abril 27, 2008
'Rolling Stones — Shine a light'
Shine a Light (2008) - OFFICIAL TRAILER
MUITO BARULHO POR TUDO
"Tem uns que acabaram de completar 30 anos de idade e já começam a falar coisas como no meu tempo isso, no meu tempo aquilo.Imagina então quem está fazendo 40.Ou 50. Ou mais. Está todo mundo em pânico, com medo de envelhecer. O que, de certa forma, é um medo mais razoável do que ter medo da morte: essa virá a qualquer hora e crau. Com sorte, a gente não vai nem perceber o que está acontecendo. Já envelhecer é um processo lento e com muitos dissabores. A perda da energia. A perda do pique. A perda do charme. A perda da saúde física.
Por essas e outras, recomendo a quem ama bossa nova, chorinho, jazz, música clássica, música barroca, música instrumental, pagode, samba ou bolero que vá assistir imediatamente ao documentário "Rolling Stones — Shine a light". Você pode odiar rock'n'roll, mas se ama a vida e anda sendo rondado pelo fantasma da decrepitude, o filme é um tratamento de choque da melhor qualidade. Você sai do cinema com uma visão renovada da terceira idade.
Mick Jagger fará 65 anos em julho. Keith Richards, 65 em dezembro. O baterista Charlie Watts tem 67, e o caçula Ron Wood, 61. Não dá para dizer que eles possuem uma pele de anjo — seus rostos mais parecem o Grand Canyon. O brilhante Martin Scorsese (66 anos), que dirigiu "Shine a light" com o talento que a gente conhece não é de hoje, simplesmente não teve condescendência alguma com os quatro rapazes da banda: dá pra enxergar até suas cáries.
Mas não é um filme de terror. Assistir por duas horas a Mick Jagger no palco é a prova inconteste de que lá adiante, ou ali adiante (não sei em que idade você se encontra), não há, necessariamente, perda de energia, nem perda de pique, nem perda de charme. Perda nenhuma de charme, aliás.
O homem é um dínamo. Apesar de mostrar um show quase o tempo inteiro, lá pelas tantas aparece uma cena de Jagger bem garoto, começando a fazer sucesso, com aparência de quem cheirava a leite (mas já com ar de quem cheirava outra coisa).
Um jornalista pergunta a ele: "Você se imagina fazendo a mesma coisa aos 60?" Resposta: "Fácil." Era provocação, mas o fato é que ele chegou a 2008 fazendo exatamente a mesma coisa. Só um pouquinho mais ofegante, mas menos do que muito quarentão que faz meia hora de esteira na academia.
Além de um registro histórico da banda mais longeva e mais importante depois dos Beatles, esse documentário é de tirar o fôlego.
Dá um tapa na cara do nosso cansaço, nos envergonha pela nossa falta de atitude (palavrinha manjada, mas é a que define os Stones, não tem outra) e nos avisa: velhice? Sem essa. Nós também temos um palco: aqui, este. A vida. Também temos platéia, luz, figurino, a não ser que você tenha optado por virar ermitão. Um resfriado violento pode nos jogar na cama e nos fazer sentir velhos aos 20 anos, mas, se temos saúde, não há velhice que nos detenha, a não ser que tenhamos, por vontade própria, deixado de usar o cérebro.
Vá assistir ao documentário mesmo gostando apenas de canto gregoriano. É uma injeção de adrenalina. E se você gosta de rock como eu, bom, então nem preciso recomendar nada: você já deve ter ido e está aí, fazendo planos para depois de se aposentar aos 100.
"Você pode odiar rock'n'roll, mas se ama a vida e anda rondado pelo fantasma da decrepitude, 'Rolling Stones — Shine a light' é um tratamento de choque da melhor qualidade"
MARTHA MEDEIROS
abril 26, 2008
ÁGUA
"Mistérios da água e o futuro de um recurso escasso" Este é o título, que considerei macabro, de uma matéria no Herald Tribune, de hoje.
Não tenho os medos irracionais (livrai-nos do "malamém") , nem de que o nível do mar suba, (mesmo morando numa ilha) e tampouco de tsunamis. Tenho medo de que falte água.É pouco?
Sem água não se vive. Sabe-se que milhões de pessoas tentam (sobre)viver em condições de escassez quase absoluta deste bem, não só na África. Apesar do blá blá blá dos ecologistas, poupá-lo, ou mesmo consumi-lo racionalmente (fechar a torneira enquanto escova os dentes!) é um comportamento que não se incorporou aos nossos hábitos.
Afinal,vivemos num país de abundância, geramos energia elétrica a partir dela, de água temos amazonas, o verdadeiro e os metafóricos. É certo que às vezes está mal distribuída, como quase tudo.
A tecnologia para captar, armazenar, desviar , fazer os mais diversos usos, está dominada.Mas estamos esquecidos de que água não é um recurso natural inesgotável e ignoramos o quanto custa tratá-la e fazê-la chegar limpa e sem interrupções às nossas torneiras.
Uma coisa tão simples e corriqueira, até o momento em que falta.
Vejam em que ponto já chegamos!!
"A escassez de água está se tornando um problema de proporções globais. No mês passado, 2.000 agricultores na Índia foram presos por roubarem água; o governo regional da província espanhola da Catalunha anunciou que importará água por embarcações e trens a partir de maio para ser capaz de atender à demanda do verão; a Comissão de Água de Queensland, na Austrália, impôs aos seus consumidores as restrições mais rígidas até hoje ao consumo de água; e em Atlanta, no Estado da Geórgia, os moradores moveram um processo judicial contra a prefeitura devido aos problemas nas tubulações de água e nos sistema de esgoto da cidade."
"Segundo o Instituto Mundial da Água, apenas 2,5% da água de superfície e subterrânea do planeta está acessível para o uso humano. Este recurso finito, mantido pelo ciclo hidrológico da Terra, é utilizado para tudo, desde as redes de água potável até os sistemas de saneamento, da agricultura aos processos industriais. Prejudicadas pelo uso excessivo, poluição e infra-estrutura ineficiente, bem como por fenômenos naturais como secas, as reservas de água para a humanidade estão chegando ao limite".
........
"Entre os fatores que afetam o preço estão a demanda, o transporte e os custos de tratamento, bem como os subsídios dos preços - que às vezes representam até 40% ou 50% do custo total.
Se a água fosse uma commodity de verdade, como o petróleo, o preço dela seria mais semelhante ao custo marginal de fornecimento, incluindo a escassez e fatores de ordem ecológica".
CRUEL- dançando as desilusões do amor
Com a pré-estréia deste espetáculo, intitulado CRUEL a companhia de Deborah Colker encerrou o festival de teatro de Curitiba no mês passado.
O que ela disse nesta semana em que estréia no Municipal do RJ :
"Não é novela, não é teatro, mas é meu primeiro espetáculo realmente repleto de elementos narrativos. Os bailarinos vivem pequenas histórias em cena.... Mostro um olhar cruel e ao mesmo tempo muito particular sobre o amor. É a ilusão do amor perfeito, que aos poucos vai sendo destruída. Começamos com um grande baile, um lugar de encontros, depois vem a mesa onde a família se reúne para lavar a roupa suja e, finalmente, o espelho. É sempre muito cruel se olhar no espelho".
Achei lindo o baile que abre o espetáculo, sofremos com os desencontros da família ao redor da mesa cenográfica e prendemos a respiração diante da bailarina dançando com duas facas pontiagudas. A cena do espelho, que fecha o espetáculo, é a parte mais, vamos dizer, plástica de CRUEL, algo como a roda-gigante ou a parede dos anteriores. Quem viu deve lembrar...
abril 25, 2008
PORTUGAL
Em 25 de Abril de 1974, em Portugal, a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura de Salazar que já estava no seu 48º ano. Ela ganhou esse nome por causa da distribuição de cravos vermelhos aos capitães rebeldes.
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“Grândola, vila morena”
Os integrantes do MFA (Movimento das Forças Armadas), composto por capitães do exército português, aguardavam uma mensagem em código. Quando às duas horas do dia 25 de abril de 1974, a Rádio Renascença colocou no ar a música de Zeca Afonso “Grândola, vila morena”, que falava em fraternidade, igualdade e em um estranho lugar onde “O povo é quem mais ordena”, os regimentos aquartelados nos arredores de Lisboa, em estado de prontidão, sabiam do que se tratava.
Quando o dia amanheceu, já ocupavam o Terreiro do Paço sem fazer um só disparo. Os lisboetas, estupefatos, começaram a se aproximar dos tanques e dos caminhões. Não sabiam bem do que se tratava. Viram que as armas não apontavam contra eles mas contra os prédios do arcaico regime. A euforia da multidão então começou.
A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS
Quando as vendedoras de flores chegaram ao Rossio, o gesto delas foi espontâneo: enfiavam cravos vermelhos na ponta dos fuzis. Que diabos de revolução era aquela? Não se ouviam canhonadas nem gritos de dor. O povo, endoidecido pela súbita lufada de liberdade, subia nos tanques e abraçava os soldados. Mulheres, crianças, velhos, todo mundo saiu de casa para celebrar aquele acontecimento extraordinário. A Lisboa dos tristes fados, naquele dia tornou-se a cidade mais alegre de toda a Europa
Assim, democratizando-se, Portugal iniciou o seu caminho de volta para ser reintegrado ao concerto das demais nações européias.
Chico Buarque - TANTO MAR “Foi bonita a festa, pá”.
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“Grândola, vila morena”
Os integrantes do MFA (Movimento das Forças Armadas), composto por capitães do exército português, aguardavam uma mensagem em código. Quando às duas horas do dia 25 de abril de 1974, a Rádio Renascença colocou no ar a música de Zeca Afonso “Grândola, vila morena”, que falava em fraternidade, igualdade e em um estranho lugar onde “O povo é quem mais ordena”, os regimentos aquartelados nos arredores de Lisboa, em estado de prontidão, sabiam do que se tratava.
Quando o dia amanheceu, já ocupavam o Terreiro do Paço sem fazer um só disparo. Os lisboetas, estupefatos, começaram a se aproximar dos tanques e dos caminhões. Não sabiam bem do que se tratava. Viram que as armas não apontavam contra eles mas contra os prédios do arcaico regime. A euforia da multidão então começou.
A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS
Quando as vendedoras de flores chegaram ao Rossio, o gesto delas foi espontâneo: enfiavam cravos vermelhos na ponta dos fuzis. Que diabos de revolução era aquela? Não se ouviam canhonadas nem gritos de dor. O povo, endoidecido pela súbita lufada de liberdade, subia nos tanques e abraçava os soldados. Mulheres, crianças, velhos, todo mundo saiu de casa para celebrar aquele acontecimento extraordinário. A Lisboa dos tristes fados, naquele dia tornou-se a cidade mais alegre de toda a Europa
Assim, democratizando-se, Portugal iniciou o seu caminho de volta para ser reintegrado ao concerto das demais nações européias.
Chico Buarque - TANTO MAR “Foi bonita a festa, pá”.
PARALELOS - 40 anos depois
O novo livro de ZUENIR VENTURA e a sua lista:
O QUE NÃO TERMINOU
Nelson Rodrigues: Resistiu tanto que corre o risco de sucumbir ao que decretou: "Toda unanimidade é burra."
Pílula: Pode ser comprada sem receita médica.
Capitalismo: Era mais forte do que a vã ilusão da época pensava.
Sonho: Não confundir com pesadelo. Coisas que pareciam sonho em 68, como as drogas, eram pesadelo.
Minissaia: Britney Spears continua usando não apenas para mostrar as coxas, mas agora também para mostrar que está sem calcinha.
MPB: Gil, Caetano, Chico e Milton continuam por aí.
Minorias: Mulheres, negros e homossexuais eram chamados minorias, não por serem poucos, mas pela desimportância social.
Anticomunismo: Derrotar o comunismo no Brasil foi fácil, difícil é acabar com o anticomunismo.
O QUE TERMINOU
Transar sem camisinha.Com a pílula, o preservativo de borracha virou um inútil anacronismo. A Aids acabou com a farra.
O que movia os jovens: Rebeldia, uma causa. Os jovens hoje cuidam mais do seu bem-estar que dos outros.
Godard: Ele destruiu a linguagem cinematográfica e a idéia de cultura. Mas foi destruído pelo tempo.
Comunismo: Convicto mesmo, comunista para se botar a mão no fogo, só se conhece um: Oscar Niemeyer.
Cabelo comprido: Não é que não se use mais, mas sem sentido de contestação.
Palavrão: Foi banalizado e incorporado à linguagem cotidiana.
Recato: O biquíni já era nu para Nelson Rodrigues. Hoje a atriz famosa diz no jornal até o formato de sua depilação.
Garçonière: Os motéis acabaram com a instituição.
O QUE MUDOU
Che Guevara: O guerrilheiro cubano virou pop.
Bronzeador: As pessoas usavam para se queimar; hoje, para se proteger.
Virgindade: Não se preserva mais como valor moral. Virou um defeito.
Quarto dos jovens: Antes era de estudos. Hoje é de iniciação sexual.
@: Em 68, arroba só servia para designar peso.
Sistema: Era o que os jovens queriam derrubar. Hoje é a rede de computadores.
O QUE NÃO EXISTIA
Bala perdida, e-mail, diet, medo de colesterol, grade de prédio, piercing, depilação dos grandes lábios, "estarei fazendo", anorexia, DNA, academia de musculação, controle remoto, garota de programa (com este nome), shopping e mania de listas.
O QUE NÃO TERMINOU
Nelson Rodrigues: Resistiu tanto que corre o risco de sucumbir ao que decretou: "Toda unanimidade é burra."
Pílula: Pode ser comprada sem receita médica.
Capitalismo: Era mais forte do que a vã ilusão da época pensava.
Sonho: Não confundir com pesadelo. Coisas que pareciam sonho em 68, como as drogas, eram pesadelo.
Minissaia: Britney Spears continua usando não apenas para mostrar as coxas, mas agora também para mostrar que está sem calcinha.
MPB: Gil, Caetano, Chico e Milton continuam por aí.
Minorias: Mulheres, negros e homossexuais eram chamados minorias, não por serem poucos, mas pela desimportância social.
Anticomunismo: Derrotar o comunismo no Brasil foi fácil, difícil é acabar com o anticomunismo.
O QUE TERMINOU
Transar sem camisinha.Com a pílula, o preservativo de borracha virou um inútil anacronismo. A Aids acabou com a farra.
O que movia os jovens: Rebeldia, uma causa. Os jovens hoje cuidam mais do seu bem-estar que dos outros.
Godard: Ele destruiu a linguagem cinematográfica e a idéia de cultura. Mas foi destruído pelo tempo.
Comunismo: Convicto mesmo, comunista para se botar a mão no fogo, só se conhece um: Oscar Niemeyer.
Cabelo comprido: Não é que não se use mais, mas sem sentido de contestação.
Palavrão: Foi banalizado e incorporado à linguagem cotidiana.
Recato: O biquíni já era nu para Nelson Rodrigues. Hoje a atriz famosa diz no jornal até o formato de sua depilação.
Garçonière: Os motéis acabaram com a instituição.
O QUE MUDOU
Che Guevara: O guerrilheiro cubano virou pop.
Bronzeador: As pessoas usavam para se queimar; hoje, para se proteger.
Virgindade: Não se preserva mais como valor moral. Virou um defeito.
Quarto dos jovens: Antes era de estudos. Hoje é de iniciação sexual.
@: Em 68, arroba só servia para designar peso.
Sistema: Era o que os jovens queriam derrubar. Hoje é a rede de computadores.
O QUE NÃO EXISTIA
Bala perdida, e-mail, diet, medo de colesterol, grade de prédio, piercing, depilação dos grandes lábios, "estarei fazendo", anorexia, DNA, academia de musculação, controle remoto, garota de programa (com este nome), shopping e mania de listas.
Une femme amoureuse
A M É L I A
Helena, Luiza, Mariana, Laura, Dora, Maria... todas são musas da música brasileira, mas mirem no exemplo de Amélia, a musa proscrita. A música composta por Ataulfo Alves e Mário Lago ("Ai, que saudades da Amélia") foi tachada de hino machista a ponto de Amélia virar sinônimo de mulher submissa. Mas não é por ser um clássico do nosso cancioneiro que venho aqui defendê-la. Conta a letra:
Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Nem vê que eu sou um pobre rapaz
Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo o que você vê, você quer
Ai, meu Deus, que saudade da Amélia
Aquilo sim é que era mulher
Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
Quando me via contrariado
Dizia: "Meu filho, o que se há de fazer!"
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade
A música conta a história de um homem dividido entre duas mulheres. A primeira é exigente, vaidosa e fútil. A segunda é a mulher solidária, que está com o seu companheiro para o que der e vier. É claro, não se deve perder a perspectiva histórica de uma música escrita nos anos 40, tempo em que só restava à mulher o papel de solidária — entenda-se, coadjuvante do marido.
Por que Amélia incomoda tanto? Porque a mulher moderna é exigente, não exatamente por luxo e riqueza, mas por exigir seus direitos de igualdade.
Nesses tempos individualistas, a solidariedade de Amélia não cai bem. Será que a mulher está absorvendo os valores masculinos para ser vencedora dentro de um capitalismo selvagem nada solidário? Será que ela está mais ciente de seus direitos que de seus deveres? Ser livre versus ser responsável? Não são questões exclusivamente femininas.
Acredito que, na busca de uma liberdade cada vez mais idealizada, quase religiosa, mulheres e homens muitas vezes passam por cima de valores como responsabilidade, respeito e solidariedade.
Outras músicas retratam mulheres passivas, mas ninguém questiona. Por exemplo, "Camisa amarela" de Ary Barroso conta a história da companheira do boêmio que suplica "...convidei-o a voltar pra casa em minha companhia, exibiu-me um sorriso de ironia e desapareceu no turbilhão da galeria...", terminando por assumir que "...o meu pedaço me domina me fascina, ele é o tal por isso não levo a mal...".
"Com açúcar, com afeto", de Chico Buarque, conta uma história parecida, a da mulher que imagina o marido boêmio "...olhando as saias de quem vive pelas praias...", e, abnegada, confessa: "...logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato e abro os meus braços pra você...".
O problema de Amélia é que ela é solidária, acredita num amor e uma cabana, e ainda se aspira um modelo da mulher de verdade. Insuportável, não? Mas prestem atenção nas coisas do passado que ainda incomodam no presente.
Todos querem ter "atitude" — modernos, polêmicos e ousados —, mas quando todos são originais ninguém é original. Original, talvez, seja ir na contramão e resgatar o passado no que ele tem de bom, é claro.
Resgatem a Amélia que existe dentro de cada mulher. Com ela, o mundo pode ficar mais tolerante, compreensivo e solidário, sem ser necessariamente submisso.
Amélia íntegra, sem divisões, é que é a mulher de verdade.
LEONARDO DRUMMOND (O Globo, hoje)
A M É L I A
Helena, Luiza, Mariana, Laura, Dora, Maria... todas são musas da música brasileira, mas mirem no exemplo de Amélia, a musa proscrita. A música composta por Ataulfo Alves e Mário Lago ("Ai, que saudades da Amélia") foi tachada de hino machista a ponto de Amélia virar sinônimo de mulher submissa. Mas não é por ser um clássico do nosso cancioneiro que venho aqui defendê-la. Conta a letra:
Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Nem vê que eu sou um pobre rapaz
Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo o que você vê, você quer
Ai, meu Deus, que saudade da Amélia
Aquilo sim é que era mulher
Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
Quando me via contrariado
Dizia: "Meu filho, o que se há de fazer!"
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade
A música conta a história de um homem dividido entre duas mulheres. A primeira é exigente, vaidosa e fútil. A segunda é a mulher solidária, que está com o seu companheiro para o que der e vier. É claro, não se deve perder a perspectiva histórica de uma música escrita nos anos 40, tempo em que só restava à mulher o papel de solidária — entenda-se, coadjuvante do marido.
Por que Amélia incomoda tanto? Porque a mulher moderna é exigente, não exatamente por luxo e riqueza, mas por exigir seus direitos de igualdade.
Nesses tempos individualistas, a solidariedade de Amélia não cai bem. Será que a mulher está absorvendo os valores masculinos para ser vencedora dentro de um capitalismo selvagem nada solidário? Será que ela está mais ciente de seus direitos que de seus deveres? Ser livre versus ser responsável? Não são questões exclusivamente femininas.
Acredito que, na busca de uma liberdade cada vez mais idealizada, quase religiosa, mulheres e homens muitas vezes passam por cima de valores como responsabilidade, respeito e solidariedade.
Outras músicas retratam mulheres passivas, mas ninguém questiona. Por exemplo, "Camisa amarela" de Ary Barroso conta a história da companheira do boêmio que suplica "...convidei-o a voltar pra casa em minha companhia, exibiu-me um sorriso de ironia e desapareceu no turbilhão da galeria...", terminando por assumir que "...o meu pedaço me domina me fascina, ele é o tal por isso não levo a mal...".
"Com açúcar, com afeto", de Chico Buarque, conta uma história parecida, a da mulher que imagina o marido boêmio "...olhando as saias de quem vive pelas praias...", e, abnegada, confessa: "...logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato e abro os meus braços pra você...".
O problema de Amélia é que ela é solidária, acredita num amor e uma cabana, e ainda se aspira um modelo da mulher de verdade. Insuportável, não? Mas prestem atenção nas coisas do passado que ainda incomodam no presente.
Todos querem ter "atitude" — modernos, polêmicos e ousados —, mas quando todos são originais ninguém é original. Original, talvez, seja ir na contramão e resgatar o passado no que ele tem de bom, é claro.
Resgatem a Amélia que existe dentro de cada mulher. Com ela, o mundo pode ficar mais tolerante, compreensivo e solidário, sem ser necessariamente submisso.
Amélia íntegra, sem divisões, é que é a mulher de verdade.
LEONARDO DRUMMOND (O Globo, hoje)
Quando os cearenses dominarem o mundo...
"Todo mundo sabe que os cearenses estão por toda parte.Em geral,ocearense é aquele sujeito baixinho,cabeça chata,brincalhão,falante,
que é o guardador de carro em São Paulo, o chefe de um restaurante na
Madison em Nova York, o designer que bolou o logo da Eurocopa em
Portugal, ou mesmo um borracheiro no interior da China.O que pouca
gente sabe é que, na verdade, isso é uma bem arquitetada jogada que
visa plantar gente nossa em postos-chave da administração mundial.
Quando estivermos prontos, será deflagrada a grande tomada de poder e
meu conselho é que você fique imediatamente amigo ou amante de um
cearense, pois sabe como é:pros amigos tudo,pros inimigos,o rigor
da lei! Tomaremos o poder a partir de uma senha pré-estabelecida,
que só um cearense saberá o significado oculto. Aos berros de 'Queima
Raparigal!' as hostes de cabeças-chatas invadirão os parlamentos e
palácios, além de todos os jornais e redes de TV do mundo livre.
Ninguém desconfiaria que Francisco das Chagas, humilde faxineiro da
CNN (futura afiliada da TV Verdes Mares), na verdade, é um professor
do ITA que rapidamente conectará a rede de Atlanta para nossos
propósitos. Invadiremos e tomaremos o Estado de Pernambuco, vamos
dinamitar a nossa refinaria que eles roubaram e vamos construir outra
lá no Porto do Pecém; também vamos extinguir os times Náutico, Santa
Cruz e Sport Recife (eles nunca fizeram nada mesmo!).
Elegeremos um papa cearense,'Raimundim I',que canonizará Padre
Cícero e determinará que, daí por diante, em todas as igrejas
católicas, a comunhão será ministrada com uma hóstia feita com
macaxeira, farinha, rapadura, alternadamente, ou os três ingredientes
juntos. O vinho será uma cachacinha de primeira, misturada com
'Q-SUCO' de uva. Essa simples bula papal fará com que a economia do
Ceará dê um salto enorme e sua balança comercial seja mais
superavitária ainda. O único problema é achar uma mitra que caiba na
cabeça chata do papa, mas nós cearenses sabemos improvisar: Raimundim
I usará uma fronha de travesseiro, enquanto se encomenda outra.
A literatura de cordel ganhará status de arte maior e 'Clodoaldo
Mastrúcio' ganhará o Nobel de Literatura com seu livrinho 'A moça que
engravidou do cavalo e a besta da sua mãe'. Nas artes plásticas, as
garrafinhas com areia colorida de Canoa Quebrada, os quadros de Xico
da Silva e as esculturas de Zé Pinto irão ocupar alas e alas do
Louvre. Para arranjar espaço, todas aquelas velharias do Turner vão
para o museu do Aracati. A Monalisa fica, pois na avaliação de
Serotônio Macêdo, novo curador do museu, ela é uma 'cabôca danada de
aprumada'.
O novo Secretário Geral da ONU será 'Seu Lunga', que resolverá o
conflito Israel/Palestina doando vastas extensões do sertão cearense
pros brigões. A ata de doação será concisa e formal. Nas suas
palavras: 'Magote de fio d´uma égua, bando de mulambeiros, a terra é
seca do mesmo jeito que a d'ocês e o mar é da mesma cor. Deixem de
botar boneco que 'ocês' nem vão notar a diferença e o Ceará ainda é
maior que aquela tripinha de Gaza'.
Vamos aperfeiçoar o Oscar.
Bolaremos uma categoria que premiará o melhor filme de cangaço, melhor
cena de amor numa jangada (pode ser numa rede também), melhor mocotó e
melhor buchada.
O cruzamento mais famoso do Brasil não mais será 'Ipiranga com Av. São
João' e sim 'Barão do Rio Branco com Liberato Barroso' no centro de
Fortaleza (com todas as 'meninas' que lá estão). O 'jornal do 10'
será transmitido para todo o mundo com a seguinte noticia: *O rodeio
será substituído pela vaquejada; Coca-cola pela água de côco; Garota
de Ipanema por Garota da Barra do Ceará; Praia de Copacabana por Praia
do Futuro; Fla x Flu por Ceará e Fortaleza, Real Madrid por Ferrim;
Central Park por Parque do Cocó; As torres gêmeas, que já foram
destruídas mesmo, por Palácio do Progresso; As melhores faculdades
européias pelo Liceu do Ceará; Demitiremos Gugu Liberato e Faustão e
colocaremos em seus lugares João Inácio Jr e Ênio Carlos; Roberto
Carlos por Babau do Pandeiro; Funk por Xaxado; Disneylândia por Beach
Park; Av. Paulista por Av. Bezerra de Menezes; Canecão por Siará Hall
(na Washington Soares é show); Escolas de samba por quadrilhas
juninas; Chiclete com banana por Mastruz com Leite.
Colocaremos alguns cearenses nas presidências dos principais países
como: França - Cid Gomes; Cuba - Inácio Arruda; Argentina - Débora
Soft (ela é burra mesmo e eu quero mais é que a Argentina se exploda).
A primeira ministra da Inglaterra será Patrícia Gomes. A capital do
Brasil será Jeriquaquara. A capital do mundo ainda será Nova York, mas
a gente vai rebatizá-la de Nova Quixeramobim e vamos trocar aquela
estátua cafona por uma enorme estátua da Índia de Iracema. Yeah! Não
vejo como o plano possa falhar, pois cada vez mais nossos agentes se
espalham pelo Brasil e pelo mundo todo. Só nos resta esperar, de
preferência no fundo de uma rede, enquanto as engrenagens giram por
si.
Adeus e até a vitória! Como sou modesto, quero para mim apenas um
título de nobreza e umas terras anexas, de preferência o município de
Caucaia que é vizinho da capital e tem belas praias.
Saudações cearenses!!! E que nosso Padim Pade Ciço teja com todos nós!!!!!
Enviado de Fortaleza pela Eveline
abril 22, 2008
ELEGY - novo filme de Isabel Coixet
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Estreou na Espanha em 18 de Abril. Baseado no romance de Philip Roth (The Dying Animal) é uma reflexão sobre um amor que nasce já sem forças porque surge do medo de envelhecer. ELEGY parte de uma situação mais que previsível: ele é um professor e crítico televisivo de literatura, acostumado a sair com alunas ao fim de suas aulas. É um cara mimado e tem uma namorada linda, a quem é infiel.Quando a escolhida é uma cubana (Consola=Penelope Cruz), não será apenas mais um caso.
Se cada episódio amoroso era uma tentativa de encontrar um antídoto contra a velhice, desta vez o efeito é contrário. Ir pra cama com uma estudante trinta anos mais jovem significa começar a contar, desde o primeiro dia, quando ela irá se decidir por alguém de sua idade.
O professor, que tinha respostas para qualquer pergunta incômoda - casamento, fidelidade - não sabe como reagir ao fato e se transforma em um amante doente de ciúmes. "Não é um filme sobre a doença, mas sobre a beleza e a perda disso", explicou Coixet,"sobre a inversão dos papéis gerada ao final,uma prova de que nem tudo se decide em função dos pólos velhice-juventude".
Coixet, para quem não se lembra, dirigiu "Coisas que nunca te disse", "Minha vida sem mim" e "A Vida Secreta das Palavras", filmes que dispensam comentários.
Quanto ao tempo que vai levar para chegar por aqui, não há previsão.
Estreou na Espanha em 18 de Abril. Baseado no romance de Philip Roth (The Dying Animal) é uma reflexão sobre um amor que nasce já sem forças porque surge do medo de envelhecer. ELEGY parte de uma situação mais que previsível: ele é um professor e crítico televisivo de literatura, acostumado a sair com alunas ao fim de suas aulas. É um cara mimado e tem uma namorada linda, a quem é infiel.Quando a escolhida é uma cubana (Consola=Penelope Cruz), não será apenas mais um caso.
Se cada episódio amoroso era uma tentativa de encontrar um antídoto contra a velhice, desta vez o efeito é contrário. Ir pra cama com uma estudante trinta anos mais jovem significa começar a contar, desde o primeiro dia, quando ela irá se decidir por alguém de sua idade.
O professor, que tinha respostas para qualquer pergunta incômoda - casamento, fidelidade - não sabe como reagir ao fato e se transforma em um amante doente de ciúmes. "Não é um filme sobre a doença, mas sobre a beleza e a perda disso", explicou Coixet,"sobre a inversão dos papéis gerada ao final,uma prova de que nem tudo se decide em função dos pólos velhice-juventude".
Coixet, para quem não se lembra, dirigiu "Coisas que nunca te disse", "Minha vida sem mim" e "A Vida Secreta das Palavras", filmes que dispensam comentários.
Quanto ao tempo que vai levar para chegar por aqui, não há previsão.
L . I . V . R . O .
Millor Fernandes"Na virada do milênio, anuncia-se um revolucionário conceito de tecnologia de informação, chamado de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas - L.I.V.R.O.
L.I.V.R.O. representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta ABRÍ-LO!
Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de páginas numeradas, feitas de papel reciclável e são capazes de conter milhares de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém automaticamente em sua seqüência correta. Através do uso intensivo do recurso TPA - Tecnologia do Papel Opaco - permite que os fabricantes usem as duas faces da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os seus custos pela metade!
Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para se fazer L.I.V.R.O..s com mais informações, basta se usar mais páginas. Isso porém os torna mais grossos e mais difíceis de serem transportados, atraindo críticas dos adeptos da probabilidade do sistema.
Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, em seu cérebro. Lembramos que quanto maior e mais complexa a informação a ser transmitida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.
Outra vantagem do sistema é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite o acesso instantâneo à próxima página. O L.I.V.R.O. pode ser rapidamente retomado a qualquer momento, bastando abrí-lo. Ele nunca apresenta "ERRO GERAL DE PROTEÇÃO", nem precisa ser reinicializado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo.
O comando "browse" permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com o equipamento "índice" instalado, o qual indica a localização exata de grupos de dados selecionados.
Um acessório opcional, o marca páginas, permite que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou marca de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. Além disso, qualquer L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso seu usuário deseje manter selecionados vários trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com o número de páginas.
Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro. Milhares de programadores desse sistema já disponibilizaram vários títulos e upgrades utilizando a plataforma L.I.V.R.O.
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