janeiro 17, 2008

A mulher que sonhava


A mulher que sonhava
JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Acordou tão feliz. A freira abriu a porta do quarto e atravessou o pequeno corredor entre as camas. Algumas mulheres acordaram logo que esses pequenos ruídos tocaram o silêncio: a fechadura da porta, as solas finas de borracha sobre os tacos de madeira. Quase encostada à janela,a freira subiu as persianas. Naquele quarto, havia duas filas de quatro camas de ferro. À noite, as mulheres deitavam-se e ficavam com os pés apontados para o centro do quarto.
A freira subiu as persianas. A luz que entrava no quarto era feita de uma juventude de luz. Devagar, a luz subiu pela superfície do quarto e pela superfície dos corpos das mulheres deitadas sob os cobertores. Os corpos das mulheres estavam mornos. Os cobertores eram de lã muito macia por estar gasta, eram castanhos, cheiravam a lavados e cheiravam ao detergente que era o cheiro de todos os objectos do asilo. A freira, diante da janela, em silêncio, parou-se a olhar para as mulheres que acordavam. Mais pela luz doce do que pelas vozes das mulheres que falavam umas para as outras, mais pela luz doce do que pelo olhar também doce da freira, ela acordou. Tão feliz. A sua cama era a terceira a contar da janela, na fila que ficava à esquerda do olhar da freira. Ao abrir os olhos, a luz da manhã.
Sentia no corpo a combinação e os lençóis mornos. Levantou o braço sobre o cobertor. Já fora da cama, enquanto vestia o roupão e calçava os chinelos, lembrava-se ainda do
sonho que tivera. Lembrava-se do sonho como se sonhasse ainda. Sorria. Tinha sonhado que era nova e que não estava no asilo. Era nova e estava em casa. A mãe chamava-
-a da cozinha. Era nova. Tinha sonhado. Tinha acordado tão feliz. Era nova. A mãe chamava-a da cozinha. No sonho, tinha um pedaço de espelho na mão. Os seus cabelos
eram longos e viçosos. A sua pele era lisa. Os seus olhos eram novos e brilhavam. Tinha sonhado. Com a toalha dobrada sobre o ombro, com o sabonete na mão, esperava
na fila para o banho. Ela não estava habituada, mas as freiras diziam que todas as mulheres tinham de tomar um duche ao acordar. Ela respeitava as regras do asilo. O vapor envolvia-lhe o olhar. As vozes das mulheres à sua volta eram uma coisa que acontecia num sítio onde ela não estava.
Tinha sonhado que era nova. Como se sonhasse ainda, sorria. Acordou incomodada. O cão começou a ladrar no quintal.
Ainda de madrugada, o cão começou a ladrar, como se ladrasse contra qualquer coisa sem solução: o frio ou a morte. O início do inverno entrava pela janela com a nitidez
incómoda do frio. O início do inverno pousava sobre a pequena bacia de esmalte e sobre as voltas de ferro do lavatório, pousava sobre a cómoda pobre. Entre os lençóis
e sob a flanela da camisa de noite caminhavam linhas de ar gelado que lhe tocavam a pele. Ainda com os olhos fechados, o frio e o cão a ladrar trouxeram-lhe a vida que existe com os olhos fechados. A cara engelhada deixou que os olhos se abrissem devagar. Admirou-se com a luz que era como fosse o frio vagamente a iluminar todas as coisas. Os latidos do cão atravessavam o pequeno quadrado de vidro da janela e enchiam o quarto. Afastou a roupa da cama e levantou-se subitamente. Abriu a gaveta da banquinha e retirou um pedaço de espelho. Era o pedaço de um espelho que se tinha partido e que ela tinha encontrado a brilhar na rua. O incómodo de ter acordado permanecia. O incómodo de ter sonhado. Num sonho que continuava depois do momento em que acordou, tinha-se visto velha. Os seus cabelos eram brancos e secos, eram
velhos e mortos. Eram cabelos mortos e cinzentos e sujos.
A sua pele era muito velha porque era muito mole. O seu rosto era velho. Segurou o pedaço de espelho entre os dedos e, naquela superfície onde não cabia mais do que o
olhar de um dos olhos, viu o reflexo da sua pele lisa, dos seus lábios, dos seus cabelos longos e castanhos. Passou os dedos pelos cabelos. Por um instante sentiu-se descansada. Por um instante, sentiu-se aliviada. A mãe chamava--a da cozinha. Naquele dia, aproximou-se da mãe com estranheza. Observou as suas mãos, os seus cabelos, o seu rosto, os seus olhos. Imaginou-se com a idade da mãe,
imaginou-se igual a ela. No sonho que permanecia dentro dela, como uma lembrança que não conseguisse esquecer, era ainda mais velha do que a mãe. Por instantes, sentia o
corpo cansado. Sem olhar para os cabelos, sentia-os cinzentos.
Sem olhar para a pele, sentia-lhe as rugas como um peso. Sentia que os olhos lhe começavam a chorar de cansaço.
Depois, lembrava-se do frio, e lembrava-se que lhe cresciam lágrimas nos olhos por causa do frio. Depois passava as palmas das mãos na pele do braço, puxava as pontas
dos cabelos com os dedos, e sossegava. A mãe pediu-lhe para ir buscar lenha ao quintal. O frio entrava por baixo da porta. Ela abriu a porta. O frio bateu-lhe no rosto. No quintal, a irmã brincava com o cão que estava preso ao limoeiro. A irmã atirava um pequeno limão verde a rolar pela terra, o cão corria para agarrá-lo e, no momento em que abria a boca, a corda esticava-se a partir do tronco do limoeiro e segurava o cão pelo pescoço. Aproximou-se da pilha de lenha, agachou-se e, com uma das mãos, começou a encher o outro braço de achas que apertava de encontro ao peito. A irmã, pequena, deixou o cão e arrumou-se à sua saia. Meteu conversa. Ela não respondeu.
Sentia-se velha. Como no sonho. Era velha. Como no sonho. Em instantes, não sabia se o sonho tinha sido antes ou depois de acordar.
Depois da missa, deixou-se ficar ajoelhada na capela do asilo a fingir que rezava. À saída, as freiras olharam para ela contentes e quase comovidas. As outras mulheres
olharam para ela desconfiadas. Ficou sozinha. A capela, fresca, não existia. Dentro de si, debaixo dos seus olhos fechados, existia aquele sonho onde era uma rapariga.
Debaixo dos seus olhos fechados, era nova, tinha ido ao quintal buscar lenha. Sorria. A irmã caminhava ao seu lado. Debaixo dos seus olhos fechados, tinha entrado na cozinha, tinha atirado a lenha para dentro do cesto da lenha. Sorria. Ajoelhada diante da lareira, tinha acendido uma pinha, cruzado duas achas, encostadas ao madeiro meio ardido que sobrara do dia anterior, e tinha disposto a pinha num sítio onde as suas chamas tocavam o ponto em que as achas se cruzavam. Ao seu lado, a irmã olhava as chamas a pegarem-se às achas e ao madeiro, olhava o
lume. A mãe tinha-lhe posto um púcaro de café sobre a mesa. Sentou-se num banco a beber. O café aquecia-lhe um caminho no interior. Abria os olhos, tentando ver, tentando sentir tudo o que a rodeava, mas os olhos embaciavam-se e não viam senão aquilo com que tinha sonhado.
Sentada a beber café, via-se velha, via-se ajoelhada numa capela que não conhecia. Devagar, com as costas a não se dobrarem, devagar, com as pernas sem acção nenhuma,
devagar, com as mãos agarradas ao banco da frente, devagar, levantava-se velha e velha. Não olhava para o altar da capela que não conhecia. Olhava para a porta aberta, para a luz a atravessar o lugar da porta. Ver o que tinha sonhado
na noite anterior incomodava-a. O café não lhe fazia proveito.
Mas, por mais que tentasse, não conseguia deixar de se ver como se tinha sonhado. Estava numa capela que não conhecia e olhava para a luz a atravessar o lugar da porta. Caminhava em direcção à porta. Os seus passos eram um ruído leve, mas que durava no mármore. Ao acabar de beber o café, a mãe pediu-lhe que fosse à venda comprar uma quarta de chouriço para o jantar. Já ia a sair, quando a mãe lhe pediu que levasse a irmã. Estendeu-lhe a mão. Na rua, de mãos dadas com a irmã, continuava com o sonho a encher aquilo em que pensava. Velha, avançava por um caminho de terra, entre canteiros de flores que recebiam o sol sobre uma juventude que parecia rir-se da sua pele velha e dos seus cabelos sem vigor e dos seus movimentos trôpegos. Mas estava tão feliz com o sonho da noite anterior, com o sonho que ainda estava dentro dela. Tão feliz.
O sonho era como aqueles sábados em que acordava a acreditar que era já domingo. No asilo, os dias eram todos iguais. Mas, às vezes, era sábado e acreditava que era já
domingo. Nem quando percebia que não era domingo, nem quando via que não tinha ido à missa de domingo, nem quando chegava a hora da visita e reparava que as visitas
de domingo não tinham chegado, deixava de pensar que era domingo nesses sábados em que acordava a acreditar que era já domingo. Assim estava o sonho dentro dela. Via-se nova. Caminhava pelo jardim do asilo, entre os muros de buxo e os canteiros de amores-perfeitos, e via-se nova. Via-se na rua, de mãos dadas com a irmã, a caminhar para a venda onde iria comprar uma quarta de chouriço para o jantar.
Estava sentada à mesa. Durante todo o dia, por mais que tivesse tentado fixar-se nas coisas da sua juventude, não tinha perdido aquela estranheza. Estava velha por
dentro. Estava sentada à mesa. Estava cansada. Sentia o mesmo incómodo que sentira no momento em que acordou. O jantar estava ao centro da mesa. A mãe estava sentada
num lado, a irmã estava sentada no outro, ela estava sentado no outro. Não falavam. O candeeiro de petróleo enegrecia as marcas do rosto da irmã quando ela tentava
dizer qualquer coisa. A mãe encheu os pratos de sopa. Levantou o chouriço com uma colher e partiu-o em dois pedaços que pôs nos pratos das filhas. Ela estava com
pouca vontade de comer. O lume ardia e ela pensava que dentro de pouco tempo seriam horas de ir dormir. Ela estava com medo de dormir. Ela estava com medo de sonhar.
Em algumas ocasiões, ao enfiar a colher na boca, fechava os olhos e via-se rodeada de velhas a comerem sopa num salão muito iluminado. Abria os olhos de repente. Via a
mãe e a irmã. O seu coração batia depressa. Nem a mãe, nem a irmã repararam nestes sustos que ela apanhava. Depois de comer, depois de lavar a loiça, foi deitar a irmã.
Despiu-lhe o vestidinho e pôs-lhe a camisa de flanela.
Nunca olhou para o rosto da sua pequena irmã com tanta ternura como nessa noite. Pousou-lhe a roupa da cama sobre o peito. A irmã baixou as pálpebras sobre os olhos.
A pele branca e serena. Ficou a olhar para o seu rosto.
A irmã adormeceu logo a seguir. A sua respiração tão calma. Saiu do quarto da irmã com passinhos breves.
Entrou no seu quarto com medo de dormir. Despiu-se, pôs a camisa de noite. Deitou-se debaixo dos lençóis frios. Ficou inquieta durante muito tempo. Estava nervosa. Estava
incomodada. Dava voltas na cama. Tinha medo de adormecer e de sonhar de novo. Cada instante da noite parecia muito grande. Mas depois de muito tempo, depois de ter passado muito tempo dentro da noite, depois de o tempo já não se distinguir da noite longa, vasta, imensa, o seu corpo perdeu as forças e finalmente adormeceu.
Estava sentada à mesa. Naquele dia tinha sido tão feliz.
Na sala de jantar do asilo, as freiras passaram a distribuir terrinas de sopa pelas mesas. A luz branca das lâmpadas fluorescentes tornava a sala de jantar nítida para quem tivesse os olhos nítidos. Ela tinha os olhos num sorriso que via ainda os seus olhos jovens. Os seus olhos viam os seus olhos. Ao seu lado, não estavam aquelas mulheres a comer sopa, aquelas mulheres que levantavam muito depressa a colher como se, do prato até à boca, a sopa se entornasse da colher. Aquelas mulheres que tremiam com a colher cheia de sopa, que fechavam a boca muito depressa sobre a colher. Ao seu lado estava a sua irmã pequena e a sua mãe. Sorria. Via-as juntas e sorria porque, naquele tempo, ainda a irmã não tinha apanhado a pneumonia que havia de a levar. A pneumonia que havia de lhe pôr a pele cinzenta, cada vez mais magra, as costelas a conhecerem-se mesmo com a camisa de flanela vestida, a voz frágil a pedir-lhe para brincar com ela, as mãos pequenas e fracas, um sorriso pequeno e fraco na pele cinzenta, os olhos quase a fecharem-se e, depois, morta. A sua irmã
pequena morta. O caixão branco de anjinho. A sua mãe a chorar. A aflição dentro dela. Tudo isso era ainda impossível quando, dentro daquele sonho, via a irmã a comer
sopa. A sua irmã feliz e inocente. Aquele sonho era um pedaço da sua vida antes da tristeza. Naquele dia tinha sido tão feliz. Rodeada de mulheres que comiam sopa, estava ao lado da sua irmã e da sua mãe. A irmã ainda não tinha morrido e a mãe ainda não tinha envelhecido tanto. A mãe ainda não tinha as roupas pretas que havia de vestir durante toda a vida, durante todos os dias. Ainda não era uma velha como ela era ali, sentada à mesa, naquele asilo. Nem a morte. Nem o cemitério com a campa pequena da irmã, um montinho de terra e uma cruz no talhão dos anjinhos, com a campa da mãe, mármore e o seu nome e a sua única fotografia. Nem o cemitério sozinho com noites consecutivas,sempre negras, sempre frias, noites a passarem sobre a terra, sobre os rostos da sua irmã e da sua mãe.
Tudo isso era impossível quando, dentro daquele sonho,via a irmã a comer sopa. A sua irmã feliz e inocente. Aquele sonho era um pedaço da sua vida antes da tristeza.
Naquele dia tinha sido tão feliz. Assim que acabou de comer quis ir para a cama. Queria dormir. Queria sonhar.
Queria ser nova durante mais um dia.
Acordou tão feliz. Assim que percebeu que estava acordada, acordou dentro dela um júbilo infinito porque percebeu que tinha sonhado de novo. Deitada, rodeada de vozes
de mulheres a acordarem também, sob o olhar da freira, estava deitada, rodeada de uma luz fria, sob o som do cão a ladrar preso ao limoeiro do quintal. Acordou incomodada. Tinha sonhado de novo. Levantou-se da cama. Na fila para
tomar banho, sentia nos braços os arranhões suaves das cascas da lenha que carregava para o lume. Enquanto riscava um fósforo, abria a torneira da água. A pequena
chama pegava-se à pinha. Com as costas da mão, via que a água do chuveiro já estava morna. Sentia a água no corpo velho, novo. Sentia o calor do lume no corpo velho, novo.
A irmã estava ao seu lado enquanto passava o sabonete pelos braços. Agachada diante do lume, ouvia as vozes das outras mulheres. A mãe andava na cozinha de um lado para
o outro. A mãe andava na cozinha de um lado para o outro.
A irmã estava viva. A mãe estava viva. Velha, nova, aceitava
mais um dia. Queria viver.

janeiro 13, 2008

'Natureza feminina' desconstruída


Filósofa dizia que palavras como estas são armadilhas que aprisionam numa suposta diferença original

Leda Tenório da Motta

No momento em que se comemora, mais para discretamente, dentro dos muros universitários franceses, o centenário de nascimento de Simone de Beauvoir, não há como fugir de certas verdades estabelecidas, que não são idéias feitas, no sentido pejorativo de Flaubert, mas têm a ver com a força da evidência.

A primeira delas é que 'não se nasce mulher', o célebre enunciado de O Segundo Sexo, que ainda está em nossos ouvidos, mais de meio século depois de sua formulação, em 1949, data da publicação do então escandaloso livro, que se permitia tocar na sexualidade da forma mais direta, e ainda por cima, apontar a misoginia dos mulherengos surrealistas, vai desconstruir para sempre a assim chamada 'natureza feminina'. Muito antes de Jacques Derrida e sua suspeição sistemática da inocência dos discursos 'logofalocêntricos', temos aí, deliciosamente cunhada em forma de máxima, que aliás também se antecipa à boutade lacaniana segundo a qual 'não existe A mulher', a ressonante denúncia de que a 'feminilidade', e tudo o que vem com ela, o 'eterno feminino' e o 'mistério feminino', nada mais são que palavras com que se estigmatiza a mulher. São armadilhas que a aprisionam numa suposta diferença original, a exemplo do que também se faz com o judeu e com o negro, para melhor transformá-la no 'outro', entendido como ameaçador. Mesmo quando na boca dos poetas, são o álibi mesmo da opressão e da tutela exercidas milenarmente sobre a mulher. Daí a não menos célebre oração coordenada, que imediatamente arredonda o axioma: 'Não se nasce mulher, se é transformado nisso.' (On ne nat pas femme: on le devient).

A segunda evidência é que essa obra magistral, monumental e fulgurante, que convoca a biologia, a antropologia, a história, os imaginários artísticos e até mesmo a psicanálise vienense, então em vias de implantação, para estabelecer um imenso dossiê, ao revés do qual responder, sem apriorismos, à pergunta 'o que é uma mulher?', constitui-se na fundação mesma do feminismo moderno. Ela é o ponto de partida de tudo o que se segue em matéria de estudos de gênero e processos de libertação. A própria Betty Friedan, em seu tempo, o reconhecia. O fato é tão mais digno de nota quanto Um Teto Todo Seu de Virginia Woolf - em que vibra uma outra proferição feminista famosa sobre a irmã de Shakespeare, que se tivesse existido e porventura fosse tão genial quanto o criador de Hamlet, ainda assim nunca teria chegado a se equiparar ao mano, porque fatalmente teria sido destinada à alienação do casamento - antecede O Segundo Sexo de exatos 20 anos.

Não deixa de ser perturbador que a intervenção que vem antes, e com tal assinatura, fique em segundo plano, e seja a segunda a que celebramos como a inaugural. Não só porque as reflexões de Virginia Woolf, por exemplo, sobre como Jane Austen e as irmãs Bronte escrevem mal porque escrevem como mulheres, são, por seu turno e a seu modo, supremamente instigantes, mas porque, como muitos concordam em dizer, é nos países protestantes que o feminismo vai se mostrar mais forte, porque se está aí longe do culto à Virgem, logo, das idealizações mariais do feminino. Realizado aos 41 anos de Beauvoir, como um trabalho da maturidade, que veio a ser o mais clássico dentre seus muitos clássicos, O Segundo Sexo desmente todas essas razões. E se tivermos em mente a grande crise das categorias genéricas com que estamos envolvidos hoje, como atestam as paradas gays, podemos pensar que ao seu milagre se soma ainda uma perfeita atualidade. Há um trecho no primeiro tomo em que Beauvoir fala da delicadeza feminil das odaliscas, notando que isso não impede seu lesbianismo. É uma verificação sutil, difícil de se fazer na entrada dos anos 50, que livra as viragos dos signos obrigatórios da virilidade e, muito embora Beauvoir acompanhe Sartre em seu desgosto por Freud, vai ao encontro do freudismo, quando desfaz o elo entre anatomia e destino sexual. Além do mais, essa é uma espécie de previsão das inversões sem o espetáculo da inversão, tais como as conhecemos agora que elas saíram da surdina e dos espaços exóticos confinados.

Não é de estranhar, pois, que, no arredondar dos 100 anos de nascimento, quando surge mais uma biografia de Beauvoir feita por uma mulher - desta vez, Huguette Bouchardeau, notória feminista e ex-ministra do Meio Ambiente no governo socialista de Laurent Fabius - tudo isso venha à baila.

Mas felizmente para os amantes da literatura e do pensamento de linha francesa, não se trata só disso. Há mais que a promoção da mulher, e de modo geral, mais que a defesa das belas causas - o anticolonialismo, as campanhas contra a guerra da Argélia, as denúncias do apartheid, a execração do anti-semitismo -, todas abraçadas em pacto com Sartre e com a plataforma de Sartre, a pôr na conta das contribuições da autora de Memórias de Uma Moça Bem Comportada (1958). A começar pelo memorialismo, justamente. Roland Barthes notou que Proust impôs o memorialismo ao século 20. Se não os reduzirmos à paixão política, os escritos de Beauvoir, associando reflexividade e estilo, para levantar uma história das mulheres que passa pela sua própria história de mulher, devem figurar entre o que de mais refinado se fez neste campo, no novecentos.

Não enclausurar Beauvoir em nenhuma gaveta conceitual é uma justiça que faz o Colóquio Internacional Beauvoir 2008, que acaba de ocorrer em Paris, na sede do Collège des Universités, sob a direção de ninguém menos que Julia Kristeva (que no entanto não inclui Beauvoir em sua trilogia O Gênio Feminino, de 1999, dedicada a Hannah Arendt, Melanie Klein e Colette). Assim, quem passar os olhos no programa, disponível no site http://2008beauvoir.blogspot.com, verá que, mais que a introdutora dos gender studies, que depois se tornariam a mania das universidades norte-americanas, e mais que a companheira e a seguidora de Sartre, que não deixa de referi-lo quando, na segunda parte de O Segundo Sexo, põe em marcha a premissa de que a existência precede a essência, partindo para investigar não a feminilidade em abstrato, mas a vida real das mulheres de carne e osso, a Simone de Beauvoir que hoje se cultua intramuros é principalmente a escritora e a filósofa. E melhor dizendo, a escritora-filósofa. As duas coisas inseparavelmente e, como diriam os franceses, à part entière, quer dizer, sem que uma empane o brilho da outra. Tudo como na grande tradição francesa a que se filia a escola sartriana, aquela que começa com Montaigne e continua com estes romancistas, contistas e dramaturgos que foram Voltaire, Rousseau e Diderot. Círculo, aliás, poupado no cortante dossiê beauvoiriano, já que o 18 francês convida a olhar a mulher de modo fraterno e igualitário e, se inaugura o discurso sobre a natureza, abrindo caminho para as formalidades burguesas, nem por isso aprisiona o feminino na natureza diversa que a caça às bruxas, ainda em prática na França no século da Grande Revolução, por isso mesmo, perseguia como adversa.

Há inúmeros ângulos de ataque ao legado de Beauvoir nos diferentes painéis do colóquio de Kristeva. O mais longo dos fóruns, que repassa todas as questões sobre as quais Beauvoir filosofou - a mulher, a sexualidade, a ambigüidade, a alteridade, o amor, a amizade, o próprio envelhecimento, o próprio Sartre -, se intitula Écrire l'Intime (Escrever a Intimidade). É nesse campo temático que vamos encontrar Claude Lanzman, colaborador de Le Temps Modernes e realizador de Shoah (1985), filme que surpreendeu o mundo ao levar para o cinema, do modo mais estilizado, na contramão das convenções de sobriedade antiartística do gênero testemunho, a discussão contemporânea sobre a representação da catástrofe. Dessa administração do horror absoluto, que resulta tanto mais comovente quanto é teatral, Beauvoir foi a primeira a dizer que era pura poesia, dando a entender com isso que o conhecimento do mundo em volta passa pela sua transfiguração, e lançando com isso luzes sobre ela mesma.

Mas como não se poderia esquecer também, em tal momento, que além de um feminismo e de uma filosofia produzida com estilo, a herança de Beauvoir encerra ainda uma afirmação da atitude, graças à qual o existencialismo se performa a si mesmo - e tão mais vigorosamente, neste caso, podemos pensar, quanto envolve uma mulher -, é igualmente feliz que Philippe Sollers, como bom entendedor do assunto que é, entre noutro ponto das discussões, com uma conferência sobre Les Amours de Beauvoir.

Do que será que falará este homme à femmes? Ficamos aguardando desde já a publicação dos anais do encontro, tão mais curiosos quanto sabemos que há caminhos fascinantes a percorrer igualmente aí. A palavra 'amores', no plural, que refere à relação aberta com Sartre, é particularmente interessante para marcar a coerência de quem ousou irritar-se com Breton e companhia por tanto buscarem nas mulheres 'a mulher'. Nos surrealistas como em D.H. Lawrence, Montherlant e até em Stendhal, embora menos em Stendhal, cujas mulheres se masculinizam, Beauvoir vê trabalhar, junto com a platonização dos sujeitos femininos, o que chama de 'orgulho fálico'. É outra tese das mais contemporâneas. E diga-se que Beauvoir a soube defender com tal brio e tal fôlego que não podemos descartá-la rapidamente, com um piparote, pondo-a no saco de gatos que Harold Bloom, com razão, chama de 'escola do ressentimento'.

Sem falar que os casos paralelos de Beauvoir, entre outros com Lanzman, com quem ela chegou a morar, também não podem ser tomados como simples réplicas feminis ao comportamento de Sartre. Na verdade, até por ser boa comentadora da literatura, Beauvoir sabe que o amor é extraconjugal e, no fundo, descortês. Afinal, toda a cortesia, cujas canções estão na origem de todas as figurações românticas da paixão, nada mais é que um imenso flerte com o adultério, a julgar pelo fato de que as impossíveis senhoras em volta das quais giravam os trovadores medievais, estavam todas encasteladas e eram todas casadas! A psicanálise ensina que era justamente por isso que eram desejadas. Em suas brilhantes Contribuições à Psicologia do Amor - existem três delas -, Freud assinalou a existência de duas correntes inconciliáveis, que fazem com que o objeto a que se dirigem os sujeitos apaixonados não esteja nunca lá. A corrente terna, dos homens que amam mulheres que não desejam tanto assim carnalmente, e a corrente dos homens que desejam carnalmente mulheres a que não dedicam um amor verdadeiramente gentil.

O não casamento heróico de Beauvoir enfrenta essa tensão. Talvez por isso, como nas melhores histórias de amor, ela esteja hoje enterrada ao lado de Sartre, no cemitério de Montparnasse.

janeiro 12, 2008

Gertrude Stein




QUANDO PARIS ERA UMA FESTA

por Helena Vasconcelos

"Quem apareceu primeiro, Gertrude Stein ou James Joyce? Não se esqueçam que o meu primeiro grande livro, «Three Lives», foi publicado em 1908. Muito antes de "Ulisses". Não nego que Joyce fez qualquer coisa mas a sua influência é apenas local. A sua hora já passou tal como aconteceu com Synge, outro escritor irlandês."

Estas linhas foram escritas por Gertrude Stein, em 1924. Apesar de ter errado em relação a James Joyce ( como aconteceu, aliás, com Virginia Woolf), a verdade é que ela tinha a perfeita noção do seu lugar de pioneira da chamada "ficção experimental" e do impacto que a sua escrita e a sua personalidade iriam ter em muitos dos seus contemporâneos e nas gerações que se seguiram.

De Gertrude Stein é comum dizer-se que "descobriu " Picasso, que inventou a expressão "geração perdida", aplicada a Hemingway e Fitzgerald, que aconselhou Paul Bowles a dedicar-se à música e que se considerava um génio. Sabe-se também que possuía uma das maiores e mais ricas colecções de arte do século XX e que essas obras se encontram, agora, espalhadas por vários museus. No seu apartamento, em Paris, acotovelavam-se personagens do mundo artístico e da sociedade da época: Braque, André Masson, Tristan Tzara, Marcel Duchamp, Jean Aron, Djuna Barnes, Nancy Cunard são alguns dos nomes constantes de uma lista interminável referenciada por Linda Wagner-Martin na biografia "Favored Strangers. Gertrude Stein and her Family" (400 págs., November 1997, Rutgers University Press).

Em 1999, cento e vinte e cinco anos depois do seu nascimento, sucederam-se as manifestações de apreço, análise, recuperação da sua obra: teatro, ficção, poesia, biografia, ópera. O século passado terminava, assim, com uma "revisão da matéria" lançada aos ventos por Stein. A partir do estudo da sua obra e personalidade, noções como modernismo e pós-modernismo, etnicismo, lesbianismo, elitismo, estética, nunca mais foram as mesmas.


Nascida nos EUA, em 1903, mudou-se para Paris com o irmão, Leo. Munidos de uma generosa mesada tornaram-se, rapidamente, o centro da vida cultural da cidade. Desenvolveram uma relação estreita com Picasso e, simultaneamente, com o seu grande rival, Matisse. Braque, Van Dongen, Derain e Juan Gris, também faziam parte do círculo de amigos íntimos, sendo este ultimo o favorito de Stein. Além de pintores o famoso n.º 27 da rue de Fleurus acolhia, regularmente, todas as semanas, a visita de Apollinaire, Max Jacob, André Salmon, Erik Satie, Jean Cocteau, Sherwood Anderson, Ernest Hemingway, Scot Fitzgerald.
Gertrude gostava de reunir a sua "corte de génios", presidida por ela própria. Mas havia quem lhe resistisse como, por exemplo, James Joyce que afirmava "detestar mulheres intelectuais" e, em certa medida, Djuna Barnes, a sua rival na escrita, que preferia frequentar a companhia de Nathalie Barney e do seu grupo de lésbicas sofisticadas.
Gertrude nunca gostou de Joyce, que considerava um trapaceiro, e irritava-se por ele não se vergar perante a sua forte personalidade e por não se mostrar agradecido pelo fato de ela o ter incluído no seu grupo de convidados, "discípulos" obedientes como Hemingway de quem ela dizia : "Fui eu que o ensinei a escrever."


Em 1907, Stein começou a viver com Alice B. Toklas, uma amiga dos seus tempos de S. Francisco. Foi uma união muito feliz que durou todo o resto da vida da escritora ( Gertrude morreu a 27 de Junho de 1946 e Alice sobreviveu-lhe 21 anos) e que foi amplamente documentada em "Autobiografia de Alice B. Toklas", escrita pela própria Gertrude Stein, aos cinquenta e oito anos. Nela afasta-se do seu estilo mais rebuscado e escreve algo simples e corriqueiro. A narrativa era-lhe, supostamente, ditada pela sua companheira por esta "estar demasiado ocupada com os problemas caseiros do dia-a-dia"

"Robinson Crusoé" de Daniel Defoe serviu de modelo para esta "autobiografia" em que Stein se divertiu a designar-se como "génio" e a descrever os detalhes mais íntimos da vida de todos os dias, com as festas, os jantares, as exposições, os amores, ódios, zangas e reconciliações de amigos, inimigos ou simples conhecidos.

Gertrude Stein afirmou que não queria que as emoções ditas "femininas" dominassem a sua vida, preferindo ser ela a dominar o mundo (daí a sua imagem iconográfica muito utilizada pelas suas admiradoras, na qual a sua cabeça, de perfil, se assemelha à de César), reproduzindo-o nos seus escritos e reprimindo sempre a eventual primazia da emoção. A única paixão permitida era reservada à escrita, uma afirmação transmitida, à sua maneira, muito peculiar, através da voz de Toklas na "Autobiografia" : "(Ela) sabe que a beleza, a música, os adornos, até mesmo acontecimentos, não deveriam ser a causa de emoção nem deveriam servir de material para poesia ou prosa. Nem mesmo a emoção per si deveria ser a causa de poesia ou prosa. Estas deveriam consistir numa reprodução exacta de uma realidade, tanto interior como exterior".

Quando Gertrude e Alice começaram a viver juntas, a primeira tinha acabado "Three Lives", um conjunto de três histórias (retratos) de três mulheres e trabalhava numa obra monumental baseada na sua própria família a que chamou " Making of Americans". O momento foi especialmente dramático porque se tinha separado definitivamente de Leo, com quem se mantinha em estado de guerra declarada por ele não apreciar os seus escritos. Zangaram-se e nunca mais se falaram. Gertrude, que fora educada por um pai tirânico, ao lutar raivosamente com o irmão que adorava, para impor a sua identidade como escritora, criava uma barreira entre ela e o "mundo masculino ". O mais interessante é que, como é possível constatar através da já referida "Autobiografia", era Stein quem assumia o papel de marido no casal, "escrevendo e discutindo arte com os homens", enquanto Alice cozinhava e tratava da casa e "se sentava a conversar sobre chapéus e roupas com as mulheres dos artistas que vinham de visita".


"Theree Lives", o estranho livro que Stein escreveu em 1905, foi concebido, segundo ela, a partir de um quadro de Cézanne que os dois irmãos tinham adquirido no inverno anterior. É a história de Anna, Lena e Melanctha, esta ultima considerada por Richard Wright como "a primeira narrativa longa e séria sobre a vida dos negros, nos Estados Unidos", onde se acumulam detalhes psicológicos e cenas da vida quotidiana que a escritora observava durante os seus passeios a pé em Montmartre,quando ia e vinha de e para o "atelier" de Picasso, onde quase todos os dias posava para o seu famoso retrato.

A influência de Cézanne na sua obra deu origem ao seu estilo repetitivo e hipnótico e ao "cubismo na literatura" a que ela chamava o seu próprio " método de composição". Este assentava nos seguintes princípios: "...começar sempre de novo, sempre, sempre, "usar tudo" e "utilizar um presente contínuo". Em Cézanne, ela admirava a técnica a paciência e o método bem como o fato de, na composição, os detalhes terem tanta importância quanto o todo.

Gertrude chocava os editores com a sua pontuação, com as suas frases inacabadas que eram retomadas mais adiante, com as suas repetições. Ela dizia que tanto fora influenciada pelo cubismo como por Mark Twain o que marcava a sua relação com a cultura americana, apesar de ter vivido quase toda a vida na Europa.
O seu cosmopolitismo e desenraizamento contribuiram para estabelecer o mito de Paris como centro cultural de eleição para infindáveis gerações de americanos, sem nunca deixar de enaltecer as virtudes do seu país natal. Escreveu que, "...(os Estados Unidos), ao começarem a criação do século vinte nos anos sessenta do século dezanove, tornaram-se o país mais antigo do mundo".

Fisicamente, Gertrude era a típica matrona germano-americana, de corpo e traços fortes, uma figura que nada tinha de feminino. Mas o seu humor, o seu sentido de auto-estima e o seu espírito finamente irónico, aliados ao fato de ser extremamente mundana e muito "snob", faziam dela uma personagem muito atraente.
Hemingway descreveu-a assim: "Mademoiselle Stein tinha uma constituição pesada, como a de uma camponesa... com uns belos olhos e um rosto germano-judeu que... fazia lembrar o das mulheres do campo do norte de Itália, com as suas roupas, o seu rosto sempre móvel e o seu adorável cabelo, espesso, vivo, como o das imigrantes. "
Quanto a Alice, "uma gárgula amigável" foi descrita como, "...um pedaço de fio eletrificado, magra e pequena, com ar de espanhola e olhos muito escuros e penetrantes."
Mabel Dodge, uma amiga de Gertrude fez o seguinte comentário em relação à sua aparência: " era atraente de uma forma positiva e generosa, apesar da sua amplitude física. Parecia apreciar a sua própria gordura, uma atitude que é sempre uma ajuda, no sentido de ser aceita por outras pessoas. Não possuía nem um traço daquele embaraço tonto que os anglo-saxónicos demonstram em relação à carne. Ela glorificava a sua."

Em "Paris é uma Festa", Hemingway conta que não foi capaz de a encarar uma vez em que teve de esperar no salão do apartamento, enquanto ouvia gemidos e suspiros, no quarto situado logo acima. Só a ideia das duas mulheres numa relação sexual, fizeram-no bater em retirada.

Virginia Woolf, Willa Cather, Colette e Gertrude Stein apresentam entre si certas semelhanças num universo romanesco em que a "sedução maternal" é o reflexo de uma visão muito feminina do universo do amor. Embora com personalidades diferentes, elas representam uma ideia de sucesso entre as "mulhers de letras". Todas elas tiveram a liberdade de produzir os seus escritos e também foram capazes de disfrutar um certo conforto, ao lado de companheiros e companheiras que se preocuparam em fornecer-lhes condições para trabalharem. Todas conheceram o sucesso em vida e gozaram plenamente esse privilégio, colocando a literatura à frente de tudo. É verdade que também escreveram sobre a maternidade mas, de todas elas, só Colette teve uma criança, já quando estava na meia idade ("Je suis un écrivais qui a fait un enfant" dizia ela quando se referia ao "acidente")


Gertrude Stein foi mais do que uma mulher ( com um ar bastante masculino ) que dava ótimas festas e entretinha os seus amigos e convidados com ditos espirituosos e inteligentes, ao mesmo tempo que os deliciava com os famosos pratos preparados por sua companheira. Foi uma escritora que inovou na literatura e uma importante mentora da arte moderna.
Diz-se que ela fez com as palavras o que Picasso fez com as tintas. Os seus escritos "impressionistas" nos quais utilizava termos que lhe eram familiares e que lhe suscitavam uma determinada reação, tinham como finalidade descobrir um significado oculto, a sua verdadeira natureza. Para muita gente, ela maltratou a língua inglesa, abusou dela e "desfigurou-a". A sua intenção era criar uma nova linguagem em que a qualidade do verbo deveria ser intrínseca e não o espelho de uma imagem preconcebida. É famosa a sua frase, "Rose is a rose is a rose", na qual ela condensou toda a sua teoria: o sentido deveria surgir a partir da entoação do conjunto de palavras, fazendo emergir, do subconsciente, o significado perfeito até aí mergulhado nos recônditos da mente.


Gertrude Stein tem sido utilizada como ícone de grupos homossexuais. Um dos seu primeiros livros "Q.E.D." (Quod Erat Demonstrandum) ou "Things As They Are", que ela escondeu e fingiu ter esquecido durante anos, contava a história de um triângulo amoroso formado por três mulheres , uma das quais era uma imagem decalcada nela própria. O fato de mais tarde, em Paris, fazer questão de demonstrar abertamente que desafiava as convenções, contribuiu para uma admiração por parte das comunidades homossexuais. A sua qualidade de judia tão pouco a marcou com sinais de exclusão. Durante a Primeira Guerra, tanto ela como Alice fizeram questão de ficar em Paris. Compraram um Ford em muito mau estado, a que chamaram "Auntie" e usaram-no para ajudar a Cruz Vermelha e transportar feridos. Durante a Segunda Guerra trabalharam para a Resistência, conseguindo que os ocupantes nazis nunca descobrissem que eram judias.

A imagem de Gertrude Stein ficará sempre associada ao retrato que Picasso fez dela: uma forma mais ligada à escultura do que à pintura, uma figura sólida, maciça, que nos olha com o ar remoto de um monge tibetano. A sua forte personalidade marcou indestrutivelmente todos os que com ela privaram. Adorava a escrita, acima de tudo (seguiam-se, na ordem dos seus afetos, Alice e os seus dois cães, Pépé e Basket) e procurou transformar o romance e a linguagem do século XX da mesma forma e com o mesmo génio que o seu amigo Picasso, em relação às artes visuais.

Morreu a 27 de Junho de 1946 e foi enterrada no cemitério Père Lachaise, em Paris. Dias antes, na cama do hospital onde estava internada, perguntara a Alice: "Qual é a resposta?" E, uma vez que a companheira não lhe respondeu, insistiu. " Então, qual é a pergunta?!". O seu humor e o seu génio permaneceram intactos até ao fim.

PARIS

A cidade que era uma festa.
No início do século 20, Paris era considerada a capital artística do mundo
Se hoje já possui lugar garantido no imaginário de muitos - "a Cidade Luz", como é conhecida pelos turistas, ou ainda "uma festa", conforme declarou Hemingway -, o que dizer da cidade numa época em que pelos seus cafés circulavam figuras como Picasso, Matisse e o próprio Hemingway? A cidade atraia tudo o que era vanguarda. Tendo como cenário uma Torre Eiffel recém-inaugurada (em 1889)nela desembarca em 1903 a Gertrude Stein.
Mais comentada do que lida, Gertrude Stein ficou muito conhecida pelo "agito social" que promoveu em Paris com as célebres festas da Rue de Fleurus. Gertrude tinha o hábito de entreter seus convidados (ou seria platéia?) com frases tão cortantes quanto inteligentes.Conquistas literárias polêmicas à parte, Gertrude passou mesmo a ser conhecida mais como figura social, colecionadora de obras de arte e mentora intelectual de jovens artistas do que como escritora. Embora sua figura tivesse alcançado as dimensões de estrelato da época, o mesmo não aconteceu com sua obra.

Foi nessa época também que Picasso pintou o seu famoso retrato, trabalho que, segundo sua autobiografia, marca o momento em que passou "da fase dos arlequins (...) para a luta intensiva que iria acabar no cubismo".
Nessa época(em 1910), Nijinsky, protagonista de uma trajetória brilhante e trágica -(era um prodígio, mas sofria de esquizofrenia), apresentou-se pela primeira vez em Paris na companhia Les Ballets Russes, de Sergei Diaghilev. Para os que preferiam uma noite de boemia, uma boa pedida era o cabaré Moulin Rouge, inaugurado em 1889.
Outra figura do período foi a livreira norte-americana Sylvia Beach, dona da famosa livraria parisiense Shakespeare and Company, responsável pela publicação, em 1922, da primeira edição de Ulysses, de James Joyce. A Shakespeare and Company é uma das livrarias mais famosas do mundo. O sucesso se deve a uma série de peculiaridades e, acima de tudo, à criadora da loja, Sylvia Beach (1887-1962). Inaugurada em 1919, para ser um local em que se encontrassem livros em inglês, a loja logo se tornou ponto de encontro de autores como F. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein e Ezra Pond. Foi lá também que se arrumou dinheiro para a primeira publicação de "Ulisses", de James Joyce, recusado anteriormente por inúmeros editores. Essa primeira "vida" da livraria durou até 1941, quando os nazistas ocuparam a cidade.