outubro 11, 2008
CARTOLA - 100 anos
Basta de clamares inocência interpretada pelo Ney Matogrosso.
Considerado o maior sambista da história, Angenor de Oliveira nasceu no Rio e hoje faria 100 anos. Ainda criança mudou-se para o morro da Mangueira. Lá conheceu Carlos Cachaça e outros bambas, se iniciando no mundo da malandragem e do samba. Trabalhou como pedreiro e usava um chapéu-coco para proteger os cabelos do cimento, daí o apelido de Cartola.
É um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira e foi Cartola que escolheu o nome da escola, suas cores verde-rosa e compôs também o primeiro samba "Chega de Demanda". Seus sambas se popularizaram nos anos 30 em vozes ilustres como Francisco Alves, Mário Reis, Silvio Caldas e Carmen Miranda. Mas foi somente em 1974 que gravou o primeiro de seus quatro discos solo e sua carreira tomou novo impulso. É autor de "As Rosas Não Falam", "O Mundo É um Moinho", "Acontece", "O Sol Nascerá" (com Elton Medeiros), "Quem Me Vê Sorrindo" (com Carlos Cachaça), "Cordas de Aço" e "Alegria". Faleceu em 1980.
UMA BÓIA EM PLENA TEMPESTADE
"ENQUANTO AS BOLSAS de Valores derretiam em praticamente todos os países, algumas pessoas, brasileiros sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindos do interior, como dizia a música de Belchior, se perguntavam: o que temos a ver com isso?Tudo, lamento responder. Os bucaneiros das finanças perderam trilhões em conjunto, por sua irresponsabilidade, liberdade irrestrita e loucura típica destes tempos. Mas a conta não ficará apenas com governos e instituições multilaterais.
O dinheiro evaporou e não há abundância de crédito para comprar eletrodomésticos, automóveis e imóveis. O real está se desvalorizando e os preços tendem a subir muito.
A receita usada, nos últimos anos, para combater qualquer fumaça inflacionária é o hidrante dos juros elevados, que inibem o crescimento econômico, a geração de empregos e a recuperação dos salários.
Portanto, a menos que aconteçam alguns milagres combinados, daqui para frente, haverá menos crescimento, mais desemprego, menos renda, mais carestia.
O que você pode fazer, então? Bem, no caso da redução do crescimento econômico, quase nada. Em relação a reajustes, não compre produtos e serviços a preços abusivos, a menos que sejam indispensáveis.
A escassez de financiamento, inclusive do Crédito Direto ao Consumidor, impõe um controle rígido das finanças.
Dever no cartão de crédito, no cheque especial ou no crediário é uma insanidade que pode custar o equilíbrio de suas finanças. Se já tiver contraído dívidas desse tipo, corte os gastos, economize, aperte os cintos e negocie condições mais adequadas para pagar o que deve.
Postergue gastos adiáveis para a bonança que costuma suceder as tempestades. Antes que pergunte, não sei se as coisas melhorarão na semana, no mês ou no ano que vem.
Não se desespere, porque precisamos de toda a disposição para trabalhar e vencer a parcela individual de cada crise, aquela que nos cabe. Invista em programas familiares, em lazer que privilegie o convívio entre amigos, em lugar de torrar dinheiro que poderá fazer falta amanhã.
Se for um comprador impulsivo, deixe o cartão de crédito em casa, exceto para compras programadas. Caminhe mais, reduzindo os gastos com o carro, o que também fará bem para sua saúde.
Caso ainda tenha algum dinheiro para investir, seja conservador, até que o cenário fique mais claro. Em um período do ano em que se somam Dia da Criança, Natal, Ano Novo e férias, faça as contas antes de cada gasto mais expressivo.
Não se esqueça de que, após as festas, matrículas, material escolar, IPTU e IPVA estarão esperando por você, não importa o tamanho da crise. Comparar preços, programar compras, cortar gastos e poupar são as suas armas contra a crise que ganhamos de presente de especuladores do Primeiro Mundo."
MARIA INÊS DOLCI
http://mariainesdolci.folha.blog.uol.com.br
A tanga e a sunga
Agora pela manhã, me deparo na FSP com a deliciosa crônica do Ruy Castro falando do frisson que causou a tanga do Gabeira, ainda que para isto tenha se valido da comparação com aquele que preferia cheiro de cavalo ao de gente e que saiu para a história, literalmente, pela porta dos fundos.
"A tanga e a sunga
RIO DE JANEIRO - Em 1979, já presidente da República, o general João Figueiredo deixou-se fotografar de sunga e busto nu na Granja do Torto, exibindo um vigor físico invejável para um homem de 61 anos. E mais ainda por estar de tênis e meias, o que parecia realçar seus tendões, músculos e veias.
A foto era assustadora, não apenas por mostrar um presidente em trajes tão exíguos, mas por Figueiredo ser como era, brabo e meio grosso. Montava a cavalo pela manhã, varava de moto, sozinho, as ruas de Brasília durante a madrugada, e ameaçava prender e arrebentar quem se opusesse à abertura política que ele prometera.
Apesar disso, nunca ouvi nenhuma mulher suspirar ao vê-lo de sunga na tal foto. Ao contrário, havia algo de cafona e démodé naquela macheza explícita, pelo que diziam. Menos de um ano depois, em 1980, outra personalidade política brasileira -o ex-jornalista Fernando Gabeira, 39 anos, recém-chegado de quase dez anos de exílio- também se deixava fotografar, na praia de Ipanema, num traje sumário. Na verdade, mais sumário ainda: a tanga de sua prima Leda Nagle.
Em matéria de apuro físico, Gabeira não era páreo para o sarado Figueiredo. Magro por natureza, o exílio só enfatizara sua compleição frágil, quase esquelética, que aquele ridículo cache-sex expunha ao sol. Com tudo isso, as mulheres caíram em cima -Gabeira era um sucesso com elas, como sempre fora.
Na segunda-feira última, dia seguinte ao primeiro turno da eleição para a Prefeitura do Rio, Gabeira deixou-se fotografar de novo em trajes de banho, agora de sunga. Jornais e TVs despejaram ironias. Os adversários riram de orelha a orelha e analistas viram naquilo um golpe mortal em suas aspirações para o segundo turno. Dois dias depois, em nova pesquisa, Gabeira ultrapassou o favorito Eduardo Paes."
RUY CASTRO
outubro 10, 2008
Jacques Brel - Ne Me Quitte Pas
Antes de ontem (dia 08), fez 30 anos de sua morte. Fui lembrada pelo meu amigo Antonio, mas tive um dia atípico. Hoje reparo a omissão...
Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le coeur du bonheur
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feu
D'un ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le coeur du bonheur
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feu
D'un ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
outubro 09, 2008
ÓCULOS DE SOL
Nos anos 50, este modelo se chamava "gatinho". O meu era verde claro. Meu pai guardava (não sei por que, no cofre) alguns dos óculos que usei quando criança. Este modelo é um dos menos ridículos. Quando lhe perguntei o por que daqueles modelos, me respondeu, rindo, que era eu quem escolhia. Então tá! O que me fez lembrar de óculos hoje foi a visão dos que usava uma jovem com quem cruzei pela manhã.
Quem me conhece sabe que uso óculos desde quando ainda usava apenas “duas peças”: a calcinha e eles (esta foi a metáfora que um amigo usou para dizer o quanto fazia tempo que me conhecia). Voltando à minha deficiência visual, a fotofobia, que é decorrência da hipermetropia, causa enorme desconforto. Não sei se é assim com todo mundo.
Não faz muito tempo, estas coisas não eram levadas em conta.Acho que nem se sabia o que era fotofobia. Vejo-me em fotos de criança usando a mão em concha sobre os olhos como proteção. Os muros eram todos brancos onde só havia sol o ano inteiro!
Até hoje me sinto desconfortável com excesso de luminosidade, o que faz com que não largue esquecido, por aí, os óculos escuros. Tempos atrás não se usava filtro solar e usar óculos de sol é como usar filtro solar.
Da mesma forma que para o filtro solar, não se deve escolher óculos de sol pelo preço. Nem se deve considerar o que for mais bonito. Tem que ser o melhor, não importando a cor da lente. O importante é que quebrem o sol e protejam a retina dos raios ultravioletas. A luminosidade e o calor dos trópicos exigem esse cuidado especial.
É só andar pela rua com um pouco mais de atenção para perceber a variedade de modelos e cores que desfilam nos rostos das pessoas, como se fizessem parte da indumentária. A maioria esquece (ou desconhece) que a função deles é proteger os olhos. A jovem que vi pela manhã usava uns óculos que, apesar de não serem pequenos, mal cabiam o nome da grife. A falsificação era evidente e temerária. Por este critério de moda, beleza e preço baixo, o risco de lesão na retina é alto. Quem usa óculos cujas lentes têm ondulações que não permitem o grau zero em toda a sua superfície, que não tem proteção contra raios ultravioletas, permitindo que o calor queime gradativamente a retina é forte candidato a, no futuro, sofrer de catarata.
Antes de comprar óculos de sol, num clima como o nosso, é necessário certificar-se que tem boa procedência, que suas lentes tem proteção contra os raios ultravioletas e são totalmente planas.
De uns tempos para cá, adotei as lentes transitions que se encarregam de "dosar" a proteção de que preciso, em cada ambiente.
Considero um luxo!
FAÇO VOTOS
"Faço votos para que os eleitores deste Rio de Janeiro tão lindo e tão maltratado percebam, neste segundo turno, que promessas e intenções declaradas em campanha só têm credibilidade quando respaldadas por uma história de vida. Qualquer um pode dizer "eu sou". Muito poucos podem dizer "eu fui". Da mesma forma o "eu vou fazer" diz muito menos do que o "eu fiz".
Faço votos para que os eleitores atentem para o fato inédito de um dos candidatos ter condicionado sua candidatura a uma carta branca que lhe permitisse escolher seus auxiliares - se eleito - por um critério de competência e não por indicações políticas dos partidos que o apoiaram. Tem sido assim, não é? E como resultado constatamos ser a incompetência ainda mais danosa que a corrupção, concorrendo ainda para que esta ocorra. Acreditem! Os prejuízos por ela causados são incalculáveis e seus efeitos perversos atravessam décadas.
Faço votos para que estudem com atenção as propostas deste candidato. Nelas não se faz presente o impossível nem as promessas vãs. Como exemplo: todos nós, é claro, ansiamos por segurança. Mas é possível garanti-la na esfera municipal? Claro que não. No entanto é possível a atuação da Prefeitura numa ação de inteligência que municie com informações valiosas àquelas esferas que têm por dever nossa proteção, possibilitando a adoção de medidas que não sejam meramente pontuais e conjunturais. Isto é prometer o possível. A recondução do Rio ao papel de capital cultural é mais que possível. Ações coordenadas nas áreas de educação, saúde, saneamento e infra-estrutura também são e se conduzidas com competência e pé no chão também terão impacto na área de segurança.
Faço votos para que observem neste candidato a ausência do ódio, do revanchismo, do vociferar, da postura histriônica quando em frente às câmeras e a presença da intervenção firme, corajosa e respeitosa com que sempre ocupou a tribuna ou participou de comissões parlamentares. Nunca jogou para platéia. Jogava para o Brasil. Como sempre o fez, desde muito jovem.
Faço votos para que pessoas como eu - velhas ou terceira idade se preferem - não se abstenham de votar. A Lei não nos obriga, é fato. Mas a gente deveria se obrigar, não é? Pode ser que não se veja pessoalmente o resultado, mas os filhos e netos verão. Não é assim construído o futuro? Conhecemos, ao contrário dos jovens, uma época em que existiam políticos mais sérios. Não eram exceções como este de quem vos falo. E, por que sabemos das coisas podemos dar o exemplo.
Vamos lá. Ainda é tempo.
Faço votos para que os eleitores não acreditem em milagres. Na esfera administrativa eles não existem. Os resultados quando existem são construídos pela competência, pela cultura, pela ética, pelo trabalho, pela união de esforços, pela disseminação do conhecimento, pela compaixão não piegas por este povo tão sofrido.
E se meus votos forem ouvidos teremos orgulhosamente Fernando Gabeira como Prefeito desta cidade maravilhosa que mais que merece melhores dias, não apenas por ser linda e mundialmente conhecida, mas por ser a nossa casa. E casa da gente é muito importante para que dela façamos uma entrega sem pensar."
Anna Maria Ribeiro, 78, é Analista de Sitemas
Faço votos para que os eleitores atentem para o fato inédito de um dos candidatos ter condicionado sua candidatura a uma carta branca que lhe permitisse escolher seus auxiliares - se eleito - por um critério de competência e não por indicações políticas dos partidos que o apoiaram. Tem sido assim, não é? E como resultado constatamos ser a incompetência ainda mais danosa que a corrupção, concorrendo ainda para que esta ocorra. Acreditem! Os prejuízos por ela causados são incalculáveis e seus efeitos perversos atravessam décadas.
Faço votos para que estudem com atenção as propostas deste candidato. Nelas não se faz presente o impossível nem as promessas vãs. Como exemplo: todos nós, é claro, ansiamos por segurança. Mas é possível garanti-la na esfera municipal? Claro que não. No entanto é possível a atuação da Prefeitura numa ação de inteligência que municie com informações valiosas àquelas esferas que têm por dever nossa proteção, possibilitando a adoção de medidas que não sejam meramente pontuais e conjunturais. Isto é prometer o possível. A recondução do Rio ao papel de capital cultural é mais que possível. Ações coordenadas nas áreas de educação, saúde, saneamento e infra-estrutura também são e se conduzidas com competência e pé no chão também terão impacto na área de segurança.
Faço votos para que observem neste candidato a ausência do ódio, do revanchismo, do vociferar, da postura histriônica quando em frente às câmeras e a presença da intervenção firme, corajosa e respeitosa com que sempre ocupou a tribuna ou participou de comissões parlamentares. Nunca jogou para platéia. Jogava para o Brasil. Como sempre o fez, desde muito jovem.
Faço votos para que pessoas como eu - velhas ou terceira idade se preferem - não se abstenham de votar. A Lei não nos obriga, é fato. Mas a gente deveria se obrigar, não é? Pode ser que não se veja pessoalmente o resultado, mas os filhos e netos verão. Não é assim construído o futuro? Conhecemos, ao contrário dos jovens, uma época em que existiam políticos mais sérios. Não eram exceções como este de quem vos falo. E, por que sabemos das coisas podemos dar o exemplo.
Vamos lá. Ainda é tempo.
Faço votos para que os eleitores não acreditem em milagres. Na esfera administrativa eles não existem. Os resultados quando existem são construídos pela competência, pela cultura, pela ética, pelo trabalho, pela união de esforços, pela disseminação do conhecimento, pela compaixão não piegas por este povo tão sofrido.
E se meus votos forem ouvidos teremos orgulhosamente Fernando Gabeira como Prefeito desta cidade maravilhosa que mais que merece melhores dias, não apenas por ser linda e mundialmente conhecida, mas por ser a nossa casa. E casa da gente é muito importante para que dela façamos uma entrega sem pensar."
Anna Maria Ribeiro, 78, é Analista de Sitemas
outubro 07, 2008
Múltipla Maricotinha
Premiada aos 43 anos de carreira, a cantora compara seu ofício à dramaturgia, diz que trabalha té dormindo e confessa:No presépio de Maria Bethânia, além do Menino Jesus, de Maria, de José, da vaca e do burro, os três Reis Magos são as figuras de Dorival Caymmi, Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, cada um com sua coroinha. É inútil especular sobre os significados desses três reis. O maior cancionista, o maior prosador e o maior poeta? É isso, mas não é nada disso. O mar e a "simplicidade sofisticada" para Caymmi, o Brasil profundo e o rigor construtivo para Guimarães e a perturbação e a multiplicidade para Pessoa? Também é isso, mas também não é. Não sei o quê. Mas Bethânia é presépio com tudo no lugar e é presépio com tudo fora do lugar. Um presépio inusitado e sereno. Complexa, brasileira, rigorosa, religiosa, sagaz, articulada e simples. E foi a essa multiplicidade que ela se referiu quando recebeu, aos 62 anos, no último dia 9, o primeiro prêmio Shell dedicado a um intérprete e não a um compositor, falando o poema de um dos seus três Reis Magos, Fernando Pessoa: "Sim, sei bem que nunca serei alguém; sei, de sobra, que nunca terei uma obra".Sua resposta imediata à minha pergunta sobre o sentido do poema ao receber o prêmio é pelo fato de ela não considerar a sua, como a de Caetano ou a de Chico, uma obra. Sabe que seu estilo de interpretação é, ao mesmo tempo, composição e, segundo ela, até dramaturgia: é Bethânia que escolhe as canções, o tema, os textos, as imagens, a presença no palco. Isso também é compor. Mas não chega a pensar que essa composição atinja o alcance de uma assinatura completa. Diz que, na verdade, tem "alguma" assinatura e que uma intérprete jamais pode receber um prêmio sozinha. É comum os premiados atribuírem o prêmio a uma equipe, mas, em muitos casos, é só demagogia. No caso de Bethânia, não. "Uma cantora precisa de", ela diz. Mas, pergunto, será que alguém tem uma obra? Ter uma obra não é ter algo acabado? Ela concorda. Diz que é isso mesmo e que ninguém tem uma obra.
Bethânia não é, está sendo e uma obra já foi. Nesse sentido, é o durante o que mais importa. Quando menciono a ela uma das frases de outro dos reis, Guimarães Rosa, que ela leu em um de seus CDs, "felicidade se acha é em horinhas de descuido", então ela diz que essa é mesmo a idéia do durante.
"A gente tem uma espécie de policial dentro de si, sempre controlando tudo. É muito raro conseguir se distrair. Eu consigo isso no palco e, de vez em quando, na vida. Parece que as pessoas perderam a noção do tempo."
O palco é a horinha de descuido de Bethânia, mesmo que nele tudo seja exatamente cultivado. "Não consigo simplesmente chegar da rua e subir no palco. Não me lembro de um único show, em 43 anos de carreira, em que eu não tenha passado algumas horas no palco antes de me apresentar. Preciso adquirir uma intimidade com ele; é um lugar que se entrega a mim e ao qual eu me entrego." De resto, a distração é difícil. Ela diz que vive sua vida toda totalmente entregue ao trabalho. "Até dormindo, tudo é trabalho. Preciso de milhares de anos de análise para conseguir passar um minuto sem trabalhar. Sou muito exigente e, mesmo assim, gosto das coisas frescas. Preciso do risco e do desafio. Senão as coisas ficam naquele corpo meio mole."
Seu olhar tem paz e inquietude. "Tenho uma inquietação parecida com a de Fernando Pessoa. No palco sou uma, na vida sou outra. Quando fazia o espetáculo com Chico Buarque, ficávamos os dois quietos, sentadinhos no camarim. Na hora do show, entrávamos os dois no palco, e Chico dizia: eu sou o mesmo e ela é outra."
FEITICEIRA
Toda de branco, com colares sob e sobre a blusa, Bethânia também é múltipla na manifestação simultânea de inteligência e religiosidade. Pergunto se ela tem fé ou religiosidade. Ela me diz que ambos. "Mãe Menininha ensinou minha religião com tanta fé, respeito, amor, alegria e reverência que, mesmo não existindo as noções opressivas de culpa, pecado, perdão e medo no candomblé, eu faço questão, por respeito a ela, de seguir alguns preceitos e de não fazer algumas coisas, embora não haja interdições."
Por exemplo: a cineasta Tizuka Yamazaki a convidou para fazer o papel de uma das últimas pajés mulheres no Brasil, cuja imagem mais velha seria representada pela atriz Laura Cardoso. "Já pensou que incrível! Adoraria fazer, mas não posso, por questões religiosas. Teria que pintar o corpo em alguns lugares, de algumas cores, e fica complicado. É uma pena."
Digo que Bethânia já foi chamada de feiticeira (ou bruxa) por Caetano Veloso e pelo escritor gaúcho Caio Fernando Abreu e também de um misto de chefe indígena com Cleópatra. Pergunto por que sua figura é tão enigmática. Seriam ela e Caetano opostos complementares? Caetano também é inteligente e articulado, mas não se pode dizer que seja "enigmático". Por quê? "Talvez porque Caetano se exponha mais. Eu me exponho e me entrego completamente no palco, onde não sou nem dramática, sou mesmo trágica, mas fora dele eu gosto de ficar quieta, em casa. Faço entalhe em madeira, faço jóias, preciso do trabalho em off. Meus amigos são os mesmos de sempre. Nélida Piñon, Lya Luft, os amigos de colégio. Sou uma caipira simples. Caetano é cosmopolita. Somos gêmeos de barrigas diferentes. Faço tudo na vida para poder chegar a Santo Amaro." Então o rio de sua aldeia é muito mais bonito do que o Tejo? "Muito mais bonito. Assim como outros rios que já estão mortos."
Aproveitando essa conversa de aldeia e cosmopolitismo, pergunto sobre a separação que uma parte da intelectualidade brasileira ainda insiste em manter entre a "alta" e a "baixa" cultura. "Não quero nem saber dessa diferença. Canto sim Villa-Lobos e não preciso cantar com as notas absolutamente límpidas e certas, bem colocadas. Preciso cantar com coração e brasilidade. Por que não dão ao povo brasileiro o direito de ouvir Bach, Beethoven, meu compositor predileto, e Villa-Lobos?"
Digo que o contrário também é verdadeiro. Não só o povo não ouve Bach, como muitos habitués de Bach também não aceitam o popular. "Muitos acadêmicos aceitam os 'pobrinhos', o primitivo, o folclórico, o ingênuo, mas não o popular. Quando gravei Roberto Carlos, o mundo quase caiu em cima de mim." Ela continua: "O Brasil precisa perceber que somos mesmo pobres, que choramos quando vemos uma coisa bonita, que temos nossa alegria única. Precisamos parar de construir essa falsa imagem do Brasil, de que somos ricos, de que nossos problemas estão se resolvendo, de que somos iguais aos países desenvolvidos. Eu amo o brasileiro que, como um acreano que conheci, me escreveu um bilhete pedindo para eu salvar a floresta, ou uma professora de Cidade de Deus, que fez seus alunos criarem um trabalho incrível todo sobre 'Brasileirinho' e os meninos foram se apresentar na Academia Brasileira de Letras, durante o 'chá'. Nunca chorei tanto".
PODRES PODERES
Ainda sobre Roberto Carlos, Bethânia diz que não consegue pensar nele sem Erasmo. "Erasmo é para Roberto o que o [diretor musical] Jaime Alem é para mim. Eu preciso de uma pessoa que tenha sensibilidade para entender o que eu quero, porque eu não sei música, mas sei o que quero. Peço alguma coisa ao Alem, ele faz e, se não está como eu queria, eu digo: Jaime, não é assim. Ele vai lá e faz exatamente como eu pensava. Erasmo é isso."
Lembro que, num dos DVDs sobre sua carreira, ela diz que queria ser trapezista. "Sim, quando era criança eu amava o circo. Olhava aquelas meninas com aquelas roupas, subindo lá no alto e dançando, e pensava: é isso o que eu quero ser. Mas é isso mesmo o que eu sou. É isso o que é estar no palco." O risco não a atemoriza, mas a desafia, embora ela saiba que os artistas não podem mudar o mundo. Mas usa o palco para dizer o que pensa. "O mundo está todo equivocado. Os mandarins estão todos enganados. Não conheço uma única pessoa que esteja no poder e no caminho certo. Tudo é só dinheiro. Parece que as pessoas estão com uma venda, ou uma viseira. As pessoas em quem eu confio não querem o poder."
Ela olha para baixo, diz: "Não sei. Não sei". Acho que Bethânia sabe, sim. E sabe o que não sabe, que é até mais e melhor do que saber. Não falamos sobre Manuel Bandeira, mas saio desse encontro e penso nele, escrevendo que quando a morte vier encontrará "lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta, cada coisa em seu lugar". O instante, que é quando as coisas acontecem, já passou. Não tem importância. Outra poeta, Sophia de Mello Breyner Andresen, a quem a cantora dedicou um disco, sintetiza o que reconheci em Bethânia, no poema "Instante": "Deixai-me limpo/ O ar dos quartos/ E liso/ O branco das paredes/ Deixai-me com as coisas/ Fundadas no silêncio."
Da Revista SERAFINA
por NOEMI JAFFE
outubro 06, 2008
TORRE DOS CLÉRIGOS
Torre dos Clérigos é a torre mais alta de Portugal, com 75,60 metros de altura.Sua construção teve início em 1754 e foi concluída em 1763. É considerado o monumento ex-libris da cidade do Porto e o mais representativo do barroco portuense. Constituída por 6 andares, o destaque vai para o 3º andar, onde há 4 sineiras e o carrilhão do concerto que utiliza 49 sinos. A designação “dos clérigos” deve-se ao fato de ter sido construída de 1731 a 1749 para sede de uma irmandade que tinha como objetivo a ajuda espiritual e material aos clérigos pobres. Nicolau Nasoni, pintor-decorador toscano, projetou e acompanhou as obras, gratuitamente, ao longo de, pelo menos, trinta anos. Foi seu último trabalho e sua obra prima. Nasoni foi o responsável pela decoração faustosa e pelo granito duro do norte que caracterizam suas paredes.
HANS SILVESTER
Esta é uma pequena amostra do trabalho de Hans Silvester que fotografou durante 6 anos, homens, mulheres crianças e velhos que são genios na arte ancestral de pintar os corpos. Eles se pintam somente pelo desejo de se enfeitar, de se sentirem bonitos e sedutores. E conseguem. São tribos que vivem no triângulo Etiópia-Sudão-Kenia, num vale próoximo a uma região vulcânica que fornece uma variada gama de pigmentos, que vão do ocre, vermelho,kaolim, branco ao verde, amarelo luminoso e ao gris das cinzas. Seus corpos de 2 mt de altura são imensas telas. Fazem suas pinturas usando apenas as mãos e os dedos para, com velocidade e total liberdade, em gestos rápidos e espontâneos, que, praticados desde a infância, produzirem esta beleza.
O GOSTO DO PÓ
"NÃO TENHO VOCAÇÃO para idealizar as coisas. Idealizar é pensar que o mundo é melhor do que parece. A idealização aumenta o já inevitável risco de fracassar na vida. Reconheço, caro leitor, que a incapacidade de idealizar pode se transformar numa doença mortal. O ceticismo, o cinismo, o niilismo, a melancolia, são formas possíveis dessa doença.
Muitos acreditam que sem utopias ou ideais a vida perde o sentido. Talvez tenham razão. Acho que não. Eu, desprovido de qualquer órgão para idealização, prefiro sempre a realidade à fantasia. Nunca tive qualquer esperança metafísica. Não acho que minha vida seja necessariamente melhor por isso. Uma das banalidades da sociedade moderna é confundir conhecimento com felicidade e sucesso. "A vida para a felicidade" é irmã gêmea da mediocridade.
Mas a mediocridade pode ser uma forma de sobreviver. Muitas vezes, não há muito mais do que isso como opção no cotidiano. Não acho que o conhecimento salve ninguém, mas ele nos ensina outras formas de olhar o mundo. Nós pensamos enquanto as aranhas tecem suas teias.
Habitamos em dois mundos: o externo e o interno. Do lado de fora, a ameaça vem do fato de sermos parte insignificante da cadeia alimentar. Portadores de um órgão que pensa e vê a beleza, sabemos que este órgão, gelatina cinzenta, é também alimento de muitos outros animais. Sejam eles gloriosos leões, sejam eles miseráveis vermes. Esse "excesso" de conhecimento é a ameaça que nos atormenta no mundo interno. Combatemos em duas frentes.
Na primeira, combatemos a violência do meio ambiente, onde animais devoram uns aos outros. Na segunda, combatemos a violência da alma, onde o medo se torna nosso irmão gêmeo. Esse "excesso" de conhecimento nos faz carregar nas costas, há infinitos milênios, a imagem de nosso próprio cadáver no espelho. À noite, quando dormimos, os fantasmas dessa alma, que sabe mais do que deve, nos visita.
Às vezes, na insônia, como diria Elias Canetti, ouvimos os ruídos do corpo e sentimos a fragilidade da vida que nos escapa. Certa feita, o escritor israelense Amóz Oz me disse, numa entrevista para a Folha, que tem o hábito de caminhar pelo deserto todas as manhãs. Esse hábito o ajuda a compreender melhor a condição humana.
Por quê? Amóz Oz tem em mente a antiga tradição religiosa de caminhar pelo deserto a fim de percebermos do que somos feitos: pó e cinzas. Grandes descobertas sobre si mesmo e sobre a vida são comuns nos relatos dessas caminhadas. Uma teologia forte nasce aí: na pobreza do pó.
Aliás, a ignorância com relação às grandes tradições religiosas é marca de um iluminismo estreito, característico da nossa formação em ciências humanas. Marx, Nietzsche e Freud, apesar de terem posto a teologia de joelhos, apresentam visões simplificadas da religião. Mesmo a literatura de auto-ajuda, esse grande engodo, bebe nesta experiência do deserto para construir suas fórmulas baratas de salvação.
Mas a consciência do deserto pode nos assaltar mesmo em meio a nossa vida cotidiana. Não é necessário irmos a Israel. O envelhecimento é um exemplo. O medo do envelhecimento mostra seus dentes todas as manhãs. Quando olho no espelho pela manhã, e vejo as marcas do tempo no rosto, sou visitado por este fantasma. Ou quando recebo o resultado infeliz de um exame de laboratório.
Hospitais e cemitérios são lugares excepcionais para fazermos filosofia. Imediatamente, é reestabelecida, em minha alma, a consciência do punhado de pó que sou. A cada doença, o pó toma o lugar do corpo. Eis a agonia interna da alma se fazendo presente.
Uma das coisas mais difíceis de se pensar quando vivemos numa cultura excessivamente medrosa como a nossa, viciada na utopia do "humano eficaz", é que outros modos de vida já foram menos covardes. Isso nada tem a ver com "voltar ao passado". Faz parte de nossa cultura o auto-engano porque tememos que a tristeza nos torne menos eficientes.
Imperativos do tipo "seja jovem" excluem grande parte da experiência cotidiana. A imensa maioria das horas se passa entre a insegurança e o medo. Se o seu pai ou a sua mãe sonha em ser "jovem" como você, a fala escondida nesse desejo é: "você meu filho, você minha filha, não tem futuro". A coragem é necessária para sermos gente grande. A "propaganda da juventude" humilha a alma que tem, em sua boca, o gosto do pó todos os dias."
LUIZ FELIPE PONDÉ na FSP
Muitos acreditam que sem utopias ou ideais a vida perde o sentido. Talvez tenham razão. Acho que não. Eu, desprovido de qualquer órgão para idealização, prefiro sempre a realidade à fantasia. Nunca tive qualquer esperança metafísica. Não acho que minha vida seja necessariamente melhor por isso. Uma das banalidades da sociedade moderna é confundir conhecimento com felicidade e sucesso. "A vida para a felicidade" é irmã gêmea da mediocridade.
Mas a mediocridade pode ser uma forma de sobreviver. Muitas vezes, não há muito mais do que isso como opção no cotidiano. Não acho que o conhecimento salve ninguém, mas ele nos ensina outras formas de olhar o mundo. Nós pensamos enquanto as aranhas tecem suas teias.
Habitamos em dois mundos: o externo e o interno. Do lado de fora, a ameaça vem do fato de sermos parte insignificante da cadeia alimentar. Portadores de um órgão que pensa e vê a beleza, sabemos que este órgão, gelatina cinzenta, é também alimento de muitos outros animais. Sejam eles gloriosos leões, sejam eles miseráveis vermes. Esse "excesso" de conhecimento é a ameaça que nos atormenta no mundo interno. Combatemos em duas frentes.
Na primeira, combatemos a violência do meio ambiente, onde animais devoram uns aos outros. Na segunda, combatemos a violência da alma, onde o medo se torna nosso irmão gêmeo. Esse "excesso" de conhecimento nos faz carregar nas costas, há infinitos milênios, a imagem de nosso próprio cadáver no espelho. À noite, quando dormimos, os fantasmas dessa alma, que sabe mais do que deve, nos visita.
Às vezes, na insônia, como diria Elias Canetti, ouvimos os ruídos do corpo e sentimos a fragilidade da vida que nos escapa. Certa feita, o escritor israelense Amóz Oz me disse, numa entrevista para a Folha, que tem o hábito de caminhar pelo deserto todas as manhãs. Esse hábito o ajuda a compreender melhor a condição humana.
Por quê? Amóz Oz tem em mente a antiga tradição religiosa de caminhar pelo deserto a fim de percebermos do que somos feitos: pó e cinzas. Grandes descobertas sobre si mesmo e sobre a vida são comuns nos relatos dessas caminhadas. Uma teologia forte nasce aí: na pobreza do pó.
Aliás, a ignorância com relação às grandes tradições religiosas é marca de um iluminismo estreito, característico da nossa formação em ciências humanas. Marx, Nietzsche e Freud, apesar de terem posto a teologia de joelhos, apresentam visões simplificadas da religião. Mesmo a literatura de auto-ajuda, esse grande engodo, bebe nesta experiência do deserto para construir suas fórmulas baratas de salvação.
Mas a consciência do deserto pode nos assaltar mesmo em meio a nossa vida cotidiana. Não é necessário irmos a Israel. O envelhecimento é um exemplo. O medo do envelhecimento mostra seus dentes todas as manhãs. Quando olho no espelho pela manhã, e vejo as marcas do tempo no rosto, sou visitado por este fantasma. Ou quando recebo o resultado infeliz de um exame de laboratório.
Hospitais e cemitérios são lugares excepcionais para fazermos filosofia. Imediatamente, é reestabelecida, em minha alma, a consciência do punhado de pó que sou. A cada doença, o pó toma o lugar do corpo. Eis a agonia interna da alma se fazendo presente.
Uma das coisas mais difíceis de se pensar quando vivemos numa cultura excessivamente medrosa como a nossa, viciada na utopia do "humano eficaz", é que outros modos de vida já foram menos covardes. Isso nada tem a ver com "voltar ao passado". Faz parte de nossa cultura o auto-engano porque tememos que a tristeza nos torne menos eficientes.
Imperativos do tipo "seja jovem" excluem grande parte da experiência cotidiana. A imensa maioria das horas se passa entre a insegurança e o medo. Se o seu pai ou a sua mãe sonha em ser "jovem" como você, a fala escondida nesse desejo é: "você meu filho, você minha filha, não tem futuro". A coragem é necessária para sermos gente grande. A "propaganda da juventude" humilha a alma que tem, em sua boca, o gosto do pó todos os dias."
LUIZ FELIPE PONDÉ na FSP
outubro 05, 2008
NADA PODE SER TUDO
O que vc tem feito? Esta não é mais pergunta que se faça sem riscos de obter respostas impensáveis.“O que peixe faz! O que é que peixe faz? ”
O NADA deixou de ser preocupação filosófica. Portanto, esqueça Sartre e o seu nada como marca da essência do ser humano, na perspectiva de uma “metafísica da negatividade”. Nada de existencialismo, segundo o nadismo, “este é um conceito fadado à extinção”.
NADA não é uma sigla, como pode parecer. Nos tempos atuais, é a filosofia de “uma organização que se opõe a exarcebação da produtividade e da eficiência que, nas últimas décadas assumiram ares de vício”. É isso mesmo!
NADA tem logo, estatuto e marca registrada. Não se espante ao se deparar com um enorme cubo branco vazio (símbolo do movimento), cercado por um bando de gente deitada, sem fazer nada. É quase certo serem os praticantes do nadismo.
Lendo sobre o tema, fiquei sabendo,(será que só eu não sabia?!), que “... “fazer nada” foi sempre a verdadeira grande meta (mesmo que não se admita) da humanidade. Se bem que, frente aos padrões nadistas, redigir um manifesto soa como um trabalho hercúleo…”
Já existe o clube com o objetivo de "criar um momento especial que oferece a oportunidade rara de efetivamente parar e não fazer coisa alguma" e, segundo o seu fundador, "as pessoas têm dentro de si um profundo desejo: Tudo o que eu quero é parar e não fazer nada. Mas todo mundo se cobra muita coisa e não consegue esse tempo.” A prática do nadismo deve se dá “sem preocupação, sem compromisso e o mais importante: sem culpa”, diz outro adepto.
Não vai demorar, até um sócio/praticante ter a idéia e, se não se constituir num esforço grande demais, transformar o nadismo em religião. Por que não? A partir daí, o “Fazer nada”, durante o horário de trabalho ou de estudo, por exemplo, não poderá ser reprovado nem reprimido, sob pena de tal atitude ser considerada perseguição ideológica ou religiosa. Por motivos óbvios, é de se prever a adesão em massa, inclusive de “ celebridades”, políticos não reeleitos e outros que já tem grande experiência nesta prática.
É esperar para ver.
O NADA deixou de ser preocupação filosófica. Portanto, esqueça Sartre e o seu nada como marca da essência do ser humano, na perspectiva de uma “metafísica da negatividade”. Nada de existencialismo, segundo o nadismo, “este é um conceito fadado à extinção”.
NADA não é uma sigla, como pode parecer. Nos tempos atuais, é a filosofia de “uma organização que se opõe a exarcebação da produtividade e da eficiência que, nas últimas décadas assumiram ares de vício”. É isso mesmo!
NADA tem logo, estatuto e marca registrada. Não se espante ao se deparar com um enorme cubo branco vazio (símbolo do movimento), cercado por um bando de gente deitada, sem fazer nada. É quase certo serem os praticantes do nadismo.
Lendo sobre o tema, fiquei sabendo,(será que só eu não sabia?!), que “... “fazer nada” foi sempre a verdadeira grande meta (mesmo que não se admita) da humanidade. Se bem que, frente aos padrões nadistas, redigir um manifesto soa como um trabalho hercúleo…”
Já existe o clube com o objetivo de "criar um momento especial que oferece a oportunidade rara de efetivamente parar e não fazer coisa alguma" e, segundo o seu fundador, "as pessoas têm dentro de si um profundo desejo: Tudo o que eu quero é parar e não fazer nada. Mas todo mundo se cobra muita coisa e não consegue esse tempo.” A prática do nadismo deve se dá “sem preocupação, sem compromisso e o mais importante: sem culpa”, diz outro adepto.
Não vai demorar, até um sócio/praticante ter a idéia e, se não se constituir num esforço grande demais, transformar o nadismo em religião. Por que não? A partir daí, o “Fazer nada”, durante o horário de trabalho ou de estudo, por exemplo, não poderá ser reprovado nem reprimido, sob pena de tal atitude ser considerada perseguição ideológica ou religiosa. Por motivos óbvios, é de se prever a adesão em massa, inclusive de “ celebridades”, políticos não reeleitos e outros que já tem grande experiência nesta prática.
É esperar para ver.
IMAGENS URBANAS
A RATP até agora não entendeu como Jam Abelanet conseguiu fazer quase 50 nus no extremamente vigiado Metro de Paris .
Segundo o fotógrafo, ele quis fazer uma homenagem a estes lugares que fazem parte do cotidiano de milhões de pessoas que passam em direção ao trabalho sem prestar a menor atenção no quanto são visualmente ricos.
As fotos feitas entre setembro de 2007 e janeiro de 2008, muito cedo da manhã ou bem tarde da noite, ilustram o livro “Fantasias Subterrâneas”.
À exceção desta em que a modelo posa entre os passageiros (um clin d’oeil bem ilustrativo da indiferença dos parisienses), as fotos são todas verdadeiras.
Segundo o fotógrafo, ele quis fazer uma homenagem a estes lugares que fazem parte do cotidiano de milhões de pessoas que passam em direção ao trabalho sem prestar a menor atenção no quanto são visualmente ricos.
As fotos feitas entre setembro de 2007 e janeiro de 2008, muito cedo da manhã ou bem tarde da noite, ilustram o livro “Fantasias Subterrâneas”.
À exceção desta em que a modelo posa entre os passageiros (um clin d’oeil bem ilustrativo da indiferença dos parisienses), as fotos são todas verdadeiras.
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