fevereiro 27, 2008

BOTECOS

A crônica que postei me fez lembrar que, mesmo não sendo nem meio intectual nem meio de esquerda, a gente tem aquela nostálgica lista de autênticos botecos (ou restaurantes simplinhos) onde encontrava amigos sem precisar marcar (ninguem era escravo do celular), de lá saía para outros lugares ou para lá ia no fim da noite, comer o que não se encontrava em nenhum outro bar/restaurante/café da cidade...
Com o tempo alguns destes lugares foram ficando "na moda", passando a ser frenquentados pelos "modernetes" que nem sabiam deles, até que a mídia ...
Modificaram-se para "se atualizar",ou seja, ficaram igual a todos e, assim, perderam o seu charme.
Voltei a um deles na semana passada. Situado atrás de um cemitério, era frequentado, dentre outras "turmas", por um grupo que "batia uma pelada" e ia beber cerveja (sempre geladíssima), antes do chuveiro e com a bola debaixo do braço. A frequência era das mais ecléticas que se possa imaginar. Nas paredes de azulejos brancos, dentre as muitas fotos de times de futebol, um aviso de que não vendia fiado, no canto do balcão, de fórmica verde marmorizada, uma bombonière e na entrada um vaso com um enorme "comigo ninguém pode". A cozinha era ótima!
O Juca (de sempre) veio nos cumprimentar, trazendo o campari (sem limão) que bebíamos naquele tempo, como a nos dizer que lembrava. Ao me despedir, perguntou-me por que não uso mais os cabelos vermelhos.Quase respondi perguntando: e vc, por que não serve mais codorna assada com polenta ?
Lá fora, perguntei ao guardador de carro pelo "Sorriso" (o último nome que poderia ter o seu antecessor, tantos eram os dentes entramelados). Ele havia "voltado", para trabalhar na roça.

* * * * * * *


"Bar ruim é lindo, bicho
Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem).
No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.
– Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.
O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.
Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.
Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).
– Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?"


Mário Prata
Do blog Digestivo Cultural
Integra o volume As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, organizado por Joaquim Ferreira dos Santos.

fevereiro 26, 2008

TIRAMISU


Tiramisú significa algo como me escolha . Antigamente, cortesãs de Veneza acreditavam que deveriam consumir o tiramisú antes que os cavalheiros chegassem, para obter energia para entretê-los durante a noite inteira.
É um refrescante clássico pavê italiano, feito com queijo mascarpone (nesta receita pode ser substituído por cream cheese , de efeito semelhante).
O mascarpone é um queijo muito cremoso, italiano, originário da região da Lombardia, obtido através da mistura de leite de vaca (alimentadas com uma ração especial de ervas e flores) e uma solução de ácido tartárico.
Experimente essa receita:

Ingredientes:
½ xícara (chá) de café pronto
½ xícara (chá) de açúcar
12 unidades de biscoito champagne com açúcar fino
500g de mascarpone
4 claras de ovo
2 gemas de ovo
60ml de rum
chocolate em pó, o quanto baste para polvilhar

Prepare assim:
Prepare um café forte. Coloque o café e o rum num prato de sopa e misture bem. Reserve. Escolha uma travessa retangular, de preferência transparente, para servir a sobremesa e colocar ao lado do prato com o café. Separe as claras das gemas. Coloque o açúcar e as gemas numa batedeira, até formar um creme bem claro. Retire o recipiente da batedeira e acrescentar o mascarpone. Voltar o creme para a batedeira e bata rapidamente, apenas para encorporar. Retire o creme da batedeira. Reserve. Individualmente, umedeça os biscoitos no café. Molhe apenas um lado do biscoito por 2 segundos para que eles não absorvam muito o café (eles não devem ficar encharcados). Cubra o fundo da travessa com os biscoitos. Reserve. Separadamente, bata as claras até o ponto neve. Misture, cuidadosamente, as claras ao creme reservado. Acrescente o creme sobre os biscoitos e espalhe bem com uma colher, cobrindo todos os espaços. Deixe na geladeira por 24 horas. Ao servir, polvilhe o chocolate em pó sobre toda a superfície do creme com uma peneira fina.

Me convide e sirva gelado!!

A tatuagem da meia-idade

Tamanha é a convicção de que cabelo grisalho é para ser omitido que ostentar os fios brancos pode ser encarado hoje como um verdadeiro ato de rebeldia, uma espécie de tatuagem ostensiva das mulheres maduras.
Segundo a psicóloga professora da PUC-SP Mônica Gianfaldoni, falta tolerância com o que é diferente. Ela diz não considerar alienadas as mulheres que pintam os cabelos, mas que, em um mundo globalizado, há um excesso de rigidez no padrão estético voltado para o vigor da juventude.
"Será que, para ser feliz, a pessoa tem que parecer igual a todo mundo?", questiona.
"Quebrar padrões e sair do script estão ligados a pensar mais, analisar critérios, olhar para dentro de si e decidir onde se quer investir, dar-se o direito de dispor do próprio corpo."
A terapeuta observa que a cobrança social não apenas de ser jovem, mas também de aparentar jovialidade, exerce maior pressão sobre as mulheres. Pesquisa recente com universitárias realizada na faculdade em que leciona, sobre critérios de escolha de parceiros, mostrou que o nível de exigência com a aparência é muito maior com elas próprias.
"Beleza é uma questão sexista. A mulher se cobra muito mais por sua própria aparência do que pela de um parceiro em potencial."

RUIBARBO


Fazia muito tempo que conhecia ruibarbo da composição de um remédio fitoterápico chamado Eparema, em cuja embalagem vinham (acho que ainda vem) estampadas umas folhinhas que não sabia se era do tal ruibarbo.
Passados alguns (alguns não, muitos) me deparo com torta de ruibarbo num menu de uma boulangerie. A curiosidade ficou aguçada, mas naquele dia não tinha a tal torta ou havia acabado, não lembro. Voltei quase uma semana depois e pude saborear esta maravilha que, até então, não sabia exatamente de que se tratava.

O ruibarbo, na verdade, é um legume que é frequentemente usado como fruta e dele só interessa os talos, as folhas devem ser removidas Segundos os entendidos devem ser escolhidas hastes rijas e fortes que podem ser conservadas no frigo no máximo por quatro dias e podem ser usadas em mousses, doces, gelados, tortas e pudins.
Uma receita:
¾ de xícara de manteiga amolecida (150 g)
1 1/3 xícara de açúcar (225 g)
2 xícaras de farinha de trigo (240 g)
1 colher (sopa) rasa de ferm. quím. em pó
1 pitada de sal
3 ovos levemente batidos
Raspas de um limão siciliano
1 colher (sopa) de suco de limão
4 colheres (sopa) de kefir (ou iogurte natural ou leite)
300 g de ruibarbo aferventado e picado em pedaços de 2 centímetros
2 maçãs descascadas e cortadas em cubinhos
1 colher (sopa) rasa de canela
2 colheres (sopa) de açúcar de confeiteiro
Agora me dei conta de que não traz o "modo de fazer" :);) foi mal!!!
Mas é bem a minha "cara"...
Mas, se voce quiser mesmo, e não achar no google, pode saboreá-la no Coquelicot, a boulangerie mais simpática de Montamartre, aux Abesses.
Voilá!

fevereiro 25, 2008

O SEGREDO DO PERFUME


A escolha de um perfume que se encaixe com a personalidade e que a potencialize permite fazer uma viagem através dos aromas que não só desperta sensações olfativas como também lembranças

Por trás de um perfume existem histórias e lendas tão sugestivas como uma viagem a um país estrangeiro durante a floração de uma planta exótica, uma etapa da vida, o primeiro amor, o pedido de casamento de Catarina de Médici no século XVI, o presente que Salomão deu à rainha de Sabá para conquistá-la e o segredo das mulheres tuaregue para conquistar seus maridos na cama.

O poder dos perfumes vai além do aroma que desprendem suas notas; eles evocam momentos e pessoas, seduzem, ajudam a potencializar a personalidade e comunicam. "Há mulheres muito femininas que, devido ao seu trabalho, estão acostumadas a conviver com homens, assim é importante compensar suas personalidades com um aroma mais agressivo e masculino", aconselha a responsável pela seleta perfumaria The Ritzy, María de Bagration.

Também existem perfumes marcadamente femininos que são muito procurados pelos homens para suavizar seu caráter; e uma outra opção são os perfumes unissex. De acordo com a família olfativa à qual pertencem, os perfumes podem ser classificados em:
frutados - que podem ser tanto doces, quanto exóticos ou atrevidos-, amadeirados - que podem ser quentes ou então profundos e sensuais -,
florais - que são protagonistas indiscutíveis de muitas fragrâncias - ,
cítricos - muito refrescantes, ideais para pessoas de vida ativa e esportistas-, especiados - somente recomendados para pessoas seguras de si-,
atalcados - com um toque terno de talco que faz lembrar a infância -
espirituais e sintéticos - aromas de vanguarda, para os consumidores mais urbanos.

"O importante é escolher um perfume desenvolvido por um bom perfumista. Um dos meus preferidos é Hemèssanse de Hermès, de Jean-Claude Ellena", diz Inés Berton, que tem um dos melhores olfatos do mundo e usa seu talento trabalhando como especialista em chás, ou tea blender. O chá também é uma fragrância natural utilizada em perfumaria, assim como a doce e exótica baunilha, muito na moda e especialmente recomendada para peles claras.

Durante a escolha, deve-se levar em conta o pH da pele, por causa de sua influência no desenvolvimento aromático de um perfume. A Profvmo, de Silvana Casoli, oferece uma seleção de fragrâncias naturais pensadas para combinarem entre si, sugerindo mesclas que, aliadas ao próprio cheiro de cada pessoa, permitem criar um perfume personalizado e único. "Com duas ou três essências, além do odor da própria pele, podem-se criar combinações para os diferentes momentos do dia; à tangerina da manhã pode-se acrescentar âmbar à tarde e um toque de patchouli para sair à noite", recomenda María de Bagration.

Outras recomendações incluem usar aromas frescos, discretos e limpos durante o dia, além de não se perfumar demais quando sair para jantar, já que isso pode anular os aromas do prato a ser degustado. A memória olfativa bloqueia o odor natural de cada pessoa, o que deve ser lembrado uma vez que não é de bom tom incomodar os outros usando perfume tanto atrás das orelhas quanto nos pulsos, lugares onde a temperatura do corpo é mais alta e ajuda a evaporar o aroma", explica o perfumista Jimmy Boyd. "O perfume é um luxo, um prazer que nos leva a recordar momentos especiais", diz Inés Berton. Saber escolhê-lo, em vez de simplesmente seguir a moda, é importante porque pode fazer com que a pessoa sinta-se bem, até mesmo especial. "Se você se sente sensual, automaticamente essa imagem vai se refletir para as outras pessoas", diz María de Bagration.

O momento de perfumar-se pode ser pensado como um pequeno ritual no qual a pessoa imagina "onde gostaria que lhe beijassem", como dizem os franceses. "Na realidade, deve-se perfumar os pontos onde a irrigação sanguínea está mais próxima da pele. Por exemplo, atrás dos lóbulos da orelha.

Além dos laboratórios que fabricam perfumes para as grandes marcas, o sonho de muitos perfumistas é elaborar sua própria fragrância. Os chamados perfumes de autor são aqueles elaborados de forma artesanal, com conta-gotas, um processo no qual o computador tem uma importância secundária. Esses autores realizam pequenas produções, desconhecidas do público em geral, que só chegam aos clientes mais exclusivos; são as chamadas marcas-nicho.

As colônias frescas assinadas pelo perfumista Jimmy Boyd são as únicas que maceram folhas, pétalas e ramas frescas em seus frascos; Hierbas de Ibiza é uma água de colônia unissex que leva a essência dessa ilha mediterrânea aos pontos de venda mais exclusivos da Europa.

O êxito levou alguns perfumistas à popularidade, como aconteceu com Annick Goutal, cujas criações inspiradas em emoções já são famosas. Também cabe destacar aromas que atravessam a barreira do tempo, como Santa Maria Novella, cuja essência transporta a diferentes épocas da história florentina. Por sua vez, o mítico Chanel Nº 5, que não deixa ninguém indiferente, assim como o Joy, de Jean Patou. Em todo caso, os franceses continuam sendo os mais reconhecidos no ramo por sua vasta tradição, seguidos dos italianos, com seu toque místico. Todo um mundo desconhecido que, com paciência, criatividade e sentimento pode ajudar uma pessoa a ser quem ela é ou quem gostaria de ser.

Os diferentes tipos de fragrâncias
Cada perfume tem sua pirâmide olfativa, que é composta pelas notas de saída - as primeiras que se sentem e as que mais se percebem - e pelas notas de base ou de fundo. Além dos óleos essenciais, o perfume é composto por solventes e fixadores, que determinam a duração de seu aroma. A quantidade desses últimos é o aspecto fundamental que diferencia um extrato de perfume, que contém até 40% de óleos essenciais, de um perfume propriamente dito, que têm entre 10% e 30%, uma água-de-toilete, com até 20%, e uma deo-colônia, entre 2 e 5%.

A palavra perfume vem do latim "per fumum", que significa literalmente "através da fumaça". A arte de fazer perfumes nasceu na antiga Mesopotâmia e no Egito - Cleópatra foi uma ardente consumidora de perfumes -, e foi aperfeiçoada pelos persas e romanos. A deo-colônia é uma invenção bem mais recente, criada em Colônia pelo italiano Giovanni Maria Farina, no início do século XVIII. Em comparação aos carregados aromas da época, o de Farina transmitia frescor. Curiosamente, a solução em etanol de Farina não era uma colônia, mas sim uma água-de-toilete, já que continha mais de 5% de compostos aromáticos.

Do La Vanguardia
Judith Martínez
Tradução: Eloise De Vylder

fevereiro 24, 2008

Observações e vivências do solitário .....

/cena do filme de Luchino Visconti

"Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um
sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no
silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A
solidão cria o original, o belo, o ousado e estranho, cria a poesia. Mas cria
também o distorcido,o desproporcionado, o absurdo e o proibido".

Thomas Mann em "Morte em Veneza"

fevereiro 22, 2008

LE LISEUR


Quando li o romance do autor alemão BERNHARD SCHLINK (Folio/Gallimard) pensei, de imediato, que adaptado para o cinema daria um bom filme. No entanto, não o imaginei caindo nas mãos de um diretor americano. Eis que acabo de tomar conhecimento de que o filme já está para ser lançado. E que teria a Nicole Kidman no papel principal, não fosse a sua anunciada gravidez.
Trata-se da estória de um menino de 15 anos que conhece, por acaso, na volta da escola, uma mulher de 35 anos de quem se torna amante. Durante muitos meses ele retorna a casa dela todos os dias e um dos seus rituais consiste em ler para ela. Esta mulher, misteriosa e imprevisível, desaparece do dia para a noite. Sete anos mais tarde, como estudante de direito, assistindo ao julgamento de um grupo de mulheres acusadas de crimes praticados quando eram guardas de um campo de concentração, ele a reconhece entre as rés. Estas a pressionam e ela, mal defendida, é condenada a prisão perpétua... Como se vê, não é a simples estória de um crime, tão ao gosto do cinema americano.
O autor lida com a história alemã recente. E, segundo ele próprio declarou em entrevista: “ ...você não consegue se lembrar de coisas que realmente desempenharam um papel importante na sua vida sem contemplação e reflexão.... não há tal coisa como pura memória”.
De fato, a narração se dá num clima contemplativo e introspectivo. São difíceis as questões morais e éticas levantadas. E essa abordagem de seu passado, como sabemos, ainda é um tema crucial para os alemães.
Existem centenas de livros sobre o Holocausto em si, mas O LEITOR é um dos primeiros livros, penso eu, que aborda a forma como a geração que veio após, lida com aquilo que a geração anterior fez.
É certo existirem novas preocupações e novos interesses na Alemanha atual, moderna e reunificada, mas as questões ligadas ao seu passado ainda estão vivas e são delicadas . Talvez não seja pelas mãos de um diretor americano a melhor forma de levá-las ao cinema. Vamos aguardar,,,
.

fevereiro 21, 2008

"Me Larga!" (e me abraça!)


As separações são decididas por dinâmica que pouco tem a ver com os defeitos do outro

ÀS VEZES , milagrosamente, um psicanalista consegue transmitir os resultados de sua experiência clínica do jeito certo: sem simplificar, mas sendo mais cuidadoso com o leitor leigo do que preocupado em impressionar a turma dos colegas.
É o caso do livro de Marcel Rufo, "Me Larga! Separar-se para Crescer", recentemente traduzido em português pela Martins Fontes.
Rufo, 62, francês, terapeuta de crianças e adolescentes, segue passo a passo as peregrinações pelas quais o indivíduo conquista sua autonomia, ou seja, o difícil caminho que leva da fusão inicial com a mãe à independência rebelde do adolescente.
Ao longo do percurso, ele apresenta inúmeras vinhetas clínicas: crianças agressivas, infelizes na escola, com enuresia, pré-adolescentes adotados ou que se imaginam sê-lo, outros que fogem sem parar, jovens que se drogam ou querem acabar com sua vida, assim como pais que largam os filhos cedo demais e outros que não os largam nunca.
Mas "Me Larga!" não é apenas um livro para pais e filhos sobre as dores do crescimento. A leitura é, para qualquer um, uma ocasião imperdível para refletir um pouco sobre o conflito (que nunca pára de nos assolar) entre nossos sonhos de sossego e nossos anseios de independência -conflito especialmente complicado, aliás, porque ele se repete dentro de cada um dos campos que nele se enfrentam: o amparo da dependência é também o porto seguro que (mesmo remoto e fantasiado) nos dá a força de continuar navegando para o largo, e não há liberdade sem a nostalgia de um lar que nos prenderia. Como escreve Rufo: "Prender-se, desprender-se, voltar, sair novamente, encontrar, abandonar... Toda a nossa vida segue esse movimento permanente". E relacionar-se significa encontrar um mágico equilíbrio nesse movimento: "Cada qual precisa do outro para se construir e se conquistar, para se tranqüilizar às vezes, e para compartilhar momentos, idéias e desejos. O outro é precioso na medida em que representa uma abertura para o mundo".
Ou seja: a solução do conflito entre dependência e autonomia nunca é definitiva e é um paradoxo. Como é possível encontrar amarras que nos libertem?
Em suma, o conflito entre nossa necessidade de amparo e apego e, do outro lado, nossa sede de separação e independência é central na constituição de nossa subjetividade e continua crucial durante a vida toda. Sugiro um exemplo.
Em geral, atribuímos tanto os apaixonamentos quantos as separações de nossa vida amorosa ao outro, que se revela, segundo os casos, sublime, incompetente ou sacana. Ou então, às circunstâncias, facilitadoras ou infelizes. Mas talvez os percalços de nossa vida amorosa sejam decididos por uma luta que se trava dentro de nós e que pouco tem a ver com as qualidades e os defeitos do outro ou com as adversidades do mundo.
Talvez a gente se apaixone e se separe sobretudo conforme o ritmo do antigo e inesgotável conflito interno entre nossas aspirações de navegador solitário (a imagem é de Rufo) e nossa nostalgia de uma fusão na qual, enfim, poderíamos descansar de vez. Prova disso?
Primeiro, obviamente, pense nas separações, por assim dizer, "abstratas": aquelas que acontecem em razão de um surto irresistível de independência num dos dois ou em ambos e, inversamente, naquelas que são maneiras de manter o conforto de outro apego: "Gosto de você, mas me largue, porque você me leva para liberdade demais; prefiro ficar aqui no quentinho".
Logo, lendo o livro de Rufo, é fácil reencontrar as modalidades da ruptura amorosa na lista dos percalços das separações pelas quais a criança conquista sua autonomia: separar-se para não ser abandonado, separar-se para crescer e medir o alcance de nossa liberdade, separar-se para testar o outro, para verificar que ele não nos deixará por isso, e por aí vai. É como se os altos e baixos de nossa vida amorosa fossem, antes de mais nada, a expressão de um conflito entre liberdade e apego que está em nosso âmago e nunca se resolve.
À primeira vista, muitos acharão essa idéia incongruente com sua experiência. Mas, antes de descartá-la, façam o seguinte. Depois de uma separação, quando os "erros" e as "falhas" do outro se afastaram um pouco na memória e começam a parecer irrelevantes, pergunte-se, por exemplo: "Mas, afinal, por que nós nos separamos?" Na maioria dos casos, a gente não sabe responder.
CONTARDO CALLIGARIS



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