março 25, 2008

Virgínia Wolf faz medo?


Com muitos anos de atraso, assiti, muito recentemente, ao filme ORLANDO, o que me motivou a ler mais a respeito...
Deparei-me com uma biografia - As mulheres de Virginia Wolf - (de autoria de Vanessa Curtis), concentrada em suas amizades íntimas e inspiradoras com mulheres incomuns, enigmáticas e, ocasionalmente, trágicas, que influenciaram em sua formação De sua tia avó, à fotógrafa Julia Margaret Cameron, à sua mãe são analisadas também as mulheres de sua vida adulta:a artista Dora Carrington, a escritora Katherine Mansfield, a novelista e aristocrata Vita Sackville-West (que serviu de modelo para o personagem Orlando) e a compositora Ethel Smyth.
À Virginia Woolf se deve o tratamento mais sublime que, na literatura, foi dado ao tema da bissexualidade. Em Orlando,a bissexualidade aparece travestida na androgenia do protagonista, que percorre quatro séculos numa busca incessante da sua identidade, primeiro como homem, depois como mulher.
Orlando é o arquétipo da dualidade sexual do ser humano. (Olhando-se no espelho, após se ter metamorfoseado em mulher, diz: «A mesma pessoa. Apenas um sexo diferente.»)
Ao escrever Orlando, Virginia Woolf selou o amor que a uniu a Vita Sackville-West, ofereceu-lhe a sua melhor biografia e deu-lhe a posteridade que foi negada à sua obra, ao imortalizá-la na pequena dedicatória de seu livro.
Extremamente sensível e frágil, mulher talentosa e que amava outras mulheres, em um tempo em que as mulheres tinham pouquíssimos direitos, Virginia Wolf é uma das maiores escritoras de todos os tempos.

março 23, 2008

Reciclagens necessárias

"Um homem de mente ativa e elástica desgasta as suas amizades, assim como certamente desgasta os seus casos amorosos, as suas tendências políticas e a sua epistemologia. Elas tornam-se puídas, esfrangalhadas, artificiais, irritantes e deprimentes. Transformam-se de realidades vivas em nulidades moribundas, e entram em sinistra oposição à liberdade, ao auto-respeito e à verdade. É tão repelente conservá-las, depois que se tornam ocas e podem ser sopradas como uma mosca, quanto manter uma paixão depois que esta paixão já se tornou um cadáver.
Todo homem prudente, ao lembrar-se de que a vida é curta, deveria dispensar uma hora ou duas, de vez em quando, para um exame crítico de suas amizades. Deve pesá-las, repensá-las, testar se ainda contêm algum metal. Algumas poderão sobreviver, talvez com mudanças radicais nos seus termos. Mas a maioria será varrida em poucos minutos e ele tentará esquecê-las, assim como tenta esquecer os seus frios e pegajosos amores do ano retrasado".
Henry Mencken, in 'O Livro dos Insultos (1920)'

março 20, 2008

ANTINOO


"Nenhuma face será mais amada que a tua. Mesmo depois do adeus, desse longuissimo e definitivo adeus que te estarei dizendo sempre, serão os seus amados traços a encher-me de espanto e de tristeza, será a tua ausência a encher-me até não caber mais nada nem ninguém, o teu gesto fantasma a tocar-me ainda.
Amar-te-ei para sempre, mesmo para lá da vida, mesmo para lá do amor, mesmo quando a paixão não for mais que cinzas e depois nem isso, será o teu amado rosto ainda a povoar-me, como um talismã, a única divindade finita que adorarei jamais. Assim é o amor que nos marca, a carne viva, que nos deixa indeléveis os sinais, como aquele teu olhar primeiro num dia longínquo, como aquele teu rosto cheio de sombra, de olhos baixos, a ponto de me cegar. Nunca sobrevivemos ao amor, nunca".

A paixão de Adriano


Semana passada postei a propósito das Memórias de Adriano que estava relendo (a postagem chama-se Bálsamo) . Agora retorno ao tema tão apaixonada fiquei pela paixão de Adriano...


Antinoo foi divinizado após a sua morte por Adriano que criou uma cidade com o seu nome- Antinoupolis- no Egito no mesmo lugar onde ele se afogou. Sua imagem foi representada em numerosissimas esculturas (onde simbolizava divindades como Dionisio e Hermes) e cunhada em moedas. Um obelisco com inscrições em hieróglifos, a ele dedicado, foi encontrado no século XVI. As ciscunstâncias de sua morte são obscuras. Alguns historiadores mencionam apenas a sua morte, o luto do imperador e as honras que lhe foram prestadas. Para outros Antinoo teria se sacrificado espontaneamente, acreditando que prolongaria, com seu sacrifício, a vida do imperador .
A sua divinização depois da morte, reservada somente aos imperadores e aos membros da familia imperial, a forte caracterização egípcia de seu culto, não são um caso único na história romana. Segundo uma tradição religiosa greco-egípcia a morte por imersão comporta a divinização.
Foram identificadas inscrições e representações no obelisco do Pincio e sob o mesmo obelisco encontra-se, segundo algumas interpretações, a sua sepultura, situada num jardim de propriedade do imperador,que veio a ser identificada com os restos de uma edificação descoberta na Vigna Barberini sob o Palatino e que foi mais tarde transformada num templo.
No final de 2005 foi anunciada a descoberta de um monumento funerario junto à entrada da vila adriana de Tivoli. Está sendo analisada a hipótese de que o obelisco possa ter sido originalmente colocado no - ou destinado a - esta tumba, havendo a possiblidade de ser a de Antinoo (ou pelo menos um cenotafio a ele dedicado).
Antinoo foi também homenageado por Adriano quando atribuiu seu nome a uma estrela ao sul da constelação de Aquila que passou a ter o nome de Antinous.
http://it.wikipedia.org/wiki/Antinoo_(Adriano)-Traduçào livre

março 19, 2008

A CONSOLAÇÃO DA FILOSOFIA

Mais do pensamento de Comte-Sponville...

"Tudo depende do que se entende por felicidade. Se você busca uma alegria contínua e soberana, ou mesmo a ausência total de sofrimento e angústia, certamente nunca será feliz. "Toda vida é sofrimento", dizia Buda. E tinha razão. A felicidade, se a entendemos como uma alegria completa, é apenas um sonho, que nos separa do contentamento verdadeiro. Em busca da felicidade absoluta, nós nos proibimos de viver as felicidades relativas e nos tornamos infelizes. Se, ao contrário, você entender como felicidade o fato de não ser infeliz ou simplesmente de poder desfrutar algumas alegrias, a felicidade não é impossível. E você será feliz somente por não ser triste. À exceção, claro, nos momentos mais difíceis da vida.
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Não há como se sentir alegre permanentemente. Isso é impossível. Mas há como sentir que podemos ser felizes por nós mesmos, sem que nada de essencial mude no mundo. A infelicidade se instala quando nossas alegrias dependem totalmente de circunstâncias externas.
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Existem imbecis felizes e gênios infelizes. Mas a sabedoria é algo distinto da genialidade. Tampouco tem a ver com desatino ou tolice. A sabedoria é, sim, um certo tipo de felicidade. Mas nada tem a ver com a felicidade ilusória, conseguida por drogas ou pela ignorância. A sabedoria é a felicidade dentro da verdade. É o máximo de felicidade associado ao máximo de lucidez. Essa é a meta da filosofia. Nesse caminho, há muitas ilusões a perder e algumas verdades desagradáveis a confrontar. É por isso que a filosofia passa inevitavelmente pela angústia, pela dúvida, pela desilusão. Continua sendo apenas um caminho. Porque o destino é uma felicidade autêntica. É isso que chamamos de sabedoria.
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Filosofar é pensar sua vida e viver seu pensamento. Em que medida isso pode nos aproximar da felicidade? Ficando mais perto da verdade, nós nos libertamos de várias ilusões e esperanças tolas. Isso nos ajuda a amar a vida mais do que amar a felicidade, a verdade mais do que a fantasia, o amor mais do que a fé ou a esperança. Os maiores mestres são, a meu ver, Epicuro (de Samos, filósofo grego dos séculos IV e III a.C.), (Michel) Montaigne (filósofo francês do século XVI) e (Baruch) Spinoza (filósofo holandês do século XVII). Quanto a mim, já me expliquei longamente em meu Tratado do Desespero e da Beatitude e, de maneira mais resumida, em Felicidade, Desesperadamente.
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A fé seria um antídoto à tristeza?
- Isso depende de quem tem fé. Se você acredita que a felicidade eterna o aguarda após a morte, isso pode ajudar a suportar em vida a infelicidade...Como sou ateu, vejo nisso mais uma armadilha que uma tentação. Não vou esperar morrer para ser feliz. O fato de, para mim, nada existir após a morte é um motivo a mais para viver da melhor maneira possível. É o que chamo de desespero alegre. Existe uma vida antes da morte, e é a única que importa.
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Os céticos não seriam mais suscetíveis à depressão ou ao tédio?
- Freud é sem dúvida quem melhor respondeu a essa questão. A depressão ou a melancolia, escreveu ele, "é a perda da capacidade de amar". Não é a fé que falta aos deprimidos, é o amor.
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“Um tristeza autêntica vale mais que uma felicidade mentirosa.” O filósofo prefere a alegria à tristeza, como todo mundo. Mas ele coloca a verdade num patamar mais alto que todo o resto. Isso não quer dizer que seu objetivo seja a infelicidade. É preciso sempre ter coragem para enfrentar a melancolia ou a tristeza quando surgem. É o único caminho.
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Tomo a palavra "desespero" em seu sentido literal: a perda da esperança, que é dolorosa, ou a ausência da esperança, que pode se tornar o núcleo propulsor da felicidade. Nesse sentido, o desespero não é infelicidade, muito ao contrário. Enquanto se espera a felicidade, não se é feliz. Quando somos felizes, não há mais nada a esperar. O que chamei de "desespero feliz" se aproxima do que (o filósofo alemão Friedrich) Nietzsche [1844-1900] considerava "um saber feliz": é alegrar-se com o que é, e não esperar o que não é. Conhecer, mais que crer. Amar e agir, mais que esperar e temer. É a sabedoria dos estóicos e de Spinoza, mas também de Buda, no Oriente.
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Papel do amor na busca da felicidade.
- É crucial. O conteúdo da felicidade é a alegria. Não há alegria maior que amar. Amar é contentar-se com o que existe. A única felicidade está dentro da verdade.
Como podemos preservar a felicidade?
- Renunciando a sua perenidade, aceitando sua fragilidade. Admitindo que a felicidade é fugaz. Adaptando seus desejos às adversidades da existência, amando a vida e o amor.
O ESPÍRITO DO ATEÍSMO
"Sinceramente, será que você precisa acreditar em Deus para pensar que a sinceridade é melhor do que a mentira, que a coragem é melhor do que a covardia, que a generosidade é melhor do que o egoísmo, que a doçura e a compaixão são melhores do que a violência ou a crueldade, que a justiça é melhor que a injustiça, que o amor é melhor que o ódio? Claro que não!
Se você acredita em Deus, você reconhece em Deus esses valores; ou, talvez, você reconhece Deus neles. É a figura tradicional: sua fé e sua fidelidade andam juntas, e não sou eu que vou criticá-lo por isso. Mas os que não têm fé, por que seriam incapazes de perceber a grandeza humana desses valores, sua importância, sua necessidade, sua fragilidade, sua urgência, e respeitá-los por isso?"

(O espírito do ateísmo, André Comte-Sponville, Martins Fontes)