fevereiro 08, 2008

ALHAMBRA




Faz dois anos que visitei Granada. Tudo se passou assim: dejas que las cosas te vengam como te vienen. A idéia de ir à Andaluzia surgiu em BCN, onde já me encontrava num desvio de rota (estava em Aix-en-Provence, retornaria via Paris). Fui à BCN atraída por comentários de amigos, especialmente de um "amigo" de quem, até então, conhecia apenas as poesias. A viagem teve o sabor especial do não programado, do não previsto para acontecer, que nos permite suspresas ao dobrar de uma esquina...e tantas outras cositas do meu agrado.
Fui com um amigo, do amigo, do amigo (a quem tinha sido apresentada na noite anterior). Ele, como eu, embarcara na idéia de visitar Alhambra. Conversando no percurso BCN/Sevilha/Granada (avião/trem/avião), nos demos conta de que nenhum de nós sabia onde encontrar las taquillas.
Decidimos começar nossas tentativas em Sevilha...
Oh gran Sevilla!, Roma triunfante en ánimo y nobleza, disse dela o grande Cervantes. Uma cidade que era conhecida como "a esquina do mundo"! Somente depois de conhecê-la soube o que levava a esta afirmação:
"Situada no sul da Espanha, fica, metaforicamente, assim como que na cabeceira de um escorregador natural. Partindo dela, descendo o Guadalquivir, o navegante, entrando no Atlântico, embicava o seu barco na corrente das Canárias e, alguns dias depois, sempre na direção do Ocidente, aproveitando-se dos ventos alísios, trafegava na corrente equatorial do norte, chegando nas águas americanas pela corrente das Caraíbas. Logo alcançava os portos de Cartagena, Porto Belo, Guadalupe, Dominica, Barbados, Martinica, Trinidad, Porto Rico, Vera Cruz, e tantos outros mais. Sevilha, então, posava como uma abelha rainha, recolhendo os doces favos da América que as naus operárias não paravam de trazer-lhe de todos os cantos"


Cidade favorita do poeta João Cabral que sobre ela escreveu:
"Tenho Sevilha em minha cama
eis que Sevilha se faz carne,
eis-me habitando Sevilha
como é impossível de habitar-se
"
Lições de Sevilha, 1990

Depois de uma tarde de visitas ao Real Alcazar e andanças pelo antigo bairro judeu, onde almoçamos, seguimos de trem para Granada.



Conseguimos, no primeiro dia, ter acesso apenas aos jardins e a informação de que, se chegássemos muito temprano no dia seguinte seria possível a visita.




De lá, no cair da tarde, subimos ao Mirador San Vito de onde tivemos a visão de Alhambra, num por de sol, ao som de guitarras e castanholas.
Um espetáculo inesquecível!!!

Descemos quando já escurecia, pelas ruelas típicas, onde pelas residências, comércios e inúmeras téterias se observa o quanto o espírito andaluz segue inalterado desde tempos remotos.




Perdidos no tempo, envolvidos naquela atmosfera vivamente moura, numa das inúmeras téterias, a noite já ia longe, quando nos demos conta de que ainda não sabíamos onde dormir e nos lembramos que nossas mochilas continuavam(?) na estação...Duas argentinas com quem conversamos nos falaram que haviam feito reservas de hotel com meses de antecedência. Anunciaram que iríamos enfrentar dificuldades. Não deu pânico. Afinal,os bancos da estação estariam lá...:):)!
Tratamos de começar a descer procurando vaga em cada hostal. Em todas as portas se lia "completo". Afinal estávamos numa sexta feira! Chegando na Gran Via (toda em obras), encontramos num hotel simpático, uma habitación confortável.
Fomos resgatar as mochilas e voltamos para um sono reparador . O dia seguinte seria decisicivo.
Era outono, deixamos o hotel quando ainda não tinha, de todo, amanhecido.
Destino : Alhambra.
Fazia um pouco de frio e nos revezamos na fila, enquanto o outro se esquentava com um café comprado num quiosque próximo.
Valeu o esforço. Conseguimos bilhetes para aquele mesmo dia e estávamos dentre os primeiros que teriam acesso aquela que, sem dúvida, é uma das maravilhas do mundo!
À guisa de informação, as entradas são vendidas com meses de antecedência, nas agências do Banco Bilbao Viscaya espalhadas pelo mundo.










Retornamos, extasiados, para Sevilha de onde à noite partia nosso vôo para BCN. Sob um sol e uma luminosidade acachapante (mesmo para uma cearense), visitamos a grandiosa Praça Espanha (comemos tâmaras) e o Palácio onde acontecia o Festival de Cinema de Sevilha (sem o glamour que imaginava em eventos desta natureza)





BCN, diferentemente da maioria das cidades européias, mesmo depois da meia noite é ainda pulsante.Minha excitação era tanta que não conseguiria dormir.Assim, não voltei direto para a Bonic. Fui para um bar de tapas com a cabeça tão acelerada que foi a única vez que resolvi um Sudoku "diabólico".
O cavalo do Botero, no saguão do aeroporto de BCN. Gosto muito!

fevereiro 07, 2008


ARTISTAS NÃO SÃO PIRADOS

"Entre as balelas inventadas pela modernidade, uma foi estabelecer nexo entre arte e loucura, como se o artista fosse necessariamente um alucinado. O verbo surtar, do jargão psiquiátrico – que significa a perda de controle sobre si mesmo, a entrada num estado paranóide ou delirante com todas as dores próprias da alucinação –, ganhou status e glamour.

Hoje em dia todos surtam. É a moda. Até o Houaiss registrou um significado ameno do verbo surtar, colocando-o no campo das neuroses, dos problemas psicológicos. Ninguém se assuste ao ouvir uma pessoa falando em surtar na fila do banco, no supermercado, na novela das seis horas.

A sociedade apropriou-se da loucura como um bem descartável, banindo o que havia de sagrado e maldito nesse estado alterado de consciência. Empanturrou-se de drogas, de medicamentos, de álcool, de fumo, e também de psicanálise. Na derrapada, confundiu o estado de transe criador com o delírio esquizofrênico, o jejum da ascese com a anorexia nervosa, a náusea existencialista com a bulimia das modelos de passarelas. A fantasia de que todos os artistas são seres fragmentados é própria de uma sociedade com rupturas.

Os poetas buscaram um fluxo permanente de criação a custo de trabalho e sofrimento. Nietzsche não escreveu delirando, Schuman não compunha em surto psicótico, nem Van Gogh pintava seus quadros quando estava alterado.

Os Upanixades, livro sagrado do povo indiano, define o vazio que antecede o ato criador como um instante de comunhão com o ser. O mais alto estado se alcança quando os cinco instrumentos do conhecer permanecem quietos e juntos na mente, e esta não se move. Êxtase, iluminação, revelação ou inspiração, qualquer nome que se queira dar a esse estado, não corresponde à loucura. Ao contrário, é puro conhecimento.

O poeta inglês Wordsworth escreveu que a poesia é emoção relembrada em tranqüilidade. O mesmo pensou Freud quando afirmou que no ato criador há um fluxo de idéias e imagens que jorram do inconsciente, mas que são polidas pelo consciente.

Na era moderna, o artista desprezou a natureza coletiva da criação, assumindo o caráter da nova sociedade: um exacerbado individualismo. Atribuiu a si próprio a única responsabilidade pela sua arte e nomeou-se "criador", epíteto antes usado apenas para designar os deuses. A autoria virou a marca do nosso tempo.

Os pintores zen-budistas não assinavam suas aquarelas porque acreditavam que elas só adquiriam existência ao serem contempladas. Qualquer pessoa que olhasse a aquarela tornava-se o autor, pois a reinventava a partir daquele instante de contemplação, conceito filosófico vago para a nossa mente ocidental monoteísta, que atribui a criação do mundo a um Ser único.

Entre as sociedades tribais, bastava que um membro se desgarrasse dos costumes para ser punido com a expulsão ou a morte. A mitologia de todos os povos está repleta de heróis que padeceram na luta pela individuação. Quando uma sociedade se confronta com um artista, ela tanto pode aliená-lo de sua coletividade, como elegê-lo seu representante. Ao mesmo tempo em que ela cobra do artista que ele rompa com as regras, transgredindo, extrapolando, derrubando muros, pune-o por essas transgressões.

Surge a figura moderna do artista neurótico, perplexo e fragilizado, que não distingue o eterno do descartável, porque também não lhe interessa a distinção. Tudo é consumido numa velocidade estonteante. O novo envelhece em poucas horas, criam-se outros simulacros, as prateleiras são repostas.

O artista se transforma em fabricante de escândalos, em alucinado. Confunde-se arte e produto, poesia e escracho, êxtase e exposição da imagem. E o atributo de loucura serve apenas à ambígua função de justificá-lo e execrá-lo."

Ronaldo Correia de Brito, médico, escritor, colaborador da Revista Continente

fevereiro 05, 2008



IDIOSSINCRASIAS( e-mail)
"Idiossincrasia, comportamento peculiar, o jeitão de ser, ser assim e pronto, e daí....

Sou eu! É a minha cara! Ninguém tem uma igual! Eis o ponto: ninguém me repete.

Tem um amigo meu que ainda usa lenço, olha que lindo, lenço, pra oferecer a uma dama lacrimosa, outro não usa cueca - absolutamente anti-erótico mas, que fazer, é o jeitão dele – outro gosta de ser amarrado... Peculiaridades de cada um, idiossincrasias . Aquela música, lembram, (Eu sou eu, foi meu pai que fez assim, quem quiser que faça outro se achar que eu sou ruim) acho que do Paulo Sérgio, saudosa memória, queria dizer isso mesmo, faça ao seu jeito.

Eu acredito em idiossincrasia.

Quão lindo sois! É muito chata essa ideologia (idiotia?) do politicamente correto, de juntar os bons com os bons, de se alimentar só com as baixas calorias, da repetição e abusar do medo do ridículo.


Solta a franga galera!


Ressuscitem-se as pulgas mil na geral e a companhia estimulante dos idiossincráticos, essa gente diversificada que não fala coisa com coisa,— pelo menos não as coisas que todo mundo fala e fica repetindo como se fosse a coisa mais coisa do mundo – essa gente sem noção , essa gente que nada contra a maré, venham a mim os diferentes!

E bom fim de carnaval, porque eu vou ficar aqui em casa, lendo o velho Shopenhauer pra ficar de bem com as minhas idiossincrasias.

Beijo de arrastão.

Lute"

Ser cearense ....


*******************Pedra Furada em Jericoacara*****************

"Estamos partindo, estão chegando"

O garçom que me serviu num restaurante chinês, em São Paulo, era cearense de Sobral. Quando falei de minha origem, ele trouxe um colega de Saboeiro para me apresentar. À noite, numa cantina italiana, fui atendido por dois cearenses de Jericoacoara. No almoço do dia anterior, num self service da Paulista, os garçons também cearenses haviam nascido em Tauá e Mombaça.
Não posso concluir que todos os garçons de São Paulo são cearenses, nem que todos os cearenses que moram em São Paulo são garçons. No máximo, suponho que existem muitos cearenses em São Paulo e vários deles são garçons. Eles falam com nostalgia da terra onde nasceram, pensam em retornar de férias, mas param a conversa por aí. Recordam a paçoca e a rapadura, mas já se acostumaram ao ravióli, ao sushi e ao yakisoba.
Talvez o traço mais desenvolvido nos cearenses seja a capacidade de adaptação. Será que somos mesmo um povo nômade, que gosta de migrar? Isso se tornou lenda; somos comparados aos judeus. Mas os judeus muitas vezes deixaram a terra de origem na marra, levados para algum cativeiro. E que estranha força nos empurra sempre para longe? Talvez a carência; quem sabe, uma falta de tudo. Caí no terreno arenoso da psicanálise. Todo indivíduo busca preencher essa falta, do mesmo jeito que se aterram buracos. Os cearenses vão atrás do que não existe no Ceará, como os turcos, os romenos, os ucranianos, os armênios e os africanos: a subsistência.
O Ceará é o melhor lugar do mundo, no coração do cearense. Os olhos enchem de lágrimas se relembra os verdes mares bravios, as jangadas, o entardecer sertanejo. Mas voltar pras origens, no sério, de verdade, poucos cearenses desejam. Acostumam-se à terra longínqua, aos costumes novos, aos sabores exóticos. Acham melhor aquietarem-se. Carregam a secura do deserto na alma, a areia, o vento. E basta.
O solo praieiro cearense ondula. Dunas móveis. Pedro Nava, um escritor mineiro com ascendência cearense do lado do pai e da mãe, fala disso no livro Baú de Ossos. Caminhando na Praça de São Marco, em Veneza, sentiu uma insegurança ao pisar, uma leve tontura, como se o chão fizesse curvas. Lembrou da infância em Fortaleza, o mesmo temor em dar os passos. Veneza flutua sobre ondas marítimas, o Ceará flutua sobre areias de deserto. O vento Siroco atravessa Veneza, o Aracati arrepia as areias do Ceará.
O Aracati é aquele que vai embora por derradeiro, no belíssimo poema de Joaquim Cardozo, intitulado Congresso internacional dos ventos:
"O último que se pôs a caminho foi o vento Aracati:
- Cortou uns talos de chuva
Com eles fez uma flauta
E se foi, tocando e dançando,
E se foi pela estrada de Goiana."
Móvel o vento, móveis as areias, gente móvel. O cearense, igualzinho à areia que o vento carrega, se põe em rebuliço e parte. Nem olha para trás, teme virar estátua de sal. Na areia frouxa do chão nada se sustenta, nenhum edifício consegue ser duradouro. Como podem crescer as árvores de gente, na areia frouxa? Voam para longe as sementes e os frutos, enquanto o Ceará rodopia. Retirantes não sabem mais de que lado ele fica, nem que rumo tomar para retornar a ele. Exilam-se do Ceará real, transformando em imaginação, devaneio, passagem, o que parecia verdadeiro.
Cearense estrangeiro pensa em voltar, mas não volta. Quem está sempre por aí no Ceará, com negócios prósperos, são outros, os estrangeiros: portugueses, espanhóis, italianos, Deus sabe quem mais... Uma colonização em tempos globalizados? Gente que gosta de sol, de praia, de riscos. Como gostamos de frio, de museu, de segurança. E ao nosso modo cearense, transpomos fronteiras e oceanos e colonizamos Portugal, Espanha, Itália... Jeito pacífico de quem come baião-de-dois em piquenique no Bois de Boulogne, falando do Ceará como se ele existisse de verdade.

Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor.
Assina coluna na revista Continente. que me foi enviada pela amiga Bebel, outra cearense.

O campo magnético da afetividade

Amores experimentados ( ou observados) podem nos fazer supor que estamos imunes às ilusões e devaneios românticos e nos levar ao "....então tá combinado é tudo somente sexo e amizade" , do Caetano Veloso.
A fórmula parece perfeita, nestes tempos de relacionamentos casuais, do " ficar", em que o envolvimento está descartado. Porém, este descomprometimento do "sermos dois e sermos muitos", tão comum e atual, não é indolor.
A afetividade exposta ao jogo da "brincadeira e verdade", "sem enganos nem mistérios" , resiste menos do que "o equilibrista em cima do muro".
A afetividade, como a água, assume muitas formas: a que despenca de uma cachoeira, não é a mesma do remanso do lago, nem a do vai e vem das ondas....Mas é uma só.
Emoções se cruzam com sentimentos, desejos, paixões, aspirações, ilusões e, juntas, compõem um pacote a ser aberto com muita parcimônia e delicadeza. Afinal ele contém "o que há de mais humano em nós". Ainda que, eventualmente, não seja esplendoroso.
Nesta era do desamor, cada vez mais sabemos menos sobre a afetividade. No entanto nela é que fundamentamos boa parte de nossos projetos pessoais.
Segundo a ética da pós-modernidade parece um valor antiquado. Mas num "claro futuro" esta moda também passará e, antes do que pensamos, voltaremos ao tempo em que " toda razão toda palavra vale nada, quando chega o amor".
Este sim, um marco básico da aventura de viver.

fevereiro 03, 2008

1968...


na visão do Fernando Gabeira
”Os ventos que sopraram na Europa e nos Estados Unidos foram os mesmos ventos que sopraram aqui, mas com resultados e perspectivas diferentes. Na Europa havia um certo cansaço e uma crítica também ao comunismo oficial. Nos Estados Unidos era uma visão contra-cultural, muito estimulada pela revolta contra a guerra do Vietnã. O movimento no Brasil não tinha a característica contra-cultural que teve nos Estados Unidos.
...Os ventos eram os mesmos, mas em cada lugar deixaram um legado diferente. O movimento que existiu no Brasil foi contra a ditadura militar. Evidentemente que a democracia é parcialmente resultado dessa expectativa de derrubada da ditadura militar. Por que parcialmente? Por que se o movimento fosse vitorioso, tal como ele se definia, nós teríamos caído em uma outra ditadura, que é do proletariado. O modelo da luta armada brasileira era o modelo cubano.
... Eu vejo como um erro da minha geração a opção pela luta armada. Todo o processo de luta armada foi uma opção equivocada do ponto de vista político e, indiretamente, contribuiu para o enrijecimento da ditadura militar e forneceu argumento para repressão a grupos que eram opositores da ditadura militar, mas não estavam fazendo a luta armada. A luta armada não só fortaleceu a ditadura militar como reduziu o espaço da luta democrática.
... Lutar contra um regime ditatorial te deixa muito orgulhoso. Deve-se sempre colocar isso na sua alta conta. Em determinado momento tive que abrir mão de todas as minhas prerrogativas de carreira, arriscando a própria vida para lutar contra um regime militar. Mas é fundamental reconhecer que não só a forma de luta era um equívoco como os objetivos. Isto é, a implantação do socialismo era equivocada.
... É muito difícil não ser diferente de quarenta anos atrás. Seria preciso um rigor quase cadavérico (risos). Eu sou um pouco prisioneiro daquele período. Prisioneiro de 1968. Esse passado está colado a mim. Não só por que cada vez que há uma comemoração sobre 1968 a mídia me ouve, como também os próprios Estados Unidos me impedem entrada lá por conseqüência daquele período. No entanto, independente da posição americana, eu hoje me identifico muito com aquelas pessoas que querem superar aquele período. O que significa superar aquele período? Reconhecer que os anos 60 produziram muita rebelião, uma contra-cultura, mas que hoje a presença desse choque entre contra-cultura e conservadores é estéril. Assim como é estéril o choque puro e simples entre esquerda e direita. Evidentemente que existem algumas pessoas que tem mais condições de falar sobre isso do eu. Uma delas é o Barack Obama (presidenciável americano), que tem falado sobre a necessidade de superar essa discussão ideológica estéril. Ele tem mais condição do que eu por que ele era um menino em 1968. Eu fiquei com a etiqueta de 1968 colada no meu corpo. Mas por outro lado ele tem menos condição do que eu porque é candidato a presidente da República e é constantemente acusado de buscar o centro para obter mais votos. Eu observo aqui no Brasil a esterilidade de aprisionar o passado, referindo-me à esquerda, à direita, conservadores e contra-cultura. Os debates não avançam.
... É preciso encontrar pontes. E a força da contra-cultura, de seus temas e também as propostas da esquerda em confronto com as propostas da direita e conservadores nos leva a um debate que representa muito mais o passado do que as possibilidades que temos de explorar no futuro. É preciso dizer adeus a tudo isso. Eu gostaria que essa fosse a última vez que eu falasse de 1968. Eu gostaria de sepultar esse período para poder olhar para frente. Esse período, sob certos aspectos, dificulta o olhar para frente.
... Em 1968 eu era um jovem rebelde, o que nessa época fazia parte de um sentimento de mundo. Como eu, havia milhares nas ruas de São Paulo e de todas as cidades do planeta, e víamos o futuro sem medo algum; pelo contrário, nós éramos o futuro. Vivi num mundo em que as idéias progressistas, de esquerda, predominavam e prometiam grandes mudanças. E os jovens estavam na vanguarda dessas mudanças. Sabíamos que as coisas realmente podiam ser mudadas, não se tratava de megalomania: os vietnamitas acabaram derrotando os americanos; Cuba fez uma revolução e sobreviveu, está aí até hoje, mesmo com todos os problemas; os africanos conquistaram a independência; os operários franceses fizeram uma verdadeira transformação em seu país; o PCI acabou liderando uma reforma política, econômica, social e cultural na Itália. Não era utopia. No Brasil, o ano de 1968 foi um marco para todos nós, que o vivemos intensamente, ativamente. Mais do que um movimento contra a ditadura, foi um movimento pela defesa da educação pública e uma revolução cultural. A geração de 68 se misturou com o Cinema Novo, com a música popular, com as mudanças que estavam ocorrendo na arquitetura e nas artes plásticas brasileiras. E, mesmo tendo sido derrotados politicamente - a ditadura continuou firme por muitos anos -, nós mudamos a cara do país. Porque o movimento estudantil também foi música, teatro, cineclube... foi cultura, linguagem, criatividade e propostas inovadoras. Não dava mais para aceitar as idéias, a linguagem e a cultura que estavam atrás de nós; elas eram coisas muito velhas, de um Brasil que já estava morto. Vivíamos no Brasil urbano e industrial. Não existia mais aquele país que havíamos estudado na escola: essencialmente agro-exportador, baseado na produção agrícola e na indústria artesanal de consumo.
Para mim, o maior legado da geração de 68 é o cultural. Por exemplo, não apoiei a invasão da Tchecoslováquia porque era impossível aceitar aquilo. Por mais que ouvisse argumentos mais do que convincentes do ponto de vista marxista, ou socialista, achava que aquilo ia contra o espírito de liberdade e de criatividade da geração de 68. O espírito de aventura, de sonhar e acreditar que é possível fazer transformações. A geração de 68, quando rompeu com os padrões de comportamento cultural e com a estrutura autoritária da família, das relações empresariais, das relações políticas que existiam, e buscou combinar a mudança de comportamento com a luta pela liberdade, deixou uma contribuição extraordinária. Eu me considero privilegiado por ter sido um dos estudantes da geração de 68, por ter vivido em 1968".
(trechos da entrevista à Época)

O Verão de 1968


de Ruy Castro

Um ano inteiro de sol, antes que caísse a longa noite...

Bastou atravessar o túnel e 1967 ficou para trás, em Botafogo. Quando demos no outro lado, em Copacabana, a alguns segundos da meia-noite, os fogos de Ano Novo já estouravam por 1968. A idéia fora essa mesmo: sair do Solar da Fossa, onde todos morávamos, atravessar o Túnel Novo a pé, em turma, e ir para a praia, cujo réveillon consistia de uns poucos milhares que iam acender velas e jogar flores para Iemanjá; depois, caminhar entre os grupos de devotos na areia, ouvindo os tambores e cantos, e nos sentirmos superiores porque estávamos ali, com um pé na África, e não numa festa de família cheia de pais e tios quadrados.

Na verdade, aquela noite não tinha muita importância. Era só simbólica, tanto quanto a travessia do túnel ― porque, para todos os efeitos, 1968, ou pelo menos seu verão, já começara. E começara quase um mês antes, nos primeiros dias de dezembro, quando a chegada das férias desmobilizara o movimento estudantil e sustara temporariamente as passeatas contra a ditadura militar. A partir dali, e pelos dois ou três meses seguintes, poderíamos exercitar os radicalismos que fariam de 1968 o ano em que seríamos felizes para sempre ― e quase fomos.

Pouco antes, nos últimos dias de aula, só restara uma menina virgem em nossa turma de primeiro ano do curso de ciências sociais na Faculdade Nacional de Filosofia ― e ela, tão doce, frágil e bonita, com seus anéis de cabelo louro e enormes olhos verdes, não se conformava com isso. A pílula já era vendida em qualquer farmácia, a revolução sexual estava em ebulição e a virgindade feminina ― até um ou dois anos antes, uma obrigação ― se tornara um atraso, uma mancha no currículo de qualquer garota que se prezasse. Mas daquele verão não passaria, ela decidiu. Por coincidência, restara também na classe um rapaz bonito, calado, meio sem jeito ― e igualmente virgem. A menina era de uma rica e elegantérrima família carioca, famosa pelo mundanismo de seus membros; o rapaz era da elite paulistana, com um sóbrio sobrenome inglês, cheio de ww e kk. E assim, faute de mieux, os dois resolveram promover um com o outro suas estréias. Um colega emprestou o apartamento ― um quarto-e-sala na rua Senador Vergueiro, no Flamengo, quase sem móveis ― e, numa noite abafada, aqueles dois filhos da alta burguesia brasileira, que teriam direito a lençóis de linho, colchões de penas e núbios para abaná-los, fizeram amor num chão de tacos frouxos, sobre uma esteira de praia, certamente com restos de areia entre os trançados de palha. Isso já era 1968 na veia.

Poucos meses antes, Caetano Veloso e Gilberto Gil tinham se mudado do Solar e ido para São Paulo. Mas, sempre que no Rio, davam um pulinho até lá ― Caetano, de camisa da Marinha, com as fraldas para fora; Gil, gordo, com a cara redonda, de biscoito Aymoré, e chapeuzinho de couro. Iam visitar sua amiga Gal, que todos só chamavam de Gracinha e que continuava morando ali, e conferenciar com o artista gráfico Rogério Duarte, criador do cartaz de Deus e o diabo na terra do sol. Um dia cheguei da rua e encontrei Rogério no pátio, finalizando um desenho colorido. Era uma mulher nua em meio a um cenário de bananas, serpentes e dragões. Ele me disse que era para a capa de um disco de Caetano. Comentei que mais parecia uma capa do Almanaque Capivarol. Ele riu, concordou e disse que a idéia era essa mesmo ― tinha a ver com algo que estava sendo cozinhado na gravadora Philips, chamado tropicalismo. Rogério convidou-me a seu quarto no Solar e, de um aparelhinho de fita cassete (o primeiro que vi na vida), saíram metais estridentes e dramáticos, com arranjo de Rogério Duprat. De repente, "Sobre a cabeça os aviões/ Sob os meus pés os caminhões/ Aponta contra os chapadões meu nariz..." A impressão foi profunda e, até hoje, para mim, esta é uma das trilhas sonoras daquele verão.

Naquela noite de 31 de dezembro, enquanto virávamos o ano na areia, uma festa de réveillon na casa de um casal grã-fino no Jardim Botânico reuniu cerca de 1000 pessoas e serviu de trailer para tudo que se passaria em 1968. Dela resultaram quase vinte casamentos desfeitos, centenas de novas ligações amorosas e brigas cujas conseqüências ― cortes no rosto, rótulas esmagadas, corações em pedaços ― se prolongariam durante meses para os litigantes. E por que se brigou tanto? Porque, naquela festa, com os dois times pela primeira vez completos em campo, viu-se o choque da Nova Ordem contra a Velha Ordem. Aos primeiros minutos de 1968, ainda era chocante para alguns maridos que suas mulheres tivessem se tornado favoráveis ao casamento aberto ― e resolvido abri-lo ali mesmo, na festa, com homens que nem conheciam. Ou que homens e mulheres, que haviam levado a vida reprimindo seu homossexualismo, decidissem subitamente exercê-lo às claras, declarando-se a pessoas do mesmo sexo. Ou que pregações de violência política, já a favor da luta armada, se sobrepusessem aos conselhos dos moderados que ainda acreditavam na incrível aliança entre os ex-arquiinimigos Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart, formalizada pouco antes. O que havia no ar, no verão de 1968, para que, de repente, nada mais fosse como antes?

O que fazia com que, ao atravessar de novo o túnel, para assistir aos ensaios de Roda viva, que José Celso Martinez Corrêa estava dirigindo no Teatro Princesa Isabel, muitos de nós víssemos com a maior naturalidade a criação das cenas em que a platéia seria agredida pelos atores com postas de fígados sangrentos sendo esfregadas em seus rostos? E por que nossa surpresa quando, com a peça finalmente em cartaz, em janeiro, os espectadores se ofendiam com a agressão e fugiam do teatro espavoridos? Meses depois, quando o espetáculo se mudou para São Paulo, os órgãos de repressão invadiram o teatro e promoveram um massacre de verdade do elenco. Era a revanche da Velha Ordem.

Visto de hoje, parece incrível (e mais ainda para quem não o viveu), mas era como se, no verão de 1968, houvesse uma certeza de que estávamos às portas de um ano como nunca houvera. Naqueles meses, eu era repórter da revista Manchete, mas já tinha um convite de Paulo Francis para voltar a trabalhar com ele no Correio da Manhã. Meu último trabalho para Manchete foi no comecinho de março ― uma longa e deliciosa entrevista com Tom Jobim no bar Veloso, em Ipanema, enquanto no mesmo momento, a alguns quilômetros dali, o estudante Edson Luiz era morto pela polícia no Calabouço, que era um albergue para rapazes pobres como ele. Por causa desse episódio, a Velha Ordem recuou e a Nova Ordem se impôs, culminando, em junho, com a Passeata dos 100 Mil, o maior ato até então contra a ditadura. Pelo segundo semestre, a ilusão de liberdade nos fez crer que o verão se prolongaria por todo o resto do ano e ― esperávamos ―, ao emendar com o verão seguinte, acordaríamos finalmente na democracia.

Mas, na noite de 13 de dezembro de 1968, a Velha Ordem voltou à cena, e mais feroz do que nunca. Os militares implantaram o Ato Institucional no. 5, suspenderam as garantias civis, fecharam o Congresso, prenderam um mundo de gente e acabaram com a nossa festa. Por ordens superiores, baixou a noite, fez frio, caiu garoa e, com isso, não deu praia no dia seguinte e nem tivemos o verão de 1969".

(Ruy Castro tinha 19 anos, era estudante e já jornalista. Morava no Solar da Fossa, um casarão em Botafogo, no Rio, onde também viviam os jovens Paulinho da Viola, Abel Silva, Ítala Nandi, Betty Faria e outros, todos duros, românticos, boêmios e relativamente anônimos)

fevereiro 02, 2008

A amadora arte de viajar


Consta que o termo “turismo” se popularizou a partir das viagens do poeta inglês lorde Byron há quase 200 anos, quando ele era um jovem parlamentar, estava enjoado de Londres e decidiu fazer “tours” pelo Velho Continente. Foi para Portugal, Espanha, Malta, se apaixonou por mulheres e homens, seguiu para Grécia e Albânia; decidiu passar mais tempo na Grécia e conheceu a Turquia também. Nesse período, de 1808 a 1811, escreveu poemas como Childe Harold que definiram o movimento romântico, por seu misto de melancolia e ilusão, por sua crítica aos desdobramentos da civilização e sua entrega à sensualidade e tolerância que via no Mediterrâneo.

Tudo que fez depois foi marcado por essa peregrinação solar. Ele ainda casaria duas vezes, se envolveria com Shelley, moraria um tempo em Veneza. Mas sua busca era por aquela sensação de idílio juvenil que jamais seria recuperada, mesmo no período em que, morando na Toscana, embebido em sua vida italiana, escreveu Don Juan. Tanto que, mais tarde, de volta a Londres, decidiu defender a causa grega contra os turcos e foi participar da invasão da fortaleza de Lepanto, onde se feriu gravemente. Bonito e epiléptico, acabou morrendo na Grécia, como herói nacional, com apenas 36 anos. Os turistas não sabem, mas a sombra de Byron paira acima de todos os 840 milhões de deslocamentos feitos a cada ano – um número que não pára de crescer.

“Turismo é coisa de gentinha”, escreveu Millôr Fernandes, provavelmente depois de se deparar com uma dessas hordas de americanos ou japoneses ou brasileiros com máquinas fotográficas, sacolas e um permanente olhar de espanto, como que surpreendidos e ameaçados pela variedade e complexidade do mundo. Mas o problema não é só esse turismo fast-food, essas viagens e excursões que parecem feitas para dizer que foram feitas – para contar aos íntimos, na volta, que você andou de gôndola ou subiu na Estátua da Liberdade, mesmo que tenha ficado meros dois dias em Veneza e confundido Nova York com Miami. Por trás de tudo isso há o espectro do romantismo, a idéia de que estar nesses lugares fará de você outra pessoa, a expectativa de que mudanças se dão magicamente como Byron em seu “santuário”.

Por mais que queiram escapar ao lar, resta uma vontade de voltar rápido a ele, por isso o turista parece sempre tenso e ansioso. É como se toda rotina precisasse dessas fugas e refúgios para depois se fortalecer ainda mais. Nesse jogo de compensação, quem fica de fora é exatamente o conhecimento, a imersão mais lenta porém mais duradoura num ambiente estranho que, muitas vezes, pode até parecer estranhamente familiar. Acho curioso que as pessoas viajem para os lugares com nada além de algumas informações genéricas ou utilitárias que qualquer guia de bolso ou matéria de jornal traz. E que, uma vez ali, não façam pelo menos duas coisas fundamentais: ler a imprensa local, para não dizer a literatura; e andar a esmo, flanar, como a chutar pedrinhas pelas ruas. (Todo bom viajante é um chutador de pedrinhas imaginárias.)

Ler e caminhar, ambos sem muita “objetividade”, fazem a diferença entre o bom e o mau turista. É com olhos livres e sapatos gastos que se faz uma viagem marcante. Não basta visitar os lugares manjados e comer os pratos típicos; é preciso estar aberto ao novo, correr os riscos, ter a paciência de não sair catalogando o que vê como “maravilhoso” ou “decepcionante” e nada mais. Outra coisa: não se visitam países, mas cidades e regiões; o mundo não cabe num roteiro de “lugares para conhecer antes de morrer”. Também não vejo sentido em não alternar o estilo de viagem, das mais sofisticadas às mais rústicas, das mais próximas às mais distantes, das mais breves às mais longas. Certa hierarquia é necessária, mas os acasos – viagens para países que não eram prioridade, mudanças de rotas decididas no último instante – devem sempre ser bem-vindos, porque o inesperado é o ingrediente mais importante de qualquer viagem. Agora, voltar a um lugar que se conhece é essencial, como reler um livro que nos absorveu.

Se viajar é uma arte, como disse Alain de Botton, somos todos amadores nela. O bom de viajar não é nem ir nem voltar, é poder ir. É saber que se é livre para escolher entre tantas alternativas, mesmo que se escolha mal ou se prefira “viajar à roda do quarto”, feito o outro. O único pecado que um viajante pode cometer é ficar parado.
fonte: O Estado de São Paulo