agosto 03, 2008

MADI - Além da moldura




No Museu de Arte Contemporânea de Fortaleza se encontram expostas 81 obras do MADI (movimento, abstração,dimensão, invenção), que teve início na América Latina nos anos 1940 e conta com a participação de artistas de todo o mundo: Alemanha, França, Itália, Espanha, Estados Unidos, Japão e Hungria. Em 1944, Carmelo Arden Quin editou, na Argentina, a revista Arturo, que formalizou o seu surgimento. O grupo diz ter recebido influências de Kandinsky, Mondrian, Klee, Malevich, Cézanne e Bauhaus, entre outros.No Brasil, o único museu que dispõe de obras desse movimento é o Museu Madi de Sobral. Recortes de madeira se encaixam em curvas e ângulos, pedaços de latão e acrílico se dispõem em variadas direções. Peças suspensas ou sobrepostas, com cores vibrantes ou neutras. As obras despertam para uma atitude participante, não apenas contemplativa, apresentando uma estética em que criação e geometria coincidem. Uma experiência geométrica que se expressa em cores, espaços, formas, linhas, pontos ordenados, sugerindo um novo potencial visual, espacial e auditivo. Dá vontade de ter uma na parede de nossa sala!
Segundo José Guedes, diretor do Museu Madi de Sobral e curador da exposição Madi em Fortaleza : "Eles foram inovadores em várias questões do século XX. A primeira é a mudança na arte, a quebra da janela renascentista. O quadro era regular e eles transformaram a obra em formatos irregulares. Isso já era um avanço, a própria moldura era questionada, o desenho incorporava a moldura, que passava a ser parte integrante na obra, que passou a ser mais interativa".
O José Guedes foi meu aluno no início da década de 80. Certa vez me confessou que estudava Direito por ser o sonho de sua mãe vê-lo formado, mas que ele iria ser artista plástico. Conseguiu o seu objetivo.

BRENNAND

Fui ver no Centro Cultural Dragão do Mar a exposição Francisco Brennand uma introdução: “ O verdadeiro tema de sua obra, tratado obsessivamente e à exaustão, foi e continua sendo o destino trágico do homem, sua infelicidade essencial, hoje como ontem e amanhã. A informação acima corrige antiga e equivocada idéia - não sei de onde tirada - de que BRENNAND busca inspiração na arte sacra e no folclore nordestino.
Talvez em virtude de sua Oficina encontrar-se no Recife... A exposição revela uma arte estranha, dramática com muita morbidez e violenta carga de sexualidade (não de erotismo ). Provoca um grande impacto e a sensação é de que estamos em algum monumento da antiguidade oriental , num templo ou num palácio. São personagens da história antiga e da européia, da mitologia greco- romana, da Bíblia e o que os interliga são seus destinos trágicos , sangrentos (Diana Caçadora, Édipo Rei, Mercúrio Aprisionado , Joana D ‘Arc, Semíramis, Inês de Castro, Maria Antonieta, Helena de Tróia, Dante, Brutus, dentre muitos outros. Estão expostas também algumas obras alegóricas, personificando conceitos e valores do mundo clássico: Hybris, Gnose ... A sexualidade na obra de Brennand associa-se à forças religiosas, à cópulas ferozes, ao instinto de sobrevivência, corporificando “ algo anterior talvez até avesso ao prazer “. As Vênus de seu templo são figuras totêmicas com vaginas e nádegas enormes, que no âmbito do pensamento mágico induz à procriação da espécie . Os falos gigantes tem mais a ver com rituais bárbaros. São os falos do sacrifício não do gozo.AMANTES é o nome desta escultura:cabeças presas por parafusos.
No conjunto de pinturas e desenhos, a mulher constitui sempre seu centro de interesse. Não tenho notícia de que nenhum outro artista tenha feito algo parecido em nosso tempo, em qualquer outro lugar do mundo.
Serviço: esta exposição estará em POA em 08/10 e em BH 11/12.

agosto 01, 2008

A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS

Este é um filme belíssimo de Isabel Coixet (mesma diretora de Minha vida sem mim) que, desde 2006, venho indicando aos meus amigos que me pedem uma dica de cinema.
"Nós éramos 15 mulheres aprisionadas num hotel. Eles nos estupravam seguidamente, todos os dias, várias vezes por dia. Quando alguma de nós gritava, um daqueles soldados dizia: 'Ah, você está gritando. Agora eu vou te dar motivo para gritar.' O soldado então pegava uma faca afiada, fazia pequenos cortes em diversas partes do corpo dessa mulher, colocava sal e depois fechava o corte com agulha e linha de costura. A minha melhor amiga morreu depois de sangrar lentamente durante muito tempo..."
O trecho acima são recordações da personagem Hanna mostrando em seu corpo as cicatrizes. O filme é baseado em fatos reais. Os soldados a que ela se refere eram sérvios, que agiam sob a complacência do carniceiro Radovan Karadzic, preso esta semana. O que mais assusta neste caso não é apenas a crueldade, mas o fato de as atrocidades terem sido cometidas há pouco mais de uma década, no coração da Europa.

julho 31, 2008

HISTÓRIAS DE MULHERES

Histórias de mulheres é o novo livro da jornalista e escritora espanhola Rosa Montero que estou lendo, cercada de mordomias , enquanto convalesço de uma pequena cirurgia, na casa de minha amiga Veve.
Não se trata de mais um livro contando a vida de “mulheres extraordinárias”. O que tem de melhor é que suas vidas são contadas a partir da perspectiva de ruptura com os padrões de comportamento esperado da sociedade de seu tempo.
Rosa Montero traça perfis (não biografias), de mulheres que lutaram contra os preconceitos, fugiram dos padrões e reivindicaram a liberdade de assumir sua humanidade plena. Há mulheres perversas e terríveis, há as que naufragaram completamente e outras ambíguas e complexas, com feitos admiráveis e detalhes horrendos.
Na introdução (magnífica), intitulada A vida invisível, são analisados desde os primeiros mitos de nossa cultura, a criação do mundo, passando pela mitologia grega e a tradição judaica, demonstrando que as mulheres sempre foram cidadãs de segunda classe.
A partir da Revolução Francesa, passou-se a pensar que “ ou a igualdade era para todos os indivíduos, ou não era para ninguém”. Mas a guilhotina foi o destino de muitas dessas revolucionárias, como Olympes de Gouges, que ousou escrever a “Declaração dos direitos universais da mulher”. No século seguinte a mulher entrou na categoria de mistério científico ( a “medicalização do feminino”) quando passou a ser vista como anormal. Enquanto que a tragédia das mulheres no século XIX era a de viver vidas sem sentido, num ambiente social hostil ao feminino.
O livro sublinha que, por pior que fossem as condições externas, sempre houve mulheres capazes de escapar de “destinos tão estreitos quanto um túmulo”.
“Quero dizer que metade da humanidade, a parte feminina, viveu durante milênios uma existência freqüentemente clandestina e em grande parte esquecida, mas sempre muito mais rica do que o molde social a que estava presa, sempre acima dos preconceitos e dos estereótipos. Com este livro, enfim, eu só aspiro a lançar um breve olhar para essas trevas”
Leitura recomendável não só para mulheres.

Escutas Seletivas

Nesta temporada por aqui, o tema da surdez - que atinge alguns da família - tem sido recorrente. Já recebi e-mail com “alerta” e recomendação de clínica onde fazer avaliação. De tão disseminado o mal, eu não teria como não ser acometida. ( Cá pra nós, vc pensava que a sua família era esquisita...)
Não se pode levar muito a sério. Afinal, nesta “população" de risco de surdez, há uma incidência considerável de hipocondria , gosto por relatos de casos mórbidos, ocorridos com o primo do amigo do cunhado da vizinha.... Estórias bem “escutadas”, das quais não escapa nenhum detalhe, nenhum sintoma que não possa ser, posteriormente, examinado, “por via das dúvidas”, claro!
Estariam no rol dos que só ouvem o que querem? Pois é, dentre os surdos da família existe esta simpática categoria . Afinal, selecionar o que se escuta pode ser uma interessante estratégia (de defesa, na maioria das vezes). Mas a questão do uso ou não de aparelho, ou de desligá-lo quando entende conveniente, não vem ao caso, nem me interessa .
Dá o que pensar é a comunicação, ou a falta dela, entre os não surdos.
“Não me lembro” ou “não escuto”, não é mais privilégio de que, não faz tanto tempo, só os velhos, bem velhos, gozavam. A escuta seletiva se difundiu. Observa-se que vendedores, garçons, atendentes em geral não escutam o que se diz da primeira vez . Me questiono se falei a coisa certa, porque não me fiz entender ou se o que tentei dizer/pedir/perguntar não tem aquele nome. Tenho procurado primeiro em mim, a razão para tudo ter que ser repetido, pelo menos uma vez. Para só depois pensar : será que é a atenção do “ouvinte” que não se fixa durante uma frase inteira? Isto se evidencia nos bares/restaurantes ( água com gás ou sem gás, esta cerveja e não aquela), taxistas que parecem ouvir, mas pouco depois perguntam o destino, são exemplos.
Num artigo interessante,lido na Folha, a psicanalista Anna Veronica Mautner diz que isto não acontece quando a pessoa "se sente honrada de estar onde está, fazendo o que faz". Portanto se a qualidade da relação da pessoa com sua função está deteriorada tudo passa a funcionar como se ela já soubesse tudo o que pode acontecer.
Entediados, se desligam, deduzindo o resto da frase. E a gente que se disponha a repetir, de preferência, sem se irritar!!!
Fora desse âmbito, verifica-se um outro tipo de bloqueio que funciona para a voz que vem de dentro de nós. É comum, num bate-papo informal , a gente dizer ou ouvir : "Como é mesmo que se chama?", "Como se diz?".
Curioso é que, quando se trata de trabalho/ conferência/aula/ reunião profissional ou qualquer outro interesse especial, se recuperam, por milagre, todas as sinapses!
Colocar a culpa no stress da vida moderna está na moda Mas a questão é saber como funciona essa barreira entre vivência do agora, sumiço de palavras e a ameaça do "alemão" que paira sobre todos nós.
Voltando ao bloqueio da escuta da voz que vem de fora, o jeito é concordar que o que conta mesmo é a, cada vez mais rara, relação feliz com a vida.

julho 30, 2008

Love for Sale - Dianne Reeves

PRATOS


Objeto de desejo entre colecionadores e instrumento de comemoração nas festas gregas ( embora nem mesmo os gregos saibam por que são quebrados), os pratos substituíram as fatias de pão e as pranchas de madeira utilizadas para amparar os alimentos.














Hábitos mais civilizados à mesa só foram adquiridos a partir da Renascença e foi só no século XVIII que a porcelana substituiu a faiança (louça coberta com esmalte originária da cidade italiana de Faenza) A fórmula da porcelana foi descoberta por um alquimista saxão. Sua fabricação foi artesanal até a Revolução Industrial, quando as famílias abastadas passaram a consumir objetos fabricados em série , entre eles o serviço de louça.
Transformado, o prato chega ao século XX como objeto comum a todas as cozinhas do mundo.O que não impediu que algumas pessoas tratassem seus pratos como objetos únicos e outras os colocassem na parede, como uma bela obra de arte.

Piero Fornasetti foi um dos que acreditou que cabia mais do que comida em um prato. Assim, este artista milanês (que além de escultor, pintor e decorador era também ótimo gravurista) inspirou-se no universo mágico do surrealismo, para dar vida a vários objetos de decoração, com suas imagens estampadas de borboletas, jornais, flores ou figuras humanas que viraram hit nos anos 50 e influenciaram toda a estética da época - tanto na decoração como na moda.
Buscou no rosto da soprano Lina Cavalieri, cuja imagem foi encontrada em uma revista do século XIX, inspiração para suas criações.
Prato encanta seja pela falta de moldura ou pela circularidade e em alguns restaurantes já virou até souvenir. No Delícias do Campo, em Florianóplis, não tem dois pratos iguais.
E cada um é mais lindo do que o outro!!!

julho 29, 2008

"Great Chinese State Circus"


"ABSOLUTAMENTE SOBERBO!
Um Lago dos Cisnes diferente e espectacular!
E as rãs no início têm uma coreografia lindíssima".
São comentários do Antonio ao me enviar esta maravilha.
Impossível não concordar.

A propósito de Cafés


No início do século XVIII , em Paris já existiam 600 cafés.
Editores forneciam os endereços dos cafés que freqüentavam para receber correspondência, negociantes faziam deles seus escritórios e escritores neles se instalavam para escrever, envoltos em fumaça, tilintar de xícaras e burburinho de conversas .
Para Montesquieu , os cafés “ eram perigosos para o futuro do país”.
Não era exagero. As discussões liberais que culminaram com a Queda da Bastilha aconteceram num café , o PROCOPE .
Anos depois, no mesmo Café Procope “deslizaram as penas” de Victor Hugo e Balzac que era conhecido por escrever cerca de quinze horas por dia, impulsionado por uma infinidade de xícaras de café. O Café Procope é um ambiente requintado que inovou ao proporcionar às mulheres a possibilidade de freqüentá-lo e por afixar notícias diárias que contribuíram para que fosse eleito o preferido da intelectualidade francesa e se tornasse o primeiro café literário do país. (mesa em que Voltaire trabalhava)
Molière, Voltaire e Rousseau eram freqüentadores . Dizem que Benjamin Franklin trabalhou ali na redação da declaração de independência dos EUA. Os parisienses mantiveram com o passar dos séculos o hábito de fazer dos cafés uma extensão de suas casas ...
Ficar "vendo a vida passar" em um deles não tem preço!!!