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Estreou na Espanha em 18 de Abril. Baseado no romance de Philip Roth (The Dying Animal) é uma reflexão sobre um amor que nasce já sem forças porque surge do medo de envelhecer. ELEGY parte de uma situação mais que previsível: ele é um professor e crítico televisivo de literatura, acostumado a sair com alunas ao fim de suas aulas. É um cara mimado e tem uma namorada linda, a quem é infiel.Quando a escolhida é uma cubana (Consola=Penelope Cruz), não será apenas mais um caso.
Se cada episódio amoroso era uma tentativa de encontrar um antídoto contra a velhice, desta vez o efeito é contrário. Ir pra cama com uma estudante trinta anos mais jovem significa começar a contar, desde o primeiro dia, quando ela irá se decidir por alguém de sua idade.
O professor, que tinha respostas para qualquer pergunta incômoda - casamento, fidelidade - não sabe como reagir ao fato e se transforma em um amante doente de ciúmes. "Não é um filme sobre a doença, mas sobre a beleza e a perda disso", explicou Coixet,"sobre a inversão dos papéis gerada ao final,uma prova de que nem tudo se decide em função dos pólos velhice-juventude".
Coixet, para quem não se lembra, dirigiu "Coisas que nunca te disse", "Minha vida sem mim" e "A Vida Secreta das Palavras", filmes que dispensam comentários.
Quanto ao tempo que vai levar para chegar por aqui, não há previsão.
abril 22, 2008
L . I . V . R . O .
Millor Fernandes"Na virada do milênio, anuncia-se um revolucionário conceito de tecnologia de informação, chamado de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas - L.I.V.R.O.
L.I.V.R.O. representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta ABRÍ-LO!
Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de páginas numeradas, feitas de papel reciclável e são capazes de conter milhares de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém automaticamente em sua seqüência correta. Através do uso intensivo do recurso TPA - Tecnologia do Papel Opaco - permite que os fabricantes usem as duas faces da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os seus custos pela metade!
Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para se fazer L.I.V.R.O..s com mais informações, basta se usar mais páginas. Isso porém os torna mais grossos e mais difíceis de serem transportados, atraindo críticas dos adeptos da probabilidade do sistema.
Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, em seu cérebro. Lembramos que quanto maior e mais complexa a informação a ser transmitida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.
Outra vantagem do sistema é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite o acesso instantâneo à próxima página. O L.I.V.R.O. pode ser rapidamente retomado a qualquer momento, bastando abrí-lo. Ele nunca apresenta "ERRO GERAL DE PROTEÇÃO", nem precisa ser reinicializado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo.
O comando "browse" permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com o equipamento "índice" instalado, o qual indica a localização exata de grupos de dados selecionados.
Um acessório opcional, o marca páginas, permite que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou marca de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. Além disso, qualquer L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso seu usuário deseje manter selecionados vários trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com o número de páginas.
Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro. Milhares de programadores desse sistema já disponibilizaram vários títulos e upgrades utilizando a plataforma L.I.V.R.O.
abril 21, 2008
MÁRIO QUINTANA

Amor é síntese
Por favor não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu
Se ninguém resiste a uma análise profunda
Quanto mais eu
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor
Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeito amor.
Os degraus
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo.
Quem Ama Inventa
Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!
GOTA D' ÁGUA - o musical
Neste domingo assisti a mais nova remontagem de GOTA D´ÁGUA.
De autoria de Chico Buarque e Paulo Pontes, este musical é uma adaptação de Medéia para a realidade brasileira. O espetáculo teve 10 atores/cantores, músicas perfeitas e uma equipe afinada, com Isabella Biscalho no papel de Medéia (Joana).
O texto, que continua atual, mostra as dificuldades sofridas pelas classes menos privilegiadas e foi uma corajosa crítica social numa época (1975) em que se vivia sob forte repressão ideológica.
De autoria de Chico Buarque e Paulo Pontes, este musical é uma adaptação de Medéia para a realidade brasileira. O espetáculo teve 10 atores/cantores, músicas perfeitas e uma equipe afinada, com Isabella Biscalho no papel de Medéia (Joana).
O texto, que continua atual, mostra as dificuldades sofridas pelas classes menos privilegiadas e foi uma corajosa crítica social numa época (1975) em que se vivia sob forte repressão ideológica.
abril 19, 2008

EMBRIAGUE-SE
É preciso estar sempre embriagado.
Isso é tudo: é a única questão.
Para não sentir o horrível fardo do Tempo
que lhe quebra os ombros e o curva para o chão,
é preciso embriagar-se sem perdão.
Mas de que?
De vinho, de poesia ou de virtude,
como quiser.
Mas embriague-se.
E se às vezes, nos degraus de um palácio,
na grama verde de um fosso,
na solidão triste do seu quarto, você acorda,
a embriaguez já diminuída ou desaparecida,
pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro,
ao relógio, a tudo o que foge,
a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro,
o relógio lhe responderão: "É hora de embriagar-se!
Para não ser o escravo mártir do Tempo,
embriague-se; embriague-se sem parar!
De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser".
BAUDELAIRE - trad. J.Pontual
ROBERT DOISNEAU (1912-1994)
Sous le ciel de Paris - chanteuse Silke Straub
abril 18, 2008
O Olhar para Curitiba
O texto do Cristovão Tezza - O Olhar de Curitiba - reacendeu, além de lembranças, o meu olhar para Curitiba.
E pensar que fiquei mais de 15 anos ! Até o último dia fui, para dizer o mínimo, um ser exótico na paisagem (não vou expor aqui explicações).
Nos primeiros dias (quando os "forasteiros" ainda não eram tantos), aprendi que não devia falar "bom dia" no elevador. O vizinho não responde e entra em pânico (o que virá depois? ele deve pensar). Para o porteiro? nem pensar!(ele não passa de um empregado, é invisível). E o motorista do ônibus que você pega sempre no mesmo horário, ouvindo um bom dia? Ah! este nunca vai te esquecer!
Enfim, falar bom dia, puxar conversa e, ainda, sorrir? Total inadequação! Não espere ser compreendida e perdoada. Afinal existem outras culturas, você não é de lá, isto eles nunca irão pensar. Seria preciso uma boa vontade que eles nunca terão com alguém "de fora".
As idiossincrasias deste povo são tantas!
Não se deve cogitar, por exemplo, de ter o telefone ou saber onde mora o colega com quem trabalha há mais de 10 anos; nem jamais esquecer de pedir desculpas por "estar incomodando", ao telefonar para a casa de alguém (mesmo que seja 3 horas da tarde ou 10 da manhã). De uma certa forma, você está entrando na casa deles, sem ser convidada.
Após algum (muito) tempo na cidade, já se tem "conhecidos" que, no auge da intimidade, te cumprimentam: "tudobem?entãotábom". Assim junto, sem espaço para eventual resposta que, na verdade, não interessa. Se a conversa continuar, passa-se a falar do (mau) tempo...
O mais importante aprendizado é o de ser transparente, isto mesmo, invisível. Menos para o efeito de esbarrarem em ti. Ah! isto eles não fazem. E, se ocorre, involuntariamente, mil perdões não resolvem...
Outra peculiariade dos curitibanos é que eles "não falam com estranhos".
Mas invisíveis mesmo são os humildes, os pobres ("maloqueiros", no dialeto local). Não precisa ser "carrinheiro" (que trabalha de graça para a Prefeitura na coleta de lixo reciclável, puxando seus carrinhos onde, além de lixo, carregam as crianças), mesmo os operários/trabalhadores têm um defeito imperdoável para eles, são pobres.
Aqueles que,além de pobres, forem negros, gays ou deficientes físicos que se cuidem, pois estão na mira dos "carecas"...É só ver as estatísticas.
Mas a ira curitibana se revela, em sua plenitude, no trânsito, quando se manifesta, que pretende mudar de faixa...Com relação aos pedestres é inacreditável como se comportam. Na faixa, com o sinal fechado, paira a ameaça do ronco dos motores impacientemente pressionados. Não sei em qual outra cidade,a cada hora, é transmitido boletim de atropelamentos.
E como diz o Tezza, em Curitiba, se aprende a ir sozinho, pois não adianta pedir informação. Qualquer que seja. Antes de terminar a frase, já vem a resposta seca: "não sei" . Eles não falam com estranhos!
Curitiba não é só avessa e indecifrável, ela pode ser cruel!!!
O OLHAR DE CURITIBA
Cristovão Tezza
"Em nenhum lugar do mundo o olhar do Outro será tão mortal como em Curitiba. Não ria na festa, exceto como disfarce; não chore no enterro, a menos que estejam vendo; não erga os braços, temerário assim no meio da rua. Em último caso, protegido no bar, solte os nervos da gargalhada, do tapa demasiado forte nas costas, do palavrão retumbante e confira no mesmo instante o viés alheio: a extroversão não é alegria, é um risco calculado. A fila de ônibus é feita de Outros - por isso que se respeita. Não fale tão alto, exceto quando bêbado - e então fale tudo de uma vez, tudo aquilo que você vem observando a vida inteira e nunca lhe deram chance. Leia os jornais da terra, que são ruins de pedra, e vigie nas entrelinhas o que os calhordas andam inventando nos palácios. Investigue cada nome da coluna social: o próximo pode ser você, e mal acompanhado. Melhor nem sair no jornal: os outros vão rir, e a inveja vai te comer. Nas cerimônias públicas, fique firme, a gravata ajeitadinha, e meta o olho na calça curta da autoridade, na peruca torta da madame, na viadagem do orador, no ridículo daquele um que está sentado duas poltronas à frente cheio de caspa no paletó. Quem é esse que sem mais nem menos lhe pede informação na rua? Não é daqui, senão ia sozinho.
Como sozinho vai Dalton Trevisan, desde sempre, o paradigma de Curitiba, a avessa, a indecifrável, a incorruptível Curitiba, que por nenhum preço do mundo aceita um carimbo na testa, por mais alto que a banda toque.
E como reclamam dele! Como metem o pau, como descobrem defeitos, como lhe cobram empadinhas! E as pedras, então? Rútilas, cortantes na cabeça. De tal modo que ele, santo homem, decidiu compilá-las em dois ou três parágrafos - Quem tem medo de vampiro? - para maior facilidade de manuseio. Inútil: o jornalismo ingênuo decidiu que ele fazia autocrítica! Um curitibano fazendo autocrítica, já se viu?! Ridículo! Nem no Partidão! Antes beber da água do Rio Belém!
Em outra encarnação - Curitiba está povoada de espíritos - Dalton Trevisan também foi curitibano, quando a cidade sequer existia; e ao nascer foi só esperar que o Vampiro lhe desse uma face, sempre a mesma, de microscópicos relevos que ocupam todas as ruas, por mais que tombem as casas, que se atravessem os expressos, que se iluminem os acrílicos, que se plantem pinheirinhos. Saudades de Curitiba de trinta anos atrás? Saudades das polaquinhas? Saudades da velha manca? Nem é preciso. Curitiba é um Olhar, e até meu avô sabia que olhar não ocupa espaço. Mas como esmaga!
Nenhuma cidade tem mais vergonha na cara que Curitiba - tanta, que emudece, na timidez doida e doída, no silêncio pesado de alguma coisa mais grave, mais forte, mais alta que o riso fácil brasileirinho.
Só uma proteção: olhe você também. E os Outros darão o troco, porque o nosso jogo é este, fuzilante.
Olham e dizem: mas ele escreve sempre a mesma história, e cada vez mais torto! Pois por que não reclamam de Samuel Beckett, que passou a vida dizendo a mesma frase pela metade e nunca provou uma broinha de fubá mimoso? Está certo que o tal bradava a morte do Homem, sem usar vírgula; mas Dalton Trevisan aponta com o dedo, e a sintaxe irritadiça, quem está morrendo - é aquele ali na esquina, com uma espinha na testa, é a piranha de meia furada, é o Dario que já morreu e roubaram o relógio dele. E acabou-se a página. Que culpa o Vampiro tem se o sangue é sempre o mesmo? Não é só na Europa; também em Curitiba não há nenhuma esperança na face da terra. Alguém precisa nos lembrar disso, por escrito, porque a memória é frágil, e o mundo está cheio de levianos alegrinhos fingindo que a vida é o mar de rosas da rádio Colombo - e não esse espanto desajeitado que atravessa o mundo inteiro, do mesmo modo que a Barreirinha.
Olham e dizem: mas que vocabulário estreito, que coleirinha de chavões! Pra que mais, se o que ele quer é uma só palavra na veia, a que mata! O bom veneno é o já testado, como o café da Boca.
Olham e dizem: mas por que esse nojo do povinho, dos miseráveis, dos pequenos? Pois por acaso alguém é Nobre, alguém é Grande? Você conhece? Mora aonde?
E depois de olharem e dizerem até a última gota de cafezinho, querem recuperar a ovelha desgarrada (que todos somos) tentando lhe pregar uma peça de ouro, um medalhão no peito, para desfrute na praça, com casquinhas pra todo lado e logotipo moderno. Nunca! Pois Curitiba é assim: não se entrega; comparece à cerimônia, mas ri até o gozo dos que caem na arapuca e sobem no palco para receber os louros e as palminhas. Quem perdoa a coroação de Emiliano Perneta? (Mas a boca-livre estava ótima.)
Por último: mas nem uma fotografia? Se Vampiro não sai em espelho, vai sair em fotografia? Quem fotografa Curitiba vê fachadas - muito bonitas - e mais nada. Olhe bem. Ela está em outra parte. Não perca tempo com as fachadas. Melhor o azulejo branco do velho Palácio e o cheiro do bife, melhor a peçonha destilada na cerveja.
Dalton Trevisan, é certo, será sempre assim, revisitado a cada linha reescrita mil vezes. Quanto à sua secreta alma gêmea, Curitiba, esta dependerá da força dos espíritos ante a horda dos invasores do Terceiro Milênio - o povão da periferia, os catarinas migrantes, os funcionários transferidos, os nordestinos teimosos... Acabam de se mudar e em uma semana já não visitam ninguém sem convite prévio - é a primeira das Sete Provas de Fogo, que às vezes levam uma vida inteira. Basta passear no calçadão da XV, percorrer os domingos do Passeio Público - é essa a cor de Curitiba? De qual delas? Do Município Oficial, teimando em inventar uma História que se perdeu, ou, quem sabe, nunca existiu além do paranismo risível, mas que sobrevive heróico e retumbante nas páginas da Gazeta? Da Curitiba estrangeira que chegou e vem chegando de toda parte fazendo filhos curitibanos e ocupando apartamentos? Ou do Olhar intangível e onipresente que coloca cada pose no seu devido lugar, com a impiedade dos profetas? No ano 2000 - que está na porta! -, que alma teremos nós? O rosto já sabemos: calçadões-rolantes, heliporto na Santos Andrade, bonde solar. Mas e a alma?
Que se preparem os espíritos. Será uma luta lenta, silenciosa e medonha. Porque é mais fácil mudar todas as canaletas do Expresso em sete dias que suprimir o Olhar, a Ira e a Curitiba de Dalton Trevisan".
http://www.cristovaotezza.com.br/textos/contos/p_olhar.htm
E pensar que fiquei mais de 15 anos ! Até o último dia fui, para dizer o mínimo, um ser exótico na paisagem (não vou expor aqui explicações).
Nos primeiros dias (quando os "forasteiros" ainda não eram tantos), aprendi que não devia falar "bom dia" no elevador. O vizinho não responde e entra em pânico (o que virá depois? ele deve pensar). Para o porteiro? nem pensar!(ele não passa de um empregado, é invisível). E o motorista do ônibus que você pega sempre no mesmo horário, ouvindo um bom dia? Ah! este nunca vai te esquecer!
Enfim, falar bom dia, puxar conversa e, ainda, sorrir? Total inadequação! Não espere ser compreendida e perdoada. Afinal existem outras culturas, você não é de lá, isto eles nunca irão pensar. Seria preciso uma boa vontade que eles nunca terão com alguém "de fora".
As idiossincrasias deste povo são tantas!
Não se deve cogitar, por exemplo, de ter o telefone ou saber onde mora o colega com quem trabalha há mais de 10 anos; nem jamais esquecer de pedir desculpas por "estar incomodando", ao telefonar para a casa de alguém (mesmo que seja 3 horas da tarde ou 10 da manhã). De uma certa forma, você está entrando na casa deles, sem ser convidada.
Após algum (muito) tempo na cidade, já se tem "conhecidos" que, no auge da intimidade, te cumprimentam: "tudobem?entãotábom". Assim junto, sem espaço para eventual resposta que, na verdade, não interessa. Se a conversa continuar, passa-se a falar do (mau) tempo...
O mais importante aprendizado é o de ser transparente, isto mesmo, invisível. Menos para o efeito de esbarrarem em ti. Ah! isto eles não fazem. E, se ocorre, involuntariamente, mil perdões não resolvem...
Outra peculiariade dos curitibanos é que eles "não falam com estranhos".
Mas invisíveis mesmo são os humildes, os pobres ("maloqueiros", no dialeto local). Não precisa ser "carrinheiro" (que trabalha de graça para a Prefeitura na coleta de lixo reciclável, puxando seus carrinhos onde, além de lixo, carregam as crianças), mesmo os operários/trabalhadores têm um defeito imperdoável para eles, são pobres.
Aqueles que,além de pobres, forem negros, gays ou deficientes físicos que se cuidem, pois estão na mira dos "carecas"...É só ver as estatísticas.
Mas a ira curitibana se revela, em sua plenitude, no trânsito, quando se manifesta, que pretende mudar de faixa...Com relação aos pedestres é inacreditável como se comportam. Na faixa, com o sinal fechado, paira a ameaça do ronco dos motores impacientemente pressionados. Não sei em qual outra cidade,a cada hora, é transmitido boletim de atropelamentos.
E como diz o Tezza, em Curitiba, se aprende a ir sozinho, pois não adianta pedir informação. Qualquer que seja. Antes de terminar a frase, já vem a resposta seca: "não sei" . Eles não falam com estranhos!
Curitiba não é só avessa e indecifrável, ela pode ser cruel!!!
O OLHAR DE CURITIBA
Cristovão Tezza
"Em nenhum lugar do mundo o olhar do Outro será tão mortal como em Curitiba. Não ria na festa, exceto como disfarce; não chore no enterro, a menos que estejam vendo; não erga os braços, temerário assim no meio da rua. Em último caso, protegido no bar, solte os nervos da gargalhada, do tapa demasiado forte nas costas, do palavrão retumbante e confira no mesmo instante o viés alheio: a extroversão não é alegria, é um risco calculado. A fila de ônibus é feita de Outros - por isso que se respeita. Não fale tão alto, exceto quando bêbado - e então fale tudo de uma vez, tudo aquilo que você vem observando a vida inteira e nunca lhe deram chance. Leia os jornais da terra, que são ruins de pedra, e vigie nas entrelinhas o que os calhordas andam inventando nos palácios. Investigue cada nome da coluna social: o próximo pode ser você, e mal acompanhado. Melhor nem sair no jornal: os outros vão rir, e a inveja vai te comer. Nas cerimônias públicas, fique firme, a gravata ajeitadinha, e meta o olho na calça curta da autoridade, na peruca torta da madame, na viadagem do orador, no ridículo daquele um que está sentado duas poltronas à frente cheio de caspa no paletó. Quem é esse que sem mais nem menos lhe pede informação na rua? Não é daqui, senão ia sozinho.
Como sozinho vai Dalton Trevisan, desde sempre, o paradigma de Curitiba, a avessa, a indecifrável, a incorruptível Curitiba, que por nenhum preço do mundo aceita um carimbo na testa, por mais alto que a banda toque.
E como reclamam dele! Como metem o pau, como descobrem defeitos, como lhe cobram empadinhas! E as pedras, então? Rútilas, cortantes na cabeça. De tal modo que ele, santo homem, decidiu compilá-las em dois ou três parágrafos - Quem tem medo de vampiro? - para maior facilidade de manuseio. Inútil: o jornalismo ingênuo decidiu que ele fazia autocrítica! Um curitibano fazendo autocrítica, já se viu?! Ridículo! Nem no Partidão! Antes beber da água do Rio Belém!
Em outra encarnação - Curitiba está povoada de espíritos - Dalton Trevisan também foi curitibano, quando a cidade sequer existia; e ao nascer foi só esperar que o Vampiro lhe desse uma face, sempre a mesma, de microscópicos relevos que ocupam todas as ruas, por mais que tombem as casas, que se atravessem os expressos, que se iluminem os acrílicos, que se plantem pinheirinhos. Saudades de Curitiba de trinta anos atrás? Saudades das polaquinhas? Saudades da velha manca? Nem é preciso. Curitiba é um Olhar, e até meu avô sabia que olhar não ocupa espaço. Mas como esmaga!
Nenhuma cidade tem mais vergonha na cara que Curitiba - tanta, que emudece, na timidez doida e doída, no silêncio pesado de alguma coisa mais grave, mais forte, mais alta que o riso fácil brasileirinho.
Só uma proteção: olhe você também. E os Outros darão o troco, porque o nosso jogo é este, fuzilante.
Olham e dizem: mas ele escreve sempre a mesma história, e cada vez mais torto! Pois por que não reclamam de Samuel Beckett, que passou a vida dizendo a mesma frase pela metade e nunca provou uma broinha de fubá mimoso? Está certo que o tal bradava a morte do Homem, sem usar vírgula; mas Dalton Trevisan aponta com o dedo, e a sintaxe irritadiça, quem está morrendo - é aquele ali na esquina, com uma espinha na testa, é a piranha de meia furada, é o Dario que já morreu e roubaram o relógio dele. E acabou-se a página. Que culpa o Vampiro tem se o sangue é sempre o mesmo? Não é só na Europa; também em Curitiba não há nenhuma esperança na face da terra. Alguém precisa nos lembrar disso, por escrito, porque a memória é frágil, e o mundo está cheio de levianos alegrinhos fingindo que a vida é o mar de rosas da rádio Colombo - e não esse espanto desajeitado que atravessa o mundo inteiro, do mesmo modo que a Barreirinha.
Olham e dizem: mas que vocabulário estreito, que coleirinha de chavões! Pra que mais, se o que ele quer é uma só palavra na veia, a que mata! O bom veneno é o já testado, como o café da Boca.
Olham e dizem: mas por que esse nojo do povinho, dos miseráveis, dos pequenos? Pois por acaso alguém é Nobre, alguém é Grande? Você conhece? Mora aonde?
E depois de olharem e dizerem até a última gota de cafezinho, querem recuperar a ovelha desgarrada (que todos somos) tentando lhe pregar uma peça de ouro, um medalhão no peito, para desfrute na praça, com casquinhas pra todo lado e logotipo moderno. Nunca! Pois Curitiba é assim: não se entrega; comparece à cerimônia, mas ri até o gozo dos que caem na arapuca e sobem no palco para receber os louros e as palminhas. Quem perdoa a coroação de Emiliano Perneta? (Mas a boca-livre estava ótima.)
Por último: mas nem uma fotografia? Se Vampiro não sai em espelho, vai sair em fotografia? Quem fotografa Curitiba vê fachadas - muito bonitas - e mais nada. Olhe bem. Ela está em outra parte. Não perca tempo com as fachadas. Melhor o azulejo branco do velho Palácio e o cheiro do bife, melhor a peçonha destilada na cerveja.
Dalton Trevisan, é certo, será sempre assim, revisitado a cada linha reescrita mil vezes. Quanto à sua secreta alma gêmea, Curitiba, esta dependerá da força dos espíritos ante a horda dos invasores do Terceiro Milênio - o povão da periferia, os catarinas migrantes, os funcionários transferidos, os nordestinos teimosos... Acabam de se mudar e em uma semana já não visitam ninguém sem convite prévio - é a primeira das Sete Provas de Fogo, que às vezes levam uma vida inteira. Basta passear no calçadão da XV, percorrer os domingos do Passeio Público - é essa a cor de Curitiba? De qual delas? Do Município Oficial, teimando em inventar uma História que se perdeu, ou, quem sabe, nunca existiu além do paranismo risível, mas que sobrevive heróico e retumbante nas páginas da Gazeta? Da Curitiba estrangeira que chegou e vem chegando de toda parte fazendo filhos curitibanos e ocupando apartamentos? Ou do Olhar intangível e onipresente que coloca cada pose no seu devido lugar, com a impiedade dos profetas? No ano 2000 - que está na porta! -, que alma teremos nós? O rosto já sabemos: calçadões-rolantes, heliporto na Santos Andrade, bonde solar. Mas e a alma?
Que se preparem os espíritos. Será uma luta lenta, silenciosa e medonha. Porque é mais fácil mudar todas as canaletas do Expresso em sete dias que suprimir o Olhar, a Ira e a Curitiba de Dalton Trevisan".
http://www.cristovaotezza.com.br/textos/contos/p_olhar.htm
Aldrabas ... suite
abril 17, 2008
ALDRABAS
Aldrabas (do árabe Ad-Dabbâ) são peças decorativas e funcionais de inegável valor histórico e artístico que caíram em desuso nas últimas décadas substituídas pelas campainhas.
Continham uma rica simbologia, pois conforme o desenho (formas de criaturas marinhas, seres mitológicos, cabeças de leão ou mãos femininas) serviam para anunciar visitas e ao mesmo tempo proteger a casa dos maus olhados e intenções duvidosas, advertindo os intrusos para consequências imprevisíveis, ao exibir sinais de poder.


PARIS
PROVENCE
PARIS
Continham uma rica simbologia, pois conforme o desenho (formas de criaturas marinhas, seres mitológicos, cabeças de leão ou mãos femininas) serviam para anunciar visitas e ao mesmo tempo proteger a casa dos maus olhados e intenções duvidosas, advertindo os intrusos para consequências imprevisíveis, ao exibir sinais de poder.


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