novembro 15, 2008

"Vicky Cristina Barcelona"

Acabo de voltar do cinema. Postei um texto da crítica especializada em 27.10 torcendo para o filme chegar aqui. Hoje foi sua estréia e não decepciona. Filmando na Europa, Wood Allen às voltas com as diferenças culturais entre europeus e americanos passa ao largo dos estereótipos (lembram de Match Point e Scoop?). Neste VCBCN ele se mostra, mais uma vez, um inconformista, alguém que não aceita os destinos traçados, definitivos. Constrói um ménage à trois em paisagem espanhola e a e escolha de Barcelona não podia ser mais feliz como cenário para esta movimentada história de amor.
As peças do triângulo são Cristina (Scarlett Johansson), Maria Elena (Penélope Cruz) e Juan Antonio (Javier Bardem). Se já é difícil conseguir conviver com uma pessoa. Com duas, tende a ser mais complicado. Na vida real, a maioria das pessoas não pode conviver com essa situação. No cinema, dá para fazer isso. Da ex-mulher e grande amor de Juan, passional, desequilibrada, genial, virá a idéia interessante da beleza de amores que nunca podem se realizar.
Levar seus personagens para um fim de semana em Oviedo acredito tenha sido a forma de Wood Allen retribuir a homenagem que lhe fez a cidade. A foto é da estátua dele em uma de suas ruas. A trilha sonora é bem boa!

"Second Life"

Conseguimos chegar a este ponto. Não se trata de ficção.
Deu no Estado de S. Paulo:

"A britânica Amy Taylor, 28, pediu divórcio de seu marido na vida real depois de flagrá-lo em um encontro íntimo com uma avatar no Second Life (SL). Em entrevista ao site Sky News, Amy disse que esta foi a segunda vez que David Pollard, 40, se envolveu em um relacionamento virtual desde que eles se casaram.
O Second Life permite que jogadores criem vidas virtuais nas quais o personagem, ou avatar, pode ter vida social, desenvolver relacionamentos, comprar propriedades ou montar negócios em um mundo imaginário digital, que utiliza uma moeda própria. No mundo virtual, Amy é a DJ Laura Skye e Pollard é o avatar Dave Barmy.
Amy e Pollard se conheceram em uma sala de bate-papo na internet, em maio de 2003. Eles trocaram fotos e depois de seis meses de ligações telefônicas e muitos e-mails, Amy deixou Londres para morar com Pollard em um flat, na costa da Cornuália, Reino Unido.
A felicidade de Amy, porém, durou pouco. Três meses depois, ela flagrou Pollard se divertindo no SL com uma prostituta virtual. “Fiquei louca. Foi muito doloroso e eu mal podia acreditar no que ele fez.”
Em vez de pedir desculpas, Pollard ainda tentou culpar Amy. “Ele me disse que não via seu comportamento como um problema e não via razão para eu estar tão aborrecida”, disse Amy. “Para ele, eu estava fazendo muito barulho por nada e ele afirmava que a culpa era toda minha, por eu não dar atenção suficiente a ele.” Na época, o casal se reconciliou.
Em julho de 2005, Amy e Pollard se casaram na vida real e celebraram o fato com uma cerimônia no metaverso.
Apesar de tudo parecer bem, Amy desconfiava de que algo continuava errado. “Ele nunca fez nada na vida real, mas eu tinha minhas suspeitas sobre o SL”, disse ela.
Em abril deste ano, Amy flagrou Pollard em um encontro no SL. Ele desligou o computador e confessou a Amy que vinha se encontrando no SL com uma residente norte-americana. “Ele me contou que disse à sua namorada virtual que nosso casamento havia acabado, que não me amava mais e que nunca deveríamos ter nos casado.”
No dia seguinte, Amy deu entrada no pedido de divórcio. Nos documentos enviados à corte de justiça, a jovem alegou o comportamento inaceitável do marido como argumento para pôr fim ao casamento de três anos.
“Minha advogada não estava surpresa. Ela me disse que, naquela semana, o meu era o segundo caso de divórcio envolvendo o Second Life”, explicou Amy.
Amy disse que ficou muito triste por um tempo e que tudo passou. Segundo ela, agora há um novo homem em sua vida. Amy encontrou seu novo amor no RPG on-line World Of Warcraft".

Humor grego

Gregos escreveram livro de anedotas há 1.600 anos (Deu na FSP)
"Eu vou te dizer o que há de errado com ele. Ele está morto." Para quem acha que os antigos gregos pensaram em tudo primeiro, a prova foi encontrada em um livro do século 4º que traz um ancestral de um famoso quadro do grupo humorístico britânico Monty Python no qual um cliente devolve um papagaio para a loja, reclamando de que ele está morto.
O trabalho de 1600 anos, intitulado "Filogelos", um dos livros de piadas mais antigos do mundo, traz uma anedota na qual um homem reclama que um escravo que ele acabara de comprar estava morto. "Pelos deuses", replica o vendedor. "Quando estava comigo ele nunca fez uma coisa dessas!"
O livro eletrônico, cuja edição inglesa foi lançada nesta semana, traz 256 piadas sugerindo que sexo, idiotas, mulheres rabugentas e flatulências provocam riso há séculos. O manuscrito é atribuído à dupla de comediantes Hiérocles e Filagrius.
Algumas piadas podem desconcertar a audiência moderna, como uma série sobre a alface -o que só faz sentido à luz da antiga crença de que a planta tinha propriedades afrodisíacas
".
O livro deve ser bom, mas só tem piadas velhas!

novembro 14, 2008

Quando para de chover...

...a gente confere os estragos e vê o que não vai dar para ser recuperado antes da “temporada”... e, assim, decide onde é melhor evitar circular.
A ponta do Sambaqui está difícil!
...a gente come sardinha no zédocacupé, chamando de “cardosinho” pra não destoar e entre o lado do Avaí ou do Figueira, fica-se pelo meio para não tomar partido e respeitar a dor alheia, inclusive a do garçom.
...a gente bebe vinho chardonnay chileno com gosto de abacaxi ...e gosta!
embora continue a lamentar não ter mais aquele chopp alemão cremoso no Freguesia, que a gente bebia acompanhado de ói-ói-ói (conhecido no resto do mundo como “agulhinha”).
O incompreendido "menos juízo" que acompanhou um "feliz aniversário"!
"Por que? se perguntava a Cê, acaloradamente, sob o efeito de um "Pureza" de 600 ml!(guaraná de Rancho Queimado embalado em garrafa de cerveja).
Na discussão sobre se ter mais, ou menos "juízo", ajuda ou atrapalha, ouviu-se que "são pessoas mais velhas as que falam para se ter menos juízo".
O "por que?" continuou pairando...
Como ainda há quem tenha compromisso sábado, a gente vai indo...
A conta vem acompanhada de balas de doce de coco (queimado) DALVA. Disputadíssimas! Discute-se qual seria a mais velha das balas antigas, até descobrir que não resolveremos o impasse. Fabricadas em Biguaçu, não trazem “since” na embalagem...
A confiabilidade dos prognósticos da internet quanto ao tempo: mais chuva, menos chuva ou o inacreditável sol, depois de 12 fins de semana, continua na pauta!
Afinal, se acredita em pouca coisa...
Mas esta trégua foi bem aproveitada!

FATAL


Desde maio, quando li "O Animal Agonizante" (v.literatura) que espero para assistir Elegy (FATAL). Filmes como este demoram a chegar aqui na ilha. Nem nas locadoras são encontrados. Apesar de o número de salas de cinema haver quintuplicado nos últimos dois anos, este crescimento foi, meramente, quantitativo. A falta de opções persiste. Nas novas salas são exibidos quase exclusivamente filmes "blockbusters"...
Finalmente, esta semana vi numa cópia emprestada por uma amiga. A adaptação do romance de Philip Roth, um dos principais escritores americanos contemporâneos, nas mãos de Isabel Coixet, não poderia mesmo ter resultado no que disse a crítica da FSP que nem vale a pena repetir.
O filme é poético e triste, indo muito além do superficial em todas as relações e personagens que apresenta. Tudo e todos são bem explorados, de forma sensível e tocante. A direção de Isabel Coixet encontra a sutileza necessária para tratar de sentimentos pessoais, como a difícil relação entre pai e filho, a partir do belíssimo e bem estruturado roteiro de Nicholas Meyer.
Trata-se da história de um importante crítico, professor de literatura em Nova Iorque, que depois de uma vida inteira de relações amorosas descompromissadas, se vê perdidamente apaixonado pela jovem aluna cubana, Consuela, vivida por Penélope Cruz.
Digna de registro a atuação de Ben Kingsley, como o sedutor professor Kepesh. Traduz perfeitamente todas as nuances do complexo personagem e suas intrincadas relações.
Gostei dos jogos de sedução, dos "códigos" de acasalamento de que ando meio esquecida,dos amores adultos ...
Acho que todo mundo deve assistir!

Para mim os animais importam

Este é o nome de uma ONG cujo site se pode acessar clicando o título desta postagem. Veja como eles, diferentemente de nós, conseguem conviver naturalmente com outras espécies.

novembro 13, 2008

Mais adultérios virtuais

"A COLUNA da semana passada tratava do uso da pornografia na internet, ou melhor, apresentava os resultados de uma pesquisa segundo a qual apenas um terço das mulheres parece considerar que o uso da pornografia on-line por seu parceiro constitui uma traição. Um pressuposto da pesquisa era que os homens gostariam de pornografia muito mais do que as mulheres.
Recebi numerosos comentários, de dois tipos. Houve leitoras contestando a idéia de que a pornografia seja coisa de homem. E houve leitores e leitoras que esperavam que eu me ocupasse propriamente das relações adulterinas virtuais via Orkut, MSN etc. (as quais, de fato, despertam o ciúme e o desespero do parceiro excluído ou "traído" muito mais cruelmente do que o uso de pornografia on-line).
Concordo com as leitoras que contestam o pressuposto da pesquisa apresentada. Elas lembram que, tudo bem, talvez haja mais homens interessados em pornografia do que mulheres, mas certamente há muitas mulheres que gostam de algum tipo de pornografia.
Nossa cultura, até 40 anos atrás, preferia pensar que as mulheres não tivessem desejo sexual algum (fantasias sexuais, nem falar): melhor, portanto, desconfiar de pressupostos que parecem confinar "naturalmente" as mulheres no mundo dos bons sentimentos da mãe reprodutora (e eventualmente tolerante com as "excentricidades" do marido "tarado"). Tanto mais que, na segunda metade do século 20, os melhores textos da literatura erótica foram escritos por mulheres.
Vamos aos leitores que esperavam que eu tratasse das relações adulterinas virtuais.
Nota prévia. O uso da internet para seduzir um ou uma amante e, entre um encontro e outro, seguir dialogando com ele ou com ela não difere substancialmente do uso de cartas ou telefonemas. Ou seja, os amores e adultérios virtuais propriamente ditos são apenas as relações que se mantêm sempre na virtualidade, embora possam ser afetivamente muito relevantes para os envolvidos -talvez mais relevantes do que as relações reais com o parceiro ou a parceira com quem eles vivem.
Ora, os amores e adultérios virtuais, assim definidos, são uma prática tanto masculina quanto feminina e cada vez mais difusa. Uma leitora, Nícia Adan Bonatti, escreveu (com brilho e bom humor): "Há muitas mulheres que fogem de seu cotidiano massacrante, insosso e afetivamente estéril buscando parceiros "príncipes encantados" em suas andanças internáuticas. O feijão pode queimar na panela, mas as horas gastas na internet serão preservadas como um tesouro inexpugnável (...) É muito fácil esquecer que o parceiro de vida já foi o príncipe da vez em priscas eras, já foi o desencadeador de taquicardias homéricas antes de transformar-se no nabo de miolo mole que ronca no sofá".
Essas mulheres, ela continua, "vivem loucas aventuras virtuais, realizam desejos recônditos sem pagar preços por suas fantasias; divertem-se bastante, e depois lavam as mãos e recebem os maridos como se o dia tivesse sido mais um da infinita rotina".
Concordo: homens e mulheres parecem encontrar na net um instrumento novo e adequado para compensar uma insatisfação crônica com a vida que eles se permitem viver -compensar, digo, não com as quimeras solitárias de Madame Bovary, mas numa espécie de "bovarismo a dois", em que o devaneio é sustentado e, de fato, realizado pelo diálogo virtual com alguém que pode estar a milhares de quilômetros de distância e, por isso mesmo, garante facilmente a permanência do encantamento.
Conheci um casal unido, que se gostava e compartilhava com coragem as alegrias e as adversidades da vida. Um dia, cada um deles, o homem e a mulher, descobriu que o outro vivia, pela internet, um amor virtual paralelo.
O ciúme era fora de questão, visto que ambos eram traidores e traídos. Só cabia uma certa consternação: "O que aconteceu com a relação que estamos vivendo, se, para vivê-la, ambos precisamos imaginar outra?".
A leitora que citei termina seu e-mail perguntando: "O que temos, enfim, feito com nossos sonhos?". Pois é, graças à internet, conseguimos separá-los bastante radicalmente do mundo real; com isso, eles não nos ajudam a transformar nossa vida. Em compensação, devanear se tornou um prazer menos sofrido. Mme. Bovary se desesperava por não ser "outra"; nós, teclando noites a fio, podemos encontrar alguém que nos faça acreditar que somos "outros"."
CONTARDO CALLIGARIS escreve, às quintas, na FSP.

DOIDAS E SANTAS

Recentemente, me referi ao fato de na literatura brasileira contemporânea predominar, sobre qualquer outro gênero literário, a crônica.
Pois bem, acaba de ser lançado Doidas e santas um desses livros em que foram reunidas 100 crônicas da Martha Medeiros. A autora que, antes de ser escritora foi publicitária, conta com uma legião cada vez maior de leitores (as). Seus textos abordam temas da vida contemporânea que vão desde o amor, maternidade, sexo, família, casamento às neuroses da vida urbana. Como acontece com os de outros cronistas, seus textos vêm sendo reproduzidos pela internet o que a incomoda. Ela se queixa de os textos ganharem enxertos, cortes, novas autorias, serem acompanhados de músicas de gosto duvidoso e de ilustrações que nada acrescentam.
O nome do livro (DOIDAS E SANTAS) é o mesmo de uma das crônicas (v. crônicas, em 30.06) cujo título é inspirado num verso da Adélia Prado (v. em “poesia” A Serenata, em 30.06). A crônica fala das escolhas de uma mulher madura: ou segue tentando satisfazer seus desejos ou interrompe as buscas. Mulher de uma certa idade ainda exposta às paixões seria uma doida (!), enquanto que as santas serenizam(?).
Dizer que “Toda mulher é doida. Eu só conheço mulher louca” seria, segundo ela, um elogio a todas nós. “ É a loucura do eterno questionamento, de não se contentar com o que parece definitivo, de possuir inúmeras vontades, mesmo contraditórias: casar e não casar, ter filhos e não ter filhos… É a loucura sadia de querer se conhecer profundamente, já que não muito tempo atrás nosso papel era muito definido e inquestionável. Antes éramos mulheres privadas, agora somos públicas. Ainda estamos em estado de excitação: falamos demais, gesticulamos demais, queremos demais, amamos demais. Somos ainda bastante superlativas.”
Numa entrevista recente, MM a propósito de casamento disse acreditar que “ todo mundo segue almejando uma relação estável, uma relação de amor. Falta aceitar que o “pra sempre” não existe mais, porque temos mais oportunidades e mais longevidade, e isso dinamiza a vida. Se aceitarmos que não é nenhum fiasco vivenciar, ao longo da vida, duas ou três relações estáveis – sem contar as provisórias, contingentes, como dizia Simone de Beauvoir – ninguém mais falará em fracasso ou crise. Se observarmos bem, já estamos vivendo essa realidade. Falta aceitá-la como padrão de normalidade.”
Quanto à felicidade amorosa ter virado quase uma obrigação, especialmente para as mulheres, MM entende que essa busca sempre foi um objetivo do ser humano, ainda que “Algumas pessoas realmente se desesperam e se jogam em qualquer oportunidade de contato, mas quem somos nós para julgar? E se esse preço não for caro pra elas? Outras aceitam a idéia de viverem sozinhas, até que surja alguém em quem valha a pena investir. Acho que a patrulha era até pior antes: se você não fosse casado, era uma solteirona recalcada (nós) ou playboys indignos de confiança (vocês). Uma enorme pressão. Hoje as pessoas já não cobram tanto se você é solteiro ou casado, ainda que a sociedade sempre receba com mais alegria os “pares” do que os “ímpares”.”
Para ela, “ a insatisfação feminina está mais relacionada à quantidade
de responsabilidades que a mulher tem assumido. Parece que é preciso ser super-mulher para provar que a revolução feminista vingou. Vejo certas capas de revistas, e parecemos todas biônicas, infladas, poderosas. Creio que é o momento de buscar um equilíbrio nas tarefas e não se importar muito com o que a sociedade espera de nós.”

Das crônicas agora reunidas já li tantas em publicações esparsas que, no momento, não penso em (re) lê-las, mas que são deliciosas, é inegável!

novembro 12, 2008

AVISO

Devido às quebras de bancos, queda nas bolsas, cortes no orçamento, crise nos combustíveis e pelo racionamento mundial de energia, informamos que a famosa "luz no fim do túnel" será desligada.
Sabedeus por quanto tempo!

O Dicionário do Amor

Quem já se apaixonou sabe de que Roland Barthes fala quando diz: “O sujeito apaixonado é atravessado pela idéia de que está ou vai ficar louco”.
Fragmentos de um discurso amoroso é um livro que atrai pelo título e, ao folheá-lo, nos vemos diante de um texto repleto de aforismos e “fragmentos”que se oferecem à uma leitura aparentemente distraída do amor. Tudo no livro surge como “algo que se leu, ouviu, experimentou”.
Pouco importa, no fundo, que a dispersão no texto seja rica aqui e pobre ali: há tempos mortos, muitas figuras modificam-se; algumas, sendo hipóstases de todo o discurso de amor, possuem a própria raridade - a pobreza - das essências: que dizer da Languidez, da Imagem, da Carta de Amor, uma vez que é todo o discurso de amor que está tecido de desejo, de imaginário e de declarações”.
Segundo o próprio Barthes “querer escrever o amor é enfrentar a desordem da linguagem: esta terra de loucura em que a linguagem é ao mesmo tempo muito e muito pouco excessiva (pela expansão ilimitada do eu, pela subversão emotiva) e pobre (devido aos códigos com os quais o amor a rebaixa e avilta)”.
O livro é um diário da paixão e trata do que todos que se apaixonaram viveram, “o elogio das lágrimas”, “o ciúme”, Que fazer?”, “O coração”, “A ressonância” e outros temas que são apresentados em verbetes.
Em cada verbete, o sujeito do discurso amoroso registra as angústias mais veementes de um coração apaixonado e nos faz refletir acerca de ações banais, como a espera de um telefonema (ou a dúvida quanto a ligar ou não), o ciúme inexplicável que sentimos ao ver um terceiro falando do nosso ser amado ou simplesmente o delírio da paixão amorosa.
Barthes, combinando citações e suprimindo aspas, parece confirmar que "não se copiam obras, copiam-se linguagens". Na linguagem dos enamorados como seres solitários e incompletos, o discurso do amor surge como sentimento incompreensível. O livro, através de inúmeras citações e exemplos do tema confirma que é como o próprio ser amado descrevendo-se: lê-lo é conhecer o desconhecido eternamente. "[...] tudo se representa, pois, como uma peça de teatro". ....."O apaixonado é, portanto, artista e o seu mundo é bem um mundo às avessas, pois toda a imagem é o seu próprio fim (nada para lá da imagem)"
Há quem acredite tratar-se de um livro para quem ama poder amar ainda mais. Para quem amou, sentir saudades e querer amar novamente. Ou para quem ainda desacreditado no amor, queira um dia amar, mas que não se contente com qualquer amor.
Ou seja, para os desavisados acerca da natureza patológica da paixão.

OBJETO DE DESEJO

Alguns leitores do blog enviam comentários via e-mail, uns dizem não conseguir deixar o comentário no local próprio, outros sequer justificam. Não importa. Faz algumas semanas que, por conta das críticas de que o blog seria "chatamente intelectual", comecei a tentar imprimir, às quartas, uma certa leveza nas postagens. Afinal, alguém tem que gostar de visitar o blog! Não sei se este é o melhor caminho, também não conheço outro. Seja como for, na linha "futilidades", hoje, além de meu sapateiro maravilhoso, exponho meu sonho de consumo, na foto aí em cima. Não é a minha cara? Este meu namoro é bem antigo e o "cenário" fortalece qualquer paixão. Como não se paga para sonhar...

Saltos Altos

"Eu não sei quem inventou o salto alto, mas todas as mulheres devem muito a esse cara", declarou, certa vez, Marilyn Monroe.
Eu também acho. Sou fã de sapatos e, se eles tiverem um saltão, melhor ainda. Acho que além de nos darem a ilusão de que ganhamos alguns centímetros, deixam o bumbum empinado e a postura fica mais bonitinha. E, o melhor de tudo: a gente se acostuma a andar com eles. Só não dá pra sentir dor, aí é demais...
Existe um estudo feito por uma cientista italiana indicando que usar sapato com salto de até 7 cm pode ajudar a relaxar e a fortalecer os músculos da região pélvica, relacionados ao orgasmo (italianos só pensam nisto!) . De acordo com a pesquisa, publicada na revista especializada inglesa European Urology, o efeito positivo não é maior se o salto for mais alto - é preciso considerar a relação entre o tamanho do pé e a altura do sapato.
Com o meu minusculo pé 32 (33 com palmilha) sempre amarguei muitas dificuldades para encontrar sapatos altos. Ultimamente, encontrei um exímio sapateiro que, além de fazer sob medida e na altura que considero ideal (6cm), oferece uma gama de cores inimagináveis nos sapatos das vitrines, todos grandes para mim. Pense na felicidade!

novembro 11, 2008

SER MULHER...

MIRIAM MAKEBA


Miriam Makeba, conhecida como "Mama África", nasceu em Joanesburgo (1932), morreu ontem em Castel Volturno, Itália. Foi grande ativista pelos direitos humanos e contra o apartheid na sua terra natal.
Em 1963, depois de um testemunho veemente sobre as condições dos negros na África do Sul, perante o Comitê das Nações Unidas contra o Apartheid, os seus discos foram banidos do país pelo governo racista e a sua nacionalidade sul-africana cassada. Nos EUA, casou em 1968 com o ativista político Stokely Carmichael, um dos idealizadores do chamado Black Power e porta-voz dos Panteras Negras, levando ao cancelamento dos seus contratos de gravação e a mudança do casal para Guiné. Nos anos 80, Makeba chegou a servir como delegada da Guiné junto à ONU, que lhe atribuiu o Prêmio da Paz Dag Hammarskjöld.
Com o fim do apartheid regressou à sua pátria a convite do então presidente Nelson Mandela. Foi agraciada, em 2001, com a Medalha de Ouro da Paz Otto Hahn, outorgada pela Associação da Alemanha nas Nações Unidas "por relevantes serviços pela paz e pelo entendimento mundial".
Miriam continuava a fazer shows por todo o mundo, apresentou-se numa manifestação de apoio ao cineasta Roberto Saviano, ameaçado de morte pela Máfia, em razão do filme Gamorra. No palco, sofreu um ataque cardíaco e morreu no hospital na madrugada do dia 10 de novembro.
Pata pata foi uma de sua músicas de sucesso no Brasil, nos anos 60.

MPB.com

Quem não gosta de MPB? Veja o site MPB HD que utiliza inovadora tecnologia de streaming de áudio e vídeo, que permite a exibição na internet de material multimídia com alta qualidade e com segurança anti-pirataria (sem download de arquivos).
Três músicas do Chico já estão à disposição: Partido Alto, interpretada por Maria Bethânia, Tatuagem, com Olívia Hime, e Morena de Angola, cantada pelo próprio Chico. Semana que vem, entra no ar a bonitinha Ciranda da bailarina, desta vez interpretada por Mônica Salmaso. Inaugurada em março, conta com artistas consagrados como Maria Bethânia, Rita Lee, Gilberto Gil, Luiz Melodia, Marina Lima, além do pessoal da nova geração.
Para acessar, é preciso fazer um pequeno cadastro, depois de clicar no título deste post. Vale a pena conhecer.

novembro 10, 2008

DESONRA

Acabei de ler DESONRA, de J.M.Coetzee, um dos mais conceituados autores contemporâneos em língua inglesa, nascido na África do Sul, ganhador do Nobel de literatura de 2003 e o único escritor premiado por duas vezes com o Booker Prize :com "Vida e Época de Michael K" e depois com "Desonra". Ambos os romances retratam a dura realidade social na África do Sul, pós-apartheid.
Como no romance Roubo, de Peter Carey (comentei aqui), temos a impressão de que nós brasileiros entendemos com facilidade a vivência com a brutalidade, decorrente da exclusão e das desigualdades sociais.
O intelectual e irônico David Lurie, professor universitário de poesia, era conformado com a falta de interesse dos seus alunos pela matéria que lecionava. “...brincava com a idéia de um trabalho que seria Byron na Itália, uma meditação sobre o amor entre os sexos na forma de uma ópera de câmara “. Com 52 anos, divorciado por duas vezes, era um homem solitário que resolvia sua necessidade de sexo com uma prostituta por quem nutriu um certo afeto.Desmoronou-se quando ela saiu de sua vida ("Sem os interlúdios das quintas-feiras, a semana fica tão sem forma como um deserto. Há dias em que ele não sabe o que fazer consigo mesmo") e passou a ter um caso com uma de suas alunas.
Desde que o mundo é mundo, professor(a) se apaixona por aluna (o) e vice versa (em todas as combinações) mas ali as absurdas regras do “politicamente correto” haviam sido transgredidas. Lurie responde a processo por abuso, sofre isolamento (primeiro a sentença, depois o julgamento) e é expulso da Universidade, após se recusar a assinar uma declaração admitindo que estava errado. Concluído o processo, pressionado pela condição de quem caiu em desgraça, decide se refugiar na fazenda de sua filha no interior.
Coetzee confronta vários aspectos da formação humanista de Lurie com a violência gerada pela pobreza dos excluídos em um país onde pertencer a uma classe social mais privilegiada pode ser "Um risco possuir coisas: um carro, um par de sapatos, um maço de cigarros. Coisas insuficientes em circulação, carros, sapatos, cigarros insuficientes. Gente demais, coisas de menos. O que existe tem de estar em circulação, de forma que as pessoas possam ter a chance de ser felizes por um dia.".
Lurie se dá conta de que suas angústias existenciais e desonra social são insignificantes diante da situação limite que vive com sua filha, ao serem atacados, na própria fazenda, por três negros que permanecem impunes.
É de total abandono e impotência a sua situação:"Ele fala italiano, fala francês, mas italiano e francês de nada lhe valem na África negra. Está desamparado, um alvo fácil, um personagem de cartoon, um missionário de batina e capacete esperando de mãos juntas e olhos virados para o céu enquanto os selvagens combinam lá na língua deles como jogá-lo dentro do caldeirão de água fervendo. O trabalho missionário: que herança deixou esse imenso empreendimento enaltecedor? Nada visível.".
O autor evidencia a brutalidade dos fatos omitindo o nome da atrocidade. Lurie e sua filha, em conseqüência, também entram nesse jogo de máscaras : “David, quando as pessoas perguntarem, você se importaria de contar só a sua parte, só o que aconteceu com você?” Confuso a princípio, o pai, revoltado, logo entende o que a filha quer dizer. Esta, sim, é a sua desonra.
Os personagens são imprevisíveis e de uma fragilidade intensamente verdadeira. A inadaptação de David Lurie às convenções do meio acadêmico e ao destino implacável, seja pela própria velhice que se aproxima ou pelas agressões sofridas por ele e a filha, constituem um estado de desonra permanente do qual ele não consegue escapar

novembro 09, 2008

Ontem...

Sobre viajar

Habitamos em várias cidades. São nossas cidades, não só aquela em que nascemos e/ou em que vivemos, mas aquelas que visitamos, ou desejamos visitar, aquelas com que sonhamos ou imaginamos...
Mas o que procuramos quando visitamos uma cidade?
Viajamos, dentre outras razões, para mudar de ares, buscar novas paisagens, novos cenários, experimentar a sensação de estrangeiridade... No entanto, acontece de visitarmos ruas, cafés, catedrais, museus, parques, trajetos e voltarmos um tanto desapontados, como o elefante da poesia de Carlos Drumnond, “... faminto de seres e situações patéticas, de encontros ao luar no mais profundo oceano, que saiu à rua à procura de amigos num mundo enfastiado que já não crê nos bichos e duvida das coisas”
“.... já é tarde da noite, volta meu elefante, mas volta fatigado....ele não encontrou o que carecia, o de que carecemos eu e meu elefante, em que amo disfarçar-me “.

De que carecemos nessas peregrinações pelas cidades do mundo?
Procuramos reencontrar ou recuperar momentos, situações, ou como diria o poeta: “sítios, segredos, episódios não contados em livro, de que apenas o vento, as folhas, a formiga reconhecem o talhe, mas que os homens ignoram, pois só ousam mostrar-se sob a luz das cortinas à pálpebra fechada”.
Estamos à procura do mundo onírico de que fala Ítalo Calvino, das cidades invisíveis que habitam nossa mente, onde buscamos encontrar o que foi sonhado.
Marco Pólo - nas Cidades Invisíveis - diz que quanto mais se perdia em bairros desconhecidos de cidades distantes, melhor compreendia as outras cidades que havia atravessado para chegar até lá , e reconstruía as etapas de sua viagem, e aprendia a conhecer o porto de onde tinha zarpado , e os lugares familiares de sua juventude, e os arredores de casa, e uma pracinha de Veneza em que corria quando era criança.
Os outros lugares seriam espelhos em negativo, onde quem viaja reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.
Isto é o que a viagem em grupo, acompanhada por um guia, nos impede de encontrar.O que procuramos não está lá, não daquela forma . As cidades de nossas mentes não obedecem às fronteiras formais, nem se referem ao que nos mostram.
Temos que nos deixar guiar pela emoção, o sonho, a memória, o imprevisto, o surpreendente e a idéia romântica de que estar nesses lugares fará de nós outra pessoa, a expectativa de que mudanças se darão magicamente ...
Acabamos viajando, principalmente, para dentro de nós mesmos.