abril 09, 2008

Chapeuzinho, quem diria !


As fábulas infantis estão cada vez mais sendo utilizadas pela mídia comercial, ao perceber o quanto o consumidor necessita e assimila suas origens emocionais, a partir da atmosfera lúdica contida na literatura infantil. A fantasia, em releituras ultramodernas, de personagens como Chapeuzinho Vermelho traz ao mercado publicitário, uma mistura da atmosfera lúdica e sensual da personagem.


Que tal, um Lobo numa Harley Davidson envenenada, pura potência e instinto? A Chapéuzinho levando...champanhe!E vestindo cinta-liga.Com certeza eles não estão indo pra casa da vovó...

A "bem comportada" do Boticário

abril 08, 2008

Primeira missa no Brasil

A carta de Caminha como certidão de nascimento do Brasil é uma invenção do século XIX (foi publicada integralmente apenas em 1817). Neste mesmo século se iniciou a construção da identidade da nação através da arte, da história e da política, buscando-se as raízes históricas para o país cuja independência fora recentemente proclamada.

A obra acima, em exposição atualmente em Florianópolis, terra natal de Victor Meirelles, foi baseada não só na descrição feita pela carta de Caminha, mas também no quadro do francês Horace Vernet,(Premiére messe en Kabilie, de 1855)- foto à direita

A partir de então, o acúmulo de referências e recriações dessa obra acrescenta-lhe novas camadas de sentido. Uma das últimas intervenções em que se percebe essa intenção foi a da pintora portuguesa Paula Rego, que, em 1993, apresentou o quadro A primeira missa no Brasil.
É justamente por esse diálogo com a tradição que deve ser compreendido.

Nasce um filho e um povo
Ao colocar uma jovem grávida no primeiro plano de uma obra com um título que remete a um feito histórico, Paula Rego desloca o foco para a mulher que, apesar de seu filho por nascer, traz um olhar extremamente angustiante, quase agonizante. Esse corpo, sobre uma colcha vermelho-sangue e uma vestimenta com símbolos náuticos, em posição horizontal, opõe-se à verticalidade da cena sacra em segundo plano, questionando a grandeza de um feito heróico de um mundo falocêntrico e imperativo pela violência.
Paula Rego inverte a cena do quadro de Meirelles, reproduzido como uma gravura, acrescenta as caravelas e destaca o mar, além disso, a obra, já alterada, aparece apenas como simulacro de uma paisagem.
"O deslocamento de foco, a inexatidão intencional, e a angústia da jovem que jaz, de costas para um momento histórico racialmente harmonioso, mas que os parâmetros metaficcionais do quadro expõem como sendo afinal pura ilusão, ou pior, falsificação”.(LISBOA, Maria Manuel - “Admirável mundo novo? A Primeira Missa no Brasil de Paula Rego.” - 1998)
A pintura de Meirelles reflete o momento em que o país quer criar suas raízes próprias, independentes de sua mãe européia, ou seja, para construir sua mãe pátria, comete um matricídio; do mesmo modo, no quadro de Rego a maternidade dá as costas para o passado sangrento, ilusório e patriarcal.

PS: VOLTAREMOS À PAULA REGO

abril 07, 2008

Dennis Hwang - The Art of the Doodle

O designer Dennis Hwang é americano de origem oriental. E é ele que produz os doodles, ( nome dado aos logos desenhados para o Google) para toda sorte de celebrações de datas ou eventos pelo mundo.

Um artista da modernidade:




















abril 05, 2008

EGON SCHIELE - pornografia e arte podem ser inseparáveis








Egon Schiele foi um pintor austríaco ligado ao movimento expressionista. Morreu há quase oitenta anos. Sua pintura ataca a convenção de que no corpo humano a cabeça fica acima do sexo. Como isso é questão de perspectiva, obrigou o espectador a encarar o outro ponto de vista, grudando-lhe os olhos com traços e cores no foco de suas obsessões sexuais.
Schiele teve vida curta e trágica.Entrou como aluno precoce para a Academia de Belas Artes, mas largou o curso por incompatibilidade com os professores. Em sua curta carreira, produziu 300 telas e 3.000 desenhos. Foi preso em 1912 por corrupção de menores e condenado por obscenidade.Aos 28 anos, morreu de gripe espanhola.
Ainda estudante, pintava nua a irmã. Casado, com carreira feita, tirou a roupa e provavelmente algo mais de sua cunhada.Quatro dias antes de morrer, desenhou a agonia de sua mulher.
Shiele isnpirou a novela erótica de Vargas Llosa: Os Cadernos de Don Rigoberto na qual um clima malicioso permeia a relação do enteado com a madrasta que está, constantemente, atiçando os instintos mais secretos de ambos, num contexto que dá enorme tensão às suas relações.
Llosa se disse " atingido por um raio quando vi a sua obra pela primeira vez em que fui à Viena para dar conferência. Fiquei fascinado pela originalidade, pela natureza transgressora, pela exploração temerária do mundo do sexo e do desejo, tudo isso por um garoto, quase um adolescente de vida trágica. Desde então, passei a procurar coisas sobre Schiele e me deu vontade de escrever um livro em que sua pintura se fundisse com trama".
Quem leu Os Cadernos de Don Rigoberto concordará que ele foi muito bem sucedido, em que pese suas muitas citações eruditas, na tentativa de separar o erotismo - "humanização inteligente e sensível do amor físico" da pornografia -o "seu barateamento e degradação".
Schiele não teve esses escrúpulos.

abril 04, 2008

PAULO FRANCIS




"Todo livro poderia ser reduzido em 50%, na minha opinião, e mesmo os melhores em média só são legíveis em 20%. Debussy ouvia os leitmotivs de Wagner e dizia: "Vamos embora que ele vai começar a desenvolver".Certo. Uma das minhas grandes dificuldades com romances é o negócio das descrições de ambientes. Não é que eu prefira o visualismo (passivo, objetal) que o cinema ou TV impõem ao espectador. É que não me interesso pela casa das pessoas. Havendo uma poltrona que agüente meu peso e tédio, ar-condicionado, álcool e gelo, dou-me por satisfeito. Se eu não esculhambasse fisicamente a maioria dos meus livros diria até que sou um bibliófilo. Gosto de livro novo, do papel, do tipo, daquele barulhinho que faz quando abre. E o primeiro parágrafo é sempre o maior barato. Tenho a impressão de que, enfim, vou encontrar a verdade. No segundo parágrafo, já sei que não, mas, que diabo, o importante é competir". (Paulo Francis, “Bomba, bomba, bobagem”, Paulo Francis nu e cru, 1976).

Paulo Francis , nasceu no Rio de Janeiro em 1930, foi talvez o mais conhecido, temido e influente jornalista brasileiro das últimas décadas. Lançado em 1980 e, recentemente, reeditado O afeto que se encerra é uma mistura de memórias pessoais e profissionais. e traz uma ternura (afeto?) que prova que Francis não era só virulência: havia também o homem sossegado, que preferia ignorar os detratores a dar voz a eles, que assumia erros e pedia desculpas por tê-los cometido.
O afeto em que se encerra - trecho
“A perturbação é mais decisiva que o tédio. Como tantos que escrevem, não gosto de escrever, mas me sinto infeliz, mais do que o habitual, se não escrevo. Sou, como disse, ambicioso, pessoalmente, não resisto à vontade de me destacar, essa vulgaridade em que me confesso "viciado", e porque me realizo espiritualmente no trabalho. Há muito pouco na vida que se compare ou dure tanto com e como a sensação do dever (que nos impusemos) cumprido. Fui dotado de uma capacidade de trabalho, verdadeiramente elefantina. Perco a consciência de mim mesmo, esse miserável feixe de nervos e sensações que é o ser humano, elevando-a, paradoxalmente, ao pôr no papel o que me interessa. Não gosto de fama, aquela em que nos apontam o dedo na rua. Me agrada ser conhecido, respeitado e, principalmente, não humilhado.”

Francis foi ator e crítico de teatro que chegou ao limite da agressão física por seus veredictos demolidores, editor de saudosos e, infelizmente, efêmeros suplementos culturais, editorialista anônimo que provocou quedas de gente de alto escalão em plena ditadura, ensaísta que utilizou sua bagagem, aparentemente ilimitada, para desenvolver longos textos,comentarista dos principais telejornais do Brasil e, por fim, o hilário debatedor do Manhattan Connection.

Além de duas memórias (O afeto que se encerra e Trinta anos esta noite) e inúmeras coletâneas de artigos, publicou os romances Cabeça de papel e Cabeça de negro e as novelas Filhas do segundo sexo.Foi um dos fundadores d'O Pasquim e,a partir de 1975, publicou a coluna Diário da Corte em diversos jornais.Depois de ter sido preso, preferiu se refugiar em Nova York, onde viveu até sua morte, em 1997, de um ataque cardíaco.

Uma folha apenas...



A man without love - Patrizio Buanne

James Henrique me enviou via e-mail:



abril 03, 2008

A VIDA DOS OUTROS - o filme


Conhecer-se a partir da observação de vidas alheias parece ser a essência do filme A VIDA DOS OUTROS. A história trata do aparato de repressão e espionagem na DDR dos anos 80 .O capitão Wiesler , membro da Stasi, é um típico homem do governo autoritário: sistemático, frio e obediente à ideologia. Suas certezas eram inabaláveis até o momento em que, incumbido de vigiar um casal de artistas, passa a questionar seus próprios valores. Seu envolvimento o leva ao extremo de adulterar relatórios camuflando ações anti-regime. Ler um poema de Brecht, ouvir uma sonata ou comparar a miséria de sua existência com os amores, conversas e idéias da vida dos que eram objeto de sua escuta contínua, talvez tenham motivado a sua insubordinação e a vontade inesperada de fazer a diferença, de se permitir um ato que valesse a pena ser lembrado e contado. Uma parábola que nos leva a refletir sobre como o marasmo pode devolver nossa humanidade e nos levar a fazer a coisa certa.