outubro 04, 2008

A sedutora história da leitura

"Um livro só começa a existir quando um leitor o abre. Esta afirmação resume o novo olhar dos historiadores em relação à leitura. Durante muito tempo eles mantiveram frente à leitura uma atitude linear, supondo-a invariável, natural a todas as pessoas de todas as épocas. Hoje, inúmeras pesquisas nos ensinam a ver no gesto trivial de ler um texto, uma variação quase infinita, possível de ser reconstituída nos diversos momentos da história.
Claro que a difusão do "livro com páginas" tal como o conhecemos, assim como a primeira revolução na história do livro - a invenção da imprensa no século XV - provocaram um alargamento enorme do número de leitores. A segunda grande mutação nas maneiras de ler ocorreu no final do século XVIII com a passagem de hábitos intensivos de leitura - a leitura constante e repetida de textos de caráter religioso (a Bíblia era o grande best-seller!) - para hábitos extensivos de leitura do leitor moderno, que (mal) lê vários livros, ávido por novidades.
Mas a leitura "intensiva" não chega a desaparecer, pois o advento do romance coincidiu com a disseminação de modos emocionais de leitura. Rousseau exigiu que o seu A Nova Heloísa fosse "lido tão intensamente quanto a Bíblia", o que realmente ocorreu, provocando nas leitoras desmaios, choros convulsivos e, no limite, suicídios. Com os olhos de hoje, distraídos pelo caleidoscópio de imagens nas telas, fica difícil concebermos a força desta paixão incendiária provocada pela leitura.
Sedução pela leitura? Ler em público era, antes do advento do marketing e da noite de autógrafos, a melhor maneira de um autor obter público para seus livros. O poeta Dylan Thomas, em alto estado etílico, encantava com sua belíssima poesia cantada nos bares, coisa só percebida na língua original.Mas, na inspirada tradução de Ivan Junqueira, os leitores podem ter uma idéia: Em meu ofício ou arte taciturna/ Exercido na noite silenciosa/Quando somente a lua se enfurece /Trabalho junto à luz que canta/ Não por glória ou pão/ Nem por pompa ou tráfico de encantos/Nos palcos de marfim/Mas pelo mínimo salário/Do seu mais secreto coração. Difícil imaginar tais versos, como revelam os arquivos, reproduzidos por inúmeros leitores que os enviavam, junto com as flores, às namoradas distantes.
Difícil, mas não impossível, já que no final do século XIX o público leitor atingiu a alfabetização em massa. A "era de ouro" da leitura foi também a última a ver o livro ainda imune à competição com outros meios de comunicação - TV, internet e todo o sofisticado aparato da mídia eletrônica do século XX. Ler numa tela não é o mesmo que ler num livro com páginas. Estaríamos hoje diante de uma terceira revolução da leitura? Independente da imprevisível resposta, esta recente história da leitura empolga e surpreende. Porque é a história de uma prática ligada talvez ao mais espetacular instrumento utilizado pelo homem.
Que afinal, vem confirmar o que Jorge Luis Borges disse certa vez, de forma definitiva, sobre o livro: O microscópio e o telescópio são extensões da nossa visão; o telefone é a extensão da nossa voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões do nosso braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da nossa memória e da nossa imaginação. "

Elias Thomé Saliba é historiador e professor da USP.

outubro 03, 2008

Picasso, o criador absoluto

Esta tinha que vir para cá. Gosto dele tanto, tanto...A reportagem é de autoria de Pascal Marchetti-Leca e foi publicada na História Viva em 2004. É a trajetória deste genio da pintura que foi considerado egoísta, mesquinho e até perverso,mas que com sua genialidade e liberdade soberana, mudou a face da arte.
Assim começa sua história:
"O recém-nascido não respira. No dia 25 de outubro de 1881, em Málaga, Maria Picasso y Lopez dá à luz um menino de coração preguiçoso. A parteira mal pode suportar o olhar desolado da mãe. O diagnóstico é funesto: um natimorto. O pai, José Ruiz Blasco, homem de ar fleumático, apelidado por isto de "inglês", cede também à angústia do acontecimento. Desorientado, lívido, impotente, ele percorre todos os cantos da sala.
O irmão de José, o médico Salvador Ruiz Blasco, levado mais pela simpatia familiar do que pela ciência, precipita-se, com um charuto entre os dedos, para o leito de dona Maria. Ele lança um olhar consternado para o sobrinho e, em desespero, sopra fumaça em seu rosto. Contra todas as expectativas a criança reage e, salva pelo charuto, chora pela primeira vez. É o choro de um ressuscitado...."

Clique no título para ler a reportagem completa.

outubro 02, 2008

Viver sem controle

Ontem recebi um e-mail que trazia um questionário (já respondido) para que eu substituísse aquelas, por respostas pessoais, e enviasse para o remetente e para mais tantas pessoas. O objetivo era fazer com que os “amigos” ficassem se conhecendo melhor, ao revelar as cidades de que mais gostam , para onde gostariam de retornar, o que gostariam de estar fazendo naquele momento, o que viam na TV quando criança, os programas que preferem hoje, enfim , hábitos e gostos publicáveis.
O meu amigo remetente, naquele momento, gostaria de estar no sofá da casa de sua mãe, voltar à Paris, trabalhar menos, estas coisas. Ainda que não goste de correntes, pensei em ser gentil e responder. Mas estanquei logo no segundo item.Quando eu era criança não existia TV e faz anos que só vejo, casualmente, em locais públicos.
Que não assisto televisão os mais próximos sabem, mas declarado num questionário que ia circular, poderia não pegar bem. Não havendo um campo para justificativas, onde eu pudesse esclarecer que a televisão estava me deixando triste, pessimista, irritada, deprimida e que, me livrando dela, vivia bem melhor, resolvi escrever para o meu amigo e ficamos entendidos.
Ninguém imagina o alívio que foi para mim. Não encontro explicação para não haver me livrado muito antes. Nunca tive o hábito de ver novela. Estudava e depois passei a trabalhar à noite.
Houve um período, não muito longo, em que estive casada com alguém que voltava para casa, às pressas, para não perder a novela.De tanto ouvir que a minha rejeição era atitude de pseudo-intelectual e como outros comportamentos o faziam me achar pedante, passei a me sentar a seu lado durante a novela ( a que o amor nos obriga!).
Diálogos vazios, previsíveis, superficiais e infindáveis que não resolviam nada, não tiravam a trama (sempre muito boba)do ponto em que estava no capítulo anterior. Um tédio!
Com o tempo, fui me liberando da “obrigação” e pude buscar outras ocupações para o horário “nobre”. Tão nobre horário merece ser melhor aproveitado, seja para conviver com os de casa, receber/encontrar amigos, bater-papo (mesmo por telefone) ouvir música, preparar comidinhas... Qualquer coisa, longe da TV. Vale até arrumar gaveta!
Da programação dominical fazia anos que me livrara. A verdade é que sempre tive um olhar meio crítico, inclusive para o jornalismo,escancaradamente manipulado. Chegava a comentar com amigos que aquela programação não era direcionada para gente como nós.
Veio a TV a cabo. A curiosidade pelo novo durou pouco. A programação não era menos pasteurizada como parecia à primeira vista. Muitas séries (americanas!), com claque! Os talks shows, então! Cedo logo deu para perceber que ali não tinha nada para mim, mas ainda insisti por alguns anos. Afinal, se todo mundo gostava, me achava compelida a pelo menos tentar gostar também.
Deixar de ver televisão, me fez ganhar não só tempo, mas liberdade.Fiquei livre do controle remoto e da escravidão de ficar horas zapeando, procurando o que não existia, até adormecer mal humorada.
Mantendo-me distante de violências e tragédias pelo mundo afora, do nojento dia a dia da política e da mediocridade reinante, posso até dizer, como fiz aqui no título do blog,
"Vivo nas estrelas....

outubro 01, 2008

Dia Internacional do Idoso

A velhice é inexorável. Ou se fica velha, ou se morre!
A maior dificuldade de ser "velha" é romper com o estereótipo de que se tornou sem "utilidade". E, descartada do mercado de trabalho e do mercado amoroso, ainda ter que suportar a "síndrome da invisibilidade" (quem é velha sabe de que estou falando). Resta tentar envelhecer com dignidade , sabendo perceber o momento certo em que devemos, aos poucos, nos retirar da vida trepidante da ação para descobrir os novos prazeres da reflexão.

Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

ALFABETO

O alfabeto é agora formado por 26 letras. O "k", "w" e "y" não eram consideradas letras do nosso alfabeto. Essas letras serão usadas em siglas, símbolos, nomes próprios, palavras estrangeiras e seus derivados. Exemplos: km, watt, Byron, byroniano

TREMA

Não existe mais o trema em língua portuguesa. Apenas em casos de nomes próprios e seus derivados, por exemplo: Müller, mülleriano

ACENTUAÇÃO

Ditongos abertos (ei, oi) não são mais acentuados em palavras paroxítonas, por exemplo: assembleia, plateia, ideia, colmeia, boleia, panaceia, Coreia, hebreia, boia, paranoia, jiboia, apoio, heroico, paranoico
obs: nos ditongos abertos de palavras oxítonas e monossílabas o acento continua: herói, constrói, dói, anéis, papéis.
obs2: o acento no ditongo aberto "eu" continua: chapéu, véu, céu, ilhéu.


O hiato "oo" não é mais acentuado, por exemplo enjoo, voo, coroo, perdoo, coo, moo, abençoo, povoo
O hiato "ee" não é mais acentuado, por exemplo creem, deem, leem, veem, descreem, releem, reveem


Não existe mais o acento diferencial em palavras homógrafas, por exemplo, para (verbo), pela (substantivo e verbo), pelo (substantivo), pera (substantivo), polo (substantivo)
Obs: o acento diferencial ainda permanece no verbo "poder" (3ª pessoa do Pretérito Perfeito do Indicativo - "pôde") e no verbo "pôr" para diferenciar da preposição "por"


Não se acentua mais a letra "u" nas formas verbais rizotônicas, quando precedido de "g" ou "q" e antes de "e" ou "i" (gue, que, gui, qui), por exemplo, argui, apazigue, averigue, enxague, ensaguemos, oblique
Não se acentua mais "i" e "u" tônicos em paroxítonas quando precedidos de ditongo, por exemplo, baiuca, boiuna, cheiinho, saiinha, feiura, feiume

HÍFEN

O hífen não é mais utilizado em palavras formadas de prefixos (ou falsos prefixos) terminados em vogal + palavras iniciadas por "r" ou "s", sendo que essas devem ser dobradas, por exemplo, antessala, antessacristia, autorretrato, antissocial, antirrugas, arquirromântico, arquirrivalidade, autorregulamentação, contrassenha, extrarregimento, extrassístole, extrasseco, infrassom, inrarrenal, ultrarromântico, ultrassonografia, suprarrenal, suprassensível
obs: em prefixos terminados por "r", permanece o hífen se a palavra seguinte for iniciada pela mesma letra: hiper-realista, hiper-requintado, hiper-requisitado, inter-racial, inter-regional, inter-relação, super-racional, super-realista, super-resistente etc..


O hífen não é mais utilizado em palavras formadas de prefixos (ou falsos prefixos) terminados em vogal + palavras iniciadas por outra vogal, por exemplo,autoafirmação, autoajuda, autoaprendizabem, autoescola, autoestrada, autoinstrução, contraexemplo, contraindicação, contraordem, extraescolar, extraoficial, infraestrutura, intraocular, intrauterino, neoexpressionista, neoimperialista, semiaberto, semiautomático, semiárido, semiembriagado, semiobscuridade, supraocular, ultraelevado.
Obs: esta nova regra vai uniformizar algumas exceções já existentes antes: antiaéreo, antiamericano, socioeconômico etc.
Obs2: esta regra não se encaixa quando a palavra seguinte iniciar por "h": anti-herói, anti-higiênico, extra-humano, semi-herbáceo etc.


Agora utiliza-se hífen quando a palavra é formada por um prefixo (ou falso prefixo) terminado em vogal + palavra iniciada pela mesma vogal, por exemplo, anti-ibérico, anti-inflamatório, anti-inflacioná rio, anti-imperialista, arqui-inimigo, arqui-irmandade, micro-ondas, micro-ônibus, micro-orgânico
obs: esta regra foi alterada por conta da regra anterior: prefixo termina com vogal + palavra inicia com vogal diferente = não tem hífen; prefixo termina com vogal + palavra inicia com mesma vogal = com hífen
obs2: uma exceção é o prefixo "co". Mesmo se a outra palavra inicia-se com a vogal "o", NÃO utiliza-se hífen.


AINDA O HÍFEN
Não usamos mais hífen em compostos que, pelo uso, perdeu-se a noção de composição, por exemplo, mandachuva, paraquedas, paraquedista, paralama, parabrisa, pára-choque, paravento
Obs: o uso do hífen permanece em palavras compostas que não contêm elemento de ligação e constitui unidade sintagmática e semântica, mantendo o acento próprio, bem como naquelas que designam espécies botânicas e zoológicas: ano-luz, azul-escuro, médico-cirurgiã o, conta-gotas, guarda-chuva, segunda-feira, tenente-coronel, beija-flor, couve-flor, erva-doce, mal-me-quer, bem-te-vi etc.

Desfile DIOR - John Galliano


Começou em Paris a Semana da Moda, com a temporada de desfiles do Prêt-à-porter - Printemps-été 2009, que acontece nas Tulherias.

setembro 30, 2008

Além do X e do Y

Ano passado a diretora argentina Lucía Puenzo (ela é filha de Luís Puenzo, que conquistou o Oscar de filme estrangeiro em 1986 com “A história oficial”) num relato seco e poético, abordou o tema da ambiguidade que pode haver no masculino/feminino, no filme XXY. O olhar feminino para a questão dos gêneros sexuais nos oferece um denso contato com a realidade das pessoas que tem de decidir o sexo que querem ter. A figura do pai (Ricardo Darín) tem um tratamento especial, pois é ele que percebe que talvez a “filha” seja, no fundo, um filho. O filme recebeu o Prêmio da Crítica no Festival de Cannes de 2007.
Li no El País , de ontem, um artigo sobre como vem sendo tratada a transexualidade na Espanha e Holanda. O artigo começava com o questionamento: "Como você reagiria se o obrigassem a viver como um homem quando se sente uma mulher, ou vice-versa?" para referir-se ao filme "Meninos não Choram", no qual uma garota (interpretada por Hillary Swank) se faz passar por um rapaz. O filme é baseado em fatos reais e acaba de forma trágica quando um dos amigos reclama ter sido enganado por uma transexual. Seu caso é extremo, mas o filme ilustra uma sensação que pode ser experimentada em qualquer idade, como demonstra o fato de que os especialistas recebem pacientes cada vez mais jovens.
Isto me trouxe à lembrança uma conversa que mantive, durante um cruzeiro, com um médico que me disse ser esta sua especialidade. Não escondi a curiosidade e lhe fiz várias perguntas, dentre outras, se na cirurgia definidora o critério era meramente anatômico. Em se tratando de crianças, não havia como ser diferente, foi o que ouvi dele. Pensava na “alma” das criaturas....
Bom, deixei de lado o jornal, passei para a revista mente & cérebro . O tema não era diferente. O que se percebe é uma abordagem mais sensível a esta tão delicada questão.
A mudança de atitude do jovem cirurgião decorreu da leitura dos diários de Herculine Barbin, uma hermafrodita do século XIX, cuja história de amor e infortúnio foi editada pelo filósofo e cientista social Michel Foucault. A leitura destes é que teria aguçado seu questionamento sobre o que a “normalidade” sexual de fato significava.
A matéria é muito boa.
Para lê-la, clique no título da postagem.

setembro 29, 2008

Um homem solitário...

...Um cachorro. Uma empregada. O Encontro.
Mariano cansara da vida publica. Queria retirar-se do burburinho das reuniões sociais e do partido. Cansara dos mexericos e das tertúlias musicais de sua família. Sempre fora só e assim gostava de ser. A profissão de advogado o lançara na política com a qual nada tinha a ver. Era calmo, pacato; um homem simples e na profissão mal sucedido. Ufa! - pensar que tinham sido 30 anos nas escadarias do forum!
Ansiava por outro estilo de vida; aquela das cantigas sertanejas da infância, do cheiro que emanava das panelas de barro no fogão de lenha e até, quem sabe, casar de novo?
Tinha dois filhos no exterior. A mulher o deixara há tempo...
E assim, atravessando a rua da cidade grande, pensava. Sem mais nem menos uma cadela agarrou-lhe as calças, e pumba! - lá estava ele no chão bem no meio da calçada. Atrás dela uma senhora, meia idade, apavorada enxotando o cão que não o largava. Que situação! Mariano perdera os óculos sem os quais não via nada. Pessoas se aproximaram com medo. Finalmente a cachorra se soltou e começou a triturar calmamente parte das calças de Mariano. A senhora apavorada afirmou que sua patroa dar-lhe-ia calças novas e a ele não restou alternativa que não segui-la. Afinal precisava saber se aquela peste de cão era vacinado e coisas assim.
- Dona Silvia! Dona Silvia ! berrou a empregada. Aconteceu uma tragédia!
Contou tudo.
A tal dona Silvia até que era bem apanhada. Morena de olhos verdes, quadril largo, beirando uns cinqüenta. Não se envergonhou, não se desculpou. Foi logo vendo o tamanho da vítima e em cinco minutos apareceu com varias calças do seu finado marido.
Mariano estava mudo. Em choque. Como um autômato a seguiu até o banheiro e trocou a peça.
Um mês depois estavam casados. Morando na fazenda. Ouvindo musica sertaneja.
Colaboração de Milena Morozowicz

GILDA

Zapear pelos canais da TV a cabo que mostram filmes antigos pode ser uma experiência emocional. Você volta e meia é tragado por um buraco negro e cai num lugar do passado que já tinha esquecido, e o revive com uma intensidade doida. Ou doída. Foi o que me aconteceu quando dei com uma reprise de "Gilda" (Charles Vidor dirigindo Rita Hayworth e Glenn Ford) na TV, há dias. Meu tombo no passado foi longo, não vou dizer de quantos anos. E caí em Caxambu, Minas Gerais. Onde o único cinema da cidade — já que se tratava de uma cidade turística, uma estação de águas — não seguia com muita rigidez as leis da censura da época, e onde, portanto, pela primeira vez vi um filme proibido até 18 anos. Era "Gilda".
Grande sensação. "Nunca houve uma mulher como Gilda" era a principal frase promocional do filme. Diziam que Hollywood nunca fizera um filme como "Gilda" também. Era ousadíssimo. Tinha cenas "fortes". Falava-se até numa cena de strip-tease da Rita Hayworth. Não preciso dizer que entrei no cinema em grande estado de excitação premonitória. Ver um filme "até 18", eu que ainda não vira um "até 14", que mal podia ver os "até 10", era um feito de sonho. Senti que depois daquilo eu não seria mais o mesmo. Que estava entrando para uma ordem privilegiada. Que os signos e os segredos da nova ordem me seriam revelados durante o filme — e ai se eu contasse para os da minha idade o que se passava num "até 18".
Durante dez, quinze minutos, nada acontecia no filme que merecesse ser escondido das crianças. E então aparecia a Rita. Antes de entrar no seu quarto, o marido, que quer apresentá-la ao Glenn Ford, pergunta: "Gilda, você está decente?" E ela faz a mais sensacional entrada em cena, e na iconografia do século, de uma atriz, apenas levantando o tronco e a cabeça para ocupar a tela e dizendo: "Eu?" E depois que vê o Glenn Ford: "Sim, eu sou decente", uma frase que passa a desmentir pelo resto do filme. Com a Gilda na tela o cinema não era, decididamente, um lugar para menores de 18.
E ainda tinha o strip-tease. Com o vestido tomara-que-caia mais tomara-que-caia de todos os tempos, Gilda canta e dança e começa a tirar a roupa. Primeiro, lentamente, uma luva, depois... Bom, só tira a luva. Quando pede para alguém da platéia ajudá-la a abrir o zíper do vestido a dança é interrompida e o resto do strip-tease acontece na imaginação do espectador. Pelo menos aconteceu na minha.
Nos longos anos que separam o "Gilda" visto há dias do "Gilda" visto em Caxambu mudou a moral, mudaram os costumes e mudaram as crianças, mas nenhuma mulher ficou nua na tela como a Rita Hayworth não ficou. Nunca houve e nunca haverá outra mulher como Gilda.
L.F. VERISSIMO

setembro 28, 2008

DOMINGO

BIBLIOTERAPIA

"O único conselho que alguém pode dar sobre a leitura é: não aceite nenhum conselho" esta é uma frase de Virginia Woolf em "Como Ler um Livro".
Contrariando tal recomendação, um projeto lançado em Londres pela chamada School of Life se propõe a encontrar a receita de leitura certa para cada pessoa.
Mediante o preenchimento de uma ficha com informações sobre a sua história , aspirações e hábitos, seguida de uma entrevista com um especialista, são oferecidas indicações de leitura.
Não saberia descrever meus hábitos de leitura.Leio em casa (na cama) ou em qualquer lugar (na fila, no parque, no banco da praça, na mesa de um café, viajando de ônibus ) e, quase sempre, termino o que começo a ler. Não havendo um único tema de meu interesse, nem uma preocupação com assunto determinado e não sabendo precisar quais as minhas paixões(são tantas), não conseguiria responder as perguntas do tal questionário que é repassado ao "especialista". Não tenho, como se vê, o perfil de potencial cliente para este tipo de terapia. No entanto, considerando que na vida moderna as pessoas, além de não saberem o que procuram, perdem muito tempo nos deslocamentos para o trabalho ou cuidando de filhos, (para não mencionar as TVs sempre ligadas), não lhes sobrando tempo para ler, encontrar quem indique algo que tenha a ver com o seu momento e anseios, talvez seja interessante.
Segundo o artigo que li na FSP, a Escola da Vida se define como uma "pequena loja com enormes ambições". E o tom de auto-ajuda da loja fica atenuado por ter entre os sócios o filósofo Alain de Botton, famoso pelo livro "Como Proust Pode Mudar Sua Vida" , Robert Macfarlane ( ganhador de vários prêmios literários) e Geoff Dyer, dentre outros escritores.
No site da loja, Botton declara "Esse é o tipo de lugar que pode te tornar genuinamente sábio, em vez de apenas esperto. É tudo o que eu tenho tentado fazer com a minha escrita nos últimos 15 anos".
Além da biblioterapia, a escola também oferece “cursos pequenos sobre as grandes questões da vida": diversão, família, trabalho, política e amor.
Os interessados deverão estar "em busca de aventura pessoal e intelectual", com "curiosidade, mente aberta e um apetite pela vida".
O negócio é inglês, mas tem a cara das coisas daqui.
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