outubro 22, 2008

Era feliz e sabia

Um pouco por falta de assunto, ou por querer agradá-lo, enviei para um amigo, via e-mail, um autêntico samba (Seu Jorge e Elza Soares, juntos). Um samba daqueles que, como disse na mensagem, ia fazê-lo levantar para dançar....
“ Ah! ,que saudade de um bom samba.... Saudade de ir num bar que tem musica ao vivo e toca samba, samba canção e bossa nova.... Saudade de ouvir gente tocando violão, numa roda, na praia à noite.... Por que as coisas mudam tanto quando o tempo vai passando... ? Onde está escrito que tem que mudar ? Eu não dancei no meio da cozinha, mas sambei com a minha mente, num barzinho imaginário de roda de samba em algum lugar desse meu Brasil (o do sonho, não o da violência....). Que coisa boa....”
Ao ler isto me acordei para a mais triste realidade: barzinho, roda de violão, à noite, na praia é uma das muitas coisas boas que não se faz há, pelo menos, duas gerações. O que se passou a ouvir (e cantar), não aceita violão como acompanhamento. Ir à noite para a praia, na lua cheia (fazer “luarada”), acampar, fazer fogueira, dormir em barraca, ou não dormir, assistir “corrida de submarino”, tudo isto se tornou impensável.
Este “barzinho” sobrevive apenas na saudade de quem viveu e aproveitou aquele tempo, a que o meu amigo se refere, apropriadamente, como “o do sonho”.
Achei interessante este “imaginário”, seu significado e simbologia.
No entanto, há quem acredite possível recriá-lo. Como se cenário e figurino bastassem para reproduzir a atmosfera de uma época, retomar antigas amizades e até reatar relacionamentos amorosos!
Esta crença tem levado a que se promovam eventos/festas "temáticas", embaladas com as músicas e trajes dos anos 60,70,80, regadas à uma nostalgia capenga, na falsa ilusão de que, vestidos à maneira de quando eram jovens, ouvindo as músicas, cantando e dançando à moda da época em que tinham 20, 30 anos, (a que se referem como os bons e velhos tempos), irão voltar a sonhar.
Para mim estas pessoas passam a impressão de estarem meio desesperadas. Parecem não ter curtido (para usar o termo contemporâneo), na época própria e agora, caricaturadas de jovens, tentam artificialmente, incorporar os modernismos que rejeitaram ou nem conheceram, em nome de uma felicidade cuja busca os faz perder o senso do ridículo. Ou sou eu que não me permito entrar na fantasia?
Prefiro o "barzinho" do imaginário, ainda que seja mero símbolo de alegria e descontração recuperáveis apenas nas nossas lembranças...
E estas são muito boas na medida em que posso pensar “eu era feliz e sabia!”

Denuncie a pedofilia!

O FBI produziu um relatório sobre pedofilia (clicar no título leva à cópia em pdf). Nele estão identificados uma serie de símbolos usados pelos pedófilos. Os símbolos são sempre compostos pela união de 2 semelhantes, um dentro do outro. A forma maior identifica o adulto, a menor a criança. A diferença de tamanho entre elas demonstra a preferência por crianças maiores ou menores.
Homens são triângulos, mulheres coracoes. Os símbolos são encontrados em sites, moedas, jóias, bijuterias, moedas, troféus, adesivos, dentre outros objetos.
Ao encontrar este símbolo o mínimo que podemos fazer é avisar a polícia.

outubro 20, 2008

Mais de 24 horas na vida de duas mulheres.

"Graciosa, fina e discreta no trato, suave e calma (se não estivesse zangada), conheci-a num desses festivais que os jovens freqüentam nas férias. Fazíamos um curso de Música Antiga ministrado por Helder Parente. Naquele momento Fátima cursava o último semestre da sua licenciatura numa Faculdade Evangélica e morava com umas amigas que em diferentes momentos também tive contato. Pergunto-me até hoje o que nos aproximou assim à primeira vista. Acho às vezes que foi porque nós duas éramos o que na minha terra se chama “sem eira nem beira” ou melhor, “soltas na buraqueira da vida”. Meu espírito debochado talvez tenha funcionado como atrativo pois vi logo que ela tinha facilidade para sorrir e topava toda sorte de brincadeiras. Sendo eu mais velha, me via como alguém mais experiente, não sei. Uma experiência e proteção que ela precisava nos seus vinte anos? Não creio pois para mim ela já nasceu feita e no fundo não precisava das pessoas. Se saia bem onde quer que estivesse. Gostávamos da sociabilidade que a música proporcionava, não resta dúvidas. Com certeza gostávamos também de dar aulas mas nada disso seria suficiente para que nos tornássemos amigas, companheiras, cúmplices, confidentes por tantas décadas. O que é certo é que depois desse curso ela já iria de férias comigo para Fortaleza. Nessa época, por força das circunstancias eu ganhava o sustento dando aulas de Flauta Doce. Utilizando o repertório da Música Popular como referência, fazia os arranjos e programava apresentações. Já tinha uma pequena orquestra e dois outros conjuntos menores de alunos que aprendiam música com este instrumento. Já tinha um trabalho conhecido e recebia muito incentivo principalmente do nosso professor Helder Parente. Fátima ficou em minha casa e comigo acompanhou as aulas, foi acolhida pelos meus alunos e por minhas amigas. Depois disso, combinamos de nos encontrar nos festivais (Campos de Jordão, Brasília, onde quer que Helder Parente estivesse lecionando). Num desses eventos em Brasília eu recebi um telefonema da Escola de Música do Estado do Maranhão (EMEM). Olga Mohana, cantora e diretora da instituição, me perguntava se eu não gostaria de assumir umas aulas de música na escola em São Luiz. A indicação viera de uma amiga comum- Elba Ramalho, professora de música na Universidade Estadual do Ceará. Aceitei o convite, visto que não via muito futuro para mim vivendo de aulas particulares em Fortaleza. Na mesma ocasião Olga me pedia para procurar alguém que estivesse disposto a dar aulas de teoria e reger o coral da escola. Fátima aceitou na hora mudar-se para São Luiz e assumir as disciplinas. Combinamos no entanto que este seria um tempo de experiência pois ambas pensávamos em estudar fora do país. Ela tinha conhecido nesse festival, uma austríaca (Gigi) que a incentivara a estudar na Áustria. De minha parte, já tinha estudado na Alemanha e pensava também em voltar à Europa.
Éramos cinco professores (Roberto, Vitor, Marcelo, ela e eu) recém contratados pelo governo do Maranhão para dar aulas na EMEM. Morávamos no Convento de Santo Antônio a 200 metros da escola e fazíamos refeições na casa da D. Maria (secretária da escola). Era uma vida regrada porque o salário não permitia muita liberdade econômica mas o trabalho era gratificante. Fora disso, aquele tempo foi o ápice de todas as peripécias que cinco jovens poderiam ter feito na vida; soltos, loucos e sozinhos no mundo, sem amarras pra imaginar o que quer que fosse que nos divertisse. O que aprontamos em São Luiz daria um livro (censurado). Nos divertíamos até com nossas brigas pois depois, encenávamos o acontecido para rirmos em grupo. Ela costumava dizer para mim: não adianta, você é que pode ouvir e entender minhas loucuras e eu as suas.
Mas nossa convivência foi além das brincadeiras. Como colega de trabalho vivenciei todo o seu entusiasmo, sua força invulgar como professora, sua leveza, seu bom humor e sua capacidade de seduzir a todos. Desde o início, se abriu para conhecer pessoas, lugares, não ficando presa ao grupo que tinha chegado de fora e que se limitava às aulas e ao estudo. Sua disposição para viver qualquer experiência de vida nos impressionava. Participava de grupos de choro na cidade, dançava o carnaval de “fofão” passava fins de semana fora com novos amigos, freqüentava algum tipo de terapia em grupo etc. Tornou-se rapidamente conhecida na cidade e posso dizer que também marcou a EMEM como professora.
No início, quando não conhecíamos muita gente em São Luiz, nos reuníamos nos fins de semana nos alpendres do convento pra conversar besteira (1) e para tocar. Eu fazia os arranjos para os instrumentos que tocávamos (viola, flauta doce, violoncelo e violão) e ela e o Vitor davam sugestões de melhoras. Nada sério! Só para nos divertir. Com o tempo começamos a fazer reduções e adaptações de peças barrocas. Chamávamos os alunos mais adiantados para se juntar a nós e fomos preparando um repertório de verdade; músicas populares(2) , danças da renascença e umas peças barrocas para 2 flautas e cravo que adaptamos para o violão e o violoncelo fazia o baixo. Um dia, no intervalo das aulas fizemos uma apresentação da nossa camerata nos corredores da Escola de Música. Na última música todos trocaram de instrumento e executamos uma peça popular com arranjo meio jocoso. A direção da escola nos chamou e para nossa surpresa nos propôs que levássemos a sério o projeto pois já tinha até nome pronto para dar ao grupo. Que projeto que nada! Ficamos foi apavorados com esta idéia pois tínhamos consciência de que para representar a escola precisaríamos pensar mais do que em brincadeira. Conseguimos driblar a proposta dando um nome ao grupo. A Camerata Santo Antônio foi um tributo às freiras e padres que tinham nos acolhido no convento e assim nos desvencilhamos do assédio e conservamos o espírito descontraído do conjunto. Nos apresentamos bastante nos eventos da escola e até no Teatro Arthur Azevedo. O grupo só perdeu a força quando o Vitor voltou para Brasília indo depois para a Inglaterra e ela se preparava para deixar o país. Depois foi eu mesma que deixei a escola e fui para Suécia. O Roberto foi para Minas e depois para Goiânia ficando somente o Marcelo em São Luiz.
A partir daí nosso contato foi esporádico; uma carta, um retrato, um postal de vez em quando. Quando voltei para o Brasil ela me visitou em Brasília. Também constei como orientadora de um projeto que fez com a Cláudia Dias na Pró-Arte e que recebeu ajuda do CNPq. Fizeram várias apresentações em Brasília com muito sucesso. Digo que constei, porque na verdade elas não precisavam de orientação alguma. Como minha proximidade era maior com Fátima, sabia de seu potencial e competência para fazer o que se propunha no projeto e isso era tudo. Muito envolvidas com nossas atividades profissionais, nos encontrávamos quando por algum motivo ela vinha a Brasília. Eram encontros sempre alegres e reconfortantes. Como se cantássemos uma para a outra:
Eu quero te mostrar as marcas que ganhei nas lutas contra o Rei/ nas discussões com Deus/ e agora que cheguei eu quero a recompensa/ eu quero a prenda imensa dos carinhos teus.
Custo a acreditar que os demônios desapareçam para sempre da face da terra! Principalmente aqueles de porte pequeno, de mãos limpas e pequeninas. Fico sempre atenta pois se ouço o barulho de um par de sandálias baixas que adornam um caminhar ligeiro, começo a desconfiar de que possam estar por perto. E se o dono desse andar se aproximar e falar suave e calmo como o toque de uma pétala, confirmo minhas suspeitas; ele está voltando. Devagarzinho, nada de cheiro de enxofre. Isso assusta. Alfazema é mais apropriado por não oferecer resistência nem perigo aos sentidos. Nada de “chispas” ou palavrões. Na conversa, uma risadinha vinda da garganta, mais pra pigarro do que pra riso, é a senha! Dou mais outra pista: se algum dia você receber uma mensagem e esta precisar de um espelho para ser lida, e o próprio invólucro for de papel de jornal, não adianta fugir, pois ele já se instalou. A partir dali seu lugar no mundo será de algum modo marcado por ele.
Pela minha experiência com os demônios sei que eles não nascem, simplesmente aparecem... e em qualquer época e lugar. Lá ficam numa espécie de letargia até livrar-se de todas as camadas espessas que o embaraçam e impedem seu caminho. Isso pode durar até séculos, milênios mas um belo dia eles viram seta e se jogam para o alto rompendo todos os obstáculos. Começam a subir, subir, subir e lá em cima depois de fazerem um grande arco voltam disfarçados; olhos claros, cabelos ralos, corpo pequeno, andar cadenciado como a graça dos movimentos de um pandeiro num conjunto de choro. Asas ainda úmidas pelas partículas de água das nuvens na viagem de volta. Penas e plumas tão definidas e de movimentos tão precisos que só os mais avisados percebem.
Eu posso dizer que conheci, vi e vivi com uma dessas entidades. Ele aparecia de vez em quando. Vinha, mostrava as novidades em diabruras, ouvia as minhas e desaparecia. Certo dia lhe fiz uma pergunta infantil: para que tanta força e precisão de movimentos nas asas? Porque é com elas que os demônios constroem castelos sonoros, despertam sonhos em crianças, deixam lições em pentagramas. E é com elas que transcendem ao tempo e ao espaço, me respondeu. É ... assim é que são os demônios!
A última vez que este me apareceu usava saltos alto e vestido de griffe. Já viu? Deu-me vontade de rir da mudança...da sofisticação. Pensei: o que deu nele dessa vez, escondendo-se por trás de um perfume da L’Occitane? Será que perdeu a identidade, se avacalhou e por algum motivo virou gente? Ou tá gozando com minha cara? Qual nada! Depois de algumas palavras e risadas avistei entre seus cabelos ralos e estirados dois toquinhos que ao contrário do que eu pensara tinham crescido bastante. Baixei a vista e vi bem direitinha a assombração nos seus pés. E para confirmar a origem do desgraçado ele começou a me mostrar sua bagagem. Foi remexendo e retirando panelões, vidrinhos com poções e livros de receitas de diabruras que ele me explicava de uma por uma. Finalmente, do fundo da mala retirou e me mostrou a maravilha de um tridente de ouro cravejado de brilhantes que a vida e a profissão lhe presenteara. Mais que de repente soltei um ARRE ÉGUA bem alto e dei um pulo para traz sacudindo os braços! VALEI-ME MEU SÃO CIPRIANO! É ELE MESMO! Nada mudara. E aí então foi só entregarmos os ouvidos aos trítonos da vida.
Antes de desaparecer prometeu voltar em Outubro. Depois me deu sinais de que vinha para me mostrar sua última novidade. O que estará aprontando desta vez, pensei. E esperei. Não veio... "
Mércia Pinto
Setembro de 2008

(1) Entre as brincadeiras nas horas de folga, fizemos um projeto para a “Hochschule der Samba”, uma escola onde europeus pudessem aprender música brasileira com imersão total na cultura tupiniquin. Concebemos desde o conteúdo das disciplinas ensinadas, laboratórios e até os dormitórios e os banhos de sol para tostar a pele dos branquelos que chegassem do lado de cima do Equador, pois sem isso não poderiam sequer se inscrever nos cursos.
Como vínhamos estudando flauta doce mais seriamente, tentando executar as peças com todas as diferentes ornamentações da música barroca e renascentista, resolvemos fazer uma gozação em cima do assunto. Planejamos então um livro sobre ornamentação na Música Brasileira com sinais, execução e demais explicações. Tomamos como modelo os diferentes intérpretes da música popular, cada qual com seus cacoetes de interpretação. (2)Marchinhas de carnaval, tangos, fados, chorinhos, baiões etc.


"Esse pequeno texto é o testemunho do grande carinho e admiração que tenho por uma amiga. São amostras de sentimentos, de referências afetivas que se ampliam, se reduzem, se refazem, se espelham, mudam a tonalidade, às vezes parecem gritar e se invertem em forma de eco. Transitam pelo grave e pelo cômico. Para quem nunca experimentou, parecem fáceis. Enganam mas nunca se desfazem porque nas suas variações conservam sempre o tema original do RASGA CORAÇÃO".

Recebi este texto para ser lido ouvindo a música: Variações sobre o tema do Rasga Coração (composta por Ronaldo Miranda) de Anacleto de Medeiros, compostas para piano a 4 mãos,executada por Celina Szrvinsk e Miguel Rosselini. Lamentavelmente não irei conseguir trazer a música, para completar a homenagem à Fatima Regina Pereira (Tina Pereira).

CRONOBIOGRAMA FEMININO

Recebi, por email, de uma amiga das antigas que andou sumida e reaparece com esta. Não sei se é trágico ou cômico. Seja o que for, é o que acontece...
De 1 aos 5 anos:
A mulher não tem a mínima idéia do que ela seja.
Dos 5 aos 10 anos:
Sabe que é diferente dos meninos, mas não entende porquê.
Dos 10 aos 15 anos:
Sabe exatamente por que é diferente, e começa a tirar proveito disso.
Dos 25 aos 30 anos:
Nessa fase formam-se 5 grupos distintos:
G1 - das que casaram por dinheiro
G2 - das que casaram por amor
G3 - das que não casaram
G4 - das que simplesmente casaram
G5 - das inteligentes

Com o tempo, as do grupo...

G1: descobrem que dinheiro não é tudo na vida, sentem falta de uma paixão.
G2: descobrem que paixão não é tudo na vida, sentem falta do dinheiro.
G3: não importa o dinheiro e a paixão, sentem falta mesmo é de um homem .
G4: não entendem por que casaram.
G5: descobrem que ter inteligência não é tudo na vida.

Dos 30 aos 35 anos:
Sabe exatamente onde errou e tinge o cabelo de loiro. Vai para academia.
Dos 35 aos 40 anos:
Procura ajuda espiritual.
Dos 40 aos 45 anos:
Abandona a ajuda espiritual e procura ajuda médica (analistas e plásticas).
Dos 45 aos 50 anos:
Graças aos cirurgiões sua bunda e barriga voltaram ao normal, seus peitos
ficaram melhores do que eram e explode uma paixão pelo seu analista.
Após os 50 anos
FINALMENTE SE DESCOBRE, SE ACEITA E COMEÇA A VIVER !!!
...Mas aí vêm a osteoporose e o reumatismo e fode tudo!!!
Quem se atreve a dizer que não é verdade?

O suíço perdido...

...ou todo povo tem o governo que merece!

"Um suíço, procurando orientação sobre um caminho, pára seu carro
ao lado de outro carro - este, com um casal de brasileiros dentro.

O suíço pergunta:
- Entschuldigung, koennen sie Deutsch sprechen?*
Os dois brasileiros ficaram mudos.

Excusez-moi, parlez vous français?
Os dois continuaram a olhar para ele, impávidos e serenos.

Prego signori, parlate italiano?
Nada por parte dos brasileiros.

Hablan ustedes español?
Nenhuma resposta.

Please, do you speak English?
Nada.

Angustiado, o suíço desiste e vai embora.

Dona Marisa vira-se para Lula e diz:
- Talvez devêssemos aprender uma língua estrangeira...
- Mas pra quê, companheira Marisa? - responde Lula
- Aquele idiota sabia cinco. E adiantou alguma coisa?"

A moda OP-ART


Proust mergulhou no mais fundo de sua memória ao mordiscar uma madalena, na hora do chá. As lembranças de momentos e fatos de sua infância despertadas por conta do sabor desse bolinho mergulhado no chá foram consagradas no magnífico Em busca do tempo perdido.
O que pode nos trazer de volta, nítido, vivo, o tempo que consideramos perdido “nas dobras do passado “ para mim continua sendo um mistério.
Ontem, li um e-mail de minha irmã a propósito da postagem Sandálias Japonesas (ela não deixa comentário no blog). Como o tema era reminiscências, ela me pergunta se não vou falar do dia em que foi instalada a primeira TV em nossa casa.
Como a madalena do Proust deu-se o “estalo”. Resisti a tarde inteira às interferências daquelas cenas da vida doméstica, na minha leitura de um policial de trama intrincada e instigante. A cada pausa que fazia, por uma ou outra razão (continuava chovendo), as imagens que estava decidida a afastar me invadiam.
No meio delas surgiu a lembrança de uma amiga que foi muito presente na minha vida naquela época e sua imagem me desviou para outros escaninhos da memória. Fiquei pensando no quanto ela era, na década de 60, naquela cidade do interior, tão antenada em moda, o quanto conhecia de música e de vida de artista. Assuntos que só chegavam a mim através dela. Não sei como tinha acesso as informações nem quais eram suas fontes.
Lembrei dela, chorando emocionada, assistindo uma parada de sucessos em que se apresentava um de seus ídolos (Márcio Greick) cantando. A televisão tinha imagem preto e branco e um som cheio de chiados. O seu vestido, em amarelo e preto, era da última moda: op art !
Fui pesquisar e, num primeiro momento, temi estar sendo traída pela memória. Teria existido mesmo esta moda op art?
Op art é um termo usado para descrever certos quadros feitos, principalmente na década de 1960, que exploram a falibilidade do olho pelo uso de ilusões óticas .Os trabalhos de op art são em geral abstratos e muitas das peças mais conhecidas usam apenas o preto e o branco. Quando são observados, dão a impressão de movimento, clarões ou vibração, ou por vezes parecem inchar ou deformar-se.
Nessa época, por influência da arte, os estampados mudaram: os vestidos obedeciam a linha Qp (da Op Art), com motivos geométicos. 0s temas gráficos substituíram as estampas de flores, frutas e listras dos anos anteriores, bem como a febre de bolinhas do início da década.
Fui além da moda para descobrir que as origens da op art são os trabalhos de Victor Vasarely, dos anos 30, tais como Zebra (1938), que é inteiramente composto por listas diagonais a preto e branco, curvadas de tal modo que dão a impressão tridimensional de uma zebra sentada, devem ser consideradas as primeiras obras de op art.
Será que ela sabia disto? Fiquei intrigada...
E mais ainda pela coincidência, a tal da op art volta a ser moda em 2009!

outubro 19, 2008

Com licença poética

"Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade da alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou
."
Adélia Prado

outubro 18, 2008

"Porque hoje é sábado"...

...pegue o guarda chuva.
HOJE faz dois meses que retornei para a ilha de sol, de praia, de esportes ao ar livre, ciclovias e caminhadas...em teoria e sonhos. De verdade, só chove. Um amigo que já viveu aqui, ao me relatar sua experiência, me falou de sua provação: quarenta dias ininterruptos de chuva...era a "el niña".
É sempre assim. Esta minha lamúria também tem explicação científica. Fiquei sabendo que o tempo parece mesmo seguir o ritmo de trabalho e descanso do homem. Meteorologistas que estudaram a freqüência de chuvas sobre o Oceano Atlântico perceberam que as áreas costeiras têm 22% mais chance de receber aguaceiros aos sábados do que às segundas-feiras. A culpada seria a poluição! Segundo eles, as partículas poluidoras vão se acumulando no ar ao longo da semana. Esse acúmulo acaba facilitando a formação de nuvens, que despencam na forma de tromba-d’água nos dias de descanso.
Aqui esta tese não se confirma. Quando passa o forte e frio ventosul, fica a chuva eterna, miúda, silenciosa por toda a semana. E no sábado também.
Como diz o Vinicius...
"Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado."

E eu aqui, olhando a chuva...
Só voltando para onde o ritmo da natureza é outro, onde se põe em dúvida qualquer estudo científico, onde não importando o que o calendário marque, sempre vai dar praia! vai dar amigos e "comédias"!
Saudade...

Afrescos italianos

outubro 17, 2008

O BEIJO

Em Viena, a exposição Gustav Klimt e a Kunstschau 1908, no Belvedere, de 01 de outubro a 18 de janeiro de 2009, comemora os 100 anos desta obra. Klimt rompeu com a arte de seu tempo para criar um novo modernismo."O BEIJO está para Viena como a Mona Lisa para Paris" (ou seja, todos os japoneses querem fotografá-lo).
Para saber mais, clique no título da postagem e encontre informações interessantes no idioma de sua escolha.

A Batalha de Argel


No TC Cult vai passar, hoje (às 16,25), "A Batalha de Argel" que é a reconstituição da luta do povo argelino por sua libertação do jugo do colonialismo francês, tendo como fio condutor a história de integrantes da Frente de Libertação Nacional (FLN), que resistem na Casbah, o maior bairro popular da capital Argel.
A ação se passa entre 1954 e 1957 e o diretor Gillo Pontecorvo mistura ficção e fatos reais, tratando com tanta veracidade a resistência argelina e a violência do exército francês que obtém como resultado um “quase” documentário, intenso e emocionante.
O coronel Mathieu utiliza e defende abertamente a tortura para desbaratar a resistência argelina e manter o país sob domínio dos franceses. A tese - o uso da tortura e da humilhação como principal forma de combate - foi defendida publicamente em 1961, pelo coronel francês Roger Trinquier em seu livro "La guerre moderne", que serviu de “referência” para a “assessoria” de militares americanos em golpes de estado em países da América Latina.
Há dois anos, segundo o NYTimes, o filme foi exibido no Pentágono a militares norte-americanos inconformados com a tenaz resistência do povo iraquiano.
A Batalha de Argel ganhou o Leão de Ouro e o prêmio Fipresci (da Federação Internacional dos Críticos), no Festival de Veneza em 1966.
Esteve banido França até 1971 e ficou proibido no Brasil na ditadura.

Gillo Pontecorvo : Nasceu em Pisa, Itália, em 1919. Ligado ao Partido Comunista, começou a trabalhar como jornalista nos anos 1930; foi correspondente em Paris de jornais italianos. Ao final da II Guerra, tornou-se assistente de Joris Ivens, Yves Allégret e Mario Monicelli. Nos anos 50, dirigiu documentários antes de estrear na ficção com Giovanna, episódio do filme Die Vind Rose, (1954) sobre uma operária da indústria têxtil. Dirigiu também A Grande Estrada Azul (1957), Kapò (1959), Queimada! (1969), Ogro (1980), O adeus a Enrico Berlinguer (1984), Firenze, il nostro domani (2003).

Sandálias Japonesas

Então, desde 1962, foram batizadas de havaianas as mais famosas sandálias de borracha? A informação veio com a notícia de que a fabricante está lançando um novo produto, o primeiro depois de 46 anos (serão bolsas).
46 anos? E eu que me considero tão aberta à novidades, em geral, continuo chamando as famosas sandálias de “japonesas”. Não sei se alguém sabe, eu nunca soube a procedência mas, antes de serem fabricadas aqui, chamavam-se “japonesas”, as hoje mundialmente famosas havaianas. Tinham cheiro e cores tão lindas quanto as de hoje. Ou pelo menos a gente achava. O cheiro parece que não era tido como uma qualidade, pois os primeiros comerciais das “nacionais” (para diferenciar das “japonesas”) alardeavam que elas, além de não soltar as tiras, não tinham cheiro.
Não vou confessar quantas tenho, nem que continuo atraída por cada lançamento, que olho as vitrines das lojas exclusivas com a mesma avidez que certas pessoas olham joalherias....
A minha primeira era cor de rosa. Inesquecível como o primeiro soutien. O cheirinho e a maciez hum!!! Eram ótimos. Imaginava que nunca mais ninguém no mundo usaria outro tipo de calçado!
Naquele momento em que eram raras (não lembro se eram caras), só as usava dia de domingo, para ir à missa das oito na igreja de S.Francisco. Não se espantam os que sabem que cresci (ops!) numa cidade na qual se dizia ter tantas igrejas quanto Salvador e onde a vida social das moças (leia-se, ver e ser vista, desfilar vestidos novos, (só se usava saia) penteados e maquiagens) passava não só pelo clube. Ir à missa era uma atividade social. Quando veio a reforma (com o João XXIII), ir no sábado à noite, passou a valer para o domingo. Mesmo indo no sábado,às 18 hs no Menino Deus, continuamos indo no domingo pela manhã também.
Voltando às japonesas. Antes de ter acesso ou mesmo de imaginar se podiam ser objeto de desejo, as conheci usadas por um senhor da cidade que viajava sempre e com ele trazia certas novidades...
Retornando à cidade (parece que ele trabalhava em Brasília, uma cidade recém inaugurada), ele descia a praça, na diagonal, em direção ao cinema, usando sandálias japonesas verdes e cheirando a perfume frances (décadas depois identifiquei como sendo Ma grife – doce e impróprio para aquele clima, mas era chic!).
Até então, homem usava calçado de couro, pelica, etc. Ele era ousado com suas modernas "sandálias de plástico". Em casa, ouvia meu pai dizer que era para serem usadas no banheiro.
São tão nítidas as lembranças de minha japonesa, do seu toque, da sensação de como eram macias. Para mim eram tão preciosas que cada vez que as usava, antes de guardar, achava o máximo poder lavá-las . Onde já se tinha visto uma sandália tão leve, linda e lavável? Tinha um detalhe: tendo pés minúsculos (ainda hoje não é raro ter que encomendar, sob medida), a minha querida japonesa tinha uns dois números acima do que deveria ser a minha pontuação.Eu era faceira com elas assim mesmo...

outubro 16, 2008

Um homem, uma mulher



Ouvir o Vinicius de Moraes, hoje, me fez lembrar deste filme que tem música dele e do Baden Powell em sua trilha sonora. Talvez seja, dos filmes do Lelouch, o que revi mais vezes. Ainda seguirei revendo, nem que seja pela música maravilhosa do Francis Lai. O filme saiu em DVD e traz uma entrevista do Lelouch em que ele conta que os atores antes de ler o roteiro ouviram a música e que fazia com que continuassem a escutá-la, mesmo quando estavam fora das filmagens a fim de que se mantivessem no clima.
O filme foi vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Roteiro Original, além de haver recebido a Palma de Ouro em Cannes.
Uma linda história de amor à francesa que conquistou o mundo. Era 1966.

Deixa como está...

"Deixa como está para ver como é que fica" é o refrão rítmico que revela a essência da paciência brasileira. Essa frase-pérola não sugere resignação nem indiferença, mas sim a decisão estratégica de não influenciar situações que outros devem resolver. A frase "vou pagar para ver" também reflete essa passividade calculada.
Minha mulher piauiense adotou essa estratégia meio zen quando nos conhecemos, para ver se este americano impaciente tinha algo mais a oferecer. Com o tempo, ela viu que eu poderia me abrasileirar. Hoje, não me importo quando amigos chegam tarde a um encontro porque levo uma revista. Mas o passo decisivo aconteceu quando emprestei a meu vizinho meus quatro CDs de jazz favoritos e esperei três meses para tê-los de volta, sem fazer qualquer cobrança.
Por quê? Eu não queria prejudicar a amizade que poderia se desenvolver entre nós. De um modo bem brasileiro, ele me lembrava, com frases vagas, de que não havia esquecido o empréstimo. A primeira foi: "Puxa, seus CDs! Vou devolver já, já" -prazo que ele prorrogou com frases como "deixa comigo" e "um dia desses". Após 60 "dias desses", seus dribles ficaram mais criativos. Alguns, como "quando vai devolver meus CDs?", abreviado para "e os CDs?", eram tão inesperados que me roubavam a réplica.
Quando me mudei para cá, 25 anos atrás, os tais dribles teriam esgotado minha paciência. Uma noite, nessa época, um escritor carioca deu a mim e a mais três pessoas uma carona até um filme, seguido de uma palestra sua. Mas, depois da palestra, ele passou uma hora falando com outros cinéfilos enquanto esperávamos no carro.
Quando ele se envolve num bate-papo, entra em um transe que faz o resto do mundo desaparecer. Tanto que as filas em suas noites de autógrafos são tão lentas que dá para ler sua nova obra antes de ele assinar.
Mas eu não sabia disso 25 anos atrás. Então, quando ele voltou para o carro, pedi que me levasse para casa a caminho do apartamento dele, aonde todos iam. Depois descobri que passaram a noite em volta de um piano, cantando músicas de Cole Porter, meu compositor popular favorito.
O que fica dessa história -que a paciência tem suas recompensas- tornou-se claro para mim só recentemente. Três meses depois de meu vizinho pegar os CDs emprestados, ele os devolveu, com gravações de quatro de seus CDs de jazz.
"Mil desculpas", ele disse. "Esqueça", disse eu, arriando seus CDs na mesa como se fossem quatro ases. Ele também me deu a idéia de fazer esta e outras crônicas. Essa história não me ensinou a emprestar a ele algo se ele prometer devolver no dia seguinte. Não em um país em que "amanhã" pode querer dizer "mês que vem" ou "no dia de são Nunca". Ela me ensinou que, se der a si mesmo uma chance de conhecer alguém, seus pequenos deslizes podem parecer pífios. Por ter decidido deixar como está para ver como é que fica, ficou uma amizade.

MICHAEL KEPP , jornalista norte-americano radicado há 25 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas "Sonhando com Sotaque - Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro"