dezembro 08, 2008

ADAMASTOR VOLTOU

O 'estranho homem puro' cai de pau no mês de dezembro.

"Adamastor é "o estranho homem puro", um personagem que o cronista Antônio Maria, coleguinha aqui do GLOBO nos anos 50, tirava da máquina de escrever quando estava cansado de legislar sobre a Humanidade na primeira pessoa. Era o alter ego furioso do cronista, o momento em que este não agüentava mais a mediocridade reinante e soltava os bichos para vociferar contra tudo. A hora de soltar os bofes, clamar por um mundo menos atrelado à afetação, à bobice e ao fingimento. Adamastor ia na contramão do pensar correto. Acabava falando verdades que Maria não tinha coragem de assinar na primeira pessoa.
Adamastor detesta dezembro, por exemplo, o mês em que todos simulam uma fraternidade ausente o ano inteiro. Ele acha cego intrigante, desconfia de mudos (não têm palavra) e se já não gosta de velho durante o ano inteiro, sempre emperrando a circulação na catraca do metrô, move caça especial ao símbolo maior do Natal. Acha que Papai Noel é o lobo em pele de cordeiro da temporada. Já fez escândalo em shopping por suspeitar que o "bom velhinho", fotografando na praça de alimentação com os filhos das mamães que tinham consumido acima de R$ 200, era um desses pedófilos da internet.
O homem é fogo. Nem tente acalmá-lo com essa história de "vamos com calma, vamos dar as mãos, é a data máxima da cristandade".
Aí mesmo que ele sobe nas tamancas e bate o bumbo. Detesta essa falsa amabilidade de fim de ano, esses amigos ocultos que presenteiam com meias e CDs. É capaz de pegar um punhado de castanhas e jogar na cara de quem lhe desejar um próspero ano novo. Ele grita de volta: "Eu me chamo Adamastor, Próspero é o nome disso aqui" — e, como se inspirado pelo "sifu" do Lula, faz um gesto lamentável pelo qual, desde já, nos desculpamos com o prezado leitor e prometemos apagar na próxima edição.
Eu encontrei o homem semana passada, ali na esquina de Siqueira Campos com Barata Ribeiro, e ele vibrava com os preços das nozes e avelãs, inflacionados pela alta do dólar.
Acha que assim todos desistem de imitar países que passam as festas no frio e comem com menos empáfia. Adamastor odeia comida de ceia de Natal. Só não deposita mais fervor na luta contra o peru à Califórnia porque guarda o melhor de sua fúria santa contra o vocabulário típico de dezembro.
Se ele perceber que o interlocutor vai fazer aquela frase cheia de salamaleques pseudoafetivos que termina no "tudo de bom para você e a sua família", o estranho homem puro começa a simular uma convulsão só para não ter que ouvir o purgante semântico até o fim.
Se alguma telefonista atende dizendo "Boas festas, em que posso ser útil?" — ele, num acesso da Síndrome da Índole Pura, desliga imediatamente.
Seu único juiz é a própria sensibilidade, e não há nada mais sensível em seu corpo seco, cheio de sardas, as mãos sempre para trás, precavidas contra qualquer cumprimento, do que o ouvido. Está com 79 anos, as deficiências auditivas inevitáveis, mas não usa Vienatone.
O que ouve já lhe basta e dói o suficiente. Percebeu que os clichês do mês de dezembro são quase uma língua à parte, uma meia dúzia de frases feitas em que as pessoas se apóiam para afirmar quão ricas de bons valores elas são.
A essas auto-afirmações de boa alma cristã, com todo seu pieguismo de novela ("Graças a Deus, passo Natal com a minha nora!"), Adamastor devota ódio mais puro que as águas do Rio Carioca que cortam Laranjeiras.
Ah, os senhores robustos garantindo que não querem ganhar nada, pois tendo saúde estão ricos! Ah, os sabichões de dezembro sempre dizendo "Vamos ver se esse governo toma vergonha ano que vem e ouve o povo".
Ah, os cariocas aproveitando a deixa para dizer "Vamos deixar passar essas festas de Natal, de Ano Novo, e a gente conversa sobre aquele negócio mais adiante".
Ah, aquelas madames sempre dizendo "Como o ano passou num piscar de olhos!" Adamastor gostaria que dezembro passasse mais rápido ainda e o poupasse das mensagens de fim de ano da Globo, dos anjinhos em cima da árvore da Lagoa, dos jornais cobrindo a Missa do Galo na Catedral e da mensagem em 147 línguas do Papa na Praça do Vaticano.
Ele acha tudo uma grande promoção da Casa & Vídeo para limpar os estoques. Evita confraternização de escritório porque não sabe do que seria capaz se o chefe convocasse todos para uma oração desejando que no final do próximo ano todos estivessem juntos novamente para repetir aquela corrente.
Encontrei o Adamastor naquela esquina da Barata com Siqueira, mas foi muito por acaso, e ele quase me escapa. O estranho homem puro de Copacabana tranca-se em casa em dezembro.
Naquele dia tinha saído para comprar jornal e estava absolutamente órfão, pois acabara de saber que a "Tribuna de Imprensa" não circularia mais. Achava que o jornal da Rua do Lavradio era o último bastião contra o Natal e todas essas rabanadas da alma gordurosa que andam por aí.
Adamastor ia naquele jeito de andar apressado que desenvolveu para fugir de dezembro e de seus gestos "humanitários".
Teme ser agarrado pelo casaco — ele sente muito frio nesses dias — e ser requisitado para contribuir com os livros de ouro do comércio de bairro. Diz que, embora os cronistas tenham piorado muito desde a morte do Antonio Maria, em 1964, vai assinar O GLOBO.Mas só em janeiro. Não quer colaborar com a caixinha do entregador da assinatura, outra praga de dezembro. Economiza uns cobres no bolso e poupa os ouvidos de mais um "tudo de bom para o senhor".
Antes de se mandar com a bisnaga do pão embrulhada embaixo do braço, Adamastor deu seu único sorriso. Do jeito que a crise vai, acha que não haverá Natal em 2009
."

Joaquim Ferreira dos Santos - O GLOBO de hoje

dezembro 07, 2008

Mais um Natal

"Aviso num restaurante de Brighton, que o dono fez imprimir no cardápio, à revelia dos garçons: "Somos seus amigos e lhe desejamos um Feliz Natal. Por favor, não nos ofenda, dando-nos gorjetas."
Junto à porta de saída, entretanto, os garçons fizeram dependurar uma caixinha sob o letreiro: "Ofensas”.
E no dia de Natal, como sempre, todos os bares de Londres permanecem fechados. Mas consegui realizar o milagre de encontrar em Chelsea um bar aberto, lá para as dez horas da noite. Meio desconfiado, fui entrando — logo um dos fregueses se adiantou, copo de cerveja na mão:
— Perdão, cavalheiro, mas o senhor já foi à igreja hoje?
E se justificou estendendo o braço ao redor, para apontar os demais fregueses, que bebiam cerveja em silêncio.
— Porque aqui dentro, nós todos já fomos.
E sem esperar resposta, passou-me o seu copo de cerveja, pedindo ao barman outro para si.
Festejou-se o Natal, já se festeja o Ano Novo. Há, porém, muita gente na triste perspectiva de passar ambas as festas em completa solidão. Como é o caso de Ethel Denham, uma velhinha com mais de oitenta anos de idade.
Dona Ethel não tem filhos nem marido: nunca chegou a se casar. Mora sozinha numa pequena casa de Exeter, fruto de sua aposentadoria. Para que não lhe aconteça alguma coisa sem ter a quem apelar, foi instalada à porta de sua casinha uma luz vermelha, que ela pode acender para pedir socorro, em caso de necessidade.
Na noite de Natal esta necessidade veio, mais imperiosa do que nunca. A boa velhinha não agüentava a idéia de estar sozinha e passar o Natal sem ninguém. Então acendeu luz de socorro e aguardou os acontecimentos.
Em pouco chegava um guarda de serviço, para ver o que tinha acontecido. E viu que não tinha acontecido nada.
— Fique um pouquinho — pediu ela. — Vamos conversar um pouco.
O guarda teve pena e resolveu ficar. Para não estar sem fazer nada, enquanto conversava fiado com a velhinha, fez um chá, aproveitou e lavou a louça, limpou a cozinha, deu uma arrumação na casa.
Para quê! Há gestos de solidariedade e compreensão que exigem outros, pois acostumam mal. Ou acostumam bem, ainda que na simples necessidade de participar da humana convivência. A dona da casa, encantada, na noite seguinte, depois de fazer o jantar, ficou esperando o seu Papai Noel tornar a aparecer. Como ele nunca mais viesse, não teve dúvida: acendeu a luz do pedido de socorro. Em pouco surgia outro guarda, para saber o que havia.
— Fique um pouquinho — pediu ela: — O senhor não aceita uma xícara de chá?
Mas este estava de serviço mesmo, não era mais noite de Natal nem nada. Então confortou a velhinha como pôde e caiu fora.
Ela, desde então, está esperando o primeiro guarda voltar — aquele sim, tão bonzinho que ele é. Não se conformando mais, depois de três noites de espera, vestiu um capote¬, enrolou-se num chale e saiu para o frio da rua até a guarnição local, a fim de saber onde andava o seu amigo. Mas não lhe guardara o nome, de modo que o comandante da guarnição, apesar de sua boa vontade, não conseguiu localizá-lo. Agora, a velhinha apela através do jornal, pedindo ao próprio que apareça uma noite dessas, para um dedinho de prosa, para uma xícara de chá.
Outros, cuja necessidade material é mais imperiosa ainda que o convívio, tiveram quem apelasse em nome deles durante o Natal. O vigário da minha paróquia, em West Hampstead, resolveu perder a cerimônia, durante a prédica:
— Vou ser claro e quem tiver ouvidos para ouvir, ouça: estamos nas vésperas do Natal, é preciso ser generoso, proporcionarmos aos pobres um fim de ano decente. Eles também têm direito. Quero hoje uma coleta mais abundante que nos outros domingos. Falei claro? Pois vou lançar mão de uma parábola, para não perder o hábito, e porque fica mais bonito. Já usei essa parábola em outros Natais, e com grande sucesso. Lá vai ela, prestem atenção.
E pôs-se a contar a história daquele inglês que estava passeando pelo campo, como só os ingleses costumam fazer, quando de repente caiu uma chuvarada. Ele, naquele descampado, não tinha onde se esconder. Avistou ao longe uma árvore solitária, correu para lá — mas era uma árvore desgalhada e desfolhada, quase que só tinha tronco. No tronco havia um oco — o homem não teve dúvida: meteu-se no oco da árvore, para se esconder da chuva.
Vai daí, no que a chuva amainou, o homem quis sair do oco da árvore, não houve jeito: a água tinha feito inchar a madeira e a passagem, já estreita, estreitara-se ainda mais. Ali estava ele, prisioneiro da árvore, sozinho no meio do campo, jamais sairia dali, certamente morreria entalado. Então começou a meditar na estupidez que fora sua vida, sempre preocupado com o próprio bem-estar, sem jamais pensar em seus semelhantes. Nunca lhe ocorrera dar uma esmola para os pobres no Natal, por exemplo. Se freqüentasse a igreja da sua paróquia (e aqui o vigário fazia um parêntese: "que certamente podia ser esta aqui mesmo, ele podia ser um dos senhores que estão me ouvindo"), ele seria sensível a este apelo à sua generosidade. Mas não: gastava dinheiro à toa, com bobagem, nunca abrira mão de um mínimo que fosse para atender à necessidade de alguém. E foi-se sentindo cada vez mais ínfimo, diminuindo diante de si mesmo, com a consciência da sua própria iniqüidade. Deu-se então o milagre: tanto diminuiu, ficou tão pequenino, que conseguiu sair do oco da árvore.
E o vigário arremata:
— Vamos ter uma estação bem chuvosa este fim de ano! Cuidado com o oco da árvore em que se meterem! Lembrem-se da própria pequenez! Dêem esmolas aos meus pobres!
Já o dono de uma área de estacionamento de automóveis onde costumo parar o meu carro, em pleno centro de Londres, deixa-se impregnar à sua maneira do espírito de generosidade reinante no Natal. Tanto assim, que dei com o seguinte aviso ali afixado:
"Feliz Natal! Hoje o estacionamento aqui é gratuito.
Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.
Em tempo: a paz na terra aos homens de boa vontade termina impreterivelmente à meia-noite."

Fernando Sabino no "Livro Aberto"

Pudor e Celular

Andei lendo um artigo interessante de autoria de Jonathan Franzen que é apontado como o principal nome da nova geração de escritores americanos. Seu trabalho foi publicado na "Technology Review" e, traduzido por Clara Allain, veio parar na FSP, onde o li um dia destes.
O autor, se dizendo a favor dos avanços tecnológicos, descreve as modificações provocadas pelo uso do celular, nos espaços públicos e nas formas de sensibilidade vigentes. A irritação que lhe causa tais comportamentos me fez lembrar o personagem do conto do Julien Barnes (do livro "Um toque de limão") que, incomodadíssimo com espirros, tosses e fungados durante os concertos desenvolveu várias teorias sobre como punir os "infratores". A estória é ótima!
O celular, todos sabem, foi uma das novidades modernas, cujo sucesso foi rápido e total. Porém, embora existam pessoas que usam dois ou três ao mesmo tempo, há as que, simplesmente, não aderiram e passam muito bem sem ele. Não sentem a menor falta. O que deve ser verdade.
Tenho pelo menos dois amigos, em cidades diferentes, entre estes resistentes. Acredito que sofram muitas pressões. Eu sequer comento o fato. Eles fizeram a opção. Quando os procuro em casa e não os encontro, deixo recado na secretária eletrônica ou ligo mais tarde.
Há quem não acredite que a vida possa funcionar desta maneira.
Coincidentemente,(?) de ambos, já ouvi quase as mesmas queixas quanto às variadas formas de mau uso do celular nos espaços públicos. (A um deles fiz lembrar o velhinho irritado do conto do Barnes). Telefones que tocam na sala de aula (um deles é professor), concerto, teatro, cinema, casamentos, audiências, supermercados, no trânsito. E no ônibus - onde me encontro - todos estão avisando que o ônibus está "quase na ponte".
O pior disto, acho que presenciei ontem no restaurante onde almoçávamos. Na mesa vizinha, enquanto comia, alguém falava em dois telefones ao mesmo tempo.
O autor do texto que inspirou este comentário vai mais longe:
“De todas as variedades cada vez piores de mau comportamento ao celular, aquela que mais profundamente me irrita é a que, pelo fato de não fazer vítimas evidentes, aparentemente não irrita a mais ninguém. Refiro-me ao hábito -incomum há dez anos, mas hoje onipresente- de encerrar conversas ao celular gritando "amo você!". Ou, ainda mais opressivo e exasperador, "eu te amo!". Isso faz sentir vontade de me mudar para a China, onde não entendo a língua que as pessoas falam. Me dá vontade de gritar”
A banalização destas "fórmulas" usadas nas despedidas (as quais eu acrescentaria "um beijo no seu coração", argh!) o levou a dar ao seu artigo o título de“amor sem pudor “.
Ele diz mais: “O componente celular de minha irritação é simples e direto. Simplesmente não quero -enquanto estou comprando meias ... ou na fila para comprar um ingresso e me ocupando com meus pensamentos pessoais ou tentando ler um romance num avião quando o embarque ainda não foi encerrado- ser arrastado em minha imaginação para o mundo pegajoso da vida doméstica de algum ser humano próximo.
E não existe declaração de mais alto calibre que "eu te amo" -não há nada pior que um indivíduo possa impor a um espaço público comum. Mesmo "vá à merda, imbecil!" é menos invasivo, na medida em que é o tipo de coisa que pessoas iradas às vezes gritam em público e que pode igualmente bem ser dirigido a um estranho.
".
Para ele, o avanço tecnológico que causa danos sociais mais importantes é o celular por expor ao risco de ser ridicularizado quem se queixar dele publicamente.
A gente é obrigada a lhe dar razão.

Concerto de Natal


Os corais Madrigal Vocale e Papo Coral sob a regência de Norton Morozowicz se apresentarão no dia 10 de dezembro, às 21 hs., no Teatro Positivo, em Curitiba.
Cada pessoa tem direito a dois ingresso que podem ser obtidos na bilheteria do teatro até o dia 08. Minha amiga que assistiu ao ensaio e me enviou o convite disse ser maravilhoso. Pena que não possa comparecer.

D o m i n g o

Billy Vaughn e sua orquestra - Look for Star

dezembro 06, 2008

Etiqueta ou a falta dela

Gosto de tomar vinho às refeições, mesmo quando estou desacompanhada. Se acontece de ser num restaurante que não sirva em taça (un verre de rouge!) ou garrafa de 375ml, nunca deixo a garrafa com o que sobrou. Afinal comprei e paguei mais caro do que em uma importadora ou supermercado. Que se lixem os incomodados! Levo a garrafa comigo. É comum as pessoas deixarem a garrafa, algumas pela metade...
Vejo no blog etiquetésima da Márcia Zoladz que levar o vinho para casa não infringe nenhum regra. Ela vai mais longe para sugerir que, ao pedir o vinho, se deve avisar para guardarem a rolha e que você vai levar para casa, se sobrar.
E trata ainda da hipótese em que você frequenta sempre o mesmo restaurante e gostaria de levar um vinho para acompanhar a refeição. Neste caso, deve-se consultar se é permitido e qual o preço da rolha. O que só valeria para vinhos com a mesma qualidade ou até melhor do que aqueles que a casa oferece.
Este tipo de "economia", no varejo, não encaro. Mas paguei a rolha quando ofereci um jantar para 46 pessoas e o preço do mesmo vinho, mesmo pagando a rolha, era muito inferior ao cobrado pelo restaurante.
Pode parecer bobagem, mas gostei de ficar sabendo disto.

BARRICA


Este quadro está comigo há mais de vinte anos!
As nuvens carregadas "anunciando" chuva...coisa boa lá, de onde ele veio.
Já o olhava sem vê-lo, integrou-se na sala, diluiu-se. Hoje, sem razão aparente, não só voltei a vê-lo, me perguntei o que o mundo saberia dele.
Do site da Casa do Ceará em Brasília, colhi os dados biográficos do artista:

"Clidenor Capibaribe (Juazeiro do Norte - CE 1908 - Fortaleza - CE 1993)
Desenhista, pintor e ceramista, iniciou-se nas artes plásticas em 1923, recebendo posteriormente aulas de pintura de Gérson Faria. Expôs individualmente pela primeira vez somente em 1935, no Gabinete Portugues de Leitura, em Recife (PE), voltando no mesmo ano a expor no Salão dos Hoteleiros, também em Recife. Em 1941 Barrica esteve entre os fundadores do Centro Cultural de Belas Artes - CCBA e em 1944 entre os fundadores da Sociedade Cearense de Artes Plásticas - SCAP. Em 1946, 1947, 1948, 1950, 1951, 1953 e 1958, participa do Salao de Abril, em Fortaleza, fazendo jus a Menção Honrosa em 1951 e 1953. Expôs individualmente mais de uma centena de vezes, destacando-se as mostras realizadas em 1947 no instituto do Ceará, em 1948 no Instituto Brasil-Estados Unidos, em 1949 no antigo museu da Universidade Federal do Ceará, em 1963 e 1982 no Museu de Arte da UFC - MAUC e em 1967 na inauguraçao do Centro de Artes Visuais Casa de Raimundo Cela, todas em Fortaleza (CE), e em 1957 na Galeria Montmarte, em 1958, 1959 e 1960 na Galeria Copacabana Arte, em 1966 na Galeria Gead, com apresentaçao de Austregésio de Athaide, todas no Rio de Janeiro (RJ), em 1971 na Galeria Coleccio e em 1981 na Galeria Renot ambas em Sao Paulo (SP), e em 1984 no Estado de Michigan - EUA. Foi homenageado em 1985 pelo Grupo Édson Queiroz com o destaque "Sereia de Ouro", pelos levados serviços prestados a cultura do Ceará. É verbete no "Dicionário das Artes Plásticas no Brasil", de Roberto Pontual, e no "Dicionário Crítico da Pintura no Brasil", de José Roberto Teixeira Leite, dentre outros".


E sobre a pessoa do Barrica,encontrei este texto do Airton Monte publicado no jornal O POVO em 11.05.2006

"Meu tio Barrica

Chamava-se Clidenor Capibaribe por nome de batismo. Era meu tio-avô, irmão de minha avó Valdenora, mãe de minha mãe. No mundo das artes plásticas, foi mais conhecido por seu nome de guerra: Barrica! Desenhista, pintor, ceramista e fotógrafo amador. Durante anos ganhou o pão de cada dia como retocador de retratos na velha Abafilme. E posso dizer que meu tio Barrica foi um dos inesquecíveis heróis de minha infância, porque toda infância que se preza há de ter seus heróis caseiros porque senão não é meninice.
Lembro perfeitamente que minha mãe passava horas me contando histórias do Barrica e morria de rir de suas esquisitices e excentricidades que terminaram por virar lendas familiares. Baixinho, gordinho, atarracado como um barril, de longos bigodes e uma risadinha moleque de garoto travesso. Agora penso que foi o primeiro artista de verdade que eu conheci em minha curta vida. Gostava de vê-lo pintar na casa do meu tio Valci, a mesma casa que tornou-se algum tempo depois na casa de meu pai, o meu querido e vetusto Solar dos Monte.
Nu da cintura pra cima, enfiado numa surrada calça de pijama, pincel numa mão, palheta de tintas na outra, Barrica ia me contando "causos" enquanto trabalhava a sua arte e de suas mãos brotava uma miríade de cores que me deixavam completamente fascinado. Nos fins de tarde, sentava-se numa cadeira de balanço, empunhava o bandolim e a pequena varanda ia se enchendo de música, valsinhas, chorinhos. Nas festas juninas entregava-se a um divertimento perigoso: fazer fogos de artifício. Um dia, errou na dose de pólvora e chamuscou os bigodes.
Mais tarde, quando soube que eu fazia versos, mostrou-me alguns de seus sonetos escritos no mais puro francês. Batizou todos os filhos com nomes gregos. Na hora da merenda, me chamava pra comer "Tabaco de Adão", que era nada mais nada menos que banana frita com canela. Era um homem estranho, o Barrica. Estranho, não. Talvez nós é que sejamos estranhos. Barrica era um poeta, um fazedor de arte, um artesão da beleza. Sei que está havendo uma exposição dele na cidade. Vou até lá para ver, relembrar e matar as saudades."


Olhando agora para ele, pareceu-me diferente...

Dia feliz!



Os meus amigos do Porto, aqueles bonitinhos da foto aí do lado, hoje estão em festa. Inauguram uma nova loja. Acompanhei todo o projeto e obra de reforma do prédio que ficou lindo! Hoje gostava (à moda portuguesa), compartilhando da alegria deles, de desejar muito sucesso também neste novo endereço!

dezembro 05, 2008

O poder de um bom cochilo


Vi no blog da Revista Mente&Cérebro a propósito de sono e memória: "Pesquisador defende que soneca de apenas seis minutos pode estimular a memória"
Para muitos, sucumbir à tentação e tirar uma soneca rápida pode ser motivo de constrangimento. E, dependendo dos compromissos marcados para o período da tarde, a pessoa estará sujeita a levar uma bronca do chefe ou professor. Mas se levarmos em conta os últimos resultados das pesquisas sobre o sono, o dorminhoco deveria receber um tapinha nas costas de cumprimento.
É interessante a continuação e pode ser lida clicando o título da postagem.

ATELIER ABERTO em Curitiba


Acontece em Curitiba no Parque São Lourenço, nos dias 5, 6 e 7 a melhor feira de objetos de conceito e arte. As peças são lindas e do maior bom gosto. Conheço bem o trabalho da maioria dos artistas que participam.
Vale a pena ver, comprar os presentes de Natal mais originais e ainda aproveitar o parque, que é lindo!

Pausa

Chopin's Nocturne in EbM Op.9 No.2 Arthur Rubinstein...


Impertinências
"De onde surgem os riscos dos bordados?

Apagam-se os desenhos nos panos ou a bordadeira simplesmente finge que não existem?

Quando pára de sangrar a dor da costureira, antes ou depois da picada da agulha?

Será que o perfume do tempo nos tecidos se dissolve na máquina de lavar?

E as colchas de flanela? Conseguem aquecer cabelos brancos?"

Este "poemeto" (como o chamou a própria autora) integrará o próximo livro de IVANA NASSER que enviou para o blog via e-mail.
De sua autoria a Almenara Editorial publicou HORAS A FIO

Vida e morte

A noção de velhice associada à idéia de decadência e fealdade dificulta a cada um o seu próprio envelhecimento
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"JOÃO PEREIRA Coutinho escreveu um artigo ("Morte e vida", Ilustrada, 25/11) cuja síntese é: as pessoas podem viver com dignidade até os 74 anos, o resto é desperdício, nas suas considerações que refletem profunda tanatofobia.
Alinho reflexões que desenvolvi no trato com as gentes e as palavras.
Não havendo uma política específica para o velho em nosso país, qual o seu lugar e seu papel na sociedade? Da marginalização no mercado de trabalho, oscilando entre a figura acomodada que merece uma distinção de respeito formal e a condição desprezada de ser atípico, principalmente nas grandes metrópoles.
Realmente, o psiquismo social partiu da importação de estereótipos radicais, numa ótica aguda do chamado "choque de gerações": "Não confie em ninguém com mais de 30 anos", seqüela de um período de revolta juvenil que jogou num confuso cadinho -da "beat generation" a Marcuse, das drogas e Katmandu- o interesse pela comercialização e venda de calças jeans, a excêntrica onda dos gurus orientais, onda modista característica da sociedade de consumo, ondas das imagens das baladas e dos surfistas...
Sociedade esta que valoriza a força física e a aparência estética, que procura promover uma faixa etária endeusada -aquela que produz mais, conseqüentemente, perturba menos (embora, formalmente, conteste mais o poder gerontocrático), aplicando seu dinheiro em mercadorias supérfluas, sem senso crítico acabado-, a juventude, vítima fácil de mecanismos ansiolíticos de voracidade, eis que seres em formação.
A tentativa de sinonímia entre jovem, forte e belo, particularmente por uma TV ensandecida (pela exploração nos anúncios provocadores que raiam a pornografia e pela vacuidade na correspondência entre idoso, fraco e feio). Isso num tempo sem compostura ética, em que ser fraco e feio é quase uma patologia que deve ser corrigida pela eliminação física, lembrando o romance de Casares em que, numa Buenos Aires ficcional, os velhos são caçados e mortos nas ruas.
Essa noção do velho amaldiçoado por uma sociedade acelerada, em que os músculos e a grosseria adolescente são colhidos pela permissividade da família e das ideologias avacalhadas, é um reflexo da contrapartida do filicídio, o atentado e a discriminação contra as crianças. Pois, na verdade, a comunidade que desrespeita um de seus estamentos não respeita nenhum.
Diga-se de passagem, essa fenomenologia não é só do nosso tempo. Já os índios nhambiquaras tinham uma só palavra para designar jovem e belo e outra para velho e feio.
A noção de velhice associada à idéia de decadência e fealdade dificulta a cada um o seu próprio envelhecimento; a psicologia constata que velhos são os outros, nunca nós mesmos, paradoxo denunciado por Sartre.
Aliás, um de nossos dicionaristas arrola no verbete "velhice": "rabugice ou disparate próprio de velho"; e, em "velho": "desusado, antiquado, obsoleto". Esquecido que era, talvez, da sua própria velhice. Ah, as armadilhas ideológicas da lingüística...
O critério de velhice é muito relativo, dependente que é de fatores subjetivos e objetivos os mais diversos: para Hipócrates, aos 50 anos; para Aristóteles, que associava essa idade ao apogeu do indivíduo, aos 35 anos; e para Dante, aos 45. A menina casadoira acha-se "velha" aos 25 anos...
Sem que se faça a apologia do Matusalém bíblico, uma sociedade só merece a consagração humanística quando entende que "the answer, my friend, is blowin" in the wind", porque, na verdade, começamos a envelhecer a partir do nascimento. A função da vida é acomodar a pessoa ao presente em mudança. Com referência ao idoso, é bem-vinda a criação de uma legislação de amparo, simultânea a uma conscientização, privada e pública, do problema.
O destino se ri dos planos dos homens. Numa cultura narcísica, em que o ser se confunde com o prazer, o uso, o consumo, um presente sem passado e sem futuro, a morte é exilada. Contrariando Freud, o mal-estar não se origina na informação de que o homem é o único animal que sabe da morte. Na verdade, o ser humano é o único animal que sabe da eternidade, e o mal-estar se produz na incerteza, o estreito vagido entre o ir e o vir.
Grande desafio, o maior, paralisa a medicina, intriga a psicologia e provoca a teologia. Qual o sentido da falta de sentido aparente da morte? Qualquer tentativa de lógica nos remete a um raciocínio por semelhança. Qual o sentido ou a falta de sentido do nascimento? Biofilia e necrofilia, pólos opostos que imprimem as margens de nossa vida.
Viver é perigoso, filosofa Guimarães Rosa. Morrer deve ser uma tremenda aventura, diz Peter Pan, e se instaura a dialética do absurdo."

Na FSP de hoje - JACOB PINHEIRO GOLDBERG, 75, doutor em psicologia, advogado e escritor, é autor de "Psicologia em curta-metragem" e "Cultura da Agressividade".

Nota:o artigo do JPC tinha sido objeto da postagem "Entretantos" em 25.11.

dezembro 04, 2008

“Quero fazer muito sexo”

Recebi por e-mail de uma amiga.Postei aqui sem pretender alimentar as esperanças das que ainda sonham com isto. Tenham calma e juízo! Aconteceu em NY!

"A professora aposentada Jane Juska tinha 66 anos e um jejum sexual que durava três décadas quando decidiu publicar um anúncio incomum num jornal de literatura de Nova York: “Antes de completar 67 anos – no próximo mês de março –, eu gostaria de fazer muito sexo com um homem de quem eu goste”. Jane, então divorciada e já com um filho adulto, imaginou que no máximo dois ou três homens dariam retorno. Mas sua caixa postal recebeu 63 respostas. Ela escolheu alguns dos candidatos e marcou encontros para conhecê-los pessoalmente. Fez sexo com quatro deles (um de cada vez). O ato de coragem só não foi maior que, anos depois, contar suas aventuras no livro Uma Mulher de Vida Airada – Memórias de Amor e Sexo depois dos 60 (Editora Rocco), que chega ao Brasil nesta semana".
Para ler resenha do livro clicar no título da postagem.

Sobre blogs...

Trecho de Meu Blog, de 01.12, do IVAN LESSA, no BBCBrasil:

"...É blog que não acaba mais. E cada blog dá links, ou enlaces, com outros blogs. Nós olhando e eles se reproduzindo a bloguear qual besta de mil costados. Todo mundo tem opinião. E onde todo mundo tem opinião, ninguém tem opinião.
Vaidade, tudo é vaidade. Aqueles tipos estranhos, infelizes e solitários, que escreviam para os jornais e revistas “parabenizando pela reportagem” ou “indignados com a permanência na equipe do colunista Fulano de Tal”, todos têm seu blog. Alguns caprichadíssimos. Os professores de “blogueçaõ” proliferam e faturam alto.
Maravilha. Nunca o mundo foi mais democrático. Se um dos critérios da democracia é todos terem opinião sobre tudo. Ler essa opinião é mais embaixo. Bem mais embaixo.
Blogs e mais blogs. Sobre tudo. Quem é alguém, ou melhor dizendo, quem não é ninguém ou almeja ser alguém, tem seu blog. Acabou aquela história de escrever palavrão nas paredes dos mictórios públicos. Blogueia-se, ao invés.
Tendo isso em mente, e não querendo ficar para trás, alardeio-me logo avisando que estou com um guru informático preparando-me para inaugurar meu blog.
Justamente por volta de 20 de janeiro, quando da posse de Obama. Sou crente firme em sincronicidades. Já tem nome meu quinhão cibernético. Vai-se chamar “Meu Blog”. Só que aí entra o pulo do gato: o O de blog é um coraçãozinho vermelho, feito o famoso logotipo I (coraçãozinho vermelho) NY, do genial Milton Glazer.
Adianto algo de minha filosofia virtual só para aguçar o apetite dos eventuais leitores, que, espero, sejam milhares. Serei, para fugir aos ditames ora em moda, original. Não é fácil ser original. Uma ligeira repassada sobre os temas em que pretendo me fixar.
Primeiro, nada de notícias tristes feito os recentes eventos na Índia, Nigéria ou Tailândia. Nada de enchentes ou Oriente Médio. Dobre a esquerda, marcha implacável da pedofilia. Sumam-se de minha presença crimes de colarinho branco ou outra tonalidade de crimes com arma branca ou de fogo. Todo e qualquer governo merecerá o desprezo a que fazem jus. Não, não, mil vezes não.
Falarei de romances, direi do amor, espalharei os sonhos impossíveis de felicidade. Contarei casos tocantes de crianças. Conforme o dia, comporei hinos ao sol e à lua que velam amorosamente sobre nós. Recorrerei à memória e lembrarei tempos mais ingênuos e doces, gentes mais suaves e finas.
Lembrarei as grandes paixões e os esplêndidos filmes em branco e preto. Ilustrarei com flores, muitas flores, mas nada à maneira crítica sarcástica de Geraldo Vandré, de preto, no Maracanãzinho. Estarei sempre de azul cerúleo.
Citarei meus trechos prediletos de poesia (pode deixar que J.G. de Araujo Jorge estará presente) e não dedicarei palavra a roubo sistemático de óculos de estátua de vate à beiramar. Tentarei descrever o sentimento que me invade ao ver o cão coçando a orelha direita com a patinha esquerda. Gatos, gatos em profusão, que eles só vivem para enfeitar este mundo de catástrofes naturais e contribuições financeiras dúbias. Descreverei, como se lidando com fraudes políticas, o vôo de um pássaro rasgando a tarde azul de primavera.
Creio haver, neste mundo de blogs, espaço para mais um. Criativo e construtivo. Mais detalhes quando a ocasião estiver mais próxima."

Miguel Paiva e nós





Ele sabe tudo...
Namoros, casamentos, sexo casual e relacionamentos amorosos em geral não são necessariamente fáceis ou simples. Há brigas, ciúmes, ruídos de comunicação e, é claro, o lado bom. O quadrinista carioca Miguel Paiva costuma refletir sobre as relações humanas, sempre com muito humor, em HQs que abordam as questões de pontos-de-vista diferentes: o masculino, com o "Gatão de Meia-Idade"; e o feminino, com "Radical Chic".

AUTO-AJUDA

Que está na moda escrever romances a partir de obras de arte dá para perceber pelos inúmeros títulos relacionados à música, pintores e seus trabalhos artísticos. Nos que li, as tramas se desenvolviam numa faixa indefinida entre ficção/realidade e uma reconstrução de época, em geral,interessante. De concreto, a obra referenciada, dados biográficos do artista, fatos conhecidos de sua vida e, no mais, pura fantasia. Tais ingredientes nas mãos de alguns resultaram em boas estórias, como as de Trace Chevalier, dentre outros autores comentados em postagens anteriores (v. literatura).
Estão indo mais longe no aproveitamento deste "filão". Surpreendi-me diante de um livro de auto-ajuda inspirado em ninguém menos que Michelangelo Buonarroti, o genial artista do Renascimento italiano. O livro chama-se: O Método Michelangelo - Revele sua obra-prima e crie uma vida extraordinária. Conseguiram extrair do seu trabalho a mensagem de que existiria uma obra-prima dentro de cada um de nós (!?), que pode ser revelada por meio da determinação e da superação de obstáculos.
Rejeições à parte, alguém sabe me explicar por que passamos a precisar tanto deste tipo de leitura?
São poucas as variações existentes nas receitas para sucesso e/ou felicidade: reconhecer suas habilidades e talentos, explorar seus pontos fortes e conciliá-los com seus valores . Está pronta a fórmula, mudam apenas embalagem e apresentação. Ou estou equivocada?
No caso do Método Michelangelo seriam etapas: visualize sua obra interior, descubra o seu dom, capitalize seus pontos fortes, comprometa-se firmemente com seus ideais, planeje primeiro e depois apare as arestas, encontre o apoio de que precisa, lute por seu ideal, use sua própria experiência de forma criativa, force os seus limites e viva com integridade.
A crítica diz que “...o paralelo que eles (os autores) estabelecem com a trajetória de Michelangelo e as informações sobre o contexto da época acrescentam charme e valor ao livro.” (do blog máquina de escrever)
Michelangelo esculpiu a Pietà e o David, antes de completar 30 anos. É também o autor de pinturas monumentais do Gênesis e do Juízo Final, no teto da Capela Sistina e do projeto da cúpula da Basílica de São Pedro, em Roma.
Sinceramente, não consigo imaginar a “ginástica” dos autores, para extrair de tais obras as mensagens e conclusões...
Mas é possível que já se encontre nas listas dos mais vendidos.
Alguém pode me responder, por que?

dezembro 03, 2008

Mamãe Noel

Natal não muda e o jeito é tentar pelo menos não estragar a festa, entrar no clima, não resistir ao megaevento. Deixar-se seduzir pelas musiquinhas, luzes e decoração chinesas, render-se aos apelos das compras agora e pagamento meses depois, "em vezes". E por que não participar de vários "amigos secretos" que, a pretexto de serem muitos (do trabalho, da academia, dos ex-colegas, dos atuais), começam a acontecer tão logo se inicia dezembro? Do carnaval a gente pode ser poupado.Fugir da folia não fere suscetibilidades. Mas não ouse dizer o que pensa do natal, seja qual for o seu credo ou opinião. Melhor não! Mesmo aqui, não se fala mais nisto!
PS: A estas alturas, Curitiba já substituiu o "bom dia" usado com tanta parcimônia, por efusivos: "feliz natal". Haja saco!.

"Sabe por que Papai Noel não existe? Porque é homem. Dá para acreditar que um homem vai se preocupar em escolher o presente de cada pessoa da família, ele que nem compra as próprias meias? Que vai carregar nas costas um saco pesadíssimo, ele que reclama até para colocar o lixo no corredor? Que toparia usar vermelho dos pés à cabeça, ele que só abandonou o marrom depois que conheceu o azul-marinho? Que andaria num trenó puxado por renas, sem ar-condicionado, direção hidráulica e air-bag? Que pagaria o mico de descer por uma chaminé para receber em troca o sorriso das criancinhas? Ele não faria isso nem pelo sorriso da Luana Piovani! Mamãe Noel, sim, existe.
Quem é a melhor amiga do Molocoton, quem sabe a diferença entre a Mulan e a Esmeralda, quem conhece o nome de todas as Chiquititas, quem merecia ser sócia-majoritária da Superfestas? Não é o bom velhinho.
Quem coloca guirlandas nas portas, velas perfumadas nos castiçais, arranjos e flores vermelhas pela casa? Quem monta a árvore de Natal, harmonizando bolas, anjos, fitas e luzinhas, e deixando tudo combinando com o sofá e os tapetes? E quem desmonta essa parafernália toda no dia 6 de janeiro?
Papai Noel ainda está de ressaca no Dia de Reis. Quem enche a geladeira de cerveja, coca-cola e champanhe? Quem providencia o peru, o arroz à grega, o sarrabulho, as castanhas, o musse de atum, as lentilhas, os guardanapinhos decorados, os cálices lavadinhos, a toalha bem passada e ainda lembra de deixar algum disco meloso à mão?
Quem lembra de dar uma lembrancinha para o zelador, o porteiro, o carteiro, o entregador de jornal, o cabeleireiro, a diarista? Quem compra o presente do amigo-secreto do escritório do Papai Noel? Deveria ser o próprio, tão magnânimo, mas ele não tem tempo para essas coisas. Anda muito requisitado como garoto-propaganda.
Enquanto Papai Noel distribui beijos e pirulitos, bem acomodado em seu trono no shopping, quem entra em todas as lojas, pesquisa todos os preços, carrega sacolas, confere listas, lembra da sogra, do sogro, dos cunhados, dos irmãos, entra no cheque especial, deixa o carro no sol e chega em casa sofrendo porque comprou os mesmos presentes do ano passado?
Por trás do protagonista desse megaevento chamado Natal existe alguém em quem todos deveriam acreditar mais."


Esta crônica da Martha Medeiros é de dezembro de 1998 e mantém o mesmo frescor! Que nem o Natal!

Mais uma ...

Fazendo as malas

Depois de uma injustificável hesitação, ontem comprei o novo livro da Danuza Leão. Afinal, trata-se de uma mulher cuja trajetória é, pelo menos, curiosa: a partir de uma certa idade começou a ser uma escritora de sucesso. Às vezes falo (de brincadeira) que burrice e feiúra “pegam” por contágio. Mas parece que talento também. Até onde sei, ela teve maridos/companheiros interessantes, inteligentes, talentosos... Ainda muito jovem, teve acesso a muitos lugares/eventos/vivências e convivências enriquecedoras de que se tem notícia pela mídia, por relatos dela própria e alguns episódios contadas por outros, dentre eles no livro Um homem chamado Maria, que revelam seu comportamento enquanto esteve apaixonada pelo Antonio Maria.
Mulher apaixonada sempre me deixa curiosa, à procura de espelhos....
Danuza Leão há tempos deixou de ser a irmã da Nara ou a viúva ou ex-mulher de tal ou qual celebridade. Brilha sozinha. Mantém uma coluna semanal, aos domingos, na Folha e uma página na revista Cláudia, além de ter publicado vários livros.
Pela minha experiência, dependendo de quem se escolha para marido/companheiro se aprimora ou se aprende coisas novas, passa-se a freqüentar outros lugares e cidades, introduz-se hábitos e gostos. Por vezes, ganha-se até uma certa sofisticação. Mas esta dura até o fim da paixão...Tudo depende, claro, de quem se escolhe!
Interessei-me pela cultura/língua francesa, aprendi a beber pastis e comer ostras com um deles.Depois passei a gostar de jazz, comer caranguejo e beber caipirinha, pagando o preço de não usar qualquer maquiagem ou bijuteria. Pela cultura goiana me interessei pouco: muito calórica e restritiva às liberdades ( “mulher que tem carro tem asa”).Em compensação fui motivada a retomar o hábito de ler que andava meio abandonado, desde a maternidade.(Penso sempre no quanto seria sem graça a minha vida se eu não lesse).
Anos depois, estava fluente em italiano e achando que a Itália poderia até ser considerada.... Posição revista quase de imediato, embora continue recomendando às mulheres pelo menos um amante italiano na vida. O único problema é a elevação do nível de exigência. Mas isto é outra conversa.
Voltemos à Danuza, mais precisamente ao livro, deixando a vida dela e a minha para depois. FAZENDO AS MALAS tem início com uma INSÔNIA . Ela diz “sofrer”de insônia e que nestes momentos não consegue ler, escrever ou ver filmes, mas arrasta móveis (pesados) e faz planos mirabolantes, inclusive de viagens . O livro continua com o capítulo dedicado AS MALAS e prossegue com a sua partida para um roteiro que se inicia pela “colorida Sevilha", passa pela “calorosa Lisboa” segue pela “clássica Paris” e termina na “eterna Roma”.
Viram quantos clichês nesta apresentação?
Parei aí e fui dormir pensando que alguém precisa dizer para a Danuza que velhos dormem pouco mesmo...e em retomar a leitura na praia.
Não é possível que sábado ainda chova!

dezembro 02, 2008

LA DÉFENSE DE PARIS


La défense de Paris - L. E Barrias (1883)
Para quem gosta de fotografia, de natureza, de arte, da França e, especialmente, de Paris as fotos mais maravilhosas estão neste blog que vc pode acessar clicando no título da postagem. É um dos meus favoritos!

O TEMPO

Este belo presente, acabo de receber, via e-mail, da Cris a "madrinha"! Mário Quintana

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.

SUAVE VENENO

Retornando de Sampa, na carona da minha amiga Wania, ouvíamos os seus CDs. São sempre ótimos ! Antes não tinha prestado tanta atenção nesta música/letra. Desta parceria já gostava muito de Resposta ao vento (penso haver postado). A interpretação é daquelas que faz ninguém poder mais gravar a música, enquanto a gente se lembrar desta. A imagem é da abertura de uma novela, mas fica congelada.
Nana Caymi - música de Cristovão Bastos e Aldir Blanc

As razões de cada um

Não levo tão a sério o que disse um blogueiro num congresso de weblogs:“Se Google não sabe que tu existes, então não existes” (o gajo era português).
Por outro lado, não acredito que a maioria das pessoas que escreve num blog quer ser vista. E que freqüenta vários blogs pretendendo também ser visitada. Igualmente não concordo que não haveria melhor maneira de conhecer alguém senão visitando o seu blog. Mas estou de acordo quanto ao blog refletir uma fase da vida da gente...
Estas idéias/opiniões foram colhidas, quando volto a pensar ("Ter um blog" é de 21.07) sobre o blog que neste mês completa um ano.
Nasceu em São Paulo, de parto normal, numa madrugada, na casa da minha amiga Cris. Conversando com ela, que é uma mulher super-atarefada, sem tempo, perfil nem vocação para interneteira e me surpreendeu dizendo: criei um blog!
Eu que vinha lendo os blogs de jornalistas, até então, pensava ser para profissional fazer/ter um blog, só eles teriam o que e para quem dizer alguma coisa.
Mas novidadeira como sou, quis saber imediatamente todos os detalhes de como criar um blog. Fomos para a frente do computador onde ela, à medida que me mostrava como fazer, ia me pedindo os dados para criação do que veio a ser este.
Imaginem a sensação de quem nunca pensou em ter filho e um dia encontra uma criança, num cestinho com um bilhete em sua porta (isto acontecia, com uma certa frequência, antigamente, hoje deve ser crime!). Foi um impacto. E agora? O que fazer? Que nome dar? Como manter? De que se alimenta? O que veste? Que pessoa será esta? Estava diante desta situação.
Pessoalmente, estava vivendo uma fase em que, a quase tudo que me referia que dissesse respeito a tempo, aparecia "...uma certa idade": depois de uma certa idade, a partir de uma certa idade, tendo uma certa idade.....
Um amigo havia me chamado a atenção para este cacoete chato. Como todos. Já estava consciente dele e tentando me livrar inclusive da crise que o fez tão presente.
Estava descambando para a inevitável e irreversível envelhescença, em que períodos de relativa estabilidade são entremeados por “quedas” abruptas (leia-se declínios vários e decrepitude galopante) que não haviam ocorrido (ou eu não havia percebido) ao longo da última década e pareciam haver se manifestado de uma só vez, quando parei de trabalhar e de menstruar. Pode haver algo mais rico de simbolismo do que estes dois fatos? Penso que não...
Passei a me sentir uma mulher de uma certa idade. E posso dizer que foi difícil. A coisa esteve tão feia que, às novas pessoas que fui conhecendo, explicava que nem sempre eu tinha sido assim.
- Assim como?
- Velha!
Com gorduras localizadas, cabelos já tingidos, caindo, juntamente com as bochechas, tendo depressão, reduzidas horas de sono e, pior do que tudo, desocupada e sem projetos.
Isto explica por que ao ser perguntada pela minha amiga que nome dar ao blog respondi, sem precisar pensar: uma certa idade...
Numa certa idade em que se apaixonar pode ser ridículo, em que não se deve expressar certos desejos, não se pode jantar muito tarde, não se consegue contar algo sem esquecer parte (às vezes a melhor) de uma história. Um certa idade em que os amigos começam a morrer e os que não morrem se tornam velhos e feios, em que os jovens acham que devem nos ceder o assento no onibus/metrô e nos tratar por senhora, em que a bilheteira do cinema nos entrega um bilhete sênior!
Precisa mais?
E, além de tudo, com medo (não só do "alemão"), mas medo de passar a ter uma vida em que os verbos são conjugados no pretérito: perfeito, imperfeito ou mais-que-perfeito(nem sei mais depois de tantas reformas e de tentar aprender noutras línguas), em que encontros interessantes, descobertas curiosas, acontecimentos realmente significativos podem não mais ocorrer...
Uma certa idade em que se deve administrar: LDL, HDL, PCR, TRH... PQP!
A rigor, não vivo nas estrelas onde brilha a minha alma, mas passei a ter a ilusão(!) de que tenho com quem compartilhar o que leio, vejo, ouço, assisto, penso e, às vezes, lembro...