novembro 11, 2008
MIRIAM MAKEBA

Miriam Makeba, conhecida como "Mama África", nasceu em Joanesburgo (1932), morreu ontem em Castel Volturno, Itália. Foi grande ativista pelos direitos humanos e contra o apartheid na sua terra natal.
Em 1963, depois de um testemunho veemente sobre as condições dos negros na África do Sul, perante o Comitê das Nações Unidas contra o Apartheid, os seus discos foram banidos do país pelo governo racista e a sua nacionalidade sul-africana cassada. Nos EUA, casou em 1968 com o ativista político Stokely Carmichael, um dos idealizadores do chamado Black Power e porta-voz dos Panteras Negras, levando ao cancelamento dos seus contratos de gravação e a mudança do casal para Guiné. Nos anos 80, Makeba chegou a servir como delegada da Guiné junto à ONU, que lhe atribuiu o Prêmio da Paz Dag Hammarskjöld.
Com o fim do apartheid regressou à sua pátria a convite do então presidente Nelson Mandela. Foi agraciada, em 2001, com a Medalha de Ouro da Paz Otto Hahn, outorgada pela Associação da Alemanha nas Nações Unidas "por relevantes serviços pela paz e pelo entendimento mundial".
Miriam continuava a fazer shows por todo o mundo, apresentou-se numa manifestação de apoio ao cineasta Roberto Saviano, ameaçado de morte pela Máfia, em razão do filme Gamorra. No palco, sofreu um ataque cardíaco e morreu no hospital na madrugada do dia 10 de novembro.
Pata pata foi uma de sua músicas de sucesso no Brasil, nos anos 60.
MPB.com
Quem não gosta de MPB? Veja o site MPB HD que utiliza inovadora tecnologia de streaming de áudio e vídeo, que permite a exibição na internet de material multimídia com alta qualidade e com segurança anti-pirataria (sem download de arquivos). Três músicas do Chico já estão à disposição: Partido Alto, interpretada por Maria Bethânia, Tatuagem, com Olívia Hime, e Morena de Angola, cantada pelo próprio Chico. Semana que vem, entra no ar a bonitinha Ciranda da bailarina, desta vez interpretada por Mônica Salmaso. Inaugurada em março, conta com artistas consagrados como Maria Bethânia, Rita Lee, Gilberto Gil, Luiz Melodia, Marina Lima, além do pessoal da nova geração.
Para acessar, é preciso fazer um pequeno cadastro, depois de clicar no título deste post. Vale a pena conhecer.
novembro 10, 2008
DESONRA
Acabei de ler DESONRA, de J.M.Coetzee, um dos mais conceituados autores contemporâneos em língua inglesa, nascido na África do Sul, ganhador do Nobel de literatura de 2003 e o único escritor premiado por duas vezes com o Booker Prize :com "Vida e Época de Michael K" e depois com "Desonra". Ambos os romances retratam a dura realidade social na África do Sul, pós-apartheid.Como no romance Roubo, de Peter Carey (comentei aqui), temos a impressão de que nós brasileiros entendemos com facilidade a vivência com a brutalidade, decorrente da exclusão e das desigualdades sociais.
O intelectual e irônico David Lurie, professor universitário de poesia, era conformado com a falta de interesse dos seus alunos pela matéria que lecionava. “...brincava com a idéia de um trabalho que seria Byron na Itália, uma meditação sobre o amor entre os sexos na forma de uma ópera de câmara “. Com 52 anos, divorciado por duas vezes, era um homem solitário que resolvia sua necessidade de sexo com uma prostituta por quem nutriu um certo afeto.Desmoronou-se quando ela saiu de sua vida ("Sem os interlúdios das quintas-feiras, a semana fica tão sem forma como um deserto. Há dias em que ele não sabe o que fazer consigo mesmo") e passou a ter um caso com uma de suas alunas.
Desde que o mundo é mundo, professor(a) se apaixona por aluna (o) e vice versa (em todas as combinações) mas ali as absurdas regras do “politicamente correto” haviam sido transgredidas. Lurie responde a processo por abuso, sofre isolamento (primeiro a sentença, depois o julgamento) e é expulso da Universidade, após se recusar a assinar uma declaração admitindo que estava errado. Concluído o processo, pressionado pela condição de quem caiu em desgraça, decide se refugiar na fazenda de sua filha no interior.
Coetzee confronta vários aspectos da formação humanista de Lurie com a violência gerada pela pobreza dos excluídos em um país onde pertencer a uma classe social mais privilegiada pode ser "Um risco possuir coisas: um carro, um par de sapatos, um maço de cigarros. Coisas insuficientes em circulação, carros, sapatos, cigarros insuficientes. Gente demais, coisas de menos. O que existe tem de estar em circulação, de forma que as pessoas possam ter a chance de ser felizes por um dia.".
Lurie se dá conta de que suas angústias existenciais e desonra social são insignificantes diante da situação limite que vive com sua filha, ao serem atacados, na própria fazenda, por três negros que permanecem impunes.
É de total abandono e impotência a sua situação:"Ele fala italiano, fala francês, mas italiano e francês de nada lhe valem na África negra. Está desamparado, um alvo fácil, um personagem de cartoon, um missionário de batina e capacete esperando de mãos juntas e olhos virados para o céu enquanto os selvagens combinam lá na língua deles como jogá-lo dentro do caldeirão de água fervendo. O trabalho missionário: que herança deixou esse imenso empreendimento enaltecedor? Nada visível.".
O autor evidencia a brutalidade dos fatos omitindo o nome da atrocidade. Lurie e sua filha, em conseqüência, também entram nesse jogo de máscaras : “David, quando as pessoas perguntarem, você se importaria de contar só a sua parte, só o que aconteceu com você?” Confuso a princípio, o pai, revoltado, logo entende o que a filha quer dizer. Esta, sim, é a sua desonra.
Os personagens são imprevisíveis e de uma fragilidade intensamente verdadeira. A inadaptação de David Lurie às convenções do meio acadêmico e ao destino implacável, seja pela própria velhice que se aproxima ou pelas agressões sofridas por ele e a filha, constituem um estado de desonra permanente do qual ele não consegue escapar
novembro 09, 2008
Sobre viajar
Habitamos em várias cidades. São nossas cidades, não só aquela em que nascemos e/ou em que vivemos, mas aquelas que visitamos, ou desejamos visitar, aquelas com que sonhamos ou imaginamos...
Mas o que procuramos quando visitamos uma cidade?
Viajamos, dentre outras razões, para mudar de ares, buscar novas paisagens, novos cenários, experimentar a sensação de estrangeiridade... No entanto, acontece de visitarmos ruas, cafés, catedrais, museus, parques, trajetos e voltarmos um tanto desapontados, como o elefante da poesia de Carlos Drumnond, “... faminto de seres e situações patéticas, de encontros ao luar no mais profundo oceano, que saiu à rua à procura de amigos num mundo enfastiado que já não crê nos bichos e duvida das coisas”
“.... já é tarde da noite, volta meu elefante, mas volta fatigado....ele não encontrou o que carecia, o de que carecemos eu e meu elefante, em que amo disfarçar-me “.
De que carecemos nessas peregrinações pelas cidades do mundo?
Procuramos reencontrar ou recuperar momentos, situações, ou como diria o poeta: “sítios, segredos, episódios não contados em livro, de que apenas o vento, as folhas, a formiga reconhecem o talhe, mas que os homens ignoram, pois só ousam mostrar-se sob a luz das cortinas à pálpebra fechada”.
Estamos à procura do mundo onírico de que fala Ítalo Calvino, das cidades invisíveis que habitam nossa mente, onde buscamos encontrar o que foi sonhado.
Marco Pólo - nas Cidades Invisíveis - diz que quanto mais se perdia em bairros desconhecidos de cidades distantes, melhor compreendia as outras cidades que havia atravessado para chegar até lá , e reconstruía as etapas de sua viagem, e aprendia a conhecer o porto de onde tinha zarpado , e os lugares familiares de sua juventude, e os arredores de casa, e uma pracinha de Veneza em que corria quando era criança.
Os outros lugares seriam espelhos em negativo, onde quem viaja reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.
Isto é o que a viagem em grupo, acompanhada por um guia, nos impede de encontrar.O que procuramos não está lá, não daquela forma . As cidades de nossas mentes não obedecem às fronteiras formais, nem se referem ao que nos mostram.
Temos que nos deixar guiar pela emoção, o sonho, a memória, o imprevisto, o surpreendente e a idéia romântica de que estar nesses lugares fará de nós outra pessoa, a expectativa de que mudanças se darão magicamente ...
Acabamos viajando, principalmente, para dentro de nós mesmos.
Mas o que procuramos quando visitamos uma cidade?
Viajamos, dentre outras razões, para mudar de ares, buscar novas paisagens, novos cenários, experimentar a sensação de estrangeiridade... No entanto, acontece de visitarmos ruas, cafés, catedrais, museus, parques, trajetos e voltarmos um tanto desapontados, como o elefante da poesia de Carlos Drumnond, “... faminto de seres e situações patéticas, de encontros ao luar no mais profundo oceano, que saiu à rua à procura de amigos num mundo enfastiado que já não crê nos bichos e duvida das coisas”
“.... já é tarde da noite, volta meu elefante, mas volta fatigado....ele não encontrou o que carecia, o de que carecemos eu e meu elefante, em que amo disfarçar-me “.
De que carecemos nessas peregrinações pelas cidades do mundo?
Procuramos reencontrar ou recuperar momentos, situações, ou como diria o poeta: “sítios, segredos, episódios não contados em livro, de que apenas o vento, as folhas, a formiga reconhecem o talhe, mas que os homens ignoram, pois só ousam mostrar-se sob a luz das cortinas à pálpebra fechada”.
Estamos à procura do mundo onírico de que fala Ítalo Calvino, das cidades invisíveis que habitam nossa mente, onde buscamos encontrar o que foi sonhado.
Marco Pólo - nas Cidades Invisíveis - diz que quanto mais se perdia em bairros desconhecidos de cidades distantes, melhor compreendia as outras cidades que havia atravessado para chegar até lá , e reconstruía as etapas de sua viagem, e aprendia a conhecer o porto de onde tinha zarpado , e os lugares familiares de sua juventude, e os arredores de casa, e uma pracinha de Veneza em que corria quando era criança.
Os outros lugares seriam espelhos em negativo, onde quem viaja reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.
Isto é o que a viagem em grupo, acompanhada por um guia, nos impede de encontrar.O que procuramos não está lá, não daquela forma . As cidades de nossas mentes não obedecem às fronteiras formais, nem se referem ao que nos mostram.
Temos que nos deixar guiar pela emoção, o sonho, a memória, o imprevisto, o surpreendente e a idéia romântica de que estar nesses lugares fará de nós outra pessoa, a expectativa de que mudanças se darão magicamente ...
Acabamos viajando, principalmente, para dentro de nós mesmos.
novembro 08, 2008
Novos ventos
"Na galeria dos presidentes americanos, há dois Adams, dois Franklins, três Georges, quatro Williams, cinco James e dezenas de outros sobrenomes anglo-saxões de quatro costados, como Jackson ou Grant. Com a eleição da última semana, a lista passará a incluir um exotismo inimaginável até há pouco: um sujeito com um nome africano (Barack), um sobrenome árabe (Hussein) e outro bastante popular em uma tribo queniana (Obama). Barack Hussein Obama tomará posse como o 44º presidente dos Estados Unidos, o primeiro negro a ocupar o cargo mais poderoso do mundo. Há 143 anos, ele seria propriedade de um senhor de escravos. Há 54 anos, suas filhas, Malia e Sasha, 10 e 7 anos, não poderiam se matricular em uma escola freqüentada por brancos. Há 47 anos, quando Obama nasceu, negros não podiam votar nem ser votados. Daqui a dois meses, no dia 20 de janeiro, a família Obama vai-se mudar de Chicago para o centro de Washington, onde passará a morar na Avenida Pensilvânia, número 1600 – o endereço da Casa Branca."
...........
André Petry, de Nova York
na Veja
...........
André Petry, de Nova York
na Veja
BARROCO MINEIRO
"Vila Rica não é Florença, pedra-sabão não é mármore e Aleijadinho não foi Michelangelo. Ainda assim, o esplendor e o requinte, as sutilezas e a suntuosidade das dezenas de estátuas, pias batismais, púlpitos, brasões, portais, fontes e crucifixos permitem supor que o Brasil teve um gênio renascentista desgarrado em plena efervescência de Minas colonial, esculpindo e talhando com o espírito, o fulgor e a grandiosidade dos artistas iluminados. O legado do Aleijadinho - eternizado no interior e nas fachadas de igrejas de Minas Gerais - refulge mais que os minérios que saíram dali para fazer o fausto de nações além-mar." É comum referências como esta ao Aleijadinho , porém o mito sobre sua vida e obra vem sendo questionado, dentre outros estudiosos, pela pesquisadora Guiomar de Grammont (Aleijadinho e o aeroplano – O paraíso Barroco e a construção do herói colonial). .
Segundo GG, o “personagem de ficção” Aleijadinho seria uma espécie de Quasimodo tropical, criado e recriado de forma fantasiosa desde sua primeira biografia, escrita por Rodrigo José Ferreira Bretãs em 1856, vinculada a um ideal romântico típico da época.
Não se detendo apenas no questionamento biográfico,(sua paternidade e se ele seria tão deformado, já que não existem provas de sua doença, ou do impacto que ela teve no seu trabalho), a pesquisadora investiga como, em momentos diferentes da História, esse retrato foi retocado para atender a interesses diversos.
Dessa forma, o Aleijadinho dos viajantes europeus, que nem consideravam arte o que ele fazia, é bem diferente daquele dos modernistas dos anos 20, que o moldaram de forma a encarnar a imagem do Brasil que eles defendiam – e também daquele promovido pelo Estado Novo de Vargas, com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1937.
Por outro lado, afirma que inúmeras obras são atribuídas a Aleijadinho de forma equivocada, boa parte das estátuas teriam sido feitas, na verdade, por seus aprendizes. (ele precisaria ter vivido três vezes para conseguir realizar tudo que leva seu nome) e contesta os processos atuais de análise e atribuição de obras do período, que aplicam conceitos de autoria, estilo e originalidade que sequer existiam na época.
Seja como for, vale a pena ir à Minas para ver as maravilhas do barroco brasileiro ou clicar no título da postagem para uma visita guiada, com direito a boas "esticadas" nos links que se encontram ao final.
novembro 07, 2008
GRACE JONES
A modelo, atriz e cantora Grace Jones, um dos ícones da cultura pop dos anos 80, está de volta, depois de 20 anos afastada do show bizz e às vésperas de completar 60 anos. O novo disco se chama “Hurricane” (furacão) acaba de sair na Europa e toca na Itapema FM SC. Raramente,gosto da primeira vez que escuto.Por enquanto, continuo preferindo o Libertango....(clicar no título)
O legítimo filho da mãe
Obama, o filho da mãe
Na vitória de Barack Obama há um aspecto original que não vem sendo notado.
“Há muitos aspectos, colunista apressado”, poderia ser dito.
Tentarei explicar. Além do mais claro, quero dizer, além do fato mais óbvio, de Obama ser o primeiro negro eleito para a presidência dos Estados Unidos, me chama atenção que na sua vida há uma vitória sem ruído de pessoas “derrotadas”, ou marginalizadas na cultura da sociedade norte-americana. Para ser mais preciso, na sua vitória há uma vitória muito especial da sua mãe.
A mãe de Obama, Stanley Ann Dunham, foi uma pessoa rara já a partir do nome com que foi batizada. O pai queria um filho homem, e se compensou , ou se vingou, impondo-lhe um nome de homem. Para quê? O bom da vida são as limonadas que fazemos dos limões que nos atiram.
Stanley Ann, para a sociedade americana em 1960, não demorou a mostrar a que veio. Aos 18 anos, conheceu o negro Barack Hussein Obama na Universidade do Havaí, em uma aula de... russo! Branca, namorou o jovem queniano, casou... queremos dizer, juntou suas roupas e livros às dele, e teve Barack Hussein Obama Jr.
Como a estabilidade não era bem o seu ideal, separou-se poucos anos depois. Em 1964, ainda irrecuperável, Stanley Ann voltou à faculdade para se formar e casar à sua maneira mais uma vez: uniu-se a um estrangeiro não-branco, o indonésio Lolo Soetoro.
Stanley Ann era não só diferente, rebelde, por intuição. Antropóloga, escreveu uma dissertação de 800 páginas sobre os trabalhos de serralheria dos camponeses de Java. Trabalhando para a Fundação Ford, defendeu o direito das mulheres trabalhadoras e ajudou a criar um sistema de microcréditos para os pobres.
Maya Soetoro-Ng, a meia-irmã de Obama, afirmou recentemente sobre a mãe: "essa era basicamente a sua filosofia de vida; não nos limitarmos por medo de definições estreitas, não erguermos muros à nossa volta e nos empenharmos ao máximo para encontrarmos a afinidade e a beleza em locais inesperados”.
Stanley Ann Dunham morreu de câncer no ovário em 1995. O pai, a quem Obama dedicara um livro, ele mal viu, depois dos dois anos de idade. Por isso afirmou, o primeiro homem negro eleito para a presidência dos Estados Unidos: “eu creio que se eu soubesse que a minha mãe não iria sobreviver à doença, eu escreveria um livro diferente – menos meditação sobre o pai ausente, mais celebração da mãe que era a única coisa constante em minha vida”, escreveu no prefácio de suas memórias, “Sonhos De Meu Pai”.
E acrescentou: “eu sei que ela era a mais gentil, o espírito mais generoso que já conheci e o que existe de melhor em mim eu devo a ela”. Para essa Ann, mulher estranha para os valores dominantes, delicada e rebelde, na campanha eleitoral Obama chamava de a sua "mãe solteira".
O presidente eleito não repete, é claro, o pensamento, os atos e as convicções da mãe. Se assim fosse, não teria chegado aonde chegou. Mas sem as idéias de Stanley Ann Dunham, Barack Hussein Obama Jr. não teria tido a mais remota possibilidade de existir.
Em lugar do “sonho americano”, que toda imprensa proclama, Obama é antes uma vitória do pensamento e de idéias não-conservadoras, que estavam no limite dos marginalizados hippies.
E os hippies, vocês lembram, naqueles malditos tempos acabavam nas prisões, ou como em Easy Rider , sob tiros de espingarda.
Em 2008, um filho de mãe solteira, de uma irrecuperável, é eleito presidente. Para essa nova história, somente espero não ser um colunista muito apressado.
Urariano Motta,
escritor e jornalista
Direto da Redação, editado em Miami.
Na vitória de Barack Obama há um aspecto original que não vem sendo notado.
“Há muitos aspectos, colunista apressado”, poderia ser dito.
Tentarei explicar. Além do mais claro, quero dizer, além do fato mais óbvio, de Obama ser o primeiro negro eleito para a presidência dos Estados Unidos, me chama atenção que na sua vida há uma vitória sem ruído de pessoas “derrotadas”, ou marginalizadas na cultura da sociedade norte-americana. Para ser mais preciso, na sua vitória há uma vitória muito especial da sua mãe.
A mãe de Obama, Stanley Ann Dunham, foi uma pessoa rara já a partir do nome com que foi batizada. O pai queria um filho homem, e se compensou , ou se vingou, impondo-lhe um nome de homem. Para quê? O bom da vida são as limonadas que fazemos dos limões que nos atiram.
Stanley Ann, para a sociedade americana em 1960, não demorou a mostrar a que veio. Aos 18 anos, conheceu o negro Barack Hussein Obama na Universidade do Havaí, em uma aula de... russo! Branca, namorou o jovem queniano, casou... queremos dizer, juntou suas roupas e livros às dele, e teve Barack Hussein Obama Jr.
Como a estabilidade não era bem o seu ideal, separou-se poucos anos depois. Em 1964, ainda irrecuperável, Stanley Ann voltou à faculdade para se formar e casar à sua maneira mais uma vez: uniu-se a um estrangeiro não-branco, o indonésio Lolo Soetoro.
Stanley Ann era não só diferente, rebelde, por intuição. Antropóloga, escreveu uma dissertação de 800 páginas sobre os trabalhos de serralheria dos camponeses de Java. Trabalhando para a Fundação Ford, defendeu o direito das mulheres trabalhadoras e ajudou a criar um sistema de microcréditos para os pobres.
Maya Soetoro-Ng, a meia-irmã de Obama, afirmou recentemente sobre a mãe: "essa era basicamente a sua filosofia de vida; não nos limitarmos por medo de definições estreitas, não erguermos muros à nossa volta e nos empenharmos ao máximo para encontrarmos a afinidade e a beleza em locais inesperados”.
Stanley Ann Dunham morreu de câncer no ovário em 1995. O pai, a quem Obama dedicara um livro, ele mal viu, depois dos dois anos de idade. Por isso afirmou, o primeiro homem negro eleito para a presidência dos Estados Unidos: “eu creio que se eu soubesse que a minha mãe não iria sobreviver à doença, eu escreveria um livro diferente – menos meditação sobre o pai ausente, mais celebração da mãe que era a única coisa constante em minha vida”, escreveu no prefácio de suas memórias, “Sonhos De Meu Pai”.
E acrescentou: “eu sei que ela era a mais gentil, o espírito mais generoso que já conheci e o que existe de melhor em mim eu devo a ela”. Para essa Ann, mulher estranha para os valores dominantes, delicada e rebelde, na campanha eleitoral Obama chamava de a sua "mãe solteira".
O presidente eleito não repete, é claro, o pensamento, os atos e as convicções da mãe. Se assim fosse, não teria chegado aonde chegou. Mas sem as idéias de Stanley Ann Dunham, Barack Hussein Obama Jr. não teria tido a mais remota possibilidade de existir.
Em lugar do “sonho americano”, que toda imprensa proclama, Obama é antes uma vitória do pensamento e de idéias não-conservadoras, que estavam no limite dos marginalizados hippies.
E os hippies, vocês lembram, naqueles malditos tempos acabavam nas prisões, ou como em Easy Rider , sob tiros de espingarda.
Em 2008, um filho de mãe solteira, de uma irrecuperável, é eleito presidente. Para essa nova história, somente espero não ser um colunista muito apressado.
Urariano Motta,
escritor e jornalista
Direto da Redação, editado em Miami.
Gostos muito pessoais
Quase colado ao hostal que é a “minha casa” em BCN, tem uma vitrine colorida onde se lê: Hamacas
Hammocks
Hamac
Hängematten
Lá dentro, un mundo de hamacas coloridas que parece não interessar os que passam apressados, indo ou vindo da Rambla. Enquanto eu, com mal disfarçada curiosidade, arrisco sempre uma mirada me perguntando qual seria o made in delas, se teriam sotaque nordestino, se seriam fabricadas no Maracanaú...e pensando no importante papel que desempenham numa cultura em que muitos nela são gerados e nascidos, dormem por toda a vida e nelas morrem e são enterrados. Aquelas são oferecidas para lazer ou mero adorno!
Apesar das inevitáveis divagações, como os demais, também prossigo, só que me prometendo pesquisar a origem daquelas palavras. Tão semelhantes em diversos idiomas e tão diferente da que usamos em português. Até hoje, nunca o fiz. Mas, por estas alturas, deixo a tarefa para o meu amigo TL, que é multilíngüe e leitor do blog. Vamos ver se ele se habilita!
Continuo me estranhando ao usar esta expressão mas, finalmente, “o tempo melhorou”. Que não se interprete como um ranço adquirido no convívio com os curitibanos que, por falta de assunto ou para não abrir a alma, adoram falar (mal) do tempo - do frio no inverno e do calor no verão. Uma bobagem até suportável, como conversa de elevador, mas que entre eles é tema recorrente...Deixa pra lá! Para evitar que eu não termine contando que, nas vezes em que, ultimamente, cruzei com algum conhecido/amigo (?) - andei subindo à Serra -, após meses ou mesmo anos, nos limitamos ao tempo que fazia ou ia fazer, contra toda e qualquer previsão metereológica!
Este meu comentário, de um certo modo, responde aos que têm me perguntado se tenho saudades de lá. (“Se as tenho, não as sinto”, como disse o português perguntado pelo médico se tinha dores. Desculpem amigos, mas não resisti.)
A estranheza, de que falava acima, consiste em usar a expressão relativa ao tempo em sentido inverso ao que tem no Ceará, onde "tempo bom" é o que chove. A mudança no tempo vem ao caso para explicar que, finalmente, voltei a dormir de rede...
Quem estiver se perguntando o significado e o valor disto é porque não sabe o que é “regaço de amante” e “colo de amigo”, para não ir mais longe e invocar o útero materno!
novembro 06, 2008
ARREPENDIMENTOS
Chico Anysio foi visto no aeroporto em uma cadeira de rodas. Aos 77 anos, ele sofre as consequências de décadas de cigarro.
Dizem que depois de uma certa idade, as pessoas perdem o receio de dizer o que pensam e ele, que já não tinha papas na língua, faz falta na TV!
Ao que parece, fumar não está entre os seus arrependimentos. Na verdade, não sei de nenhum fumante (ou ex) arrependido.
O texto é do seu blog.
"A vida está ai, nos dando um minuto a cada sessenta segundos e seguindo seu caminho sem nenhuma parada para o almoço. Cada dia que passa, passa para sempre e sempre será assim.
Enquanto vamos vivendo, envelhecemos o suficiente para que saibamos mais da vida, o que, no final das contas, não significa vantagem nenhuma.
Acontece que de repente nos damos conta de que coisas que gostaríamos de ter feito ou de fazer, já não podemos mais nem pensar em tentar fazê-las, pela natural impossibilidade melancolicamente imposta pela idade.
É quando passam pela cabeça da gente os arrependimentos.
Pequenos, dispensáveis, mas alguns deles trazendo uma espécie de dor, alguma coisa reimosa, cruel, cheia de ranço e de raiva, algo como uma tristeza.
Ah, quanta coisa eu poderia ter aprendido e não aprendi; quanta coisa eu poderia ter feito e não fiz; quanta coisa eu poderia ter gozado e não gozei.
E, um atrás do outro, vão passando pela cabeça da gente esses arrependimentos veniais, insuportáveis inimigos que proporcionam, às vezes, invejas. Mas este pecado (um dos sete) é manso; uma inveja ocasional, absolutamente branca e perdoável.
E se é disso que me dispus a falar, falemos:
Eu confesso que não saber assoviar é terrível para mim. E que inveja eu tenho de quem coloca dois dedos na boca e solta um assobio aqui que se escuta em Vitória. Os que conseguem isto são uns felizardos e talvez nem saibam.
E andar de patins? Deus do Céu! Eu até que tentei. Tanto os de roda como os no gelo. Não conto os tombos que levei em New York, naquela pista de gelo do Rockfeller Center, onde nem em pé em conseguia ficar. Um amigo me disse, para me dar uma força:
- Não desista. No começo é assim, mas você consegue.
Eu não quis insistir e hoje eu fico babando enquanto aqueles caras disputam os campeonatos mundiais, patinando sobre facas, com rodopios maravilhosos e desenhos encantadores. Para mim era bastante conseguir ir de um lado ao outro do rinque, mas...
E não saber dançar? Acho que o meu maior arrependimento está ai, em não saber dançar. Eu não queria ser um Fred Astaire, ou um Gene Kelly. Nem mesmo me enchia os olhos o desejo de ser um Carlinhos de Jesus. Não. Nada deste tamanho. A mim bastava ser igual a... a quem? Ser igual a você, que pega a sua mulher ou a sua namorada e sai com ela, dançando um bolero, um samba, um fox, um forró, uma valsa, rodando pelo salão, com elegância, dentro do ritmo, sem tropeçar ou pisar nos pés dela. Eu não queria chegar nem mesmo ao tango. Mas estou aqui, perto dos 80 anos, duro como um cabo de vassoura, enquanto caras de idade ainda maior que a minha, abraçam suas esposas e bailam, e bailam, e bailam...
Morei quase dois anos nos Estados Unidos e não aprendi a escutar e entender inglês. Falar eu ainda falo direitinho, mas não entendo. Agora já desisti de tentar, mas se eu soubesse entender eu poderia manter um diálogo, quem saber conseguir ser entrevistado pelo David Letterman, de quem eu fui vizinho em Westport e com quem troquei algumas frases, num bar, bebendo um chocolate quente, numa véspera de Natal e senti que ele gostou de ter conhecido um comediante brasileiro, etc, etc... que era eu. Mas não consigo entender os diálogos de um filme. Sempre tento, mas não consigo.
Skate, surf, motocicleta, asa delta, ultraleve... essas coisas não me dizem nada, mas já imaginou se eu pudesse chegar numa pista de gelo, enfiar dois dedos na boca e soltar um assovio, uma mulher, craque na patinação, atender a este chamamento, eu segurá-la e sair dançando com ela, sobre os patins, enquanto, em inglês íamos nos comunicando?
Como se diz em Minas:
- Era um trem danado de bão, sô."
Chico Anysio ( no seu blog)
Dizem que depois de uma certa idade, as pessoas perdem o receio de dizer o que pensam e ele, que já não tinha papas na língua, faz falta na TV!
Ao que parece, fumar não está entre os seus arrependimentos. Na verdade, não sei de nenhum fumante (ou ex) arrependido.
O texto é do seu blog.
"A vida está ai, nos dando um minuto a cada sessenta segundos e seguindo seu caminho sem nenhuma parada para o almoço. Cada dia que passa, passa para sempre e sempre será assim.
Enquanto vamos vivendo, envelhecemos o suficiente para que saibamos mais da vida, o que, no final das contas, não significa vantagem nenhuma.
Acontece que de repente nos damos conta de que coisas que gostaríamos de ter feito ou de fazer, já não podemos mais nem pensar em tentar fazê-las, pela natural impossibilidade melancolicamente imposta pela idade.
É quando passam pela cabeça da gente os arrependimentos.
Pequenos, dispensáveis, mas alguns deles trazendo uma espécie de dor, alguma coisa reimosa, cruel, cheia de ranço e de raiva, algo como uma tristeza.
Ah, quanta coisa eu poderia ter aprendido e não aprendi; quanta coisa eu poderia ter feito e não fiz; quanta coisa eu poderia ter gozado e não gozei.
E, um atrás do outro, vão passando pela cabeça da gente esses arrependimentos veniais, insuportáveis inimigos que proporcionam, às vezes, invejas. Mas este pecado (um dos sete) é manso; uma inveja ocasional, absolutamente branca e perdoável.
E se é disso que me dispus a falar, falemos:
Eu confesso que não saber assoviar é terrível para mim. E que inveja eu tenho de quem coloca dois dedos na boca e solta um assobio aqui que se escuta em Vitória. Os que conseguem isto são uns felizardos e talvez nem saibam.
E andar de patins? Deus do Céu! Eu até que tentei. Tanto os de roda como os no gelo. Não conto os tombos que levei em New York, naquela pista de gelo do Rockfeller Center, onde nem em pé em conseguia ficar. Um amigo me disse, para me dar uma força:
- Não desista. No começo é assim, mas você consegue.
Eu não quis insistir e hoje eu fico babando enquanto aqueles caras disputam os campeonatos mundiais, patinando sobre facas, com rodopios maravilhosos e desenhos encantadores. Para mim era bastante conseguir ir de um lado ao outro do rinque, mas...
E não saber dançar? Acho que o meu maior arrependimento está ai, em não saber dançar. Eu não queria ser um Fred Astaire, ou um Gene Kelly. Nem mesmo me enchia os olhos o desejo de ser um Carlinhos de Jesus. Não. Nada deste tamanho. A mim bastava ser igual a... a quem? Ser igual a você, que pega a sua mulher ou a sua namorada e sai com ela, dançando um bolero, um samba, um fox, um forró, uma valsa, rodando pelo salão, com elegância, dentro do ritmo, sem tropeçar ou pisar nos pés dela. Eu não queria chegar nem mesmo ao tango. Mas estou aqui, perto dos 80 anos, duro como um cabo de vassoura, enquanto caras de idade ainda maior que a minha, abraçam suas esposas e bailam, e bailam, e bailam...
Morei quase dois anos nos Estados Unidos e não aprendi a escutar e entender inglês. Falar eu ainda falo direitinho, mas não entendo. Agora já desisti de tentar, mas se eu soubesse entender eu poderia manter um diálogo, quem saber conseguir ser entrevistado pelo David Letterman, de quem eu fui vizinho em Westport e com quem troquei algumas frases, num bar, bebendo um chocolate quente, numa véspera de Natal e senti que ele gostou de ter conhecido um comediante brasileiro, etc, etc... que era eu. Mas não consigo entender os diálogos de um filme. Sempre tento, mas não consigo.
Skate, surf, motocicleta, asa delta, ultraleve... essas coisas não me dizem nada, mas já imaginou se eu pudesse chegar numa pista de gelo, enfiar dois dedos na boca e soltar um assovio, uma mulher, craque na patinação, atender a este chamamento, eu segurá-la e sair dançando com ela, sobre os patins, enquanto, em inglês íamos nos comunicando?
Como se diz em Minas:
- Era um trem danado de bão, sô."
Chico Anysio ( no seu blog)
ARTE de RUA em SAMPA
novembro 05, 2008
Como enverdecer sua vida sexual
Se quando você faz sexo não pensa em ecologia, deveria pensar!
O Greenpeace do México publicou regrinhas pra se fazer sexo ecologicamente correto. Ei-las aqui, num resumo do resumo. Veja melhor no site do Greenpeace clicando no título deste post :
1. Apague as luzes. Velas podem ajudar a criar um clima.
2. Frutas na hora H? Só se forem orgânicas!
3. Nem como afrodisíaco as ostras devem ser consumidas. Estaria destruindo o ecossistema dos oceanos.
4. Recicle! Isso vale pra tudo nessa vida, inclusive para embalagens de preservativos.
5. Use lubrificantes naturais, de preferência. A língua pode ser uma ótima aliada!
6. Evite objetos fabricados à base de petróleo, como roupas de vinil. Seja escravo da paixão, não do petróleo.
7. Tome banho acompanhado. Quer melhor maneira de economizar a água?
8. Vai usar a cama? Melhor que ela seja feita de madeira de reflorestamento certificada.
9. Para adeptos do sadomasô: esqueça objetos que agridem o meio ambiente ()
10. Faça amor, não faça guerra!"
Ser verde nunca foi tão erótico!
Cheguei a pensar que não se tratava realmente da ONG...
Michel Tcherevkoff



"Os artistas costumam partilhar com os loucos o inevitável impulso de ver sempre algo além do já visto. Assim, transformam os objetos, a natureza e os corpos em novos objetos, dotados de novas naturezas e novas formas corpóreas".É nessa reflexão que se encaixam as produções do fotógrafo francês Michel Tcherevkoff: "fotografar coisas que simplesmente existem não é interessante para mim". Dessa forma, de manipulação em manipulação do que via, chegou às criações de sapatos feitos de plantas.
Clique no título para ver outra lindas imagens feitas no projeto Shoe Fleur.
Vale a pena fuçar o livro todo. É lindo!
Assinar:
Postagens (Atom)











