junho 02, 2008

YVES SAINT LAURENT

"Todas as mulheres do mundo deveriam fazer um minuto de silêncio em homenagem a Yves Saint Laurent. Foi ele quem fez a moda explodir em novas formas poéticas e atitude libertadora, numa época em que uma série de restrições ainda controlava o vestuário feminino.
Ele foi um garoto-prodígio, um gênio incomparável da moda. Mas foi, principalmente, um homem de seu tempo, que não ficou indiferente às rebeliões dos costumes e da cultura que começaram a eclodir no final dos anos 1950 e espalharam-se pelos anos 60.
Desde a sua primeira coleção para a Dior, em 1957, com os famosos vestidos trapézio, Saint Laurent não cessou de ampliar a poética e os horizontes da moda.
Introduziu o estilo beatnik e a pop art nas roupas, reelaborou grandes artistas modernos nos vestidos, como Mondrian, explorou pioneiramente a iconografia africana, criou o revolucionário smoking feminino e, quando as calças compridas ainda eram consideradas vulgares, as propôs como traje elegante, para o dia e para a noite.
Saint Laurent também foi um dos pioneiros do prêt-à-porter -esta adaptação da alta-costura para a produção industrial em série- e do licenciamento de produtos com seu nome.
Era um homem culto e cultivado, que amava a poesia e as artes. Fez várias coleções inspiradas na obra de artistas plásticos, como Picasso, Van Gogh, Braque e Matisse. Também criou figurinos para o teatro, o balé e o cinema.
Era o mais cinéfilo dos estilistas, na opinião do diretor François Truffaut -para quem Saint Laurent desenhou as roupas do filme "A Sereia do Mississippi" (1969). Foi o figurinista de Alain Resnais em "Stavisky" (1974) e "Providence" (1976). E também vestiu a sua musa Catherine Deneuve em "A Bela da Tarde" (1967), de Luis Buñuel. Em 2002, Saint Laurent reuniu a imprensa em Paris para anunciar a sua despedida da alta-costura (ela já deixara há alguns anos de fazer o prêt-à-porter).
Foi um momento histórico, que selava o final da idade de ouro da moda francesa. Por isso mesmo, uma multidão de jornalistas e amigos se aglomerou na maison na avenida Marceau, hoje transformada em fundação.
Vestido de terno preto, com gestos medidos e a voz titubeante, ele citou Rimbaud, dizendo-se próximo dos "fabricantes do fogo", incluiu-se na "família dos nervosos" de que falava Proust, pediu desculpas pela falta de modéstia e afirmou, com toda justiça: "Criei o guarda-roupa da mulher contemporânea, participei da transformação de uma época"..
ALCINO LEITE NETO - Editor de moda da Folha

junho 01, 2008

Um Toque de Limão

"Entre os chineses, o limão é o símbolo da morte".
A velhice está longe de poder ser considerada a fase da vida em que se encontra serenidade. Sempre acreditei que a "inadequação" dos velhos decorria do fato de serem tão guiados pela emoção quanto os jovens. E eis que encontro, em outras palavras, esta afirmação nos contos de Julien Barnes, da coletânea Um toque de limão.
Seus personagens são velhos cientes de que o auge de suas vidas já passou há muito tempo.Suas preocupações giram em torno do testamento, escrevem cartas para serem lidas após sua morte e explicam aos filhos o que deve ser feito com suas cinzas, embora existam alguns que ignoram a proximidade do fim e/ou estão senis demais para saber que vão morrer em breve.
O tema central dos contos, à primeira vista, pode parecer azedo, no entanto trazem toques de humor e filosofia. Como a proximidade da morte costuma fazer as pessoas refletirem sobre o passado, os contos também tratam de arrependimento, do que deixou de ser dito, do tempo perdido, das constatações tardias, do que valeu e do que não valeu a pena e da lucidez.
Entre fracassos, perdas e frustrações, há momentos gostosos, "quando o limão vira uma fresca limonada". Em “O Cercado das Frutas”, um filho narra a história dos pais: a mulher octogenária que descobre que o marido, também na casa dos 80, tem uma amante de 65. Já “Vigilância” é um divertido relato de um maluco apreciador de música clássica que castiga os que tossem ou fazem barulho durante os concertos.
As estórias são bem boladas e bem escritas. Não resta dúvida porém, de que o tema da coletânea pode ser incômodo para quem não encara a velhice como uma fase incontornável do viver.
Para estas, o toque de limão pode não cair muito bem, mas eu vou continuar falando do "Medo Dela" e de tudo o mais que tiver vontade, desafiando convenções e transgredindo as regras...Ou não seria eu!

maio 30, 2008

SIBILAS

Sibilas é um grupo de personagens da mitologia greco-romana, descritas como mulheres que possuem poderes proféticos sob inspiração de Apolo.
Esta é Dafne, a sibila délfica, uma das cinco retratadas por Michelangelo, no teto da Capela Sistina.

A SIBILA é o título do livro da escritora portuguesa Agustina Bessa Luis. Trata-se de uma interessante estória em que, ainda que não se perceba qualquer denúncia social, ficam subentendidas as disparidades sociais e econômicas que envolvem suas personagens. Da mesma forma que, sem qualquer pretensão de pioneirismo ou modernidade (foi lançado em 1954, ), as personagens femininas têm em relação aos homens, sejam eles pais, maridos, filhos ou irmãos, uma atitude de compreensão e tolerância reveladora de uma sutil, porém indiscutível, superioridade. Como se deles nada pudessem esperar, como se houvesse o entendimento tácito de que homens são assim mesmo, de algum modo, fracos. A oposição entre homens e mulheres fica evidente no texto e implicitamente há supremacia das mulheres, na medida em que elas é que conseguem sustentar a linhagem da família.
A "sibila" é Quina. Ela era "...a primeira a auscultar uma conduta estranha, um gesto, uma palavra que não era prevista, um passo que fugiu do equilíbrio, uma decisão falhada....O imponderável nas criaturas para ela era motivado pela influência de espíritos favoráveis ou malignos , sombras manifestas do além".
Embrenhava-se nos fenômenos da natureza humana, com suas causas e efeitos e tinha uma sabedoria profunda acerca da consciência, do instinto e das forças telúricas. Sabia qual reação correspondia a determinada pessoa diante de determinado fato, adivinhava-lhe o pensamento ... Aos poucos, ganhou o título de adivinha e nunca soube até que ponto a sua condição espiritual era poderosa. Para ela o amor é um estado de lucidez e vidência. "Aquele que ama é implacável ; e só as almas mornas e indiferentes encontram no seu semelhante uma justificação de misérias e, perdoando-lhes, exigem o seu próprio perdão."
Suas capacidades sibilinas, já eram previstas pela mancha de nascença que apresentava no pulso, mas começaram a ser desenvolvidas e notadas quando, ainda adolescente, foi acometida de uma grave doença e todos pensaram que iria morrer. A partir desse incidente, Quina percebe que pode exercer alguma influência sobre as pessoas que a cercam e com independência e auto-suficiência, reverteu a ordem vigente no seu tempo, buscou a realização de seus próprios anseios, não se sujeitando a ter a sobrevivência condicionada a um casamento.
Inspirada ou não por Apolo, a premiadíssima Agustina Bessa Luis, ela própria uma Sibila, é considerada a mais poderosa prosadora das letras portuguesas.

O Animal Agonizante

Acabo de ler O ANIMAL AGONIZANTE que na na tradução portuguesa a que tive acesso chama-se Animal Moribundo.
Philip Roth escreve na primeira pessoa esta séria reflexão sobre as liberdades pessoais, a partir dos anos sessenta, a velhice e a morte, tendo como pano de fundo a história de um professor de mais de sessenta anos que se apaixona por uma jovem aluna de seios notavelmente grandes e bonitos.
Para ele o sexo era como uma religião: “...porque apenas quando fodes, tudo o que não gostas na vida e tudo pelo qual és derrotado na vida é puramente, senão momentaneamente, vingado. Apenas então estarás o mais limpidamente vivo e serás o mais limpidamente tu próprio. Não é o sexo que é a corrupção — é o resto. Sexo não é apenas fricção e divertimento superficial. Sexo é também a vingança sobre a morte.”
Uma de suas reflexões:
“Há que fazer uma distinção entre morrer e a morte. Nem tudo é morrer ininterruptamente. Se somos saudáveis e nos sentimos bem, vamos morrendo invisivelmente . O fim, que é uma certeza, não tem de ser anunciado. Não, não podemos compreender. A única coisa que compreendemos acerca dos velhos quando não somos velhos é que foram marcados pelo seu tempo. Mas compreender apenas isso imobiliza-os no seu tempo , o que equivale a não compreender nada. Para aqueles que ainda não são velhos ser velho significa que já fomos. Mas ser velho também significa que apesar de, além de e para lá de nosso estado de ser, ainda somos.
O nosso estado de ser está muito vivo.Ainda somos e sentimo-nos tão atormentados pelo ainda-ser e pela sua plenitude, como pelo já- ter-sido e pela sua qualidade de passado.
. Pensem na velhice do seguinte modo: o fato de a nossa vida estar em risco é apenas um fato cotidiano. Não podemos esquivar-nos ao conhecimento daquilo que em breve nos espera. O silêncio que nos envolverá para sempre. Tirando isso, é tudo a mesma coisa. Tirando isso, somos imortais enquanto vivermos.”


The Dying Animal foi adaptado para o cinema - O filme chama-se ELEGY e foi dirigido por Isabel Coixet - postei comentário e trailer em 22.04.2008 (marcador : cinema). Não vi o filme, mas no Brasl o destaque tem sido dado à nudez da Penelope Cruz. Seria só isto?

maio 28, 2008

Inegáveis evidências

De muitas maneiras nos dizem que somos ou estamos ficando velhas. Dei-me conta, mais uma vez disto, semanas atrás, quando tomei um metrô, em Madri. Não estava cheio. Fiquei em pé, próximo à porta. Ia desembarcar logo, duas ou tres estações adiante.

Durante estes deslocamentos, de metrô ou de ônibus, nunca leio. Dedico-me a olhar o rosto das pessoas e a imaginar uma estória para elas: de onde estariam vindo? estariam indo ao trabalho, a um encontro amoroso? ou, simplesmente, voltando para casa? haveria alguém a esperá-las? estariam preocupadas com as contas a pagar ou com os afazeres que lhe esperavam? Seriam amadas?
E tome divagações. Se escuto um fiapo de conversa, uma frase que seja, então, a coisa vai longe.

Estava entregue a esse exercício quando, ao passar de um rosto para outro, deparei-me com o olhar de uma jovem que estava sentada próximo a mim e, talvez,fazendo comigo aquilo que eu estava fazendo com os outros. Olhou-me com um rosto calmo, lembrou-me minha filha (teria a idade dela?) e não desviou o olhar quando os seus olhos se encontraram com os meus.

Em seguida, tentou se levantar e me ofereceu o seu lugar.

Ela estava sozinha e trazia consigo uma mala relativamente grande, para quem ia subir/descer as escadas do metrô, mochilas e sacolas, várias sacolas. Parecia mais estar fazendo sua mudança (do alojamento de estudante? do apartamento que compartilhava com uma amiga? ou saindo da casa de seus pais?) do que chegando ou partindo em viagem.

Por que aquele gesto? Sorrindo, com uma incontida ironia, agradeci o lugar que ela me oferecera e ela voltou a se acomodar com aquele excesso de coisas que transportava.

Será que eu a fizera lembrar alguém? sua mãe? ou sua avó?
Se ela não estivesse tão carregada, eu não teria me perturbado. Mas na circunstância, ela não estava em condições de fazer aquele gesto que deveria ser entenddido como de delicadeza. A não ser para uma velhinha!

Naquele momento, parei de ficar inventando estórias para a vida dos outros e ainda estou me perguntando:o que faz da gente uma velha?
Eu estava vestida igual a ela...

maio 27, 2008

Stacey Kent - Samba Saravah

Stacey Kent, no elogiado CD, Breakfast on the Morning Tram, incluiu o Samba Saravah, que nada mais é do que o Samba da Bênção de Vinicius de Moraes. Muito lindo!!!

Stacey Kent é uma cantora de jazz imprevisível. Com formação superior em linguística e literatura – talvez por isso a sua expressividade vocal seja tão elogiada – esta cantora nova-iorquina iniciou a sua carreira musical em Oxford.
Porter, Ellington e Gershwin são apenas alguns dos compositores que gosta de cantar, e Nat King Cole e Frank Sinatra duas das suas grandes influências.