maio 28, 2008

Inegáveis evidências

De muitas maneiras nos dizem que somos ou estamos ficando velhas. Dei-me conta, mais uma vez disto, semanas atrás, quando tomei um metrô, em Madri. Não estava cheio. Fiquei em pé, próximo à porta. Ia desembarcar logo, duas ou tres estações adiante.

Durante estes deslocamentos, de metrô ou de ônibus, nunca leio. Dedico-me a olhar o rosto das pessoas e a imaginar uma estória para elas: de onde estariam vindo? estariam indo ao trabalho, a um encontro amoroso? ou, simplesmente, voltando para casa? haveria alguém a esperá-las? estariam preocupadas com as contas a pagar ou com os afazeres que lhe esperavam? Seriam amadas?
E tome divagações. Se escuto um fiapo de conversa, uma frase que seja, então, a coisa vai longe.

Estava entregue a esse exercício quando, ao passar de um rosto para outro, deparei-me com o olhar de uma jovem que estava sentada próximo a mim e, talvez,fazendo comigo aquilo que eu estava fazendo com os outros. Olhou-me com um rosto calmo, lembrou-me minha filha (teria a idade dela?) e não desviou o olhar quando os seus olhos se encontraram com os meus.

Em seguida, tentou se levantar e me ofereceu o seu lugar.

Ela estava sozinha e trazia consigo uma mala relativamente grande, para quem ia subir/descer as escadas do metrô, mochilas e sacolas, várias sacolas. Parecia mais estar fazendo sua mudança (do alojamento de estudante? do apartamento que compartilhava com uma amiga? ou saindo da casa de seus pais?) do que chegando ou partindo em viagem.

Por que aquele gesto? Sorrindo, com uma incontida ironia, agradeci o lugar que ela me oferecera e ela voltou a se acomodar com aquele excesso de coisas que transportava.

Será que eu a fizera lembrar alguém? sua mãe? ou sua avó?
Se ela não estivesse tão carregada, eu não teria me perturbado. Mas na circunstância, ela não estava em condições de fazer aquele gesto que deveria ser entenddido como de delicadeza. A não ser para uma velhinha!

Naquele momento, parei de ficar inventando estórias para a vida dos outros e ainda estou me perguntando:o que faz da gente uma velha?
Eu estava vestida igual a ela...

maio 27, 2008

Stacey Kent - Samba Saravah

Stacey Kent, no elogiado CD, Breakfast on the Morning Tram, incluiu o Samba Saravah, que nada mais é do que o Samba da Bênção de Vinicius de Moraes. Muito lindo!!!

Stacey Kent é uma cantora de jazz imprevisível. Com formação superior em linguística e literatura – talvez por isso a sua expressividade vocal seja tão elogiada – esta cantora nova-iorquina iniciou a sua carreira musical em Oxford.
Porter, Ellington e Gershwin são apenas alguns dos compositores que gosta de cantar, e Nat King Cole e Frank Sinatra duas das suas grandes influências.

maio 26, 2008

JOANA FRANCESA - Jeanne Moreau


Chico Buarque - Joana Francesa
Irresistível! Quis compartilhar com vcs....
"Zelita, poucas letras, na minha opinião, foram concebidas com tanta maestria quanto esta do Chico!! Sem se falar no filme e na própria Jeanne Moreau!!
Beijos
Tito Lívio"

Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
d'accord, d'accord, d'accord, d'accord
Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise
Quem me enfeitiçou
O mar, maré, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
d'accord, d'accord, d'accord, d'accord

maio 25, 2008

"QUEM TEM MEDO DE MÚSICA CLÁSSICA?"


Era este o nome do programa apresentado por Artur da Távola, na TV Senado, nas manhãs de domingo. Com seu amor e entusiasmo pela grande música, introduziu a mim e a muitas pessoas nesse seu mundo magnífico.
Acabo de saber de seu falecimento ocorrido na primeira semana de maio quando estive fora do Brasil e sem ler jornais.
Artur da Távola, jornalista e político, falava com propriedade e paixão sobre música clássica. Encerrava o seu programa sempre com as mesmas palavras, repetidas com carinho, ao final de cada edição: "Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão".
Eram bons os seus textos.Postei algumas de suas crônicas neste blog. No dele, a última postagem foi esta que abaixo transcrevo. Segue-se um pedido de desculpas pelo afastamento. Já estava doente...
"Quinta-feira, Novembro 01, 2007
CURSO NOTURNO

Cansaço e caderno encardido
na luz errada, fio à mostra.
Dorida sala de aula.
Paredes cansadas de palavrão
Bancos melados ouvem
o professor ofegante
que idealiza salários
e um Brasil melhor
no guarda pó amargurado.
Lá fora, a rua é fragor
e antes das dez já deu vontade de trepar.

O pai ferroviário não desconfia
enquanto a mãe
passa a roupa da formatura
desde o primeiro ano.
O texto é difícil.
O tédio desaprende a atenção
e desprepara o saber.
As guerras púnicas são bocejo.

A fome fermentada em azia,
coadjuva o esforço de vir a ser.
Disputas perdidas de antemão
relegam a vida a planos secundários.
Resta o sonho do impossível
e a idealização do turno da manhã
com professores e louras alegres.
Tudo é Natal no turno da manhã.

Um sono e três assaltos
matemática entre fumaça
de ônibus humilhados
e geografia pelos trens da Central.
O desdentado grosseiro coça o saco.
Artistas abundam e desbundam
na capa dos cadernos.
Ninguém fala de Brahms
nem canta hinos a Manuel Bandeira.
O viado da turma já está ferido de morte.

Metade confia na vida e tudo é mérito.
A filha do pastor com medo da menstruação.
A caspa insulta alguns paletós.
Há gosto de sebo no pão dormido
e o espinhento toca bronha com dois dedos
disfarçando pelo bolso furado da calça.
O esforçado troca o direito ao jantar
por arroto de quibe ou pastel.
O rádio berra o rap
e a moça mastiga a goma da desesperança
num chiclete sem fim."

maio 24, 2008

LABRUGE

Labruge é uma freguesia do concelho de Vila do Conde, com 5,75 km² de área e 2 500 habitantes, a 18 Km do Porto e vizinha a freguesia Vila-Chã.



A praia é deslumbrante e a longa passarela em madeira, completamente integrada à paisagem, permite que dela se desfrute em toda extensão.
Lembrou-me a Galheta em Floripa, guardadas as devidas proporções e considerando a nossa falta de infra-estrutura.

VILA CHÃ

Vila Chã é uma pequena freguesia do concelho de Vila do Conde, onde fomos almoçar arraia ensopada que é a especialidade deste simpático restaurante.
O pitoresco teto do restaurante
Arraia ensopada que, segundo costume local, é servida com grandes fatias de pão mergulhadas no molho. Uma delícia!!!

Na vila dos pescadores



ESPOSENDE


Esposende pertence ao Distrito de Braga e é sede de um pequeno município com 95,18 km² de área, subdividido em 15 freguesias.Uma delas é Vila Chã que será objeto da próxima postagem. Em Portugal, estamos quase sempre entre um rio e o mar.
O encontro das águas



Piscina pública
Onde são mantidas as "lãs" de pesca

Esta enorme parede de madeira (perpendicular ao mar), pareceu-nos um quebra vento, tem peças que lembram cabides e um banco ao longo dela...(!?)

IMAGENS DE PRAGA

No meu retorno de Praga, chegando a Madri, li na revista El Cultural (encarte do jornal El Mundo) sobre o livro IMAGENS DE PRAGA - Retratos de uma Cidade, de autoria do irlandês JOHN BANVILLE.
Como os livros da mesma coleção ( Paris, os passeios de um flaneur e Florença um caso delicado), está longe de poder ser considerado mais um guia de viagem .
O autor salta da biografia à crônica histórica (especialmente em relação aos acontecimentos da primavera de Praga) e daí ao ensaio artístico , centrado basicamente na obra do fotógrafo Josef Sudek .
Não se trata de uma descrição da cidade, mas uma descrição do ambiente espiritual e intelectual que Praga propicia aos que nela nasceram e/ou viveram. Quanto à Praga monumental “en la que las vistas son siempre bastante menos de lo que parecia que seríam “, no que poderia ser mais uma descrição da ponte Carlos , o autor faz uma meditação comovente acerca da natureza essencial de uma ponte : “A ponte define , faz existir. ...A ponte reúne a terra enquanto paisagem em redor do rio”Para nós, desprovidos das divagações intelectuais, a ponte Carlos se atravessa entre empurrões de turistas mal humorados e, é verdade, as vistas são inferiores ao que pareciam ser. A presença de alegres músicos dá uma nota simpática ao lugar.
Segundo Andrés Barba que assina a resenha na revista acima mencionada (traduzo livremente): "Banville adentra na história de Praga não com a frieza do cronista , mas com o interesse com que alguém enamorado se dedica a investigar (ainda que para sua desgraça) o passado da pessoa amada. O melhor que se pode dizer , não é que nos desperta desejo de voltar à Praga , mas algo muito mais inquietante. Lendo- o temos a sensação de que nos agradaria estar nesse momento em Praga , para ler o livro lá".
Não poderia ser mais oportuno lê-lo recém chegada e, como o autor, enamorada de Praga.
Comprei o livro na FNAC do Porto e li durante o vôo. Adorei!!!!

Algumas de suas janelas - Vila do Conde







Ainda Vila do Conde

Praça com casario e o convento ao fundo




Casa onde morou Eça de Queiros
Capela de São Roque

maio 23, 2008

Vila do Conde

Vila do Conde é sede de Município da Área Metropolitana do Porto, composto por 30 freguesias. Uma curiosidade: Vila do Conde tem relações de irmanamento com quatro cidades: El Ferrol (Galícia/Espanha), Le Cannet-Rocheville (Cotê d'Azur/França), Portalegre (Alto Alentejo) e OLINDA/PE, por acordo firmado a 19 de junho de 1984.
O Rio Ave e o Convento de Santa Clara (instituição fundada em 1318, encontra-se fechado para trabalhos de restauração).A igreja do convento é Monumento Nacional.
Este aqueduto, também considerado Monumento Nacional, foi construído para abastecer o Convento de Santa Clara
Um rio...o mar...18 km de praias tranquilas e de areia fina

"Vila do Conde é um barco de luz e de pedra navegado por gente feita de mar" (Ruy Belo)
O Museu da Construção Naval em Madeira, perpetuando a memória de uma atividade indissociável da cidade, presta merecida homenagem aos calafates e carpinteiros que ao longo dos séculos mantiveram viva esta tradição. O Centro de Documentação do museu construiu esta Nau Quinhentista que, integrada ao núcleo museológico, se encontra "ancorada" à sua frente.

Lembrando um templo indiano, a cúpula branca vista ao fundo é da Capela de Nossa Senhora do Socorro.Construída em 1603, no seu interior se encontra belos painéis de azulejo do século XVIII. É um dos mais belos mirantes da cidade.


Praça José Régio (escritor vilacondense 1895/1969 - a "Casa de José Régio" foi transformada em museu onde, além do mobiliário , arte sacra, louças e quadros do escritor que era colecionador e apaixonado por arte popular , se encontram os seus manuscritos).
Abaixo os Paços do Concelho (séc. XVI) e o Pelourinho - coluna retorcida tem na sua parte superior uma espécie de gaiola de pedra artisticamente trabalhada onde, segundo consta, se colocava um lampião.

Escultura - Óperários
Azulejo na entrada do museu da rendilheira
RENDILHEIRA - Bela escultura. Mas convenhamos: "rendilheira" não dá boa rima...não ensina a namorar...