outubro 07, 2008

Múltipla Maricotinha

Premiada aos 43 anos de carreira, a cantora compara seu ofício à dramaturgia, diz que trabalha té dormindo e confessa:No presépio de Maria Bethânia, além do Menino Jesus, de Maria, de José, da vaca e do burro, os três Reis Magos são as figuras de Dorival Caymmi, Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, cada um com sua coroinha. É inútil especular sobre os significados desses três reis. O maior cancionista, o maior prosador e o maior poeta? É isso, mas não é nada disso. O mar e a "simplicidade sofisticada" para Caymmi, o Brasil profundo e o rigor construtivo para Guimarães e a perturbação e a multiplicidade para Pessoa? Também é isso, mas também não é. Não sei o quê. Mas Bethânia é presépio com tudo no lugar e é presépio com tudo fora do lugar. Um presépio inusitado e sereno. Complexa, brasileira, rigorosa, religiosa, sagaz, articulada e simples. E foi a essa multiplicidade que ela se referiu quando recebeu, aos 62 anos, no último dia 9, o primeiro prêmio Shell dedicado a um intérprete e não a um compositor, falando o poema de um dos seus três Reis Magos, Fernando Pessoa: "Sim, sei bem que nunca serei alguém; sei, de sobra, que nunca terei uma obra".
Sua resposta imediata à minha pergunta sobre o sentido do poema ao receber o prêmio é pelo fato de ela não considerar a sua, como a de Caetano ou a de Chico, uma obra. Sabe que seu estilo de interpretação é, ao mesmo tempo, composição e, segundo ela, até dramaturgia: é Bethânia que escolhe as canções, o tema, os textos, as imagens, a presença no palco. Isso também é compor. Mas não chega a pensar que essa composição atinja o alcance de uma assinatura completa. Diz que, na verdade, tem "alguma" assinatura e que uma intérprete jamais pode receber um prêmio sozinha. É comum os premiados atribuírem o prêmio a uma equipe, mas, em muitos casos, é só demagogia. No caso de Bethânia, não. "Uma cantora precisa de", ela diz. Mas, pergunto, será que alguém tem uma obra? Ter uma obra não é ter algo acabado? Ela concorda. Diz que é isso mesmo e que ninguém tem uma obra.
Bethânia não é, está sendo e uma obra já foi. Nesse sentido, é o durante o que mais importa. Quando menciono a ela uma das frases de outro dos reis, Guimarães Rosa, que ela leu em um de seus CDs, "felicidade se acha é em horinhas de descuido", então ela diz que essa é mesmo a idéia do durante.
"A gente tem uma espécie de policial dentro de si, sempre controlando tudo. É muito raro conseguir se distrair. Eu consigo isso no palco e, de vez em quando, na vida. Parece que as pessoas perderam a noção do tempo."
O palco é a horinha de descuido de Bethânia, mesmo que nele tudo seja exatamente cultivado. "Não consigo simplesmente chegar da rua e subir no palco. Não me lembro de um único show, em 43 anos de carreira, em que eu não tenha passado algumas horas no palco antes de me apresentar. Preciso adquirir uma intimidade com ele; é um lugar que se entrega a mim e ao qual eu me entrego." De resto, a distração é difícil. Ela diz que vive sua vida toda totalmente entregue ao trabalho. "Até dormindo, tudo é trabalho. Preciso de milhares de anos de análise para conseguir passar um minuto sem trabalhar. Sou muito exigente e, mesmo assim, gosto das coisas frescas. Preciso do risco e do desafio. Senão as coisas ficam naquele corpo meio mole."
Seu olhar tem paz e inquietude. "Tenho uma inquietação parecida com a de Fernando Pessoa. No palco sou uma, na vida sou outra. Quando fazia o espetáculo com Chico Buarque, ficávamos os dois quietos, sentadinhos no camarim. Na hora do show, entrávamos os dois no palco, e Chico dizia: eu sou o mesmo e ela é outra."

FEITICEIRA
Toda de branco, com colares sob e sobre a blusa, Bethânia também é múltipla na manifestação simultânea de inteligência e religiosidade. Pergunto se ela tem fé ou religiosidade. Ela me diz que ambos. "Mãe Menininha ensinou minha religião com tanta fé, respeito, amor, alegria e reverência que, mesmo não existindo as noções opressivas de culpa, pecado, perdão e medo no candomblé, eu faço questão, por respeito a ela, de seguir alguns preceitos e de não fazer algumas coisas, embora não haja interdições."
Por exemplo: a cineasta Tizuka Yamazaki a convidou para fazer o papel de uma das últimas pajés mulheres no Brasil, cuja imagem mais velha seria representada pela atriz Laura Cardoso. "Já pensou que incrível! Adoraria fazer, mas não posso, por questões religiosas. Teria que pintar o corpo em alguns lugares, de algumas cores, e fica complicado. É uma pena."
Digo que Bethânia já foi chamada de feiticeira (ou bruxa) por Caetano Veloso e pelo escritor gaúcho Caio Fernando Abreu e também de um misto de chefe indígena com Cleópatra. Pergunto por que sua figura é tão enigmática. Seriam ela e Caetano opostos complementares? Caetano também é inteligente e articulado, mas não se pode dizer que seja "enigmático". Por quê? "Talvez porque Caetano se exponha mais. Eu me exponho e me entrego completamente no palco, onde não sou nem dramática, sou mesmo trágica, mas fora dele eu gosto de ficar quieta, em casa. Faço entalhe em madeira, faço jóias, preciso do trabalho em off. Meus amigos são os mesmos de sempre. Nélida Piñon, Lya Luft, os amigos de colégio. Sou uma caipira simples. Caetano é cosmopolita. Somos gêmeos de barrigas diferentes. Faço tudo na vida para poder chegar a Santo Amaro." Então o rio de sua aldeia é muito mais bonito do que o Tejo? "Muito mais bonito. Assim como outros rios que já estão mortos."
Aproveitando essa conversa de aldeia e cosmopolitismo, pergunto sobre a separação que uma parte da intelectualidade brasileira ainda insiste em manter entre a "alta" e a "baixa" cultura. "Não quero nem saber dessa diferença. Canto sim Villa-Lobos e não preciso cantar com as notas absolutamente límpidas e certas, bem colocadas. Preciso cantar com coração e brasilidade. Por que não dão ao povo brasileiro o direito de ouvir Bach, Beethoven, meu compositor predileto, e Villa-Lobos?"
Digo que o contrário também é verdadeiro. Não só o povo não ouve Bach, como muitos habitués de Bach também não aceitam o popular. "Muitos acadêmicos aceitam os 'pobrinhos', o primitivo, o folclórico, o ingênuo, mas não o popular. Quando gravei Roberto Carlos, o mundo quase caiu em cima de mim." Ela continua: "O Brasil precisa perceber que somos mesmo pobres, que choramos quando vemos uma coisa bonita, que temos nossa alegria única. Precisamos parar de construir essa falsa imagem do Brasil, de que somos ricos, de que nossos problemas estão se resolvendo, de que somos iguais aos países desenvolvidos. Eu amo o brasileiro que, como um acreano que conheci, me escreveu um bilhete pedindo para eu salvar a floresta, ou uma professora de Cidade de Deus, que fez seus alunos criarem um trabalho incrível todo sobre 'Brasileirinho' e os meninos foram se apresentar na Academia Brasileira de Letras, durante o 'chá'. Nunca chorei tanto".

PODRES PODERES
Ainda sobre Roberto Carlos, Bethânia diz que não consegue pensar nele sem Erasmo. "Erasmo é para Roberto o que o [diretor musical] Jaime Alem é para mim. Eu preciso de uma pessoa que tenha sensibilidade para entender o que eu quero, porque eu não sei música, mas sei o que quero. Peço alguma coisa ao Alem, ele faz e, se não está como eu queria, eu digo: Jaime, não é assim. Ele vai lá e faz exatamente como eu pensava. Erasmo é isso."
Lembro que, num dos DVDs sobre sua carreira, ela diz que queria ser trapezista. "Sim, quando era criança eu amava o circo. Olhava aquelas meninas com aquelas roupas, subindo lá no alto e dançando, e pensava: é isso o que eu quero ser. Mas é isso mesmo o que eu sou. É isso o que é estar no palco." O risco não a atemoriza, mas a desafia, embora ela saiba que os artistas não podem mudar o mundo. Mas usa o palco para dizer o que pensa. "O mundo está todo equivocado. Os mandarins estão todos enganados. Não conheço uma única pessoa que esteja no poder e no caminho certo. Tudo é só dinheiro. Parece que as pessoas estão com uma venda, ou uma viseira. As pessoas em quem eu confio não querem o poder."
Ela olha para baixo, diz: "Não sei. Não sei". Acho que Bethânia sabe, sim. E sabe o que não sabe, que é até mais e melhor do que saber. Não falamos sobre Manuel Bandeira, mas saio desse encontro e penso nele, escrevendo que quando a morte vier encontrará "lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta, cada coisa em seu lugar". O instante, que é quando as coisas acontecem, já passou. Não tem importância. Outra poeta, Sophia de Mello Breyner Andresen, a quem a cantora dedicou um disco, sintetiza o que reconheci em Bethânia, no poema "Instante": "Deixai-me limpo/ O ar dos quartos/ E liso/ O branco das paredes/ Deixai-me com as coisas/ Fundadas no silêncio."
Da Revista SERAFINA
por NOEMI JAFFE

outubro 06, 2008

TORRE DOS CLÉRIGOS

Torre dos Clérigos é a torre mais alta de Portugal, com 75,60 metros de altura.Sua construção teve início em 1754 e foi concluída em 1763. É considerado o monumento ex-libris da cidade do Porto e o mais representativo do barroco portuense. Constituída por 6 andares, o destaque vai para o 3º andar, onde há 4 sineiras e o carrilhão do concerto que utiliza 49 sinos. A designação “dos clérigos” deve-se ao fato de ter sido construída de 1731 a 1749 para sede de uma irmandade que tinha como objetivo a ajuda espiritual e material aos clérigos pobres. Nicolau Nasoni, pintor-decorador toscano, projetou e acompanhou as obras, gratuitamente, ao longo de, pelo menos, trinta anos. Foi seu último trabalho e sua obra prima. Nasoni foi o responsável pela decoração faustosa e pelo granito duro do norte que caracterizam suas paredes.

HANS SILVESTER



Esta é uma pequena amostra do trabalho de Hans Silvester que fotografou durante 6 anos, homens, mulheres crianças e velhos que são genios na arte ancestral de pintar os corpos. Eles se pintam somente pelo desejo de se enfeitar, de se sentirem bonitos e sedutores. E conseguem. São tribos que vivem no triângulo Etiópia-Sudão-Kenia, num vale próoximo a uma região vulcânica que fornece uma variada gama de pigmentos, que vão do ocre, vermelho,kaolim, branco ao verde, amarelo luminoso e ao gris das cinzas. Seus corpos de 2 mt de altura são imensas telas. Fazem suas pinturas usando apenas as mãos e os dedos para, com velocidade e total liberdade, em gestos rápidos e espontâneos, que, praticados desde a infância, produzirem esta beleza.

O GOSTO DO PÓ

"NÃO TENHO VOCAÇÃO para idealizar as coisas. Idealizar é pensar que o mundo é melhor do que parece. A idealização aumenta o já inevitável risco de fracassar na vida. Reconheço, caro leitor, que a incapacidade de idealizar pode se transformar numa doença mortal. O ceticismo, o cinismo, o niilismo, a melancolia, são formas possíveis dessa doença.
Muitos acreditam que sem utopias ou ideais a vida perde o sentido. Talvez tenham razão. Acho que não. Eu, desprovido de qualquer órgão para idealização, prefiro sempre a realidade à fantasia. Nunca tive qualquer esperança metafísica. Não acho que minha vida seja necessariamente melhor por isso. Uma das banalidades da sociedade moderna é confundir conhecimento com felicidade e sucesso. "A vida para a felicidade" é irmã gêmea da mediocridade.
Mas a mediocridade pode ser uma forma de sobreviver. Muitas vezes, não há muito mais do que isso como opção no cotidiano. Não acho que o conhecimento salve ninguém, mas ele nos ensina outras formas de olhar o mundo. Nós pensamos enquanto as aranhas tecem suas teias.
Habitamos em dois mundos: o externo e o interno. Do lado de fora, a ameaça vem do fato de sermos parte insignificante da cadeia alimentar. Portadores de um órgão que pensa e vê a beleza, sabemos que este órgão, gelatina cinzenta, é também alimento de muitos outros animais. Sejam eles gloriosos leões, sejam eles miseráveis vermes. Esse "excesso" de conhecimento é a ameaça que nos atormenta no mundo interno. Combatemos em duas frentes.
Na primeira, combatemos a violência do meio ambiente, onde animais devoram uns aos outros. Na segunda, combatemos a violência da alma, onde o medo se torna nosso irmão gêmeo. Esse "excesso" de conhecimento nos faz carregar nas costas, há infinitos milênios, a imagem de nosso próprio cadáver no espelho. À noite, quando dormimos, os fantasmas dessa alma, que sabe mais do que deve, nos visita.
Às vezes, na insônia, como diria Elias Canetti, ouvimos os ruídos do corpo e sentimos a fragilidade da vida que nos escapa. Certa feita, o escritor israelense Amóz Oz me disse, numa entrevista para a Folha, que tem o hábito de caminhar pelo deserto todas as manhãs. Esse hábito o ajuda a compreender melhor a condição humana.
Por quê? Amóz Oz tem em mente a antiga tradição religiosa de caminhar pelo deserto a fim de percebermos do que somos feitos: pó e cinzas. Grandes descobertas sobre si mesmo e sobre a vida são comuns nos relatos dessas caminhadas. Uma teologia forte nasce aí: na pobreza do pó.
Aliás, a ignorância com relação às grandes tradições religiosas é marca de um iluminismo estreito, característico da nossa formação em ciências humanas. Marx, Nietzsche e Freud, apesar de terem posto a teologia de joelhos, apresentam visões simplificadas da religião. Mesmo a literatura de auto-ajuda, esse grande engodo, bebe nesta experiência do deserto para construir suas fórmulas baratas de salvação.
Mas a consciência do deserto pode nos assaltar mesmo em meio a nossa vida cotidiana. Não é necessário irmos a Israel. O envelhecimento é um exemplo. O medo do envelhecimento mostra seus dentes todas as manhãs. Quando olho no espelho pela manhã, e vejo as marcas do tempo no rosto, sou visitado por este fantasma. Ou quando recebo o resultado infeliz de um exame de laboratório.
Hospitais e cemitérios são lugares excepcionais para fazermos filosofia. Imediatamente, é reestabelecida, em minha alma, a consciência do punhado de pó que sou. A cada doença, o pó toma o lugar do corpo. Eis a agonia interna da alma se fazendo presente.
Uma das coisas mais difíceis de se pensar quando vivemos numa cultura excessivamente medrosa como a nossa, viciada na utopia do "humano eficaz", é que outros modos de vida já foram menos covardes. Isso nada tem a ver com "voltar ao passado". Faz parte de nossa cultura o auto-engano porque tememos que a tristeza nos torne menos eficientes.
Imperativos do tipo "seja jovem" excluem grande parte da experiência cotidiana. A imensa maioria das horas se passa entre a insegurança e o medo. Se o seu pai ou a sua mãe sonha em ser "jovem" como você, a fala escondida nesse desejo é: "você meu filho, você minha filha, não tem futuro". A coragem é necessária para sermos gente grande. A "propaganda da juventude" humilha a alma que tem, em sua boca, o gosto do pó todos os dias."
LUIZ FELIPE PONDÉ na FSP

outubro 05, 2008

NADA PODE SER TUDO

O que vc tem feito? Esta não é mais pergunta que se faça sem riscos de obter respostas impensáveis.“O que peixe faz! O que é que peixe faz? ”
O NADA deixou de ser preocupação filosófica. Portanto, esqueça Sartre e o seu nada como marca da essência do ser humano, na perspectiva de uma “metafísica da negatividade”. Nada de existencialismo, segundo o nadismo, “este é um conceito fadado à extinção”.
NADA não é uma sigla, como pode parecer. Nos tempos atuais, é a filosofia de “uma organização que se opõe a exarcebação da produtividade e da eficiência que, nas últimas décadas assumiram ares de vício”. É isso mesmo!
NADA tem logo, estatuto e marca registrada. Não se espante ao se deparar com um enorme cubo branco vazio (símbolo do movimento), cercado por um bando de gente deitada, sem fazer nada. É quase certo serem os praticantes do nadismo.
Lendo sobre o tema, fiquei sabendo,(será que só eu não sabia?!), que “... “fazer nada” foi sempre a verdadeira grande meta (mesmo que não se admita) da humanidade. Se bem que, frente aos padrões nadistas, redigir um manifesto soa como um trabalho hercúleo…”
Já existe o clube com o objetivo de "criar um momento especial que oferece a oportunidade rara de efetivamente parar e não fazer coisa alguma" e, segundo o seu fundador, "as pessoas têm dentro de si um profundo desejo: Tudo o que eu quero é parar e não fazer nada. Mas todo mundo se cobra muita coisa e não consegue esse tempo.” A prática do nadismo deve se dá “sem preocupação, sem compromisso e o mais importante: sem culpa”, diz outro adepto.
Não vai demorar, até um sócio/praticante ter a idéia e, se não se constituir num esforço grande demais, transformar o nadismo em religião. Por que não? A partir daí, o “Fazer nada”, durante o horário de trabalho ou de estudo, por exemplo, não poderá ser reprovado nem reprimido, sob pena de tal atitude ser considerada perseguição ideológica ou religiosa. Por motivos óbvios, é de se prever a adesão em massa, inclusive de “ celebridades”, políticos não reeleitos e outros que já tem grande experiência nesta prática.
É esperar para ver.

IMAGENS URBANAS

A RATP até agora não entendeu como Jam Abelanet conseguiu fazer quase 50 nus no extremamente vigiado Metro de Paris . Segundo o fotógrafo, ele quis fazer uma homenagem a estes lugares que fazem parte do cotidiano de milhões de pessoas que passam em direção ao trabalho sem prestar a menor atenção no quanto são visualmente ricos. As fotos feitas entre setembro de 2007 e janeiro de 2008, muito cedo da manhã ou bem tarde da noite, ilustram o livro “Fantasias Subterrâneas”. À exceção desta em que a modelo posa entre os passageiros (um clin d’oeil bem ilustrativo da indiferença dos parisienses), as fotos são todas verdadeiras.

DOMINGO de eleições municipais

outubro 04, 2008

A sedutora história da leitura

"Um livro só começa a existir quando um leitor o abre. Esta afirmação resume o novo olhar dos historiadores em relação à leitura. Durante muito tempo eles mantiveram frente à leitura uma atitude linear, supondo-a invariável, natural a todas as pessoas de todas as épocas. Hoje, inúmeras pesquisas nos ensinam a ver no gesto trivial de ler um texto, uma variação quase infinita, possível de ser reconstituída nos diversos momentos da história.
Claro que a difusão do "livro com páginas" tal como o conhecemos, assim como a primeira revolução na história do livro - a invenção da imprensa no século XV - provocaram um alargamento enorme do número de leitores. A segunda grande mutação nas maneiras de ler ocorreu no final do século XVIII com a passagem de hábitos intensivos de leitura - a leitura constante e repetida de textos de caráter religioso (a Bíblia era o grande best-seller!) - para hábitos extensivos de leitura do leitor moderno, que (mal) lê vários livros, ávido por novidades.
Mas a leitura "intensiva" não chega a desaparecer, pois o advento do romance coincidiu com a disseminação de modos emocionais de leitura. Rousseau exigiu que o seu A Nova Heloísa fosse "lido tão intensamente quanto a Bíblia", o que realmente ocorreu, provocando nas leitoras desmaios, choros convulsivos e, no limite, suicídios. Com os olhos de hoje, distraídos pelo caleidoscópio de imagens nas telas, fica difícil concebermos a força desta paixão incendiária provocada pela leitura.
Sedução pela leitura? Ler em público era, antes do advento do marketing e da noite de autógrafos, a melhor maneira de um autor obter público para seus livros. O poeta Dylan Thomas, em alto estado etílico, encantava com sua belíssima poesia cantada nos bares, coisa só percebida na língua original.Mas, na inspirada tradução de Ivan Junqueira, os leitores podem ter uma idéia: Em meu ofício ou arte taciturna/ Exercido na noite silenciosa/Quando somente a lua se enfurece /Trabalho junto à luz que canta/ Não por glória ou pão/ Nem por pompa ou tráfico de encantos/Nos palcos de marfim/Mas pelo mínimo salário/Do seu mais secreto coração. Difícil imaginar tais versos, como revelam os arquivos, reproduzidos por inúmeros leitores que os enviavam, junto com as flores, às namoradas distantes.
Difícil, mas não impossível, já que no final do século XIX o público leitor atingiu a alfabetização em massa. A "era de ouro" da leitura foi também a última a ver o livro ainda imune à competição com outros meios de comunicação - TV, internet e todo o sofisticado aparato da mídia eletrônica do século XX. Ler numa tela não é o mesmo que ler num livro com páginas. Estaríamos hoje diante de uma terceira revolução da leitura? Independente da imprevisível resposta, esta recente história da leitura empolga e surpreende. Porque é a história de uma prática ligada talvez ao mais espetacular instrumento utilizado pelo homem.
Que afinal, vem confirmar o que Jorge Luis Borges disse certa vez, de forma definitiva, sobre o livro: O microscópio e o telescópio são extensões da nossa visão; o telefone é a extensão da nossa voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões do nosso braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da nossa memória e da nossa imaginação. "

Elias Thomé Saliba é historiador e professor da USP.

outubro 03, 2008

Picasso, o criador absoluto

Esta tinha que vir para cá. Gosto dele tanto, tanto...A reportagem é de autoria de Pascal Marchetti-Leca e foi publicada na História Viva em 2004. É a trajetória deste genio da pintura que foi considerado egoísta, mesquinho e até perverso,mas que com sua genialidade e liberdade soberana, mudou a face da arte.
Assim começa sua história:
"O recém-nascido não respira. No dia 25 de outubro de 1881, em Málaga, Maria Picasso y Lopez dá à luz um menino de coração preguiçoso. A parteira mal pode suportar o olhar desolado da mãe. O diagnóstico é funesto: um natimorto. O pai, José Ruiz Blasco, homem de ar fleumático, apelidado por isto de "inglês", cede também à angústia do acontecimento. Desorientado, lívido, impotente, ele percorre todos os cantos da sala.
O irmão de José, o médico Salvador Ruiz Blasco, levado mais pela simpatia familiar do que pela ciência, precipita-se, com um charuto entre os dedos, para o leito de dona Maria. Ele lança um olhar consternado para o sobrinho e, em desespero, sopra fumaça em seu rosto. Contra todas as expectativas a criança reage e, salva pelo charuto, chora pela primeira vez. É o choro de um ressuscitado...."

Clique no título para ler a reportagem completa.

outubro 02, 2008

Viver sem controle

Ontem recebi um e-mail que trazia um questionário (já respondido) para que eu substituísse aquelas, por respostas pessoais, e enviasse para o remetente e para mais tantas pessoas. O objetivo era fazer com que os “amigos” ficassem se conhecendo melhor, ao revelar as cidades de que mais gostam , para onde gostariam de retornar, o que gostariam de estar fazendo naquele momento, o que viam na TV quando criança, os programas que preferem hoje, enfim , hábitos e gostos publicáveis.
O meu amigo remetente, naquele momento, gostaria de estar no sofá da casa de sua mãe, voltar à Paris, trabalhar menos, estas coisas. Ainda que não goste de correntes, pensei em ser gentil e responder. Mas estanquei logo no segundo item.Quando eu era criança não existia TV e faz anos que só vejo, casualmente, em locais públicos.
Que não assisto televisão os mais próximos sabem, mas declarado num questionário que ia circular, poderia não pegar bem. Não havendo um campo para justificativas, onde eu pudesse esclarecer que a televisão estava me deixando triste, pessimista, irritada, deprimida e que, me livrando dela, vivia bem melhor, resolvi escrever para o meu amigo e ficamos entendidos.
Ninguém imagina o alívio que foi para mim. Não encontro explicação para não haver me livrado muito antes. Nunca tive o hábito de ver novela. Estudava e depois passei a trabalhar à noite.
Houve um período, não muito longo, em que estive casada com alguém que voltava para casa, às pressas, para não perder a novela.De tanto ouvir que a minha rejeição era atitude de pseudo-intelectual e como outros comportamentos o faziam me achar pedante, passei a me sentar a seu lado durante a novela ( a que o amor nos obriga!).
Diálogos vazios, previsíveis, superficiais e infindáveis que não resolviam nada, não tiravam a trama (sempre muito boba)do ponto em que estava no capítulo anterior. Um tédio!
Com o tempo, fui me liberando da “obrigação” e pude buscar outras ocupações para o horário “nobre”. Tão nobre horário merece ser melhor aproveitado, seja para conviver com os de casa, receber/encontrar amigos, bater-papo (mesmo por telefone) ouvir música, preparar comidinhas... Qualquer coisa, longe da TV. Vale até arrumar gaveta!
Da programação dominical fazia anos que me livrara. A verdade é que sempre tive um olhar meio crítico, inclusive para o jornalismo,escancaradamente manipulado. Chegava a comentar com amigos que aquela programação não era direcionada para gente como nós.
Veio a TV a cabo. A curiosidade pelo novo durou pouco. A programação não era menos pasteurizada como parecia à primeira vista. Muitas séries (americanas!), com claque! Os talks shows, então! Cedo logo deu para perceber que ali não tinha nada para mim, mas ainda insisti por alguns anos. Afinal, se todo mundo gostava, me achava compelida a pelo menos tentar gostar também.
Deixar de ver televisão, me fez ganhar não só tempo, mas liberdade.Fiquei livre do controle remoto e da escravidão de ficar horas zapeando, procurando o que não existia, até adormecer mal humorada.
Mantendo-me distante de violências e tragédias pelo mundo afora, do nojento dia a dia da política e da mediocridade reinante, posso até dizer, como fiz aqui no título do blog,
"Vivo nas estrelas....