novembro 13, 2008

Mais adultérios virtuais

"A COLUNA da semana passada tratava do uso da pornografia na internet, ou melhor, apresentava os resultados de uma pesquisa segundo a qual apenas um terço das mulheres parece considerar que o uso da pornografia on-line por seu parceiro constitui uma traição. Um pressuposto da pesquisa era que os homens gostariam de pornografia muito mais do que as mulheres.
Recebi numerosos comentários, de dois tipos. Houve leitoras contestando a idéia de que a pornografia seja coisa de homem. E houve leitores e leitoras que esperavam que eu me ocupasse propriamente das relações adulterinas virtuais via Orkut, MSN etc. (as quais, de fato, despertam o ciúme e o desespero do parceiro excluído ou "traído" muito mais cruelmente do que o uso de pornografia on-line).
Concordo com as leitoras que contestam o pressuposto da pesquisa apresentada. Elas lembram que, tudo bem, talvez haja mais homens interessados em pornografia do que mulheres, mas certamente há muitas mulheres que gostam de algum tipo de pornografia.
Nossa cultura, até 40 anos atrás, preferia pensar que as mulheres não tivessem desejo sexual algum (fantasias sexuais, nem falar): melhor, portanto, desconfiar de pressupostos que parecem confinar "naturalmente" as mulheres no mundo dos bons sentimentos da mãe reprodutora (e eventualmente tolerante com as "excentricidades" do marido "tarado"). Tanto mais que, na segunda metade do século 20, os melhores textos da literatura erótica foram escritos por mulheres.
Vamos aos leitores que esperavam que eu tratasse das relações adulterinas virtuais.
Nota prévia. O uso da internet para seduzir um ou uma amante e, entre um encontro e outro, seguir dialogando com ele ou com ela não difere substancialmente do uso de cartas ou telefonemas. Ou seja, os amores e adultérios virtuais propriamente ditos são apenas as relações que se mantêm sempre na virtualidade, embora possam ser afetivamente muito relevantes para os envolvidos -talvez mais relevantes do que as relações reais com o parceiro ou a parceira com quem eles vivem.
Ora, os amores e adultérios virtuais, assim definidos, são uma prática tanto masculina quanto feminina e cada vez mais difusa. Uma leitora, Nícia Adan Bonatti, escreveu (com brilho e bom humor): "Há muitas mulheres que fogem de seu cotidiano massacrante, insosso e afetivamente estéril buscando parceiros "príncipes encantados" em suas andanças internáuticas. O feijão pode queimar na panela, mas as horas gastas na internet serão preservadas como um tesouro inexpugnável (...) É muito fácil esquecer que o parceiro de vida já foi o príncipe da vez em priscas eras, já foi o desencadeador de taquicardias homéricas antes de transformar-se no nabo de miolo mole que ronca no sofá".
Essas mulheres, ela continua, "vivem loucas aventuras virtuais, realizam desejos recônditos sem pagar preços por suas fantasias; divertem-se bastante, e depois lavam as mãos e recebem os maridos como se o dia tivesse sido mais um da infinita rotina".
Concordo: homens e mulheres parecem encontrar na net um instrumento novo e adequado para compensar uma insatisfação crônica com a vida que eles se permitem viver -compensar, digo, não com as quimeras solitárias de Madame Bovary, mas numa espécie de "bovarismo a dois", em que o devaneio é sustentado e, de fato, realizado pelo diálogo virtual com alguém que pode estar a milhares de quilômetros de distância e, por isso mesmo, garante facilmente a permanência do encantamento.
Conheci um casal unido, que se gostava e compartilhava com coragem as alegrias e as adversidades da vida. Um dia, cada um deles, o homem e a mulher, descobriu que o outro vivia, pela internet, um amor virtual paralelo.
O ciúme era fora de questão, visto que ambos eram traidores e traídos. Só cabia uma certa consternação: "O que aconteceu com a relação que estamos vivendo, se, para vivê-la, ambos precisamos imaginar outra?".
A leitora que citei termina seu e-mail perguntando: "O que temos, enfim, feito com nossos sonhos?". Pois é, graças à internet, conseguimos separá-los bastante radicalmente do mundo real; com isso, eles não nos ajudam a transformar nossa vida. Em compensação, devanear se tornou um prazer menos sofrido. Mme. Bovary se desesperava por não ser "outra"; nós, teclando noites a fio, podemos encontrar alguém que nos faça acreditar que somos "outros"."
CONTARDO CALLIGARIS escreve, às quintas, na FSP.

DOIDAS E SANTAS

Recentemente, me referi ao fato de na literatura brasileira contemporânea predominar, sobre qualquer outro gênero literário, a crônica.
Pois bem, acaba de ser lançado Doidas e santas um desses livros em que foram reunidas 100 crônicas da Martha Medeiros. A autora que, antes de ser escritora foi publicitária, conta com uma legião cada vez maior de leitores (as). Seus textos abordam temas da vida contemporânea que vão desde o amor, maternidade, sexo, família, casamento às neuroses da vida urbana. Como acontece com os de outros cronistas, seus textos vêm sendo reproduzidos pela internet o que a incomoda. Ela se queixa de os textos ganharem enxertos, cortes, novas autorias, serem acompanhados de músicas de gosto duvidoso e de ilustrações que nada acrescentam.
O nome do livro (DOIDAS E SANTAS) é o mesmo de uma das crônicas (v. crônicas, em 30.06) cujo título é inspirado num verso da Adélia Prado (v. em “poesia” A Serenata, em 30.06). A crônica fala das escolhas de uma mulher madura: ou segue tentando satisfazer seus desejos ou interrompe as buscas. Mulher de uma certa idade ainda exposta às paixões seria uma doida (!), enquanto que as santas serenizam(?).
Dizer que “Toda mulher é doida. Eu só conheço mulher louca” seria, segundo ela, um elogio a todas nós. “ É a loucura do eterno questionamento, de não se contentar com o que parece definitivo, de possuir inúmeras vontades, mesmo contraditórias: casar e não casar, ter filhos e não ter filhos… É a loucura sadia de querer se conhecer profundamente, já que não muito tempo atrás nosso papel era muito definido e inquestionável. Antes éramos mulheres privadas, agora somos públicas. Ainda estamos em estado de excitação: falamos demais, gesticulamos demais, queremos demais, amamos demais. Somos ainda bastante superlativas.”
Numa entrevista recente, MM a propósito de casamento disse acreditar que “ todo mundo segue almejando uma relação estável, uma relação de amor. Falta aceitar que o “pra sempre” não existe mais, porque temos mais oportunidades e mais longevidade, e isso dinamiza a vida. Se aceitarmos que não é nenhum fiasco vivenciar, ao longo da vida, duas ou três relações estáveis – sem contar as provisórias, contingentes, como dizia Simone de Beauvoir – ninguém mais falará em fracasso ou crise. Se observarmos bem, já estamos vivendo essa realidade. Falta aceitá-la como padrão de normalidade.”
Quanto à felicidade amorosa ter virado quase uma obrigação, especialmente para as mulheres, MM entende que essa busca sempre foi um objetivo do ser humano, ainda que “Algumas pessoas realmente se desesperam e se jogam em qualquer oportunidade de contato, mas quem somos nós para julgar? E se esse preço não for caro pra elas? Outras aceitam a idéia de viverem sozinhas, até que surja alguém em quem valha a pena investir. Acho que a patrulha era até pior antes: se você não fosse casado, era uma solteirona recalcada (nós) ou playboys indignos de confiança (vocês). Uma enorme pressão. Hoje as pessoas já não cobram tanto se você é solteiro ou casado, ainda que a sociedade sempre receba com mais alegria os “pares” do que os “ímpares”.”
Para ela, “ a insatisfação feminina está mais relacionada à quantidade
de responsabilidades que a mulher tem assumido. Parece que é preciso ser super-mulher para provar que a revolução feminista vingou. Vejo certas capas de revistas, e parecemos todas biônicas, infladas, poderosas. Creio que é o momento de buscar um equilíbrio nas tarefas e não se importar muito com o que a sociedade espera de nós.”

Das crônicas agora reunidas já li tantas em publicações esparsas que, no momento, não penso em (re) lê-las, mas que são deliciosas, é inegável!

novembro 12, 2008

AVISO

Devido às quebras de bancos, queda nas bolsas, cortes no orçamento, crise nos combustíveis e pelo racionamento mundial de energia, informamos que a famosa "luz no fim do túnel" será desligada.
Sabedeus por quanto tempo!

O Dicionário do Amor

Quem já se apaixonou sabe de que Roland Barthes fala quando diz: “O sujeito apaixonado é atravessado pela idéia de que está ou vai ficar louco”.
Fragmentos de um discurso amoroso é um livro que atrai pelo título e, ao folheá-lo, nos vemos diante de um texto repleto de aforismos e “fragmentos”que se oferecem à uma leitura aparentemente distraída do amor. Tudo no livro surge como “algo que se leu, ouviu, experimentou”.
Pouco importa, no fundo, que a dispersão no texto seja rica aqui e pobre ali: há tempos mortos, muitas figuras modificam-se; algumas, sendo hipóstases de todo o discurso de amor, possuem a própria raridade - a pobreza - das essências: que dizer da Languidez, da Imagem, da Carta de Amor, uma vez que é todo o discurso de amor que está tecido de desejo, de imaginário e de declarações”.
Segundo o próprio Barthes “querer escrever o amor é enfrentar a desordem da linguagem: esta terra de loucura em que a linguagem é ao mesmo tempo muito e muito pouco excessiva (pela expansão ilimitada do eu, pela subversão emotiva) e pobre (devido aos códigos com os quais o amor a rebaixa e avilta)”.
O livro é um diário da paixão e trata do que todos que se apaixonaram viveram, “o elogio das lágrimas”, “o ciúme”, Que fazer?”, “O coração”, “A ressonância” e outros temas que são apresentados em verbetes.
Em cada verbete, o sujeito do discurso amoroso registra as angústias mais veementes de um coração apaixonado e nos faz refletir acerca de ações banais, como a espera de um telefonema (ou a dúvida quanto a ligar ou não), o ciúme inexplicável que sentimos ao ver um terceiro falando do nosso ser amado ou simplesmente o delírio da paixão amorosa.
Barthes, combinando citações e suprimindo aspas, parece confirmar que "não se copiam obras, copiam-se linguagens". Na linguagem dos enamorados como seres solitários e incompletos, o discurso do amor surge como sentimento incompreensível. O livro, através de inúmeras citações e exemplos do tema confirma que é como o próprio ser amado descrevendo-se: lê-lo é conhecer o desconhecido eternamente. "[...] tudo se representa, pois, como uma peça de teatro". ....."O apaixonado é, portanto, artista e o seu mundo é bem um mundo às avessas, pois toda a imagem é o seu próprio fim (nada para lá da imagem)"
Há quem acredite tratar-se de um livro para quem ama poder amar ainda mais. Para quem amou, sentir saudades e querer amar novamente. Ou para quem ainda desacreditado no amor, queira um dia amar, mas que não se contente com qualquer amor.
Ou seja, para os desavisados acerca da natureza patológica da paixão.

OBJETO DE DESEJO

Alguns leitores do blog enviam comentários via e-mail, uns dizem não conseguir deixar o comentário no local próprio, outros sequer justificam. Não importa. Faz algumas semanas que, por conta das críticas de que o blog seria "chatamente intelectual", comecei a tentar imprimir, às quartas, uma certa leveza nas postagens. Afinal, alguém tem que gostar de visitar o blog! Não sei se este é o melhor caminho, também não conheço outro. Seja como for, na linha "futilidades", hoje, além de meu sapateiro maravilhoso, exponho meu sonho de consumo, na foto aí em cima. Não é a minha cara? Este meu namoro é bem antigo e o "cenário" fortalece qualquer paixão. Como não se paga para sonhar...

Saltos Altos

"Eu não sei quem inventou o salto alto, mas todas as mulheres devem muito a esse cara", declarou, certa vez, Marilyn Monroe.
Eu também acho. Sou fã de sapatos e, se eles tiverem um saltão, melhor ainda. Acho que além de nos darem a ilusão de que ganhamos alguns centímetros, deixam o bumbum empinado e a postura fica mais bonitinha. E, o melhor de tudo: a gente se acostuma a andar com eles. Só não dá pra sentir dor, aí é demais...
Existe um estudo feito por uma cientista italiana indicando que usar sapato com salto de até 7 cm pode ajudar a relaxar e a fortalecer os músculos da região pélvica, relacionados ao orgasmo (italianos só pensam nisto!) . De acordo com a pesquisa, publicada na revista especializada inglesa European Urology, o efeito positivo não é maior se o salto for mais alto - é preciso considerar a relação entre o tamanho do pé e a altura do sapato.
Com o meu minusculo pé 32 (33 com palmilha) sempre amarguei muitas dificuldades para encontrar sapatos altos. Ultimamente, encontrei um exímio sapateiro que, além de fazer sob medida e na altura que considero ideal (6cm), oferece uma gama de cores inimagináveis nos sapatos das vitrines, todos grandes para mim. Pense na felicidade!

novembro 11, 2008

SER MULHER...

MIRIAM MAKEBA


Miriam Makeba, conhecida como "Mama África", nasceu em Joanesburgo (1932), morreu ontem em Castel Volturno, Itália. Foi grande ativista pelos direitos humanos e contra o apartheid na sua terra natal.
Em 1963, depois de um testemunho veemente sobre as condições dos negros na África do Sul, perante o Comitê das Nações Unidas contra o Apartheid, os seus discos foram banidos do país pelo governo racista e a sua nacionalidade sul-africana cassada. Nos EUA, casou em 1968 com o ativista político Stokely Carmichael, um dos idealizadores do chamado Black Power e porta-voz dos Panteras Negras, levando ao cancelamento dos seus contratos de gravação e a mudança do casal para Guiné. Nos anos 80, Makeba chegou a servir como delegada da Guiné junto à ONU, que lhe atribuiu o Prêmio da Paz Dag Hammarskjöld.
Com o fim do apartheid regressou à sua pátria a convite do então presidente Nelson Mandela. Foi agraciada, em 2001, com a Medalha de Ouro da Paz Otto Hahn, outorgada pela Associação da Alemanha nas Nações Unidas "por relevantes serviços pela paz e pelo entendimento mundial".
Miriam continuava a fazer shows por todo o mundo, apresentou-se numa manifestação de apoio ao cineasta Roberto Saviano, ameaçado de morte pela Máfia, em razão do filme Gamorra. No palco, sofreu um ataque cardíaco e morreu no hospital na madrugada do dia 10 de novembro.
Pata pata foi uma de sua músicas de sucesso no Brasil, nos anos 60.

MPB.com

Quem não gosta de MPB? Veja o site MPB HD que utiliza inovadora tecnologia de streaming de áudio e vídeo, que permite a exibição na internet de material multimídia com alta qualidade e com segurança anti-pirataria (sem download de arquivos).
Três músicas do Chico já estão à disposição: Partido Alto, interpretada por Maria Bethânia, Tatuagem, com Olívia Hime, e Morena de Angola, cantada pelo próprio Chico. Semana que vem, entra no ar a bonitinha Ciranda da bailarina, desta vez interpretada por Mônica Salmaso. Inaugurada em março, conta com artistas consagrados como Maria Bethânia, Rita Lee, Gilberto Gil, Luiz Melodia, Marina Lima, além do pessoal da nova geração.
Para acessar, é preciso fazer um pequeno cadastro, depois de clicar no título deste post. Vale a pena conhecer.

novembro 10, 2008

DESONRA

Acabei de ler DESONRA, de J.M.Coetzee, um dos mais conceituados autores contemporâneos em língua inglesa, nascido na África do Sul, ganhador do Nobel de literatura de 2003 e o único escritor premiado por duas vezes com o Booker Prize :com "Vida e Época de Michael K" e depois com "Desonra". Ambos os romances retratam a dura realidade social na África do Sul, pós-apartheid.
Como no romance Roubo, de Peter Carey (comentei aqui), temos a impressão de que nós brasileiros entendemos com facilidade a vivência com a brutalidade, decorrente da exclusão e das desigualdades sociais.
O intelectual e irônico David Lurie, professor universitário de poesia, era conformado com a falta de interesse dos seus alunos pela matéria que lecionava. “...brincava com a idéia de um trabalho que seria Byron na Itália, uma meditação sobre o amor entre os sexos na forma de uma ópera de câmara “. Com 52 anos, divorciado por duas vezes, era um homem solitário que resolvia sua necessidade de sexo com uma prostituta por quem nutriu um certo afeto.Desmoronou-se quando ela saiu de sua vida ("Sem os interlúdios das quintas-feiras, a semana fica tão sem forma como um deserto. Há dias em que ele não sabe o que fazer consigo mesmo") e passou a ter um caso com uma de suas alunas.
Desde que o mundo é mundo, professor(a) se apaixona por aluna (o) e vice versa (em todas as combinações) mas ali as absurdas regras do “politicamente correto” haviam sido transgredidas. Lurie responde a processo por abuso, sofre isolamento (primeiro a sentença, depois o julgamento) e é expulso da Universidade, após se recusar a assinar uma declaração admitindo que estava errado. Concluído o processo, pressionado pela condição de quem caiu em desgraça, decide se refugiar na fazenda de sua filha no interior.
Coetzee confronta vários aspectos da formação humanista de Lurie com a violência gerada pela pobreza dos excluídos em um país onde pertencer a uma classe social mais privilegiada pode ser "Um risco possuir coisas: um carro, um par de sapatos, um maço de cigarros. Coisas insuficientes em circulação, carros, sapatos, cigarros insuficientes. Gente demais, coisas de menos. O que existe tem de estar em circulação, de forma que as pessoas possam ter a chance de ser felizes por um dia.".
Lurie se dá conta de que suas angústias existenciais e desonra social são insignificantes diante da situação limite que vive com sua filha, ao serem atacados, na própria fazenda, por três negros que permanecem impunes.
É de total abandono e impotência a sua situação:"Ele fala italiano, fala francês, mas italiano e francês de nada lhe valem na África negra. Está desamparado, um alvo fácil, um personagem de cartoon, um missionário de batina e capacete esperando de mãos juntas e olhos virados para o céu enquanto os selvagens combinam lá na língua deles como jogá-lo dentro do caldeirão de água fervendo. O trabalho missionário: que herança deixou esse imenso empreendimento enaltecedor? Nada visível.".
O autor evidencia a brutalidade dos fatos omitindo o nome da atrocidade. Lurie e sua filha, em conseqüência, também entram nesse jogo de máscaras : “David, quando as pessoas perguntarem, você se importaria de contar só a sua parte, só o que aconteceu com você?” Confuso a princípio, o pai, revoltado, logo entende o que a filha quer dizer. Esta, sim, é a sua desonra.
Os personagens são imprevisíveis e de uma fragilidade intensamente verdadeira. A inadaptação de David Lurie às convenções do meio acadêmico e ao destino implacável, seja pela própria velhice que se aproxima ou pelas agressões sofridas por ele e a filha, constituem um estado de desonra permanente do qual ele não consegue escapar

novembro 09, 2008

Ontem...

Sobre viajar

Habitamos em várias cidades. São nossas cidades, não só aquela em que nascemos e/ou em que vivemos, mas aquelas que visitamos, ou desejamos visitar, aquelas com que sonhamos ou imaginamos...
Mas o que procuramos quando visitamos uma cidade?
Viajamos, dentre outras razões, para mudar de ares, buscar novas paisagens, novos cenários, experimentar a sensação de estrangeiridade... No entanto, acontece de visitarmos ruas, cafés, catedrais, museus, parques, trajetos e voltarmos um tanto desapontados, como o elefante da poesia de Carlos Drumnond, “... faminto de seres e situações patéticas, de encontros ao luar no mais profundo oceano, que saiu à rua à procura de amigos num mundo enfastiado que já não crê nos bichos e duvida das coisas”
“.... já é tarde da noite, volta meu elefante, mas volta fatigado....ele não encontrou o que carecia, o de que carecemos eu e meu elefante, em que amo disfarçar-me “.

De que carecemos nessas peregrinações pelas cidades do mundo?
Procuramos reencontrar ou recuperar momentos, situações, ou como diria o poeta: “sítios, segredos, episódios não contados em livro, de que apenas o vento, as folhas, a formiga reconhecem o talhe, mas que os homens ignoram, pois só ousam mostrar-se sob a luz das cortinas à pálpebra fechada”.
Estamos à procura do mundo onírico de que fala Ítalo Calvino, das cidades invisíveis que habitam nossa mente, onde buscamos encontrar o que foi sonhado.
Marco Pólo - nas Cidades Invisíveis - diz que quanto mais se perdia em bairros desconhecidos de cidades distantes, melhor compreendia as outras cidades que havia atravessado para chegar até lá , e reconstruía as etapas de sua viagem, e aprendia a conhecer o porto de onde tinha zarpado , e os lugares familiares de sua juventude, e os arredores de casa, e uma pracinha de Veneza em que corria quando era criança.
Os outros lugares seriam espelhos em negativo, onde quem viaja reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.
Isto é o que a viagem em grupo, acompanhada por um guia, nos impede de encontrar.O que procuramos não está lá, não daquela forma . As cidades de nossas mentes não obedecem às fronteiras formais, nem se referem ao que nos mostram.
Temos que nos deixar guiar pela emoção, o sonho, a memória, o imprevisto, o surpreendente e a idéia romântica de que estar nesses lugares fará de nós outra pessoa, a expectativa de que mudanças se darão magicamente ...
Acabamos viajando, principalmente, para dentro de nós mesmos.

novembro 08, 2008

Coral espetacular


Este coral "sui generis" não canta uma melodia...

Novos ventos

"Na galeria dos presidentes americanos, há dois Adams, dois Franklins, três Georges, quatro Williams, cinco James e dezenas de outros sobrenomes anglo-saxões de quatro costados, como Jackson ou Grant. Com a eleição da última semana, a lista passará a incluir um exotismo inimaginável até há pouco: um sujeito com um nome africano (Barack), um sobrenome árabe (Hussein) e outro bastante popular em uma tribo queniana (Obama). Barack Hussein Obama tomará posse como o 44º presidente dos Estados Unidos, o primeiro negro a ocupar o cargo mais poderoso do mundo. Há 143 anos, ele seria propriedade de um senhor de escravos. Há 54 anos, suas filhas, Malia e Sasha, 10 e 7 anos, não poderiam se matricular em uma escola freqüentada por brancos. Há 47 anos, quando Obama nasceu, negros não podiam votar nem ser votados. Daqui a dois meses, no dia 20 de janeiro, a família Obama vai-se mudar de Chicago para o centro de Washington, onde passará a morar na Avenida Pensilvânia, número 1600 – o endereço da Casa Branca."
...........
André Petry, de Nova York
na Veja

BARROCO MINEIRO

"Vila Rica não é Florença, pedra-sabão não é mármore e Aleijadinho não foi Michelangelo. Ainda assim, o esplendor e o requinte, as sutilezas e a suntuosidade das dezenas de estátuas, pias batismais, púlpitos, brasões, portais, fontes e crucifixos permitem supor que o Brasil teve um gênio renascentista desgarrado em plena efervescência de Minas colonial, esculpindo e talhando com o espírito, o fulgor e a grandiosidade dos artistas iluminados. O legado do Aleijadinho - eternizado no interior e nas fachadas de igrejas de Minas Gerais - refulge mais que os minérios que saíram dali para fazer o fausto de nações além-mar."
É comum referências como esta ao Aleijadinho , porém o mito sobre sua vida e obra vem sendo questionado, dentre outros estudiosos, pela pesquisadora Guiomar de Grammont (Aleijadinho e o aeroplano – O paraíso Barroco e a construção do herói colonial). .
Segundo GG, o “personagem de ficção” Aleijadinho seria uma espécie de Quasimodo tropical, criado e recriado de forma fantasiosa desde sua primeira biografia, escrita por Rodrigo José Ferreira Bretãs em 1856, vinculada a um ideal romântico típico da época.
Não se detendo apenas no questionamento biográfico,(sua paternidade e se ele seria tão deformado, já que não existem provas de sua doença, ou do impacto que ela teve no seu trabalho), a pesquisadora investiga como, em momentos diferentes da História, esse retrato foi retocado para atender a interesses diversos.
Dessa forma, o Aleijadinho dos viajantes europeus, que nem consideravam arte o que ele fazia, é bem diferente daquele dos modernistas dos anos 20, que o moldaram de forma a encarnar a imagem do Brasil que eles defendiam – e também daquele promovido pelo Estado Novo de Vargas, com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1937.
Por outro lado, afirma que inúmeras obras são atribuídas a Aleijadinho de forma equivocada, boa parte das estátuas teriam sido feitas, na verdade, por seus aprendizes. (ele precisaria ter vivido três vezes para conseguir realizar tudo que leva seu nome) e contesta os processos atuais de análise e atribuição de obras do período, que aplicam conceitos de autoria, estilo e originalidade que sequer existiam na época.
Seja como for, vale a pena ir à Minas para ver as maravilhas do barroco brasileiro ou clicar no título da postagem para uma visita guiada, com direito a boas "esticadas" nos links que se encontram ao final.

novembro 07, 2008

GRACE JONES

A modelo, atriz e cantora Grace Jones, um dos ícones da cultura pop dos anos 80, está de volta, depois de 20 anos afastada do show bizz e às vésperas de completar 60 anos. O novo disco se chama “Hurricane” (furacão) acaba de sair na Europa e toca na Itapema FM SC. Raramente,gosto da primeira vez que escuto.Por enquanto, continuo preferindo o Libertango....(clicar no título)

O legítimo filho da mãe

Obama, o filho da mãe
Na vitória de Barack Obama há um aspecto original que não vem sendo notado.
“Há muitos aspectos, colunista apressado”, poderia ser dito.
Tentarei explicar. Além do mais claro, quero dizer, além do fato mais óbvio, de Obama ser o primeiro negro eleito para a presidência dos Estados Unidos, me chama atenção que na sua vida há uma vitória sem ruído de pessoas “derrotadas”, ou marginalizadas na cultura da sociedade norte-americana. Para ser mais preciso, na sua vitória há uma vitória muito especial da sua mãe.
A mãe de Obama, Stanley Ann Dunham, foi uma pessoa rara já a partir do nome com que foi batizada. O pai queria um filho homem, e se compensou , ou se vingou, impondo-lhe um nome de homem. Para quê? O bom da vida são as limonadas que fazemos dos limões que nos atiram.
Stanley Ann, para a sociedade americana em 1960, não demorou a mostrar a que veio. Aos 18 anos, conheceu o negro Barack Hussein Obama na Universidade do Havaí, em uma aula de... russo! Branca, namorou o jovem queniano, casou... queremos dizer, juntou suas roupas e livros às dele, e teve Barack Hussein Obama Jr.
Como a estabilidade não era bem o seu ideal, separou-se poucos anos depois. Em 1964, ainda irrecuperável, Stanley Ann voltou à faculdade para se formar e casar à sua maneira mais uma vez: uniu-se a um estrangeiro não-branco, o indonésio Lolo Soetoro.
Stanley Ann era não só diferente, rebelde, por intuição. Antropóloga, escreveu uma dissertação de 800 páginas sobre os trabalhos de serralheria dos camponeses de Java. Trabalhando para a Fundação Ford, defendeu o direito das mulheres trabalhadoras e ajudou a criar um sistema de microcréditos para os pobres.
Maya Soetoro-Ng, a meia-irmã de Obama, afirmou recentemente sobre a mãe: "essa era basicamente a sua filosofia de vida; não nos limitarmos por medo de definições estreitas, não erguermos muros à nossa volta e nos empenharmos ao máximo para encontrarmos a afinidade e a beleza em locais inesperados”.
Stanley Ann Dunham morreu de câncer no ovário em 1995. O pai, a quem Obama dedicara um livro, ele mal viu, depois dos dois anos de idade. Por isso afirmou, o primeiro homem negro eleito para a presidência dos Estados Unidos: “eu creio que se eu soubesse que a minha mãe não iria sobreviver à doença, eu escreveria um livro diferente – menos meditação sobre o pai ausente, mais celebração da mãe que era a única coisa constante em minha vida”, escreveu no prefácio de suas memórias, “Sonhos De Meu Pai”.
E acrescentou: “eu sei que ela era a mais gentil, o espírito mais generoso que já conheci e o que existe de melhor em mim eu devo a ela”. Para essa Ann, mulher estranha para os valores dominantes, delicada e rebelde, na campanha eleitoral Obama chamava de a sua "mãe solteira".
O presidente eleito não repete, é claro, o pensamento, os atos e as convicções da mãe. Se assim fosse, não teria chegado aonde chegou. Mas sem as idéias de Stanley Ann Dunham, Barack Hussein Obama Jr. não teria tido a mais remota possibilidade de existir.
Em lugar do “sonho americano”, que toda imprensa proclama, Obama é antes uma vitória do pensamento e de idéias não-conservadoras, que estavam no limite dos marginalizados hippies.
E os hippies, vocês lembram, naqueles malditos tempos acabavam nas prisões, ou como em Easy Rider , sob tiros de espingarda.
Em 2008, um filho de mãe solteira, de uma irrecuperável, é eleito presidente. Para essa nova história, somente espero não ser um colunista muito apressado.

Urariano Motta,
escritor e jornalista
Direto da Redação, editado em Miami.

Gostos muito pessoais

Quase colado ao hostal que é a “minha casa” em BCN, tem uma vitrine colorida onde se lê:
Hamacas
Hammocks
Hamac
Hängematten

Lá dentro, un mundo de hamacas coloridas que parece não interessar os que passam apressados, indo ou vindo da Rambla. Enquanto eu, com mal disfarçada curiosidade, arrisco sempre uma mirada me perguntando qual seria o made in delas, se teriam sotaque nordestino, se seriam fabricadas no Maracanaú...e pensando no importante papel que desempenham numa cultura em que muitos nela são gerados e nascidos, dormem por toda a vida e nelas morrem e são enterrados. Aquelas são oferecidas para lazer ou mero adorno!
Apesar das inevitáveis divagações, como os demais, também prossigo, só que me prometendo pesquisar a origem daquelas palavras. Tão semelhantes em diversos idiomas e tão diferente da que usamos em português. Até hoje, nunca o fiz. Mas, por estas alturas, deixo a tarefa para o meu amigo TL, que é multilíngüe e leitor do blog. Vamos ver se ele se habilita!
Continuo me estranhando ao usar esta expressão mas, finalmente, “o tempo melhorou”. Que não se interprete como um ranço adquirido no convívio com os curitibanos que, por falta de assunto ou para não abrir a alma, adoram falar (mal) do tempo - do frio no inverno e do calor no verão. Uma bobagem até suportável, como conversa de elevador, mas que entre eles é tema recorrente...Deixa pra lá! Para evitar que eu não termine contando que, nas vezes em que, ultimamente, cruzei com algum conhecido/amigo (?) - andei subindo à Serra -, após meses ou mesmo anos, nos limitamos ao tempo que fazia ou ia fazer, contra toda e qualquer previsão metereológica!
Este meu comentário, de um certo modo, responde aos que têm me perguntado se tenho saudades de lá. (“Se as tenho, não as sinto”, como disse o português perguntado pelo médico se tinha dores. Desculpem amigos, mas não resisti.)
A estranheza, de que falava acima, consiste em usar a expressão relativa ao tempo em sentido inverso ao que tem no Ceará, onde "tempo bom" é o que chove. A mudança no tempo vem ao caso para explicar que, finalmente, voltei a dormir de rede...
Quem estiver se perguntando o significado e o valor disto é porque não sabe o que é “regaço de amante” e “colo de amigo”, para não ir mais longe e invocar o útero materno!