Este é o meu primeiro contato com o escritor português Vergílio Ferreira tão pouco lido por estas bandas....Mas a verdade é que, no geral, se lê muito pouco.
“Aparição” é um constante questionamento existencial que, em muitas momentos, nos faz lembrar Camus.
É a estória contada pelo jovem Alberto que chega à Évora, numa manhã de setembro, para ser professor do Liceu.
“A cidade resplandecia a um sol familiar, branca, enredada de ruas como de velhas ciladas, semeada de ruínas, de arcos partidos, nichos de santos das orações de outras eras, janelas góticas, como olhares embiocados. Évora mortuária, encruzilhada de raças, ossuário dos séculos e dos sonhos dos homens, como te lembro, como me dóis! Escrevo à luz mortal deste silêncio lunar, batido pelas vozes do vento, num casarão vazio. Habita-me o espaço e a desolação. E é como se aqui ouvisse ainda a tragédia da planície nos teus corais de camponeses. Subo a rua que leva à Sé, viro ao largo do Templo de Diana. E nas colunas solitárias ouço como o murmúrio antigo de uma floresta imóvel. O zimbório da Sé brilha, dourado ao sol matinal. Fico a olhá-lo longo tempo, parado sob um arco que se lança sobre a rua, suspenso de silêncio e de memória. Depois que as ruas descem apressadas, oblíquas a velhos medos, até outras ruas obscuras, onde me perco. E finalmente descubro o edifício do Liceu.”
Há uma reflexão incessante sobre o passado não ser mais o mesmo e que toda memória seria uma elaboração do pensamento/sentimento. Quem garante que aconteceu daquele jeito mesmo... ?......
“Conto tudo, como disse, à distância de alguns anos. Neste vasto casarão, tão vivo um dia e agora deserto, o outrora tem uma presença alarmante e tudo quanto aconteceu emerge dessa vaga das eras com uma estranha face intocável e solitária. Mas os elos de ligação entre os fatos que narro é como se se diluíssem num fumo de neblina e ficassem só audíveis, como gritos, que todavia se respondem na unidade do que sou, os ecos angustiantes desses fatos em si — padrões de uma viagem que já mal sei.”
....
“É preciso vencer esta surpresa que nestes casos nos esmaga . Ajustar a vida à morte. Achar e ver a harmonia de ambas . Mas achá-la depois de sabermos bem o que é uma e outra, depois de nos encadearmos na sua iluminação . Sabia caso o homem o milagre que destruía? Mas eu sei..
....
Não amigo. Não é para essa tua fleuma abundante que eu tenho voz . Procura!O rasto da tua radiação divina, o lume secreto de tua aparição onde está ? Onde o perdeste amigo? Em que recesso do teu ar monolítico?
“Eu tinha um problema: justificar a vida em face da inverosimilhança da morte . E nunca mais até hoje eu soube inventar outro . De que podemos falar na conferência? Nada mais há na vida do que beber o vinho da iluminação e renascer outra vez . Riqueza ou miséria , ciência, vexame e a política e até a arte para tantos artistas , conhecimento do homem no corpo e no espírito - quantos modos de esquecer ou de não saber ainda o pequeno problema fundamental . Mas o que é extraordinário e me exaspera é que eu próprio tenha precisado de uma vida inteira para o saber . E quantas vezes agora o esqueço?....”
“Em momentos fulgurantes, pelo meio da noite, ela descobrira também a vertigem da vida , da sua pessoa, da gratuidade desse absurdo milagre , da interrogação para o amanhã.: “Eu já conhecia tudo”. Ou talvez não tivesse descoberto verdadeiramente e só agora, ao aviso da minha palavra, tudo se lhe revelasse em violência , num bater descompassado do coração . Que havia , pois, mais para a vida, para responder ao seu desvario de milagre e de vazio , do que vivê-la no imediato, na execução absoluta de seu apelo? Eliminar o desejo dos outros para exaltar o nosso. Queimar no dia- a- dia os restos de ontem . Ser só abertura para amanhã . A vida real não eram as leis dos outros e a sua sanção e o seu teimoso estabelecimento de uma comunidade para o furor de uma plenitude solitária . O absoluto da vida , a resposta fechada para o seu fechado desafio só podia revelar-se e executar-se na união total com nós mesmos , com as forças derradeiras que nos trazem de pé e são nós e exigem realizar-se até o esgotamento . Este “eu”solitário que achamos nos instantes de solidão final , se ninguém o pode conhecer , como pode alguém julgá-lo? E de que serve esse “eu” e a sua descoberta se o condenamos à prisão ? Sabê-lo é afirmá-lo. Reconhece-lo é dar-lhe razão. Que ignore isso o que ignora que é. Que o despreze e o amordace o que vive no dia-a-dia animal . Mas quem teve a dádiva da evidência de si, como condenar-se a si ao silêncio prisional? Ninguém pode pagar, nada pode pagar a gratuidade desse milagre de sermos . Que ao menos nós lhe demos a isso que somos , a oportunidade de sermos até o fim . Gritar aos astros até enrouquecermos . Iluminamos a brasa que vive em nós até nos consumirmos . Respondermos com a absoluta liberdade ao desafio do fantástico que nos habita....”
Para Alberto, a experiência estética é a única que traz ao homem a plenitude da vida.
Ainda não terminei e devo relê-lo, mas já me pergunto: o erotismo também não seria uma forma de plenitude ???
junho 27, 2008
junho 26, 2008
O Assassino Cego
Com este romance MARGARET ATWOOD ganhou ontem o Príncipe de Astúrias das Letras, pela "esplêndida obra" que "defende a dignidade das mulheres e denuncia injustiças sociais". O livro premiado O ASSASSINO CEGO, em suas quase 500 páginas conta uma história densa,, tendo como moldura uma saga familiar.
A narradora fala sobre a I Guerra Mundial, sobre a depressão econômica dos anos 30, sobre lutas sindicais e perseguições políticas, sobre casamentos arranjados, traições e rebeldia jovem. Ao mesmo tempo, mostra o processo de desenvolvimento de sua própria consciência, dos tempos de menina, em que era joguete em mãos alheias, até a velhice, quando ela resolve registrar seu testemunho sobre o mundo que conheceu.
Numa entrevista recente, Margaret Atwood disse ter pensado nas caixas chinesas ao projetá-lo: "Você abre uma caixa e encontra outra lá dentro". Da mesma forma, O Assassino Cego traz, dentro da saga familiar, uma história policial escrita por uma das personagens. E, dentro dessa história, um terceiro enredo, de ficção científica, que se passa num planeta distante onde sacrifícios são feitos em nome de antigos deuses e onde assassinatos cruéis são realizados (aqui está ele finalmente) por um assassino cego.
Colhi estas informações nas resenhas literárias, ainda não o li. A premiação acontece em Oviedo, uma linda cidade da Provincia de Leon e Asturias (tem na marcação neste blog).
junho 25, 2008
A DAMA E O UNICÓRNIO
A Dama e o Unicórnio é uma rica e intrigante história sobre a paixão e o preço de uma criação artística.
Paris 1490 - Desejando ornar as paredes de sua nova casa parisiense, o nobre Jean Le Viste encomenda uma série de seis tapeçarias à Nicolas des Innocents, miniaturista renomado na corte do Rei Charles VIII. Surpreso por haver sido escolhido para um trabalho que não era a sua especialidade, o artista aceita após haver conhecido a filha de Jean Le Viste por quem se encanta. A paixão o levará a um labirinto de relações delicadas entre maridos e mulheres, pais e filhos, amantes e servos.
As tapeçarias deveriam ser comemorativas de sua ascensão na Corte. Ao conseguir convencer seu patrono a trocar o tema original da obra - a representação da sangrenta Batalha de Nancy - por um conjunto de imagens representando os cinco sentidos, Nicolas dá início a um projeto grandioso que poderá levá-lo à glória ou à decadência.
A literatura tecida por Tracy Chevalier é a prova de que as obras de arte nunca perdem seu poder: seguem continuamente inspirando vidas e outras formas de arte através dos séculos.
As tapeçarias La Dame à la Licorne são consideradas como um dos grandes trabalhos da arte medieval na Europa. Estima-se que tenham sido tecidas no final do século XV , em Flandres.
Encontram-se expostas no Musée du Moyen-Age aux thermes de Cluny, em Paris. Composta de cinco peças representando cada uma dos sentidos e de uma sexta peça que se distingue das demais.
Nela a Dama aparece em frente a uma tenda onde se lê " A mon seul désir " (cujo verdadeiro significado permanece uma incógnita) e parece depositar seu colar numa pequena caixa ...
Não se sabe se esta peça seria a introdução ou a conclusão da série dos cinco sentidos.
Os animais fabulosos leão e unicórnio portam armas /brasões que permitem identificar o seu patrocinador Jean Le Viste.
Confeccionadas no estilo mille fleurs, as tapeçarias retratam ao fundo também animais domésticos - coelho, pássaros, macaco - que criam um universo de sonho.
Paris 1490 - Desejando ornar as paredes de sua nova casa parisiense, o nobre Jean Le Viste encomenda uma série de seis tapeçarias à Nicolas des Innocents, miniaturista renomado na corte do Rei Charles VIII. Surpreso por haver sido escolhido para um trabalho que não era a sua especialidade, o artista aceita após haver conhecido a filha de Jean Le Viste por quem se encanta. A paixão o levará a um labirinto de relações delicadas entre maridos e mulheres, pais e filhos, amantes e servos.
As tapeçarias deveriam ser comemorativas de sua ascensão na Corte. Ao conseguir convencer seu patrono a trocar o tema original da obra - a representação da sangrenta Batalha de Nancy - por um conjunto de imagens representando os cinco sentidos, Nicolas dá início a um projeto grandioso que poderá levá-lo à glória ou à decadência.
A literatura tecida por Tracy Chevalier é a prova de que as obras de arte nunca perdem seu poder: seguem continuamente inspirando vidas e outras formas de arte através dos séculos.
As tapeçarias La Dame à la Licorne são consideradas como um dos grandes trabalhos da arte medieval na Europa. Estima-se que tenham sido tecidas no final do século XV , em Flandres.
Encontram-se expostas no Musée du Moyen-Age aux thermes de Cluny, em Paris. Composta de cinco peças representando cada uma dos sentidos e de uma sexta peça que se distingue das demais.
Nela a Dama aparece em frente a uma tenda onde se lê " A mon seul désir " (cujo verdadeiro significado permanece uma incógnita) e parece depositar seu colar numa pequena caixa ...
Não se sabe se esta peça seria a introdução ou a conclusão da série dos cinco sentidos.
Os animais fabulosos leão e unicórnio portam armas /brasões que permitem identificar o seu patrocinador Jean Le Viste.
Confeccionadas no estilo mille fleurs, as tapeçarias retratam ao fundo também animais domésticos - coelho, pássaros, macaco - que criam um universo de sonho.
junho 22, 2008
PUDORES

Menos famoso que o David, de Michelangelo, o óleo sobre tela L'Origine du monde pintada por Gustave Courbet (1819-1877) ainda causa desconforto em alguns visitantes do Museu d’Orsay, quando percebem estarem sendo observados enquanto admiram a obra.
O psicanalista Jacques Lacan (1901-1981), autor da teoria do complexo de castração, proprietário do quadro até 1955, não o mostrava para todos, mantinha a tela escondida atrás de uma outra, tal qual um cofre embutido. Mas este pudor não chega nem aos pés da vergonha que a Justiça francesa anda sentindo. O Tribunal de Lille anulou um casamento a pedido de marido muçulmano. Motivo: na noite de núpcias, ele descobriu que a mulher não era mais virgem.
Em que pese ser a França o país onde as mulheres se empenharam de forma contundente pela emancipação, uso de contraceptivos e legalização do aborto, a anulação do casamento caso o cônjuge minta sobre a “qualidade essencial” do relacionamento é admitida!!!
No que dá ter juízo
"TENHO OUVIDO, cada vez mais, homens e mulheres reclamando da vida, dizendo que estão achando tudo chato, que são pouquíssimas as pessoas com quem querem conversar; sair, nem pensar.
Uma vez a cada 15 dias, para não virar bicho do mato de vez, aceitam ir jantar fora com dois, três amigos, e voltam dizendo "eu não tinha nada que ter ido, já sabia que ia ser uma chatice, da próxima não vou mais".
Jantares com mais gente, esses não há hipótese, e se houver pessoas famosas por serem interessantíssimas, mas que você não conhece, aí é que não vai mesmo.
Não há show de Chico Buarque, João Gilberto, Caetano, que entusiasme essa gente. Ah, o flanelinha, ah, a multidão, ah, a confusão da saída; e se alguém propusesse que um desses cantores fizesse um show só para ele, alguma desculpa seria arranjada para não querer. A única coisa que os agrada é ficar em casa, vendo televisão ou lendo um livro, de preferência sós. Mas os que trabalham em alguma coisa interessante têm uma saída: falar de trabalho. A vida vai ficando cada vez mais difícil, as pessoas cada vez mais sós, mas nem por isso infelizes. Qualquer coisa, menos estar com gente.
Dá para entender? Pensando bem, até que dá.
Houve um tempo em que essas mesmas pessoas eram a alegria das festas; dançavam, diziam bobagens, eram engraçadas, todo mundo gostava delas, o telefone não parava de tocar, e a vida era muito divertida. O que aconteceu então? A idade que chegou? Não necessariamente, pois existem reclusos em todas as faixas etárias. As festas são menos animadas? Para eles são, mas há gente que não perde uma e acha todas ótimas.
Mas então que história é essa de não querer sair, não querer ver gente, não querer conhecer ninguém novo, nem -e sobretudo- Gisele Bündchen? Ah, os mistérios dessa vida.
Aí comecei a prestar atenção a essas pessoas, para saber em que elas mudaram -sim, porque está claro que foram elas que mudaram. O mundo continua o mesmo.
Lembrei de cada uma delas, pensando que nenhuma tinha responsabilidades, empresas, mulher, ex-mulher, filho. Todos podiam ir à praia, e há alguma coisa mais irresponsável do que passar a manhã pegando sol e dando um bom mergulho? E uma pessoa queimada de sol pode ser infeliz? Abaixo os dermatologistas, em primeiro lugar a felicidade.
Qual foi a mudança que aconteceu com cada um deles, que se tornaram preocupados com o futuro, com a bolsa, se subiu ou desceu, com os países asiáticos, com o futuro da China?
É que naqueles ótimos tempos ninguém tinha juízo. A vida corria mansa, sem uma só preocupação com o o futuro -futuro? E isso existia?-, mas com o tempo fomos ficando responsáveis e ganhando juízo.
De tanto ouvir nossos pais dizendo "essa menina precisa criar juízo", criamos, e somos hoje uma turma de desanimados, quase deprimidos, pois não temos mais coragem de falar bobagens, cobiçar ostensivamente a mulher do próximo, beber além da conta, dar um grande vexame, e sobretudo, sobretudo, deixar de ir ao trabalho numa quarta-feira para ir à praia, porque criamos juízo.
Como era bom o tempo em que não tínhamos nenhum"
Danuza Leão
Uma vez a cada 15 dias, para não virar bicho do mato de vez, aceitam ir jantar fora com dois, três amigos, e voltam dizendo "eu não tinha nada que ter ido, já sabia que ia ser uma chatice, da próxima não vou mais".
Jantares com mais gente, esses não há hipótese, e se houver pessoas famosas por serem interessantíssimas, mas que você não conhece, aí é que não vai mesmo.
Não há show de Chico Buarque, João Gilberto, Caetano, que entusiasme essa gente. Ah, o flanelinha, ah, a multidão, ah, a confusão da saída; e se alguém propusesse que um desses cantores fizesse um show só para ele, alguma desculpa seria arranjada para não querer. A única coisa que os agrada é ficar em casa, vendo televisão ou lendo um livro, de preferência sós. Mas os que trabalham em alguma coisa interessante têm uma saída: falar de trabalho. A vida vai ficando cada vez mais difícil, as pessoas cada vez mais sós, mas nem por isso infelizes. Qualquer coisa, menos estar com gente.
Dá para entender? Pensando bem, até que dá.
Houve um tempo em que essas mesmas pessoas eram a alegria das festas; dançavam, diziam bobagens, eram engraçadas, todo mundo gostava delas, o telefone não parava de tocar, e a vida era muito divertida. O que aconteceu então? A idade que chegou? Não necessariamente, pois existem reclusos em todas as faixas etárias. As festas são menos animadas? Para eles são, mas há gente que não perde uma e acha todas ótimas.
Mas então que história é essa de não querer sair, não querer ver gente, não querer conhecer ninguém novo, nem -e sobretudo- Gisele Bündchen? Ah, os mistérios dessa vida.
Aí comecei a prestar atenção a essas pessoas, para saber em que elas mudaram -sim, porque está claro que foram elas que mudaram. O mundo continua o mesmo.
Lembrei de cada uma delas, pensando que nenhuma tinha responsabilidades, empresas, mulher, ex-mulher, filho. Todos podiam ir à praia, e há alguma coisa mais irresponsável do que passar a manhã pegando sol e dando um bom mergulho? E uma pessoa queimada de sol pode ser infeliz? Abaixo os dermatologistas, em primeiro lugar a felicidade.
Qual foi a mudança que aconteceu com cada um deles, que se tornaram preocupados com o futuro, com a bolsa, se subiu ou desceu, com os países asiáticos, com o futuro da China?
É que naqueles ótimos tempos ninguém tinha juízo. A vida corria mansa, sem uma só preocupação com o o futuro -futuro? E isso existia?-, mas com o tempo fomos ficando responsáveis e ganhando juízo.
De tanto ouvir nossos pais dizendo "essa menina precisa criar juízo", criamos, e somos hoje uma turma de desanimados, quase deprimidos, pois não temos mais coragem de falar bobagens, cobiçar ostensivamente a mulher do próximo, beber além da conta, dar um grande vexame, e sobretudo, sobretudo, deixar de ir ao trabalho numa quarta-feira para ir à praia, porque criamos juízo.
Como era bom o tempo em que não tínhamos nenhum"
Danuza Leão
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