setembro 13, 2008

P.S.: Beijo tua boquinha gulosa

"Olhe bem para a boca da bela mulher do retrato. Para esses lábios, um dos maiores nomes da literatura brasileira escreveu: “Antes e depois, beijar, longamente, a tua boquinha. Essa tua boca sensual e perversamente bonita, expressiva, quente, sabida, sabidíssima, suavíssima, ousada, ávida, requintada, ‘rafinierte’, gulosa, pecadora, especialista, perfumada, gostosa, tão gostosa como você toda inteira, meu anjo de Aracy bonita, muito minha, dona do meu coração”.
Sim, ele mesmo. João Guimarães Rosa, o autor de Grande Sertão: Veredas, entre outras obras-primas da língua portuguesa, o diplomata sempre refinado do Itamaraty, escreveu essas linhas condimentadas e centenas de outras para a grande companheira de sua vida, num estilo que em nada lembra a prosa de Riobaldo e Diadorim. Quando “Joãozinho” escrevia para “Ara” (era assim que eles chamavam um ao outro ), era direto, rasgado, explícito. Só pensava em “boquinha sabida”, “pintazinha do pé esquerdo”, “camisolinha cor-de-rosa”.
O acervo – grande parte dele inédito – é composto por 107 cartas, 44 postais, bilhetes e telegramas, escritos por Rosa para Aracy entre 24 de agosto de 1938 e 18 de agosto de 1960. A pesquisa da correspondência foi confiada a duas estudiosas da obra do escritor, Neuma Cavalcante, da Universidade Federal do Ceará, e Elza Miné, da Universidade de São Paulo. Elas se dedicam agora a escrever a biografia de Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa, uma personagem extraordinária por motivos que vão muito além da condição de mulher de grande homem.
O livro será lançado ainda no ano do centenário de Aracy, que se encerra em 20 de abril. “Quando comecei a ler as cartas, fiquei muito tímida, como sempre acontece quando lemos a correspondência de alguém”, diz Neuma. “Fiquei muito emocionada com a vida deles. Aos poucos, senti como se fossem da família.”
A pesquisa foi iniciada no fim da década de 90. Em 2006, Neuma e Elza publicaram um artigo analisando a correspondência amorosa, nos Anais do Seminário Internacional em comemoração aos 50 anos de Grande Sertão: Veredas. Na biografia que preparam, as cartas serão reveladas e ganharão sentido no contexto da vida e da época de Aracy.

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E prossegue:
Grande Amor: Veredas
Trechos de cartas escritas por Guimarães Rosa para Aracy entre 1938 e 1960:
”Mas meu amorzinho, para mim você não é só corpo, se bem que você é e será sempre a minha Vênus, a minha cocaína, o diabinho carnal que se apoderou da minha pele e penetrou em mim até a medula dos ossos.”
”Quando é que irás compreender que eu sou mais teu do que é tua aquela pintazinha que tens no pé esquerdo, ou do que aquela verrugazinha que tens no flanco?”
”Será que você está nesta hora também pensando em mim? Agora vou para a cama, para dormir com a camisolinha cor-de-rosa, depois de conversar um pouco com os chinelinhos chineses, que me falarão dos lindos pezinhos de sua dona.” (25/8/1938)

A continuação desta interessantíssima matéria da jornalista Eliane Brum pode ser lida na seção Mente Aberta da revista Época acessando no título da postagem.

O encontro entre café e vinho


O café na Arábia era qahwah que signiificava vinho. Conhecido como vinho da Arábia, desde sua descoberta tinha um caráter inebriante, conquistador, requintado, capaz de dar energia e estimular os sentidos. A pronúncia da palavra assemelha-se ao que passamos a chamar café: qahveh.
Vinho e café, modernamente, estão em pé de igualdade quando falamos de sabor, aroma e esmero na produção. O vinho criou uma cultura de apreciação importante e cativou amantes há décadas. O café, por sua vez, vem atualmente formando esse hábito e acompanha a rota percorrida pelo primeiro.

Se vc é um apreciador de vinhos, de café, ou de ambos, poderá acessar o portal espresso pelo título deste post. É no mínimo curioso. Mas só se vc não achar bobagem saber o que faz um barista...

OS HÁBITOS DA "JAMAISLÂNDIA"

O REINO DA Jamaislândia nunca andou tão alvoroçado.
Cardiologistas alertavam, nas emissoras do reino, para os riscos da hipertensão provocada pelo abuso do pré-sal, um sal que se usa como pré-tempero, antes mesmo de saber se dará gosto à comida. Nem se haverá comida para o pré-tempero.
Não bastasse esse problema público de saúde, muitos lamentaram saber que o investimento por súdito em educação era um dos menores do mundo. O reizinho, contudo, não perdeu tempo: subiu à sacada e anunciou o aumento do investimento, não em educação, mas em propaganda. E dá-lhe pré-sal nos banquetes da corte.
Ainda não era o período da folia pagã do reino, que ocorria em fevereiro, mas havia um novo tipo de festividade: o avanço no pré-cheque especial. Isso mesmo, os jamaislandeses eram estranhos, pois se divertiam queimando dinheiro nos fornos do agiobanco, quando poderiam poupar seus pré-salários, adiar compras supérfluas ou usar outras formas de crédito, menos incendiárias.
Em um período em que a seca na maior cidade do reino fazia arder os olhos e sangrar os narizes, eles empestavam o ar com cheiro de pré-dinheiro queimado.
O Código de Defesa dos Súditos nada podia contra esse hábito nocivo. O que fazer quando alguém entra em uma das agências do agiobanco, pega um talão de pré-cheques especiais e se prepara para a caça às liquidações? Efetivamente, nada. Jamaislândia é um reino abençoado e bonito por natureza.
Agora, cruzam os dedos para que os consumidores de gás não fiquem desabastecidos por causa de uma disputa em um pequeno reino vizinho. Que, embora tratado a pão-de-ló pelo rei e pelos nobres de Jamaislândia, sempre que pode ameaça com um corte de gás ali, uma desfeita acolá.
Tudo isso ocorre quando faltam algumas semanas para as eleições dos vizires municipais. Que prometem canalizar os rios de leite e mel, para que os súditos não tenham de enfrentar longas filas, enquanto esperam, também, o maná cair do céu.
A temporada do pré-cheque especial está fazendo vítimas, os jornais do reino explicam os riscos que todos correm, mas quem está preocupado com isso? Gaste hoje e pense em como pagar amanhã é o lema dessa peculiar festividade.
Não vão longe os dias em que os idosos ficavam em maus lençóis, devendo suas murchas pensões no jogo do pré-empréstimo consignado. Nessa época ainda não se falava em pré-sal, caso contrário, a pressão deles teria ido para as nuvens, e eles já não estariam entre nós.
Súditos de Jamaislândia, não usem o pré-cheque especial, exceto em emergências, ou quando faltarem alguns dias para o pré-salário. Como forma de financiar compras, nunca em Jamaislândia.
MARIA INÊS DOLCI [tem um blog sobre defesa do consumidor que vc acessa no título deste post)

setembro 12, 2008

Prazer, sou deprimida

Ao ler este artigo da psicanalista Maria Rita Kehl, publicado na Revista Mente&Cérebro (agosto/2008), pensei em apenas comentá-lo aqui no blog. Talvez por ter passado um tempo como deprimida de carteirinha, acreditando que, quem não é, foi ou será, me pareceu melhor trazê-lo na íntegra, o que permitirá que cada um tire suas próprias conclusões. Seja como for, não resisto a chamar atenção para "...o estranho conluio entre a medicina e a doença: a auto-identificação do deprimido responde às novas estratégias de vendas dos laboratórios farmacêuticos." . O resto é com você...

"Muito prazer, sou uma F34.1”. Assim a jornalista Cátia Moraes, autora de Eu tomo antidepressivo, graças a Deus!, lançado pela editora Record, manifestou o alívio que sentiu ao encontrar, na lista de sintomas elaborada pela Classificação Internacional de Doenças (CID-10) da Organização Mundial de Saúde (OMS), a descrição dos transtornos de humor que “explicavam” sua depressão.
A frase não é tão irônica quanto parece. A depressão, que muitos analistas e sociólogos consideram o sintoma mais expressivo das contradições sociais do século XXI, tornou-se, com o aval da ciência, uma prótese de identidade para os sujeitos perdidos entre as referências voláteis do mundo contemporâneo.
Do ponto de vista da psicanálise, a depressão resulta do empobrecimento da vida psíquica, sobretudo no que se refere à possibilidade de enfrentamento de conflitos. O abuso de soluções medicamentosas acaba por ser cúmplice desse encolhimento subjetivo. Daí que o avanço mercadológico dos antidepressivos não corresponda a uma diminuição dos casos de depressão. Bem ao contrário: a supressão química do sujeito do inconsciente só faz aumentar o mal-estar. A introspecção, a tristeza, o recolhimento, a contemplação – a vida do espírito, enfim – são desvios que atrapalham o rendimento de uma vida cuja qualidade se mede por critérios de eficiência, competência e disponibilidade para a diversão.
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Para ler o texto integral clique no título.

Pelos lados de Brasília...

setembro 11, 2008

A doença da curiosidade

Do Blog do Noblat, a crônica do L F Veríssimo:
"Santo Agostinho escreveu que entre as tentações, uma das mais perigosas era a "doença da curiosidade", que nos levava a tentar descobrir os segredos da natureza, "aqueles segredos que estão além da nossa compreensão, que em nada nos beneficiarão e que o Homem não deve tentar saber". Foi, em outras palavras, o mesmo conselho que Deus deu a Adão e Eva no Paraíso, advertindo-os a não comer o fruto da árvore do saber para não contrair a doença. Eva - sempre elas - não se agüentou e comeu o fruto proibido.
Resultado: o Homem perdeu o paraíso da ignorância satisfeita e está, desde então, tentando descobrir que diabo de lugar é este em que lhe meteram, esta bola girando entre outras bolas num espaço imensurável, sem manual de instrução. Santo Agostinho e outros tentaram nos convencer a aceitar os limites da fé como os limites do conhecimento. Tentar compreender mais longe só nos traria perplexidade e angústia e nenhum benefício. Mas a doença já estava adiantada demais.
A fase mais aguda da doença da curiosidade chegou com a inauguração, esta semana, num subterrâneo na fronteira da Suíça com a França, do tal acelerador gigante que jogará prótons contra prótons em condições inéditas para tentar reproduzir a origem de tudo, liberar uma subpartícula atômica que até agora só existe em teoria e chegar mais perto de descobrir como funciona o Universo. Quer dizer, os descendentes de Adão e Eva pretendem levar a rebeldia do casal ao máximo e espiar por baixo do camisolão de Deus. Segundo alguns, o que o novo acelerador também pode trazer é um castigo terminal pela desobediência humana: o desaparecimento num buraco negro não só dos cientistas envolvidos e de alguns suíços e franceses na superfície mas do mundo todo. Com você e eu, que não temos nada a ver com a história, atrás.
O cataclismo é improvável, mas mesmo que a insubmissão do Homem não seja punida, resta a outra questão posta por Santo Agostinho, a do benefício. Que proveito, salvo para a vaidade científica, trará descobrir o que pretendem? Quanto mais se sabe sobre o funcionamento do Universo mais aumentam a perplexidade e a angústia por não se saber mais, por jamais se poder compreender tudo - pelo menos não com este cérebro que mal compreende a si mesmo.
Mas a toxina daquela fruta era forte e ainda age no organismo. E a doença é incurável".

setembro 10, 2008

Grande Colisor de Hádrons

Há momentos na vida (muitos) que a gente tem que ser humilde e reconhecer, este é um deles: não tenho a menor idéia do que seja isto e para o que serve. Como vivi até agora sem saber, penso em continuar assim...Deve ter um monte de gente sabendo, gostando, desejando, vibrando, comemorando...sei la!
Fico por aqui, na minha tranquila ignorância.

La Boqueria

Costumo ir, não só às catedrais, mas aos mercados das cidades que visito. Todo mundo sabe da minha "queda" por Barcelona. Por acaso, lá se encontra La Boqueria, de todos quantos vi, o mais fascinante dos mercados. Clicando no título e depois em visitas, poderão ser vistas imagens que dão uma idéia,um tanto pálida, tendo em vista a beleza do local. A origem do mercado La Boqueria se perde na história do século 12, quando o local era ponto de comerciantes ambulantes, notadamente açougueiros. E sua história também está ligada à expansão metropolitana da capital catalã no século 19. Sabe-se que a primeira pedra do prédio original foi colocada no dia 19 de março de 1840, no dia de São José, e, de lá para cá, os vendedores se estabeleceram definitivamente na praça de La Boqueria, fixando esse mercadão que, além de produtos comestíveis, dezenas de bancas de ingredientes dignos dos melhores repastos, passou também a abrigar bancas de flores. No Natal de 1871, a iluminação foi inaugurada.Já o prédio de estrutura de ferro lavrado e recoberta com vidros art nouveau, onde se sobressai o escudo de Barcelona, encimado pela palavra "mercat" e incrustado na fachada, data de 1911.
Em bom catalão, Barcelona faz compras na avenida Passeig de Gràcia, mas, antes de cozinhar, freqüenta, diante do calçadão da rambla de Santa Mônica, o mercat Sant Josep, La Boqueria. Na Catalunha, comer é uma arte consignada, no século 14, no livro de receitas "Llibre de Sent Suvé" --e Barcelona, capital dessa região autônoma da Espanha, é hoje uma metrópole de 4 milhões de pessoas edificada entre a montanha e o mar Mediterrâneo.
Assim, La Boqueria, o mais vibrante mercado local, comercializa o melhor dos dois mundos, fornecendo tanto pescados frescos e salgados, lagostins, caranguejos e moluscos, como carnes de caça, queijos e charcuteria. A lista de iguarias à venda inclui ovos diversos, frutas frescas, passas e confitadas, torrone (turrón), nozes e avelãs, grãos, cogumelos, olivas e conservas, legumes e uma infinidade de delicatessens, chás, ervas e temperos, com destaque para o açafrão --tido pelo mais caro condimento do mundo, usado para dar colorido amarelo-dourado ao arroz.
Logo na entrada principal, à esquerda e à direita, boxes de minirrestaurantes servem, entre tapas --aperitivos e canapés-- e ostras, refrescantes taças de espumante branco cava. Assim, além de chefs e donas-de-casa, turistas comilões também freqüentam esse mercadão.
Dentro, nesses minirrestaurantes, além de tapas, os fregueses se deliciam com frutos do mar, sardinhas grelhadas e sanduíches de presunto cru, como o pata negra.

setembro 09, 2008

A Arte de Amar

A Arte de Amar foi escrito no ano 1 a.C. e permanece atual.O poeta romano Ovídio Nasão nasceu no ano 43 a.C. Vindo de uma família abastada de cavaleiros, poeta festejado, Ovídio era como um dom-juan do império de Augusto. Confessou ter amado todas as mulheres – "as altas ou baixas, louras ou morenas, esbeltas ou opulentas, instruídas ou ignorantes, contanto que fossem belas e não tivessem ultrapassado o sétimo lustro de vida". (Isto é, que tivessem entre 35 e 40 anos, a idade, segundo ele, em que as mulheres atingem o "mais alto grau da ciência amorosa".) Em 1 a.C., ele escreveu A Arte de Amar, uma espécie de poema didático em que ele compara a arte da conquista amorosa às estratégias usadas pelos militares nas guerras. O que se percebe ao ler Ovídio é que pouca coisa mudou entre o amor da Roma Antiga e o de hoje. O poeta ensina desde o modo como o apaixonado deve cuidar da aparência até os jogos que ele deve empreender para deixar a amante à sua inteira disposição. Com quase 50 anos, Ovídio, por razões nunca esclarecidas, foi exilado por Augusto. Morreu cerca de dez anos depois. Seus ensinamentos sobre a conquista do amor permanecem até hoje: "Se alguém desconhece a arte de amar, que leia este poema e, uma vez por ele instruído, ame".
1 "Tudo serve de pretexto para mostrar tua solicitude. (...) Será mais fácil que os pássaros emudeçam na primavera ou as cigarras no verão (...) do que uma mulher resistir à carinhosa solicitude de um homem."
2 "Tens de agir como apaixonado e tuas palavras devem dar a sensação de que estás perdido de amor. (...) Como toda mulher se julga digna de ser amada, ser-te-á fácil ser acreditado."
3 "Quando tiveres razão para julgar conveniente que vá sentir saudades tuas, e que a tua ausência lhe cause inquietação, dá-lhe um descanso. (...) Cuida, todavia, que a tua ausência seja breve; com o tempo a saudade diminui, apaga-se a lembrança do ausente e um novo amor se insinua."
4 "Não ostentes em vão teus recursos, nem faças alarde da eloqüência. Elimina do teu falar todo o acento de pedantismo. Poderá alguém que esteja no seu juízo declamar seu amor com palavras complicadas à sua amada? (...) Escreve de modo natural, com palavras comuns mas ternas, escreve como se estivesses falando."
5 "Nada tens a perder se a deixares convencida de que tem grande poder sobre ti."
6 "Promete sem timidez, pois as promessas prendem as mulheres!"
7 "Aos homens só convém uma beleza sem enfeites. (...) Devem agradar apenas pela elegância discreta. (...) Não cries o hábito de frisar o cabelo a ferro, nem alises com pedras-pomes as pernas."
8 "Se queres conservar o amor da tua amiga, faze-a acreditar que estás maravilhado com sua beleza. (...) Se te apresenta vestida com uma simples túnica, exclama: 'Tu me abrasas!"
9 "Lágrimas também são úteis; com elas amaciarás até o diamante. Cuida para que a tua amada veja o pranto no teu rosto. Se as lágrimas te faltarem (porque nem sempre obedecem à nossa vontade), molha os olhos com a mão."
10 "O amor é uma espécie de serviço militar. (...) Nos campos do prazer, nossas provações são a noite, o inverno, as longas marchas, os caminhos fragosos. Terás muitas vezes de suportar a copiosa chuva e, morto de frio, terás de dormir sobre a terra nua."
11 "O vinho dispõe os ânimos e torna-os propícios aos ardores amorosos. (...) Que a tua inteligência e os teus pés possam exercer prontamente o teu ofício. A embriaguez, se for verdadeira, te será danosa, mas, se for fingida, poderá te ser útil. Faz que a tua língua pronuncie artificialmente palavras balbuciantes, para que sejam atribuídas, se cometeres algum atrevimento em atos ou palavras, às abundantes libações do vinho."
12 "Queres tê-la? Pede. Ela espera por isso. Conta-lhe a causa e a origem do teu desejo."

Da Folha Ilustrada de hoje:
O amor é uma arte

AH, OS CLÁSSICOS! Falamos deles e alguém boceja. Inevitável: um dos grandes crimes da nossa cultura é tratar os grandes livros da tradição ocidental com uma reverência provinciana, matando todo o prazer que temos em lê-los. Homero, para mim, sempre foi um dos melhores escritores de aventuras. O Júlio Verne da Grécia Antiga. E, ao ler as viagens de Ulisses e as fúrias de Aquiles, sempre imaginei Steven Spielberg dirigindo o filme. Só depois, muito depois, mergulhei nos mitos, na métrica, nas alegorias. Na filosofia. Primeiro, veio o prazer.
O mesmo para Ovídio, o poeta romano que o imperador César Augusto condenou ao exílio. Escreveram-se quilômetros de teses profundas sobre o vate. Mas nada substitui o prazer inocente e vital de o lermos com a cabeça limpa e a alma aberta.
Aconteceu comigo: sob um sol generoso, com o mar Mediterrâneo banhando-me os pés, li e ri com a sua "Arte de Amar" (tradução portuguesa de Carlos Ascenso André), o livrinho ultrajante que provavelmente o condenou à morte lenta. O livro é, como o título indica, um tratado sobre o amor. Mas não sobre o significado do amor; Ovídio não perde tempo com metafísicas. O amor é uma arte, ou seja, uma técnica que pode ser ensinada e apreendida. E o propósito de Ovídio é simples: escrever um manual que ensina homens e mulheres a conquistar e a conservar o amor.
Está tudo lá. Para os homens, um primeiro conselho: o amor não acontece; é preciso procurá-lo, de preferência onde há mulheres. E, se os leitores acham que os lugares ideais são as discotecas de sábado à noite, Ovídio discorda. Lugares de álcool prejudicam o julgamento. Melhor apostar nos lugares de cultura, como os teatros, onde há abundância e variedade. E sobriedade.
E depois do local, a estratégia: Ovídio ensina como os homens devem aproximar-se do alvo; como devem sentar-se ao lado dele; quais as primeiras palavras a serem ditas e trocadas (que devem ser simples e triviais, sem afetação ou vaidade); e, se vocês julgam que os metrossexuais levam vantagem no jogo, desenganem-se: Ovídio desaconselha pernas raspadas ou cabelos frisados. As mulheres gostam de homens com ar de homens. Só a limpeza é fundamental: das unhas à roupa, dos pêlos do nariz ao mau hálito, nada escapa à pena microscópica deste cupido letrado.
Mas o amor não se conquista apenas; é preciso conservá-lo depois da caçada. E não existe outra forma de conservá-lo que não passe pela amabilidade. Sê amável, diz o poeta, porque a tua beleza não será eterna; ela é um bem passageiro e frágil. Não sejas orgulhoso; não tenhas medo de ceder nas tempestades. E, se julgas que a tua amada se conserva com prendas caras, repensa: as verdadeiras prendas são aquelas que escolhemos com inteligência e entusiasmo. E ignora os defeitos: todos os defeitos da mulher que amas acabam por se suavizar com o tempo, até ao momento em que se tornam virtudes ou marcas íntimas e pessoais.
Por último, o equilíbrio frágil: o amor só sobrevive se, sobre ele, pairar uma sombra de perda. É necessário que a amada sinta, por vezes, que pode te perder: "Aquece-lhe o coração morno", diz Ovídio, "ateia as chamas, com a força de um sopro". Não existe maior verdade: a rotina é o veneno dos amantes; o ciúme é o sal que dá sabor ao prato.
E conselhos para as mulheres? A "Arte de Amar" é composto por três livros; só o último é dedicado ao público feminino. Existem repetições: evitar homens excessivamente cuidados, por exemplo. Ou, então, ter especial cuidado com a higiene do cabelo, do corpo, dos dentes. E alguns truques para disfarçar defeitos: se a mulher é pequena, que prefira estar sentada; se tem dedos gordos e unhas sujas, que evite gestos demorados; e, se os dentes são tortos ou grandes, que controle as risadas.
Mas a mensagem central é uma exortação libertária: a vida é veloz e breve; e o amor deve ser colhido nos verdes anos. As mulheres nada ganham se adiarem continuamente as paixões até que a velhice se instale. Devem, pelo contrário, ofertar os prazeres aos homens, mas nunca de forma descarada: a paixão vive da tensão constante entre a recusa e a entrega, uma dança que aguça o desejo. Mas, no fim, deve triunfar a entrega. De preferência com a luz apagada.
Moral da história? Eu prometo oferecer este livro às minhas amigas. E com as melhores passagens sublinhadas.
JOÃO PEREIRA COUTINHO

setembro 08, 2008

O SEGREDO DO GRÃO

O Segredo do Grão é uma brilhante crônica da vida de uma família árabe vivendo numa cidade portuária da França. O sonho de construir um restaurante dentro de um barco motiva o patriarca da família de imigrantes a mobilizar todos seus familiares e amigos para essa dura missão. Centrado na descrição pormenorizada das relações internas dessa grande família, suas dores, alegrias, desentendimentos, desencontros, mágoas e anseios – o filme mostra as difículdades que enfrentam os que tentam fixar raízes em terra estrangeira. O diretor Kechiche, através dessa envolvente história familiar, explora o tema da vida dos imigrantes árabes norte-africanos na França atual, como fez Fatih Akin com relação aos turcos na Alemanha, no filme Contra a Parede, que já recomendei a muitos amigos.
Ainda não assiti ao O Segredo do Grão mas, semana que passou, adquiri um livro cujo tema (falo do "tema" pois não posso confiar na memória para assegurar seja este o título) é o cinema vai à mesa. Só li um pouco dele na livraria porque comprei para dá-lo de presente e pedi para fazerem a embalagem própria. Fiquei impedida de tirar a dúvida.O livro é muito interessante.Traz, além das ilustrações dos pratos, cenas dos respectivos filmes. Tomara que ela goste, tanto quanto eu.
Embora só vá à cozinha para dar “apoio moral”aos amigos(uma grande falha), gosto muito de comer (outra!) e de cinema (será que que já deu para perceber?). Assim, a combinação gastronomia e cinema me pareceu das melhores. Convidar os amigos para um jantarzinho, seguido do filme correspondente, é um programa e tanto!
Tempos atrás, (ainda nem sabia da existência do livro sobre cinema e gastronomia), guardei nos meus alfarrábios (ops!) esta matéria, da FSP, sobre cinema, que trazia,além da descrição do clima em torno da mesa,a receita de cuscuz com ingredientes do mar d’ O SEGREDO DO GRÃO (título original La Graine et le Mulet, premiado com o Cesar 2008). Provavelmente, de tão novo, o filme não integra o livro.
Em uma mesa grande e farta, uma família almoça. Todos falam muito alto e ao mesmo tempo. Não se trata de uma casa italiana. É uma cena da comunidade árabe mostrada no filme "O Segredo do Grão", do tunisiano Abdel Kechiche.Na emocionante história, o restaurador de barcos Slimane Beiji decide abrir um restaurante flutuante cuja especialidade é o cuscuz. O prato, que tem origem no Norte da África, na região do Magreb, tem o poder de unir as pessoas em torno da cozinha e da mesa".
Inspirada pelo filme, a chef Dinah Doctors criou uma receita de cuscuz com ingredientes do mar. Um prato para comer com os olhos e com os dedos - mas só os três primeiros, como manda a tradição árabe.
Vamos ao Couscous marinho:
Ingredientes:
Cuscuz
1 pacote de cuscuz médio
Molho
100 ml de azeite
2 cebolas médias picadas
1 pimentão vermelho bem picado
6 tomates médios sem sementes e sem pele, picados
500 g de camarões médios sem casca
300 g de lula em anéis
Sal e azeite extravirgem a gosto
Infusão de açafrão
4 pistilos de açafrão
100 ml de água
Preparo
Faça o cuscuz de acordo com as instruções da embalagem e reserve. Prepare, então, a infusão de açafrão: aqueça a água e acrescente os pistilos, deixando-os descansar por 10 minutos, até que a água fique tingida. Reserve. Coloque os 100 ml de azeite numa panela com a cebola picada e refogue rapidamente. Ponha o pimentão e deixe por mais 5 minutos. Acrescente os tomates e a infusão reservada, mexa e deixe no fogo até um pouco da água evaporar. Em seguida, coloque os camarões e deixe por mais cinco minutos. Por último, acrescente a lula, acerte o sal e deixe por mais dois minutos.
Montagem
Disponha o cuscuz no centro de cada prato formando uma pirâmide. Coloque o molho em volta e, depois, regue tudo com um pouco de azeite.
Me convida que eu levo o vinho.

SUPERINTERESSANTE

A Revista Superinteressante liberou para leitura e consulta todo o conteúdo das suas edições antigas, de 1987 a 2007. 20 ANOS!!!
Se você tem filhos, netos, sobrinhos...não deixe de indicá-los a leitura deste post! Sem dúvida, um rico material para pesquisa escolar.
Clicar no título

setembro 07, 2008

Buon appetito!

Clique no título acima e MOVIMENTE O MOUSE (sempre apertado) para visualizar.
Quando quiser parar, para conferir os detalhes, basta soltar.
Movimente para cima e para baixo, para esquerda e direita, etc...
Faça um giro de 360ª.
Veja o teto!!!
Viva a Italia!
Já estou achando isto melhor do que cenas de sexo...:) :)

Alma carioca

Se vc gostava dos simpáticos personagens criados pelo inesquecível Walt Disney, clique no título da postagem para se deleitar com o desenho animado Aquarela do Brasil!
Uma maravilha!!!