julho 01, 2008
O Escafandro e a Borboleta
Le Scaphandre et le Papillon, França, 2007)
Jean-Dominique Bauby tem 43 anos, é editor da revista Elle. Sofre um acidente cerebral e, ao sair dele, todas as suas funções motoras estão deterioradas: não podia mexer-se, comer, falar e nem mesmo respirar sem ajuda de aparelhos. Em seu corpo inerte, só um olho se mexia. Esse olho – o esquerdo – é o vínculo que ele tem com o mundo, com os outros, com a vida.Contando com o que nele não se paralisou: sua imaginação e sua memória, cria um mundo próprio e, assim consegue escrever e publicar um livro autobiográfico com uma mensagem de esperança poderosa.
«O Escafandro e a Borboleta» foi apresentado no Festival de Cannes de 2007.
É fácil definir o filme como uma nova versão de MAR ADENTRO - mas não verdadeiro. No filme de Amenábar, o personagem luta pelo direito à morte, que vê como uma maneira de afirmar a vida. A luta de Bauby é por outra coisa. O extremo isolamento lhe dá uma outra percepção da vida. A família, o amor, tudo o que ele está perdendo passa a ocupar o primeiro plano. Sua luta, no limite, é pela linguagem, para se comunicar.
Bauby escreve, ou melhor, consegue ditar um livro, mas, até chegar lá, ele vive a metáfora do título. O escafandro, pesado, o puxa para o fundo do mar. Mas sua imaginação é uma borboleta querendo voar. O ESCAFANDRO E A BORBOLETA é o melhor filme de Schnabel - melhor que ANTES DO ANOITECER.
Lei seca
Acabo de chegar do aniversário de uma amiga onde tomei duas taças de vinho e tive que pedir o irmão dela para dirigir para mim ....
Esta é, sem dúvida, mais uma estupidez que assola o Brasil. Trata-se de uma medida reacionária e xiita que só vai contribuir para aumentar a corrupção
Se o interesse é punir os bêbados no volante, já tínhamos leis que puniam motoristas que tivessem mais do que 6 dg de álcool por litro de sangue. E isto já era mais rigoroso do que os limites em vigor no Canadá e Estados Unidos.
A diferença é que lá a quantidade de álcool permitida era maior (e não suficiente para embebedar ninguém), mas a fiscalização é séria. Mesmo podendo ter 8 dg de álcool por litro de sangue, os norte-americanos são muito cuidadosos com suas taças de vinho se vão dirigir, pois sabem que podem ir para a cadeia mesmo.
Os moralistas do Brasil (com uma base parlamentar para isso) preferiram tornar o país mais xiita e corrupto, colocando um limite de álcool que equivale, na prática, a proibir qualquer consumo de bebida alcoólica para quem vai dirigir.
É sobre os bêbados no volante que deveria se voltar a fiscalização. O novo limite imposto no Brasil é na verdade um ataque disfarçado ao consumo puro e simples de bebidas alcoólicas.
Esta é, sem dúvida, mais uma estupidez que assola o Brasil. Trata-se de uma medida reacionária e xiita que só vai contribuir para aumentar a corrupção
Se o interesse é punir os bêbados no volante, já tínhamos leis que puniam motoristas que tivessem mais do que 6 dg de álcool por litro de sangue. E isto já era mais rigoroso do que os limites em vigor no Canadá e Estados Unidos.
A diferença é que lá a quantidade de álcool permitida era maior (e não suficiente para embebedar ninguém), mas a fiscalização é séria. Mesmo podendo ter 8 dg de álcool por litro de sangue, os norte-americanos são muito cuidadosos com suas taças de vinho se vão dirigir, pois sabem que podem ir para a cadeia mesmo.
Os moralistas do Brasil (com uma base parlamentar para isso) preferiram tornar o país mais xiita e corrupto, colocando um limite de álcool que equivale, na prática, a proibir qualquer consumo de bebida alcoólica para quem vai dirigir.
É sobre os bêbados no volante que deveria se voltar a fiscalização. O novo limite imposto no Brasil é na verdade um ataque disfarçado ao consumo puro e simples de bebidas alcoólicas.
junho 30, 2008
A Serenata
Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
Adélia Prado
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
Adélia Prado
"Doidas e santas"
"Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa." São versos de Adélia Prado, retirados do poema "A serenata". Ele narra a inquietude de uma mulher que imagina que mais cedo ou mais tarde um homem virá arrebatá-la, logo ela que está envelhecendo e está tomada pela indecisão - não sabe como receber um novo amor não dispondo mais de juventude. E encerra: "De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?"
Adélia é uma poeta danada de boa. E perspicaz. Como pode uma mulher buscar uma definição exata para si mesma estando em plena meia-idade, depois de já ter trilhado uma longa estrada, onde encontrou alegrias e desilusões, e tendo ainda mais estrada pela frente? Se ela tiver coragem de passar por mais alegrias e desilusões - e a gente sabe como as desilusões devastam -, terá que ser meio doida. Se preferir se abster de emoções fortes e apaziguar seu coração, então a santidade é a opção. Eu nem preciso dizer o que penso sobre isso, preciso?
Mas vamos lá. Pra começo de conversa, não acredito que haja uma única mulher no mundo que seja santa. Os marmanjos devem estar de cabelo em pé: como assim, e a minha mãe???
Nem ela caríssimos, nem ela.
Existe mulher cansada, que é outra coisa. Ela deu tanto azar em suas relações que desanimou. Ela ficou tão sem dinheiro de uns tempos pra cá que deixou de ter vaidade. Ela perdeu tanto a fé em dias melhores que passou a se contentar com dias medíocres. Guardou sua loucura em alguma gaveta e nem lembra mais.
Santa, mesmo, só Nossa Senhora, mas, cá entre nós, não é uma doideira o modo como ela engravidou? (Não se escandalize, não me mande e-mails, estou brin-can-do.)
Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar nosso poder de sedução para encontrar the big one, aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá para ocupar uma vida, não é mesmo? Mas além disso temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir de vez em quando que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo pro alto e embarcar num navio pirata comandado pelo Johnny Depp, ou então virar louca e cafetina, ou sei lá, diga aí uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.
Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três dessas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascina a todos.
Todas as mulheres estão dispostas a abrir a janela, não importa a idade que tenham. Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota. Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseje mais nada? Você vai concordar comigo: só se for louca de pedra."
Martha Medeiros
Revista O Globo 13.04.2008
Adélia é uma poeta danada de boa. E perspicaz. Como pode uma mulher buscar uma definição exata para si mesma estando em plena meia-idade, depois de já ter trilhado uma longa estrada, onde encontrou alegrias e desilusões, e tendo ainda mais estrada pela frente? Se ela tiver coragem de passar por mais alegrias e desilusões - e a gente sabe como as desilusões devastam -, terá que ser meio doida. Se preferir se abster de emoções fortes e apaziguar seu coração, então a santidade é a opção. Eu nem preciso dizer o que penso sobre isso, preciso?
Mas vamos lá. Pra começo de conversa, não acredito que haja uma única mulher no mundo que seja santa. Os marmanjos devem estar de cabelo em pé: como assim, e a minha mãe???
Nem ela caríssimos, nem ela.
Existe mulher cansada, que é outra coisa. Ela deu tanto azar em suas relações que desanimou. Ela ficou tão sem dinheiro de uns tempos pra cá que deixou de ter vaidade. Ela perdeu tanto a fé em dias melhores que passou a se contentar com dias medíocres. Guardou sua loucura em alguma gaveta e nem lembra mais.
Santa, mesmo, só Nossa Senhora, mas, cá entre nós, não é uma doideira o modo como ela engravidou? (Não se escandalize, não me mande e-mails, estou brin-can-do.)
Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar nosso poder de sedução para encontrar the big one, aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá para ocupar uma vida, não é mesmo? Mas além disso temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir de vez em quando que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo pro alto e embarcar num navio pirata comandado pelo Johnny Depp, ou então virar louca e cafetina, ou sei lá, diga aí uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.
Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três dessas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascina a todos.
Todas as mulheres estão dispostas a abrir a janela, não importa a idade que tenham. Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota. Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseje mais nada? Você vai concordar comigo: só se for louca de pedra."
Martha Medeiros
Revista O Globo 13.04.2008
junho 27, 2008
APARIÇÃO
Este é o meu primeiro contato com o escritor português Vergílio Ferreira tão pouco lido por estas bandas....Mas a verdade é que, no geral, se lê muito pouco.
“Aparição” é um constante questionamento existencial que, em muitas momentos, nos faz lembrar Camus.
É a estória contada pelo jovem Alberto que chega à Évora, numa manhã de setembro, para ser professor do Liceu.
“A cidade resplandecia a um sol familiar, branca, enredada de ruas como de velhas ciladas, semeada de ruínas, de arcos partidos, nichos de santos das orações de outras eras, janelas góticas, como olhares embiocados. Évora mortuária, encruzilhada de raças, ossuário dos séculos e dos sonhos dos homens, como te lembro, como me dóis! Escrevo à luz mortal deste silêncio lunar, batido pelas vozes do vento, num casarão vazio. Habita-me o espaço e a desolação. E é como se aqui ouvisse ainda a tragédia da planície nos teus corais de camponeses. Subo a rua que leva à Sé, viro ao largo do Templo de Diana. E nas colunas solitárias ouço como o murmúrio antigo de uma floresta imóvel. O zimbório da Sé brilha, dourado ao sol matinal. Fico a olhá-lo longo tempo, parado sob um arco que se lança sobre a rua, suspenso de silêncio e de memória. Depois que as ruas descem apressadas, oblíquas a velhos medos, até outras ruas obscuras, onde me perco. E finalmente descubro o edifício do Liceu.”
Há uma reflexão incessante sobre o passado não ser mais o mesmo e que toda memória seria uma elaboração do pensamento/sentimento. Quem garante que aconteceu daquele jeito mesmo... ?......
“Conto tudo, como disse, à distância de alguns anos. Neste vasto casarão, tão vivo um dia e agora deserto, o outrora tem uma presença alarmante e tudo quanto aconteceu emerge dessa vaga das eras com uma estranha face intocável e solitária. Mas os elos de ligação entre os fatos que narro é como se se diluíssem num fumo de neblina e ficassem só audíveis, como gritos, que todavia se respondem na unidade do que sou, os ecos angustiantes desses fatos em si — padrões de uma viagem que já mal sei.”
....
“É preciso vencer esta surpresa que nestes casos nos esmaga . Ajustar a vida à morte. Achar e ver a harmonia de ambas . Mas achá-la depois de sabermos bem o que é uma e outra, depois de nos encadearmos na sua iluminação . Sabia caso o homem o milagre que destruía? Mas eu sei..
....
Não amigo. Não é para essa tua fleuma abundante que eu tenho voz . Procura!O rasto da tua radiação divina, o lume secreto de tua aparição onde está ? Onde o perdeste amigo? Em que recesso do teu ar monolítico?
“Eu tinha um problema: justificar a vida em face da inverosimilhança da morte . E nunca mais até hoje eu soube inventar outro . De que podemos falar na conferência? Nada mais há na vida do que beber o vinho da iluminação e renascer outra vez . Riqueza ou miséria , ciência, vexame e a política e até a arte para tantos artistas , conhecimento do homem no corpo e no espírito - quantos modos de esquecer ou de não saber ainda o pequeno problema fundamental . Mas o que é extraordinário e me exaspera é que eu próprio tenha precisado de uma vida inteira para o saber . E quantas vezes agora o esqueço?....”
“Em momentos fulgurantes, pelo meio da noite, ela descobrira também a vertigem da vida , da sua pessoa, da gratuidade desse absurdo milagre , da interrogação para o amanhã.: “Eu já conhecia tudo”. Ou talvez não tivesse descoberto verdadeiramente e só agora, ao aviso da minha palavra, tudo se lhe revelasse em violência , num bater descompassado do coração . Que havia , pois, mais para a vida, para responder ao seu desvario de milagre e de vazio , do que vivê-la no imediato, na execução absoluta de seu apelo? Eliminar o desejo dos outros para exaltar o nosso. Queimar no dia- a- dia os restos de ontem . Ser só abertura para amanhã . A vida real não eram as leis dos outros e a sua sanção e o seu teimoso estabelecimento de uma comunidade para o furor de uma plenitude solitária . O absoluto da vida , a resposta fechada para o seu fechado desafio só podia revelar-se e executar-se na união total com nós mesmos , com as forças derradeiras que nos trazem de pé e são nós e exigem realizar-se até o esgotamento . Este “eu”solitário que achamos nos instantes de solidão final , se ninguém o pode conhecer , como pode alguém julgá-lo? E de que serve esse “eu” e a sua descoberta se o condenamos à prisão ? Sabê-lo é afirmá-lo. Reconhece-lo é dar-lhe razão. Que ignore isso o que ignora que é. Que o despreze e o amordace o que vive no dia-a-dia animal . Mas quem teve a dádiva da evidência de si, como condenar-se a si ao silêncio prisional? Ninguém pode pagar, nada pode pagar a gratuidade desse milagre de sermos . Que ao menos nós lhe demos a isso que somos , a oportunidade de sermos até o fim . Gritar aos astros até enrouquecermos . Iluminamos a brasa que vive em nós até nos consumirmos . Respondermos com a absoluta liberdade ao desafio do fantástico que nos habita....”
Para Alberto, a experiência estética é a única que traz ao homem a plenitude da vida.
Ainda não terminei e devo relê-lo, mas já me pergunto: o erotismo também não seria uma forma de plenitude ???
“Aparição” é um constante questionamento existencial que, em muitas momentos, nos faz lembrar Camus.
É a estória contada pelo jovem Alberto que chega à Évora, numa manhã de setembro, para ser professor do Liceu.
“A cidade resplandecia a um sol familiar, branca, enredada de ruas como de velhas ciladas, semeada de ruínas, de arcos partidos, nichos de santos das orações de outras eras, janelas góticas, como olhares embiocados. Évora mortuária, encruzilhada de raças, ossuário dos séculos e dos sonhos dos homens, como te lembro, como me dóis! Escrevo à luz mortal deste silêncio lunar, batido pelas vozes do vento, num casarão vazio. Habita-me o espaço e a desolação. E é como se aqui ouvisse ainda a tragédia da planície nos teus corais de camponeses. Subo a rua que leva à Sé, viro ao largo do Templo de Diana. E nas colunas solitárias ouço como o murmúrio antigo de uma floresta imóvel. O zimbório da Sé brilha, dourado ao sol matinal. Fico a olhá-lo longo tempo, parado sob um arco que se lança sobre a rua, suspenso de silêncio e de memória. Depois que as ruas descem apressadas, oblíquas a velhos medos, até outras ruas obscuras, onde me perco. E finalmente descubro o edifício do Liceu.”
Há uma reflexão incessante sobre o passado não ser mais o mesmo e que toda memória seria uma elaboração do pensamento/sentimento. Quem garante que aconteceu daquele jeito mesmo... ?......
“Conto tudo, como disse, à distância de alguns anos. Neste vasto casarão, tão vivo um dia e agora deserto, o outrora tem uma presença alarmante e tudo quanto aconteceu emerge dessa vaga das eras com uma estranha face intocável e solitária. Mas os elos de ligação entre os fatos que narro é como se se diluíssem num fumo de neblina e ficassem só audíveis, como gritos, que todavia se respondem na unidade do que sou, os ecos angustiantes desses fatos em si — padrões de uma viagem que já mal sei.”
....
“É preciso vencer esta surpresa que nestes casos nos esmaga . Ajustar a vida à morte. Achar e ver a harmonia de ambas . Mas achá-la depois de sabermos bem o que é uma e outra, depois de nos encadearmos na sua iluminação . Sabia caso o homem o milagre que destruía? Mas eu sei..
....
Não amigo. Não é para essa tua fleuma abundante que eu tenho voz . Procura!O rasto da tua radiação divina, o lume secreto de tua aparição onde está ? Onde o perdeste amigo? Em que recesso do teu ar monolítico?
“Eu tinha um problema: justificar a vida em face da inverosimilhança da morte . E nunca mais até hoje eu soube inventar outro . De que podemos falar na conferência? Nada mais há na vida do que beber o vinho da iluminação e renascer outra vez . Riqueza ou miséria , ciência, vexame e a política e até a arte para tantos artistas , conhecimento do homem no corpo e no espírito - quantos modos de esquecer ou de não saber ainda o pequeno problema fundamental . Mas o que é extraordinário e me exaspera é que eu próprio tenha precisado de uma vida inteira para o saber . E quantas vezes agora o esqueço?....”
“Em momentos fulgurantes, pelo meio da noite, ela descobrira também a vertigem da vida , da sua pessoa, da gratuidade desse absurdo milagre , da interrogação para o amanhã.: “Eu já conhecia tudo”. Ou talvez não tivesse descoberto verdadeiramente e só agora, ao aviso da minha palavra, tudo se lhe revelasse em violência , num bater descompassado do coração . Que havia , pois, mais para a vida, para responder ao seu desvario de milagre e de vazio , do que vivê-la no imediato, na execução absoluta de seu apelo? Eliminar o desejo dos outros para exaltar o nosso. Queimar no dia- a- dia os restos de ontem . Ser só abertura para amanhã . A vida real não eram as leis dos outros e a sua sanção e o seu teimoso estabelecimento de uma comunidade para o furor de uma plenitude solitária . O absoluto da vida , a resposta fechada para o seu fechado desafio só podia revelar-se e executar-se na união total com nós mesmos , com as forças derradeiras que nos trazem de pé e são nós e exigem realizar-se até o esgotamento . Este “eu”solitário que achamos nos instantes de solidão final , se ninguém o pode conhecer , como pode alguém julgá-lo? E de que serve esse “eu” e a sua descoberta se o condenamos à prisão ? Sabê-lo é afirmá-lo. Reconhece-lo é dar-lhe razão. Que ignore isso o que ignora que é. Que o despreze e o amordace o que vive no dia-a-dia animal . Mas quem teve a dádiva da evidência de si, como condenar-se a si ao silêncio prisional? Ninguém pode pagar, nada pode pagar a gratuidade desse milagre de sermos . Que ao menos nós lhe demos a isso que somos , a oportunidade de sermos até o fim . Gritar aos astros até enrouquecermos . Iluminamos a brasa que vive em nós até nos consumirmos . Respondermos com a absoluta liberdade ao desafio do fantástico que nos habita....”
Para Alberto, a experiência estética é a única que traz ao homem a plenitude da vida.
Ainda não terminei e devo relê-lo, mas já me pergunto: o erotismo também não seria uma forma de plenitude ???
junho 26, 2008
O Assassino Cego
Com este romance MARGARET ATWOOD ganhou ontem o Príncipe de Astúrias das Letras, pela "esplêndida obra" que "defende a dignidade das mulheres e denuncia injustiças sociais". O livro premiado O ASSASSINO CEGO, em suas quase 500 páginas conta uma história densa,, tendo como moldura uma saga familiar.
A narradora fala sobre a I Guerra Mundial, sobre a depressão econômica dos anos 30, sobre lutas sindicais e perseguições políticas, sobre casamentos arranjados, traições e rebeldia jovem. Ao mesmo tempo, mostra o processo de desenvolvimento de sua própria consciência, dos tempos de menina, em que era joguete em mãos alheias, até a velhice, quando ela resolve registrar seu testemunho sobre o mundo que conheceu.
Numa entrevista recente, Margaret Atwood disse ter pensado nas caixas chinesas ao projetá-lo: "Você abre uma caixa e encontra outra lá dentro". Da mesma forma, O Assassino Cego traz, dentro da saga familiar, uma história policial escrita por uma das personagens. E, dentro dessa história, um terceiro enredo, de ficção científica, que se passa num planeta distante onde sacrifícios são feitos em nome de antigos deuses e onde assassinatos cruéis são realizados (aqui está ele finalmente) por um assassino cego.
Colhi estas informações nas resenhas literárias, ainda não o li. A premiação acontece em Oviedo, uma linda cidade da Provincia de Leon e Asturias (tem na marcação neste blog).
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