Um lindo fado cantado por Mariza
abril 19, 2008

EMBRIAGUE-SE
É preciso estar sempre embriagado.
Isso é tudo: é a única questão.
Para não sentir o horrível fardo do Tempo
que lhe quebra os ombros e o curva para o chão,
é preciso embriagar-se sem perdão.
Mas de que?
De vinho, de poesia ou de virtude,
como quiser.
Mas embriague-se.
E se às vezes, nos degraus de um palácio,
na grama verde de um fosso,
na solidão triste do seu quarto, você acorda,
a embriaguez já diminuída ou desaparecida,
pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro,
ao relógio, a tudo o que foge,
a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro,
o relógio lhe responderão: "É hora de embriagar-se!
Para não ser o escravo mártir do Tempo,
embriague-se; embriague-se sem parar!
De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser".
BAUDELAIRE - trad. J.Pontual
ROBERT DOISNEAU (1912-1994)
Sous le ciel de Paris - chanteuse Silke Straub
abril 18, 2008
O Olhar para Curitiba
O texto do Cristovão Tezza - O Olhar de Curitiba - reacendeu, além de lembranças, o meu olhar para Curitiba.
E pensar que fiquei mais de 15 anos ! Até o último dia fui, para dizer o mínimo, um ser exótico na paisagem (não vou expor aqui explicações).
Nos primeiros dias (quando os "forasteiros" ainda não eram tantos), aprendi que não devia falar "bom dia" no elevador. O vizinho não responde e entra em pânico (o que virá depois? ele deve pensar). Para o porteiro? nem pensar!(ele não passa de um empregado, é invisível). E o motorista do ônibus que você pega sempre no mesmo horário, ouvindo um bom dia? Ah! este nunca vai te esquecer!
Enfim, falar bom dia, puxar conversa e, ainda, sorrir? Total inadequação! Não espere ser compreendida e perdoada. Afinal existem outras culturas, você não é de lá, isto eles nunca irão pensar. Seria preciso uma boa vontade que eles nunca terão com alguém "de fora".
As idiossincrasias deste povo são tantas!
Não se deve cogitar, por exemplo, de ter o telefone ou saber onde mora o colega com quem trabalha há mais de 10 anos; nem jamais esquecer de pedir desculpas por "estar incomodando", ao telefonar para a casa de alguém (mesmo que seja 3 horas da tarde ou 10 da manhã). De uma certa forma, você está entrando na casa deles, sem ser convidada.
Após algum (muito) tempo na cidade, já se tem "conhecidos" que, no auge da intimidade, te cumprimentam: "tudobem?entãotábom". Assim junto, sem espaço para eventual resposta que, na verdade, não interessa. Se a conversa continuar, passa-se a falar do (mau) tempo...
O mais importante aprendizado é o de ser transparente, isto mesmo, invisível. Menos para o efeito de esbarrarem em ti. Ah! isto eles não fazem. E, se ocorre, involuntariamente, mil perdões não resolvem...
Outra peculiariade dos curitibanos é que eles "não falam com estranhos".
Mas invisíveis mesmo são os humildes, os pobres ("maloqueiros", no dialeto local). Não precisa ser "carrinheiro" (que trabalha de graça para a Prefeitura na coleta de lixo reciclável, puxando seus carrinhos onde, além de lixo, carregam as crianças), mesmo os operários/trabalhadores têm um defeito imperdoável para eles, são pobres.
Aqueles que,além de pobres, forem negros, gays ou deficientes físicos que se cuidem, pois estão na mira dos "carecas"...É só ver as estatísticas.
Mas a ira curitibana se revela, em sua plenitude, no trânsito, quando se manifesta, que pretende mudar de faixa...Com relação aos pedestres é inacreditável como se comportam. Na faixa, com o sinal fechado, paira a ameaça do ronco dos motores impacientemente pressionados. Não sei em qual outra cidade,a cada hora, é transmitido boletim de atropelamentos.
E como diz o Tezza, em Curitiba, se aprende a ir sozinho, pois não adianta pedir informação. Qualquer que seja. Antes de terminar a frase, já vem a resposta seca: "não sei" . Eles não falam com estranhos!
Curitiba não é só avessa e indecifrável, ela pode ser cruel!!!
O OLHAR DE CURITIBA
Cristovão Tezza
"Em nenhum lugar do mundo o olhar do Outro será tão mortal como em Curitiba. Não ria na festa, exceto como disfarce; não chore no enterro, a menos que estejam vendo; não erga os braços, temerário assim no meio da rua. Em último caso, protegido no bar, solte os nervos da gargalhada, do tapa demasiado forte nas costas, do palavrão retumbante e confira no mesmo instante o viés alheio: a extroversão não é alegria, é um risco calculado. A fila de ônibus é feita de Outros - por isso que se respeita. Não fale tão alto, exceto quando bêbado - e então fale tudo de uma vez, tudo aquilo que você vem observando a vida inteira e nunca lhe deram chance. Leia os jornais da terra, que são ruins de pedra, e vigie nas entrelinhas o que os calhordas andam inventando nos palácios. Investigue cada nome da coluna social: o próximo pode ser você, e mal acompanhado. Melhor nem sair no jornal: os outros vão rir, e a inveja vai te comer. Nas cerimônias públicas, fique firme, a gravata ajeitadinha, e meta o olho na calça curta da autoridade, na peruca torta da madame, na viadagem do orador, no ridículo daquele um que está sentado duas poltronas à frente cheio de caspa no paletó. Quem é esse que sem mais nem menos lhe pede informação na rua? Não é daqui, senão ia sozinho.
Como sozinho vai Dalton Trevisan, desde sempre, o paradigma de Curitiba, a avessa, a indecifrável, a incorruptível Curitiba, que por nenhum preço do mundo aceita um carimbo na testa, por mais alto que a banda toque.
E como reclamam dele! Como metem o pau, como descobrem defeitos, como lhe cobram empadinhas! E as pedras, então? Rútilas, cortantes na cabeça. De tal modo que ele, santo homem, decidiu compilá-las em dois ou três parágrafos - Quem tem medo de vampiro? - para maior facilidade de manuseio. Inútil: o jornalismo ingênuo decidiu que ele fazia autocrítica! Um curitibano fazendo autocrítica, já se viu?! Ridículo! Nem no Partidão! Antes beber da água do Rio Belém!
Em outra encarnação - Curitiba está povoada de espíritos - Dalton Trevisan também foi curitibano, quando a cidade sequer existia; e ao nascer foi só esperar que o Vampiro lhe desse uma face, sempre a mesma, de microscópicos relevos que ocupam todas as ruas, por mais que tombem as casas, que se atravessem os expressos, que se iluminem os acrílicos, que se plantem pinheirinhos. Saudades de Curitiba de trinta anos atrás? Saudades das polaquinhas? Saudades da velha manca? Nem é preciso. Curitiba é um Olhar, e até meu avô sabia que olhar não ocupa espaço. Mas como esmaga!
Nenhuma cidade tem mais vergonha na cara que Curitiba - tanta, que emudece, na timidez doida e doída, no silêncio pesado de alguma coisa mais grave, mais forte, mais alta que o riso fácil brasileirinho.
Só uma proteção: olhe você também. E os Outros darão o troco, porque o nosso jogo é este, fuzilante.
Olham e dizem: mas ele escreve sempre a mesma história, e cada vez mais torto! Pois por que não reclamam de Samuel Beckett, que passou a vida dizendo a mesma frase pela metade e nunca provou uma broinha de fubá mimoso? Está certo que o tal bradava a morte do Homem, sem usar vírgula; mas Dalton Trevisan aponta com o dedo, e a sintaxe irritadiça, quem está morrendo - é aquele ali na esquina, com uma espinha na testa, é a piranha de meia furada, é o Dario que já morreu e roubaram o relógio dele. E acabou-se a página. Que culpa o Vampiro tem se o sangue é sempre o mesmo? Não é só na Europa; também em Curitiba não há nenhuma esperança na face da terra. Alguém precisa nos lembrar disso, por escrito, porque a memória é frágil, e o mundo está cheio de levianos alegrinhos fingindo que a vida é o mar de rosas da rádio Colombo - e não esse espanto desajeitado que atravessa o mundo inteiro, do mesmo modo que a Barreirinha.
Olham e dizem: mas que vocabulário estreito, que coleirinha de chavões! Pra que mais, se o que ele quer é uma só palavra na veia, a que mata! O bom veneno é o já testado, como o café da Boca.
Olham e dizem: mas por que esse nojo do povinho, dos miseráveis, dos pequenos? Pois por acaso alguém é Nobre, alguém é Grande? Você conhece? Mora aonde?
E depois de olharem e dizerem até a última gota de cafezinho, querem recuperar a ovelha desgarrada (que todos somos) tentando lhe pregar uma peça de ouro, um medalhão no peito, para desfrute na praça, com casquinhas pra todo lado e logotipo moderno. Nunca! Pois Curitiba é assim: não se entrega; comparece à cerimônia, mas ri até o gozo dos que caem na arapuca e sobem no palco para receber os louros e as palminhas. Quem perdoa a coroação de Emiliano Perneta? (Mas a boca-livre estava ótima.)
Por último: mas nem uma fotografia? Se Vampiro não sai em espelho, vai sair em fotografia? Quem fotografa Curitiba vê fachadas - muito bonitas - e mais nada. Olhe bem. Ela está em outra parte. Não perca tempo com as fachadas. Melhor o azulejo branco do velho Palácio e o cheiro do bife, melhor a peçonha destilada na cerveja.
Dalton Trevisan, é certo, será sempre assim, revisitado a cada linha reescrita mil vezes. Quanto à sua secreta alma gêmea, Curitiba, esta dependerá da força dos espíritos ante a horda dos invasores do Terceiro Milênio - o povão da periferia, os catarinas migrantes, os funcionários transferidos, os nordestinos teimosos... Acabam de se mudar e em uma semana já não visitam ninguém sem convite prévio - é a primeira das Sete Provas de Fogo, que às vezes levam uma vida inteira. Basta passear no calçadão da XV, percorrer os domingos do Passeio Público - é essa a cor de Curitiba? De qual delas? Do Município Oficial, teimando em inventar uma História que se perdeu, ou, quem sabe, nunca existiu além do paranismo risível, mas que sobrevive heróico e retumbante nas páginas da Gazeta? Da Curitiba estrangeira que chegou e vem chegando de toda parte fazendo filhos curitibanos e ocupando apartamentos? Ou do Olhar intangível e onipresente que coloca cada pose no seu devido lugar, com a impiedade dos profetas? No ano 2000 - que está na porta! -, que alma teremos nós? O rosto já sabemos: calçadões-rolantes, heliporto na Santos Andrade, bonde solar. Mas e a alma?
Que se preparem os espíritos. Será uma luta lenta, silenciosa e medonha. Porque é mais fácil mudar todas as canaletas do Expresso em sete dias que suprimir o Olhar, a Ira e a Curitiba de Dalton Trevisan".
http://www.cristovaotezza.com.br/textos/contos/p_olhar.htm
E pensar que fiquei mais de 15 anos ! Até o último dia fui, para dizer o mínimo, um ser exótico na paisagem (não vou expor aqui explicações).
Nos primeiros dias (quando os "forasteiros" ainda não eram tantos), aprendi que não devia falar "bom dia" no elevador. O vizinho não responde e entra em pânico (o que virá depois? ele deve pensar). Para o porteiro? nem pensar!(ele não passa de um empregado, é invisível). E o motorista do ônibus que você pega sempre no mesmo horário, ouvindo um bom dia? Ah! este nunca vai te esquecer!
Enfim, falar bom dia, puxar conversa e, ainda, sorrir? Total inadequação! Não espere ser compreendida e perdoada. Afinal existem outras culturas, você não é de lá, isto eles nunca irão pensar. Seria preciso uma boa vontade que eles nunca terão com alguém "de fora".
As idiossincrasias deste povo são tantas!
Não se deve cogitar, por exemplo, de ter o telefone ou saber onde mora o colega com quem trabalha há mais de 10 anos; nem jamais esquecer de pedir desculpas por "estar incomodando", ao telefonar para a casa de alguém (mesmo que seja 3 horas da tarde ou 10 da manhã). De uma certa forma, você está entrando na casa deles, sem ser convidada.
Após algum (muito) tempo na cidade, já se tem "conhecidos" que, no auge da intimidade, te cumprimentam: "tudobem?entãotábom". Assim junto, sem espaço para eventual resposta que, na verdade, não interessa. Se a conversa continuar, passa-se a falar do (mau) tempo...
O mais importante aprendizado é o de ser transparente, isto mesmo, invisível. Menos para o efeito de esbarrarem em ti. Ah! isto eles não fazem. E, se ocorre, involuntariamente, mil perdões não resolvem...
Outra peculiariade dos curitibanos é que eles "não falam com estranhos".
Mas invisíveis mesmo são os humildes, os pobres ("maloqueiros", no dialeto local). Não precisa ser "carrinheiro" (que trabalha de graça para a Prefeitura na coleta de lixo reciclável, puxando seus carrinhos onde, além de lixo, carregam as crianças), mesmo os operários/trabalhadores têm um defeito imperdoável para eles, são pobres.
Aqueles que,além de pobres, forem negros, gays ou deficientes físicos que se cuidem, pois estão na mira dos "carecas"...É só ver as estatísticas.
Mas a ira curitibana se revela, em sua plenitude, no trânsito, quando se manifesta, que pretende mudar de faixa...Com relação aos pedestres é inacreditável como se comportam. Na faixa, com o sinal fechado, paira a ameaça do ronco dos motores impacientemente pressionados. Não sei em qual outra cidade,a cada hora, é transmitido boletim de atropelamentos.
E como diz o Tezza, em Curitiba, se aprende a ir sozinho, pois não adianta pedir informação. Qualquer que seja. Antes de terminar a frase, já vem a resposta seca: "não sei" . Eles não falam com estranhos!
Curitiba não é só avessa e indecifrável, ela pode ser cruel!!!
O OLHAR DE CURITIBA
Cristovão Tezza
"Em nenhum lugar do mundo o olhar do Outro será tão mortal como em Curitiba. Não ria na festa, exceto como disfarce; não chore no enterro, a menos que estejam vendo; não erga os braços, temerário assim no meio da rua. Em último caso, protegido no bar, solte os nervos da gargalhada, do tapa demasiado forte nas costas, do palavrão retumbante e confira no mesmo instante o viés alheio: a extroversão não é alegria, é um risco calculado. A fila de ônibus é feita de Outros - por isso que se respeita. Não fale tão alto, exceto quando bêbado - e então fale tudo de uma vez, tudo aquilo que você vem observando a vida inteira e nunca lhe deram chance. Leia os jornais da terra, que são ruins de pedra, e vigie nas entrelinhas o que os calhordas andam inventando nos palácios. Investigue cada nome da coluna social: o próximo pode ser você, e mal acompanhado. Melhor nem sair no jornal: os outros vão rir, e a inveja vai te comer. Nas cerimônias públicas, fique firme, a gravata ajeitadinha, e meta o olho na calça curta da autoridade, na peruca torta da madame, na viadagem do orador, no ridículo daquele um que está sentado duas poltronas à frente cheio de caspa no paletó. Quem é esse que sem mais nem menos lhe pede informação na rua? Não é daqui, senão ia sozinho.
Como sozinho vai Dalton Trevisan, desde sempre, o paradigma de Curitiba, a avessa, a indecifrável, a incorruptível Curitiba, que por nenhum preço do mundo aceita um carimbo na testa, por mais alto que a banda toque.
E como reclamam dele! Como metem o pau, como descobrem defeitos, como lhe cobram empadinhas! E as pedras, então? Rútilas, cortantes na cabeça. De tal modo que ele, santo homem, decidiu compilá-las em dois ou três parágrafos - Quem tem medo de vampiro? - para maior facilidade de manuseio. Inútil: o jornalismo ingênuo decidiu que ele fazia autocrítica! Um curitibano fazendo autocrítica, já se viu?! Ridículo! Nem no Partidão! Antes beber da água do Rio Belém!
Em outra encarnação - Curitiba está povoada de espíritos - Dalton Trevisan também foi curitibano, quando a cidade sequer existia; e ao nascer foi só esperar que o Vampiro lhe desse uma face, sempre a mesma, de microscópicos relevos que ocupam todas as ruas, por mais que tombem as casas, que se atravessem os expressos, que se iluminem os acrílicos, que se plantem pinheirinhos. Saudades de Curitiba de trinta anos atrás? Saudades das polaquinhas? Saudades da velha manca? Nem é preciso. Curitiba é um Olhar, e até meu avô sabia que olhar não ocupa espaço. Mas como esmaga!
Nenhuma cidade tem mais vergonha na cara que Curitiba - tanta, que emudece, na timidez doida e doída, no silêncio pesado de alguma coisa mais grave, mais forte, mais alta que o riso fácil brasileirinho.
Só uma proteção: olhe você também. E os Outros darão o troco, porque o nosso jogo é este, fuzilante.
Olham e dizem: mas ele escreve sempre a mesma história, e cada vez mais torto! Pois por que não reclamam de Samuel Beckett, que passou a vida dizendo a mesma frase pela metade e nunca provou uma broinha de fubá mimoso? Está certo que o tal bradava a morte do Homem, sem usar vírgula; mas Dalton Trevisan aponta com o dedo, e a sintaxe irritadiça, quem está morrendo - é aquele ali na esquina, com uma espinha na testa, é a piranha de meia furada, é o Dario que já morreu e roubaram o relógio dele. E acabou-se a página. Que culpa o Vampiro tem se o sangue é sempre o mesmo? Não é só na Europa; também em Curitiba não há nenhuma esperança na face da terra. Alguém precisa nos lembrar disso, por escrito, porque a memória é frágil, e o mundo está cheio de levianos alegrinhos fingindo que a vida é o mar de rosas da rádio Colombo - e não esse espanto desajeitado que atravessa o mundo inteiro, do mesmo modo que a Barreirinha.
Olham e dizem: mas que vocabulário estreito, que coleirinha de chavões! Pra que mais, se o que ele quer é uma só palavra na veia, a que mata! O bom veneno é o já testado, como o café da Boca.
Olham e dizem: mas por que esse nojo do povinho, dos miseráveis, dos pequenos? Pois por acaso alguém é Nobre, alguém é Grande? Você conhece? Mora aonde?
E depois de olharem e dizerem até a última gota de cafezinho, querem recuperar a ovelha desgarrada (que todos somos) tentando lhe pregar uma peça de ouro, um medalhão no peito, para desfrute na praça, com casquinhas pra todo lado e logotipo moderno. Nunca! Pois Curitiba é assim: não se entrega; comparece à cerimônia, mas ri até o gozo dos que caem na arapuca e sobem no palco para receber os louros e as palminhas. Quem perdoa a coroação de Emiliano Perneta? (Mas a boca-livre estava ótima.)
Por último: mas nem uma fotografia? Se Vampiro não sai em espelho, vai sair em fotografia? Quem fotografa Curitiba vê fachadas - muito bonitas - e mais nada. Olhe bem. Ela está em outra parte. Não perca tempo com as fachadas. Melhor o azulejo branco do velho Palácio e o cheiro do bife, melhor a peçonha destilada na cerveja.
Dalton Trevisan, é certo, será sempre assim, revisitado a cada linha reescrita mil vezes. Quanto à sua secreta alma gêmea, Curitiba, esta dependerá da força dos espíritos ante a horda dos invasores do Terceiro Milênio - o povão da periferia, os catarinas migrantes, os funcionários transferidos, os nordestinos teimosos... Acabam de se mudar e em uma semana já não visitam ninguém sem convite prévio - é a primeira das Sete Provas de Fogo, que às vezes levam uma vida inteira. Basta passear no calçadão da XV, percorrer os domingos do Passeio Público - é essa a cor de Curitiba? De qual delas? Do Município Oficial, teimando em inventar uma História que se perdeu, ou, quem sabe, nunca existiu além do paranismo risível, mas que sobrevive heróico e retumbante nas páginas da Gazeta? Da Curitiba estrangeira que chegou e vem chegando de toda parte fazendo filhos curitibanos e ocupando apartamentos? Ou do Olhar intangível e onipresente que coloca cada pose no seu devido lugar, com a impiedade dos profetas? No ano 2000 - que está na porta! -, que alma teremos nós? O rosto já sabemos: calçadões-rolantes, heliporto na Santos Andrade, bonde solar. Mas e a alma?
Que se preparem os espíritos. Será uma luta lenta, silenciosa e medonha. Porque é mais fácil mudar todas as canaletas do Expresso em sete dias que suprimir o Olhar, a Ira e a Curitiba de Dalton Trevisan".
http://www.cristovaotezza.com.br/textos/contos/p_olhar.htm
Aldrabas ... suite
abril 17, 2008
ALDRABAS
Aldrabas (do árabe Ad-Dabbâ) são peças decorativas e funcionais de inegável valor histórico e artístico que caíram em desuso nas últimas décadas substituídas pelas campainhas.
Continham uma rica simbologia, pois conforme o desenho (formas de criaturas marinhas, seres mitológicos, cabeças de leão ou mãos femininas) serviam para anunciar visitas e ao mesmo tempo proteger a casa dos maus olhados e intenções duvidosas, advertindo os intrusos para consequências imprevisíveis, ao exibir sinais de poder.


PARIS
PROVENCE
PARIS
Continham uma rica simbologia, pois conforme o desenho (formas de criaturas marinhas, seres mitológicos, cabeças de leão ou mãos femininas) serviam para anunciar visitas e ao mesmo tempo proteger a casa dos maus olhados e intenções duvidosas, advertindo os intrusos para consequências imprevisíveis, ao exibir sinais de poder.


PARIS

PROVENCE

PARIS
abril 16, 2008
GÂTEAU BASQUE
O Luis, chef no Restaurante Engenho da Panela, no Porto/Portugal, registrou em comentário, na postagem anterior (Bayonne), a sua curiosidade em relação à receita do gâteau basque. Para atendê-lo, trouxe a de Firmin Arrambide.
La voilá!
C’est le gâteau traditionnel du pays basque dont la pâte est soit fourrée de confiture de cerise noire d’Ixtassou, c’est la version la plus ancienne qui utilise un produit local, soit de crème pâtissière parfumée au rhum ou à la fleur d’oranger, version plus luxueuse et plus moderne.
Difficulté :
Assez facile
Préparation : 30 minutes
Levage de la pâte : 1 heure
Cuisson : 40 minutes.
Pensez à décalez de 3 heures pour que le gâteau soit froid.
Pour la version crème pâtissière, ajoutez 30 minutes, que vous pouvez faire la veille.
Courses pour 6 gourmands ou 8 personnes :
Pour la pâte
300 gr de farine + 1 cuillerée à soupe pour le moule
150 gr de beurre + 20 gr pour le moule
150 gr de sucre en poudre
1 pincée de sel
½ sachet de levure chimique en poudre
1 œuf entier + 3 jaunes dont 1 pour dorer
1 à 2 cuillerées à soupe de rhum (gâteau à la crème)
1 citron non traité (gâteau à la confiture)
Pour la garniture:
1 pot de confiture de cerises noires d’Ixtassou
Ou
25 cl de lait
½ gousse de vanille
1 œuf entier + 2 jaunes
50 gr de sucre en poudre
40 gr de farine
2 cuillerées à soupe de rhum ambré.
Recette :
Si vous choisissez de préparer le gâteau à la crème, faites d’abord la crème pour qu’elle épaississe un peu le temps de faire le gâteau.
Préparation:
Vous faites bouillir dans une casserole le lait avec la gousse de vanille fendue en 2.Vous éteignez le feu.
Dans une terrine, vous fouettez l’œuf entier et les jaunes avec le sucre en poudre pour obtenir un mélange crémeux.
Vous incorporez la farine sans cesser de battre, puis vous délayez avec le lait.
Vous versez dans la casserole et vous faites cuire à feu doux jusqu’à épaississement, sans cesser de remuer avec une spatule.
Vous retirez du feu et parfumez avec le rhum. Vous laissez reposer (toutes ces opérations peuvent aussi se faire la veille)
Pour la pâte : dans une terrine, vous mélangez la farine, le sucre, le sel et la levure.
Vous faites une fontaine, vous y casser l’œuf entier et 2 jaunes, vous ajoutez le beurre ramolli à température ambiante et coupé en petits morceaux et le parfum rhum ou citron.
Vous travaillez à la cuillère en bois puis vous pétrissez à la main jusqu’à ce que la pâte ne colle plus aux doigts et soit bien homogène.
Vous la roulez en boule et vous la mettez 1 h dans un endroit frais.
Au bout d’1 heure, vous divisez la pâte en 2 (2 tiers et 1 tiers) et vous abaissez la plus grosse au rouleau ou à la main en l’écrasant avec le poing car elle s’étale mal.
Vous beurrez et farinez un moule à manqué, vous le garnissez avec la pâte et faisant dépasser la pâte d’1 cm sur tout le tour du moule, vous verser la crème ou la confiture.
Vous abaissez le reste de la pâte, vous la posez sur la garniture et vous soudez bien les 2 bords de pâte en les mouillant.
Cuisson:Vous préchauffez le four à 200° (thermostat 6-7).
Vous dorez au pinceau la surface du gâteau avec le dernier jaune d’œuf délayé avec un peu d’eau et vous faites des stries avec les dents d’une fourchette.
Vous enfournez à mi-hauteur et vous faites cuire pendant 20 mn, puis vous baissez le four à 180° (thermostat 5-6) et vous continuez la cuisson 20 mn.
Vous sortez du four, vous démoulez le gâteau sur une grille et vous le laissez refroidir.
abril 15, 2008
A França basca = Bayonne

Bayonne é uma cidade do sudoeste da França, situada na confluência dos rios Nive e Adur, cuja cultura é marcantemente influenciada por bascos e gascões.
É a capital do pays basque, mas é sobretudo, a cidade onde mora minha amiga Beatrice.
Até sua mudança para lá e minha visita meses depois, nada sabia acerca desta charmosa cidade.
Seu centro histórico medieval, lindamente preservado, é um convite irresistível para uma caminhada em suas ruas estreitas que nos levam às remparts 

Bayonne é famosa pela festa que acontece a cada ano, por cinco dias, a partir da primeira quarta-feira de agosto. Nestes dias, as variadas manifestações evidenciam a sua riqueza e diversidade cultural.
A cidade com suas janelas vermelhas (bascas) e azuis(do estilo gascão) enfeitada para a festa.
A Catedral de Santa Maria ( iniciada 1213) foi declarada Patrimonio da Humanidade pela Unesco, em 1998, como monumento do Caminho de Santiago na França.
O claustro de 1240.
Além do Museu Basco, onde se encontram obras representativas da história, tradições, arquitetura e artes decorativas bascas, em Bayonne se encontra o museu mais importante da região franco-basca, o Museu Bonnat, cujo acervo conta com obras do próprio Bonnat e ainda de Botticelli, Rafael, Rembrandt, Ribera, Rubens, El Greco e Ingres.
Não bastasse a doçura da Beatrice,(que me mostrou tudo,com entusiasmo e ainda me levou à Donostia), é de Bayonne o imperdível gateau-basque! com recheio de cerejas.Frescas, bien sur!!! Huummmm!
abril 13, 2008
O peso ou a leveza?
Me deixas louca
A diva em sua última apresentação na TV
O PESO OU A LEVEZA?
Não acreditava possível, mas cheguei à fase de releituras. A falta de pressa me permite certos prazeres...Assim, a cada pelo menos dois ou tres livros novos releio um outro. Acabei de reler A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER (me dei conta de que não conheço outro autor checo além do Kundera).
Tendo como pano de fundo o episódio que ficou conhecido como "Primavera de Praga" - quando os soviéticos invadiram a, então Checoslováquia, em 1968 - o enredo, altamente sensual e conflituoso, faz uma espécie de analogia com o que ocorria no país. A versão cinematográfica não ficou à altura .
A história não é narrada de forma linear: na primeira parte somos envolvidos pela libertinagem de Tomas, depois entramos no mundo conflituoso de Teresa, seguido pela vida descompromissada da sensual Sabina.
O tema principal se concentra em torno de dois conceitos:o do peso e o da leveza.Tomas vive de uma forma que a sua leveza (não viver em plenitude )o leva ao vazio . Do outro lado, está o peso de Teresa que vê a vida com um certo amargor, como um fardo a ser carregado.
Este contraste faz todo o sentido ante a situação enfrentada pelo país na época: envolver-se com o peso da repressão e contestá-la? Ou ser submisso e leve?
"(...)Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez, sem preparação. Como se o ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo "esboço" não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é esboço de nada, é um esboço sem quadro(...)"
O autor nega a idéia do eterno retorno, ou seja, que todos os acontecimentos, da vida de cada um e da história da humanidade, irão repetir-se inúmeras vezes; que tudo o que acontece já aconteceu antes e irá se repetir. Para Milan Kundera, o eterno retorno é o mais pesado dos fardos e a ausência total de fardo faz com que os movimentos humanos sejam tão livres quanto insignificantes.
Fiz bem em lê-lo de novo!
A diva em sua última apresentação na TV
O PESO OU A LEVEZA?
Não acreditava possível, mas cheguei à fase de releituras. A falta de pressa me permite certos prazeres...Assim, a cada pelo menos dois ou tres livros novos releio um outro. Acabei de reler A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER (me dei conta de que não conheço outro autor checo além do Kundera).
Tendo como pano de fundo o episódio que ficou conhecido como "Primavera de Praga" - quando os soviéticos invadiram a, então Checoslováquia, em 1968 - o enredo, altamente sensual e conflituoso, faz uma espécie de analogia com o que ocorria no país. A versão cinematográfica não ficou à altura .
A história não é narrada de forma linear: na primeira parte somos envolvidos pela libertinagem de Tomas, depois entramos no mundo conflituoso de Teresa, seguido pela vida descompromissada da sensual Sabina.
O tema principal se concentra em torno de dois conceitos:o do peso e o da leveza.Tomas vive de uma forma que a sua leveza (não viver em plenitude )o leva ao vazio . Do outro lado, está o peso de Teresa que vê a vida com um certo amargor, como um fardo a ser carregado.
Este contraste faz todo o sentido ante a situação enfrentada pelo país na época: envolver-se com o peso da repressão e contestá-la? Ou ser submisso e leve?
"(...)Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez, sem preparação. Como se o ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo "esboço" não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é esboço de nada, é um esboço sem quadro(...)"
O autor nega a idéia do eterno retorno, ou seja, que todos os acontecimentos, da vida de cada um e da história da humanidade, irão repetir-se inúmeras vezes; que tudo o que acontece já aconteceu antes e irá se repetir. Para Milan Kundera, o eterno retorno é o mais pesado dos fardos e a ausência total de fardo faz com que os movimentos humanos sejam tão livres quanto insignificantes.
Fiz bem em lê-lo de novo!
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