dezembro 20, 2008

Ainda o frescobol...

Faz umas duas semanas que na postagem “frescobol” citei uma frase do Rubem Alves, colhida sabedeus onde:“Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...”. Falava do que iria ser nossa boa conversa, uma vez que não tinha como jogar frescobol com meu amigo com quem ia à praia.
Anoto frases de vez em quando, sem me importar com o contexto em que foi dita e/ou escrita. Pinço o pensamento, a idéia que tanto pode estar num poema, ser parte de uma letra de música, ou mesmo um aforismo. Algumas com o tempo são descartadas, perdem a substância ou o significado. Não sou organizada ao ponto de fazer “coleção”. Nunca consegui colecionar senão fotografias (de beijos, em preto e branco). Durante um tempo estiveram expostas, quando cansei delas guardei.
Das frases, às vezes me perco para depois reencontrá-las, meio a esmo, em capas de talões de cheque, bulas de remédios ou guardanapos amarfanhados, guardadas na caixa dos óculos ou dos remédios, nos lugares mais impensáveis e profanos. Não anoto nada, nunca mesmo, em livros. Livro é sagrado! Não sei de onde tirei esta mística. (Dias atrás, um amigo que tenho em muito “boa conta” me confessou que já arrancou páginas de um livro de uma biblioteca. Fiquei dias com esta estória na cabeça...)
Assim soltas, as frases ficam pairando na minha cabeça. Tem as que teimam em se incorporar, como se passassem a ser minhas. Ao pretender usá-las me vejo às voltas com o problema da autoria que pesquiso às vezes sem êxito. Estas são mantidas comigo, para consumo próprio, imprestáveis que são para uso público.
A citação do Rubem Alves que mencionei (“conversar é ficar batendo sonho...”) foi retirada não sabia de qual (con)texto. Ontem, visitando, pela primeira vez, a sua “casa virtual” encontrei o texto abaixo :

“Prosear é um jeito de falar. Fala sem objetivo definido, como o vôo dos urubus - indo ao sabor do vento. Palavras fluindo. Um jeito taoísta de ser. Para prosa não existe 'ordem do dia', não há conclusões, não há decisões. A prosa não quer chegar a nenhum lugar. A prosa encontra sua felicidade em prosear. Como andar de barco a vela em que o bom não é chegar mas o 'estar indo'. 'A coisa não está nem na partida nem na chegada, mas na travessia', Guimarães Rosa. Prosear é brincar com as palavras. Escrevi uma crônica com o título Tênis x Frescobol, sobre dois tipos de fala. Fala do tipo Tênis tem um objetivo preciso: reduzir o outro ao silêncio por meio de uma cortada. Ter razão. Ganhar o argumento. Convencer. Sempre termina mal. Um ganha, fica feliz e se sentindo superior. O outro perde, fica com raiva e se sentindo inferior. Frescobol é diferente. A felicidade do jogo está em estar acontecendo, em não parar, vai, vem, vai, vem, vai, vem, como numa transa indiana, sem orgasmo, feita de um prazer permanente que não acaba. O orgasmo na transa, como a cortada no tênis, são o fim do brinquedo. Saber prosear, jogar conversa fora, é o segredo das relações amorosas. Nietzsche dizia que quando se vai casar a única pergunta importante a se fazer é 'terei prazer em conversar com essa pessoa quando eu for velho?' Nessa sala estaremos proseando. Falar sobre o que der na telha. Pensamentos avulsos. Dicas. Informações sobre as coisas novas na minha casa. Apareça sempre para prosear!

Sabe quando se tem a sensação de “déja lu” ?
Talvez a frase que me inspirou tenha saído da tal crônica.
Agora não dá, mas qualquer hora vou conferir. Outra razão para isto é que , um amigo (que não quis comentar a postagem), me enviou email dizendo que o “ ir e vir , ir e vir” do frescobol era sugestivo de sexo.
Será que ele também tinha lido o Rubem Alves?
É outra coisa que tenho para saber, mas só quando voltar da praia.

PS:Vivo afirmando que me casei uma última vez pensando que íamos ter sempre o que conversar. E agora fico sabendo que era uma recomendação do Nietzsche! O que ele não sabia era que só isso não basta.

Nenhum comentário: