novembro 28, 2008

Até debaixo d´ água

"A humanidade não está brincando com fogo, está brincando com água. Já houve as tragédias da Índia, da China, da Tailândia, dos EUA, e chegou a vez do Brasil, o paraíso tropical onde faz sol de janeiro a janeiro, não há terremotos, maremotos, nem furacões. Pelo menos até agora.
A tragédia que afunda Santa Catarina em água, lama e uma centena de mortes não é uma questão política, nem de gerência, é um alerta da "Mãe Natureza". Está na hora de parar de achar que esse tal de aquecimento global e essa tal de mudança climática são devaneios de lunáticos que não têm o que fazer.
A natureza está mandando sinais de alerta, que o homem agrava ao desenvolver cidades e povoados perigosamente margeando os rios e desrespeitando o limite de 20% de inclinação das encostas para construir suas casas, pobres ou ricas, como surgem nas fotos de Santa Catarina agora.
Em todas as calamidades assim, possivelmente o maior número de mortos e desabrigados é justamente entre os que habitam as encostas.
A chuva excede a média, o rio transborda, a terra se afofa. As casas vêm abaixo junto com a água, a lama e os seus moradores. Até a próxima tempestade, os próximos desabamentos, as próximas mortes.
O caos em Santa Catarina é como se um dos mais bonitos cartões-postais brasileiros estivesse sendo rasgado, despedaçado, justamente às vésperas do seu período anual de glória: o verão. Aliás, é uma trágica ironia que a mais nova edição da revista da Gol enalteça até na capa as belezas catarinenses, conclamando os viajantes a se deliciarem com suas praias e comidas.
É difícil escrever num momento assim, mas é impossível ficar indiferente e não escrever nada. Até porque as chuvas passam e vêm o desabastecimento, a desordem, a falta de estradas, de água tratada e de luz e o imenso risco de doenças, até epidemias. Sem falar na dor de milhares, que fica -para sempre".
Da FSP
Eliane Catanhede

novembro 27, 2008

ITAJAÍ

Segundo o psicanalista e colunista da FSP Contardo Calligaris, comentando o filme Ensaio sobre a Cegueira, "Somos capazes de tudo: o apocalipse nos testa e nos revela a nós mesmos e ao mundo.
...as histórias em que algum tipo de fim do mundo (guerra nuclear, invasão extraterrestre, epidemia etc.) nos força a encarar uma versão laica e íntima do Juízo Final. Nessa versão, Deus não avalia nosso passado, mas, enquanto o mundo desaba, nosso desempenho mostra quem somos realmente. No desamparo, quando o tecido social se esfarela e as normas perdem força e valor, conhecemos, enfim, nosso estofo "verdadeiro". Somos capazes do melhor ou do pior: o apocalipse nos testa e nos revela.".
Não deixa de ser um tipo de fim do mundo a situação em que se encontra Itajaí, em decorrência da inundação e destruição quase total da cidade. A situação é desoladora. O cenário, em conseqüência das chuvas, é de pós-guerra. Parece que caiu uma bomba e a cidade foi toda devastada. Desde sábado o comércio não abre, as pessoas não têm como comprar mantimentos, ir ao banco sacar dinheiro. Muitos hotéis não têm água. Restaurantes estão sem comida.
A solidariedade daqueles que arregaçaram as mangas e se juntaram aos bombeiros e à defesa civil, ou dos que se mantiveram em casa, preparando alimentos a serem distribuídos é a revelação do que pode haver de melhor no ser humano.
No entanto, as cenas descritas pela reportagem da FSP de hoje parecem extraídas do livro do Saramago.
" Nas ruas do bairro de Cidade Nova, na periferia de Itajaí, um boato se espalha. Uma nova onda de saques começava. Foi a vez do Maxxi, loja atacadista da rede Wal-Mart.
Tomados pela água enlameada, os corredores da loja eram um rio sujo com lixo a boiar. Lixo é modo de dizer: eram mercadorias que caíram ou eram jogadas das prateleiras. Com a água na altura do pescoço, os saqueadores levavam tudo o que estava ao alcance das mãos.
Uma mulher grita a um conhecido: "Tu não queres um chester? Tem um boiando ali".
Uns juntavam chinelos, outros recolhiam bebidas: água, refrigerantes, cerveja e até champanhe. ""É para o Réveillon", dizia um deles sem culpa.
Cabos de vassoura eram feitos de suporte para carregar as "compras" do mês nos ombros.
No interior da loja, numa escuridão em que quase nada se via, famílias garimpavam os produtos largados no chão e escalavam as prateleiras.
Do lado de fora, bicicletas, carroças, carrinhos de mão, carros velhos e de luxo e até caminhões eram carregados com os produtos. Um deficiente físico pedalava um triciclo com uma perna só e, junto com bebidas, carregava uma muleta.
A polícia passava indiferente àquela multidão de ao menos 5.000 saqueadores. Um policial com cassetete e revólver na cintura interrompe a entrevista da reportagem com uma das pessoas e pede: ""Ô amigo, põe o carrinho para cima do canteiro que estamos liberando a rua".
Quem visitasse ontem os bairros centrais de Itajaí ainda poderia se sentir num feriado. Boa parte do comércio seguia, pelo terceiro dia seguido, sem abrir as portas. A interrupção dos serviços atingia desde pequenos botequins a uma grande rede de lanchonetes.
Os supermercados, muitos dos quais foram alvos de saques nos dias anteriores, funcionavam sob a proteção de PMs. E algumas prateleiras estavam cada vez mais vazias.
No Mini-Preço, eram três os PMs destacados na tarde de ontem para ficar diante do supermercado. Na noite anterior, mais de cem homens e mulheres quebraram as portas de vidro e entraram no estabelecimento para saquear produtos. Um dos líderes entrou com um cavalo -para ganhar altura e quebrar as câmeras de vigilância, segundo explicação do gerente, Claudinei Cunha.
""A prateleira de uísque e cerveja foi a primeira a esvaziar", contava Cunha. Mas ontem a gôndola de água mineral também estava no fim.
"

É a " ... a contraposição de retidão e bestialidade é o sinal de uma liberdade quase absoluta, angustiante: o fim do mundo é um bívio sem leis, sem flechas, sem compromissos, onde qualquer um pode escolher o horror ou a esperança.... se o reino da lei acabar e começar a idade da luta pela sobrevivência, de que lado estará? Do lado dos que inventarão novas formas de abusos ou dos que descobrirão novas formas de respeito e de vida comum? ... o que você enxergará no seu vizinho: mais uma mulher para estuprar e um otário para explorar ou um irmão, perdido que nem você?"

BLUMENAU

"Voltamos aos tempos primitivos"
Sem chuva ininterrupta desde terça, a tensão passou. A quantidade de água no sábado e domingo foi algo que não tive referência mesmo após eu ter morado durante mais de 20 anos na cidade de São Paulo, de ruas alagadas e congestionamento nas marginais a cada chuvinha. Aqui, diferentemente, a enchente não ficou encaixotada eletronicamente pelas notícias da TV, algo distante. Ela estava na porta de todos. Na rua transformada em rio caudaloso, nas crateras abertas nas avenidas, na terra que rolou de montes e morros.
Blumenau é um vale. Difícil a rua que não tenha um morro a menos de 200 metros. Foi esta a situação mais grave; a terra que desceu, jogando casas sobre outras casas. Uma amiga me ligou na noite de sábado. Mora em sobrado bom. Em um bairro alto. Foi categórica: "Entra água pelas tomadas, parece cano quebrado". Deixou rapidamente a casa, que resistiu bravamente. Outras não tiveram tanta sorte.
Na mesma noite, um estrondo cortou a energia das ruas de trás daquela em que moro. Vizinhos na calçada. Na manhã, a constatação de que mais um morro viera abaixo. Algo tão perto. Tão real daquilo que para nós são notícias de jornal.
Agora, a tristeza toma conta dos moradores. A água baixou. Difícil não ficar sensibilizado, tocado, por mais racional que se possa ser. Blumenau é um corpo inerte, com suas vísceras expostas. O cenário é de fim de mundo cinematográfico, algo que lembra o seriado Jericho [série sobre moradores do Kansas depois de um ataque nuclear], que recentemente passou na TV a cabo.
No entanto, nada aqui é fantasia. A dor é real e não baixou com as águas. Casas, antes livres de enchente, agora à mercê de deslizamentos. O solo derrete pelo volume das águas. O olhar das pessoas ainda procura soluções para dúvidas permanentes e alternativas urgentes. O telefone não pára de tocar com pedidos de auxilio. Nos sentimos impotentes.
Cem por cento da cidade está sem abastecimento de água desde sábado. Voltamos aos tempos primitivos. Percebemos como desperdiçamos água em um banho de chuveiro de cinco minutos em situações normais. Hoje ficamos felizes com meio balde, e temos certeza de que nunca estivemos tão revigorados.
Para os homens e chefes da casa, como eu, soluções para tempos de sobrevivência: defeco e enterro os rejeitos no quintal, para economizar. Mas isto é o de menos. Muitos perderam tudo. A casa do pai de uma grande amiga foi soterrada por uma montanha. Era um local rural, paradisíaco, com direito a cachoeira ao lado da casa. Será quase impossível encontrar os corpos.
Quem está vivo, agradece a Deus. Procuro manter o ânimo, principalmente por causa das minhas filhas, apesar de uma vontade sufocada de chorar. A certeza: depois do choque, a cidade vai reagir. Este novembro de 2008 também entrará para a História de Blumenau.
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MANOEL FERNANDES NETO, 45, é jornalista e mora em Blumenau desde 2002. O bairro onde vive ficou isolado, apesar de a enxurrada não ter afetado sua casa.
Na FSP

novembro 26, 2008

Loucos, austeros, dorminhocos

Em livro, presidentes deixam de ser nomes de rua e viram pessoas, por vezes ridículas "PARA MIM , e acho que para muita gente, eles não passam de nomes de rua: Delfim Moreira, Epitácio Pessoa, Wenceslau Braz, Afonso Pena...
Com o fim da República Velha, esses presidentes brasileiros mergulharam no esquecimento, ou melhor, na grande xícara do "café-com-leite" que serve para caracterizar em bloco uns bons 40 anos de vida política nacional.Mas um livro da historiadora e cientista política Isabel Lustosa, recém-lançado pela Agir, torna bem menos insosso aquele período.
"Histórias de Presidentes" não pretende fazer a reconstituição minuciosa da história republicana.
Com muitas caricaturas de época, transcrições de quadrinhas humorísticas e algumas jóias do anedotário político, o livro se concentra nos hábitos e nas características pessoais dos presidentes que, de 1897 a 1960, ocuparam o Palácio do Catete.
Deixam de ser "vultos" do passado e nomes de rua para se tornarem pessoas vivas, por vezes ridículas, outras vezes surpreendentes. Os austeros e os farristas, os dorminhocos e os madrugadores, os azarados, os indiferentes e os delirantes se sucedem, em vinhetas que dizem bastante a respeito do que era o Brasil daquela época.
Prudente de Morais, por exemplo. O primeiro presidente civil brasileiro assume o cargo em condições das mais modestas. Quando desembarcou do trem que o trazia de São Paulo, diz Isabel Lustosa, "nenhuma manifestação oficial de boas-vindas o esperava na Estação Central do Brasil. Nem banda de música, nem comissão de recepção, nem mesmo um, qualquer um, representante do governo o aguardava".
Flores murchas, panos desbotados e um coreto vazio atestavam que uma comemoração ocorrera dias antes. Era uma homenagem a uma comissão de oficiais uruguaios que visitara o Brasil.
Mais de 20 anos depois, a simplicidade dos costumes ainda era levada a sério. O rei e a rainha da Bélgica, em visita ao Brasil, eram homenageados com um jantar. A rígida praxe republicana desconhecia o uso de medalhas no peito. O monarca distribuíra, na véspera, comendas a todos os convidados. Foi preciso que Epitácio Pessoa, a quem as condecorações não desagradavam, baixasse uma orientação autorizando a novidade.
Washington Luís, para total surpresa de quem só o conhece pelas fotografias, era tido como um sujeito sorridente, bonitão, simpaticíssimo. Hermes da Fonseca, ao que tudo indica um desastre como presidente, estava com 58 anos quando se casou, em pleno mandato, com a bela Nair de Teffé, trinta anos mais moça.
Dançaram no Catete o "corta-jaca", para horror de Ruy Barbosa. "Aqueles que deveriam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas", trovejava o antigo abolicionista no Senado, adotam "a mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens".
Tudo parece pequeno, modesto, municipal. Delfim Moreira cogitou de fazer uma criação de galinhas nos jardins do palácio. Já estava sofrendo, é verdade, de demência, mas no fundo a caipirice era comum entre os presidentes da época. Wenceslau Braz, enquanto foi vice de Hermes da Fonseca, passou o tempo todo fora da capital: gostava mesmo é de ficar pescando em Itajubá.
Nostalgia, é claro, não vem ao caso quando se lê sobre essa gente. Tampouco se reitera a imagem de um Brasil pacato e cordial. Atentados (Prudente de Morais quase foi atingido por um tiro, enquanto enrolava um cigarro de palha à janela do Catete), revoltas, bombardeios não faltaram.
Pessoas de carne e osso se engalfinhavam em ódios políticos, entregavam-se a amores, doenças, imaginações e leis. Saem um pouco mais reais do livro de Isabel Lustosa; irreal, mesmo, parece ter sido aquele Brasil que se governava do Catete.
Mais presidentes? Um poeta, Valério Oliveira, acaba de lançar um livro originalíssimo e inquietante pela editora Hedra. Chama-se "Todos os Presidentes", e o título de cada poema faz menção a um presidente brasileiro. Há o "Estúdio Getúlio de Dublagem", por exemplo, a "Padaria João Goulart", ou a "Lotérica Fernando Henrique".
Não se esperem sátiras políticas de conteúdo previsível. São poemas sobre o cotidiano, escritos com grande controle do humor e da confidência. Enigmáticos, austeros, sem comendas nem condecorações, os versos de Valério Oliveira merecem lugar de honra em nossa república das letras."
MARCELO COELHO

novembro 25, 2008

Arte e mistificação

Nesta minha compulsória temporada curitibana, uma vez que retornando de Sampa não pude prosseguir para Santa Catarina, folheando alguns livros antigos, dentro de um deles, deparei-me com um recorte da FSP com esta crônica do Cony. Havia me lembrado dela este ano, ao visitar o Reina Sofia onde , atualmente, se encontra exposta esta grande (em vários sentidos) obra do Picasso, numa sala exclusiva no andar que lhe foi reservado.Enquanto observava as pessoas extasiasdas diante do imenso quadro, me perguntava - O que estariam vendo nele?
"Se o poeta é fingidor, segundo um deles, o artista, sempre que pode, mistifica. Talvez seja uma coordenada inerente à arte. Um caso que ilustra essa mistificação é o quadro "Guernica", que muitos consideram o mais importante do século.
O próprio Picasso e os partidos comunistas de todos os quadrantes foram os primeiros a classificá-lo como a denúncia do horror desencadeado pelo fascismo na Guerra Civil da Espanha, prenúncio do horror posterior a cargo dos nazistas. Existem toneladas de livros analisando a crueldade dos aviões de Goering despejando bombas na indefesa cidade espanhola.
Pior mesmo foram os críticos que interpretaram aqueles pedaços de touro e cavalo, de mulher e casa. Viram naqueles destroços os sinais da bestialidade nazifascista. Acontece que o quadro foi pintado antes do bombardeio. Picasso idolatrava o toureiro Joselito, morto tragicamente, e dedicou-lhe uma tela de oito metros de largura por três e meio de altura. Intitulou-a "A morte do toureiro Joselito". Usou de cores sombrias, fúnebres, que iam do preto ao branco.
O pintor chegou a se esquecer do quadro, até que lhe encomendaram um trabalho para o pavilhão republicano da Exposição Universal de Paris. Com alguns retoques, mandou a morte do toureiro. O nome foi mudado para "Guernica". Como era isso que esperavam dele, ninguém reparou. Teve início uma das mais ridículas interpretações críticas na história das artes.
Tanto o cavalo do picador como o próprio touro estão em lugares de destaque no quadro. A expressão de horror das cinco figuras humanas é comum nas arenas. A criança morta no colo da mãe é uma alusão à personalidade de Joselito, uma espécie de menino grande e heróico.
García Lorca também dedicou belo poema a um toureiro, "Llanto por Ignacio Sánchez Mejías". É um dos mais conhecidos: "Eran las cinco en punto de la tarde". Mas aí foi diferente."

CARLOS HEITOR CONY - na FSP

Entretantos

Em sua coluna (na FSP) intitulada Morte e Vida, JOÃO PEREIRA COUTINHO, a propósito de seu comparecimento ao funeral de um amigo de sua família, faz uma reflexão interessante que resumi para este espaço. Inicia pela longevidade do morto: 97 anos, "uma proeza que só a medicina moderna é capaz de produzir na sua busca pela imortalidade possível".(!)
Acrescenta dados estatísticos para concluir que em Portugal (de onde ele escreve) a longevidade fica algures pelo meio, invertendo apenas a tendência entre homens e mulheres: a partir dos 50, os homens podem contar, em média, com 14 anos de vida saudável. As mulheres, com 12. Eu estaria na "prorrogação". A medicina, é mais do que sabido, vence batalhas, mas não vence a guerra, não derrota a mortalidade do corpo.
Voltemos ao texto do JPC: "Regresso ao funeral. Eu, caminhando atrás do carro fúnebre, olhando em volta. Pessoas, poucas.
Velhos, alguns. Crianças ou jovens, nenhum. Curioso: o homem tinha netos e bisnetos. Nenhum deles está presente.
Eu próprio, com os meus 32 anos, sou talvez a personagem mais nova desse filme. Comento o fato com alguém. Dizem-me que é normal: nos funerais modernos, é importante "proteger" (atenção ao verbo) as crianças e os jovens da morte. "Proteger". Da morte.
Admirável. Durante séculos, a civilização soube acomodar a morte entre os vivos, porque uma vida feliz implicava,como Montaigne dizia, aprender a morrer: aprender que a finitude da vida revaloriza a própria vida. Porque só a consciência plena do fim nos permite uma entrega total aos entretantos. Como dizia um conhecido historiador francês, a morte estava no centro da vida como a igreja no centro da vila.Tudo mudou. Conheço casos de gente que, por questão de princípio, não vai a funerais (exceto, presumo, ao próprio). Hoje, a morte é um embaraço que se intromete entre uma festa de juventude permanente.
Mesmo que essa festa tenha prazo: 73 ou 74 anos de saúde boa para homens ou mulheres. O resto é desperdício.
O resto é pó, como o pó que cai sobre o caixão. Olho para a cova, ouço a terra que cai sobre a madeira. Tenho um céu de chumbo sobre mim. Irá chover, não tarda. Mas, antes que os céus se abram em choro sobre o mundo, dou por mim numa oração íntima em frente ao meu destino. E então peço a esse Deus desconhecido que me dê a graça e a sabedoria de partir na altura certa.
Meu Deus, faz com que eu morra vivo. Não me dês a eternidade ilusória nem suspendas o meu pobre corpo no limbo dos homens. Ensina-me a morrer, a única forma de eu aprender a viver com a consciência de que todos os dias da minha vida são frágeis e temporários, e, por isso, valiosos. Concede-me essa dádiva, e eu prometo que não irei estragá- la com a ganância própria dos desesperados."
É isto. Vamos aproveitar os "entretantos" enquanto a festa não acaba!

novembro 23, 2008

J´ AI DEUX AMOURS

“Se queres ser universal, canta tua aldeia” é uma frase de Tolstói que me ocorreu a propósito do sempre reiterado amor do Antonio pela sua Vila do Conde.
Mas o que dizer da sensação de familiaridade com outra cidade, ao ponto de estando nela experimentar, num inexplicável " à vontade", o conforto de estar revendo algo conhecido que sempre esteve ali e dentro de nós, de viver em constante e, às vezes, perturbável déja vu ?
Andei pensando nisto...Vamos ao que ele me escreveu relacionando a sua pequena Vila do Conde à Paris ...
".......
Numa das minha idas matinais para o trabalho, dei comigo a interrogar-me porque é que gostava tanto de Vila do Conde e de Paris.
E porquê Vila do Conde, cidade onde nasci, mas que é povoada por uma gentinha tão comezinha, pacóvia e maldizente, que até muito antipatizo?
Acontece, que descobri que essa pequena cidade não foi danificada pelos tempos modernos, tudo está impressionantemente igual ao que era há 40 anos atrás (evidentemente restaurado e mais asseado) . Está lá o pelourinho, os paços do concelho, as ruas antigas, as pastelarias, o garanjeiro que repara as bicicletas , o rio, a praça da republica, o casario, a rua da fraga, as mesmas ourivesarias, as mesmas lojas no mercado municipal, os mesmos stands de automóveis, as mercearias, as retrosarias, os monumentos bem conservados, o rio Ave corre tranquilo, poluído, mas não comprimido, o pinhal, as vielas as tascas, as mesmas avenidas, a casa onde almoçava aos 10 anos de idade, o jardim, e aquele céu aberto sem mamarrachos em altura, aquela luz, a luz da minha existência, que ora me fascina ora me perturba!!
Paris , conheci-a (muito jovem, na literatura) pessoalmente, em 1978, voltei lá várias vezes, e foi sempre com emoção e verifiquei que ela pouco se transfigurou , é curioso que no centro da cidade, dificilmente se vê um edifício novo e tive sempre a sensação que o ambiente nas ruas foi sempre o mesmo. Lá estava a Ópera, Place Vendôme, Lafayette , Printemps, salvo a lendária Samaritaine, que encerrou portas, a Cité, Pigalle, Boulevard de Clichy, Moulin Rouge, Folies Bèrgere, Bois de Boulogne, o café Flore, Les Deux Magots, , os Monoprix e Prisiunic, a praça da Concórdia, o jardim das tuileries, o jardim de Luxemburgo, a Conciergerie , etc etc….dificilmente via um edifício degradado.
Tudo isto se aflorou no meu espírito por causa da proposta de nos encontrarmos em Paris, e que fez activar em mim a sensação que ora Vila do Conde ora Paris me transmite de um reconfortante sentimento de estabilidade. Assim como uma sensação de segurança , neste mundo onde tudo muda de forma perturbante, que por vezes, baralham-se-me os espíritos e os sentidos.
Dou por terminado o devaneio de um sentimentalista provinciano!

......"

Não se trata de mero devaneio...quem não tem dois amores?
(foto do Antonio: Este um afluente do Ave)

novembro 22, 2008

" Poesia é voar fora da asa"

Este é um trecho do Livro das Ignorãças de Manoel de Barros.

Uma didática da invenção
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre dois lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que emudece primeiro
etc
etc
etc
Desaprender oito horas por dia ensina os princípios.
II
Desinventar objetos. O pente, por exemplo. Dar ao
pente funções de não pentear.Até que ele fique à
disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha.

Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.
III
Repetir e repetir - até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.
IV
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.
V
Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.
VI
As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.
VII
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a vos de fazer
nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.
VIII
Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gogh.
......

Fico por aqui já que o espaço não comporta tanto quanto eu gostaria, que seria além deste: Retrato do artista quando coisa, Tratado geral das grandezas do ínfimo, Livro sobre nada e a Gramática Expositiva do Chão. Se não resistir voltarei com outras...
"Ocupo muito de mim com o meu desconhecer".

As fases de Woody Allen

A Revista BRAVO! deste mes traz uma reportagem excelente, para quem gosta de cinema, e, especialmente de Woody Allen. Mostra todas as suas fases e os filmes essenciais de sua cinematografia: os filmes "piada-puxa-piada", em busca dos conflitos interiores, a fauna nova-iorquina, a literatura como inspiração...
Para acessar clique no título da postagem.

Vitrines de Zola

A carne é fraca, mas a roupa é mais ainda.
"Essa visão do desejo como mola propulsora da sociedade moderna está no centro de um dos romances mais fascinantes do século 19, o primeiro a colocar o consumo no primeiro plano narrativo.
Publicado em livro em 1883, "O Paraíso das Damas", de Émile Zola (1840-1902), descreve o surgimento da primeira loja de departamento da história e que dá nome ao livro - ela é inspirada livremente no "Au Bon Marché", que existe até hoje nos números 22 e 24 da rua de Sèvres, em Paris.
Entre frufrus dos vestidos das madames e a algazarra de um mercado persa, "O Paraíso das Damas" cria um universo novo de tecidos, cores, texturas vindos de toda parte do mundo, criados e desfeitos ao sabor do capricho de cada estação.
O mundo volátil do desejo e do supérfluo encontra sua primeira representação na história da literatura. Claro que antes houve Baudelaire, que definiu a modernidade como a combinação do efêmero e do perene, onde a moda ocuparia um lugar especial.
Mas, em Émile Zola, não se trata de especulação, mas de pura representação: em cada vitrine, em cada balcão, em cada prateleira de "O Paraíso das Damas", reencena-se, a todo o tempo, o grande palco da vaidade humana.
Seu fio condutor é a típica história de amor derivada do gênero mais popular do século 19: o romance de folhetim.
Denise, a humilde órfã que chega à cintilante capital em busca de sustento para si e para o irmãozinho, em pouco tempo se torna balconista da maior sensação da Paris de então. Logo desperta o interesse do patrão, Mouret, jovem ambicioso e dominador. Aos poucos, sua candura e dignidade amolecem o coração do jovem e, juntos, enfrentarão as contingências de renda e classe.
Sabe-se que um escritor como Flaubert fez picadinho, em "Madame Bovary" (1857), desse clássico entrecho folhetinesco. Mas não era esse o objetivo de Zola. Mais que a busca do "mot juste", Zola sempre perseguiu a "vida injusta", sub-representada pela afirmação política, econômica e social da burguesia parisiense da segunda metade do século 19.
Isso se vê em obras clássicas como "Germinal", sobre a vida dos mineiros de carvão, ou ainda, "Nana" e, claro, "O Paraíso das Damas".
Pois a força de sua narrativa não vem da precisão obsessiva e quase árida que existe em Flaubert, mas, ao contrário, da exuberância das longas frases e de descrições cumulativas que hoje se poderiam chamar de barroquizantes.
Aqui, em vez dos mineiros enterrados no norte da França, há a exploração das classes mais baixas emigradas do interior pobre e atraídas pela concentração de capitais da tardia revolução industrial francesa.
Ao mesmo tempo, o romance também traça o surgimento do grande comércio impessoal, que devorava, com os "dentes de ferro de suas engrenagens", o pequeno comércio de rua -as "boutiques" familiares e descapitalizadas.
E, na grande cidade, bairros inteiros de Paris vinham abaixo para dar espaço aos amplos bulevares concebidos pelo barão de Haussmann.
Como síntese dessas linhas de força concentradas em Paris, paira O Paraíso das Damas, "uma capela construída ao culto das graças da mulher".
Assim, no momento em que a sociedade de consumo apenas despontava no horizonte, Zola anteviu com precisão a nova ordem, descrita nas palavras de Mouret: "Eu tenho a mulher, pouco me importa o resto".
MARCOS FLAMÍNIO PERES
EDITOR DO MAIS! da FSP
Acaba de ser lançado.

Beaujolais

(Photo Paul Delort / Le Figaro)
(Photo : Ben Vautier)
A cada terceira quinta feira de novembro o mundo, especialmente a França fica em festa!