dezembro 03, 2008

Mamãe Noel

Natal não muda e o jeito é tentar pelo menos não estragar a festa, entrar no clima, não resistir ao megaevento. Deixar-se seduzir pelas musiquinhas, luzes e decoração chinesas, render-se aos apelos das compras agora e pagamento meses depois, "em vezes". E por que não participar de vários "amigos secretos" que, a pretexto de serem muitos (do trabalho, da academia, dos ex-colegas, dos atuais), começam a acontecer tão logo se inicia dezembro? Do carnaval a gente pode ser poupado.Fugir da folia não fere suscetibilidades. Mas não ouse dizer o que pensa do natal, seja qual for o seu credo ou opinião. Melhor não! Mesmo aqui, não se fala mais nisto!
PS: A estas alturas, Curitiba já substituiu o "bom dia" usado com tanta parcimônia, por efusivos: "feliz natal". Haja saco!.

"Sabe por que Papai Noel não existe? Porque é homem. Dá para acreditar que um homem vai se preocupar em escolher o presente de cada pessoa da família, ele que nem compra as próprias meias? Que vai carregar nas costas um saco pesadíssimo, ele que reclama até para colocar o lixo no corredor? Que toparia usar vermelho dos pés à cabeça, ele que só abandonou o marrom depois que conheceu o azul-marinho? Que andaria num trenó puxado por renas, sem ar-condicionado, direção hidráulica e air-bag? Que pagaria o mico de descer por uma chaminé para receber em troca o sorriso das criancinhas? Ele não faria isso nem pelo sorriso da Luana Piovani! Mamãe Noel, sim, existe.
Quem é a melhor amiga do Molocoton, quem sabe a diferença entre a Mulan e a Esmeralda, quem conhece o nome de todas as Chiquititas, quem merecia ser sócia-majoritária da Superfestas? Não é o bom velhinho.
Quem coloca guirlandas nas portas, velas perfumadas nos castiçais, arranjos e flores vermelhas pela casa? Quem monta a árvore de Natal, harmonizando bolas, anjos, fitas e luzinhas, e deixando tudo combinando com o sofá e os tapetes? E quem desmonta essa parafernália toda no dia 6 de janeiro?
Papai Noel ainda está de ressaca no Dia de Reis. Quem enche a geladeira de cerveja, coca-cola e champanhe? Quem providencia o peru, o arroz à grega, o sarrabulho, as castanhas, o musse de atum, as lentilhas, os guardanapinhos decorados, os cálices lavadinhos, a toalha bem passada e ainda lembra de deixar algum disco meloso à mão?
Quem lembra de dar uma lembrancinha para o zelador, o porteiro, o carteiro, o entregador de jornal, o cabeleireiro, a diarista? Quem compra o presente do amigo-secreto do escritório do Papai Noel? Deveria ser o próprio, tão magnânimo, mas ele não tem tempo para essas coisas. Anda muito requisitado como garoto-propaganda.
Enquanto Papai Noel distribui beijos e pirulitos, bem acomodado em seu trono no shopping, quem entra em todas as lojas, pesquisa todos os preços, carrega sacolas, confere listas, lembra da sogra, do sogro, dos cunhados, dos irmãos, entra no cheque especial, deixa o carro no sol e chega em casa sofrendo porque comprou os mesmos presentes do ano passado?
Por trás do protagonista desse megaevento chamado Natal existe alguém em quem todos deveriam acreditar mais."


Esta crônica da Martha Medeiros é de dezembro de 1998 e mantém o mesmo frescor! Que nem o Natal!

Mais uma ...

Fazendo as malas

Depois de uma injustificável hesitação, ontem comprei o novo livro da Danuza Leão. Afinal, trata-se de uma mulher cuja trajetória é, pelo menos, curiosa: a partir de uma certa idade começou a ser uma escritora de sucesso. Às vezes falo (de brincadeira) que burrice e feiúra “pegam” por contágio. Mas parece que talento também. Até onde sei, ela teve maridos/companheiros interessantes, inteligentes, talentosos... Ainda muito jovem, teve acesso a muitos lugares/eventos/vivências e convivências enriquecedoras de que se tem notícia pela mídia, por relatos dela própria e alguns episódios contadas por outros, dentre eles no livro Um homem chamado Maria, que revelam seu comportamento enquanto esteve apaixonada pelo Antonio Maria.
Mulher apaixonada sempre me deixa curiosa, à procura de espelhos....
Danuza Leão há tempos deixou de ser a irmã da Nara ou a viúva ou ex-mulher de tal ou qual celebridade. Brilha sozinha. Mantém uma coluna semanal, aos domingos, na Folha e uma página na revista Cláudia, além de ter publicado vários livros.
Pela minha experiência, dependendo de quem se escolha para marido/companheiro se aprimora ou se aprende coisas novas, passa-se a freqüentar outros lugares e cidades, introduz-se hábitos e gostos. Por vezes, ganha-se até uma certa sofisticação. Mas esta dura até o fim da paixão...Tudo depende, claro, de quem se escolhe!
Interessei-me pela cultura/língua francesa, aprendi a beber pastis e comer ostras com um deles.Depois passei a gostar de jazz, comer caranguejo e beber caipirinha, pagando o preço de não usar qualquer maquiagem ou bijuteria. Pela cultura goiana me interessei pouco: muito calórica e restritiva às liberdades ( “mulher que tem carro tem asa”).Em compensação fui motivada a retomar o hábito de ler que andava meio abandonado, desde a maternidade.(Penso sempre no quanto seria sem graça a minha vida se eu não lesse).
Anos depois, estava fluente em italiano e achando que a Itália poderia até ser considerada.... Posição revista quase de imediato, embora continue recomendando às mulheres pelo menos um amante italiano na vida. O único problema é a elevação do nível de exigência. Mas isto é outra conversa.
Voltemos à Danuza, mais precisamente ao livro, deixando a vida dela e a minha para depois. FAZENDO AS MALAS tem início com uma INSÔNIA . Ela diz “sofrer”de insônia e que nestes momentos não consegue ler, escrever ou ver filmes, mas arrasta móveis (pesados) e faz planos mirabolantes, inclusive de viagens . O livro continua com o capítulo dedicado AS MALAS e prossegue com a sua partida para um roteiro que se inicia pela “colorida Sevilha", passa pela “calorosa Lisboa” segue pela “clássica Paris” e termina na “eterna Roma”.
Viram quantos clichês nesta apresentação?
Parei aí e fui dormir pensando que alguém precisa dizer para a Danuza que velhos dormem pouco mesmo...e em retomar a leitura na praia.
Não é possível que sábado ainda chova!

dezembro 02, 2008

LA DÉFENSE DE PARIS


La défense de Paris - L. E Barrias (1883)
Para quem gosta de fotografia, de natureza, de arte, da França e, especialmente, de Paris as fotos mais maravilhosas estão neste blog que vc pode acessar clicando no título da postagem. É um dos meus favoritos!

O TEMPO

Este belo presente, acabo de receber, via e-mail, da Cris a "madrinha"! Mário Quintana

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.

SUAVE VENENO

Retornando de Sampa, na carona da minha amiga Wania, ouvíamos os seus CDs. São sempre ótimos ! Antes não tinha prestado tanta atenção nesta música/letra. Desta parceria já gostava muito de Resposta ao vento (penso haver postado). A interpretação é daquelas que faz ninguém poder mais gravar a música, enquanto a gente se lembrar desta. A imagem é da abertura de uma novela, mas fica congelada.
Nana Caymi - música de Cristovão Bastos e Aldir Blanc

As razões de cada um

Não levo tão a sério o que disse um blogueiro num congresso de weblogs:“Se Google não sabe que tu existes, então não existes” (o gajo era português).
Por outro lado, não acredito que a maioria das pessoas que escreve num blog quer ser vista. E que freqüenta vários blogs pretendendo também ser visitada. Igualmente não concordo que não haveria melhor maneira de conhecer alguém senão visitando o seu blog. Mas estou de acordo quanto ao blog refletir uma fase da vida da gente...
Estas idéias/opiniões foram colhidas, quando volto a pensar ("Ter um blog" é de 21.07) sobre o blog que neste mês completa um ano.
Nasceu em São Paulo, de parto normal, numa madrugada, na casa da minha amiga Cris. Conversando com ela, que é uma mulher super-atarefada, sem tempo, perfil nem vocação para interneteira e me surpreendeu dizendo: criei um blog!
Eu que vinha lendo os blogs de jornalistas, até então, pensava ser para profissional fazer/ter um blog, só eles teriam o que e para quem dizer alguma coisa.
Mas novidadeira como sou, quis saber imediatamente todos os detalhes de como criar um blog. Fomos para a frente do computador onde ela, à medida que me mostrava como fazer, ia me pedindo os dados para criação do que veio a ser este.
Imaginem a sensação de quem nunca pensou em ter filho e um dia encontra uma criança, num cestinho com um bilhete em sua porta (isto acontecia, com uma certa frequência, antigamente, hoje deve ser crime!). Foi um impacto. E agora? O que fazer? Que nome dar? Como manter? De que se alimenta? O que veste? Que pessoa será esta? Estava diante desta situação.
Pessoalmente, estava vivendo uma fase em que, a quase tudo que me referia que dissesse respeito a tempo, aparecia "...uma certa idade": depois de uma certa idade, a partir de uma certa idade, tendo uma certa idade.....
Um amigo havia me chamado a atenção para este cacoete chato. Como todos. Já estava consciente dele e tentando me livrar inclusive da crise que o fez tão presente.
Estava descambando para a inevitável e irreversível envelhescença, em que períodos de relativa estabilidade são entremeados por “quedas” abruptas (leia-se declínios vários e decrepitude galopante) que não haviam ocorrido (ou eu não havia percebido) ao longo da última década e pareciam haver se manifestado de uma só vez, quando parei de trabalhar e de menstruar. Pode haver algo mais rico de simbolismo do que estes dois fatos? Penso que não...
Passei a me sentir uma mulher de uma certa idade. E posso dizer que foi difícil. A coisa esteve tão feia que, às novas pessoas que fui conhecendo, explicava que nem sempre eu tinha sido assim.
- Assim como?
- Velha!
Com gorduras localizadas, cabelos já tingidos, caindo, juntamente com as bochechas, tendo depressão, reduzidas horas de sono e, pior do que tudo, desocupada e sem projetos.
Isto explica por que ao ser perguntada pela minha amiga que nome dar ao blog respondi, sem precisar pensar: uma certa idade...
Numa certa idade em que se apaixonar pode ser ridículo, em que não se deve expressar certos desejos, não se pode jantar muito tarde, não se consegue contar algo sem esquecer parte (às vezes a melhor) de uma história. Um certa idade em que os amigos começam a morrer e os que não morrem se tornam velhos e feios, em que os jovens acham que devem nos ceder o assento no onibus/metrô e nos tratar por senhora, em que a bilheteira do cinema nos entrega um bilhete sênior!
Precisa mais?
E, além de tudo, com medo (não só do "alemão"), mas medo de passar a ter uma vida em que os verbos são conjugados no pretérito: perfeito, imperfeito ou mais-que-perfeito(nem sei mais depois de tantas reformas e de tentar aprender noutras línguas), em que encontros interessantes, descobertas curiosas, acontecimentos realmente significativos podem não mais ocorrer...
Uma certa idade em que se deve administrar: LDL, HDL, PCR, TRH... PQP!
A rigor, não vivo nas estrelas onde brilha a minha alma, mas passei a ter a ilusão(!) de que tenho com quem compartilhar o que leio, vejo, ouço, assisto, penso e, às vezes, lembro...

dezembro 01, 2008

MISTER JEANS


Vejam que convite chic!
Será inaugurada mais uma loja do meu amigo Thiago, no Palladium, em Curitiba.
Num gesto que traduz sua enorme sensibilidade, na oportunidade serão recebidos donativos para serem encaminhados para Santa Catarina.
Minha sugestão:alimentos infantis não perecíveis, roupas íntimas e absorventes femininos e/ou água potável!

novembro 30, 2008

Voltando ao Beaujolais

Sobre a postagem do dia 22/11, além dos comentários, recebi e-mail e fui abordada por uma amiga que queria saber mais a respeito, se seria apenas marketing...
Resolvi voltar ao tema, mesmo porque na postagem anterior o link está em frances!
O Beaujolais Nouveau é um vinho de vida efêmera, enquanto seu sabor é leve o seu marketing é realmente bem encorpado. Não há como fugir desta verdade.
Produzido com uvas gamay francesas, boa parte de seu encanto reside em seu caráter perecível, embora tenha paladar perfeitamente agradável. Graças ao período de fermentação mais curto a que é submetido, é mais leve e apresenta um sabor de fruta mais pronunciado do que os Beaujolais genéricos.
A curta vida útil desse vinho força os distribuidores a inventar maneiras engenhosas, quase acrobáticas, de vender a safra antes que perca seu encanto juvenil.
Do sul da Borgonha começou a conquistar o mercado do França, as lojas passaram a colar nas vitrines cartazes anunciando: Le Beaujolais Nouveau est arrivé logo nas primeiras horas do primeiro dia de venda permitida, a terceira quinta feira de novembro.
Em três semanas, esse vinho que envelhece mal fica muito difícil de vender na França e só dura um pouquinho mais nas adegas do exterior. Na maioria dos restaurantes franceses, a vida útil do vinho é de apenas quatro dias.
Grande parte da produção francesa é exportada para uns 150 países, onde as embaixadas da França e os importadores organizam festas na terceira quinta feira de novembro.
Boa parte do seu charme reside no bouquet agradável e no sabor leve, sem acidez. O preço também ajuda. Para alguns, o vinho tem gosto de licor de groselha...o que, para outros, seria uma injustiça tal comparação. Apesar de todo o carnaval publicitário que cerca o vinho, uma de suas virtudes principais é a despretensão.
No nosso clima tropical, deve ser tomado levemente gelado.
Em resumo, é isto!

SARAMAGO


'José Saramago: A Consistência dos Sonhos' é a exposição que acontece no Instituto Tomie Ohtake em Sampa. É uma rara oportunidade de se entrar no universo do escritor, desde sua infância rural na aldeia de Azinhaga até sua consagração, através de manuscritos, fotografias, cadernos, documentos, obras e instalações audiovisuais.
A exposição, já exibida em Lanzarote,(Ilhas Canárias)onde vive, e em Lisboa, é realizada pela Fundação César Manrique e Fundação José Saramago.

Em visita ao Brasil, o escritor português, de 86 anos, lança o seu novo livro A Viagem do Elefante, que seria "o mais jovial" que escreveu, segundo afirmou no lançamento mundial desta sua nova obra.
Um trecho da crítica do João Pereira Coutinho (na FSP) em que o espinafra como político e desqualifica parte de sua obra. Sobre este livro diz...
"... iniciei a leitura com as piores expectativas, esperando ler na história do elefante mais uma parábola política para catequizar os incréus. Terminei o livro a levitar: Saramago suspendeu o didatismo rasteiro das obras anteriores para construir uma história (quase) de aventuras poderosamente escrita e imaginada.
É a história de Salomão, um elefante vindo da Índia portuguesa, que o rei d. João 3º resolve oferecer ao arquiduque Maximiliano da Áustria, seu primo. O livro relata simplesmente essa viagem e os contornos oníricos dela: uma marcha lenta do elefante e da sua comitiva através da Europa do século 15. A cruzada paquidérmica permite a Saramago o tom irônico mas compassivamente humano sobre as ilusões e as vaidades transitórias dos homens.
A viagem termina em Viena, cidade elegante mas inevitavelmente pasmada perante o elefante e o seu cornaca. Pena que o elefante também termine pouco depois. Morto e esfolado, suas patas serão cortadas e transformadas em recipientes para depositar bengalas e sombrinhas. A grande viagem termina em bengaleiro, metáfora perfeita sobre a nossa condição.
"A Viagem do Elefante" é o melhor livro de Saramago desde o Nobel. Mas é também um dos grandes romances da literatura portuguesa de hoje. Saber que Saramago o escreveu e terminou em condições precárias de saúde só aumenta a minha admiração: pelo livro e, apesar de tudo, pelo escritor intermitente que Saramago é. Políticas à parte".

Este é o blog do Saramago onde se pode ler "fragmento" do novo livro: http://blog.josesaramago.org/index.php
Audio da entrevista clicando o título da postagem

novembro 29, 2008

Aqui também é SANTA CATARINA

Fraiburgo se destaca pelo bom gosto, arquitetura e infra-estrutura de seus hotéis, museus e centros culturais. A gastronomia tem como carro-chefe a maçã e seus derivados em deliciosas receitas caseiras. Fazendo justiça ao título – Terra da Maçã - Fraiburgo oferece belos espetáculos onde a maçã é a estrela principal: em outubro, a magia da florada das macieiras nos meses de fevereiro, março e abril, a colheita das diversas variedades entre elas Gala e Fuji. Nesta época, em determinados pomares, o turista poderá colher a fruta e participar da classificação e seleção das maçãs.Mais informações no site, clicando no título.

Aqui também é SANTA CATARINA

Neste momento em que várias cidades do Vale do Itajaí sofrem os efeitos de inundações e desmoronamentos, sobretudo Blumenau, Ilhota, Luis Alves e Itajaí, mostrarei outras alternativas para sua viagem. Mude o seu roteiro e aproveite lugares maravilhosos como este.
"TREZE TÍLIAS foi fundada em 13 de outubro de 1933, quando o então Ministro da Agricultura da Áustria, Andreas Thaler, trouxe para nossa região o primeiro grupo de imigrantes austríacos. Decidido a fazer um programa de colonização para contornar a grave crise econômica que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. Encontrou aqui as terras apropriadas e fundou a "Colônia Austríaca Dreizehnlinden". Vários grupos, na maioria originários do Estado do Tirol, na Áustria juntaram-se a estes pioneiros nos anos seguintes, formando na nova terra, uma próspera comunidade. O nome Dreizehnlinden, em português "Treze Tílias", foi escolhido pelo fundador, inspirado no poema "Die Dreizehnlinden", de Wilhelm Weber.
A Tília é uma árvore originária do hemisfério norte que se aclimatou ao clima do município. Treze Tílias é conhecida como “O Tirol Brasileiro”, devido os valores culturais e artísticos que foram trazidos pelos imigrantes austríacos e cultivados por seus descendentes. Com eles veio também a arte da escultura em madeira, que aqui se desenvolveu, formando um pólo artístico no Brasil e exterior. O artesanato também é bastante expressivo e pode ser encontrado nas casas comerciais. Além de vários pontos de visitação, a cidade dispõe de uma ampla infra-estrutura hoteleira e gastronômica, onde o visitante pode encontrar conforto, bom atendimento, apresentações folclóricas e culturais. A arquitetura típica dos Alpes, o idioma, a gastronomia, a música, a cultura e o folclore fazem de Treze Tílias uma típica cidade austríaca em território brasileiro".
Estas informações são do site que pode ser acessado clicando o título da postagem.

novembro 28, 2008

Até debaixo d´ água

"A humanidade não está brincando com fogo, está brincando com água. Já houve as tragédias da Índia, da China, da Tailândia, dos EUA, e chegou a vez do Brasil, o paraíso tropical onde faz sol de janeiro a janeiro, não há terremotos, maremotos, nem furacões. Pelo menos até agora.
A tragédia que afunda Santa Catarina em água, lama e uma centena de mortes não é uma questão política, nem de gerência, é um alerta da "Mãe Natureza". Está na hora de parar de achar que esse tal de aquecimento global e essa tal de mudança climática são devaneios de lunáticos que não têm o que fazer.
A natureza está mandando sinais de alerta, que o homem agrava ao desenvolver cidades e povoados perigosamente margeando os rios e desrespeitando o limite de 20% de inclinação das encostas para construir suas casas, pobres ou ricas, como surgem nas fotos de Santa Catarina agora.
Em todas as calamidades assim, possivelmente o maior número de mortos e desabrigados é justamente entre os que habitam as encostas.
A chuva excede a média, o rio transborda, a terra se afofa. As casas vêm abaixo junto com a água, a lama e os seus moradores. Até a próxima tempestade, os próximos desabamentos, as próximas mortes.
O caos em Santa Catarina é como se um dos mais bonitos cartões-postais brasileiros estivesse sendo rasgado, despedaçado, justamente às vésperas do seu período anual de glória: o verão. Aliás, é uma trágica ironia que a mais nova edição da revista da Gol enalteça até na capa as belezas catarinenses, conclamando os viajantes a se deliciarem com suas praias e comidas.
É difícil escrever num momento assim, mas é impossível ficar indiferente e não escrever nada. Até porque as chuvas passam e vêm o desabastecimento, a desordem, a falta de estradas, de água tratada e de luz e o imenso risco de doenças, até epidemias. Sem falar na dor de milhares, que fica -para sempre".
Da FSP
Eliane Catanhede

novembro 27, 2008

ITAJAÍ

Segundo o psicanalista e colunista da FSP Contardo Calligaris, comentando o filme Ensaio sobre a Cegueira, "Somos capazes de tudo: o apocalipse nos testa e nos revela a nós mesmos e ao mundo.
...as histórias em que algum tipo de fim do mundo (guerra nuclear, invasão extraterrestre, epidemia etc.) nos força a encarar uma versão laica e íntima do Juízo Final. Nessa versão, Deus não avalia nosso passado, mas, enquanto o mundo desaba, nosso desempenho mostra quem somos realmente. No desamparo, quando o tecido social se esfarela e as normas perdem força e valor, conhecemos, enfim, nosso estofo "verdadeiro". Somos capazes do melhor ou do pior: o apocalipse nos testa e nos revela.".
Não deixa de ser um tipo de fim do mundo a situação em que se encontra Itajaí, em decorrência da inundação e destruição quase total da cidade. A situação é desoladora. O cenário, em conseqüência das chuvas, é de pós-guerra. Parece que caiu uma bomba e a cidade foi toda devastada. Desde sábado o comércio não abre, as pessoas não têm como comprar mantimentos, ir ao banco sacar dinheiro. Muitos hotéis não têm água. Restaurantes estão sem comida.
A solidariedade daqueles que arregaçaram as mangas e se juntaram aos bombeiros e à defesa civil, ou dos que se mantiveram em casa, preparando alimentos a serem distribuídos é a revelação do que pode haver de melhor no ser humano.
No entanto, as cenas descritas pela reportagem da FSP de hoje parecem extraídas do livro do Saramago.
" Nas ruas do bairro de Cidade Nova, na periferia de Itajaí, um boato se espalha. Uma nova onda de saques começava. Foi a vez do Maxxi, loja atacadista da rede Wal-Mart.
Tomados pela água enlameada, os corredores da loja eram um rio sujo com lixo a boiar. Lixo é modo de dizer: eram mercadorias que caíram ou eram jogadas das prateleiras. Com a água na altura do pescoço, os saqueadores levavam tudo o que estava ao alcance das mãos.
Uma mulher grita a um conhecido: "Tu não queres um chester? Tem um boiando ali".
Uns juntavam chinelos, outros recolhiam bebidas: água, refrigerantes, cerveja e até champanhe. ""É para o Réveillon", dizia um deles sem culpa.
Cabos de vassoura eram feitos de suporte para carregar as "compras" do mês nos ombros.
No interior da loja, numa escuridão em que quase nada se via, famílias garimpavam os produtos largados no chão e escalavam as prateleiras.
Do lado de fora, bicicletas, carroças, carrinhos de mão, carros velhos e de luxo e até caminhões eram carregados com os produtos. Um deficiente físico pedalava um triciclo com uma perna só e, junto com bebidas, carregava uma muleta.
A polícia passava indiferente àquela multidão de ao menos 5.000 saqueadores. Um policial com cassetete e revólver na cintura interrompe a entrevista da reportagem com uma das pessoas e pede: ""Ô amigo, põe o carrinho para cima do canteiro que estamos liberando a rua".
Quem visitasse ontem os bairros centrais de Itajaí ainda poderia se sentir num feriado. Boa parte do comércio seguia, pelo terceiro dia seguido, sem abrir as portas. A interrupção dos serviços atingia desde pequenos botequins a uma grande rede de lanchonetes.
Os supermercados, muitos dos quais foram alvos de saques nos dias anteriores, funcionavam sob a proteção de PMs. E algumas prateleiras estavam cada vez mais vazias.
No Mini-Preço, eram três os PMs destacados na tarde de ontem para ficar diante do supermercado. Na noite anterior, mais de cem homens e mulheres quebraram as portas de vidro e entraram no estabelecimento para saquear produtos. Um dos líderes entrou com um cavalo -para ganhar altura e quebrar as câmeras de vigilância, segundo explicação do gerente, Claudinei Cunha.
""A prateleira de uísque e cerveja foi a primeira a esvaziar", contava Cunha. Mas ontem a gôndola de água mineral também estava no fim.
"

É a " ... a contraposição de retidão e bestialidade é o sinal de uma liberdade quase absoluta, angustiante: o fim do mundo é um bívio sem leis, sem flechas, sem compromissos, onde qualquer um pode escolher o horror ou a esperança.... se o reino da lei acabar e começar a idade da luta pela sobrevivência, de que lado estará? Do lado dos que inventarão novas formas de abusos ou dos que descobrirão novas formas de respeito e de vida comum? ... o que você enxergará no seu vizinho: mais uma mulher para estuprar e um otário para explorar ou um irmão, perdido que nem você?"

BLUMENAU

"Voltamos aos tempos primitivos"
Sem chuva ininterrupta desde terça, a tensão passou. A quantidade de água no sábado e domingo foi algo que não tive referência mesmo após eu ter morado durante mais de 20 anos na cidade de São Paulo, de ruas alagadas e congestionamento nas marginais a cada chuvinha. Aqui, diferentemente, a enchente não ficou encaixotada eletronicamente pelas notícias da TV, algo distante. Ela estava na porta de todos. Na rua transformada em rio caudaloso, nas crateras abertas nas avenidas, na terra que rolou de montes e morros.
Blumenau é um vale. Difícil a rua que não tenha um morro a menos de 200 metros. Foi esta a situação mais grave; a terra que desceu, jogando casas sobre outras casas. Uma amiga me ligou na noite de sábado. Mora em sobrado bom. Em um bairro alto. Foi categórica: "Entra água pelas tomadas, parece cano quebrado". Deixou rapidamente a casa, que resistiu bravamente. Outras não tiveram tanta sorte.
Na mesma noite, um estrondo cortou a energia das ruas de trás daquela em que moro. Vizinhos na calçada. Na manhã, a constatação de que mais um morro viera abaixo. Algo tão perto. Tão real daquilo que para nós são notícias de jornal.
Agora, a tristeza toma conta dos moradores. A água baixou. Difícil não ficar sensibilizado, tocado, por mais racional que se possa ser. Blumenau é um corpo inerte, com suas vísceras expostas. O cenário é de fim de mundo cinematográfico, algo que lembra o seriado Jericho [série sobre moradores do Kansas depois de um ataque nuclear], que recentemente passou na TV a cabo.
No entanto, nada aqui é fantasia. A dor é real e não baixou com as águas. Casas, antes livres de enchente, agora à mercê de deslizamentos. O solo derrete pelo volume das águas. O olhar das pessoas ainda procura soluções para dúvidas permanentes e alternativas urgentes. O telefone não pára de tocar com pedidos de auxilio. Nos sentimos impotentes.
Cem por cento da cidade está sem abastecimento de água desde sábado. Voltamos aos tempos primitivos. Percebemos como desperdiçamos água em um banho de chuveiro de cinco minutos em situações normais. Hoje ficamos felizes com meio balde, e temos certeza de que nunca estivemos tão revigorados.
Para os homens e chefes da casa, como eu, soluções para tempos de sobrevivência: defeco e enterro os rejeitos no quintal, para economizar. Mas isto é o de menos. Muitos perderam tudo. A casa do pai de uma grande amiga foi soterrada por uma montanha. Era um local rural, paradisíaco, com direito a cachoeira ao lado da casa. Será quase impossível encontrar os corpos.
Quem está vivo, agradece a Deus. Procuro manter o ânimo, principalmente por causa das minhas filhas, apesar de uma vontade sufocada de chorar. A certeza: depois do choque, a cidade vai reagir. Este novembro de 2008 também entrará para a História de Blumenau.
--------------------------------------------------------------------------------
MANOEL FERNANDES NETO, 45, é jornalista e mora em Blumenau desde 2002. O bairro onde vive ficou isolado, apesar de a enxurrada não ter afetado sua casa.
Na FSP