janeiro 19, 2008

Hay que buscarse un amante.


Procura-se um amante!
Dr. Jorge Bucay

Muitas pessoas têm um amante e outras gostariam de ter um.
Há também as que não têm, e as que tinham e perderam.
Geralmente são essas últimas as que vêem ao meu consultório para me contar que estão tristes ou que apresentam sintomas típicos de insônia, apatia, pessimismo, crises de choro ou as mais diversas dores.
Elas me contam que suas vidas transcorrem de forma monótona e sem perspectivas, que trabalham apenas para sobreviver e que não sabem como ocupar seu tempo livre.
Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente perdendo a esperança.Antes de me contarem tudo isto, elas já haviam visitado outros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme: "Depressão", além da inevitável receita do anti-depressivo do momento.
Assim, após escutá-las atentamente, eu lhes digo que elas não precisam de nenhum antidepressivo; digo-lhes que elas precisam de um AMANTE!
É impressionante ver a expressão dos olhos delas ao receberem meu conselho.Há as que pensam: "Como é possível que um profissional se atreva a sugerir uma coisa dessas?! "
Há também as que, chocadas e escandalizadas, se despedem e não voltam nunca mais.
Àquelas, porém, que decidem ficar e não fogem horrorizadas, eu explico o seguinte: AMANTE é "aquilo que nos apaixona".
É o que toma conta do nosso pensamento antes de pegarmos no sono e é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir.
O nosso AMANTE é aquilo que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida.
Às vezes encontramos o nosso amante em nosso parceiro, outras, em alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis.
Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no esporte, no trabalho, na necessidade de transcender espiritualmente, na boa mesa, no estudo ou no prazer obsessivo do passatempo predileto...
Enfim, é "alguém" ou "algo" que nos faz "namorar" a vida e nos afasta do triste destino de "ir levando".
E o que é “ir levando?” Ir levando é ter medo de viver.
É o vigiar a forma como os outros vivem, é o se deixar dominar pela pressão, perambular por consultórios médicos, tomar remédios multicoloridos, afastar-se do que é gratificante, observar decepcionado cada ruga nova que o espelho mostra, é se aborrecer com o calor ou com o frio, com a umidade, com o sol ou com a chuva.
Ir levando é adiar a possibilidade de desfrutar o hoje, fingindo se contentar com a incerta e frágil ilusão de que talvez possamos realizar algo amanhã. Por favor, não se contente com "ir levando"; procure um amante, seja também um amante e um protagonista da SUA VIDA...
Acredite: o trágico não é morrer; afinal a morte tem boa memória e nunca se esqueceu de ninguém. O trágico é desistir de viver; por isso, e sem mais delongas, procure um amante.
A psicologia, após estudar muito sobre o tema, descobriu algo transcendental:


"PARA SE ESTAR SATISFEITO, ATIVO E SENTIR-SE JOVEM E FELIZ, É PRECISO NAMORAR A VIDA”.

Isabel Allende - Afrodite


Afrodite : contos, receitas e outros afrodisíacos
O apetite de Isabel Allende

Depois de se arrepender de todas as guloseimas que rejeitou por vaidade e as oportunidades de fazer amor que rechaçou por atitude puritana ou outros compromissos, a escritora chilena Isabel Allende tenta se redimir com seu livro Afrodite: contos, receitas e outros afrodisíacos. A escritora, famosa por romances como A casa dos espíritos e De amor e de sombras, muito bem aceitos pelo público, conta as coisas que aconteceram em sua vida de nômade com doses cavalares de fantasia. E assim, em suas obras, desfilam avós etéreas que se comunicam com fantasmas, tias virando anjos e tios que decidem que é melhor ser faquir, dentre outras personagens, que seriam membros de sua família.

Mas o Afrodite é meio diferente. Depois de um longo período de luto pela morte de sua filha Paula, Isabel foi retirada de seu casulo de tristeza por uma série de sonhos estranhos, em que nadava em piscinas cheias de arroz con leche ou comia Antônio Banderas bem temperado e enrolado em uma tortilla mexicana. Decidiu-se então por um exorcismo diferente, nesse delicioso apanhado de contos, curiosidades e receitas, com sua escrita agradável unindo apetite e sexo, segundo ela os responsáveis por propagar e preservar a espécie e provotar cantos e guerras.
Pesquisas primorosas sobre o tema resultaram em descrições de aromas e sabores de uma infinidade de alimentos que são, ou já foram, considerados responsáveis pelo aumento do desejo. Explicações minunciosas sobre o uso de ervas e um bom punhado de dicas (que podem ser divertidas e fáceis ou impraticáveis) transformam o livro num interessante manual para amantes da gastronomia e do erotismo.
Mesmo afirmando que o único afrodisíaco infalível é o amor, Isabel consegue que o livro sozinho acenda os desejos, uma bonita ponte entre gula e luxúria, os dois pecados mais tipicamente brasileiros entre os sete (isso descontando a preguiça, que já é outra história). E no caso de a quantidade de informações confundir as cabeças por aí, deve-se aproveitar o conselho que a escritora recebeu de sua mãe, Doña Panchita, para resolver as emoções que o livro faz aflorar: melhor correr para um psiquiatra ou um cozinheiro. É provável que o segundo se mostre muito mais útil.





"...o único afrodisíaco verdadeiramente infalível é o amor. Nada consegue deter a paixão. Não importam os achaques da existência, o furor dos anos, o envelhecimento físico ou a mesquinhez das oportunidades - os amantes dão um jeito de se amarem porque, por definição, esse é o seu destino."

"Arrependo-me dos pratos deliciosos rejeitados por vaidade, tanto como lamento as oportunidades de fazer amor que deixei passar para me dedicar a tarefas pendentes ou por virtude puritana", já que a " sexualidade é um componente da boa saúde, inspira a criação e é parte do caminho da alma... Infelizmente, demorei trinta anos para descobrir isto".

"Não sei, o que acontece com os homens, mas com as mulheres nenhum afrodisíaco tem serventia sem o ingrediente indispensável da simpatia que, em seu estado de perfeição, é amor. Espero que não me falte no futuro. E quando não puder mais fazer amor, não por indiferença minha, mas por que é difícil encontrar quem deseje fazê-lo com uma bisavó, espero continuar desfrutando pelo menos da comida e das recordações ..."

Curiosidades:
(colhidas aqui e ali)

A OSTRA contém zinco que, segundo consta, aumenta a produção de testosterona. Casanova era fã das ostras: comia 50, todas as manhãs, na banheira, em companhia da mulher em quem estava interessado no momento.

MAÇÃ, símbolo máximo da tentação desde que Eva seduziu Adão, tem propriedades estimulantes. Sua fama entre os rituais eróticos e de sedução é universal, era usada em inúmeras poções mágicas, filtros de amor e encantamentos.

A UVA é uma fruta associada ao prazer, à fertilidade, a Dinonísio (Baco), Príapo e todos os deuses alegres existentes em todas as tradições. Dionísio não era apenas o deus do vinho mas também da fertilidade e da procriação. Atribui-se propriedades estimulantes as uvas não fermentadas e, além disso, eram presença obrigatória em orgias e bacanais na Grécia.
AMÊNDOA é uma semente fundamental na culinária árabe pois é considerada um dos ingredientes mais sensuais, associada à paixão e à fertilidade.

O MORANGO, essa fruta delicada, de cor intensa, é presença fundamental nos rituais de sedução - melhor se acompanhados de champanhe. Também ficam saborosíssimos com chocolate.

PÊSSEGO e DAMASCO são consideradas frutas sensuais principalmente pelo seu perfume, sua textura suave e suculenta e sua cor. O pêssego tem sua origem na China, onde é cultivado há mais de dois mil anos. Segundo o Feng-shui, a cor pêssego estimula os sentidos e o fruto, a luxúria.

Na espera do amanhã


Affonso Romano de Sant'Anna

Vou dizer uma coisa banal: sem o mito do amanhã não existiríamos. Digo e assumo essa fundamental banalidade. Não fora o amanhã secaríamos à beira dos caminhos. O amanhã é que fermenta o hoje, que fermenta o ontem.Por que migram as aves sobre os oceanos?Por que os peixes sobem cachoeiras procurando as nascentes do futuro?Os animais, aves e insetos ao redor, nos dão lição de aurora.
Ganhei duas crisálidas de borboletas.Aprendi a ver nesses casulos as asasque se desenharão em algum céu.Seguro nas mãos essas formas vivas disfarçadas de vegetal.Imagino o futuro dessas células.Mas tal imaginação não é privilégio só meu. No meu quarto, dependuradas num vaso de samambaia, duas crisálidas me contemplam a mim. Elas sabem, mais que eu, a que horas duas estupendas borboletas sairão do útero do tempo para esbaterem contra as vidraças do dia. A trepadeira no terraço, que avança dois-três centímetros cada jornada, seguindo o fio de náilon do tempo, me ensina a direção das coisas. O vento sopra pelas costas de suas folhas e ela navega verde na pilastra como uma caravela reinventando seu concreto mar. O suicida é o que decretou a morte do amanhã. O idealista é o viciado que toma o amanhã nas veias, aspira-o, esfrega-o nos olhos e gengivas. No entanto, dizemos: "está difícil", "a vida está dura”, "assim não é possível", "esse país não tem mais jeito", mas no dia seguinte, amarfanhados, caminhamos junto ao mar para saudar a aurora.
Sábia é a natureza, nos dizem. Olhai os lírios do campo, eles passam a vida tecendo e fiando a manhã. E o jardineiro que parece um perverso podador, tão-somente antecipa a floração da vida com suas lâminas de dor.
Em busca do amanhã as cobras perdem sua pele. Penas caem na muda da plumagem airosa dos airões. Cães ladram pressentindo o terremoto, que os homens sequer percebem. Os cães, quando uivam para a Lua, estão à sua maneira saudando o cio das madrugadas.
Em busca do amanhã uma nave passou por Marte e segue rumo a Urano. Alguns pré-videntes já estão legislando a constituição do amanhã.E se acabarem com o amanhã aqui, ele continuará com outros seres menos ferozes em outras galáxias, mais humanas, talvez.É assim que Penélope tecia e destecia seu amor nos fios da madrugada esperando Ulisses atracar na enseada.É assim que Sísifo - o mais otimista dos deuses condenados - sempre rolava montanha acima a pedra que sempre rolava montanha abaixo.É assim que Fênix - a fabulosa ave queimada nos desertos da Arábia- renascia das próprias cinzas e cantava transfigurada.
Deus é o renovado amanhã.
O que fazem os amantes pelos bares e praias, junto às árvores de noturnas ruas e nos leitos secretos, senão cumprir o ritual de crença no amanhã. E o ano mais uma vez termina. E estamos comendo e bebendo as horas que faltam eansiando por um novo dia. Também são assim os primitivos, quando celebram o potlach. Vão destruindo os objetos, as memórias que ficaram para reinaugurarem um ano novo.
Oh, amanhã!
Os que vão viver te saúdam.
Affonso Romano de Sant'Anna

Mistérios Gozosos



Uma coisa especial ocorre com a mulher depois que ama.
Reparem, estou dizendo: depois que ama.
Não estou me referindo a ela enquanto está no ato do amor.
Disto se pode falar também, e a literatura a partir do romantismo e depois o cinema, modernamente, já tentaram de várias formas simular na relação amorosa como a mulher suspira, se contorce, desliza as mãos e entreabre a boca do corpo e da alma.
Mas, quando digo "depois que ama", refiro-me ao estado de graça que a envolve após o gozo ou gozos, e que perdura horas e horas e às vezes dias.
Fica macia que nem gata aos pés do dono.
Mais que gata, uma pantera doce e íntima.
Sua alma fica lisinha, sem qualquer ruga.
A vida não transcorre mais a contrapelo, desliza...
Ela tem vontade de conversar com as flores, com os pássaros, com o vento.
Sobretudo, descobre outro ritmo em sua carne.
É tempo do adágio, de calma e fruição.
Neste período, aliás, o tempo pára.
Em estado de graça ela se desinteressa do calendário.
O cotidiano já não a oprime.É a hora de uma ociosidade amorosa.
O fato é que a mulher nessa atmosfera sai do trivial, se agiliza e glorificada, pervaga pela casa.
O homem, animal desatento, às vezes não se dá conta.
Em geral, nunca se dá conta.
Ou dá-se conta nos primeiros minutos após o ato de amor, e depois se deixa levar pela trivialidade, deixando-a solitária em sua felicidade clandestina.
Na verdade, ela sobrepaira ao tempo, está adejando em torno do amado, que deveria suspender tudo para sentir desenhar-se em torno de si esse balé de ternura.
Deveria o homem avisar ao escritório: hoje não posso ir, estou assistindo à reverberação do amor naquela que ama.
E como isto se assemelha à floração rara de certas plantas.
Os amados deveriam interromper tudo: seus negócios e almoços e ficarem ali, prostrados, diante da que celebra nela o que ele ajudou a deslanchar.
Já vi algumas mulheres assim.
Era capaz de pressentir a 115 m que elas estavam levitando de tanto amor que seus amados nelas desataram.
Há uma coisa grave na mulher que foi ao clímax de si mesma.
Que não esteja distraído o parceiro ou parceira.
Ela tem mesmo um perfume diverso das demais.
É um cio diferente.
É quando a mulher descerra em si o que tem de visceralmente fêmea, tranqüila que, mais que possuída, possui algo que atingiu raramente.
As outras mulheres percebem isto e a invejam.
Os machos farejam e se perturbam.
É como se estivessem num patamar seguro a se contemplar.
É quase parecido a quando a mulher vive a maternidade.
Mas aqui é ainda diferente, porque na maternidade existe algo concreto se movimentando dentro dela.
Contudo, nessa atmosfera que se segue a uma epifânica sessão de amor, diverso, porque ela está acariciando uma imponderável felicidade.
Estou falando de uma coisa que os homens não experimentam assim.
O gozo masculino é mais pontual e parece se exaurir pouco depois do próprio ato.
Só os escolhidos, os de alma feminina, vez por outra, o sentem prolongar-se dentro de si.
Mas em geral, é diferente.
Terminado o ato, uns até rolam para o lado e dormem como se tivessem tirado um fardo do ombro, outros acendem o cigarro, vestem suas ansiedades e voltam ao trabalho.
É constatável, no entanto, que o homem apaixonado também transmite força, alegria, energia.
Ele oscila entre Alexandre o Grande e o artista que chegou ao sucesso!
Também brilha.
Mas é diferente.E não é disto que estou falando, senão do gozo feminino que não se esgota no gozo e se derrama em gestos e atenções por horas e dias a fio.
Freud andou várias vezes errando sobre as mulheres e, por exemplo, colocou equivocadamente aquela questão de que a mulher teria inveja do homem por ser este um animal fálico.
Convenhamos: inveja têm (e deveriam ter) os homens quando prestam atenção no fenômeno que ocorre com as mulheres, que ao serem amadas atingem o luminoso êxtase de si mesmas, como se tivessem rompido uma escala de medição trivial para lá da barreira dos gemidos e amorosos alaridos.
É isso: quando a mulher foi amada e bem amada, ela ingressa nessa atmosfera sagrada, cuja descrição se aproxima daquilo que as santas extáticas descreveram.
Uma aura de mistérios as envolve.
E isso, por não ser muito trivial, por não ser nada profano, talvez se assemelhe aos mistérios gozosos de que muitos místicos falaram.

Affonso Romano de Sant'Anna

PONTO G




"Isabel Allende é uma das escritoras que mais admiro, não só por seus livros, mas também por seu humor, sua trajetória de vida e sua força diante de dramas inesperados, como a morte prematura de sua filha, Paula, aos 28 anos, que acabou lhe inspirando um romance biográfico emocionante.
Hoje, Isabel vive feliz em Sausalito, Califórnia, com o segundomarido.
Lendo a entrevista que ela deu para a Playboy, ri muito com suas declarações e uma delas me pareceu um verdadeiro achado.
"As mulheres gostam que lhes digam palavras de amor. O ponto G está nos ouvidos. Inútil procurá-lo em outro lugar".
Ah, o ponto G, esse paraíso secreto que leva os homens a explorações minuciosas.
Não temos um ponto G, mas dois, um em cada lateral da cabeça, e não é preciso tirar nossa roupa para nos deixar em êxtase.
Falem, rapazes. Digam tudo o que sentem por nós, assim, assim...isso.
Concordo com a autora de A Casa dos Espíritos: o melhor afrodisíaco é a declaração de amor. Não aquelas mecânicas, faladas no piloto automático, mas as verdadeiras, sentidas, aquelas que os homens imaginam que basta serem ditas com o olhar e com as mãos, mas que fazemos questão de escutar também com a voz. "Como eu gosto de estar com você, esqueço do tempo ao seu lado, que horas são? Já? Que me esperem, não consigo desgrudar de você, amor."
Caetano Veloso vendeu um milhão de cópias do seu último disco, e tenho certeza de que não foi por causa de "vou me embora, vou me embora,prenda minha,... "e sim "por que você me deixa tão solto, por que você não cola em mim?"
As feministas mais ortodoxas devem estar bufando. Tanta coisa pra se exigir de um homem: mais espaço na política, mais ajuda em casa, salários iguais e nada de gracinhas no escritório, e vem essa daí clamar por palavras!
Pois essa daqui acha tão interessante a idéia de igualdade entre os sexos que adoraria vê-los soltar o verbo como nós fazemos, expressar os sentimentos sem medo de ser piegas, afirmar e reafirmar diariamente como a gente é importante para eles e que saudades estavam do perfume dos nossos cabelos.
Clichê em último grau, reconheço, mas quem quer ser moderna nessa hora?
Tudo o que se reivindica é o desbloqueio emocional masculino.
Nossos hormônios saberão como agradecer."
Martha Medeiros