fevereiro 13, 2008

PORTO SAUDADE


Para ser melhor apreciado, trouxe do "comentário" para cá:

PORTO SENTIDO

Quem vem e atravessa o rio
junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende ate ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
és cascata, são-joanina
dirigida sobre um monte
no meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
dum rosto e cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

Ver-te assim abandonada
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa

de Carlos Tê
Cantado por Rui Veloso

fevereiro 10, 2008

Schopenhauer, ensina-me a viver


"Em Schopenhauer Educador, um dos mais belos textos já dedicados ao grande pensador, Nietzsche demonstra toda a sua admiração por aquele que, segundo suas palavras, conseguiu ir além das deficiências de seu tempo e ensinou “de novo” algo que a filosofia jamais deveria ter esquecido: a simplicidade e a honestidade, tanto no pensamento quanto na vida. Schopenhauer é simples, íntegro e, sobretudo, sereno como Montaigne, diz Nietzsche. Mas ele não é só isso. É forte, vigoroso e, concordando ou não com os seus princípios, somos tentados a refletir sobre suas idéias, sempre coerentes e harmônicas.

Schopenhauer produziu um sistema extraordinário e, apesar de Nietzsche considerar a “vontade de sistema” uma espécie de desonestidade diante da vida (sempre tão fluida e pulsante para ser colocada em uma fôrma), em Schopenhauer tudo é honesto. É claro que tal honestidade não impediu Nietzsche de romper posteriormente com seu “mestre espiritual” e chegar a idéias completamente distintas. Porém, apesar das críticas mais tardias feitas pelo próprio Nietzsche à filosofia de Schopenhauer, o elo entre o filósofo da “vontade de potência” e o filósofo da “vontade de vida” é profundo - embora para entender isso seja preciso conhecer a obra dos dois filósofos.

Aliás, como diz muito bem o próprio Schopenhauer, quem deseja mesmo conhecer a filosofia deve ir direto às fontes. Ler uma “história da filosofia” em vez de ler as obras dos próprios filósofos, diz, “é como querer que outra pessoa mastigue o que comemos”. É o que nos ensina o filósofo nas primeiras páginas de seu Fragmentos Sobre a História da Filosofia, publicado pela Martins Fontes em tradução de Karina Jannini: nenhum manual, nenhum comentador, pode nos fornecer o que a obra de um filósofo oferece. “Alguém leria a história universal se pudesse ver com seus próprios olhos os acontecimentos do passado que lhe interessam?”, pergunta.

Esses Fragmentos fazem parte do Parerga e Paralipomena. Longe de ser uma história da filosofia no sentido ortodoxo, representam um olhar visceral sobre os caminhos e descaminhos da filosofia ao longo dos séculos. É, no fundo, um brilhante exercício de pensamento, que não exclui a crítica implacável a alguns filósofos que, embora muito considerados, são chamados de confusos e até de medíocres. Schopenhauer não poupa ninguém e muito menos teme atacar o hegelianismo que domina o mundo acadêmico de sua época. Diz que ele não tem “nem clareza, nem espírito” e que seu sucesso representa claramente a vitória de uma filosofia de cátedra, estéril e afetada.

Na verdade, ninguém está fora da mira desse filósofo que defende que a verdade não foi feita para agradar e nem deve depender de aplausos ou de adesões. É assim que ele deixa claro, por exemplo, que embora a sabedoria de Sócrates seja “um artigo de fé filosófica”, não parece muito inteligente um pensador limitar-se “a uma minoria que o acaso aproxima dele”. Ele deve, ao contrário, buscar estender a sua influência a toda a humanidade e isso só é possível pela escrita. Para o filósofo alemão, Sócrates assemelha-se aos “heróis práticos, que agiram mais com seu caráter do que com sua cabeça”.

É claro que, dentre todos os filósofos, Kant é de longe aquele pelo qual Schopenhauer tem maior apreço, embora também não concorde com ele em todas as coisas. Dito de outra maneira: como todo grande pensador, Schopenhauer não é discípulo de ninguém. Ele é o criador de sua própria filosofia e, nesse caso - como diz Deleuze -, é um criador de conceitos. Mas criar, segundo Deleuze, também pode ser reativar conceitos anteriores e é quando Schopenhauer se associa com Kant que ele produz o maior de todos os seus conceitos: o da Vontade como a única coisa em si.

Sobre este ponto, recomendamos a leitura de outro texto que se encontra também nessa edição: o Esboço de Uma História da Doutrina do Ideal e do Real. Nesse breve ensaio, Schopenhauer considera mais do que justa a afirmação de que Descartes é o pai da nova filosofia (ou, mais propriamente, da filosofia moderna). Isso porque ele teria sido o primeiro a refletir sobre o que é objetivo e o que é subjetivo na ordem do conhecimento (ou seja, o que pertence ao mundo e aquilo que pertence à própria estrutura da razão). Subjetivo, nesse caso, não tem o sentido de pessoal ou individual, mas de inato, inerente. Dialogando, portanto, com as filosofias de Descartes, Espinosa e, sobretudo, com a de Kant, Schopenhauer reafirma sua posição com relação à representação. “O mundo é minha representação”, diz ele, e isso quer dizer que existe um abismo intransponível entre a imagem que temos das coisas e as coisas em si mesmas. Schopenhauer não esconde a influência kantiana sobre o seu pensamento, mas distingue-se dele ao defender que só existe uma coisa em si: a Vontade. É ela que anima todos os corpos. O ser é a Vontade e cada indivíduo nada mais é do que o clamor, a expressão profunda dessa Vontade una e eterna.

Schopenhauer é tudo isso e muito mais e ler a sua obra é conhecer a filosofia em seu estado mais puro e vital. Ele mesmo gostava de dizer que sua filosofia era feita de poucos elementos, porque a verdade sempre é simples. Longe dos vícios que corrompem a filosofia de cátedra, seu pensamento é talhado para objetivos superiores e não para a vã ostentação pública. Enfim, esse é Schopenhauer: o filósofo-educador, o eterno mestre de uma humanidade que precisa, cada vez mais, de alguém que a ensine a viver! "

Regina Schöpke é doutora em filosofia, medievalista e autora de Por uma Filosofia da Diferença: Gilles Deleuze, o Pensador Nômade

fevereiro 09, 2008

LA PROVENCE


Aix en Provence foi a cidade onde decidi me instalar , no outono de 2006, para visitar as demais cidades da Provence. Dispondo de tempo e pretendendo aproveitá-lo de forma mais produtiva e enriquecedora , matriculei-me para uma curta temporada de estudo de francês, num programa que se chamava “ Découverte de la Provence".

Nada mais adequado para quem não pretendia alugar um carro, levando em conta o fato de as cidades, de um modo geral, embora próximas (ou talvez por isso mesmo) não contarem com uma rede de transporte público que facilitasse o deslocamento (ida e volta no mesmo dia). Avignon, que visitei sem a escola, é exceção pois conta até com o TGV.********** Gordes **********
Pela escola, foram-me oferecidas várias opções de hospedagens. A minha curiosidade pela cultura da região não era suficiente a me levar a uma família hospedeira. Havia ainda a necessidade de uma certa privacidade e a vontade pouca de me submeter a outra rotina, além da que me seria exigida pela escola.

**************** Roussillon ***********************
Fiquei muito bem instalada num studio, situado do lado oposto ao da escola, considerando o centro histórico que nos separava. Tal circunstância, me obrigava a atravessa-lo, diariamente, o que fazia sempre por caminhos diversos, com descobertas das mais interessantes. Em Aix se conta mais de 20 fontes.


Cheguei à Aix no dia do centenário de sua mais ilustre figura: Paul Cézanne.
As comemorações já aconteciam desde o começo do ano. Afinal, a cidade vive, pensa, come, respira Cézanne. O que só aconteceu depois que uma fundação americana-judaica investiu na restauração de seu ateliê que se tornou ponto de visitação obrigatória. Nada contra. Relevante porém, observar que os franceses, que hoje tiram o proveito, deixaram todo o patrimônio abandonado por mais de vinte anos, depois de sua morte. Atualmente, somos obrigados a “desligar” um pouco para não passar a abominá-lo (tal é a overdose) e para não sucumbir à tentação de contestar a versão que eles apresentam para a sua amizade com Zola.Nada contra, aqui também.

Como fazia anos que lia quase tudo que dizia respeito à Provence, tive pouco (ou quase nada) a acrescentar dessa experiência. A visão de um campo de lavanda continua me faltando...

No mais, foi uma sucessão de meras confirmações e vivências de realidades sempre mais pobres do que as descritas nos livros, as quais se somavam as minhas ricas fantasias.
Não era culpa da escola nem deficiência dos professores.Falta de sorte minha: 90% dos alunos matriculados para aquele período eram escandinavos. Os outros 10% : duas americanas (uma do Alasca), um alemão, uma japonesa, duas canadenses (sendo uma originária da Letônia) . E eu . (Na foto, segundo da esq.é o prof)

No intervalo do primeiro dia de atividades, o "prof" me abordou muito “cheio de dedos” e depois de muitos arrodeios, queria saber mesmo era se eu não estava me sentindo "deslocada”. Óooooooooooooooobvio que estava!!!
Mas não eram as mesmas as nossas razões. Ele apenas achava que eu não havia sido corretamente avaliada e que não deveria estar ali, mas na sala do nível mais elevado (naquele momento haviam apenas três níveis) . Fui para a sala do nível mais elevado o que, no contexto, quase nada significava. Mais eu ainda não sabia.

************************em frente à escola **********************
Para resumir, constatei que Sobral é mais próximo da França do que a Escandinávia. Eles eram meio toscos, culturalmente muito provincianos, não vão ao cinema , só assistem a TV e lêem os jornais locais (de suas “aldeias”) e, se lêem alguma coisa além disto, deve ser relacionado às suas atividades profissionais.

*************** Isle - sur - Sorgue
Eram recorrentes nas discussões e nos trabalhos apresentados (sempre oralmente) a preocupação com o meio ambiente, cuja solução para eles estaria em tirar os carros de circulação (viva a bicicleta!) , o terrorismo, uma ameaça difusa, porém constante e tão grave quanto a da gripe aviária. No mesmo nível...

Nunca, ninguém, riu ou cantou. Ah! Não conheciam nenhuma das velhas canções francesas que a gente ouve desde que nasce, nem escritores, atores, diretores de cinema, políticos, filósofos, enfim, nada da cultura francesa.
E, para finalizar, ninguém sabia por que havia escolhido ir estudar na Provence: por que Aix e não Lion? Por que Aix e não qualquer cidade da Bretanha ou da Normandia? por que não Paris? Não haviam respostas. O que me levou à conclusão de que nem sabiam direito onde estavam.
Marseille

Indaguei, “casualmente” se eles sabiam quem tinha sido Pagnol , o nome escrito na porta de nossa sala. Entreolharam-se, meio assustados.....Algumas (no ano sabático) estavam na Provence há pelo menos 3 ou 4 meses....
Fui deixando e acabei sendo a última a fazer a apresentação do trabalho final. Escolhi como tema : La Provence. Fiquei com a impressão de que a “ prof “gostaria que eu tivesse sido a primeira. Quanto aos colegas, sem comentários...

Nos últimos dias do curso, me encarregaram de revisar a tradução do site. Perguntaram-me como tomei conhecimendo da escola (se eu respondesse que foi no orkut?) e fiquei sabendo que, antes de mim, só tinham recebido um brasileiro.

A parte boa: O studio me permitiu receber amigas, adorei os savons de Marseille, les huilles, tapenades e paellas da feira, la cuisine provençale, almoçar no Cadrillon, beber pastis no PTT e o Mistral, que semostrou bem forte em Avignon!

GIVERNY

Giverny fica a uns 50 minutos de trem de Paris. Lá encontra-se a casa onde viveu Monet entre 1883 e 1926. Para quem gosta do impressionismo e, particularmente, do Monet, é um passeio maravilhoso, sobretudo na primavera. Além da visita à sua casa, onde se encontram seus objetos, mobílias e a sua coleção de estampas japonesas, é imperdível a visita aos jardins pois representam, ao vivo, os seus quadros.
É bem fácil ir de trem (gare Saint Lazare - Paris/Rouen), descer em Vernon que fica a 7 km de Giverny.Em Vernon se pode pegar um ônibus ( sai à cada 15 minutos), um taxi ou ir a pé na estrada. É pertinho! O site: www.fondation-monet.com
Diante das fotos (todas do Hirata), penso não ser necessário dizer mais nada.










Reeditei esta postagem para inserir o registro do azul da cozinha de Monet.

fevereiro 08, 2008

ALHAMBRA




Faz dois anos que visitei Granada. Tudo se passou assim: dejas que las cosas te vengam como te vienen. A idéia de ir à Andaluzia surgiu em BCN, onde já me encontrava num desvio de rota (estava em Aix-en-Provence, retornaria via Paris). Fui à BCN atraída por comentários de amigos, especialmente de um "amigo" de quem, até então, conhecia apenas as poesias. A viagem teve o sabor especial do não programado, do não previsto para acontecer, que nos permite suspresas ao dobrar de uma esquina...e tantas outras cositas do meu agrado.
Fui com um amigo, do amigo, do amigo (a quem tinha sido apresentada na noite anterior). Ele, como eu, embarcara na idéia de visitar Alhambra. Conversando no percurso BCN/Sevilha/Granada (avião/trem/avião), nos demos conta de que nenhum de nós sabia onde encontrar las taquillas.
Decidimos começar nossas tentativas em Sevilha...
Oh gran Sevilla!, Roma triunfante en ánimo y nobleza, disse dela o grande Cervantes. Uma cidade que era conhecida como "a esquina do mundo"! Somente depois de conhecê-la soube o que levava a esta afirmação:
"Situada no sul da Espanha, fica, metaforicamente, assim como que na cabeceira de um escorregador natural. Partindo dela, descendo o Guadalquivir, o navegante, entrando no Atlântico, embicava o seu barco na corrente das Canárias e, alguns dias depois, sempre na direção do Ocidente, aproveitando-se dos ventos alísios, trafegava na corrente equatorial do norte, chegando nas águas americanas pela corrente das Caraíbas. Logo alcançava os portos de Cartagena, Porto Belo, Guadalupe, Dominica, Barbados, Martinica, Trinidad, Porto Rico, Vera Cruz, e tantos outros mais. Sevilha, então, posava como uma abelha rainha, recolhendo os doces favos da América que as naus operárias não paravam de trazer-lhe de todos os cantos"


Cidade favorita do poeta João Cabral que sobre ela escreveu:
"Tenho Sevilha em minha cama
eis que Sevilha se faz carne,
eis-me habitando Sevilha
como é impossível de habitar-se
"
Lições de Sevilha, 1990

Depois de uma tarde de visitas ao Real Alcazar e andanças pelo antigo bairro judeu, onde almoçamos, seguimos de trem para Granada.



Conseguimos, no primeiro dia, ter acesso apenas aos jardins e a informação de que, se chegássemos muito temprano no dia seguinte seria possível a visita.




De lá, no cair da tarde, subimos ao Mirador San Vito de onde tivemos a visão de Alhambra, num por de sol, ao som de guitarras e castanholas.
Um espetáculo inesquecível!!!

Descemos quando já escurecia, pelas ruelas típicas, onde pelas residências, comércios e inúmeras téterias se observa o quanto o espírito andaluz segue inalterado desde tempos remotos.




Perdidos no tempo, envolvidos naquela atmosfera vivamente moura, numa das inúmeras téterias, a noite já ia longe, quando nos demos conta de que ainda não sabíamos onde dormir e nos lembramos que nossas mochilas continuavam(?) na estação...Duas argentinas com quem conversamos nos falaram que haviam feito reservas de hotel com meses de antecedência. Anunciaram que iríamos enfrentar dificuldades. Não deu pânico. Afinal,os bancos da estação estariam lá...:):)!
Tratamos de começar a descer procurando vaga em cada hostal. Em todas as portas se lia "completo". Afinal estávamos numa sexta feira! Chegando na Gran Via (toda em obras), encontramos num hotel simpático, uma habitación confortável.
Fomos resgatar as mochilas e voltamos para um sono reparador . O dia seguinte seria decisicivo.
Era outono, deixamos o hotel quando ainda não tinha, de todo, amanhecido.
Destino : Alhambra.
Fazia um pouco de frio e nos revezamos na fila, enquanto o outro se esquentava com um café comprado num quiosque próximo.
Valeu o esforço. Conseguimos bilhetes para aquele mesmo dia e estávamos dentre os primeiros que teriam acesso aquela que, sem dúvida, é uma das maravilhas do mundo!
À guisa de informação, as entradas são vendidas com meses de antecedência, nas agências do Banco Bilbao Viscaya espalhadas pelo mundo.










Retornamos, extasiados, para Sevilha de onde à noite partia nosso vôo para BCN. Sob um sol e uma luminosidade acachapante (mesmo para uma cearense), visitamos a grandiosa Praça Espanha (comemos tâmaras) e o Palácio onde acontecia o Festival de Cinema de Sevilha (sem o glamour que imaginava em eventos desta natureza)





BCN, diferentemente da maioria das cidades européias, mesmo depois da meia noite é ainda pulsante.Minha excitação era tanta que não conseguiria dormir.Assim, não voltei direto para a Bonic. Fui para um bar de tapas com a cabeça tão acelerada que foi a única vez que resolvi um Sudoku "diabólico".
O cavalo do Botero, no saguão do aeroporto de BCN. Gosto muito!

fevereiro 07, 2008


ARTISTAS NÃO SÃO PIRADOS

"Entre as balelas inventadas pela modernidade, uma foi estabelecer nexo entre arte e loucura, como se o artista fosse necessariamente um alucinado. O verbo surtar, do jargão psiquiátrico – que significa a perda de controle sobre si mesmo, a entrada num estado paranóide ou delirante com todas as dores próprias da alucinação –, ganhou status e glamour.

Hoje em dia todos surtam. É a moda. Até o Houaiss registrou um significado ameno do verbo surtar, colocando-o no campo das neuroses, dos problemas psicológicos. Ninguém se assuste ao ouvir uma pessoa falando em surtar na fila do banco, no supermercado, na novela das seis horas.

A sociedade apropriou-se da loucura como um bem descartável, banindo o que havia de sagrado e maldito nesse estado alterado de consciência. Empanturrou-se de drogas, de medicamentos, de álcool, de fumo, e também de psicanálise. Na derrapada, confundiu o estado de transe criador com o delírio esquizofrênico, o jejum da ascese com a anorexia nervosa, a náusea existencialista com a bulimia das modelos de passarelas. A fantasia de que todos os artistas são seres fragmentados é própria de uma sociedade com rupturas.

Os poetas buscaram um fluxo permanente de criação a custo de trabalho e sofrimento. Nietzsche não escreveu delirando, Schuman não compunha em surto psicótico, nem Van Gogh pintava seus quadros quando estava alterado.

Os Upanixades, livro sagrado do povo indiano, define o vazio que antecede o ato criador como um instante de comunhão com o ser. O mais alto estado se alcança quando os cinco instrumentos do conhecer permanecem quietos e juntos na mente, e esta não se move. Êxtase, iluminação, revelação ou inspiração, qualquer nome que se queira dar a esse estado, não corresponde à loucura. Ao contrário, é puro conhecimento.

O poeta inglês Wordsworth escreveu que a poesia é emoção relembrada em tranqüilidade. O mesmo pensou Freud quando afirmou que no ato criador há um fluxo de idéias e imagens que jorram do inconsciente, mas que são polidas pelo consciente.

Na era moderna, o artista desprezou a natureza coletiva da criação, assumindo o caráter da nova sociedade: um exacerbado individualismo. Atribuiu a si próprio a única responsabilidade pela sua arte e nomeou-se "criador", epíteto antes usado apenas para designar os deuses. A autoria virou a marca do nosso tempo.

Os pintores zen-budistas não assinavam suas aquarelas porque acreditavam que elas só adquiriam existência ao serem contempladas. Qualquer pessoa que olhasse a aquarela tornava-se o autor, pois a reinventava a partir daquele instante de contemplação, conceito filosófico vago para a nossa mente ocidental monoteísta, que atribui a criação do mundo a um Ser único.

Entre as sociedades tribais, bastava que um membro se desgarrasse dos costumes para ser punido com a expulsão ou a morte. A mitologia de todos os povos está repleta de heróis que padeceram na luta pela individuação. Quando uma sociedade se confronta com um artista, ela tanto pode aliená-lo de sua coletividade, como elegê-lo seu representante. Ao mesmo tempo em que ela cobra do artista que ele rompa com as regras, transgredindo, extrapolando, derrubando muros, pune-o por essas transgressões.

Surge a figura moderna do artista neurótico, perplexo e fragilizado, que não distingue o eterno do descartável, porque também não lhe interessa a distinção. Tudo é consumido numa velocidade estonteante. O novo envelhece em poucas horas, criam-se outros simulacros, as prateleiras são repostas.

O artista se transforma em fabricante de escândalos, em alucinado. Confunde-se arte e produto, poesia e escracho, êxtase e exposição da imagem. E o atributo de loucura serve apenas à ambígua função de justificá-lo e execrá-lo."

Ronaldo Correia de Brito, médico, escritor, colaborador da Revista Continente