novembro 02, 2008

A vez do homem beta

RECEBI,via e-mail,de um "homem beta". Não tenho dúvida de que se reconheceu...

"Ele é charmoso, carinhoso, atencioso e lhe manda uma mensagem de bom dia, na manhã seguinte daquele jantar incrível. Além disso, sabe cozinhar, tem ótima sintonia com as crianças, não é ciumento e não reclama se você chega tarde da happy hour com as amigas. Para completar, depois do filme acompanhado de brigadeiro de panela, é ele quem enfrenta a esponja e o detergente.
Esta é a descrição perfeita para o homem da sua vida? Pois bem, trata-se do homem beta, um novo rótulo para a figura masculina moderna. A denominação é oriunda do alfabeto grego, no qual a segunda letra, o beta, é voltado ao mundo das emoções. Assim, o homem beta é mais sensível e não se simpatiza com os jogos de poder masculinos, enquanto o macho alfa, primeira letra do alfabeto grego, tem o papel de líder valente, caçador e conquistador das fêmeas do bando.
Na prática, o homem beta gosta de falar dos sentimentos e não tem necessidade de ser o melhor em tudo. Gosta de cuidar dos filhos, divide as contas com a mulher e, se precisar, pode até ser sustentado por ela. Definitivamente, ele é avesso à ideologia machista, não tem vergonha de seu lado sensível e exerce atividades que, antigamente, eram da competência das mulheres. Ao contrário do homem alfa, que faz o papel de provedor, másculo e agressivo, o beta é um homem mais colaborativo que competitivo.
Depois de quase meio século de emancipação feminina, a mulher moderna não precisa mais da figura masculina como proteção. 'Se o homem tiver um comportamento machista é capaz de ficar sozinho.. As mulheres não admitem mais viverem como suas mães, avós e bisavós. As que ainda são casadas com homens machões estão prestes a se separarem e as solteiras relutam em se casar com um homem que mostre suas garras machistas.".
Seja na esfera social, econômica ou profissional, a mulher invadiu áreas antes, dominadas pelos homens. Em contrapartida, a tendência é que o universo masculino comece a assimilar tarefas e comportamentos tidos como femininos, tais como a simpatia por discutir a relação afetiva e a disponibilidade para cuidar dos filhos. Para não criar nenhum clima de disputa e competitividade neste processo, "o mais importante numa relação a dois é o respeito, que deve existir entre ambas as partes".

Características do homem beta:
O homem beta:
• Diz "eu te amo"
• Não tem medo de pedir perdão
• Contraria a máxima de que "homem não chora"
• Discute a relação com você numa boa
• Cuida dos filhos sem reclamar.
• Cozinha, lava louça e arruma a casa

O homem beta nunca:
• Fica se olhando no espelho o tempo todo
• Trai a mulher por pura diversão
• Arruma briga na rua
• Se sente inferiorizado por você ganhar mais que ele
• Faz questão de provar que tem razão em tudo"

Por Nathalya Buracoff

FERNANDA YOUNG

Conheci primeiro o livro, O EFEITO URANO, antes de conhecer a sua autora, a "irritada e irritante" FY. O livro dentro do projeto "Cinco Dedos de Prosa" foi alusivo ao dedo médio, o genital das mãos, segundo ela própria.
É a estória de um triangulo amoroso entre um homem e duas mulheres, ou duas mulheres e um homem.
Até então, eu não tinha qualquer referência da autora. No entanto, ela havia sido escolhida naquele projeto do qual participavam nomes como LF Verissimo(polegar) e Cony(indicador) - não lembro dos outros. Além do tema, o livro tinha de diferente o fato de serem adotadas fontes diversas quando ela escrevia referindo-se ao marido ou à amante. Era muito prolixa e não parecia ficção.
Quando vim a saber que FY fazia roteiros para a TV fiquei curiosa. Assisti um episódio. Era diferente o veículo e o público. Nos créditos fiquei sabendo da co-autoria do marido! Minha experiência com maridos me faz acreditar que certas parcerias não se pode fazer com eles."Vai ver é ele quem escreve" foi o que me passou pela cabeça. De lá para cá não li senão, casualmente, a coluna que ela escreve na revista Cláudia. Nada digno de nota. Não sei se perdi alguma coisa que valesse a pena nos 10 livros que publicou ...
Houve um tempo em que a via no Saia Justa. Sua figura e suas intervenções faziam um contraponto interessante à caretice da Waldvogel. Tinha ainda a participação da Rita Lee a quem ela reverenciava. Nunca a vi como apresentadora, mas acredito se continua a ser ela mesma, não varia muito do que conheci.
Identifico-me com ela em alguns pontos (não vou dizer quais), do contrário não traria esta entrevista que ela deu para VEJA a que vc acessa clicando no título.

Filosofia de Boteco

Sob o título "cronicar", pensei a propósito de crônicas e dos temas que dela podem ser objeto, concluindo que podem tratar de tudo, ou qualquer coisa, até mesmo de "um encontro num bar". Quando se passa da crônica para o blog (que não é gênero literário) as possibilidades então se ampliam.
Leio, de vez em quando, no estadão.com , dentre outros, o blog do jornalista Felipe Machado que é sempre interessante, apesar de ele declarar que passa a maior parte de seu tempo tentando entender o que vai na cabeça das mulheres. Uma tarefa que ele já devia ter deduzido ser inglória e inútil...
Hoje ele traz/ reproduz o seu encontro com amigos num bar.
Sinceramente, não sei se me interessei pelo texto em si ("texto em si" ops! isto já é filosofia?), ou se fiquei com inveja de ter amigos com quem "filosofar", às sextas, num boteco...

"Encontrei a filosofia de boteco:

Ela voltooou!
Depois de passar algum tempo escondida debaixo de alguma bolacha de chope, a filosofia de boteco está de volta para esclarecer alguns pontos importantíssimos da mente humana. Depois de Sófocles e Aristóteles... Botécoles.
(Nossa, essa foi péssima)
Infelizmente, não posso reproduzir o papo inteiro aqui. Em primeiro lugar, porque não teria a menor graça para quem não conhece as pessoas envolvidas. Em segundo, porque a maior parte do tempo se fala apenas besteira. E, em terceiro, porque esse é um blog familiar.
Esse papo supersério rolou na semana passada, numa mesa composta por três homens e três mulheres: dois casados, um solteiro; uma casada e duas solteiras. A seguir, os melhores (piores) trechos da conversa:
1. Ricos não enchem a cara: fazem degustação
Já percebeu como é chique dizer que vai fazer uma 'degustação de vinhos franceses'? Pois é, começamos a falar sobre isso e descobrimos que o mundo ficará muito mais elegante quando um bebum disser que vai 'fazer uma degustação no estabelecimento que fica no cruzamento entre duas avenidas', em vez de dizer que vai 'encher a cara no bar da esquina'. Como se vê, a elegância é apenas uma questão semântica.
2. Marta de salto alto
Como estava na semana da eleição, é claro que esse tema veio à tona. O bordão 'é casado, tem filhos?' foi aplicado praticamente a todo cara mencionado na conversa. Exemplo, falado por uma das solteiras na mesa: 'Outro dia conheci um médico superlegal, acho que vou começar a sair com ele'. E nós: 'É casado, tem filhos?' E por aí vai. Outro ponto que pegou foi que começamos a imaginar que a Marta Suplicy, aquela simpatia toda e tal, achava que a eleição estava ganha. Como ela perdeu a eleição porque nunca desce do salto alto, ganhou um apelido na mesa: Imelda Martas, em homenagem à simpática ex-primeira dama da Filipinas.
3. Amigos/Inimigos
Todo mundo tem amigos que não são muito amigos, não? Chamamos esses amigos/inimigos de 'amigos bad vibe', aqueles caras que pesam o ambiente toda vez que chegam perto. Às vezes eles nem são tão amigos assim, mas estão sempre lá. Ou sempre aqui, no caso. Em compensação, tem coisa melhor do que amigo legal? Tem? Um cara ou uma garota que você pode contar sempre que precisar... pouquíssimas coisas são melhores na vida.
4. Casamentos x solteirice
Ai, que assuntinho que sempre vem à tona, não? Será que é a idade dos presentes ao papo (entre 30 e 40)? Ou será que é a dúvida que sempre assola todo mundo: por que quem está casado quer estar solteiro e quem está solteiro quer estar casado? É uma daquelas dúvidas no estilo Tostines. (Lembra? Tostines é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho? Algo assim) Enfim, começamos a falar sobre vidas estáveis, etc, e um amigo meu daqueles fanáticos por quatro rodas saiu-se com uma pérola da filosofia de boteco: 'Estabilidade é coisa para carro.'
5. Nem eu entendi
Eu costumo anotar os papos no guardanapo, mas um deles estava tão borrado que eu não consegui entender minha própria letra. Na próxima vez que esse grupo se reunir, prometo levar o papel para ver se alguém se lembra do papo. Enquanto isso, você fica com mais uma pérola da filosofia de boteco, dita com tom seriíssimo pelo mesmo autor da frase sobre estabilidade:
'A melhor coisa de ser solteiro é que posso me levantar de qualquer lado da cama.'
Gênio!"

O Conformista

Este filme acaba de sair em DVD o que motivou o comentário crítico da FSP que resumi para este post.
Duas décadas depois de sua publicação, o romance “ O Conformista”, do escritor Alberto Moravia, foi adaptado para o cinema por Bernardo Bertolucci, então com menos de 30 anos. Enquanto no livro um "herói contemporâneo" expressa um sentimento antifascista, o filme de Bertolucci se beneficia da distância no tempo para uma reflexão mais conectada com a idéia de ação política no final dos anos 60, o que faz com que ele considere "O Conformista"(1970) seu atestado de maturidade como diretor.
A adaptação do romance de Moravia substitui a narrativa linear original por uma estrutura em forma de flashback, o que acentua o aspecto um tanto onírico da trajetória do protagonista Marcello Clerici (o ator francês Jean-Louis Trintignant). Servidor público que se considera diferente dos outros devido a um episódio de infância, ele quer apenas levar uma "vida normal". Na Itália dos anos 30, o casamento com uma jovem de classe média baixa e a militância como agente fascista lhe parecem essenciais para construir a sua conformação social. A lua-de-mel em Paris traz sua primeira missão, aproximar-se de seu ex-professor antifascista, cuja mulher o atrai, para matá-lo. As idas e vindas no tempo exploram sua fragilidade, seus dilemas morais e seu processo de tomada de consciência, que o uso significativo de cores, sombras e espaços traduz em forma de cinema.
Diga-se, de um ótimo cinema!

novembro 01, 2008

SUSTENTABILIDADE

Clicando no título vc. acessa a um video (22 minutos) com uma séria reflexão sobre os efeitos do consumismo (dos americanos) não só na economia, mas na alma e no comportamento das pessoas, e os graves danos provocados no meio ambiente. Até a dublagem é boa.

Cronicar

Crônica (do grego chrónos = tempo).Cronicar é relatar o tempo.
A respeito deste gênero literário há quem diga que os brasileiros o transformaram numa especialidade da casa, feito muqueca de peixe, tutu à mineira...
E isto não seria por terem os nossos escritores fôlego literário curto, uma vez que são excelentes no conto. A ligeireza da crônica brasileira talvez decorra da consciência da velocidade com que o tempo vai levando fatos e pessoas e da necessidade de ir registrando o que se passa, inclusive no âmbito pessoal e intransferível. Somos mesmo muito pessoais, vemos e vivemos muito a nossa vida e a celebramos quase que no próprio instante em que ela se passa. E a crônica se presta muito bem à finalidade. Pouco importa se o cronista se limite a relatar seu encontro no bar, sua ida ao supermercado ou o último filme que assistiu. Não interessa se ele é elitista ou literariamente limitador. E daí que não tenha profundidade? O cronista vai falando sozinho diante do mundo (o que, de um certo modo, também faz o blogueiro) e, ao fim de algum tempo, seleciona, revisa e lança em livro suas crônicas. É só observar nas livrarias as obras de autores brasileiros contemporâneos.
Quantos não são cronistas?

outubro 31, 2008

MUCHA


Fazia um tempo que vinha pesquisando a melhor forma de trazer o Mucha.
Acho que encontrei.Clicar no título desta postagem dá acesso a imagens e informações que nem imaginava possíveis. Há uma restrição no arquivo, para acessá-lo clicar em "somente leitura". O fundo musical é muito bom. Aproveite!

Nostalgia em Perfumes


No tempo em que se chamava as publicidades de "anúncios" ou "reclames", os perfumes eram estes...




Uma reflexão

Pense num slideshow...
Desses que vc. recebe usualmente...
E que começa com: "Está preparado?"
É comum e, provavelmente, você já viu as imagens antes.
Quem sabe até já se acostumou com elas.
Começa com aquelas crianças famintas da África.
Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele.
Aquelas com moscas nos olhos.
Os slides se sucedem.
Êxodos de populações inteiras.
Gente faminta.
Gente pobre.
Gente sem futuro.
Durante décadas, vimos essas imagens.
No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto, nos e-mails.
Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados.
São imagens de miséria que comovem.
São imagens que criam plataformas de governo.
Criam ONGs.
Criam entidades.
Criam movimentos sociais.
A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá, sensibiliza.
Ano após ano, discutiu-se o que fazer.
Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta.
Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo. Resolver! Eliminar! Extinguir!
Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta.
Não sei como calcularam este número.
Mas digamos que esteja subestimado.
Digamos que seja o dobro. Ou o triplo.
Por 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo.
Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse.
Não houve documentário, ONG, lobby ou pressão que resolvesse.
Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia.
(anônimo)

outubro 30, 2008

UM BEIJO ROUBADO


Somente hoje assisti a este que foi considerado como um dos filmes mais bonitos de 2007, “ My Blueberry Nights" ("Um Beijo Roubado") é o primeiro filme em inglês do diretor Wong Kar-Wai e a estréia da cantora Norah Jones no cinema.
O dono de um café (Jude Law) “coleciona” chaves esquecidas no balcão - cada chave tem a sua história. Um casal acaba de terminar o relacionamento e mais uma chave é abandonada no café (nesse caso, pertence à personagem de NJones). Esse bar/café, meio à deriva, é a própria metáfora do amor fugidio e é nele que o filme inicia e tem seu desfecho.
Para explicar a razão de tantas chaves serem largadas, a certa altura, ele diz “ as coisas terminam”, mas ele as mantém, pois se pessoas não se reencontrarem ele não quer se sentir responsável... Preterida, ela parte em busca de respostas e na "estrada", só encontra pessoas tão perdidas e desiludidas quanto ela. A atmosfera de desencanto romântico acena ao mesmo tempo para a possibilidade de reencontro e entendimento. O filme acaba sendo interessante pelo seu jeito de traduzir o vazio existencial que marca nosso tempo e por ser intensamente musical.
A trilha sonora traz, além de Norah Jones, Cat Power, Ry Cooder, Otis Redding, Cassandra Wilson e mais.
Uma curiosidade, o nome do café de Jeremy (Judy Law) , Klyuch, onde ele serve à personagem de Norah Jones (Elizabeth) a torta que dá nome ao filme, é uma palavra em russo que significa chave.

Toda mulher é meio Leila Diniz

É o que diz a Rita Lee no refrão da música Elas querem é poder!:

“Toda mulher quer ser amada
Toda mulher quer ser feliz
Toda mulher se faz de coitada
Toda mulher é meio Leila Diniz”


Ser Leila Diniz nos anos 60 e 70, em plena vigência da ditadura militar e de um conservadorismo moral sufocante, fez dela uma “revolucionária” que levantou a bandeira da espontaneidade e da alegria contra o machismo mal humorado então reinante. Sua rebeldia, que causou tanto impacto e a faz ser considerada uma "quebradora de tabus", hoje parece bem comportada, até banal. Falar sem pudores sobre sexualidade ou posar grávida de biquíni não escandaliza a mais ninguém. Viver intensamente e gozar da liberdade sexual virou rotina. Separar sexo do amor também. Mais que isso, a felicidade e o prazer viraram quase uma obrigação. E a moda de escancarar a vida íntima em público?
Apesar de ter morrido aos 27 anos, ou talvez por isto mesmo, LD continua viva no comportamento de várias gerações que adotam suas mensagens e exemplos, ainda que nem saibam a quem devem parte da liberdade de que desfrutam.
Embora tenha participado de novelas, feito teatro e atuado em filmes, LD tornou-se celebridade pelas suas entrevistas, nas quais não media palavras, nem palavrões. Tornou-se famosa a que foi publicada no Pasquim, em novembro de 1969. “Cada palavrão dito pela rósea boquinha da bela Leila foi substituído por uma estrelinha. É por isso que a entrevista dela até parece a Via Láctea”, explicou o editor. Foi a edição mais vendida de toda a história do jornal. Coincidência ou não, a censura prévia à imprensa foi instituída pela ditadura logo depois, através do que ficou conhecido como o Decreto Leila Diniz.
LD havia sido casada com Domingos de Oliveira e, em 1971, voltou a se casar, com o cineasta Ruy Guerra. Grávida de oito meses, chocou a “família brasileira” ao expor o barrigão na praia de Ipanema e ao se deixar fotografar amamentando.
Sua morte, em 1972, provocou uma verdadeira comoção nacional. Partia a mulher, nascia o mito.

Algumas de suas frases:

“Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo”
“Quebro a cara toda hora, mas só me arrependo do que deixei de fazer por preconceito, problema e neurose”
“Não morreria por nada deste mundo, porque eu gosto realmente é de viver. Nem de amores eu morreria, porque eu gosto mesmo é de viver de amores”
“Eu posso dar para todo mundo, mas não dou para qualquer um”
“Cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco”
“Viver, intensamente, é você chorar, rir, sofrer, participar das coisas, achar a verdade nas coisas que faz. Encontrar em cada gesto da vida o sentido exato para que acredite nele e o sinta intensamente”
“Sempre andei sozinha. Me dou bem comigo mesma”
“Eu trepo de manhã, de tarde e de noite”
“Todos os cafajestes que conheci na vida são uns anjos de pessoas”
“Eu durmo com todo mundo! Todo mundo que quer dormir comigo e todo mundo que eu quero dormir”
“Só quero que o amor seja simples, honesto, sem os tabus e fantasias que as pessoas lhe dão”
“Não sou contra o casamento. Mas, muito mais do que representar ou escrever, ele exige dom”

Dramas da liberdade

"Às vezes, lembro-me de uma velha senhora que me procurou perplexa e inconformada com sua atual condição. Problemas na retina não lhe permitiam mais ler, e ler era tudo de que mais gostava. Os dentes falsos, que só mastigavam o que não fosse muito sólido, eram meros enfeites que sempre se soltavam na boca. As pernas estavam fracas, os pulmões, cansados, a memória, falhando.
Embora seu corpo a mantivesse viva, também a impedia de viver. Como equacionar a falta de liberdade a que ele a condenava com o sentimento de liberdade do seu espírito, que queria sair pelo mundo, fazer coisas, transformar-se?
O drama da velha senhora é o mesmo que atravessa a vida de todos nós: o drama da liberdade. Poucas vezes tão nítido. E nem sempre vivido na relação conosco mesmos. Na maioria dos casos, vivido na relação com os outros.
Esse drama está aí, nos conflitos das separações, nas crises dos adolescentes, nas guerras, nas angústias de quando queremos mudar de vida. E, inevitavelmente, jogando-nos na encruzilhada do "quero e não posso", ou "quero e não quero" (ou "não sei o que quero").
Não fosse a condição de que viver como homens é viver na companhia de outros homens, a dificuldade de realizar o que se quer não existiria. Mas quem se satisfaz só com a liberdade de pensar, de sentir e de querer quando está a sós consigo mesmo? Ninguém. A "liberdade interior", solitária, é inútil.
A liberdade é um negócio entre homens. Ela implica no movimento de superarmos uma situação que nos limita e, em seguida, estabelecermos as condições para uma vida em acordo com nossos propósitos.
Meu sobrinho, aos quatro anos, disse ao meu cunhado: "Pai, quando eu for grande e você quebrar as duas pernas e a mamãe também, posso pegar o carro e levar minha irmã para a escola?" É a maior e mais inocente expressão da consciência que alguém tem de que seu poder de agir segundo a própria vontade está fora de suas mãos.
Ninguém nos dá a liberdade.
Se fosse assim, jamais seríamos livres, pois dependeríamos da permissão do outro. Nunca seremos livres para agir. Ao contrário, agimos para sermos livres. Ser livre dá trabalho.
A liberdade exige a habilidade de fazer acordos com os outros (e conosco) que nos permitam realizar nossas vontades.
Mas, paradoxalmente, esses acordos nunca asseguram que se realizará a vontade do eu, mas a vontade do nós.
A experiência da liberdade, hoje, passa pela recuperação de nossa capacidade de fazer acordos e pela descoberta de que a melhor realidade para a existência pessoal é aquela que compartilhamos com outros.
Criados sob o individualismo, acabamos por só reconhecer nossa liberdade quando impomos nossa vontade. Daí tanta decepção e impotência. E, de um ponto de vista mais amplo, daí as ditaduras, os totalitarismos. Daí tantos Hitlers, Stalins, Maos, Otelos e Lindembergs.
A soberania da vontade do eu é, também, fonte de uma monstruosidade: homens dominadores, fortes, mas solitários. Só a solidão pode ser mais opressiva do que a falta de liberdade". --------------------------------------------------------------------------------
DULCE CRITELLI , terapeuta existencial

outubro 29, 2008

Canção na plenitude

Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias."

Lya Luft - o texto faz parte do livro "Secreta Mirada"

outubro 28, 2008

A literatura e a vida


J.L. Borges se irritava quando lhe perguntavam:
“Para que serve a literatura?”
Parecia-lhe uma pergunta idiota e ele respondia:
“A ninguém ocorreria perguntar qual é a utilidade do canto de um canário ou dos arrebóis do crepúsculo !”
Não se está querendo apurar qual seria a utilidade do gorgeio dos pássaros ou do espetáculo do sol se pondo no horizonte. Estas coisas, com certeza, mesmo que seja por instantes, sabemos que tornam a vida menos feia e menos triste .
Mas e a literatura?
Mario Vargas Llosa que, além de ficção, escreve crítica e teoria literária, nos ensaios intitulados A Verdade das Mentiras analisa as mais extraordinárias obras literárias do século XX . E o faz de maneira tão sedutora, ao ponto de levar a tradutora Cordélia Magalhães a declarar haver feito seu trabalho em “estado de graça e de temor reverencial”.
Foi a mesma CM que escreveu a orelha do livro que ela considerou “....uma comovedora declaração de amor à literatura”.... “ um canto de amor aos homens” .....”um passeio pelo universo mental de seu autor, planejado com mimos de um amante ferozmente apaixonado ....”.
Recomenda que se comece a ler o livro imaginando um mundo sem literatura, uma humanidade que jamais tivesse lido romances, poemas, dramas...
O livro contém 36 ensaios que abordam os grandes temas tratados pelos autores : a loucura e a morte, o amor e a perversão, o sexo e a guerra, a civilização e a barbárie.
Refiro-me aos ensaios para destacar o epílogo que foi acrescentado às edições recentes. É um texto sobre a relação entre a literatura e a vida dos leitores. Nele M.V. Llosa formula “algumas razões contra a idéia de literatura como um passatempo de luxo e a favor de considerá-la, além de um dos mais enriquecedores afazeres do espírito, como uma atividade insubstituível para a formação do cidadão numa sociedade moderna, de indivíduos livres....”
Para ele a literatura “foi e continuará sendo, enquanto existir , um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres vivos se reconhecem e dialogam, não importa o quão distintas sejam suas ocupações e desígnios vitais, as geografias e as circunstâncias em que existem e, inclusive, os tempos históricos que determinam seus horizontes”.
Os efeitos benéficos da literatura no plano da linguagem o fazem considerar uma humanidade sem leitura, “não contaminada de literatura”, parecida com uma comunidade de gagos e de afásicos.
Segundo ele, "uma pessoa que não lê, ou que lê pouco, ou que só lê lixo, pode falar muito, porém dirá sempre poucas coisas porque dispõe de um repertório mínimo e deficiente para se expressar...”
E afirma "...nada defende melhor o ser vivo contra a estupidez dos preconceitos, do racismo, da xenofobia, das afirmações caipiras do sectarismo religioso ou político, ou dos nacionalismos excludentes, como essa comprovação incessante que sempre aparece na grande literatura: a igualdade essencial dos homens e mulheres de todas as geografias e a injustiça que é estabelecer, entre eles, , formas de discriminação, sujeição ou exploração...
...Ler boa literatura é de se divertir, sim, porém, também aprender dessa maneira direta e intensa que é a da experiência vivida através das obras de ficção, o que e como somos em nossa integridade humana, com nossos atos e sonhos e fantasmas, separados ou na trama de relação que nos vinculam aos outros, em nossa presença pública e no secreto de nossa consciência, essa complexíssima suma de verdades contraditórias de que está feita a condição humana".

E prossegue:
"A literatura apazigua momentaneamente essa insatisfação vital, porém, nesse milagroso intervalo, nessa suspensão provisional da vida na qual nos faz desaparecer a ilusão literária - que parece nos arrancar da cronologia e da história e nos converter em cidadãos de uma pátria sem tempo, imortal -, somos outros. Mais intensos, mais ricos, mais completos, mais felizes, mais lúcidos que na constrangida rotina de nossa vida real."
O texto é longo como a frustração de não poder transcrevê-lo integralmente, o que me leva a pinçar trechos que, por deficiência própria, talvez nem sejam os que melhor traduzem o seu pensamento. Registre-se, pelo menos, o esforço, a tentativa.
A propósito dos audiovisuais:
“A verdade é que o formidável desenvolvimento dos meios audiovisuais em nossa época, que de um lado revolucionaram as comunicações, fazendo-nos a todos co-participantes da atualidade e que, de outro monopolizam cada vez mais o tempo que os seres vivos dedicam ao ócio e à diversão, desviando-os e arrancando-os da leitura, permite conceber, como um possível cenário histórico do futuro mediato, uma sociedade moderníssima , eriçada de computadores, telas e microfones, e sem livros ou, melhor dizendo, na qual os livros – a literatura – teriam passado a ser o que é a alquimia na era da física: uma curiosidade anacrônica , praticada nas catacumbas da civilização midiática por minorias neuróticas ....”
Ainda que conclua considerando improvável que esta perspectiva terrível se concretize, atribui a nossa visão e a nossa vontade que esta utopia se realize ou seja eclipsada : “Se quisermos evitar que com a literatura desapareça, ou fique esquecida ou desprezada essa fonte motivadora da imaginação e da insatisfação , que nos refina a sensibilidade e nos ensina a falar com eloquência e rigor e que nos faz mais livres e com vidas mais ricas e mais intensas, temos que agir”.
Temos que ler bons livros, e estimular e ensinar a ler os mais novos, na família, nas aulas e em todas as instâncias da vida comum.
Tenho feito a minha parte...

outubro 27, 2008

MULHERES POSSÍVEIS

"Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes.
Sou a Miss Imperfeita, muito prazer.
Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o cardápio das refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão e ainda faço escova toda semana - e as unhas!
E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.
Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero.
Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você não é Nossa Senhora.
Você é, humildemente, uma mulher.
E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante.
Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável.
É ter tempo.
Tempo para fazer nada.
Tempo para fazer tudo.
Tempo para dançar sozinha na sala.
Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.
Tempo para sumir dois dias com seu amor.
Três dias.
Cinco dias!
Tempo para uma massagem.
Tempo para ver a novela.
Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.
Tempo para fazer um trabalho voluntário.
Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas.
Voltar a estudar.
Para engravidar.
Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.
Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada.
Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!
Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir.
Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo.
Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante".

Martha Medeiros

"Vicky Cristina Barcelona"


Com a esperança de que não demore a chegar por aqui...

"De uma ponta a outra da filmografia de Woody Allen a tendência mais simples de constatar é o mimetismo. Da comédia clássica hollywoodiana a Bergman e Fellini, o diretor norte-americano absorveu muito dos seus prazeres de espectador e nos devolveu tudo em mais de 40 filmes retemperados com um inconfundível toque pessoal.
Com "Vicky Cristina Barcelona", seu quarto filme realizado na Europa, Allen demonstra, ainda uma vez, que suas capacidades camaleônicas permanecem inalteradas. Depois de três filmes na Inglaterra, o diretor visita Barcelona, onde o que chama a atenção de cara é como ele se adapta à cor local.
Um grande desperdício seria desqualificar o filme apontando que Allen foi à Espanha filmar clichês. Nem deveria ser diferente, já que o que ele narra são as aventuras de Vicky e Cristina, turistas americanas que chegam a Barcelona carregadas com o espírito-clichê que levamos em bagagens.
Outra escolha estaria em dar atenção a como Allen mimetiza (a luz local, uma seqüência musical já vista em "Fale com Ela", de Almodóvar, por exemplo) para refazer esses materiais à sua maneira. Não se trata de copiar ou de plagiar. A mímese é mais um processo no qual uma forma se torna outra, uma astúcia baseada na incorporação.
Desse modo, já vimos Allen assinar filmes bergmanianos, fellinianos, cassaveteanos, dostoievskianos ou tchekovianos da mesma forma que os identificamos como nova-iorquinos, ou como londrinos, ou cômicos/trágicos (basta lembrar "Melinda e Melinda", um grande tratado sobre o mimetismo entre tragédia e comédia).
Igualmente, os mais cinéfilos não terão dificuldades para reconhecer um Allen rohmeriano em "Vicky Cristina Barcelona", com sua ciranda amorosa que culmina (atenção: spoiler) nas cenas "calientes" entre Scarlett Johansson e Penélope Cruz.
Ou um Allen antonioniano, com a referência ao Jack Nicholson que também resolve mudar de vida, em "Passageiro: Profissão Repórter".
Contudo, o novo título reitera um mimetismo de outra ordem, que não envolve apenas dois, mas três termos.
Triangulações
Em vez de se chamar "Vicky e Cristina em Barcelona" (pois é disso que se trata), o título nos remete, em sua tripla nomeação, a triangulações que se desdobram ao longo do filme: duas garotas e uma cidade, uma garota e um casal, duas garotas e outro casal, um homem e duas mulheres e por aí vai.
Trata-se de uma arte combinatória na qual cada termo se encontra em posição livre para escolher, mas também para ser escolhido (ou excluído), o que altera, a cada passo, o resultado e torna tudo imprevisível.
Também bastante livre em sua posição de regente, Allen não resiste à oportunidade e nos entrega um filme liberador.
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CÁSSIO STARLING CARLOS
Crítico da FSP