julho 06, 2008

VIOLINOS NÃO ENVELHECEM

Eu a escrevi faz muito tempo --- uma estória de amor. Quem a leu, eu sei não se esqueceu.
Por razão do dito pela Adélia: “o que a memória ama fica eterno".
História de amor não inventada, acontecida, tão comovente quanto Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa. O que fiz foi só registrar o acontecido.
Preciso contá-la de novo, para benefício daqueles que não a leram pela primeira vez, e a fim de acrescentar um final novo, inesperado, acontecido depois.
A testemunha que me relatou o sucedido foi sobrinho, médico-músico, pessoa querida e bonita.
Atrasou-se para um compromisso na minha casa, chegou três horas depois, explicando que havia ido ao velório de um tio de 81 anos de idade que morrera de amor. Parece que seu velho corpo não suportara a intensidade da felicidade tardia, e os seus músculos não deram conta do jovem que, repentinamente, dele se apossara.
O amor surgira no tempo em que ele é mais puro: a adolescência.
Mas naqueles tempos havia uma outra Aids, chamada tuberculose, que se comprazia em atacar as pessoas bonitas, os artistas, os apaixonados --- esses eram os grupos de risco.
Pois ela, a tuberculose, invejosa da felicidade dos dois, alojou-se nos pulmões do moço, que teve de ir em busca de ar puro, no alto das montanhas, sanatório, tal como Thomas Mann descreve em seu livro –A montanha mágica.
Quem ia para tais lugares despedia-se com um "adeus", um olhar de "nunca mais".
Na melhor das hipóteses, muitos anos haveriam de passar antes do reencontro.
Imagino o sofrimento da jovem dividida: o corpo, naquela casa, a alma por longe terra!
Na vida daquela menina, que surda, perdida guerra... (Cecília Meireles).
Valeram mais os prudentes conselhos da mãe e do pai: não trocar o certo pelo duvidoso.
Vale mais um negociante vivo que um tuberculoso morto. E aconteceu com ela o que aconteceu com a Firmina Dazza, que de longe e às escondidas namorava o Fiorentino Ariza, na estória de Gabriel García Márquez Amor nos tempos do cólera, que foi obrigada pelo pai a se casar com o doutor Urbino: não se troca um médico por um escriturário. Casou e com ele ficou até que, depois de 51 anos, veio à libertação...
Ela casou. Ele casou. Nunca mais se viram. Quando ele tinha 76 anos, ficou viúvo. Quando ela tinha 76 anos (ele tinha 79), ela ficou viúva. E ficou sabendo que ele estava vivo. A curiosidade e a saudade foram fortes demais. Foi procurá-lo. Encontraram-se. E, de repente, eram namorados adolescentes de novo.
Resolveram casar-se. Os filhos protestaram. Eles, os filhos, todos os filhos, não suportam a idéia de que os velhos também têm sexo.
Especialmente os pais. Pais velhos devem ser fofos, devem saber contar estórias, devem tomar conta dos netos. Mas velho apaixonado é coisa ridícula. Não combina. Mais detalhes no livro da Simone de Beauvoir sobre a velhice. E houve também aquela estória do programa Você decide: o velho pai, infeliz a vida inteira com a esposa, encontra uma mulher por quem se apaixona.
A pergunta: ele deve ou não deve deixar a esposa para viver o novo amor?
Você decide... A decisão do público --- os filhos, evidentemente: "Não, ele não deve viver o novo amor..."
Os filhos sempre decidem contra o amor dos pais.
Mas, na nossa estória, os dois velhos deram uma solene banana para os filhos e foram viver juntos em Poços de Caldas. Viveram um ano de amor maravilhoso, e ele até começou a escrever poesia e voltou a tocar o violino que ficara por mais de 50 anos sobre um guarda roupa, porque a esposa não gostava de música de violino. Confessou ao sobrinho: “Se Deus me der dois anos de vida com esta mulher, minha vida terá valido a pena..." Bem que Deus quis. Mas o corpo não deixou.
Morreu de amor, como temia o Vinícius.
Achei a estória tão bonita que a transformei numa crônica a que dei um título inspirado nas Sagradas
Escrituras: "... e os velhos se apaixonarão de novo".
Começa aqui o novo final para a estória.
Passaram-se semanas. Eram dez horas. Eu estava trabalhando no meu escritório. O telefone tocou. Voz aveludada de mulher do outro lado.
--- É o professor Rubem Alves?
--- Sim, respondi secamente. Eu sou sempre seco ao telefone.
--- Quero agradecer a belíssima crônica que o senhor escreveu com o título:" ...e os velhos se apaixona-rão de novo". O senhor já deve ter adivinhado quem está falando....
--- Não, respondi. Por vezes eu sou meio burro. Aí ela se
revelou:
--- Sou a viúva.
Foi o início de uma deliciosa conversa de mais de 40 minutos, interurbano, em que ela contou detalhes que eu desconhecia. O medo que ela teve quando ele resolveu mandar consertar o violino! Ela temia que os dedos dele já estivessem duros demais...
Ah! Que metáfora fascinante para um psicanalista sensível!
Sim, sim! Nem os violinos ficam velhos demais, nem os dedos ficam impotentes para produzir música! E aí foi contando, contando, revivendo, sorrindo, chorando --- tanta alegria, tanta saudade, uma eternidade inteira num grão de areia... Ao terminar, ela fez esta observação maravilhosa:
--- Pois é, professor. Na idade da gente, a gente não mexe
muito com sexo. A gente vive de ternura!
Rubem Alves

julho 05, 2008

Estereótipos

Percebo, cada vez mais nitidamente, o quanto os objetos que possuímos e/ou consumimos são decisivos para nossa significação pessoal e o quanto refletem na organização da escala social de valores.
Chegamos ao ponto de não saber se os consumimos pela satisfação que nos proporcionam ou se esperamos que nos definam, que nos façam valer, que nos tornem amáveis e aceitáveis.
A sonhada adequação aos estereótipos tem nos subjugado não só à tirania dos objetos, mas também da imagem.
Sempre nos falta algo que nos ponha de acordo com o figurino. A partir desta crônica inadequação tendemos a acreditar que fora da imagem vigente não somos grande coisa.
Por outro lado, nossa inadequação nos deixa a ilusão de sermos diferentes , mas porque dotados de consciência crítica que sabe constatar que algo nos falta para compor a imagem perfeita. Mas destino pior é o de quem acredita em sua perfeita coincidência com um estereótipo social, aderindo a ele como a sua própria natureza. O simples fato de envelhecer para estas pessoas é uma queda infinita no abismo do nada.
Isto me ocorre, a propósito do “relaxamento” que fiz nos meus cachos...
Teria cedido ao império da imagem?

julho 03, 2008

Enquanto isto, na FLIP....

A escritora portuguesa INÊS PEDROSA lança o romance A Eternidade e o Desejo, fazendo crítica veemente ao conceito de literatura feminina :
"Não ouço falar na literatura masculina. Não acredito nessa coisa da literatura das mulheres, dos negros, dos judeus, das pessoas com deficiência etc. A literatura se divide entre boa e má. O escritor tem a obrigação de ser hermafrodita".
"Em congressos internacionais, há uma sala maior onde estão os homens a discutir o estudo e as grandes questões da literatura contemporânea. E as mulheres a discutir se são femininas ou não. Acho uma discussão meio ridícula".
A escritora sugere que buscar uma forma de tratar o sexo nas letras é algo mais interessante e contemporâneo do que a idéia de uma literatura feminina, pois há uma nova vivência do sexo e cabe aos escritores inovarem sua representação. "E aí é a única área onde se pode falar de gênero na literatura, pois as mulheres ainda são censuradas quando escrevem sobre sexo com ousadia."
BRAVO!!!

julho 01, 2008

O Escafandro e a Borboleta


Le Scaphandre et le Papillon, França, 2007)
Jean-Dominique Bauby tem 43 anos, é editor da revista Elle. Sofre um acidente cerebral e, ao sair dele, todas as suas funções motoras estão deterioradas: não podia mexer-se, comer, falar e nem mesmo respirar sem ajuda de aparelhos. Em seu corpo inerte, só um olho se mexia. Esse olho – o esquerdo – é o vínculo que ele tem com o mundo, com os outros, com a vida.Contando com o que nele não se paralisou: sua imaginação e sua memória, cria um mundo próprio e, assim consegue escrever e publicar um livro autobiográfico com uma mensagem de esperança poderosa.
«O Escafandro e a Borboleta» foi apresentado no Festival de Cannes de 2007.
É fácil definir o filme como uma nova versão de MAR ADENTRO - mas não verdadeiro. No filme de Amenábar, o personagem luta pelo direito à morte, que vê como uma maneira de afirmar a vida. A luta de Bauby é por outra coisa. O extremo isolamento lhe dá uma outra percepção da vida. A família, o amor, tudo o que ele está perdendo passa a ocupar o primeiro plano. Sua luta, no limite, é pela linguagem, para se comunicar.
Bauby escreve, ou melhor, consegue ditar um livro, mas, até chegar lá, ele vive a metáfora do título. O escafandro, pesado, o puxa para o fundo do mar. Mas sua imaginação é uma borboleta querendo voar. O ESCAFANDRO E A BORBOLETA é o melhor filme de Schnabel - melhor que ANTES DO ANOITECER.

Lei seca

Acabo de chegar do aniversário de uma amiga onde tomei duas taças de vinho e tive que pedir o irmão dela para dirigir para mim ....
Esta é, sem dúvida, mais uma estupidez que assola o Brasil. Trata-se de uma medida reacionária e xiita que só vai contribuir para aumentar a corrupção
Se o interesse é punir os bêbados no volante, já tínhamos leis que puniam motoristas que tivessem mais do que 6 dg de álcool por litro de sangue. E isto já era mais rigoroso do que os limites em vigor no Canadá e Estados Unidos.
A diferença é que lá a quantidade de álcool permitida era maior (e não suficiente para embebedar ninguém), mas a fiscalização é séria. Mesmo podendo ter 8 dg de álcool por litro de sangue, os norte-americanos são muito cuidadosos com suas taças de vinho se vão dirigir, pois sabem que podem ir para a cadeia mesmo.
Os moralistas do Brasil (com uma base parlamentar para isso) preferiram tornar o país mais xiita e corrupto, colocando um limite de álcool que equivale, na prática, a proibir qualquer consumo de bebida alcoólica para quem vai dirigir.
É sobre os bêbados no volante que deveria se voltar a fiscalização. O novo limite imposto no Brasil é na verdade um ataque disfarçado ao consumo puro e simples de bebidas alcoólicas.