junho 26, 2008

O Assassino Cego

Com este romance MARGARET ATWOOD ganhou ontem o Príncipe de Astúrias das Letras, pela "esplêndida obra" que "defende a dignidade das mulheres e denuncia injustiças sociais".
O livro premiado O ASSASSINO CEGO, em suas quase 500 páginas conta uma história densa,, tendo como moldura uma saga familiar.
A narradora fala sobre a I Guerra Mundial, sobre a depressão econômica dos anos 30, sobre lutas sindicais e perseguições políticas, sobre casamentos arranjados, traições e rebeldia jovem. Ao mesmo tempo, mostra o processo de desenvolvimento de sua própria consciência, dos tempos de menina, em que era joguete em mãos alheias, até a velhice, quando ela resolve registrar seu testemunho sobre o mundo que conheceu.
Numa entrevista recente, Margaret Atwood disse ter pensado nas caixas chinesas ao projetá-lo: "Você abre uma caixa e encontra outra lá dentro". Da mesma forma, O Assassino Cego traz, dentro da saga familiar, uma história policial escrita por uma das personagens. E, dentro dessa história, um terceiro enredo, de ficção científica, que se passa num planeta distante onde sacrifícios são feitos em nome de antigos deuses e onde assassinatos cruéis são realizados (aqui está ele finalmente) por um assassino cego.
Colhi estas informações nas resenhas literárias, ainda não o li. A premiação acontece em Oviedo, uma linda cidade da Provincia de Leon e Asturias (tem na marcação neste blog).

junho 25, 2008

A DAMA E O UNICÓRNIO

A Dama e o Unicórnio é uma rica e intrigante história sobre a paixão e o preço de uma criação artística.
Paris 1490 - Desejando ornar as paredes de sua nova casa parisiense, o nobre Jean Le Viste encomenda uma série de seis tapeçarias à Nicolas des Innocents, miniaturista renomado na corte do Rei Charles VIII. Surpreso por haver sido escolhido para um trabalho que não era a sua especialidade, o artista aceita após haver conhecido a filha de Jean Le Viste por quem se encanta. A paixão o levará a um labirinto de relações delicadas entre maridos e mulheres, pais e filhos, amantes e servos.
As tapeçarias deveriam ser comemorativas de sua ascensão na Corte. Ao conseguir convencer seu patrono a trocar o tema original da obra - a representação da sangrenta Batalha de Nancy - por um conjunto de imagens representando os cinco sentidos, Nicolas dá início a um projeto grandioso que poderá levá-lo à glória ou à decadência.
A literatura tecida por Tracy Chevalier é a prova de que as obras de arte nunca perdem seu poder: seguem continuamente inspirando vidas e outras formas de arte através dos séculos.

As tapeçarias La Dame à la Licorne são consideradas como um dos grandes trabalhos da arte medieval na Europa. Estima-se que tenham sido tecidas no final do século XV , em Flandres.
Encontram-se expostas no Musée du Moyen-Age aux thermes de Cluny, em Paris. Composta de cinco peças representando cada uma dos sentidos e de uma sexta peça que se distingue das demais.
Nela a Dama aparece em frente a uma tenda onde se lê " A mon seul désir " (cujo verdadeiro significado permanece uma incógnita) e parece depositar seu colar numa pequena caixa ...
Não se sabe se esta peça seria a introdução ou a conclusão da série dos cinco sentidos.
Os animais fabulosos leão e unicórnio portam armas /brasões que permitem identificar o seu patrocinador Jean Le Viste.
Confeccionadas no estilo mille fleurs, as tapeçarias retratam ao fundo também animais domésticos - coelho, pássaros, macaco - que criam um universo de sonho.

junho 22, 2008

PUDORES


Menos famoso que o David, de Michelangelo, o óleo sobre tela L'Origine du monde pintada por Gustave Courbet (1819-1877) ainda causa desconforto em alguns visitantes do Museu d’Orsay, quando percebem estarem sendo observados enquanto admiram a obra.
O psicanalista Jacques Lacan (1901-1981), autor da teoria do complexo de castração, proprietário do quadro até 1955, não o mostrava para todos, mantinha a tela escondida atrás de uma outra, tal qual um cofre embutido. Mas este pudor não chega nem aos pés da vergonha que a Justiça francesa anda sentindo. O Tribunal de Lille anulou um casamento a pedido de marido muçulmano. Motivo: na noite de núpcias, ele descobriu que a mulher não era mais virgem.
Em que pese ser a França o país onde as mulheres se empenharam de forma contundente pela emancipação, uso de contraceptivos e legalização do aborto, a anulação do casamento caso o cônjuge minta sobre a “qualidade essencial” do relacionamento é admitida!!!

No que dá ter juízo

"TENHO OUVIDO, cada vez mais, homens e mulheres reclamando da vida, dizendo que estão achando tudo chato, que são pouquíssimas as pessoas com quem querem conversar; sair, nem pensar.
Uma vez a cada 15 dias, para não virar bicho do mato de vez, aceitam ir jantar fora com dois, três amigos, e voltam dizendo "eu não tinha nada que ter ido, já sabia que ia ser uma chatice, da próxima não vou mais".
Jantares com mais gente, esses não há hipótese, e se houver pessoas famosas por serem interessantíssimas, mas que você não conhece, aí é que não vai mesmo.
Não há show de Chico Buarque, João Gilberto, Caetano, que entusiasme essa gente. Ah, o flanelinha, ah, a multidão, ah, a confusão da saída; e se alguém propusesse que um desses cantores fizesse um show só para ele, alguma desculpa seria arranjada para não querer. A única coisa que os agrada é ficar em casa, vendo televisão ou lendo um livro, de preferência sós. Mas os que trabalham em alguma coisa interessante têm uma saída: falar de trabalho. A vida vai ficando cada vez mais difícil, as pessoas cada vez mais sós, mas nem por isso infelizes. Qualquer coisa, menos estar com gente.
Dá para entender? Pensando bem, até que dá.
Houve um tempo em que essas mesmas pessoas eram a alegria das festas; dançavam, diziam bobagens, eram engraçadas, todo mundo gostava delas, o telefone não parava de tocar, e a vida era muito divertida. O que aconteceu então? A idade que chegou? Não necessariamente, pois existem reclusos em todas as faixas etárias. As festas são menos animadas? Para eles são, mas há gente que não perde uma e acha todas ótimas.
Mas então que história é essa de não querer sair, não querer ver gente, não querer conhecer ninguém novo, nem -e sobretudo- Gisele Bündchen? Ah, os mistérios dessa vida.
Aí comecei a prestar atenção a essas pessoas, para saber em que elas mudaram -sim, porque está claro que foram elas que mudaram. O mundo continua o mesmo.
Lembrei de cada uma delas, pensando que nenhuma tinha responsabilidades, empresas, mulher, ex-mulher, filho. Todos podiam ir à praia, e há alguma coisa mais irresponsável do que passar a manhã pegando sol e dando um bom mergulho? E uma pessoa queimada de sol pode ser infeliz? Abaixo os dermatologistas, em primeiro lugar a felicidade.
Qual foi a mudança que aconteceu com cada um deles, que se tornaram preocupados com o futuro, com a bolsa, se subiu ou desceu, com os países asiáticos, com o futuro da China?
É que naqueles ótimos tempos ninguém tinha juízo. A vida corria mansa, sem uma só preocupação com o o futuro -futuro? E isso existia?-, mas com o tempo fomos ficando responsáveis e ganhando juízo.
De tanto ouvir nossos pais dizendo "essa menina precisa criar juízo", criamos, e somos hoje uma turma de desanimados, quase deprimidos, pois não temos mais coragem de falar bobagens, cobiçar ostensivamente a mulher do próximo, beber além da conta, dar um grande vexame, e sobretudo, sobretudo, deixar de ir ao trabalho numa quarta-feira para ir à praia, porque criamos juízo.
Como era bom o tempo em que não tínhamos nenhum"
Danuza Leão

junho 21, 2008

Artes japonesas

Okusai (1760-1849) Além do Origami, são artes japonesas :

O Sumi-ê é a pintura em preto e branco,executada rapidamente, jogando apenas com tons claros, escuros e médios, para criar a ilusão de bambus (símbolo do verão), ameixeiras (outono), crisântemos (inverno), e orquídeas (primavera).






O Chigiri-ê é uma colagem de papéis coloridos, finíssimos, superpostos e desfiados, que acabam criando um efeito semelhante ao de aquarela:
O Kiri-ê é feito com papel recortado, e às vezes fica parecendo uma xilogravura.

Takô é a arte de fazer papagaios

junho 20, 2008

Fortaleza Europa

Imigração - Sandra Garcia

A DIRETIVA de Retorno aprovada no Parlamento Europeu passa a vigorar só em 2010, mas já está sendo chamada de "Diretiva da Vergonha". Ela ergue novas barreiras contra o belo (e não muito praticado) ideal da livre circulação de pessoas, sob pretexto de tratar com firmeza os imigrantes ilegais.
Na realidade, seu objetivo é conter pela ameaça a imigração crescente para a comunidade do euro forte. A próxima, que já se desenha sobre as muralhas da Europa, será a volta dos vistos de entrada para indesejados, entre eles os sul-americanos.
Em aparência, o que se fez foi padronizar procedimentos para os 27 países-membros da União Européia. Na prática, fica patente o endurecimento das regras. O imigrante flagrado em situação irregular poderá ser deportado para seu país de origem ou qualquer outro com o qual a UE mantenha acordo de repatriação.
Emitida a ordem de expulsão, o ilegal terá de 7 a 30 dias para sair por iniciativa própria. Se não o fizer, pode ser preso sem ordem judicial. A detenção poderá prolongar-se por até 18 meses, quando esse prazo na maioria das nações da EU varia hoje de 1 a 12 meses. O deportado ficará impedido de entrar nos países do bloco por cinco anos ou mais.
Os deputados europeus são políticos profissionais que, como em qualquer parte do mundo democrático, reagem a demandas de seus eleitores. Neste caso, cedem diante da maré montante de chauvinismo na Fortaleza Europa, sob a pressão de um contingente estimado em 8 milhões de imigrantes irregulares.
Quando o desemprego se torna crônico, estrangeiros terminam eleitos como bodes expiatórios. Se trabalham ilegalmente, o racional seria fiscalizar e reprimir os empregadores fora da lei. Vigiar e punir somente os mais fracos mal disfarça a tolerância com um exército de trabalhadores de segunda classe.
Imigrantes são em geral pessoas sem perspectivas, que abandonam suas pátrias em busca de uma vida melhor. Fogem movidas quase sempre pela necessidade ou pelo desespero. A Europa, berço do Iluminismo e da noção de direitos universais, tinha uma tradição de acolher deserdados e refugiados que agora se encolhe diante do ímpeto xenófobo de parte significativa de sua população e do populismo conservador de seus líderes.
Constitui uma ironia que a UE hoje rejeite com zelo especial imigrantes de países que receberam milhões de europeus pobres no século 19, como o Brasil. Não representa atitude diversa de manter além de suas fronteiras, com um sem-número de barreiras protecionistas e subsídios iníquos, os produtos mais competitivos de antigas colônias.
Da globalização, os europeus só querem as vantagens. Por elas, parecem dispostos a sacrificar as suas mais admiradas tradições.
OPINIÃO - Folha de hoje