigh e é, possivelmente, a sua obra mais refrescante (colorida da forte paleta da fotografia de Dick Pope). Felizmente, isso não impediu que o seu trabalho com os actores (“explorados” em workshops de improvisação) mantivesse uma caracterização detalhada. Sally Hawkins (“Cassandra’s Dream”), vencedora do Urso de Prata da última edição do Festival de Berlim, vai de uma exuberância que começa por ser estranha, porque atípica, passando por uma fase quase irritante (quem é que aguenta uma pessoa que nunca se chateia com nada?) e terminando por se adentrar e contagiar-nos com a vontade de ser também a assim (a expressão ‘lust for life’ é incontornável).
Talvez num mundo cheio de tragédias, numa vida onde a sorte não tem lugar, seja possível manter-se a inocência, a abertura aos outros, a compaixão, tudo isso sem ter de pedir desculpa por quem somos. Um filme sobre a aprendizagem a vários níveis. Porque ser feliz também é disciplina".

dezembro 09, 2008

FRESCOBOL

Hoje vou à praia com um amigo que veio passar uns dias aqui.
Pensei em várias coisas que pudessem tornar estes seus raros dias de férias agradáveis. Afinal, eles poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo e ele escolheu vir para cá.
Pensando em coisas de que ele gosta, me lembrei de frescobol.Faz algum tempo, não sei qual razão nos levou a desistir das raquetes que ficavam juntas ao guarda-sol e cadeiras de praia esperando o verão que vinha e passava, e ninguém jogava.Acho que foi por isto.
O frescobol seria invenção de brasileiro. Não sei de onde tiraram isto....(vou perguntar a ele se é verdade).
Talvez por ser um jogo em que ninguém marca pontos e que, para ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Ou os dois ganham ou ninguém ganha. Ninguém fica feliz quando o outro erra e o que erra pede desculpas e se sente culpado. Não havendo ninguém a ser derrotado, se a bola vem torta, o parceiro sabe que foi sem querer e ajeita para devolvê-la da melhor maneira.
O gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir...É assim que as coisas se passam numa boa conversa.
A bola são as nossas fantasias e sonhos em forma de palavras.“Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...” (Rubem Alves). O sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. Cada um, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o jogo nunca tenha fim...
Frescobol tem tudo a ver com uma boa conversa.
Não se queimarão calorias mas, pelo menos hoje, vai ser este o nosso jogo!

dezembro 08, 2008

ADAMASTOR VOLTOU

O 'estranho homem puro' cai de pau no mês de dezembro.

"Adamastor é "o estranho homem puro", um personagem que o cronista Antônio Maria, coleguinha aqui do GLOBO nos anos 50, tirava da máquina de escrever quando estava cansado de legislar sobre a Humanidade na primeira pessoa. Era o alter ego furioso do cronista, o momento em que este não agüentava mais a mediocridade reinante e soltava os bichos para vociferar contra tudo. A hora de soltar os bofes, clamar por um mundo menos atrelado à afetação, à bobice e ao fingimento. Adamastor ia na contramão do pensar correto. Acabava falando verdades que Maria não tinha coragem de assinar na primeira pessoa.
Adamastor detesta dezembro, por exemplo, o mês em que todos simulam uma fraternidade ausente o ano inteiro. Ele acha cego intrigante, desconfia de mudos (não têm palavra) e se já não gosta de velho durante o ano inteiro, sempre emperrando a circulação na catraca do metrô, move caça especial ao símbolo maior do Natal. Acha que Papai Noel é o lobo em pele de cordeiro da temporada. Já fez escândalo em shopping por suspeitar que o "bom velhinho", fotografando na praça de alimentação com os filhos das mamães que tinham consumido acima de R$ 200, era um desses pedófilos da internet.
O homem é fogo. Nem tente acalmá-lo com essa história de "vamos com calma, vamos dar as mãos, é a data máxima da cristandade".
Aí mesmo que ele sobe nas tamancas e bate o bumbo. Detesta essa falsa amabilidade de fim de ano, esses amigos ocultos que presenteiam com meias e CDs. É capaz de pegar um punhado de castanhas e jogar na cara de quem lhe desejar um próspero ano novo. Ele grita de volta: "Eu me chamo Adamastor, Próspero é o nome disso aqui" — e, como se inspirado pelo "sifu" do Lula, faz um gesto lamentável pelo qual, desde já, nos desculpamos com o prezado leitor e prometemos apagar na próxima edição.
Eu encontrei o homem semana passada, ali na esquina de Siqueira Campos com Barata Ribeiro, e ele vibrava com os preços das nozes e avelãs, inflacionados pela alta do dólar.
Acha que assim todos desistem de imitar países que passam as festas no frio e comem com menos empáfia. Adamastor odeia comida de ceia de Natal. Só não deposita mais fervor na luta contra o peru à Califórnia porque guarda o melhor de sua fúria santa contra o vocabulário típico de dezembro.
Se ele perceber que o interlocutor vai fazer aquela frase cheia de salamaleques pseudoafetivos que termina no "tudo de bom para você e a sua família", o estranho homem puro começa a simular uma convulsão só para não ter que ouvir o purgante semântico até o fim.
Se alguma telefonista atende dizendo "Boas festas, em que posso ser útil?" — ele, num acesso da Síndrome da Índole Pura, desliga imediatamente.
Seu único juiz é a própria sensibilidade, e não há nada mais sensível em seu corpo seco, cheio de sardas, as mãos sempre para trás, precavidas contra qualquer cumprimento, do que o ouvido. Está com 79 anos, as deficiências auditivas inevitáveis, mas não usa Vienatone.
O que ouve já lhe basta e dói o suficiente. Percebeu que os clichês do mês de dezembro são quase uma língua à parte, uma meia dúzia de frases feitas em que as pessoas se apóiam para afirmar quão ricas de bons valores elas são.
A essas auto-afirmações de boa alma cristã, com todo seu pieguismo de novela ("Graças a Deus, passo Natal com a minha nora!"), Adamastor devota ódio mais puro que as águas do Rio Carioca que cortam Laranjeiras.
Ah, os senhores robustos garantindo que não querem ganhar nada, pois tendo saúde estão ricos! Ah, os sabichões de dezembro sempre dizendo "Vamos ver se esse governo toma vergonha ano que vem e ouve o povo".
Ah, os cariocas aproveitando a deixa para dizer "Vamos deixar passar essas festas de Natal, de Ano Novo, e a gente conversa sobre aquele negócio mais adiante".
Ah, aquelas madames sempre dizendo "Como o ano passou num piscar de olhos!" Adamastor gostaria que dezembro passasse mais rápido ainda e o poupasse das mensagens de fim de ano da Globo, dos anjinhos em cima da árvore da Lagoa, dos jornais cobrindo a Missa do Galo na Catedral e da mensagem em 147 línguas do Papa na Praça do Vaticano.
Ele acha tudo uma grande promoção da Casa & Vídeo para limpar os estoques. Evita confraternização de escritório porque não sabe do que seria capaz se o chefe convocasse todos para uma oração desejando que no final do próximo ano todos estivessem juntos novamente para repetir aquela corrente.
Encontrei o Adamastor naquela esquina da Barata com Siqueira, mas foi muito por acaso, e ele quase me escapa. O estranho homem puro de Copacabana tranca-se em casa em dezembro.
Naquele dia tinha saído para comprar jornal e estava absolutamente órfão, pois acabara de saber que a "Tribuna de Imprensa" não circularia mais. Achava que o jornal da Rua do Lavradio era o último bastião contra o Natal e todas essas rabanadas da alma gordurosa que andam por aí.
Adamastor ia naquele jeito de andar apressado que desenvolveu para fugir de dezembro e de seus gestos "humanitários".
Teme ser agarrado pelo casaco — ele sente muito frio nesses dias — e ser requisitado para contribuir com os livros de ouro do comércio de bairro. Diz que, embora os cronistas tenham piorado muito desde a morte do Antonio Maria, em 1964, vai assinar O GLOBO.Mas só em janeiro. Não quer colaborar com a caixinha do entregador da assinatura, outra praga de dezembro. Economiza uns cobres no bolso e poupa os ouvidos de mais um "tudo de bom para o senhor".
Antes de se mandar com a bisnaga do pão embrulhada embaixo do braço, Adamastor deu seu único sorriso. Do jeito que a crise vai, acha que não haverá Natal em 2009
."

Joaquim Ferreira dos Santos - O GLOBO de hoje