Do caderno Mais da Folha:
"A mirabolante notícia de que o Exército cercou uma emissora de TV para prender um sargento que se declarou homossexual traz ensinamentos. O Exército é uma sociedade masculina bastante fechada que exalta a força física e os valores viris. Mundo macho de machos, favorece o homoerotismo, senão o homossexualismo.
Platão escreveu que um exército composto por casais de amantes seria indestrutível porque um teria vergonha de mostrar-se covarde diante do outro, preceito que Alexandre, o Grande, ao que parece, estimulou em seus batalhões.
Não estamos mais na Antigüidade, porém, e a sociedade contemporânea desenvolveu um gigantesco preconceito contra o homoerotismo.
Não é difícil perceber o que se esconde por trás da represália contra o sargento. Quando o homofóbico se exprime, não fala do outro, fala de si mesmo. Isso é verdade para qualquer preconceito. O racista, o anti-semita projetam no ser que odeiam o fantasma envergonhado de si próprios, das pulsões que têm dentro de si. Quando as exprimem, é para melhor escondê-las.
Não é certamente um movimento consciente, mas o esquema é mais ou menos assim: "Se estou acusando, denegrindo, humilhando alguém que manifesta características que eu condeno, é porque, vejam bem, sou o oposto dele, sou isento de seus vícios e defeitos". Está claro, essas características, vícios e defeitos existem apenas na cabeça de quem incrimina.
Só assim pode-se compreender uma ação tão pouco inteligente como aquele cerco da emissora".
JORGE COLI
junho 08, 2008
junho 05, 2008
PANOS DE PRATOS
Mércia Pinto
Na minha terra, as histórias de amor cumpriam várias etapas. O flerte, indefinida prática que só era entendida e identificada pelos dois envolvidos, era a primeira delas. Mas até a superação do medo do rapaz de se aproximar da garota e propor namoro levava algum tempo. Depois do ritual inicial de aceitarem diferenciar o olhar e o sorrir um para o outro, do olhar e do sorrir para os demais, apareciam novas emoções, e com elas, tarefas a serem cumpridas. - Com que cara falar para os amigos? Dizer que estavam namorando? Impossível falar sério quando tudo se espalhava em forma de fofoca. As amigas mais tagarelas recebiam da eleita todos os detalhes de como tinha sido a “declaração” do rapaz. Risadinhas à parte, no fundo se sentiam um pouco órfãs, pois o namoro da amiga certamente tomaria parte do tempo para as conversas diárias entre elas. Escondendo a inveja e o ciúme, o grupo se refazia, atualizando “fuxicos”, mapeando as ex-namoradas do rapaz, as brigas entre o casal, bem como eventuais maldades entre os dois: festas e cinemas escondidos um do outro e pequenas infidelidades recíprocas. Se o frágil laço entre os dois resistisse a tantos repuxos, depois de um mês já estavam voltando do colégio de mãos dadas. E haja inveja das amigas! Ah, como elas desejavam um namorado que se mostrasse assim para todas, na saída das aulas?
Dizem, o primeiro beijo acontecia logo depois. Não sei quais estratégias eram usadas para se conseguir chegar incólume até esse dia. Tudo para mostrar que a moça era de boa família e fora educada para manter sob controle os seus “demônios do baixo-ventre”. Mas o tempo passava e aos poucos o rapaz ia sendo apresentado ao círculo familiar da garota. Aos seis meses de namoro já freqüentava a casa dela e não precisava pedir licença para entrar. No clube dançavam no centro do salão, coladinhos, sem muito controle dos pais. De quando em vez, davam umas fugidinhas para irem sozinhos ao cinema. Mesmo vigilantes com relação a uma terceira força que pudesse desatar aquele laço, a história evoluía. Um belo dia, o rapaz surpreendia a namorada com uma aliança de compromisso. Um aro de ouro reforçava os laços entre os dois com pequenas pérolas ou rubis. Dali em diante eles ganhavam o adjetivo de “quase noivos”. Já se sabia que pensavam em casamento. Novo golpe no coração das amigas. Passear de mãos dadas não acontecia mais. Em casa ainda namoravam sob os olhares vigilantes dos pais, mas quando saíam era de “mão no ombro”. Possivelmente, ela já conhecia a família do rapaz. O próximo evento era o pedido de casamento. Imprescindível! Os pais teriam que saber se o “cabra” tinha mesmo coragem de enfrentar a família, falando de seus sentimentos para com a garota e de suas pretensões de bancá-la pro resto da vida. Mesmo porque o investimento na preparação do enxoval e na compra dos equipamentos domésticos eram muito grandes. Não poderiam ser efetivados assim de uma hora pra outra. Lembro-me da palidez daqueles domingos, quando minhas amigas apareciam de manhã com uma aliança no dedo. Sabia-se que na véspera havia sido selada a ausência de mais uma entre nós.
Entre o noivado e o casamento, o enxoval preenchia todos os interesses da moça. Entretenimento total para mãe e filha, que só pensavam nisso. E aquilo? Ora, aquilo era lá! Ainda estava longe, em segundo plano. Comprar tecidos, ir às costureiras, bordadeiras, marceneiros para fazer os móveis, e nos últimos meses a preparação da festa. Trabalhavam dia e noite e até esqueciam do resto da vida. Era comum as noivas também freqüentarem um curso na Escola Doméstica São Rafael, para aprenderam o ofício de ser esposa e enfrentar o futuro desafio de ser dona-de-casa. Imagino freiras ensinando a gerir uma empresa que elas, por conta dos votos de castidade, nunca tinham conhecido. Ensinando a cozinhar, bordar, gerir as serviçais e a economia doméstica. Dando conselhos sobre intimidades que nunca tinham experienciado.
Poucos dias antes do casório, a noiva abria sua casa para as amigas e oferecia um chá. Não era despedida de solteira. Isso era ritual masculino, num bordel, exclusivo para os amigos. Moças não precisavam disso. E o chá de panelas, tão comum nos dias de hoje, humilharia a família e os noivos. Nessa época, o objetivo do encontro era a exposição do enxoval, que mantido em segredo até aquele dia deixava os convidados ansiosos para saber como seria o cenário da nova vida. Todas as peças estariam envoltas em papel celofane lacrado com fita, para que pudessem ser apreciadas e invejadas por todos. Na sala de visitas estariam os paninhos de cobrir móveis e outras miudezas. Na sala de jantar, as toalhas de mesa, de chá, centro e caminhos de mesas espalhados pelos móveis. No quarto, o êxtase de todas as mulheres! Colchas de Piquet bordado, toalhas de banho, rosto e de visitas, sutiãs, calcinhas. O interesse maior eram as camisolas bordadas com renda francesa, com casinha de abelha. Inspecionavam quantos “liseuses”, quantos “peignoirs” a noiva tinha no enxoval e se as peças de lingerie, laquê, cassa e cambraia eram suficientemente bordadas. A camisola do dia, item mais importante da categoria “cama”, ficava no centro da mostra. Causava suspiros, arrepios e ais em todas as mulheres. Depois a cozinha, lugar da última apreciação. A última esperança de ver algo que vinha das mãos da noiva em si. É que por menos talento doméstico que ela tivesse, cobrava-se que pelo menos uma coisa no enxoval deveria ter sido feito por ela. Caso contrário, como atestariam sua competência doméstica? Sim, porque durante o noivado ela certamente havia ganho de presente da sogra (ou da avó) o livro da Dona Benta e por certo já tinha feito algum prato especial para mostrar seus dotes culinários ao futuro marido. Assim, eram os panos de pratos que salvariam a coitada dos adjetivos de desleixada, de mal preparada para ser esposa e para cuidar da casa. Tesoura, linha, agulha e simples pedaços de algodão cru compunham o material de exercício do bordar, em que a noiva muitas vezes aprendia os pontos básicos do ofício. Lembrança e testemunho da tentativa era para ser guardada, não? Agrupados em semanas, eram peças obrigatórias para uma noiva bem “enxovalhada”. Levavam várias “semanas de panos de pratos” para a nova vida. Lembro-me ainda daquela secreção meio azeda que ficava presa em minha garganta, quando via uma amiga de cabeça baixa, entregue aos bordados dos famosos paninhos. Sabia que em pouco tempo ela desapareceria de vez.
Sete dias, sete panos e sete diferentes figuras para bordar. E embaixo de cada uma, o dia da semana correspondente. A unidade do conjunto era dada pelo tema. Camponesas ou baianas com diferentes cestas de compras para cada dia. Holandesas com chapéus enormes, tamancos de madeira carregando verduras, queijos, frutas; e no domingo uma torta. Coisa inteiramente desconhecida no clima tropical, bordavam-na em ponto cheio com linha branca, imitando a cobertura de chantilly que caía pela bordas de um prato. Por cima, umas manchas vermelhas querendo ser morangos ou cerejas. Talvez imaginassem que aquelas pequenas frutas vermelhas e exóticas fossem símbolos da felicidade das mulheres dos outros mundos, e que em cada ponto que bordassem construindo aquela imagem ser-lhes-ia conferida a mesma felicidade.
Eu também quis ter namorado e o tive! Ele não foi me buscar no colégio. Nunca foi dançar comigo nas tertúlias. Só eu sabia dançar. Dizia que aquilo era a primeira manifestação do ato sexual. Como as outras garotas, eu também quis ser noiva. E o fui! Mas não tenho lembranças de como se deu a seqüência de todos aqueles rituais de passagem; mãos dadas, primeiro beijo, mão no ombro etc. Incrível como, lembrando-me de tanta coisa, tenho sempre a impressão de que comigo esses passos vieram todos de uma vez, e por mais que eu tente não consigo organizá-los cronologicamente. Ao cinema escondida, fui muitas vezes. Mas desde o início notei que havia entre nós dois um conflito de interesses. Enquanto eu queria ouvir aquele samba, trilha sonora do jogo de futebol no documentário da Herbert Richers, ele ficava se escondendo do lanterninha. Quando a deusa da Columbia Pictures aparecia na tela com aquela tocha faiscante apontando para o alto, eu já estava arrependida e de braços cansados. Tentava relaxar um pouco quando o condor da tela abria as asas, e a audiência gritava bem alto: XÔ! Ele parecia se espantar e voava. O filme estava começando e meus tormentos poderiam desaparecer em função das emoções do enredo. Qual nada! O tempo me ensinou que certos fenômenos da natureza não são facilmente controláveis. Acho que é por isso que, hoje, cinema para mim é só eu mesma e pronto. Mesmo assim, lembro-me bem que fui compromissada, engajada, escolhida e muito mais. Ele me levou a passear em ruas escuras e estreitas, até onde eu via animais que sentindo o cheiro do sangue de seus semelhantes uivavam, sabendo que iriam ser também sacrificados. Mas antes disso, fui obrigada a servir-lhe, porque eu tinha sido escolhida! Comecei aprendendo a bordar bem miudinho o nome dele em seus lenços. Como muitas moças de minha geração, tinha até num pedaço de pano uma amostra dos diferentes tipos de letras e anagramas para escolher o modelo.
Eu também quis ter toalhinhas de crochê em cima dos móveis, toalhas de linho bordadas em cima da mesa de jantar, camisolas, liseuses e peignoirs. Só não sabia como iria adquirir o hábito do uso desses acessórios depois de casada. O calor da região não permitia tanta roupa. Lembro-me de que, quando fui pedida em casamento, ganhei da minha mãe uma camisola e um peignoir amarelinho de nylon completamente transparente. O noivo esperou que ela saísse da sala e zangado me disse: no dia em que você usar essa roupa de puta, eu a deixo. Além disso, quero lhe avisar que não suporto agarrado na cama, e portanto vamos dormir em camas separadas. Eu nunca pensara que isso fosse impedimento para nos casarmos. Afinal, havia ficado noiva minutos antes.
Do lado de minha mãe, acho que se preocupava um pouco mais com a roupa íntima das noivas, pois no outro dia me levou a uma costureira famosa e encomendou dois conjuntos de camisola e peignoir de cassa: um amarelo e outro vermelho. E só! Parece que ali terminavam minhas necessidades! Mas lembro, eles eram lindos!. Naquela época, não se compravam enxovais prontos. Como nos contos de fadas, tudo era encomendado, esperado, desejado e recebido. Na minha história, porém, fui vendo aos poucos que se eu queria me preparar para casar, teria eu mesma de fazer ou comprar as peças. Lembro-me dos inúmeros paninhos de crochê que fiz, dos quardanapos de labirinto que comprei para cobrir bandejas e impressionar visitas. Ainda me restam algumas coisas desse tempo. Lençóis e fronhas de percal róseo e verde que bordei. Cada vez que dou com eles no fundo do armário, recordo-me da exigência do noivo: dois de cada, pois vamos dormir separados. Um jogo de toalhas de banho verde-escuro, uma toalha de labirinto rósea e outra de linho bege com flores bordadas em azul-marinho e barra de ponto “a jour”, cujo modelo retirei da Enciclopédia Familiar Larousse. Mas as recordações mais vivas dessa época são as “semanas de panos de prato”. Como todas as noivas, também me esqueci da vida, bordando-as. Meu envolvimento foi tamanho que hoje imagino que inverti as coisas; a cozinha tomava o lugar mais importante da casa. Às vezes me pergunto quantos metros de ponto de corrente bordei para preencher a cabeça das pobres camponesas e imitar seus cabelos.
Quantas vezes acordei com preguiça de bordar aquela quantidade de pedras do caminho que levava as holandesas ao mercado. E todas multiplicadas por sete. - Bordo-as em ponto cheio ou ponto atrás? Retiro-as do caminho original ou cumpro a tarefa até o fim? E as pequenas manchas verdes imitando o capim e que estavam no risco? Na Holanda, isso não é capim, é “relva”, lembrava-me. Verde-esperança com algumas pequenas manchas em amarelo para não desesperar, bordava eu. Como seriam as aplicações nos aventais das camponesas? Bolinhas, florezinhas ou quadradinhos? Meu entusiasmo só era interrompido pelo chamado da empregada que gritava da cozinha:
– O café já está na mesa!
Eu abandonava o serviço, tomava rapidamente qualquer gole e voltava correndo ao trabalho. No meio de um caminho de pontos de areia ouvia novamente seu grito:
– Vem comer teu pão!
A reação era rápida: “Diabo, agora amassou!”
Irritada, colocava o bordado em cima da cadeira e corria. Comia o resto do pão e voltava rapidamente. Ponto cheio, e corrente. Arremates têm de ficar invisíveis. E nada de pontos de alinhavo. Só ponto de areia, atrás e matiz. Em cada ponto ia dando um nó na minha história. Depois de terminado, os fios de linha têm de ser cortados rentes ao pano. Aplicações com diferentes tecidos, fixados com pontos de casa ou de sombra para preencher todos os vazios do risco. Bordado bem feito e caprichado é aquele em que não se nota a diferença entre o lado direito e o avesso. É que eles vão enxugar o cuspe de quem comeu no prato.
Mércia Pinto – maio, 2008
junho 04, 2008
Reinaldo Arenas

Diante da omissão de seu no artigo abaixo...
" Nascido na aldeia cubana de Holguín em 16 de julho de 1943, Reinaldo Arenas foi, durante anos, a vítima eletiva de Fidel Castro.Sua relação com a revolução cubana, no entanto, nem sempre foi conflituosa. Aos 15 anos, quando Havana foi tomada pelos rebeldes, em 1º de janeiro de 1959, Arenas era guerrilheiro nas tropas de Castro que combatiam o ditador Fulgêncio Batista.
A sua "confissão" de que era homossexual foi interpretada como um rompimento com a ditadura castrista e provocou tamanha irritação entre as autoridades revolucionárias que logo o enviaram para um campo de reeducação da UMAP ( Unidad Militar de Ayuda a la Producción), cujo objetivo era readaptar sexual e socialmente os cidadãos considerados de "conduta imprópria".
Em 1962, quando estudava na Universidade de Havana e trabalhava na Biblioteca Nacional, ainda sob o clima de liberdade cultural, escreveu seu primeiro romance. Participando de um concurso literário conheceu José Lezama, o grande poeta e ensaísta, que se tornou seu mentor e o ajudou, em 1967, a publicar seu primeiro livro "Celestino Antes del Alba" . Quando começou abertamente a perseguição aos homossexuais, Arenas foi declarado "transgressor, anticonvencional, favorável ao direito da livre-expressão e, portanto, antirevolucionário" e como consequência, censurado.Seus manuscritos passaram a ser contrabandeados e eram imediatamente publicados, como a história do sacerdote mexicano Frei Sernamdo Teresa de Mier que, de acordo com a ótica surrealista do cubano, recebeu o título "El Mundo Alucinante" (1968).
Durante toda a década de 70, o único sinal de sua existência foi a edição francesa da obra "El Palacio de las Blanquísimas Mofetas" (1975). Dois anos mais tarde sairiam as edições mexicana e espanhola. Publicar sem a autorização da UNEAC (Unión Nacional de Escritores y Artistas de Cuba ) era um delito. E Arenas o cometeu. A polícia política cubana conseguiu confiscar e destruir algumas de suas obras e Arenas foi declarado apátrida. Já uma celebridade mundial, o poeta enfrentava o veto do Estado em seu trabalho e em sua vida. Mudando constantemente de endereço, trabalhava fazendo biscates para sobreviver.
Sob pressão de cubanos residentes em Miami, a imigração americana fez vista grossa para o êxodo de milhares de indesejáveis: dissidentes, criminosos, doentes mentais e...homossexuais. Mais tarde, o governo revolucionário castrista explicou sua atitude como tentativa de "depurar a sociedade e purificar a pátria."
Já em New York, embriagado de liberdade, Arenas vivia na mesma velocidade com que escrevia. Produziu novelas, histórias curtas, poesia, ensaios, artigos para jornais e peças dramáticas. A experiência desoladora de viver num campo de concentração foi transformada no livro: El Central (1981 ). Mas o preconceito, a segregação, o medo da delacão pelo "delito" de ser diferente e ter uma conduta sexual considerada imprópria, transformaram o fervor revolucionário em desencanto e ressentimento. Em 1987, aos 42 anos e no auge da potência intelectual, recebeu o diagnóstico de Aids. O livro "El Portero", de 1989, testemunha este momento de miséria e marginalizacão. O prólogo de seu livro de poemas "Voluntad de Vivir Manifestandose" sintetiza seu desespero diante da situação".
Antes que anoiteça
Deve fazer uns 9 anos que li este que considero um dos mais pungentes relatos da vida de um artista sob um regime comunista .
O livro é um soco no estômago, nos leva ao centro da sordidez humana e do regime que se instalara e a luta pela liberdade, que, em última análise, é a luta pela vida.
Quando Arenas finalmente alcança a liberdade, conseguindo escapar para os EUA, vive com muitas dificuldades, contrai AIDS e vê sua vida se esvair.
O título do livro está assim explicado: "Eu já havia iniciado, como veremos adiante, minha autobiografia em Cuba. O título era Antes que anoiteça, pois precisava escrever antes que escurecesse, já que eu me encontrava escondido num bosque. Agora, a noite se aproxima novamente de uma forma mais iminente. Era a noite da morte. Agora tornava-se imperativo que eu concluísse minha autobiografia antes que anoitecesse."
Ao ser informado de que contraíra AIDS , saiu do hospital e, chegando em casa, encarou a fotografia de Virgilio Piñera, escritor cubano morto em 79, provavelmente assassinado por ordem de Fidel e pediu:
" Ouça bem o que vou lhe dizer; preciso de mais três anos de vida para terminar minha obra, que representa minha vingança contra quase todo o gênero humano".
Arenas começou a completar sua obra no hospital, agulhas com soros enfiadas em seus dedos causando-lhe dor e dificultando-lhe a escrita. Escreveu sem parar, em casa, quase morto. Sem forças para escrever, ditou a um gravador uma série de fitas e completou sua autobiografia.
Em 1990, quase 3 anos depois de seu pedido à fotografia de Virgilio, Arenas se matou. O livro é forte, denso, desesperado. Tanto nos faz sofrer como nos faz pensar, nos mostra a vulnerabilidade do caráter humano, nos ensina o que é viver permanentemente com o medo, o terror e a solidão.
Nesate relato de sua trajetória não há só dor.
"Minha mensagem não é uma mensagem de derrota, mas sim de luta e esperança" foi a última frase escrita por Arenas, antes da dose fatal de álcool, desespero e barbitúricos. Deixou um "Autoepitafio",onde dizia que "a vida é uma questão de risco ou de abstinência".
Arenas escolheu o risco.
Ali estavam condensadas suas experiências - violência, erotismo, política, homossexualidade e o compromisso de viver se manifestando.
O livro foi adaptado para o cinema e foi vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza de 2000. Dirigido por Julian Schnabel e estrelado por Javier Bardem (interpretando Arenas) e Hector Babenco no papel de Piñera.
Como filme não é grande coisa e as belas imagens glamourizam situações dolorosas a que o livro é fiel.
junho 03, 2008
Saindo do armário
Mente e Cérebro - a revista que une as partes na edição deste mes de junho traz o artigo abaixo. Ocorre que, ironicamente, no texto faltam partes. E "partes" importantes. Se a omissão foi deliberada (qualquer que tenha sido a motivação), ou, simplesmente, fruto do desconhecimento do autor, é, em qualquer caso, inaceitável.
Como se verifica no último parágrafo, a literatura gay cubana é mencionada apenas para referir-se as "situações difíceis" dos escritores, o que o autor do artigo "ilustra" narrando, como pilhéria (no caso, de muito mau gosto), episódio que envolveria o poeta Virgílio Piñera.
Admitindo o desconhecimento do autor quanto às reais dificuldades dos intelectuais cubanos que sempre estiveram longe de poderem ser reduzidas a terem milharais ou canaviais, como local para manter encontros amorosos, trarei na próxima postagem comentário acerca da obra de REINALDO ARENAS.
"Fenômeno recente, a literatura explicitamente gay se impôs nas três últimas décadas, dentro do contexto de liberação sexual"
"Lord Byron (1788-1824)
"To get out of the closet, sair do armário, é uma expressão muito usada para designar a atitude de homossexuais que assumem sua orientação. Esse processo, porém, nunca foi fácil. A homossexualidade é reconhecida há milênios, mencionada na Bíblia e em textos da Antigüidade clássica; mas, apesar da tolerância grega em relação a ela, de maneira geral tratava-se de transgressão e dificilmente poderia ser abordada em texto, a não ser de forma críptica, camuflada, como acontece em sonetos de Shakespeare. A literatura explicitamente gay é, portanto, relativamente recente. A rigor, só há cerca de três décadas o gênero se impôs dentro do quadro de liberação sexual que permitiu a muitas pessoas abordar o tema na ficção, na poesia, no ensaio. Os autores atuais dão prosseguimento à obra daqueles que, homossexuais ou não, falaram corajosamente do “amor que não ousa dizer seu nome”.
A editora americana Triangle, especializada em literatura gay, pediu a um grupo de intelectuais e autores uma lista das 100 melhores obras no gênero. Mesmo com absoluta e previsível preponderância de americanos, obteve uma lista notável: começando com Morte em Veneza, de Thomas Mann, passando por Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, e chegando a O beijo da mulher-aranha, do argentino (que viveu no Brasil) Manuel Puig, autores importantíssimos são citados: James Baldwin, Jean Genet, André Gide, Virginia Woolf, E. M. Forster, Gore Vidal, Marguerite Yourcenar, Evelyn Waugh, Gertrude Stein, Truman Capote, Christopher Isherwood, Colette, Henry James, Lezama Lima. A essa relação poderíamos acrescentar os nomes de Lord Byron, Walt Whitman, Allen Ginsberg, García Lorca, Oscar Wilde, Arthur Rimbaud e Tennessee Williams.
No Brasil são listados, entre os escritores homossexuais, João do Rio (cuja sexualidade foi objeto de muitas disputas), Pedro Nava, Caio Fernando Abreu, Walmyr Ayala. Há pelo menos um clássico de nossa literatura que aborda o tema da homossexualidade: é O bom crioulo (1895), de Adolfo Caminha, escritor que faleceu muito jovem, e autor de uma sombria obra, na qual o romance mencionado não constitui exceção. Dentro do espírito da época, é um texto naturalista que narra a ligação entre o negro Amaro, escravo fugido que se torna marinheiro, e o grumete Aleixo, que trabalha na mesma embarcação. O livro é, portanto, duplamente “transgressor”: amor entre homens, amor entre um negro e um branco. Amaro, que tem 30 anos, domina Aleixo, que, com seus 15, ainda é quase um menino. Caminha introduz ainda uma prostituta, Carolina, que, seduzindo Aleixo, cria um inusitado triângulo amoroso, que termina em tragédia quando Amaro mata Aleixo e é preso. Publicado no Reino Unido, na Alemanha, na França, no México, em Portugal, o livro teve grande repercussão.
Mesmo obtendo êxito, contudo, os autores homossexuais passaram por situações difíceis. Na Cuba de Fidel Castro eram mal-vistos e isso originou um incidente lendário com o poeta Virgilio Piñera que, em certa ocasião, teria se embrenhado com um rapazinho num milharal. Avisada, a polícia cercou o local e surpreendeu os dois em flagrante. O policial que comandava a operação perguntou a Piñera o que ele estava fazendo. “É uma espécie de reforma agrária”, respondeu o trêmulo poeta. Dentro da abertura cubana, isso possivelmente não acontecerá mais. E como Fidel nos garantiu que os milharais cubanos não serão transformados em biocombustível, podemos esperar progressos reais."
Moacyr Scliar é médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras
Como se verifica no último parágrafo, a literatura gay cubana é mencionada apenas para referir-se as "situações difíceis" dos escritores, o que o autor do artigo "ilustra" narrando, como pilhéria (no caso, de muito mau gosto), episódio que envolveria o poeta Virgílio Piñera.
Admitindo o desconhecimento do autor quanto às reais dificuldades dos intelectuais cubanos que sempre estiveram longe de poderem ser reduzidas a terem milharais ou canaviais, como local para manter encontros amorosos, trarei na próxima postagem comentário acerca da obra de REINALDO ARENAS.
"Fenômeno recente, a literatura explicitamente gay se impôs nas três últimas décadas, dentro do contexto de liberação sexual"
"Lord Byron (1788-1824)

"To get out of the closet, sair do armário, é uma expressão muito usada para designar a atitude de homossexuais que assumem sua orientação. Esse processo, porém, nunca foi fácil. A homossexualidade é reconhecida há milênios, mencionada na Bíblia e em textos da Antigüidade clássica; mas, apesar da tolerância grega em relação a ela, de maneira geral tratava-se de transgressão e dificilmente poderia ser abordada em texto, a não ser de forma críptica, camuflada, como acontece em sonetos de Shakespeare. A literatura explicitamente gay é, portanto, relativamente recente. A rigor, só há cerca de três décadas o gênero se impôs dentro do quadro de liberação sexual que permitiu a muitas pessoas abordar o tema na ficção, na poesia, no ensaio. Os autores atuais dão prosseguimento à obra daqueles que, homossexuais ou não, falaram corajosamente do “amor que não ousa dizer seu nome”.
A editora americana Triangle, especializada em literatura gay, pediu a um grupo de intelectuais e autores uma lista das 100 melhores obras no gênero. Mesmo com absoluta e previsível preponderância de americanos, obteve uma lista notável: começando com Morte em Veneza, de Thomas Mann, passando por Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, e chegando a O beijo da mulher-aranha, do argentino (que viveu no Brasil) Manuel Puig, autores importantíssimos são citados: James Baldwin, Jean Genet, André Gide, Virginia Woolf, E. M. Forster, Gore Vidal, Marguerite Yourcenar, Evelyn Waugh, Gertrude Stein, Truman Capote, Christopher Isherwood, Colette, Henry James, Lezama Lima. A essa relação poderíamos acrescentar os nomes de Lord Byron, Walt Whitman, Allen Ginsberg, García Lorca, Oscar Wilde, Arthur Rimbaud e Tennessee Williams.
No Brasil são listados, entre os escritores homossexuais, João do Rio (cuja sexualidade foi objeto de muitas disputas), Pedro Nava, Caio Fernando Abreu, Walmyr Ayala. Há pelo menos um clássico de nossa literatura que aborda o tema da homossexualidade: é O bom crioulo (1895), de Adolfo Caminha, escritor que faleceu muito jovem, e autor de uma sombria obra, na qual o romance mencionado não constitui exceção. Dentro do espírito da época, é um texto naturalista que narra a ligação entre o negro Amaro, escravo fugido que se torna marinheiro, e o grumete Aleixo, que trabalha na mesma embarcação. O livro é, portanto, duplamente “transgressor”: amor entre homens, amor entre um negro e um branco. Amaro, que tem 30 anos, domina Aleixo, que, com seus 15, ainda é quase um menino. Caminha introduz ainda uma prostituta, Carolina, que, seduzindo Aleixo, cria um inusitado triângulo amoroso, que termina em tragédia quando Amaro mata Aleixo e é preso. Publicado no Reino Unido, na Alemanha, na França, no México, em Portugal, o livro teve grande repercussão.
Mesmo obtendo êxito, contudo, os autores homossexuais passaram por situações difíceis. Na Cuba de Fidel Castro eram mal-vistos e isso originou um incidente lendário com o poeta Virgilio Piñera que, em certa ocasião, teria se embrenhado com um rapazinho num milharal. Avisada, a polícia cercou o local e surpreendeu os dois em flagrante. O policial que comandava a operação perguntou a Piñera o que ele estava fazendo. “É uma espécie de reforma agrária”, respondeu o trêmulo poeta. Dentro da abertura cubana, isso possivelmente não acontecerá mais. E como Fidel nos garantiu que os milharais cubanos não serão transformados em biocombustível, podemos esperar progressos reais."
Moacyr Scliar é médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras
junho 02, 2008
YVES SAINT LAURENT
"Todas as mulheres do mundo deveriam fazer um minuto de silêncio em homenagem a Yves Saint Laurent. Foi ele quem fez a moda explodir em novas formas poéticas e atitude libertadora, numa época em que uma série de restrições ainda controlava o vestuário feminino.Ele foi um garoto-prodígio, um gênio incomparável da moda. Mas foi, principalmente, um homem de seu tempo, que não ficou indiferente às rebeliões dos costumes e da cultura que começaram a eclodir no final dos anos 1950 e espalharam-se pelos anos 60.
Desde a sua primeira coleção para a Dior, em 1957, com os famosos vestidos trapézio, Saint Laurent não cessou de ampliar a poética e os horizontes da moda.
Introduziu o estilo beatnik e a pop art nas roupas, reelaborou grandes artistas modernos nos vestidos, como Mondrian, explorou pioneiramente a iconografia africana, criou o revolucionário smoking feminino e, quando as calças compridas ainda eram consideradas vulgares, as propôs como traje elegante, para o dia e para a noite.
Saint Laurent também foi um dos pioneiros do prêt-à-porter -esta adaptação da alta-costura para a produção industrial em série- e do licenciamento de produtos com seu nome.
Era um homem culto e cultivado, que amava a poesia e as artes. Fez várias coleções inspiradas na obra de artistas plásticos, como Picasso, Van Gogh, Braque e Matisse. Também criou figurinos para o teatro, o balé e o cinema.
Era o mais cinéfilo dos estilistas, na opinião do diretor François Truffaut -para quem Saint Laurent desenhou as roupas do filme "A Sereia do Mississippi" (1969). Foi o figurinista de Alain Resnais em "Stavisky" (1974) e "Providence" (1976). E também vestiu a sua musa Catherine Deneuve em "A Bela da Tarde" (1967), de Luis Buñuel. Em 2002, Saint Laurent reuniu a imprensa em Paris para anunciar a sua despedida da alta-costura (ela já deixara há alguns anos de fazer o prêt-à-porter).
Foi um momento histórico, que selava o final da idade de ouro da moda francesa. Por isso mesmo, uma multidão de jornalistas e amigos se aglomerou na maison na avenida Marceau, hoje transformada em fundação.
Vestido de terno preto, com gestos medidos e a voz titubeante, ele citou Rimbaud, dizendo-se próximo dos "fabricantes do fogo", incluiu-se na "família dos nervosos" de que falava Proust, pediu desculpas pela falta de modéstia e afirmou, com toda justiça: "Criei o guarda-roupa da mulher contemporânea, participei da transformação de uma época"..

ALCINO LEITE NETO - Editor de moda da Folha
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