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O demônio do meio-dia é o tédio moderno, efeito de um mundo com poucos mistérios
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DESDE PEQUENA, Zoé, 9 anos, adora filmes e histórias de terror. Seus pedidos espantam a moça da locadora de DVDs, que, provavelmente, duvida da sanidade mental dos pais.
De fato, Zoé assiste com prazer a filmes que, às vezes, deixam insones seu irmão mais velho, suas baby-sitters e mesmo sua mãe. Talvez Zoé seja cinéfila a ponto de assistir aos ditos filmes com o distanciamento de um crítico dos "Cahiers du Cinéma". Ela desmontaria os "truques" destinados a produzir espanto nos espectadores e, com isso, os filmes lhe proporcionariam uma experiência parecida com a de um bom exorcista: ela venceria o mal desvendando seus estratagemas.
Mas a paixão de Zoé pelas histórias de terror tem outra explicação possível, que me apareceu quando Zoé quis que sua festa de aniversário fosse o cenário de um filme.
Com a ajuda de um cineasta amigo da família, Zoé e seus convidados foram co-autores e protagonistas de um curta que, claro, é a história do aniversário de uma menina, durante o qual um monstro diabólico e sedento de sangue etc.
Graças ao filme (que, aliás, é bem legal) pensei o seguinte: talvez Zoé queira sobretudo convencer-se de que sempre, mesmo no dia ensolarado de seu aniversário, há zonas de sombra, por onde andam seres repugnantes e perigosos. Alguém perguntará: "Mas por que ela gostaria de pensar assim?"Pois é, eu acho que essa idéia é, para qualquer um, uma fonte de alívio. Explico por quê.
O Salmo 90 (na numeração Clementina) expressa a esperança de que Deus nos guarde tanto das abominações "que circulam pelas trevas" quanto "do demônio do meio-dia". Sobre o tal demônio do meio-dia muito foi escrito e dito: diferente dos diabos que se escondem nos cantos escuros, o que será esse malefício que nos espreita justamente quando o sol está no zênite e o mundo nos aparece sem sombras?
Uma leitura moderna diz que o demônio do meio-dia não é um bicho do inferno, mas é um sofrimento insidioso, específico de uma época em que faltam cantos escuros.
Ele é nossa própria tristeza, a depressão e o tédio produzidos por um mundo com poucas sombras e poucos mistérios.
Em outras palavras, as luzes da razão e da ciência acabaram com aquele sentido que só uma transcendência (divina ou diabólica, benéfica ou maléfica, tanto faz) podia conferir à vida. Por excesso de luz, em suma, o mundo perdeu seus horrores, mas também seu encanto; com isso, é preciso que Deus nos proteja do demônio do meio-dia, ou seja, do tédio e da tristeza.
Ao inventar cantos escuros e ao povoá-los de "troços" inquietantes, Zoé está se protegendo contra o demônio do meio-dia -com toda razão, pois esse é provavelmente o mais pernicioso de todos. Muito melhor se deparar com Freddy Kruger do que não achar graça no mundo.
"Filosofia do Tédio", de Lars Svenden (Zahar), é uma brilhante meditação sobre a dificuldade moderna em nos interessarmos pela vida, uma vez que ela não é mais justificada pela palavra divina ou por nossa luta heróica contra os "troços" que circulam pelas trevas. Para Svenden, contra o tédio, ainda não inventamos nada melhor do que o remédio do Romantismo: uma mistura de anestesia (drogas lícitas e ilícitas) com transgressões que deveriam provar que estamos vivendo grandes aventuras e experiências "incríveis". Se for para escolher, prefiro os esforços de Zoé para repovoar o mundo de monstros e demônios.
Mas há uma terceira via. Li, nestes dias, "O Olho da Rua", de Eliane Brum (Globo). Brum, repórter especial da revista "Época", reúne dez grandes reportagens escritas entre 2000 e 2008. Fazia tempo que um livro não me tocava tanto. Que Brum fale das parteiras do Amapá, da guerra em Roraima, dos velhos da casa São Luiz para Velhice, ou mesmo que ela acompanhe o fim da vida de uma paciente terminal, seu texto é uma verdadeira alegria - pois ele nos lembra, simplesmente, que o mundo importa, que ele vale a pena. Como ela consegue?
O tédio moderno é uma forma de arrogância: a vida é chata porque nós seríamos maiores que sua suposta trivialidade insossa; tendemos a menosprezar o cenário onde nos toca viver, como se ele fosse demasiado banal para nossas façanhas. Pois bem, o segredo de Brum é o oposto disso, é uma extraordinária humildade diante do que existe.
Quando Zoé cansar de inventar monstros para dar sentido ao mundo e à vida, vou lhe sugerir o livro de Eliane Brum.
CONTARDO CALLIGARIS na FSP
dezembro 11, 2008
E R U D I T U

Recebi do meu amigo James, que é cantor na Eruditu, o convite para o espatáculo que acontecerá no Guairão, dias 16 e 17, "Natal enfim Natal". Reunirá 30 músicos da Eruditu Philharmonic Orchestra, o coral Tessitura Plena Singers e atores que farão narrativas. No repertório, obras clássicas tradicionais de Natal: Glória & Cum Sancto Spiritu, de Vivaldi; Hallelujah Chorus, de Handel; Jesus Cristo Alegria do Homens, de Bach; Ave Maria, de Gounod, The Nun's Chorus, de Strauss II; Jingle Bells. (Tradiconais Medleys – Handel) Jingle Bells - Adeste Fideles – Joy To The World; Hark! The Herald Angels Sing; Deck To The Hall; Silent Night; We Wish You A Mery Christmas. White Christmas; Carol Of The Bells; (Brasileiras) Vira, de Vila Lobos; Já Vem Chegando o Natal, de Melara. (Vocal a capela) Canção Alegre de Natal; Natal Nordestino. (Instrumental) Z. Narodzenia Pana - Scherzo; Arrival of teh Queen of Sheba, Hendel; Divertissement em Re, Mozart e Concerto em La, Vivaldi.
Quem assistiu ao ensaio me disse que está lindissimo!
dezembro 10, 2008
Coroas
Coroas – Corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade é o novo livro da antropóloga Mirian Goldenberg.Abaixo um trecho de sua entrevista no blog máquina de escrever do Luciano Trigo que pode ser lida na íntegra clicando no título da postagem.
"Simbolicamente, no Brasil, as mulheres envelhecem muito mais cedo do que os homens. Quanto mais velhas, menos chances no mercado afetivo-sexual. Por sua vez, quanto mais velho, mais o homem pode escolher no mesmo mercado. Como mostro no livro Coroas, numa cultura em que ter um marido é um verdadeiro capital - o que chamo de “capital marital” – envelhecer, para a mulher, é um momento de perdas. Elas se queixam de dois problemas: falta de homem e decadência do corpo. Já os homens se preocupam muito menos com a aparência e mais com a perda de poder e de prestígio social. Eu encontrei três tipos de discursos femininos, que classifiquei como de falta, invisibilidade e aposentadoria do mercado afetivo-sexual. Eles podem ser vistos como uma postura de vitimização das mulheres nesta faixa etária, que apontam, predominantemente, as perdas, os medos e as dificuldades associadas ao envelhecimento. Nesse sentido, numa cultura em que o corpo é outro importante capital, talvez o mais importante de todos, o processo de envelhecimento pode ser vivido como um momento de importantes perdas, especialmente de capital físico. Há muitas mulheres que estão começando a se mutilar aos 40 ou 50 anos para atender a uma cultura que impõe isso. A cobrança aqui é diferente da que acontece na Alemanha, por exemplo. Lá, a questão é por que fazer isso com o próprio corpo. Aqui, há uma obrigação de fazer. As escolhas das mulheres brasileiras são muito mais limitadas do que as escolhas de uma mulher alemã. Ninguém diz que uma alemã é uma fracassada porque ela não se casou ou não teve filhos. É isso que eu chamo de miséria subjetiva: aceitar a invisibilidade que é imposta à mulher que envelhece".
Decálogo fashion
Hoje é aquele dia da semana reservado (quando possível) para "levezas" que aqui têm significado usar o marcador futilidades. Nem sempre tão fúteis. Esta, por exemplo, vem da revista da Le Lis Blanc (aquela boutique cheirosa que tem em todos os shoppings). É uma citação de Louise Wilson (diretora do Saint Martins College of Art and Design, de Londres) apresentando o seu decálogo sobre o mundo fashion. :
1. Incomodar, provocar, divertir e envolver
2. Está errado estar correto. Os corretos são chatos
3. Criatividade é o oposto da experiência
4. É preciso correr riscos
5. Adeus às referências
6. Criar é uma tortura
7. Uma pessoa precisa inspirar pelo que ela é
8. Não se levar muito a sério
9. Fracasse, fracasse, como dizia Samuel Beckett'
10. O que começa errado tem mais chance de dar certo
Seriam tais regras aplicáveis somente ao mundo fashion?
1. Incomodar, provocar, divertir e envolver
2. Está errado estar correto. Os corretos são chatos
3. Criatividade é o oposto da experiência
4. É preciso correr riscos
5. Adeus às referências
6. Criar é uma tortura
7. Uma pessoa precisa inspirar pelo que ela é
8. Não se levar muito a sério
9. Fracasse, fracasse, como dizia Samuel Beckett'
10. O que começa errado tem mais chance de dar certo
Seriam tais regras aplicáveis somente ao mundo fashion?
HAPPY-GO-LUCKY
Que eu adoro cinema todo mundo sabe. Falar de cinema com quem também gosta é um desdobramento deste prazer. Ontem, no "frescobol" que joguei com o Fer, volta e meia, estávamos falando de algum filme. Sempre registrei o que leio ou ouço sobre filmes para não esquecer de assistir. O que fazia em qualquer lugar e acabava perdendo, agora compartilho com os amigos aqui, trago o trailer, algum comentário...
Nem todo mundo está encarando, com facilidade, sair de casa, enfrentar trânsito/estacionamento/fila, sem saber o que vai ver. Outros me escrevem contando que, simplesmente, o cinema de sua cidade fechou e que tem "baixado"(!?) filmes recomendados aqui no blog.
Este pode não ser "o filme" (como ressalvou o meu amigo), mas é muito provável que seja interessante. As suas dicas sempre são boas!
O nome do filme HAPPY-GO-LUCKY - não sei se já tem título em portugues - é uma expressão idiomática britânica que descreve a pessoa que passa pela vida sem preocupação, sem problemas, como se vivesse no melhor dos mundos.
A personagem Poppy é uma professora solteira que vive em Londres e que nunca se deixar contagiar pelo mau-humor de seu diretor nem pela sua dominadora professora de flamenco e muito menos por sua irmã, grávida e infeliz. Sempre vestida de cores berrantes, sacolas friques, brincos vermelhões e botas de pele de cobra, ela anda por Londres como quem salta por campos floridos. E quando lhe roubam a bicicleta (o que acontece no início do filme), o máximo de sua reação é dizer: “Ora bolas. Nem tive tempo de me despedir dela.”
Com este perfil Poppy tem tudo para nos irritar ("quem é que aguenta uma pessoa que nunca se chateia com nada?"). Acontece que esta aparente cabeça no ar mascara os seus pés bem assentados no chão e , na verdade, não passa de uma estratégia de sobrevivência tão válida como qualquer outra: aproveitar cada dia, ver sempre o lado bom das coisas, deixar-se deslumbrar pelos pequenos nadas do quotidiano...
O que qualquer um de nós devia fazer.

Do site CINERAMA:
“Happy-Go-Lucky” é também um ensaio sobre a educação e a aprendizagem, de como uns usam o conhecimento para se libertarem e outros acorrentam as suas mentes com regras e falsas expectativas. Ao contrário de ambas as suas irmãs (Kate O'Flynn e Caroline Martin), Poppy recusa-se a que a vida a derrube ou a deprima, elevando-se acima do cinismo que o sorriso da sua companheira de casa Zoe (Alexis Zegerman) já não consegue esconder. Num mundo onde os pais cada vez mais abdicam das suas responsabilidades como educadores, “Happy-Go-Lucky” fala ainda da responsabilidade dos professores em identificar as dificuldades emocionais dos seus alunos.
“Happy-Go-Lucky” contraria a miséria pessoal que habitualmente habita o universo de Mike Leigh e é, possivelmente, a sua obra mais refrescante (colorida da forte paleta da fotografia de Dick Pope). Felizmente, isso não impediu que o seu trabalho com os actores (“explorados” em workshops de improvisação) mantivesse uma caracterização detalhada. Sally Hawkins (“Cassandra’s Dream”), vencedora do Urso de Prata da última edição do Festival de Berlim, vai de uma exuberância que começa por ser estranha, porque atípica, passando por uma fase quase irritante (quem é que aguenta uma pessoa que nunca se chateia com nada?) e terminando por se adentrar e contagiar-nos com a vontade de ser também a assim (a expressão ‘lust for life’ é incontornável).
Talvez num mundo cheio de tragédias, numa vida onde a sorte não tem lugar, seja possível manter-se a inocência, a abertura aos outros, a compaixão, tudo isso sem ter de pedir desculpa por quem somos. Um filme sobre a aprendizagem a vários níveis. Porque ser feliz também é disciplina".
dezembro 09, 2008
FRESCOBOL
Hoje vou à praia com um amigo que veio passar uns dias aqui.
Pensei em várias coisas que pudessem tornar estes seus raros dias de férias agradáveis. Afinal, eles poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo e ele escolheu vir para cá.
Pensando em coisas de que ele gosta, me lembrei de frescobol.Faz algum tempo, não sei qual razão nos levou a desistir das raquetes que ficavam juntas ao guarda-sol e cadeiras de praia esperando o verão que vinha e passava, e ninguém jogava.Acho que foi por isto.
O frescobol seria invenção de brasileiro. Não sei de onde tiraram isto....(vou perguntar a ele se é verdade).
Talvez por ser um jogo em que ninguém marca pontos e que, para ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Ou os dois ganham ou ninguém ganha. Ninguém fica feliz quando o outro erra e o que erra pede desculpas e se sente culpado. Não havendo ninguém a ser derrotado, se a bola vem torta, o parceiro sabe que foi sem querer e ajeita para devolvê-la da melhor maneira.
O gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir...É assim que as coisas se passam numa boa conversa.
A bola são as nossas fantasias e sonhos em forma de palavras.“Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...” (Rubem Alves). O sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. Cada um, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o jogo nunca tenha fim...
Frescobol tem tudo a ver com uma boa conversa.
Não se queimarão calorias mas, pelo menos hoje, vai ser este o nosso jogo!
Pensei em várias coisas que pudessem tornar estes seus raros dias de férias agradáveis. Afinal, eles poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo e ele escolheu vir para cá.
Pensando em coisas de que ele gosta, me lembrei de frescobol.Faz algum tempo, não sei qual razão nos levou a desistir das raquetes que ficavam juntas ao guarda-sol e cadeiras de praia esperando o verão que vinha e passava, e ninguém jogava.Acho que foi por isto.
O frescobol seria invenção de brasileiro. Não sei de onde tiraram isto....(vou perguntar a ele se é verdade).
Talvez por ser um jogo em que ninguém marca pontos e que, para ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Ou os dois ganham ou ninguém ganha. Ninguém fica feliz quando o outro erra e o que erra pede desculpas e se sente culpado. Não havendo ninguém a ser derrotado, se a bola vem torta, o parceiro sabe que foi sem querer e ajeita para devolvê-la da melhor maneira.
O gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir...É assim que as coisas se passam numa boa conversa.
A bola são as nossas fantasias e sonhos em forma de palavras.“Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...” (Rubem Alves). O sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. Cada um, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o jogo nunca tenha fim...
Frescobol tem tudo a ver com uma boa conversa.
Não se queimarão calorias mas, pelo menos hoje, vai ser este o nosso jogo!
dezembro 08, 2008
ADAMASTOR VOLTOU
O 'estranho homem puro' cai de pau no mês de dezembro.
"Adamastor é "o estranho homem puro", um personagem que o cronista Antônio Maria, coleguinha aqui do GLOBO nos anos 50, tirava da máquina de escrever quando estava cansado de legislar sobre a Humanidade na primeira pessoa. Era o alter ego furioso do cronista, o momento em que este não agüentava mais a mediocridade reinante e soltava os bichos para vociferar contra tudo. A hora de soltar os bofes, clamar por um mundo menos atrelado à afetação, à bobice e ao fingimento. Adamastor ia na contramão do pensar correto. Acabava falando verdades que Maria não tinha coragem de assinar na primeira pessoa.
Adamastor detesta dezembro, por exemplo, o mês em que todos simulam uma fraternidade ausente o ano inteiro. Ele acha cego intrigante, desconfia de mudos (não têm palavra) e se já não gosta de velho durante o ano inteiro, sempre emperrando a circulação na catraca do metrô, move caça especial ao símbolo maior do Natal. Acha que Papai Noel é o lobo em pele de cordeiro da temporada. Já fez escândalo em shopping por suspeitar que o "bom velhinho", fotografando na praça de alimentação com os filhos das mamães que tinham consumido acima de R$ 200, era um desses pedófilos da internet.
O homem é fogo. Nem tente acalmá-lo com essa história de "vamos com calma, vamos dar as mãos, é a data máxima da cristandade".
Aí mesmo que ele sobe nas tamancas e bate o bumbo. Detesta essa falsa amabilidade de fim de ano, esses amigos ocultos que presenteiam com meias e CDs. É capaz de pegar um punhado de castanhas e jogar na cara de quem lhe desejar um próspero ano novo. Ele grita de volta: "Eu me chamo Adamastor, Próspero é o nome disso aqui" — e, como se inspirado pelo "sifu" do Lula, faz um gesto lamentável pelo qual, desde já, nos desculpamos com o prezado leitor e prometemos apagar na próxima edição.
Eu encontrei o homem semana passada, ali na esquina de Siqueira Campos com Barata Ribeiro, e ele vibrava com os preços das nozes e avelãs, inflacionados pela alta do dólar.
Acha que assim todos desistem de imitar países que passam as festas no frio e comem com menos empáfia. Adamastor odeia comida de ceia de Natal. Só não deposita mais fervor na luta contra o peru à Califórnia porque guarda o melhor de sua fúria santa contra o vocabulário típico de dezembro.
Se ele perceber que o interlocutor vai fazer aquela frase cheia de salamaleques pseudoafetivos que termina no "tudo de bom para você e a sua família", o estranho homem puro começa a simular uma convulsão só para não ter que ouvir o purgante semântico até o fim.
Se alguma telefonista atende dizendo "Boas festas, em que posso ser útil?" — ele, num acesso da Síndrome da Índole Pura, desliga imediatamente.
Seu único juiz é a própria sensibilidade, e não há nada mais sensível em seu corpo seco, cheio de sardas, as mãos sempre para trás, precavidas contra qualquer cumprimento, do que o ouvido. Está com 79 anos, as deficiências auditivas inevitáveis, mas não usa Vienatone.
O que ouve já lhe basta e dói o suficiente. Percebeu que os clichês do mês de dezembro são quase uma língua à parte, uma meia dúzia de frases feitas em que as pessoas se apóiam para afirmar quão ricas de bons valores elas são.
A essas auto-afirmações de boa alma cristã, com todo seu pieguismo de novela ("Graças a Deus, passo Natal com a minha nora!"), Adamastor devota ódio mais puro que as águas do Rio Carioca que cortam Laranjeiras.
Ah, os senhores robustos garantindo que não querem ganhar nada, pois tendo saúde estão ricos! Ah, os sabichões de dezembro sempre dizendo "Vamos ver se esse governo toma vergonha ano que vem e ouve o povo".
Ah, os cariocas aproveitando a deixa para dizer "Vamos deixar passar essas festas de Natal, de Ano Novo, e a gente conversa sobre aquele negócio mais adiante".
Ah, aquelas madames sempre dizendo "Como o ano passou num piscar de olhos!" Adamastor gostaria que dezembro passasse mais rápido ainda e o poupasse das mensagens de fim de ano da Globo, dos anjinhos em cima da árvore da Lagoa, dos jornais cobrindo a Missa do Galo na Catedral e da mensagem em 147 línguas do Papa na Praça do Vaticano.
Ele acha tudo uma grande promoção da Casa & Vídeo para limpar os estoques. Evita confraternização de escritório porque não sabe do que seria capaz se o chefe convocasse todos para uma oração desejando que no final do próximo ano todos estivessem juntos novamente para repetir aquela corrente.
Encontrei o Adamastor naquela esquina da Barata com Siqueira, mas foi muito por acaso, e ele quase me escapa. O estranho homem puro de Copacabana tranca-se em casa em dezembro.
Naquele dia tinha saído para comprar jornal e estava absolutamente órfão, pois acabara de saber que a "Tribuna de Imprensa" não circularia mais. Achava que o jornal da Rua do Lavradio era o último bastião contra o Natal e todas essas rabanadas da alma gordurosa que andam por aí.
Adamastor ia naquele jeito de andar apressado que desenvolveu para fugir de dezembro e de seus gestos "humanitários".
Teme ser agarrado pelo casaco — ele sente muito frio nesses dias — e ser requisitado para contribuir com os livros de ouro do comércio de bairro. Diz que, embora os cronistas tenham piorado muito desde a morte do Antonio Maria, em 1964, vai assinar O GLOBO.Mas só em janeiro. Não quer colaborar com a caixinha do entregador da assinatura, outra praga de dezembro. Economiza uns cobres no bolso e poupa os ouvidos de mais um "tudo de bom para o senhor".
Antes de se mandar com a bisnaga do pão embrulhada embaixo do braço, Adamastor deu seu único sorriso. Do jeito que a crise vai, acha que não haverá Natal em 2009."
Joaquim Ferreira dos Santos - O GLOBO de hoje
"Adamastor é "o estranho homem puro", um personagem que o cronista Antônio Maria, coleguinha aqui do GLOBO nos anos 50, tirava da máquina de escrever quando estava cansado de legislar sobre a Humanidade na primeira pessoa. Era o alter ego furioso do cronista, o momento em que este não agüentava mais a mediocridade reinante e soltava os bichos para vociferar contra tudo. A hora de soltar os bofes, clamar por um mundo menos atrelado à afetação, à bobice e ao fingimento. Adamastor ia na contramão do pensar correto. Acabava falando verdades que Maria não tinha coragem de assinar na primeira pessoa.
Adamastor detesta dezembro, por exemplo, o mês em que todos simulam uma fraternidade ausente o ano inteiro. Ele acha cego intrigante, desconfia de mudos (não têm palavra) e se já não gosta de velho durante o ano inteiro, sempre emperrando a circulação na catraca do metrô, move caça especial ao símbolo maior do Natal. Acha que Papai Noel é o lobo em pele de cordeiro da temporada. Já fez escândalo em shopping por suspeitar que o "bom velhinho", fotografando na praça de alimentação com os filhos das mamães que tinham consumido acima de R$ 200, era um desses pedófilos da internet.
O homem é fogo. Nem tente acalmá-lo com essa história de "vamos com calma, vamos dar as mãos, é a data máxima da cristandade".
Aí mesmo que ele sobe nas tamancas e bate o bumbo. Detesta essa falsa amabilidade de fim de ano, esses amigos ocultos que presenteiam com meias e CDs. É capaz de pegar um punhado de castanhas e jogar na cara de quem lhe desejar um próspero ano novo. Ele grita de volta: "Eu me chamo Adamastor, Próspero é o nome disso aqui" — e, como se inspirado pelo "sifu" do Lula, faz um gesto lamentável pelo qual, desde já, nos desculpamos com o prezado leitor e prometemos apagar na próxima edição.
Eu encontrei o homem semana passada, ali na esquina de Siqueira Campos com Barata Ribeiro, e ele vibrava com os preços das nozes e avelãs, inflacionados pela alta do dólar.
Acha que assim todos desistem de imitar países que passam as festas no frio e comem com menos empáfia. Adamastor odeia comida de ceia de Natal. Só não deposita mais fervor na luta contra o peru à Califórnia porque guarda o melhor de sua fúria santa contra o vocabulário típico de dezembro.
Se ele perceber que o interlocutor vai fazer aquela frase cheia de salamaleques pseudoafetivos que termina no "tudo de bom para você e a sua família", o estranho homem puro começa a simular uma convulsão só para não ter que ouvir o purgante semântico até o fim.
Se alguma telefonista atende dizendo "Boas festas, em que posso ser útil?" — ele, num acesso da Síndrome da Índole Pura, desliga imediatamente.
Seu único juiz é a própria sensibilidade, e não há nada mais sensível em seu corpo seco, cheio de sardas, as mãos sempre para trás, precavidas contra qualquer cumprimento, do que o ouvido. Está com 79 anos, as deficiências auditivas inevitáveis, mas não usa Vienatone.
O que ouve já lhe basta e dói o suficiente. Percebeu que os clichês do mês de dezembro são quase uma língua à parte, uma meia dúzia de frases feitas em que as pessoas se apóiam para afirmar quão ricas de bons valores elas são.
A essas auto-afirmações de boa alma cristã, com todo seu pieguismo de novela ("Graças a Deus, passo Natal com a minha nora!"), Adamastor devota ódio mais puro que as águas do Rio Carioca que cortam Laranjeiras.
Ah, os senhores robustos garantindo que não querem ganhar nada, pois tendo saúde estão ricos! Ah, os sabichões de dezembro sempre dizendo "Vamos ver se esse governo toma vergonha ano que vem e ouve o povo".
Ah, os cariocas aproveitando a deixa para dizer "Vamos deixar passar essas festas de Natal, de Ano Novo, e a gente conversa sobre aquele negócio mais adiante".
Ah, aquelas madames sempre dizendo "Como o ano passou num piscar de olhos!" Adamastor gostaria que dezembro passasse mais rápido ainda e o poupasse das mensagens de fim de ano da Globo, dos anjinhos em cima da árvore da Lagoa, dos jornais cobrindo a Missa do Galo na Catedral e da mensagem em 147 línguas do Papa na Praça do Vaticano.
Ele acha tudo uma grande promoção da Casa & Vídeo para limpar os estoques. Evita confraternização de escritório porque não sabe do que seria capaz se o chefe convocasse todos para uma oração desejando que no final do próximo ano todos estivessem juntos novamente para repetir aquela corrente.
Encontrei o Adamastor naquela esquina da Barata com Siqueira, mas foi muito por acaso, e ele quase me escapa. O estranho homem puro de Copacabana tranca-se em casa em dezembro.
Naquele dia tinha saído para comprar jornal e estava absolutamente órfão, pois acabara de saber que a "Tribuna de Imprensa" não circularia mais. Achava que o jornal da Rua do Lavradio era o último bastião contra o Natal e todas essas rabanadas da alma gordurosa que andam por aí.
Adamastor ia naquele jeito de andar apressado que desenvolveu para fugir de dezembro e de seus gestos "humanitários".
Teme ser agarrado pelo casaco — ele sente muito frio nesses dias — e ser requisitado para contribuir com os livros de ouro do comércio de bairro. Diz que, embora os cronistas tenham piorado muito desde a morte do Antonio Maria, em 1964, vai assinar O GLOBO.Mas só em janeiro. Não quer colaborar com a caixinha do entregador da assinatura, outra praga de dezembro. Economiza uns cobres no bolso e poupa os ouvidos de mais um "tudo de bom para o senhor".
Antes de se mandar com a bisnaga do pão embrulhada embaixo do braço, Adamastor deu seu único sorriso. Do jeito que a crise vai, acha que não haverá Natal em 2009."
Joaquim Ferreira dos Santos - O GLOBO de hoje
dezembro 07, 2008
Mais um Natal
"Aviso num restaurante de Brighton, que o dono fez imprimir no cardápio, à revelia dos garçons: "Somos seus amigos e lhe desejamos um Feliz Natal. Por favor, não nos ofenda, dando-nos gorjetas."
Junto à porta de saída, entretanto, os garçons fizeram dependurar uma caixinha sob o letreiro: "Ofensas”.
E no dia de Natal, como sempre, todos os bares de Londres permanecem fechados. Mas consegui realizar o milagre de encontrar em Chelsea um bar aberto, lá para as dez horas da noite. Meio desconfiado, fui entrando — logo um dos fregueses se adiantou, copo de cerveja na mão:
— Perdão, cavalheiro, mas o senhor já foi à igreja hoje?
E se justificou estendendo o braço ao redor, para apontar os demais fregueses, que bebiam cerveja em silêncio.
— Porque aqui dentro, nós todos já fomos.
E sem esperar resposta, passou-me o seu copo de cerveja, pedindo ao barman outro para si.
Festejou-se o Natal, já se festeja o Ano Novo. Há, porém, muita gente na triste perspectiva de passar ambas as festas em completa solidão. Como é o caso de Ethel Denham, uma velhinha com mais de oitenta anos de idade.
Dona Ethel não tem filhos nem marido: nunca chegou a se casar. Mora sozinha numa pequena casa de Exeter, fruto de sua aposentadoria. Para que não lhe aconteça alguma coisa sem ter a quem apelar, foi instalada à porta de sua casinha uma luz vermelha, que ela pode acender para pedir socorro, em caso de necessidade.
Na noite de Natal esta necessidade veio, mais imperiosa do que nunca. A boa velhinha não agüentava a idéia de estar sozinha e passar o Natal sem ninguém. Então acendeu luz de socorro e aguardou os acontecimentos.
Em pouco chegava um guarda de serviço, para ver o que tinha acontecido. E viu que não tinha acontecido nada.
— Fique um pouquinho — pediu ela. — Vamos conversar um pouco.
O guarda teve pena e resolveu ficar. Para não estar sem fazer nada, enquanto conversava fiado com a velhinha, fez um chá, aproveitou e lavou a louça, limpou a cozinha, deu uma arrumação na casa.
Para quê! Há gestos de solidariedade e compreensão que exigem outros, pois acostumam mal. Ou acostumam bem, ainda que na simples necessidade de participar da humana convivência. A dona da casa, encantada, na noite seguinte, depois de fazer o jantar, ficou esperando o seu Papai Noel tornar a aparecer. Como ele nunca mais viesse, não teve dúvida: acendeu a luz do pedido de socorro. Em pouco surgia outro guarda, para saber o que havia.
— Fique um pouquinho — pediu ela: — O senhor não aceita uma xícara de chá?
Mas este estava de serviço mesmo, não era mais noite de Natal nem nada. Então confortou a velhinha como pôde e caiu fora.
Ela, desde então, está esperando o primeiro guarda voltar — aquele sim, tão bonzinho que ele é. Não se conformando mais, depois de três noites de espera, vestiu um capote¬, enrolou-se num chale e saiu para o frio da rua até a guarnição local, a fim de saber onde andava o seu amigo. Mas não lhe guardara o nome, de modo que o comandante da guarnição, apesar de sua boa vontade, não conseguiu localizá-lo. Agora, a velhinha apela através do jornal, pedindo ao próprio que apareça uma noite dessas, para um dedinho de prosa, para uma xícara de chá.
Outros, cuja necessidade material é mais imperiosa ainda que o convívio, tiveram quem apelasse em nome deles durante o Natal. O vigário da minha paróquia, em West Hampstead, resolveu perder a cerimônia, durante a prédica:
— Vou ser claro e quem tiver ouvidos para ouvir, ouça: estamos nas vésperas do Natal, é preciso ser generoso, proporcionarmos aos pobres um fim de ano decente. Eles também têm direito. Quero hoje uma coleta mais abundante que nos outros domingos. Falei claro? Pois vou lançar mão de uma parábola, para não perder o hábito, e porque fica mais bonito. Já usei essa parábola em outros Natais, e com grande sucesso. Lá vai ela, prestem atenção.
E pôs-se a contar a história daquele inglês que estava passeando pelo campo, como só os ingleses costumam fazer, quando de repente caiu uma chuvarada. Ele, naquele descampado, não tinha onde se esconder. Avistou ao longe uma árvore solitária, correu para lá — mas era uma árvore desgalhada e desfolhada, quase que só tinha tronco. No tronco havia um oco — o homem não teve dúvida: meteu-se no oco da árvore, para se esconder da chuva.
Vai daí, no que a chuva amainou, o homem quis sair do oco da árvore, não houve jeito: a água tinha feito inchar a madeira e a passagem, já estreita, estreitara-se ainda mais. Ali estava ele, prisioneiro da árvore, sozinho no meio do campo, jamais sairia dali, certamente morreria entalado. Então começou a meditar na estupidez que fora sua vida, sempre preocupado com o próprio bem-estar, sem jamais pensar em seus semelhantes. Nunca lhe ocorrera dar uma esmola para os pobres no Natal, por exemplo. Se freqüentasse a igreja da sua paróquia (e aqui o vigário fazia um parêntese: "que certamente podia ser esta aqui mesmo, ele podia ser um dos senhores que estão me ouvindo"), ele seria sensível a este apelo à sua generosidade. Mas não: gastava dinheiro à toa, com bobagem, nunca abrira mão de um mínimo que fosse para atender à necessidade de alguém. E foi-se sentindo cada vez mais ínfimo, diminuindo diante de si mesmo, com a consciência da sua própria iniqüidade. Deu-se então o milagre: tanto diminuiu, ficou tão pequenino, que conseguiu sair do oco da árvore.
E o vigário arremata:
— Vamos ter uma estação bem chuvosa este fim de ano! Cuidado com o oco da árvore em que se meterem! Lembrem-se da própria pequenez! Dêem esmolas aos meus pobres!
Já o dono de uma área de estacionamento de automóveis onde costumo parar o meu carro, em pleno centro de Londres, deixa-se impregnar à sua maneira do espírito de generosidade reinante no Natal. Tanto assim, que dei com o seguinte aviso ali afixado:
"Feliz Natal! Hoje o estacionamento aqui é gratuito.
Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.
Em tempo: a paz na terra aos homens de boa vontade termina impreterivelmente à meia-noite."
Fernando Sabino no "Livro Aberto"
Junto à porta de saída, entretanto, os garçons fizeram dependurar uma caixinha sob o letreiro: "Ofensas”.
E no dia de Natal, como sempre, todos os bares de Londres permanecem fechados. Mas consegui realizar o milagre de encontrar em Chelsea um bar aberto, lá para as dez horas da noite. Meio desconfiado, fui entrando — logo um dos fregueses se adiantou, copo de cerveja na mão:
— Perdão, cavalheiro, mas o senhor já foi à igreja hoje?
E se justificou estendendo o braço ao redor, para apontar os demais fregueses, que bebiam cerveja em silêncio.
— Porque aqui dentro, nós todos já fomos.
E sem esperar resposta, passou-me o seu copo de cerveja, pedindo ao barman outro para si.
Festejou-se o Natal, já se festeja o Ano Novo. Há, porém, muita gente na triste perspectiva de passar ambas as festas em completa solidão. Como é o caso de Ethel Denham, uma velhinha com mais de oitenta anos de idade.
Dona Ethel não tem filhos nem marido: nunca chegou a se casar. Mora sozinha numa pequena casa de Exeter, fruto de sua aposentadoria. Para que não lhe aconteça alguma coisa sem ter a quem apelar, foi instalada à porta de sua casinha uma luz vermelha, que ela pode acender para pedir socorro, em caso de necessidade.
Na noite de Natal esta necessidade veio, mais imperiosa do que nunca. A boa velhinha não agüentava a idéia de estar sozinha e passar o Natal sem ninguém. Então acendeu luz de socorro e aguardou os acontecimentos.
Em pouco chegava um guarda de serviço, para ver o que tinha acontecido. E viu que não tinha acontecido nada.
— Fique um pouquinho — pediu ela. — Vamos conversar um pouco.
O guarda teve pena e resolveu ficar. Para não estar sem fazer nada, enquanto conversava fiado com a velhinha, fez um chá, aproveitou e lavou a louça, limpou a cozinha, deu uma arrumação na casa.
Para quê! Há gestos de solidariedade e compreensão que exigem outros, pois acostumam mal. Ou acostumam bem, ainda que na simples necessidade de participar da humana convivência. A dona da casa, encantada, na noite seguinte, depois de fazer o jantar, ficou esperando o seu Papai Noel tornar a aparecer. Como ele nunca mais viesse, não teve dúvida: acendeu a luz do pedido de socorro. Em pouco surgia outro guarda, para saber o que havia.
— Fique um pouquinho — pediu ela: — O senhor não aceita uma xícara de chá?
Mas este estava de serviço mesmo, não era mais noite de Natal nem nada. Então confortou a velhinha como pôde e caiu fora.
Ela, desde então, está esperando o primeiro guarda voltar — aquele sim, tão bonzinho que ele é. Não se conformando mais, depois de três noites de espera, vestiu um capote¬, enrolou-se num chale e saiu para o frio da rua até a guarnição local, a fim de saber onde andava o seu amigo. Mas não lhe guardara o nome, de modo que o comandante da guarnição, apesar de sua boa vontade, não conseguiu localizá-lo. Agora, a velhinha apela através do jornal, pedindo ao próprio que apareça uma noite dessas, para um dedinho de prosa, para uma xícara de chá.
Outros, cuja necessidade material é mais imperiosa ainda que o convívio, tiveram quem apelasse em nome deles durante o Natal. O vigário da minha paróquia, em West Hampstead, resolveu perder a cerimônia, durante a prédica:
— Vou ser claro e quem tiver ouvidos para ouvir, ouça: estamos nas vésperas do Natal, é preciso ser generoso, proporcionarmos aos pobres um fim de ano decente. Eles também têm direito. Quero hoje uma coleta mais abundante que nos outros domingos. Falei claro? Pois vou lançar mão de uma parábola, para não perder o hábito, e porque fica mais bonito. Já usei essa parábola em outros Natais, e com grande sucesso. Lá vai ela, prestem atenção.
E pôs-se a contar a história daquele inglês que estava passeando pelo campo, como só os ingleses costumam fazer, quando de repente caiu uma chuvarada. Ele, naquele descampado, não tinha onde se esconder. Avistou ao longe uma árvore solitária, correu para lá — mas era uma árvore desgalhada e desfolhada, quase que só tinha tronco. No tronco havia um oco — o homem não teve dúvida: meteu-se no oco da árvore, para se esconder da chuva.
Vai daí, no que a chuva amainou, o homem quis sair do oco da árvore, não houve jeito: a água tinha feito inchar a madeira e a passagem, já estreita, estreitara-se ainda mais. Ali estava ele, prisioneiro da árvore, sozinho no meio do campo, jamais sairia dali, certamente morreria entalado. Então começou a meditar na estupidez que fora sua vida, sempre preocupado com o próprio bem-estar, sem jamais pensar em seus semelhantes. Nunca lhe ocorrera dar uma esmola para os pobres no Natal, por exemplo. Se freqüentasse a igreja da sua paróquia (e aqui o vigário fazia um parêntese: "que certamente podia ser esta aqui mesmo, ele podia ser um dos senhores que estão me ouvindo"), ele seria sensível a este apelo à sua generosidade. Mas não: gastava dinheiro à toa, com bobagem, nunca abrira mão de um mínimo que fosse para atender à necessidade de alguém. E foi-se sentindo cada vez mais ínfimo, diminuindo diante de si mesmo, com a consciência da sua própria iniqüidade. Deu-se então o milagre: tanto diminuiu, ficou tão pequenino, que conseguiu sair do oco da árvore.
E o vigário arremata:
— Vamos ter uma estação bem chuvosa este fim de ano! Cuidado com o oco da árvore em que se meterem! Lembrem-se da própria pequenez! Dêem esmolas aos meus pobres!
Já o dono de uma área de estacionamento de automóveis onde costumo parar o meu carro, em pleno centro de Londres, deixa-se impregnar à sua maneira do espírito de generosidade reinante no Natal. Tanto assim, que dei com o seguinte aviso ali afixado:
"Feliz Natal! Hoje o estacionamento aqui é gratuito.
Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.
Em tempo: a paz na terra aos homens de boa vontade termina impreterivelmente à meia-noite."
Fernando Sabino no "Livro Aberto"
Pudor e Celular
Andei lendo um artigo interessante de autoria de Jonathan Franzen que é apontado como o principal nome da nova geração de escritores americanos. Seu trabalho foi publicado na "Technology Review" e, traduzido por Clara Allain, veio parar na FSP, onde o li um dia destes.
O autor, se dizendo a favor dos avanços tecnológicos, descreve as modificações provocadas pelo uso do celular, nos espaços públicos e nas formas de sensibilidade vigentes. A irritação que lhe causa tais comportamentos me fez lembrar o personagem do conto do Julien Barnes (do livro "Um toque de limão") que, incomodadíssimo com espirros, tosses e fungados durante os concertos desenvolveu várias teorias sobre como punir os "infratores". A estória é ótima!
O celular, todos sabem, foi uma das novidades modernas, cujo sucesso foi rápido e total. Porém, embora existam pessoas que usam dois ou três ao mesmo tempo, há as que, simplesmente, não aderiram e passam muito bem sem ele. Não sentem a menor falta. O que deve ser verdade.
Tenho pelo menos dois amigos, em cidades diferentes, entre estes resistentes. Acredito que sofram muitas pressões. Eu sequer comento o fato. Eles fizeram a opção. Quando os procuro em casa e não os encontro, deixo recado na secretária eletrônica ou ligo mais tarde.
Há quem não acredite que a vida possa funcionar desta maneira.
Coincidentemente,(?) de ambos, já ouvi quase as mesmas queixas quanto às variadas formas de mau uso do celular nos espaços públicos. (A um deles fiz lembrar o velhinho irritado do conto do Barnes). Telefones que tocam na sala de aula (um deles é professor), concerto, teatro, cinema, casamentos, audiências, supermercados, no trânsito. E no ônibus - onde me encontro - todos estão avisando que o ônibus está "quase na ponte".
O pior disto, acho que presenciei ontem no restaurante onde almoçávamos. Na mesa vizinha, enquanto comia, alguém falava em dois telefones ao mesmo tempo.
O autor do texto que inspirou este comentário vai mais longe:
“De todas as variedades cada vez piores de mau comportamento ao celular, aquela que mais profundamente me irrita é a que, pelo fato de não fazer vítimas evidentes, aparentemente não irrita a mais ninguém. Refiro-me ao hábito -incomum há dez anos, mas hoje onipresente- de encerrar conversas ao celular gritando "amo você!". Ou, ainda mais opressivo e exasperador, "eu te amo!". Isso faz sentir vontade de me mudar para a China, onde não entendo a língua que as pessoas falam. Me dá vontade de gritar”
A banalização destas "fórmulas" usadas nas despedidas (as quais eu acrescentaria "um beijo no seu coração", argh!) o levou a dar ao seu artigo o título de“amor sem pudor “.
Ele diz mais: “O componente celular de minha irritação é simples e direto. Simplesmente não quero -enquanto estou comprando meias ... ou na fila para comprar um ingresso e me ocupando com meus pensamentos pessoais ou tentando ler um romance num avião quando o embarque ainda não foi encerrado- ser arrastado em minha imaginação para o mundo pegajoso da vida doméstica de algum ser humano próximo.
E não existe declaração de mais alto calibre que "eu te amo" -não há nada pior que um indivíduo possa impor a um espaço público comum. Mesmo "vá à merda, imbecil!" é menos invasivo, na medida em que é o tipo de coisa que pessoas iradas às vezes gritam em público e que pode igualmente bem ser dirigido a um estranho.".
Para ele, o avanço tecnológico que causa danos sociais mais importantes é o celular por expor ao risco de ser ridicularizado quem se queixar dele publicamente.
A gente é obrigada a lhe dar razão.
O autor, se dizendo a favor dos avanços tecnológicos, descreve as modificações provocadas pelo uso do celular, nos espaços públicos e nas formas de sensibilidade vigentes. A irritação que lhe causa tais comportamentos me fez lembrar o personagem do conto do Julien Barnes (do livro "Um toque de limão") que, incomodadíssimo com espirros, tosses e fungados durante os concertos desenvolveu várias teorias sobre como punir os "infratores". A estória é ótima!
O celular, todos sabem, foi uma das novidades modernas, cujo sucesso foi rápido e total. Porém, embora existam pessoas que usam dois ou três ao mesmo tempo, há as que, simplesmente, não aderiram e passam muito bem sem ele. Não sentem a menor falta. O que deve ser verdade.
Tenho pelo menos dois amigos, em cidades diferentes, entre estes resistentes. Acredito que sofram muitas pressões. Eu sequer comento o fato. Eles fizeram a opção. Quando os procuro em casa e não os encontro, deixo recado na secretária eletrônica ou ligo mais tarde.
Há quem não acredite que a vida possa funcionar desta maneira.
Coincidentemente,(?) de ambos, já ouvi quase as mesmas queixas quanto às variadas formas de mau uso do celular nos espaços públicos. (A um deles fiz lembrar o velhinho irritado do conto do Barnes). Telefones que tocam na sala de aula (um deles é professor), concerto, teatro, cinema, casamentos, audiências, supermercados, no trânsito. E no ônibus - onde me encontro - todos estão avisando que o ônibus está "quase na ponte".
O pior disto, acho que presenciei ontem no restaurante onde almoçávamos. Na mesa vizinha, enquanto comia, alguém falava em dois telefones ao mesmo tempo.
O autor do texto que inspirou este comentário vai mais longe:
“De todas as variedades cada vez piores de mau comportamento ao celular, aquela que mais profundamente me irrita é a que, pelo fato de não fazer vítimas evidentes, aparentemente não irrita a mais ninguém. Refiro-me ao hábito -incomum há dez anos, mas hoje onipresente- de encerrar conversas ao celular gritando "amo você!". Ou, ainda mais opressivo e exasperador, "eu te amo!". Isso faz sentir vontade de me mudar para a China, onde não entendo a língua que as pessoas falam. Me dá vontade de gritar”
A banalização destas "fórmulas" usadas nas despedidas (as quais eu acrescentaria "um beijo no seu coração", argh!) o levou a dar ao seu artigo o título de“amor sem pudor “.
Ele diz mais: “O componente celular de minha irritação é simples e direto. Simplesmente não quero -enquanto estou comprando meias ... ou na fila para comprar um ingresso e me ocupando com meus pensamentos pessoais ou tentando ler um romance num avião quando o embarque ainda não foi encerrado- ser arrastado em minha imaginação para o mundo pegajoso da vida doméstica de algum ser humano próximo.
E não existe declaração de mais alto calibre que "eu te amo" -não há nada pior que um indivíduo possa impor a um espaço público comum. Mesmo "vá à merda, imbecil!" é menos invasivo, na medida em que é o tipo de coisa que pessoas iradas às vezes gritam em público e que pode igualmente bem ser dirigido a um estranho.".
Para ele, o avanço tecnológico que causa danos sociais mais importantes é o celular por expor ao risco de ser ridicularizado quem se queixar dele publicamente.
A gente é obrigada a lhe dar razão.
Concerto de Natal

Os corais Madrigal Vocale e Papo Coral sob a regência de Norton Morozowicz se apresentarão no dia 10 de dezembro, às 21 hs., no Teatro Positivo, em Curitiba.
Cada pessoa tem direito a dois ingresso que podem ser obtidos na bilheteria do teatro até o dia 08. Minha amiga que assistiu ao ensaio e me enviou o convite disse ser maravilhoso. Pena que não possa comparecer.
dezembro 06, 2008
Etiqueta ou a falta dela
Gosto de tomar vinho às refeições, mesmo quando estou desacompanhada. Se acontece de ser num restaurante que não sirva em taça (un verre de rouge!) ou garrafa de 375ml, nunca deixo a garrafa com o que sobrou. Afinal comprei e paguei mais caro do que em uma importadora ou supermercado. Que se lixem os incomodados! Levo a garrafa comigo. É comum as pessoas deixarem a garrafa, algumas pela metade...
Vejo no blog etiquetésima da Márcia Zoladz que levar o vinho para casa não infringe nenhum regra. Ela vai mais longe para sugerir que, ao pedir o vinho, se deve avisar para guardarem a rolha e que você vai levar para casa, se sobrar.
E trata ainda da hipótese em que você frequenta sempre o mesmo restaurante e gostaria de levar um vinho para acompanhar a refeição. Neste caso, deve-se consultar se é permitido e qual o preço da rolha. O que só valeria para vinhos com a mesma qualidade ou até melhor do que aqueles que a casa oferece.
Este tipo de "economia", no varejo, não encaro. Mas paguei a rolha quando ofereci um jantar para 46 pessoas e o preço do mesmo vinho, mesmo pagando a rolha, era muito inferior ao cobrado pelo restaurante.
Pode parecer bobagem, mas gostei de ficar sabendo disto.
Vejo no blog etiquetésima da Márcia Zoladz que levar o vinho para casa não infringe nenhum regra. Ela vai mais longe para sugerir que, ao pedir o vinho, se deve avisar para guardarem a rolha e que você vai levar para casa, se sobrar.
E trata ainda da hipótese em que você frequenta sempre o mesmo restaurante e gostaria de levar um vinho para acompanhar a refeição. Neste caso, deve-se consultar se é permitido e qual o preço da rolha. O que só valeria para vinhos com a mesma qualidade ou até melhor do que aqueles que a casa oferece.
Este tipo de "economia", no varejo, não encaro. Mas paguei a rolha quando ofereci um jantar para 46 pessoas e o preço do mesmo vinho, mesmo pagando a rolha, era muito inferior ao cobrado pelo restaurante.
Pode parecer bobagem, mas gostei de ficar sabendo disto.
BARRICA
Este quadro está comigo há mais de vinte anos!
As nuvens carregadas "anunciando" chuva...coisa boa lá, de onde ele veio.
Já o olhava sem vê-lo, integrou-se na sala, diluiu-se. Hoje, sem razão aparente, não só voltei a vê-lo, me perguntei o que o mundo saberia dele.
Do site da Casa do Ceará em Brasília, colhi os dados biográficos do artista:
"Clidenor Capibaribe (Juazeiro do Norte - CE 1908 - Fortaleza - CE 1993)
Desenhista, pintor e ceramista, iniciou-se nas artes plásticas em 1923, recebendo posteriormente aulas de pintura de Gérson Faria. Expôs individualmente pela primeira vez somente em 1935, no Gabinete Portugues de Leitura, em Recife (PE), voltando no mesmo ano a expor no Salão dos Hoteleiros, também em Recife. Em 1941 Barrica esteve entre os fundadores do Centro Cultural de Belas Artes - CCBA e em 1944 entre os fundadores da Sociedade Cearense de Artes Plásticas - SCAP. Em 1946, 1947, 1948, 1950, 1951, 1953 e 1958, participa do Salao de Abril, em Fortaleza, fazendo jus a Menção Honrosa em 1951 e 1953. Expôs individualmente mais de uma centena de vezes, destacando-se as mostras realizadas em 1947 no instituto do Ceará, em 1948 no Instituto Brasil-Estados Unidos, em 1949 no antigo museu da Universidade Federal do Ceará, em 1963 e 1982 no Museu de Arte da UFC - MAUC e em 1967 na inauguraçao do Centro de Artes Visuais Casa de Raimundo Cela, todas em Fortaleza (CE), e em 1957 na Galeria Montmarte, em 1958, 1959 e 1960 na Galeria Copacabana Arte, em 1966 na Galeria Gead, com apresentaçao de Austregésio de Athaide, todas no Rio de Janeiro (RJ), em 1971 na Galeria Coleccio e em 1981 na Galeria Renot ambas em Sao Paulo (SP), e em 1984 no Estado de Michigan - EUA. Foi homenageado em 1985 pelo Grupo Édson Queiroz com o destaque "Sereia de Ouro", pelos levados serviços prestados a cultura do Ceará. É verbete no "Dicionário das Artes Plásticas no Brasil", de Roberto Pontual, e no "Dicionário Crítico da Pintura no Brasil", de José Roberto Teixeira Leite, dentre outros".
E sobre a pessoa do Barrica,encontrei este texto do Airton Monte publicado no jornal O POVO em 11.05.2006
"Meu tio Barrica
Chamava-se Clidenor Capibaribe por nome de batismo. Era meu tio-avô, irmão de minha avó Valdenora, mãe de minha mãe. No mundo das artes plásticas, foi mais conhecido por seu nome de guerra: Barrica! Desenhista, pintor, ceramista e fotógrafo amador. Durante anos ganhou o pão de cada dia como retocador de retratos na velha Abafilme. E posso dizer que meu tio Barrica foi um dos inesquecíveis heróis de minha infância, porque toda infância que se preza há de ter seus heróis caseiros porque senão não é meninice.
Lembro perfeitamente que minha mãe passava horas me contando histórias do Barrica e morria de rir de suas esquisitices e excentricidades que terminaram por virar lendas familiares. Baixinho, gordinho, atarracado como um barril, de longos bigodes e uma risadinha moleque de garoto travesso. Agora penso que foi o primeiro artista de verdade que eu conheci em minha curta vida. Gostava de vê-lo pintar na casa do meu tio Valci, a mesma casa que tornou-se algum tempo depois na casa de meu pai, o meu querido e vetusto Solar dos Monte.
Nu da cintura pra cima, enfiado numa surrada calça de pijama, pincel numa mão, palheta de tintas na outra, Barrica ia me contando "causos" enquanto trabalhava a sua arte e de suas mãos brotava uma miríade de cores que me deixavam completamente fascinado. Nos fins de tarde, sentava-se numa cadeira de balanço, empunhava o bandolim e a pequena varanda ia se enchendo de música, valsinhas, chorinhos. Nas festas juninas entregava-se a um divertimento perigoso: fazer fogos de artifício. Um dia, errou na dose de pólvora e chamuscou os bigodes.
Mais tarde, quando soube que eu fazia versos, mostrou-me alguns de seus sonetos escritos no mais puro francês. Batizou todos os filhos com nomes gregos. Na hora da merenda, me chamava pra comer "Tabaco de Adão", que era nada mais nada menos que banana frita com canela. Era um homem estranho, o Barrica. Estranho, não. Talvez nós é que sejamos estranhos. Barrica era um poeta, um fazedor de arte, um artesão da beleza. Sei que está havendo uma exposição dele na cidade. Vou até lá para ver, relembrar e matar as saudades."
Olhando agora para ele, pareceu-me diferente...
Dia feliz!

dezembro 05, 2008
O poder de um bom cochilo

Vi no blog da Revista Mente&Cérebro a propósito de sono e memória: "Pesquisador defende que soneca de apenas seis minutos pode estimular a memória"
Para muitos, sucumbir à tentação e tirar uma soneca rápida pode ser motivo de constrangimento. E, dependendo dos compromissos marcados para o período da tarde, a pessoa estará sujeita a levar uma bronca do chefe ou professor. Mas se levarmos em conta os últimos resultados das pesquisas sobre o sono, o dorminhoco deveria receber um tapinha nas costas de cumprimento.
É interessante a continuação e pode ser lida clicando o título da postagem.
ATELIER ABERTO em Curitiba

Acontece em Curitiba no Parque São Lourenço, nos dias 5, 6 e 7 a melhor feira de objetos de conceito e arte. As peças são lindas e do maior bom gosto. Conheço bem o trabalho da maioria dos artistas que participam.
Vale a pena ver, comprar os presentes de Natal mais originais e ainda aproveitar o parque, que é lindo!
Pausa
Chopin's Nocturne in EbM Op.9 No.2 Arthur Rubinstein...
Impertinências
"De onde surgem os riscos dos bordados?
Apagam-se os desenhos nos panos ou a bordadeira simplesmente finge que não existem?
Quando pára de sangrar a dor da costureira, antes ou depois da picada da agulha?
Será que o perfume do tempo nos tecidos se dissolve na máquina de lavar?
E as colchas de flanela? Conseguem aquecer cabelos brancos?"
Este "poemeto" (como o chamou a própria autora) integrará o próximo livro de IVANA NASSER que enviou para o blog via e-mail.
De sua autoria a Almenara Editorial publicou HORAS A FIO
Impertinências
"De onde surgem os riscos dos bordados?
Apagam-se os desenhos nos panos ou a bordadeira simplesmente finge que não existem?
Quando pára de sangrar a dor da costureira, antes ou depois da picada da agulha?
Será que o perfume do tempo nos tecidos se dissolve na máquina de lavar?
E as colchas de flanela? Conseguem aquecer cabelos brancos?"
Este "poemeto" (como o chamou a própria autora) integrará o próximo livro de IVANA NASSER que enviou para o blog via e-mail.
De sua autoria a Almenara Editorial publicou HORAS A FIO
Vida e morte
A noção de velhice associada à idéia de decadência e fealdade dificulta a cada um o seu próprio envelhecimento
--------------------------------------------------------------------------------
"JOÃO PEREIRA Coutinho escreveu um artigo ("Morte e vida", Ilustrada, 25/11) cuja síntese é: as pessoas podem viver com dignidade até os 74 anos, o resto é desperdício, nas suas considerações que refletem profunda tanatofobia.
Alinho reflexões que desenvolvi no trato com as gentes e as palavras.
Não havendo uma política específica para o velho em nosso país, qual o seu lugar e seu papel na sociedade? Da marginalização no mercado de trabalho, oscilando entre a figura acomodada que merece uma distinção de respeito formal e a condição desprezada de ser atípico, principalmente nas grandes metrópoles.
Realmente, o psiquismo social partiu da importação de estereótipos radicais, numa ótica aguda do chamado "choque de gerações": "Não confie em ninguém com mais de 30 anos", seqüela de um período de revolta juvenil que jogou num confuso cadinho -da "beat generation" a Marcuse, das drogas e Katmandu- o interesse pela comercialização e venda de calças jeans, a excêntrica onda dos gurus orientais, onda modista característica da sociedade de consumo, ondas das imagens das baladas e dos surfistas...
Sociedade esta que valoriza a força física e a aparência estética, que procura promover uma faixa etária endeusada -aquela que produz mais, conseqüentemente, perturba menos (embora, formalmente, conteste mais o poder gerontocrático), aplicando seu dinheiro em mercadorias supérfluas, sem senso crítico acabado-, a juventude, vítima fácil de mecanismos ansiolíticos de voracidade, eis que seres em formação.
A tentativa de sinonímia entre jovem, forte e belo, particularmente por uma TV ensandecida (pela exploração nos anúncios provocadores que raiam a pornografia e pela vacuidade na correspondência entre idoso, fraco e feio). Isso num tempo sem compostura ética, em que ser fraco e feio é quase uma patologia que deve ser corrigida pela eliminação física, lembrando o romance de Casares em que, numa Buenos Aires ficcional, os velhos são caçados e mortos nas ruas.
Essa noção do velho amaldiçoado por uma sociedade acelerada, em que os músculos e a grosseria adolescente são colhidos pela permissividade da família e das ideologias avacalhadas, é um reflexo da contrapartida do filicídio, o atentado e a discriminação contra as crianças. Pois, na verdade, a comunidade que desrespeita um de seus estamentos não respeita nenhum.
Diga-se de passagem, essa fenomenologia não é só do nosso tempo. Já os índios nhambiquaras tinham uma só palavra para designar jovem e belo e outra para velho e feio.
A noção de velhice associada à idéia de decadência e fealdade dificulta a cada um o seu próprio envelhecimento; a psicologia constata que velhos são os outros, nunca nós mesmos, paradoxo denunciado por Sartre.
Aliás, um de nossos dicionaristas arrola no verbete "velhice": "rabugice ou disparate próprio de velho"; e, em "velho": "desusado, antiquado, obsoleto". Esquecido que era, talvez, da sua própria velhice. Ah, as armadilhas ideológicas da lingüística...
O critério de velhice é muito relativo, dependente que é de fatores subjetivos e objetivos os mais diversos: para Hipócrates, aos 50 anos; para Aristóteles, que associava essa idade ao apogeu do indivíduo, aos 35 anos; e para Dante, aos 45. A menina casadoira acha-se "velha" aos 25 anos...
Sem que se faça a apologia do Matusalém bíblico, uma sociedade só merece a consagração humanística quando entende que "the answer, my friend, is blowin" in the wind", porque, na verdade, começamos a envelhecer a partir do nascimento. A função da vida é acomodar a pessoa ao presente em mudança. Com referência ao idoso, é bem-vinda a criação de uma legislação de amparo, simultânea a uma conscientização, privada e pública, do problema.
O destino se ri dos planos dos homens. Numa cultura narcísica, em que o ser se confunde com o prazer, o uso, o consumo, um presente sem passado e sem futuro, a morte é exilada. Contrariando Freud, o mal-estar não se origina na informação de que o homem é o único animal que sabe da morte. Na verdade, o ser humano é o único animal que sabe da eternidade, e o mal-estar se produz na incerteza, o estreito vagido entre o ir e o vir.
Grande desafio, o maior, paralisa a medicina, intriga a psicologia e provoca a teologia. Qual o sentido da falta de sentido aparente da morte? Qualquer tentativa de lógica nos remete a um raciocínio por semelhança. Qual o sentido ou a falta de sentido do nascimento? Biofilia e necrofilia, pólos opostos que imprimem as margens de nossa vida.
Viver é perigoso, filosofa Guimarães Rosa. Morrer deve ser uma tremenda aventura, diz Peter Pan, e se instaura a dialética do absurdo."
Na FSP de hoje - JACOB PINHEIRO GOLDBERG, 75, doutor em psicologia, advogado e escritor, é autor de "Psicologia em curta-metragem" e "Cultura da Agressividade".
Nota:o artigo do JPC tinha sido objeto da postagem "Entretantos" em 25.11.
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"JOÃO PEREIRA Coutinho escreveu um artigo ("Morte e vida", Ilustrada, 25/11) cuja síntese é: as pessoas podem viver com dignidade até os 74 anos, o resto é desperdício, nas suas considerações que refletem profunda tanatofobia.
Alinho reflexões que desenvolvi no trato com as gentes e as palavras.
Não havendo uma política específica para o velho em nosso país, qual o seu lugar e seu papel na sociedade? Da marginalização no mercado de trabalho, oscilando entre a figura acomodada que merece uma distinção de respeito formal e a condição desprezada de ser atípico, principalmente nas grandes metrópoles.
Realmente, o psiquismo social partiu da importação de estereótipos radicais, numa ótica aguda do chamado "choque de gerações": "Não confie em ninguém com mais de 30 anos", seqüela de um período de revolta juvenil que jogou num confuso cadinho -da "beat generation" a Marcuse, das drogas e Katmandu- o interesse pela comercialização e venda de calças jeans, a excêntrica onda dos gurus orientais, onda modista característica da sociedade de consumo, ondas das imagens das baladas e dos surfistas...
Sociedade esta que valoriza a força física e a aparência estética, que procura promover uma faixa etária endeusada -aquela que produz mais, conseqüentemente, perturba menos (embora, formalmente, conteste mais o poder gerontocrático), aplicando seu dinheiro em mercadorias supérfluas, sem senso crítico acabado-, a juventude, vítima fácil de mecanismos ansiolíticos de voracidade, eis que seres em formação.
A tentativa de sinonímia entre jovem, forte e belo, particularmente por uma TV ensandecida (pela exploração nos anúncios provocadores que raiam a pornografia e pela vacuidade na correspondência entre idoso, fraco e feio). Isso num tempo sem compostura ética, em que ser fraco e feio é quase uma patologia que deve ser corrigida pela eliminação física, lembrando o romance de Casares em que, numa Buenos Aires ficcional, os velhos são caçados e mortos nas ruas.
Essa noção do velho amaldiçoado por uma sociedade acelerada, em que os músculos e a grosseria adolescente são colhidos pela permissividade da família e das ideologias avacalhadas, é um reflexo da contrapartida do filicídio, o atentado e a discriminação contra as crianças. Pois, na verdade, a comunidade que desrespeita um de seus estamentos não respeita nenhum.
Diga-se de passagem, essa fenomenologia não é só do nosso tempo. Já os índios nhambiquaras tinham uma só palavra para designar jovem e belo e outra para velho e feio.
A noção de velhice associada à idéia de decadência e fealdade dificulta a cada um o seu próprio envelhecimento; a psicologia constata que velhos são os outros, nunca nós mesmos, paradoxo denunciado por Sartre.
Aliás, um de nossos dicionaristas arrola no verbete "velhice": "rabugice ou disparate próprio de velho"; e, em "velho": "desusado, antiquado, obsoleto". Esquecido que era, talvez, da sua própria velhice. Ah, as armadilhas ideológicas da lingüística...
O critério de velhice é muito relativo, dependente que é de fatores subjetivos e objetivos os mais diversos: para Hipócrates, aos 50 anos; para Aristóteles, que associava essa idade ao apogeu do indivíduo, aos 35 anos; e para Dante, aos 45. A menina casadoira acha-se "velha" aos 25 anos...
Sem que se faça a apologia do Matusalém bíblico, uma sociedade só merece a consagração humanística quando entende que "the answer, my friend, is blowin" in the wind", porque, na verdade, começamos a envelhecer a partir do nascimento. A função da vida é acomodar a pessoa ao presente em mudança. Com referência ao idoso, é bem-vinda a criação de uma legislação de amparo, simultânea a uma conscientização, privada e pública, do problema.
O destino se ri dos planos dos homens. Numa cultura narcísica, em que o ser se confunde com o prazer, o uso, o consumo, um presente sem passado e sem futuro, a morte é exilada. Contrariando Freud, o mal-estar não se origina na informação de que o homem é o único animal que sabe da morte. Na verdade, o ser humano é o único animal que sabe da eternidade, e o mal-estar se produz na incerteza, o estreito vagido entre o ir e o vir.
Grande desafio, o maior, paralisa a medicina, intriga a psicologia e provoca a teologia. Qual o sentido da falta de sentido aparente da morte? Qualquer tentativa de lógica nos remete a um raciocínio por semelhança. Qual o sentido ou a falta de sentido do nascimento? Biofilia e necrofilia, pólos opostos que imprimem as margens de nossa vida.
Viver é perigoso, filosofa Guimarães Rosa. Morrer deve ser uma tremenda aventura, diz Peter Pan, e se instaura a dialética do absurdo."
Na FSP de hoje - JACOB PINHEIRO GOLDBERG, 75, doutor em psicologia, advogado e escritor, é autor de "Psicologia em curta-metragem" e "Cultura da Agressividade".
Nota:o artigo do JPC tinha sido objeto da postagem "Entretantos" em 25.11.
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