janeiro 06, 2008

REPARAÇÃO


Uma história sutil, mas de tirar o fôlego.Na trama de McEwan as coisas mudam de uma hora para outra, alteradas pelas pequenas peças que o destino prega em todos nós. E é isso que o livro/filme tem de melhor: a certeza de que nunca estamos a salvo de nós mesmos. Nos incomoda imaginar o que a vida poderia ter sido e não foi. O que poderíamos ter feito e não fizemos. Digo que é sempre melhor se arrepender de algo que se fez do que de algo que não se fez. Essa idéia é esfregada em nosso rosto, expondo nosso medo mais íntimo: o de que podemos não ter nos tornado as pessoas que sonhávamos ser.
Quantas vezes nos arrependemos de não ter dito algo? E o contrário? Quantas vezes nos arrependemos de ter falado demais? A vida é cruel: temos que tomar uma decisão e viver com ela.
Invariavelmente, cada caminho leva apenas a um lugar.
Este tema mais ou menos se repete no livro SÁBADO.

janeiro 05, 2008

"Conversas com Gaudí"


Obra que reafirma a importância de Gaudí para Barcelona traz encontros do arquiteto com o colega Martinell Brunet durante 11 anos

"Em 1915, o então estudante de arquitetura catalão e, depois, arquiteto César Martinell Brunet aproxima-se de Antoni Gaudí (1852/1926) em virtude de seu fascínio sentimental (mais do que consciente, como anota) pela construção da igreja Sagrada Família.
Gaudí deixara seus projetos de lado -o último deles a estupenda casa La Pedrera- para tornar-se seu diretor, em 1883, um ano após o início de sua edificação, e devotar o resto de sua existência à construção do que é considerada sua obra-prima, baseada no uso inovador de formas geométricas naturais, com uma complexidade que dialoga com as artes egípcias, assírias, greco-romanas e arábicas do norte da África e a igreja Santa Sofia de Constantinopla, em particular.
A importância do livro reside no fato de as notas de Brunet consistirem na única "entrevista" concedida por Gaudí em vida, que detestava escrever. Entrevista que vai de 1915 a 1926.
Brunet registrou muito de seu pensamento artístico e científico e de suas reflexões sobre a Sagrada Família. Por exemplo: "Revela que esta porta será também policrômica; diz que cor é vida e a falta de cor é manifestação mais visível da morte". Gaudí falava constantemente da luz do "campo de Tarragona" ao seu amigo Brunet, como uma luz superior, que predispunha os catalães do litoral a uma visão plástica das coisas. A cidade de Tarragona fica ao sul de Barcelona. Gaudí e Brunet nasceram em Reus, que se situa, sentido interior, próxima a ela.

Fellini
A igreja ainda está em obras, o que era previsto por Gaudí, que citava a Catedral de Colônia, "que esteve por centúrias sem abóbadas". No momento, ergue-se sua torre principal. A impressão que tive, agora em outubro, quando fiz leituras de poemas em Barcelona, na Casa América Catalunya, foi a de que estava dentro do filme "Roma", de Federico Fellini, especificamente na cena em que os trabalhadores do metrô descobrem um sítio arqueológico. A trilha sonora da visita consistiu no som de chiados ásperos de guindastes em manobra e de serras estridentes. A Sagrada Família está viva não só por sua complexidade mas porque, penso, Gaudí -um visionário- a previu como uma obra sempre em aberto, em movimento, como um móbile.
Na Quinta Güell, construída por Gaudí no final dos anos 1880 (Eusébio Güell foi próspero empresário que o apoiou incondicionalmente até sua própria morte) já se podem ver os "trencadís", colagens de azulezos quebrados de várias cores, rejuntados numa só peça. Os "trencadís" (palavra catalã) ficam mais explícitos ainda no Parque Güell, realizado de 1900 a 1914.
Neste parque, Gaudí utilizou-se do procedimento ready-made, sem sequer conhecer Marcel Duchamp. Aproveitou as curvas do morro, onde foi traçado, aproveitou-se das plantas locais, usou as palmeiras como falsos pilares etc.
O que quero assinalar é que Picasso não teria composto "Les Demoiselles D'Avignon" (1907), sem conhecer os "trencadís".
Picasso residiu por duas vezes em Barcelona antes de fazer este trabalho e só se tornou Picasso após sua estadia na cidade, de 1899 a 1900. Antes, como no caso de Machado de Assis, era um pintor convencional (por duas décadas). Picasso freqüentou a Carrer d'Avinyó, em Barcelona, onde havia bares e bordéis. As meninas d'Avinyó são prostitutas dessa rua.
A Sagrada Família é uma dessas obras ímpares do século 20 e, como segue, do 21. Disse Gaudí a Brunet: "...Afirma que a palavra é o tempo. (...) através da palavra, vivenciamos épocas passadas e futuras...".
As anotações de Brunet permitem-nos verificar que o catolicismo de Gaudí era dissociado de sua obra lúdica e que, como o historiador da arte Giulio Carlo Argan, prefeito de direito, que recuperou Roma, Gaudí foi o prefeito de fato de Barcelona".
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RÉGIS BONVICINO

janeiro 04, 2008

HENFIL (05.02.1944/ 04.01.1988)

Seus principais personagens:

FRADIM BAIXIM - frade baixinho de humor sádico. Seu gesto "Top! Top!" tornou-o o personagem mais famoso do Henfil






BODE FRANCISCO ORELANA* - intelectual e defensor do
status quo.





CAPITÃO ZEFERINO* - nordestino cangaceiro







GRAÚNA* - ave da caatinga e eterna crítica do Sul maravilha






FRADIM CUMPRIDO - frade magrelo, parceiro e vítima do Baixim















HENRIQUE DE SOUZA FILHO, ou HENFIL, como era conhecido o desenhista jornalista e escritor, nasceu em MG (Ribeirão das Neves) e morreu no Rio de Janeiro, aos 43 anos.

Era hemofílico e contraiu Aids através de uma transfusão de sangue.
Foi embalador de queijos, "boy" de agência de publicidade e jornalista, até especializar-se, no início da década de 60, em ilustração e produção de histórias em quadrinhos.
Tornou-se conhecido nacionalmente, a partir de 1969, quando passou a colaborar no "Pasquim" e lançou a revista "Os Fradinhos", ou apenas "Fradins".
Sua carreira de cartunista e quadrinhista teve início em 1964 na Revista Alterosa de BH, onde nasceram "Os Fradinhos". Em 1965, passou a fazer caricatura política para o Diário de Minas, em 1967, fez charges esportivas para o Jornal dos Sports do Rio de Janeiro. Foi colaborador das revistas: Visão, Realidade, Placar e o Cruzeiro.
A partir de 1969, fixou-se no Pasquim e no Jornal do Brasil.
A sua produção de histórias em quadrinhos e cartoons tinha sua marca registrada: um desenho humorístico político, crítico e sátiro, com personagens tipicamente brasileiros.
Após 10 anos no Rio de Janeiro, Henfil mudou-se para Nova York, em tratamento de saúde e lá escreveu o "Diário de um Cucaracha".
Além das histórias em quadrinhos e cartoons de estilo inconfundível, escreveu uma peça de teatro - "A Revista do Henfil" (em co-autoria com Oswaldo Mendes);escreveu, dirigiu e atuou no filme "Tanga - Deu no New York Times" e teve uma incursão na televisão com o quadro " TV Homem", do programa "TV Mulher".
Como escritor, publicou sete livros: "Hiroxima, meu humor", "Diário de um cucaracha", (1976), "Dez em humor" (coletiva, em 1984), "Diretas já " (1984) e "Henfil na China", 'Fradim de Libertação" (1984), "Como se faz humor político". (1984).
Teve marcante participação e engajamento na resistência contra a ditadura, pela democratização do país, pela anistia aos presos políticos e pelas Diretas Já.
Merece destaque, ainda, o papel por ele exercido na história dos quadrinhos brasileiros: na renovação do desenho humorístico nacional; na criação de personagens típicos brasileiros, como "Os fradinhos", o "Capitão Zeferino", a "Graúna", e "Bode Orelana", entre outros.
Fazia um quadrinho da "descolonização", numa época em que os quadrinhos nacionais eram sufocados pela distribuição dos quadrinhos norte-americanos.
Fez de seu alegórico humor gráfico uma arma de resistência e combate à ditadura.
http://www.centrocultural.sp.gov.br/gibiteca/henfil.htm

"Mineiro visionário"
Assim o definiu o amigo, psiquiatra e escritor Hélio Pellegrino. " Fez do humor criativo o porta-voz da sua revolta com as injustiças do mundo. Seus desenhos de caráter político, às vezes agressivamente irônicos, outras vezes quase líricos, revelavam seu engajamento na vida pública do país. Oportuno em suas criações, mesmo durante o período mais terrível da repressão, ele sempre achava um jeito de desmascarar, denunciar, ridicularizar, sempre com a arma do riso, aqueles que oprimiam a nação".

TORNATORE - A desconhecida


“La sconosciuta”
V.Carreira
"Chato como eu só e azarado também quando se trata de localização no cinema ou no teatro, tive receio antes de se apagarem as luzes, pois as senhoras à minha frente pareciam dispostas a falar durante o filme, já que lembravam – não pude deixar de ouvir – as suas dificuldades na escola em tenra idade com línguas estrangeiras.
Qual o quê? Giuseppe Tornatore as manteve caladas o filme todo.
E não só a elas, eu – cinéfilo amador e chorão até não mais poder no cinema – também me calei e por duas horas só fiz sofrer em silêncio, sem palavras e sem lágrimas fáceis.
O espectador que espera mais um exercício de lirismo exacerbado, a exemplo do que acontece em “Cinema Paradiso” , “Malena” e afins, esqueça. O espectador de lágrimas insistentes, como eu, não espere um roteiro onírico e doce.
Para usar um verbo do qual não gosto, mas que decididamente está na moda, o filme impacta, sim “impacta”.(Ainda que eu prefira o adjetivo). Vá lá: o mais novo filme de Tornatore é impactante. E, cuidado, a sinopse do jornalzinho ou da gazeta da sua cidade pode levá-lo ao erro ou, o que é pior, fazer com que você deixe de vê-lo, afinal eles dirão apenas que uma migrante ucraniana vai a Itália em busca de uma vida melhor e acaba prostituindo-se. Mon Dieu, que poder de síntese e que desinteresse – diria eu – pela obra de Tornatore, que, mal ou bem, já nos emocionou com seu metacinema.
Não deixe de conhecer essa, infelizmente talvez comum nesse mundo cão, “desconhecida”.
Do tráfico de escravas brancas para a prostituição todos já ouvimos falar e, infelizmente, como a maioria das mazelas desse mundo pós-moderno e globalizado, o tema já não surpreende, mas a finalidade para a qual será usada a escrava Irena vai estarrecer, ah vai!
A respeito da humilhação e da discriminação vividas pelos imigrantes numa Europa desejosa de braçais e paradoxalmente xenófoba já lemos ou, azaradamente, já presenciamos ao vivo e com matizes não tão belos. Mas que dizer da cena do supermercado, da relação do porteiro com a serviçal estrangeira ou da seleção de domésticas realizada pela mãe de Tea? É impactante, é estarrecedor.
Que volta e meia lugares exóticos e recônditos ou mesmo do centro do mundo nos oferecem boas atrizes muito já se disse e já se viu no cinema, porém a jovem camaleônica, linda por vezes, assustadoramente repulsiva por outras, Kseniya Rappoport, a Irena, faz muito mais que isso: ela surpreende, assusta e emociona. Fria como a temperatura da Itália que o filme nos mostra, má como a vida sói moldar algumas pessoas às vezes, decidida como um duro soldado, incisiva como aqueles que sabem exatamente o que querem, ela conquista o espectador – o que não é tarefa fácil, dado seu passado, mostrado em rápidos e desesperadores “flashes-backs”. O filme, sem dúvida, é impactante, estarrecedor, surpreendente e desesperador.
E apesar da concessão final do roteiro, não se iluda, futuro espectador de “La sconosciuta”, a sensação que fica – e incrível – sem lágrimas fáceis, é de náuseas como se você mesmo tivesse levado todos os chutes que literal e metaforicamente Irena recebeu pela vida afora.
Deixe de lado esse simplismo do encarregado das sinopses e acompanhe a trajetória de Irena. Ucraniana, sim; migrante, também; prostituta, também – e que preguiça de ver se fosse só isso, que “déjà vu” seria, mas o filme é muito mais."

* * * * *
O que disse o diretor:
Candidato italiano a uma vaga no Oscar-2008, "A Desconhecida" é um thriller sobre uma escrava sexual ucraniana que foge de seus captores italianos e ruma ao norte do país, onde tenta se aproximar da filha adotiva de uma família rica.
"Por anos pensei nessa história. É algo que me atraiu profundamente essa figura extraordinária e misteriosa de mulher, que conheceu só a humilhação e, com a mesma linguagem da violência que sofreu, decide dar novo significado à própria existência".
Mas a protagonista não é uma heroína qualquer.Se Tornatore busca, num primeiro momento, despertar compaixão pela personagem que sofreu nas mãos de estupradores e cafetões, engata, depois, a marcha à ré ao mostrá-la como a forasteira perigosa que se infiltrou entre os italianos de bem.
"Seria estúpido confundir a minha história como uma tomada de posição contra a política da União Européia. Eu queria apenas mostrar a obsessão de uma mulher que se rebela e faz de tudo para reaver a maternidade", diz Tornatore, rebatendo críticos que viram no enredo um manifesto antiimigração. "Mas a quem quiser uma leitura política do filme, diria que é uma apologia à tolerância, sobre o respeito aos direitos e sentimentos de todos os desconhecidos que nos cercam cotidianamente."
Embora não tenha abandonado o olhar emotivo que o celebrizou, Tornatore admite que este é um filme mais hollywoodiano. As reviravoltas constantes e um roteiro que despreza a verossimilhança mostram que a mudança de rota não foi fácil.
Sobre a chance de ganhar mais uma vez o Oscar, em fevereiro do ano que vem, Tornatore diz que não faz filmes pensando nos prêmios, embora os considere "maravilhosos acidentes de percurso".

janeiro 02, 2008

MULHER MADURA




A MULHER MADURA

O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.




QUE PRESENTE TE DAR
Que presente te darei, eu que tanto quero e pouco dou, porque mesquinho, egoísta, distraído não te cumulo daquilo que deveria cumular?
Deveria desatar inúmeros presentes ao pé da árvore, entreabrindo jóias, tecidos, requintados e pessoais objetos, ou deveria dar-te não o que posso buscar lá fora, mas o que, em mim, está fechado e mal sei desembrulhar?
Gostaria de dar-te coisas naturais, feitas com a mão como fazem os camponeses, os artesãos, como faz a mulher que ama e prepara o Natal com seus dedos e receitas, adornos e atenções.
Te dar, talvez, um pedaço de praia primitiva, como aquelas do Nordeste, ou de antigamente – Búzios e Cabo Frio; um pedaço de mar das ilhas do Caribe, onde a água e o mar são transparentes e onde a areia é fina e brilhante e, sozinhos, habitam a eternidade, os amantes.
Te dar aquele verso de canção um dia ouvida não sei mais onde, se numa tarde de chuva, se entre os lençóis cansados; um verso, uma canção ou talvez o puro som de um saxofone ao fim do dia, som que tem qualquer coisa de promessa e melancolia.
Fugir uma tarde contigo para os motéis, quando todos os homens se perdem nos papéis e escritórios, números e tensões; fugir contigo para uma tarde assim, um espaço de amor entreaberto, um entreato na peça que nos prega a burocracia dos gestos.
Gravar numa fita as canções que me fazem lembrar de ti e ouvi-las, ou tocar de algum modo em algum cassete as frases que disseste, que em mim gravaste, frases líricas, precisas, que quando estou cinza, relembro e me iluminam.
Te enviar todos os cartões que colecionas, de todos os lugares que conheço ou que tu nem imaginas; ir a essas paisagens e ilhas e habitá-las com palavras de intermitente paixão.
Dar-te aquela casa de campo entre as montanhas, aquele amor entre a neblina, aquele espaço fora do mundo, fora dos outros espaços, sem telefone, sem estranhas ligações, para ali nos ligarmos um no outro em uma e dupla solidão.
Se queres jóias, te darei. Aqueles corais que vendem na Ponte Vecchia em Florença; o âmbar ou as pérolas que expõem nas lojas do Havaí; aquelas pedras de vidro para iridescentes colares, que vendem em Atenas, ao pé da Plaka, ao pé da Acrópole, que amorosa nos contempla.
Te dar numa viagem os castelos do Loire, e sair comendo e rindo juntos no roteiro gastronômico franco-italiano, ali comendo e aqueles vinhos bebendo, de tudo nos esquecendo, sobretudo dos remorsos tropicais de quem tem sempre ao lado um faminto desamparado, de culpa nos ferindo.
Te darei flores. Sempre planejei fazer isto. Tão simples: de manhã acordar displicente e começar a colher flores sob a cama. Ir tirando buquês de rosas, margaridas, vasos de íris, orquídeas que estão desabrochando e uma a uma, de flores ir te cumulando. E amanhecendo dirás: o amado hoje está mel puro, seu amor aflorou e está me perfumando.
Escrever bilhetes pela casa inteira, metê-los entre roupas, armários, prateleiras, para que na minha ausência comeces a descobrir recados daquele que nunca se ausentou, embora esse ar de quem vive partindo, mas se alguma vez partiu, partido foi para reunido regressar.
Te dar um gesto simples. Passar a mão de repente sobre tua mão, como se apalpa a vida ou fruto, que pede para ser colhido.
Te dar um olhar, não aquele olhar distraído, alienado de quem chegou inteiro e que se entrega enternecido e desamparado dizendo: olha, sou teu, agora veja lá o que vai fazer comigo.

janeiro 01, 2008

Carrington - filme de 1995 que só vi em 2007


A pura energia de um amor de perdição Jurandir Freire Costa



Christopher Hampton estréia no cinema com o pé direito. "Carrington" é um filme fora de série. Antes desta primeira experiência como diretor, Hampton fez o roteiro de "Ligações Perigosas", de Stephen Frears, a partir de uma peça de sua autoria, baseada no clássico de Choderlos de Laclos. Já então emergia a qualidade de seu talento.

Fazendo do genial moralismo de Laclos uma análise seca da vida de corte, Hampton anunciava "Carrington".

"Ligações Perigosas" conclui-se com a marquesa de Merteuil enfrentando corajosamente a humilhação que lhe fora imposta pelos pares aristocratas. Embora derrotada, ela manteve-se fiel à crença na imagem do mundo como teatro de aparências, desafiando o moralismo sentimental que se tornaria historicamente vencedor. O que em Laclos era signo de maldade e ressentimento tornava-se, em Hampton, lealdade à tradição. O apelo romântico passava ao segundo plano. O enigma das "Ligações Perigosas" era a paixão por um estilo de vida moribundo que conseguira dobrar a força do amor burguês.

"Carrington" leva ao paroxismo a insensatez de Merteuil. A história é desnorteante. Carrington, a personagem central, apaixona-se por Lytton com uma dedicação cega. Lytton morre e Carrington abre mão da vida como quem joga fora uma muleta sem utilidade. O episódio foi real, e parece tanto [56] mais extravagante quanto Lytton não tinha interesse sexual por mulheres. Como entender o despropósito, o sem-sentido de um amor tão estranho. O que queria Carrington? Qual o desejo de uma mulher que não se contenta apenas em ser mãe, amante, esposa ou artista e quer amar o outro com um amor alucinado que pede somente para ser reconhecido como amor?

Para nossa mentalidade, saturada de Rousseau ou do freudismo de manual, não faltam explicações: loucura histérica, loucura a dois; masoquismo feminino; masoquismo moral; erotismo da coisa real; gozo que não se inscreve na castração; fusão simbiótica; psicose branca; erotomania; "homossexualidade latente" etc. Talvez alguma coisa disto tudo tivesse, de fato, existido. Mas não é o que interessa a Hampton. Seu objetivo não é o de explicar as razões da desrazão. O importante é seguir o ritmo deste amor desmesurado.

Carrington desconcerta porque não é o outro familiar. Sua vida não tem o fascínio literário de vidas trágicas nem exemplifica o sofrimento miúdo das heroínas de folhetim. A paixão que experimenta não é feita de gestos gregos ou de soluços ao pé do ouvido. Do mesmo modo, seu amor nem é edificante nem escandaloso; é canino na constância, místico na intensidade, sereno no excesso e por isso mesmo não busca encontrar precursores ou fazer seguidores.

Carrington entrega-se a ele num claro delírio, sem chance de passo atrás. O que ela sentia - ela sabia - era único, desoladoramente único. Só Lytton podia entender e receber o que ela tinha para dar.

Numa verdadeira genealogia cinematográfica da moral, Hampton observa, atônito e maravilhado, o milagre do evento irrepetível. A vida, em sua variação cega, criou um amor sutil, improvável, imprevisto e que, no entanto, aconteceu. Carrington e Lytton apegam-se um ao outro como hera em paredão. Aquele amor, mostra Hampton, é pedido e doação; alienação e individuação; zero e infinito. Perto de Lytton, Carrington sonha, pinta, ri, sai de férias, casa, descasa, faz [57] amor e amizades; longe dele, esquece de si, pensa em negro, estanca o fluxo da alma até revê-lo e voltar a viver. Um amor tão grande, voraz e silencioso é uma afronta às paixões que aprendemos a idolatrar. Nosso imaginário amoroso é brasa dormida diante deste incêndio.

Enfim, como sabemos, um dia tudo passa. Lytton não é mais; Carrington não quer mais ser. Começa o ritual de despedida. O andamento do filme muda. O tema de amor estreita-se, retomado por lembranças que se atropelam. Pouco a pouco, tudo é abandonado: esperanças, desejos, lágrimas e, finalmente, palavras. "Sem, ti, diz ela, escrevo num livro em branco, choro num quarto vazio". Depois é só música. A câmara de Hampton fala dor, seu intérprete é Schubert.

O adágio do quinteto para cordas invade a tela. Cada nota é a legenda do que é visto sem poder ser dito. A doçura do cantabile é o fim da partida; seu último significante, um estampido.

No Ocidente inventamos o amor a Deus, o amor-paixão, o amor-sexual etc, todos produtos de fantasias masculinas. Depois do romantismo, sobretudo, estas figuras do amor condensaram-se num sentimentalismo que calou por muito tempo as vozes das mulheres.

Agora Hampton traz à luz uma inusitada manifestação do amor feminino. Esta devoção rebelde que recusa consolo ou objeto substituto; este amor sem dívida, culpa ou temor de transgressão; este impulso para perder-se no outro e só assim viver, não é sacrifício, padecimento, passividade ou submissão. É atividade pura; é pura energia expansiva; é puro milagre da linguagem; é puro clamor nietzscheano: "A grandeza do Homem é que ele é uma ponte e não um termo; o que podemos amar no Homem é que ele é transição e perdição". Carrington amou assim; viveu assim; morreu assim. O que pode querer uma mulher? Dentre os homens, mostra Hampton, só Lytton pôde aceitar um dom de amor oferecido no feminino singular.


Texto encontrado no livro "Razões públicas, emoções privadas". Rio de Janeiro: Rocco, 1999.