fevereiro 03, 2008

1968...


na visão do Fernando Gabeira
”Os ventos que sopraram na Europa e nos Estados Unidos foram os mesmos ventos que sopraram aqui, mas com resultados e perspectivas diferentes. Na Europa havia um certo cansaço e uma crítica também ao comunismo oficial. Nos Estados Unidos era uma visão contra-cultural, muito estimulada pela revolta contra a guerra do Vietnã. O movimento no Brasil não tinha a característica contra-cultural que teve nos Estados Unidos.
...Os ventos eram os mesmos, mas em cada lugar deixaram um legado diferente. O movimento que existiu no Brasil foi contra a ditadura militar. Evidentemente que a democracia é parcialmente resultado dessa expectativa de derrubada da ditadura militar. Por que parcialmente? Por que se o movimento fosse vitorioso, tal como ele se definia, nós teríamos caído em uma outra ditadura, que é do proletariado. O modelo da luta armada brasileira era o modelo cubano.
... Eu vejo como um erro da minha geração a opção pela luta armada. Todo o processo de luta armada foi uma opção equivocada do ponto de vista político e, indiretamente, contribuiu para o enrijecimento da ditadura militar e forneceu argumento para repressão a grupos que eram opositores da ditadura militar, mas não estavam fazendo a luta armada. A luta armada não só fortaleceu a ditadura militar como reduziu o espaço da luta democrática.
... Lutar contra um regime ditatorial te deixa muito orgulhoso. Deve-se sempre colocar isso na sua alta conta. Em determinado momento tive que abrir mão de todas as minhas prerrogativas de carreira, arriscando a própria vida para lutar contra um regime militar. Mas é fundamental reconhecer que não só a forma de luta era um equívoco como os objetivos. Isto é, a implantação do socialismo era equivocada.
... É muito difícil não ser diferente de quarenta anos atrás. Seria preciso um rigor quase cadavérico (risos). Eu sou um pouco prisioneiro daquele período. Prisioneiro de 1968. Esse passado está colado a mim. Não só por que cada vez que há uma comemoração sobre 1968 a mídia me ouve, como também os próprios Estados Unidos me impedem entrada lá por conseqüência daquele período. No entanto, independente da posição americana, eu hoje me identifico muito com aquelas pessoas que querem superar aquele período. O que significa superar aquele período? Reconhecer que os anos 60 produziram muita rebelião, uma contra-cultura, mas que hoje a presença desse choque entre contra-cultura e conservadores é estéril. Assim como é estéril o choque puro e simples entre esquerda e direita. Evidentemente que existem algumas pessoas que tem mais condições de falar sobre isso do eu. Uma delas é o Barack Obama (presidenciável americano), que tem falado sobre a necessidade de superar essa discussão ideológica estéril. Ele tem mais condição do que eu por que ele era um menino em 1968. Eu fiquei com a etiqueta de 1968 colada no meu corpo. Mas por outro lado ele tem menos condição do que eu porque é candidato a presidente da República e é constantemente acusado de buscar o centro para obter mais votos. Eu observo aqui no Brasil a esterilidade de aprisionar o passado, referindo-me à esquerda, à direita, conservadores e contra-cultura. Os debates não avançam.
... É preciso encontrar pontes. E a força da contra-cultura, de seus temas e também as propostas da esquerda em confronto com as propostas da direita e conservadores nos leva a um debate que representa muito mais o passado do que as possibilidades que temos de explorar no futuro. É preciso dizer adeus a tudo isso. Eu gostaria que essa fosse a última vez que eu falasse de 1968. Eu gostaria de sepultar esse período para poder olhar para frente. Esse período, sob certos aspectos, dificulta o olhar para frente.
... Em 1968 eu era um jovem rebelde, o que nessa época fazia parte de um sentimento de mundo. Como eu, havia milhares nas ruas de São Paulo e de todas as cidades do planeta, e víamos o futuro sem medo algum; pelo contrário, nós éramos o futuro. Vivi num mundo em que as idéias progressistas, de esquerda, predominavam e prometiam grandes mudanças. E os jovens estavam na vanguarda dessas mudanças. Sabíamos que as coisas realmente podiam ser mudadas, não se tratava de megalomania: os vietnamitas acabaram derrotando os americanos; Cuba fez uma revolução e sobreviveu, está aí até hoje, mesmo com todos os problemas; os africanos conquistaram a independência; os operários franceses fizeram uma verdadeira transformação em seu país; o PCI acabou liderando uma reforma política, econômica, social e cultural na Itália. Não era utopia. No Brasil, o ano de 1968 foi um marco para todos nós, que o vivemos intensamente, ativamente. Mais do que um movimento contra a ditadura, foi um movimento pela defesa da educação pública e uma revolução cultural. A geração de 68 se misturou com o Cinema Novo, com a música popular, com as mudanças que estavam ocorrendo na arquitetura e nas artes plásticas brasileiras. E, mesmo tendo sido derrotados politicamente - a ditadura continuou firme por muitos anos -, nós mudamos a cara do país. Porque o movimento estudantil também foi música, teatro, cineclube... foi cultura, linguagem, criatividade e propostas inovadoras. Não dava mais para aceitar as idéias, a linguagem e a cultura que estavam atrás de nós; elas eram coisas muito velhas, de um Brasil que já estava morto. Vivíamos no Brasil urbano e industrial. Não existia mais aquele país que havíamos estudado na escola: essencialmente agro-exportador, baseado na produção agrícola e na indústria artesanal de consumo.
Para mim, o maior legado da geração de 68 é o cultural. Por exemplo, não apoiei a invasão da Tchecoslováquia porque era impossível aceitar aquilo. Por mais que ouvisse argumentos mais do que convincentes do ponto de vista marxista, ou socialista, achava que aquilo ia contra o espírito de liberdade e de criatividade da geração de 68. O espírito de aventura, de sonhar e acreditar que é possível fazer transformações. A geração de 68, quando rompeu com os padrões de comportamento cultural e com a estrutura autoritária da família, das relações empresariais, das relações políticas que existiam, e buscou combinar a mudança de comportamento com a luta pela liberdade, deixou uma contribuição extraordinária. Eu me considero privilegiado por ter sido um dos estudantes da geração de 68, por ter vivido em 1968".
(trechos da entrevista à Época)

O Verão de 1968


de Ruy Castro

Um ano inteiro de sol, antes que caísse a longa noite...

Bastou atravessar o túnel e 1967 ficou para trás, em Botafogo. Quando demos no outro lado, em Copacabana, a alguns segundos da meia-noite, os fogos de Ano Novo já estouravam por 1968. A idéia fora essa mesmo: sair do Solar da Fossa, onde todos morávamos, atravessar o Túnel Novo a pé, em turma, e ir para a praia, cujo réveillon consistia de uns poucos milhares que iam acender velas e jogar flores para Iemanjá; depois, caminhar entre os grupos de devotos na areia, ouvindo os tambores e cantos, e nos sentirmos superiores porque estávamos ali, com um pé na África, e não numa festa de família cheia de pais e tios quadrados.

Na verdade, aquela noite não tinha muita importância. Era só simbólica, tanto quanto a travessia do túnel ― porque, para todos os efeitos, 1968, ou pelo menos seu verão, já começara. E começara quase um mês antes, nos primeiros dias de dezembro, quando a chegada das férias desmobilizara o movimento estudantil e sustara temporariamente as passeatas contra a ditadura militar. A partir dali, e pelos dois ou três meses seguintes, poderíamos exercitar os radicalismos que fariam de 1968 o ano em que seríamos felizes para sempre ― e quase fomos.

Pouco antes, nos últimos dias de aula, só restara uma menina virgem em nossa turma de primeiro ano do curso de ciências sociais na Faculdade Nacional de Filosofia ― e ela, tão doce, frágil e bonita, com seus anéis de cabelo louro e enormes olhos verdes, não se conformava com isso. A pílula já era vendida em qualquer farmácia, a revolução sexual estava em ebulição e a virgindade feminina ― até um ou dois anos antes, uma obrigação ― se tornara um atraso, uma mancha no currículo de qualquer garota que se prezasse. Mas daquele verão não passaria, ela decidiu. Por coincidência, restara também na classe um rapaz bonito, calado, meio sem jeito ― e igualmente virgem. A menina era de uma rica e elegantérrima família carioca, famosa pelo mundanismo de seus membros; o rapaz era da elite paulistana, com um sóbrio sobrenome inglês, cheio de ww e kk. E assim, faute de mieux, os dois resolveram promover um com o outro suas estréias. Um colega emprestou o apartamento ― um quarto-e-sala na rua Senador Vergueiro, no Flamengo, quase sem móveis ― e, numa noite abafada, aqueles dois filhos da alta burguesia brasileira, que teriam direito a lençóis de linho, colchões de penas e núbios para abaná-los, fizeram amor num chão de tacos frouxos, sobre uma esteira de praia, certamente com restos de areia entre os trançados de palha. Isso já era 1968 na veia.

Poucos meses antes, Caetano Veloso e Gilberto Gil tinham se mudado do Solar e ido para São Paulo. Mas, sempre que no Rio, davam um pulinho até lá ― Caetano, de camisa da Marinha, com as fraldas para fora; Gil, gordo, com a cara redonda, de biscoito Aymoré, e chapeuzinho de couro. Iam visitar sua amiga Gal, que todos só chamavam de Gracinha e que continuava morando ali, e conferenciar com o artista gráfico Rogério Duarte, criador do cartaz de Deus e o diabo na terra do sol. Um dia cheguei da rua e encontrei Rogério no pátio, finalizando um desenho colorido. Era uma mulher nua em meio a um cenário de bananas, serpentes e dragões. Ele me disse que era para a capa de um disco de Caetano. Comentei que mais parecia uma capa do Almanaque Capivarol. Ele riu, concordou e disse que a idéia era essa mesmo ― tinha a ver com algo que estava sendo cozinhado na gravadora Philips, chamado tropicalismo. Rogério convidou-me a seu quarto no Solar e, de um aparelhinho de fita cassete (o primeiro que vi na vida), saíram metais estridentes e dramáticos, com arranjo de Rogério Duprat. De repente, "Sobre a cabeça os aviões/ Sob os meus pés os caminhões/ Aponta contra os chapadões meu nariz..." A impressão foi profunda e, até hoje, para mim, esta é uma das trilhas sonoras daquele verão.

Naquela noite de 31 de dezembro, enquanto virávamos o ano na areia, uma festa de réveillon na casa de um casal grã-fino no Jardim Botânico reuniu cerca de 1000 pessoas e serviu de trailer para tudo que se passaria em 1968. Dela resultaram quase vinte casamentos desfeitos, centenas de novas ligações amorosas e brigas cujas conseqüências ― cortes no rosto, rótulas esmagadas, corações em pedaços ― se prolongariam durante meses para os litigantes. E por que se brigou tanto? Porque, naquela festa, com os dois times pela primeira vez completos em campo, viu-se o choque da Nova Ordem contra a Velha Ordem. Aos primeiros minutos de 1968, ainda era chocante para alguns maridos que suas mulheres tivessem se tornado favoráveis ao casamento aberto ― e resolvido abri-lo ali mesmo, na festa, com homens que nem conheciam. Ou que homens e mulheres, que haviam levado a vida reprimindo seu homossexualismo, decidissem subitamente exercê-lo às claras, declarando-se a pessoas do mesmo sexo. Ou que pregações de violência política, já a favor da luta armada, se sobrepusessem aos conselhos dos moderados que ainda acreditavam na incrível aliança entre os ex-arquiinimigos Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart, formalizada pouco antes. O que havia no ar, no verão de 1968, para que, de repente, nada mais fosse como antes?

O que fazia com que, ao atravessar de novo o túnel, para assistir aos ensaios de Roda viva, que José Celso Martinez Corrêa estava dirigindo no Teatro Princesa Isabel, muitos de nós víssemos com a maior naturalidade a criação das cenas em que a platéia seria agredida pelos atores com postas de fígados sangrentos sendo esfregadas em seus rostos? E por que nossa surpresa quando, com a peça finalmente em cartaz, em janeiro, os espectadores se ofendiam com a agressão e fugiam do teatro espavoridos? Meses depois, quando o espetáculo se mudou para São Paulo, os órgãos de repressão invadiram o teatro e promoveram um massacre de verdade do elenco. Era a revanche da Velha Ordem.

Visto de hoje, parece incrível (e mais ainda para quem não o viveu), mas era como se, no verão de 1968, houvesse uma certeza de que estávamos às portas de um ano como nunca houvera. Naqueles meses, eu era repórter da revista Manchete, mas já tinha um convite de Paulo Francis para voltar a trabalhar com ele no Correio da Manhã. Meu último trabalho para Manchete foi no comecinho de março ― uma longa e deliciosa entrevista com Tom Jobim no bar Veloso, em Ipanema, enquanto no mesmo momento, a alguns quilômetros dali, o estudante Edson Luiz era morto pela polícia no Calabouço, que era um albergue para rapazes pobres como ele. Por causa desse episódio, a Velha Ordem recuou e a Nova Ordem se impôs, culminando, em junho, com a Passeata dos 100 Mil, o maior ato até então contra a ditadura. Pelo segundo semestre, a ilusão de liberdade nos fez crer que o verão se prolongaria por todo o resto do ano e ― esperávamos ―, ao emendar com o verão seguinte, acordaríamos finalmente na democracia.

Mas, na noite de 13 de dezembro de 1968, a Velha Ordem voltou à cena, e mais feroz do que nunca. Os militares implantaram o Ato Institucional no. 5, suspenderam as garantias civis, fecharam o Congresso, prenderam um mundo de gente e acabaram com a nossa festa. Por ordens superiores, baixou a noite, fez frio, caiu garoa e, com isso, não deu praia no dia seguinte e nem tivemos o verão de 1969".

(Ruy Castro tinha 19 anos, era estudante e já jornalista. Morava no Solar da Fossa, um casarão em Botafogo, no Rio, onde também viviam os jovens Paulinho da Viola, Abel Silva, Ítala Nandi, Betty Faria e outros, todos duros, românticos, boêmios e relativamente anônimos)

fevereiro 02, 2008

A amadora arte de viajar


Consta que o termo “turismo” se popularizou a partir das viagens do poeta inglês lorde Byron há quase 200 anos, quando ele era um jovem parlamentar, estava enjoado de Londres e decidiu fazer “tours” pelo Velho Continente. Foi para Portugal, Espanha, Malta, se apaixonou por mulheres e homens, seguiu para Grécia e Albânia; decidiu passar mais tempo na Grécia e conheceu a Turquia também. Nesse período, de 1808 a 1811, escreveu poemas como Childe Harold que definiram o movimento romântico, por seu misto de melancolia e ilusão, por sua crítica aos desdobramentos da civilização e sua entrega à sensualidade e tolerância que via no Mediterrâneo.

Tudo que fez depois foi marcado por essa peregrinação solar. Ele ainda casaria duas vezes, se envolveria com Shelley, moraria um tempo em Veneza. Mas sua busca era por aquela sensação de idílio juvenil que jamais seria recuperada, mesmo no período em que, morando na Toscana, embebido em sua vida italiana, escreveu Don Juan. Tanto que, mais tarde, de volta a Londres, decidiu defender a causa grega contra os turcos e foi participar da invasão da fortaleza de Lepanto, onde se feriu gravemente. Bonito e epiléptico, acabou morrendo na Grécia, como herói nacional, com apenas 36 anos. Os turistas não sabem, mas a sombra de Byron paira acima de todos os 840 milhões de deslocamentos feitos a cada ano – um número que não pára de crescer.

“Turismo é coisa de gentinha”, escreveu Millôr Fernandes, provavelmente depois de se deparar com uma dessas hordas de americanos ou japoneses ou brasileiros com máquinas fotográficas, sacolas e um permanente olhar de espanto, como que surpreendidos e ameaçados pela variedade e complexidade do mundo. Mas o problema não é só esse turismo fast-food, essas viagens e excursões que parecem feitas para dizer que foram feitas – para contar aos íntimos, na volta, que você andou de gôndola ou subiu na Estátua da Liberdade, mesmo que tenha ficado meros dois dias em Veneza e confundido Nova York com Miami. Por trás de tudo isso há o espectro do romantismo, a idéia de que estar nesses lugares fará de você outra pessoa, a expectativa de que mudanças se dão magicamente como Byron em seu “santuário”.

Por mais que queiram escapar ao lar, resta uma vontade de voltar rápido a ele, por isso o turista parece sempre tenso e ansioso. É como se toda rotina precisasse dessas fugas e refúgios para depois se fortalecer ainda mais. Nesse jogo de compensação, quem fica de fora é exatamente o conhecimento, a imersão mais lenta porém mais duradoura num ambiente estranho que, muitas vezes, pode até parecer estranhamente familiar. Acho curioso que as pessoas viajem para os lugares com nada além de algumas informações genéricas ou utilitárias que qualquer guia de bolso ou matéria de jornal traz. E que, uma vez ali, não façam pelo menos duas coisas fundamentais: ler a imprensa local, para não dizer a literatura; e andar a esmo, flanar, como a chutar pedrinhas pelas ruas. (Todo bom viajante é um chutador de pedrinhas imaginárias.)

Ler e caminhar, ambos sem muita “objetividade”, fazem a diferença entre o bom e o mau turista. É com olhos livres e sapatos gastos que se faz uma viagem marcante. Não basta visitar os lugares manjados e comer os pratos típicos; é preciso estar aberto ao novo, correr os riscos, ter a paciência de não sair catalogando o que vê como “maravilhoso” ou “decepcionante” e nada mais. Outra coisa: não se visitam países, mas cidades e regiões; o mundo não cabe num roteiro de “lugares para conhecer antes de morrer”. Também não vejo sentido em não alternar o estilo de viagem, das mais sofisticadas às mais rústicas, das mais próximas às mais distantes, das mais breves às mais longas. Certa hierarquia é necessária, mas os acasos – viagens para países que não eram prioridade, mudanças de rotas decididas no último instante – devem sempre ser bem-vindos, porque o inesperado é o ingrediente mais importante de qualquer viagem. Agora, voltar a um lugar que se conhece é essencial, como reler um livro que nos absorveu.

Se viajar é uma arte, como disse Alain de Botton, somos todos amadores nela. O bom de viajar não é nem ir nem voltar, é poder ir. É saber que se é livre para escolher entre tantas alternativas, mesmo que se escolha mal ou se prefira “viajar à roda do quarto”, feito o outro. O único pecado que um viajante pode cometer é ficar parado.
fonte: O Estado de São Paulo

fevereiro 01, 2008

2008 - Centenário de Machado de Assis


Quem era Machado de Assis no século 19?
Um grande poeta, homem de teatro e crítico, que também se dedicou à crônica, ao conto e ao romance, mantendo em seus escritos uma postura indiferente às grandes questões do seu tempo.
Quem é Machado de Assis hoje?
O maior contista e romancista brasileiro do século 19, não só profundamente interessado pelas questões do seu tempo e lugar, mas talvez o mais agudo e radical crítico das instituições sociais e políticas do Brasil do Segundo Reinado.
Colaborou com jornais e revistas e participou ativamente dos círculos literários. Segundo os entendidos teria "antecipado na sua escrita procedimentos das vanguardas do século 20, se é que não foi um pós-moderno avant la lettre.
Entre aquele escritor alienado e retrógrado do século 19 e o escritor engajado e quase "vanguardista" de algumas leituras de hoje, os críticos procuram entender esse fenômeno improvável no acanhado ambiente literário e cultural do Brasil.

BOA NOTÍCIA
Como parte da homenagem ao escritor Machado de Assis, a Fundação Casa de Rui Barbosa promoverá um ciclo de palestras e lança site, concebido e construído por uma equipe de pesquisadora, técnico em informática e bolsistas de iniciação científica da instituição.
A pesquisadora Marta de Senna teve a idéia de criar uma obra de referência em que fosse fácil para o leitor de hoje encontrar informação sobre as inúmeras alusões que o escritor , em seus romances e contos, a outros autores, à Bíblia, a personagens históricas, à mitologia, a diferentes tradições culturais. No www.machadodeassis.net, o internauta encontra, além do banco de dados propriamente dito, uma biografia resumida do escritor e uma bibliografia básica.

Como dar conta de tantos livros?


Eis um drama universal !
Acumular dezenas de livros não lidos sem perder a pose nem o desejo de comprar outros é um dos apanágios dos ilustrados. Mesmo quem lê muito rápido, sofre com o acúmulo de livros ao seu redor.
Desde que comecei este blog tenho lido menos. Nestes tempos de leituras interrompidas ou inexistentes, me deparo com o livro Comment Parler des Livres que l' on n' a pas Lus?
Poder falar sobre livros que não lemos talvez seja um sonho mais disseminado que o de ter lido todos os livros importantes publicados até hoje.
Seu autor, Pierre Bayard de insincero não pode ser acusado. No prefácio admite ler pouco, por falta de tempo e interesse, e confessa ter dado aulas e palestras sobre obras em que nunca pôs os olhos. E vai além, se diz “...investido da missão de salvar a humanidade das profundas neuroses semeadas pelo fetiche livresco....”. Vale dizer, do sentimento de culpa e humilhação que costuma afligir os que - como eu - não leram os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, os 17 tomos da Comédia Humana, de Balzac; as quase mil páginas de Ulisses, de James Joyce; as 800 páginas de A Montanha Mágica, de Thomas Mann; as quase 400 páginas de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; as mais de mil páginas de Guerra e Paz, de Tolstoi , dentre outros
A seus alunos (e também aos filhos), Bayard ensinou a sua "prática indisciplinada da leitura": primeiro, examinar a capa e a lombada do livro; depois, ler a primeira frase, passar os olhos nas passagens cruciais, e monitorar tudo o que a seu respeito é dito e publicado" .
A cultura, segundo ele, não depende apenas (ou nada) do que podemos apreender de um livro em particular, mas da capacidade de "situar"o livro num contexto de relações com outros livros.
Não se trata de um elogio da não-leitura, mas sim de uma espécie de conhecimento “secreto” a respeito do que vale a pena ser lido, quando, e como...
Com esta postagem, pondo em prática os seus ensinamentos, vivo a experiência de falar de um livro que não li!

janeiro 31, 2008

Apedrejamento


Não tem como não registrar neste espaço uma notícia que, embora recorrente, sempre me estarrece: nove mulheres e dois homens, no Irã, foram condenados e aguardam o momento de serem mortos por apedrejamento.
A acusação? Eles teriam cometido adultério.
Nos últimos 2 anos, vários casos de iranianos apedrejados até a morte foram reportados. Dentre eles, encontra-se o nome de Ja'far Kiani, que foi lapidado em 5 de julho de 2007 no povoado de Aghche-kand, na província de Qazvin (a foto é do local da lapidação). Ja'far foi acusado de ter cometido adultério com Mokarrameh Ebrahimi. Detalhe: o casal já havia tido dois filhos juntos. Mas isto não impediu que as autoridades iranianas decidissem pela desumana execução.
Mokarrameh, que encontra-se atualmente detida na prisão de Choubin, é a próxima da fila.

janeiro 30, 2008

Além de tudo, o sono


Sempre que estou planejamento viajar com alguém pela primeira vez, surge o problema do sono. Insistem em que "o normal é dormir oito horas por noite". Há algum tempo, tal afirmação foi definitivamente derrubada. De maneira bastante grosseira, poderíamos dizer que a humanidade se divide em dois grandes grupos em relação ao padrão de sono: "os que dormem com as galinhas" e os "que dormem ao amanhecer". Além dessa particularidade, as horas necessárias para garantir um sono reparador também variam entre as pessoas e seguem um padrão familiar, geneticamente modulado, conforme já concluíram os estudiosos. Assim, há pessoas que se deitam às 21h00 e se levantam às 04h00 prontas para enfrentar um árduo dia de trabalho com plena disposição. Por outro lado, há aquelas pessoas que se deitam à meia-noite e se levantam ao meio-dia completamente estafadas, como se precisassem (e precisam) de mais duas horas de sono, pelo menos.Tenho um amigo assim. A resposta para essas diferenças parece ter sido encontrada, pelo menos em parte. Trata-se de um gene. (vide www.nature.com/news/2007/070108/full/070108-9.html).
Assim, ao arrumar um (a) parceiro(a), para uma viagem ou para a vida, certifique-se do seu padrão de sono para não cair na canção do Chico..."O nosso amor é tão bom/O horário é que nunca combina/Eu sou funcionário/Ela é dançarina/Quando pego o ponto/Ela termina".

janeiro 29, 2008

Propósitos e liberdade


Desde que nascemos e a nossa vida começou, não há mais nenhum ponto zero possível. Não há como começar do nada. Talvez seja isso o que torna tão difícil cumprir propósitos de Ano Novo. E, a bem da verdade, o que dificulta realizar qualquer novo propósito, em qualquer tempo.
O passado é como argila que nos molda e a que estamos presos, embora chamados imperiosamente pelo futuro. Não escapamos do tempo, não escapamos da nossa história. Somos pressionados pela realidade e pelos desejos. Como pode o ser humano ser livre se ele está inexoravelmente premido por seus anseios e amarrado ao enredo de sua vida? Para muitos filósofos, é nesse conflito que está o problema da nossa liberdade.
Alguns tentam resolver esse dilema afirmando que a liberdade é a nossa capacidade de escolher, a que chamam livre-arbítrio. Liberdade se traduziria por ponderar e eleger entre o que quero e o que não quero ou entre o bem e o mal, por exemplo. Liberdade seria, portanto, sinônimo de decisão.
Prefiro a interpretação de outros pensadores que nos dizem que somos livres quando agimos. E agir é iniciar uma nova cadeia de acontecimentos, por mais atrelados que estejamos a uma ordem anterior. Liberdade é, então, começar o improvável e o impensável. É sobrepujar hábitos, crenças, determinações, medos, preconceitos. Ser livre é tomar a iniciativa de principiar novas possibilidades. Desamarrar.
Abrir novos tempos.
Nossa história e nosso passado não são nem cargas indesejadas, nem determinações. Sem eles, não teríamos de onde sair, nem para onde nos projetar. São heranças e pontos de orientação. Sem passado e sem história, quem seríamos? Mas não é porque não pudemos (fazer, falar, mudar, enfrentar...) que jamais poderemos. Nossa capacidade de dar um novo início para as mesmas coisas e situações é nosso poder original e está na raiz da nossa condição humana. É ela que dá à vida uma direção e um destino. Somos livres quando, ao agir, recomeçamos.
Somos livres sem querer.
Mesmo inconscientes e involuntários, nossos gestos e palavras sempre destinam nossas vidas para algum lugar. A função dos propósitos é transformar esse agir, que cria destinos, numa ação consciente e voluntária. Sua tarefa é a de romper com a casualidade aparente da vida e apagar a impressão de que uma mão dirige nossa existência.
Os propósitos nos devolvem a autoria da vida. Garantem nossa liberdade, mas, paradoxalmente, não podem garantir a sua própria realização. Coisas da liberdade, que pode nos destinar a novos propósitos.

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DULCE CRITELLI, terapeuta existencial e professora de filosofia da PUC-SP

LA SEINE

Desde sempre a alma francesa flutua nas suas águas.
Dizem que uma simples olhada para o rio em Paris revela o que está acontecendo na França: se não transborda no Ano Novo é porque os fazendeiros sofreram com a seca, se em abril corre rápido, está alto e cor de chocolate é porque a temporada de esqui foi excelente, se as barcaças estão carregadas de cascalho, a construção civil está em alta. Quando a França está alegre o Sena é o palco das comemorações e dos fogos de artifício. Pode-se avaliar a leva de turistas contando as cabeças nos bateaux-mouches. O modo como a polícia começou a pilotar as lanchas de patrulha, foi o termômetro para se saber o quanto a França estava viciada nos seriados americanos.

Como era de se esperar, a França tem um Dictionaire Etymologique des Noms de Rivières et de Montagnes onde se encontram onze linhas para dizer, resumidamente, que ninguém sabe muito bem, mas Seine teria evoluído de uma palavra gaulesa que significava coleante, ou tranqüilo, ou ambos.

O Sena é mais que lindo!!!. Inspira poetas e impressionistas, mas é também a personagem principal da vida de 10 milhões de pessoas, na medida em que 3/4 da água potável dos parisienses vem dele e nele se esvaem a grande parte de seus venenos industriais e esgotos.

Conhecer bem Paris, tem de começar pelo Sena. Connaître, sugere uma familiaridade que afeta a alma.Para ter isto em Paris, você precisa de algum tempo junto ao Sena.Deve-se começar uma caminhada (isto mesmo, a pé) pela Petit Pont, ali próxima da Notre Dame. Um pouco mais abaixo, a melhor vista de todas fica na Pont des Arts , uma ponte para pedestres (a minha preferida) que sai do Institut de France, sede da glória literária, e vai até o Louvre, o templo da arte.

Nada traduz melhor Paris e o Sena como a Île de Saint-Louis, possivelmente a ilha mais linda do mundo. É certo que os gostos variam muito. Antes de fazer sua lista, faça um passeio por suas ruas numa manhã de domingo, quando as lojas já abriram mas as multidões ainda não chegaram. Vai ficar sabendo do que estou falando...

Paris num domingo, quando as flores estão acordadas e os parisienses ainda dormem é de uma beleza paralisante.
Cada tulipa vermelha parece uma pincelada cuidadosa numa tela gigantesca. Andar de uma ponte para outra saboreando cada detalhe da paisagem, pela Rive Gauche alcançar a Pont d’ Iena e olhar para trás: a cidade, ainda quase deserta e maravilhosa, amanhecendo sob uma luz cor de rosa que, até então, não acreditava existir!

Foi assim que a vi pela primeira vez. De tão deslumbrada, me esquecera de que estava na Cidade Luz e que a rayonnement dos franceses emana exatamente dos rosas, laranjas e dos lampejos cintilantes do sol refletidos no Sena.

Com o tempo, a gente vai descobrindo alguns segredos. Como em relação à França, o truque é não olhar para o rio muito de perto. Dar alguns passos para trás, deixar a lenda e o romance turvarem a realidade transformando-a num vôo impressionista. É uma experiência que não se repete em nenhum outro lugar. Quando o sol começa a descer, um bom lugar para sentir isto é perto da Tour Eiffel ou no Les Invalides, onde há bastante espaço aberto na água para refletir os tons de rosa e de laranja. Ao escurecer, na Pont Sully as luzes do quai viram ouro na canal encrespado por todos os tipos de hélice.

Dia e noite, vêem-se barcos cheios de turistas. Uma tentação a qual não se deve resistir é embarcar num bateau-mouche , para se convencer de que, realmente, a história da França aconteceu au bord de la Seine... Têm esse nome desde que os primeiros barcos, construídos em Lyon, no século passado, tinham motores que zumbiam feito as moscas do rio, mouches.

Por dois mil anos o Sena foi o canal alimentar de uma nação que leva sua alimentação a sério. Os grãos iam rio acima, carregamentos de vinho rio abaixo.
Hoje viajam pelas estradas e ferrovias , mas as peniches ainda passam a intervalos regulares. Cada uma traz pintado na proa um nome (talvez o de quem seu dono gosta ou deseja) e, embora parecidas, trazem alguns toques particulares: uma mulher com um vestido que já foi muito lavado, varre o convés; um carro pequeno ocupa o convés de popa ou o vento que acaricia as pétalas de gerânio num vaso....
Se o Sena tem um biógrafo, é Monet. O rio foi por ele retratado, desde o estuário até a periferia de Paris. Escritores não chegaram nem perto de fazer isto no papel. Flaubert viveu à margem do Sena a vida inteira, Hugo e Zola passavam anos em diferentes partes dele. Nenhum dedicou ao rio mais do que papéis de figurante em seus romances. Maupassant fez o melhor que pôde. Num diário descreve como ficou espantado ao observar Monet pintando:
“ Eu o vi capturar um jorro cintilante de luz e prendê-la num mar de fogos amarelos “ .

O poder do rio está no feitiço que ele cria. Anos atrás um escritor perguntou para um clochard que estava embaixo da ponte por que tantos mendigos acampavam naquele lugar. – Nós nos sentimos mais em casa, aqui – respondeu ele.
Os sonhos têm mais distinção.
Atualmente, uma Paris inesperada surge quando a olhamos mais de perto. Desabrigados amontoam-se e não são os famosos clochards (vagabundos adoráveis que esmolavam trocados, como estilo de vida). São gente perdida de uma sociedade que caminha para a crise e o naufrágio econômico e que se agarra à vida com unhas e dentes. Pichações visíveis do rio revelam atitudes que evoluem para um novo niilismo....

Fragmentos da vida


Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido…
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida…

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma…
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infãncia pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver…

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir…

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!…

Álvaro de Campos

janeiro 28, 2008

NO VERÃO DE 1808


200 anos atrás, um espetáculo inédito desenrolou-se sob os olhos incrédulos dos moradores do Rio de Janeiro. No começo da tarde de um dia ensolarado, a esquadra do príncipe regente D. João e a família real portuguesa entrou na baía de Guanabara, fugindo das tropas do imperador francês Napoleão Bonaparte. Um vento forte soprava do oceano para aliviar o calor sufocante. Depois de três meses e uma semana de viagem, centenas de nobres e ilustres passageiros se comprimiam na amurada dos navios para contemplar o soberbo espetáculo que se desdobrava diante de seus olhos: uma cidadezinha de casas brancas, alinhadas rente à praia, debruçada às margens de uma baía de águas calmas emoldurada por altíssimas montanhas de granito cobertas pela floresta luxuriante.
Começava ali o mais notável período de transformações no Rio de Janeiro. A chegada da corte foi o encontro de dois mundos até então estranhos e distantes. De um lado, uma monarquia européia, envergando casacas de veludo, sapatos afivelados, meias de seda, perucas e galardões, roupas pesadas e escuras demais sob o sol escaldante dos trópicos. De outro, uma cidade colonial e quase africana, com dois terços da população formada por negros, mestiços e mulatos, repleta de traficantes de escravo, tropeiros, negociantes de ouro e diamantes, marinheiros e mercadores .
Na verdade, o Brasil não existia 200 anos atrás. Pelo menos, não como é hoje: um país integrado, de fronteiras bem definidas e habitantes que se identificam como brasileiros. O Brasil era apenas uma grande fazenda extrativista de Portugal, sem nenhuma noção de identidade nacional. Nem mesmo a expressão "brasileiro" era reconhecida como sendo a designação das pessoas que nasciam no Brasil.
Tudo isso mudaria com a vinda da corte. Coube a D. João e seu ministério criar uma nação a partir do nada. As novidades começaram a aparecer num ritmo alucinante e teriam grande impacto no futuro do país. As decisões mais importantes foram a abertura dos portos e a concessão de liberdade de comércio e indústria manufatureira no Brasil que representavam, na prática, o fim do sistema colonial.
A cidade que acolheu a família real portuguesa era uma esquina do mundo, na qual praticamente todos os navios que partiam da Europa e dos Estados Unidos paravam. Protegidas do vento e das tempestades pelas montanhas, as águas calmas da baía de Guanabara serviam como abrigo ideal para reparo das embarcações e reabastecimento de água potável, charque, açúcar, cachaça, tabaco e lenha. Era também o maior mercado de escravos das Américas. Seu porto vivia congestionado de navios negreiros que atravessavam o Atlântico, vindos da África.
O príncipe regente iria morar num palácio amplo e agradável, situado no atual bairro de São Cristóvão, perto de onde ficam hoje o morro da Mangueira e o estádio do Maracanã. Sua mulher, a princesa Carlota Joaquina, de quem vivia separado, preferiu ficar numa chácara na praia de Botafogo. Mais complicado foi encontrar habitação para os milhares de acompanhantes da corte, recém-chegados à cidade que ainda era relativamente pequena.
Com a chegada da família real, a área urbana triplicou com a criação de novos bairros e freguesias. A população dobrou e o número de escravos triplicou, de 12 mil para 36 182. O tráfego de animais e carruagens ficou tão intenso que foi preciso criar leis para discipliná-lo. A criminalidade atingiu índices altíssimos. A maioria da população andava armada e pouca gente se arriscava a sair sozinha à rua depois do anoitecer. A tarefa de colocar alguma ordem no caos foi confiada por D. João ao advogado Paulo Fernandes Viana. Desembargador e ouvidor da corte, carioca, formado pela Universidade de Coimbra, foi nomeado intendente-geral da polícia. Era "um agente civilizador" dos costumes no Rio de Janeiro. Cabia a ele transformar a vila colonial, provinciana, inculta, suja e perigosa em algo mais parecido com uma capital européia, digna de sediar a monarquia portuguesa. Sua missão incluía aterrar pântanos, organizar o abastecimento de água e comida e a coleta de lixo e esgoto, calçar e iluminar as ruas usando lampiões a óleo de baleia, construir estradas, pontes, aquedutos, fontes, passeios e praças. Ficou também sob sua responsabilidade policiar as ruas, expedir passaportes, vigiar estrangeiros, fiscalizar as condições sanitárias dos depósitos de escravos e providenciar moradia para os habitantes que a cidade recebeu com a chegada da corte.
O primeiro jornal publicado em território nacional, a Gazeta do Rio de Janeiro, começou a circular em 10.09.1808, impresso em máquinas trazidas ainda encaixotadas da Inglaterra. Ler os anúncios publicados na Gazeta é uma forma divertida de observar a sofisticação dos hábitos da população carioca naquela época. Esses primeiros anúncios tratam de aluguel de cavalos e carroças, venda de terrenos e casas e alguns serviços básicos, como aulas de catecismo, língua portuguesa, história e geografia.
O tom e o conteúdo dos anúncios mudam de forma radical, a partir de 1810. Em vez de casas, cavalos e escravos, assam a oferecer pianos, livros, tecidos de linho, lenços de seda, champanhe, água-de-colônia, leques, luvas, vasos de porcelana, quadros, relógios e uma infinidade de outras mercadorias importadas: bijuteria, chapéus para senhoras, livros franceses, vestidos e enfeites de senhoras modernas, cheiros de todos os gêneros, pêndulos, espingardas e leques.
A indumentária e os novos hábitos transplantados pela corte eram exibidos nas noites de espetáculo do teatro São João ou nas missas de domingo. Nessas ocasiões, um símbolo indiscutível de status era o número de escravos e serviçais que acompanhavam seus senhores. Os mais ricos e poderosos tinham as maiores comitivas e faziam questão de exibi-las como símbolo de sua importância social.
Quando a corte retornou para Portugal, em 1821, um novo país estava pronto para caminhar sem a tutela portuguesa.
Veio a independência, em 1822.