agosto 06, 2008

ENCRUZILHADAS E BALIZAS

Sala de espera de médico nos dá oportunidade de ler revistas velhas ou daquelas que nunca leríamos em outra circunstância, por serem direcionadas a eles e que depois de lidas são largadas à nossa disposição. Confesso que já arranquei página de alguma (há quem resista a uma crônica do Affonso Romano Sant’Anna?), em outra , me deparei com o tema da intolerância à lactose que até então nem sabia que existia, embora sofresse com isso desde sempre .
Hoje tomei um “chá de cadeira” quando fui tirar os pontos e a revista velha que me caiu nas mãos , de outubro do ano passado, para mim era nova. Nela, encontrei um artigo do Domenico De Masi(Ócio Criativo) que começa com este pensamento de Sêneca:
“Nenhum vento é favorável para o marinheiro que não sabe para onde ir”.
Trata da desorientação que marca nossa vida “pós-industrial”, da nossa incapacidade de traçar as coordenadas do presente e definir os portos de nosso futuro, para concluir que nos tornamos apáticos e nosso estilo de vida se tornou banal.
Em que balizas confiar para reduzir nossa desorientação?
Segundo De Masi, existem algumas certezas tranqüilizantes a nos orientar:
"... nunca antes a vida humana teve duração tão longa,
nunca pudemos produzir tantos bens e tantos serviços com tão pouco esforço físico, nunca as minorias foram tão respeitadas,
nunca tantos cidadãos estiveram inseridos na gestão da coisa pública,
nunca tivemos, como hoje, a capacidade de debelar a dor física".
E mais, dispomos de informatização e tecnologia cada vez mais desenvolvidas.

Além dessas confortantes certezas, devemos colocar cada coisa em seu devido lugar na escala de valores, sem nos deixar atropelar pela manipulação da mídia que nos induz a supervalorizar o fútil e ignorar o essencial; controlar a necessidade de riqueza e poder, para trazer nossa atenção para necessidades fundamentais de introspecção , amizade, amor, divertimento, convivência.
E ainda, nos convencer de que, se o nosso mundo não é o melhor dos mundos possíveis, nos resta o melhor dos mundos que já existiu.

PIZZA EM CONE!


Uma empresa, de nome Conicos, enviou ao BLOG do Marcelo Coelho o release de um novo produto, que "permite maior portabilidade em eventos como jogos de futebol, shows de rock e manifestações políticas".
Asseguram que o novo formato também garante a preservação da temperatura do recheio. Será brincadeira ou existe mesmo? Conheço gente para quem " pizza é como sexo, até quando é ruim é bom", que vai amar a novidade.

agosto 05, 2008

A dança das sombrinhas na nova China

Do Blog do Daniel Piza:
"Elas estão por toda parte, mesmo quando o céu não está tão azul e o sol não brilha tão forte – o que é comum em Pequim, cidade nublada pela poluição. E elas vão e vêm em todas as cores, formatos e tamanhos. São as sombrinhas que as mulheres de todas as idades carregam, numa dança rasante sobre a multidão de chineses que caminha pela cidade. Como o tai chi chuan, a caligrafia ou o chá, elas caracterizam a cultura local, traduzindo valores e gostos da sociedade.
Pois as sombrinhas – “yangsan”, como se diz em chinês (“yang” é “sol”) – não são apenas funcionais, não servem apenas para proteger do calor de 35 graus por uma questão de saúde. Elas servem também para a estética. Primeiro, porque as chinesas valorizam peles mais brancas, com certo elitismo, já que as peles mais escurras são associadas a trabalhadores braçais. É comum vê-las com espelhinhos passando maquiagem clara sobre o rosto. Segundo, porque as próprias sombrinhas são elementos de moda, que complementam a roupa, o visual em geral bem cuidado das chinesas.
Há sombrinhas rosas, laranjas, azuis; com florzinha, com rendado, com transparências; com a imagem da Hello Kitty, com florzinha, com coraçãozinho. A associação entre feminilidade e uma delicadeza com toques infantis é evidente. (As crianças, por sua vez, algumas vezes são vistas com toalhinhas molhadas sobre a cabeça, para refrescar.) As chinesas conduzem as sombrinhas com grande habilidade; não se vê ninguém sendo atingido. Elas fecham quando há aglomeração para entrar numa loja, por exemplo, e guardam rapidamente nas bolsas quando descem para o metrô.
É uma naturalidade que parece vir dos tempos do império, combinada à variedade da sociedade de consumo. As sombrinhas podem significar tanto a permanência de um ideal antiquado de mulher (denunciado em livros como os da escritora Xinran, autora de O que os Chineses não Comem), submissa e vaidosa ao mesmo tempo, como podem significar a multiplicação das opções, o fim da padronização promovido pelo mercado. Na nova China, as sombrinhas protegem o passado e revelam o futuro."

BEIJING OLYMPIC GREENS


Resistindo a overdose de informações inúteis e me rendendo a imagens como esta!

agosto 03, 2008

MADI - Além da moldura




No Museu de Arte Contemporânea de Fortaleza se encontram expostas 81 obras do MADI (movimento, abstração,dimensão, invenção), que teve início na América Latina nos anos 1940 e conta com a participação de artistas de todo o mundo: Alemanha, França, Itália, Espanha, Estados Unidos, Japão e Hungria. Em 1944, Carmelo Arden Quin editou, na Argentina, a revista Arturo, que formalizou o seu surgimento. O grupo diz ter recebido influências de Kandinsky, Mondrian, Klee, Malevich, Cézanne e Bauhaus, entre outros.No Brasil, o único museu que dispõe de obras desse movimento é o Museu Madi de Sobral. Recortes de madeira se encaixam em curvas e ângulos, pedaços de latão e acrílico se dispõem em variadas direções. Peças suspensas ou sobrepostas, com cores vibrantes ou neutras. As obras despertam para uma atitude participante, não apenas contemplativa, apresentando uma estética em que criação e geometria coincidem. Uma experiência geométrica que se expressa em cores, espaços, formas, linhas, pontos ordenados, sugerindo um novo potencial visual, espacial e auditivo. Dá vontade de ter uma na parede de nossa sala!
Segundo José Guedes, diretor do Museu Madi de Sobral e curador da exposição Madi em Fortaleza : "Eles foram inovadores em várias questões do século XX. A primeira é a mudança na arte, a quebra da janela renascentista. O quadro era regular e eles transformaram a obra em formatos irregulares. Isso já era um avanço, a própria moldura era questionada, o desenho incorporava a moldura, que passava a ser parte integrante na obra, que passou a ser mais interativa".
O José Guedes foi meu aluno no início da década de 80. Certa vez me confessou que estudava Direito por ser o sonho de sua mãe vê-lo formado, mas que ele iria ser artista plástico. Conseguiu o seu objetivo.

BRENNAND

Fui ver no Centro Cultural Dragão do Mar a exposição Francisco Brennand uma introdução: “ O verdadeiro tema de sua obra, tratado obsessivamente e à exaustão, foi e continua sendo o destino trágico do homem, sua infelicidade essencial, hoje como ontem e amanhã. A informação acima corrige antiga e equivocada idéia - não sei de onde tirada - de que BRENNAND busca inspiração na arte sacra e no folclore nordestino.
Talvez em virtude de sua Oficina encontrar-se no Recife... A exposição revela uma arte estranha, dramática com muita morbidez e violenta carga de sexualidade (não de erotismo ). Provoca um grande impacto e a sensação é de que estamos em algum monumento da antiguidade oriental , num templo ou num palácio. São personagens da história antiga e da européia, da mitologia greco- romana, da Bíblia e o que os interliga são seus destinos trágicos , sangrentos (Diana Caçadora, Édipo Rei, Mercúrio Aprisionado , Joana D ‘Arc, Semíramis, Inês de Castro, Maria Antonieta, Helena de Tróia, Dante, Brutus, dentre muitos outros. Estão expostas também algumas obras alegóricas, personificando conceitos e valores do mundo clássico: Hybris, Gnose ... A sexualidade na obra de Brennand associa-se à forças religiosas, à cópulas ferozes, ao instinto de sobrevivência, corporificando “ algo anterior talvez até avesso ao prazer “. As Vênus de seu templo são figuras totêmicas com vaginas e nádegas enormes, que no âmbito do pensamento mágico induz à procriação da espécie . Os falos gigantes tem mais a ver com rituais bárbaros. São os falos do sacrifício não do gozo.AMANTES é o nome desta escultura:cabeças presas por parafusos.
No conjunto de pinturas e desenhos, a mulher constitui sempre seu centro de interesse. Não tenho notícia de que nenhum outro artista tenha feito algo parecido em nosso tempo, em qualquer outro lugar do mundo.
Serviço: esta exposição estará em POA em 08/10 e em BH 11/12.

agosto 01, 2008

A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS

Este é um filme belíssimo de Isabel Coixet (mesma diretora de Minha vida sem mim) que, desde 2006, venho indicando aos meus amigos que me pedem uma dica de cinema.
"Nós éramos 15 mulheres aprisionadas num hotel. Eles nos estupravam seguidamente, todos os dias, várias vezes por dia. Quando alguma de nós gritava, um daqueles soldados dizia: 'Ah, você está gritando. Agora eu vou te dar motivo para gritar.' O soldado então pegava uma faca afiada, fazia pequenos cortes em diversas partes do corpo dessa mulher, colocava sal e depois fechava o corte com agulha e linha de costura. A minha melhor amiga morreu depois de sangrar lentamente durante muito tempo..."
O trecho acima são recordações da personagem Hanna mostrando em seu corpo as cicatrizes. O filme é baseado em fatos reais. Os soldados a que ela se refere eram sérvios, que agiam sob a complacência do carniceiro Radovan Karadzic, preso esta semana. O que mais assusta neste caso não é apenas a crueldade, mas o fato de as atrocidades terem sido cometidas há pouco mais de uma década, no coração da Europa.