fevereiro 24, 2008

Observações e vivências do solitário .....

/cena do filme de Luchino Visconti

"Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um
sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no
silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A
solidão cria o original, o belo, o ousado e estranho, cria a poesia. Mas cria
também o distorcido,o desproporcionado, o absurdo e o proibido".

Thomas Mann em "Morte em Veneza"

fevereiro 22, 2008

LE LISEUR


Quando li o romance do autor alemão BERNHARD SCHLINK (Folio/Gallimard) pensei, de imediato, que adaptado para o cinema daria um bom filme. No entanto, não o imaginei caindo nas mãos de um diretor americano. Eis que acabo de tomar conhecimento de que o filme já está para ser lançado. E que teria a Nicole Kidman no papel principal, não fosse a sua anunciada gravidez.
Trata-se da estória de um menino de 15 anos que conhece, por acaso, na volta da escola, uma mulher de 35 anos de quem se torna amante. Durante muitos meses ele retorna a casa dela todos os dias e um dos seus rituais consiste em ler para ela. Esta mulher, misteriosa e imprevisível, desaparece do dia para a noite. Sete anos mais tarde, como estudante de direito, assistindo ao julgamento de um grupo de mulheres acusadas de crimes praticados quando eram guardas de um campo de concentração, ele a reconhece entre as rés. Estas a pressionam e ela, mal defendida, é condenada a prisão perpétua... Como se vê, não é a simples estória de um crime, tão ao gosto do cinema americano.
O autor lida com a história alemã recente. E, segundo ele próprio declarou em entrevista: “ ...você não consegue se lembrar de coisas que realmente desempenharam um papel importante na sua vida sem contemplação e reflexão.... não há tal coisa como pura memória”.
De fato, a narração se dá num clima contemplativo e introspectivo. São difíceis as questões morais e éticas levantadas. E essa abordagem de seu passado, como sabemos, ainda é um tema crucial para os alemães.
Existem centenas de livros sobre o Holocausto em si, mas O LEITOR é um dos primeiros livros, penso eu, que aborda a forma como a geração que veio após, lida com aquilo que a geração anterior fez.
É certo existirem novas preocupações e novos interesses na Alemanha atual, moderna e reunificada, mas as questões ligadas ao seu passado ainda estão vivas e são delicadas . Talvez não seja pelas mãos de um diretor americano a melhor forma de levá-las ao cinema. Vamos aguardar,,,
.

fevereiro 21, 2008

"Me Larga!" (e me abraça!)


As separações são decididas por dinâmica que pouco tem a ver com os defeitos do outro

ÀS VEZES , milagrosamente, um psicanalista consegue transmitir os resultados de sua experiência clínica do jeito certo: sem simplificar, mas sendo mais cuidadoso com o leitor leigo do que preocupado em impressionar a turma dos colegas.
É o caso do livro de Marcel Rufo, "Me Larga! Separar-se para Crescer", recentemente traduzido em português pela Martins Fontes.
Rufo, 62, francês, terapeuta de crianças e adolescentes, segue passo a passo as peregrinações pelas quais o indivíduo conquista sua autonomia, ou seja, o difícil caminho que leva da fusão inicial com a mãe à independência rebelde do adolescente.
Ao longo do percurso, ele apresenta inúmeras vinhetas clínicas: crianças agressivas, infelizes na escola, com enuresia, pré-adolescentes adotados ou que se imaginam sê-lo, outros que fogem sem parar, jovens que se drogam ou querem acabar com sua vida, assim como pais que largam os filhos cedo demais e outros que não os largam nunca.
Mas "Me Larga!" não é apenas um livro para pais e filhos sobre as dores do crescimento. A leitura é, para qualquer um, uma ocasião imperdível para refletir um pouco sobre o conflito (que nunca pára de nos assolar) entre nossos sonhos de sossego e nossos anseios de independência -conflito especialmente complicado, aliás, porque ele se repete dentro de cada um dos campos que nele se enfrentam: o amparo da dependência é também o porto seguro que (mesmo remoto e fantasiado) nos dá a força de continuar navegando para o largo, e não há liberdade sem a nostalgia de um lar que nos prenderia. Como escreve Rufo: "Prender-se, desprender-se, voltar, sair novamente, encontrar, abandonar... Toda a nossa vida segue esse movimento permanente". E relacionar-se significa encontrar um mágico equilíbrio nesse movimento: "Cada qual precisa do outro para se construir e se conquistar, para se tranqüilizar às vezes, e para compartilhar momentos, idéias e desejos. O outro é precioso na medida em que representa uma abertura para o mundo".
Ou seja: a solução do conflito entre dependência e autonomia nunca é definitiva e é um paradoxo. Como é possível encontrar amarras que nos libertem?
Em suma, o conflito entre nossa necessidade de amparo e apego e, do outro lado, nossa sede de separação e independência é central na constituição de nossa subjetividade e continua crucial durante a vida toda. Sugiro um exemplo.
Em geral, atribuímos tanto os apaixonamentos quantos as separações de nossa vida amorosa ao outro, que se revela, segundo os casos, sublime, incompetente ou sacana. Ou então, às circunstâncias, facilitadoras ou infelizes. Mas talvez os percalços de nossa vida amorosa sejam decididos por uma luta que se trava dentro de nós e que pouco tem a ver com as qualidades e os defeitos do outro ou com as adversidades do mundo.
Talvez a gente se apaixone e se separe sobretudo conforme o ritmo do antigo e inesgotável conflito interno entre nossas aspirações de navegador solitário (a imagem é de Rufo) e nossa nostalgia de uma fusão na qual, enfim, poderíamos descansar de vez. Prova disso?
Primeiro, obviamente, pense nas separações, por assim dizer, "abstratas": aquelas que acontecem em razão de um surto irresistível de independência num dos dois ou em ambos e, inversamente, naquelas que são maneiras de manter o conforto de outro apego: "Gosto de você, mas me largue, porque você me leva para liberdade demais; prefiro ficar aqui no quentinho".
Logo, lendo o livro de Rufo, é fácil reencontrar as modalidades da ruptura amorosa na lista dos percalços das separações pelas quais a criança conquista sua autonomia: separar-se para não ser abandonado, separar-se para crescer e medir o alcance de nossa liberdade, separar-se para testar o outro, para verificar que ele não nos deixará por isso, e por aí vai. É como se os altos e baixos de nossa vida amorosa fossem, antes de mais nada, a expressão de um conflito entre liberdade e apego que está em nosso âmago e nunca se resolve.
À primeira vista, muitos acharão essa idéia incongruente com sua experiência. Mas, antes de descartá-la, façam o seguinte. Depois de uma separação, quando os "erros" e as "falhas" do outro se afastaram um pouco na memória e começam a parecer irrelevantes, pergunte-se, por exemplo: "Mas, afinal, por que nós nos separamos?" Na maioria dos casos, a gente não sabe responder.
CONTARDO CALLIGARIS



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ccalligari@uol.com.br

fevereiro 19, 2008

Verão I


Todo mundo sabe que Floripa é uma cidade aglutinadora, linda e com praias paradisíacas.
Uma delas é a praia da Daniela. Pouco freqüentada, fora do circuito fashion e, por isto mesmo, preservada e maravilhosa.
As fotos foram captadas pelo olhar sensível do meu amigo Rogério.
Foi na Daniela que, em dezembro, marquei encontro com ele e sua família.









Depois vieram outros que não resistem a dar uma "passadinha" e também chegaram antes do Natal. (Re) encontros... o verão em Floripa favorece estas coisas.


Em dezembro a cidade se enfeita, mas não te impõe a festa. Você pode fazê-la do seu jeito. Ou nem fazer, se preferir. Aqui tudo pode! Gosto muito do pré-Natal!!! Uma comemoração com cada tribo . Nunca é demais! A única coisa chata é que a gente engorda...Tivemos vários pré-natais : na praia, no mercado, na Lagoa, no Sambaqui .


Longe das musiquinhas, sinos e guirlandas, derreter de calor, com pouca roupa, beber caipirinha (lima da pérsia!),fazer tatuagem e tomar muitos banhos de mar.


















Este é o verdadeiro espírito natalino no hemisfério sul!




Mas vem o dia do Natal: família, peru, troca de presentes...














Depois de um dezembro assim, a gente até abre mão de encarar a anunciada falta de água e os engarrafamentos sempre maiores , para ficar quietinha em casa, esperando o calendário mudar. Privilégio de quem mora onde os outros passam as férias!!!

fevereiro 18, 2008

Seriam estes os melhores versos?


1) "Queixo-me às rosas/ Mas que bobagem/ As rosas não falam/ Simplesmente as rosas exalam/ O perfume que roubam de ti." (Cartola)

2) "Quando um deus sonso e ladrão/ Fez das tripas a primeira lira/ Que animou todos os sons." (Chico Buarque)

3) "Quando eu não salário/ Ela sim propina." (Chico Buarque)

4) "Leva os teus sinais/ Que a saudade dói como um barco/ Que aos poucos descreve um arco / E evita atracar no cais." (Chico Buarque)

5) "Tire seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com a minha dor." (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito)

6) "A luz negra de um destino cruel/ Ilumina um teatro sem cor/ Onde eu tou representando o papel/ Do palhaço do amor." (Nelson Cavaquinho)

7) "A porta do barraco era sem trinco/ Mas a lua, furando o nosso zinco/ Salpicava de estrelas nosso chão/ Tu pisavas os astros, distraída." (Silvio Caldas e Orestes Barbosa)

8) "Asa da palavra/ Asa parada agora/ Casa da palavra/ Onde o silêncio mora/ Brasa da palavra/ A hora clara, nosso pai." (Caetano Veloso e Milton Nascimento)

9) "O samba é o pai do prazer,/ o samba é o filho da dor/ O grande poder transformador." (Caetano Veloso)

10) "Não me venha falar da malícia de toda mulher/ Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é." (Caetano Veloso)

11) "Tristeza não tem fim/ Felicidade sim/ A felicidade é como a gota/ De orvalho numa pétala de flor/ Brilha tranqüila/ Depois de leve oscila/ E cai como uma lágrima de amor." (Vinicius de Moraes)

12) "Quem nasce lá na Vila/ Nem sequer vacila/ Ao abraçar o samba/ Que faz dançar os galhos/ Do arvoredo e faz a lua/ Nascer mais cedo." (Noel Rosa)

13) "E por maus caminhos de toda sorte/ Buscando a vida, encontrando a morte/ Pela meia rosa do quadrante Norte/ João, João..." (Tom Jobim)

14) "Onde vais morena Rosa/ Com essa rosa no cabelo/ E esse andar de moça prosa?" (Dorival Caymmi)

15) "Meu choro, Boca,/ Dolente, por questão de estilo/ É chula quase raiada/ Solo espontâneo e rude/ De um samba nunca terminado/ Um rio de murmúrios da memória." (Paulinho da Viola)

16) "Clareira no tempo/ Cadeia das horas/ Eu meço no vento/ O passo de agora." (Marcelo Camelo)

17) "Quando vermelha no sertão desponta a lua/ Dentro da alma flutua, também rubra nasce a dor/ E a lua sobe e o sangue muda em claridade/ E a nossa dor muda em saudade/ Branca assim da mesma cor." (Catulo da Paixão Cearense)

18) "Rasgue a camisa, enxugue meu pranto/ Como prova de amor mostre teu novo canto/ Escreva no quadro em palavras gigantes/ Pérola negra, te amo, te amo." (Luiz Melodia)

19) "Eu vim parar na beira do cais/ Onde a estrada chegou ao fim/ Onde o fim da tarde é lilás/ Onde o mar arrebenta em mim/ O lamento de tantos ais." (João Donato e Gilberto Gil)

20) "Que a saudade é o revés de um parto/ A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu" (Chico Buarque)