janeiro 04, 2008

HENFIL (05.02.1944/ 04.01.1988)

Seus principais personagens:

FRADIM BAIXIM - frade baixinho de humor sádico. Seu gesto "Top! Top!" tornou-o o personagem mais famoso do Henfil






BODE FRANCISCO ORELANA* - intelectual e defensor do
status quo.





CAPITÃO ZEFERINO* - nordestino cangaceiro







GRAÚNA* - ave da caatinga e eterna crítica do Sul maravilha






FRADIM CUMPRIDO - frade magrelo, parceiro e vítima do Baixim















HENRIQUE DE SOUZA FILHO, ou HENFIL, como era conhecido o desenhista jornalista e escritor, nasceu em MG (Ribeirão das Neves) e morreu no Rio de Janeiro, aos 43 anos.

Era hemofílico e contraiu Aids através de uma transfusão de sangue.
Foi embalador de queijos, "boy" de agência de publicidade e jornalista, até especializar-se, no início da década de 60, em ilustração e produção de histórias em quadrinhos.
Tornou-se conhecido nacionalmente, a partir de 1969, quando passou a colaborar no "Pasquim" e lançou a revista "Os Fradinhos", ou apenas "Fradins".
Sua carreira de cartunista e quadrinhista teve início em 1964 na Revista Alterosa de BH, onde nasceram "Os Fradinhos". Em 1965, passou a fazer caricatura política para o Diário de Minas, em 1967, fez charges esportivas para o Jornal dos Sports do Rio de Janeiro. Foi colaborador das revistas: Visão, Realidade, Placar e o Cruzeiro.
A partir de 1969, fixou-se no Pasquim e no Jornal do Brasil.
A sua produção de histórias em quadrinhos e cartoons tinha sua marca registrada: um desenho humorístico político, crítico e sátiro, com personagens tipicamente brasileiros.
Após 10 anos no Rio de Janeiro, Henfil mudou-se para Nova York, em tratamento de saúde e lá escreveu o "Diário de um Cucaracha".
Além das histórias em quadrinhos e cartoons de estilo inconfundível, escreveu uma peça de teatro - "A Revista do Henfil" (em co-autoria com Oswaldo Mendes);escreveu, dirigiu e atuou no filme "Tanga - Deu no New York Times" e teve uma incursão na televisão com o quadro " TV Homem", do programa "TV Mulher".
Como escritor, publicou sete livros: "Hiroxima, meu humor", "Diário de um cucaracha", (1976), "Dez em humor" (coletiva, em 1984), "Diretas já " (1984) e "Henfil na China", 'Fradim de Libertação" (1984), "Como se faz humor político". (1984).
Teve marcante participação e engajamento na resistência contra a ditadura, pela democratização do país, pela anistia aos presos políticos e pelas Diretas Já.
Merece destaque, ainda, o papel por ele exercido na história dos quadrinhos brasileiros: na renovação do desenho humorístico nacional; na criação de personagens típicos brasileiros, como "Os fradinhos", o "Capitão Zeferino", a "Graúna", e "Bode Orelana", entre outros.
Fazia um quadrinho da "descolonização", numa época em que os quadrinhos nacionais eram sufocados pela distribuição dos quadrinhos norte-americanos.
Fez de seu alegórico humor gráfico uma arma de resistência e combate à ditadura.
http://www.centrocultural.sp.gov.br/gibiteca/henfil.htm

"Mineiro visionário"
Assim o definiu o amigo, psiquiatra e escritor Hélio Pellegrino. " Fez do humor criativo o porta-voz da sua revolta com as injustiças do mundo. Seus desenhos de caráter político, às vezes agressivamente irônicos, outras vezes quase líricos, revelavam seu engajamento na vida pública do país. Oportuno em suas criações, mesmo durante o período mais terrível da repressão, ele sempre achava um jeito de desmascarar, denunciar, ridicularizar, sempre com a arma do riso, aqueles que oprimiam a nação".

TORNATORE - A desconhecida


“La sconosciuta”
V.Carreira
"Chato como eu só e azarado também quando se trata de localização no cinema ou no teatro, tive receio antes de se apagarem as luzes, pois as senhoras à minha frente pareciam dispostas a falar durante o filme, já que lembravam – não pude deixar de ouvir – as suas dificuldades na escola em tenra idade com línguas estrangeiras.
Qual o quê? Giuseppe Tornatore as manteve caladas o filme todo.
E não só a elas, eu – cinéfilo amador e chorão até não mais poder no cinema – também me calei e por duas horas só fiz sofrer em silêncio, sem palavras e sem lágrimas fáceis.
O espectador que espera mais um exercício de lirismo exacerbado, a exemplo do que acontece em “Cinema Paradiso” , “Malena” e afins, esqueça. O espectador de lágrimas insistentes, como eu, não espere um roteiro onírico e doce.
Para usar um verbo do qual não gosto, mas que decididamente está na moda, o filme impacta, sim “impacta”.(Ainda que eu prefira o adjetivo). Vá lá: o mais novo filme de Tornatore é impactante. E, cuidado, a sinopse do jornalzinho ou da gazeta da sua cidade pode levá-lo ao erro ou, o que é pior, fazer com que você deixe de vê-lo, afinal eles dirão apenas que uma migrante ucraniana vai a Itália em busca de uma vida melhor e acaba prostituindo-se. Mon Dieu, que poder de síntese e que desinteresse – diria eu – pela obra de Tornatore, que, mal ou bem, já nos emocionou com seu metacinema.
Não deixe de conhecer essa, infelizmente talvez comum nesse mundo cão, “desconhecida”.
Do tráfico de escravas brancas para a prostituição todos já ouvimos falar e, infelizmente, como a maioria das mazelas desse mundo pós-moderno e globalizado, o tema já não surpreende, mas a finalidade para a qual será usada a escrava Irena vai estarrecer, ah vai!
A respeito da humilhação e da discriminação vividas pelos imigrantes numa Europa desejosa de braçais e paradoxalmente xenófoba já lemos ou, azaradamente, já presenciamos ao vivo e com matizes não tão belos. Mas que dizer da cena do supermercado, da relação do porteiro com a serviçal estrangeira ou da seleção de domésticas realizada pela mãe de Tea? É impactante, é estarrecedor.
Que volta e meia lugares exóticos e recônditos ou mesmo do centro do mundo nos oferecem boas atrizes muito já se disse e já se viu no cinema, porém a jovem camaleônica, linda por vezes, assustadoramente repulsiva por outras, Kseniya Rappoport, a Irena, faz muito mais que isso: ela surpreende, assusta e emociona. Fria como a temperatura da Itália que o filme nos mostra, má como a vida sói moldar algumas pessoas às vezes, decidida como um duro soldado, incisiva como aqueles que sabem exatamente o que querem, ela conquista o espectador – o que não é tarefa fácil, dado seu passado, mostrado em rápidos e desesperadores “flashes-backs”. O filme, sem dúvida, é impactante, estarrecedor, surpreendente e desesperador.
E apesar da concessão final do roteiro, não se iluda, futuro espectador de “La sconosciuta”, a sensação que fica – e incrível – sem lágrimas fáceis, é de náuseas como se você mesmo tivesse levado todos os chutes que literal e metaforicamente Irena recebeu pela vida afora.
Deixe de lado esse simplismo do encarregado das sinopses e acompanhe a trajetória de Irena. Ucraniana, sim; migrante, também; prostituta, também – e que preguiça de ver se fosse só isso, que “déjà vu” seria, mas o filme é muito mais."

* * * * *
O que disse o diretor:
Candidato italiano a uma vaga no Oscar-2008, "A Desconhecida" é um thriller sobre uma escrava sexual ucraniana que foge de seus captores italianos e ruma ao norte do país, onde tenta se aproximar da filha adotiva de uma família rica.
"Por anos pensei nessa história. É algo que me atraiu profundamente essa figura extraordinária e misteriosa de mulher, que conheceu só a humilhação e, com a mesma linguagem da violência que sofreu, decide dar novo significado à própria existência".
Mas a protagonista não é uma heroína qualquer.Se Tornatore busca, num primeiro momento, despertar compaixão pela personagem que sofreu nas mãos de estupradores e cafetões, engata, depois, a marcha à ré ao mostrá-la como a forasteira perigosa que se infiltrou entre os italianos de bem.
"Seria estúpido confundir a minha história como uma tomada de posição contra a política da União Européia. Eu queria apenas mostrar a obsessão de uma mulher que se rebela e faz de tudo para reaver a maternidade", diz Tornatore, rebatendo críticos que viram no enredo um manifesto antiimigração. "Mas a quem quiser uma leitura política do filme, diria que é uma apologia à tolerância, sobre o respeito aos direitos e sentimentos de todos os desconhecidos que nos cercam cotidianamente."
Embora não tenha abandonado o olhar emotivo que o celebrizou, Tornatore admite que este é um filme mais hollywoodiano. As reviravoltas constantes e um roteiro que despreza a verossimilhança mostram que a mudança de rota não foi fácil.
Sobre a chance de ganhar mais uma vez o Oscar, em fevereiro do ano que vem, Tornatore diz que não faz filmes pensando nos prêmios, embora os considere "maravilhosos acidentes de percurso".

janeiro 02, 2008

MULHER MADURA




A MULHER MADURA

O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.




QUE PRESENTE TE DAR
Que presente te darei, eu que tanto quero e pouco dou, porque mesquinho, egoísta, distraído não te cumulo daquilo que deveria cumular?
Deveria desatar inúmeros presentes ao pé da árvore, entreabrindo jóias, tecidos, requintados e pessoais objetos, ou deveria dar-te não o que posso buscar lá fora, mas o que, em mim, está fechado e mal sei desembrulhar?
Gostaria de dar-te coisas naturais, feitas com a mão como fazem os camponeses, os artesãos, como faz a mulher que ama e prepara o Natal com seus dedos e receitas, adornos e atenções.
Te dar, talvez, um pedaço de praia primitiva, como aquelas do Nordeste, ou de antigamente – Búzios e Cabo Frio; um pedaço de mar das ilhas do Caribe, onde a água e o mar são transparentes e onde a areia é fina e brilhante e, sozinhos, habitam a eternidade, os amantes.
Te dar aquele verso de canção um dia ouvida não sei mais onde, se numa tarde de chuva, se entre os lençóis cansados; um verso, uma canção ou talvez o puro som de um saxofone ao fim do dia, som que tem qualquer coisa de promessa e melancolia.
Fugir uma tarde contigo para os motéis, quando todos os homens se perdem nos papéis e escritórios, números e tensões; fugir contigo para uma tarde assim, um espaço de amor entreaberto, um entreato na peça que nos prega a burocracia dos gestos.
Gravar numa fita as canções que me fazem lembrar de ti e ouvi-las, ou tocar de algum modo em algum cassete as frases que disseste, que em mim gravaste, frases líricas, precisas, que quando estou cinza, relembro e me iluminam.
Te enviar todos os cartões que colecionas, de todos os lugares que conheço ou que tu nem imaginas; ir a essas paisagens e ilhas e habitá-las com palavras de intermitente paixão.
Dar-te aquela casa de campo entre as montanhas, aquele amor entre a neblina, aquele espaço fora do mundo, fora dos outros espaços, sem telefone, sem estranhas ligações, para ali nos ligarmos um no outro em uma e dupla solidão.
Se queres jóias, te darei. Aqueles corais que vendem na Ponte Vecchia em Florença; o âmbar ou as pérolas que expõem nas lojas do Havaí; aquelas pedras de vidro para iridescentes colares, que vendem em Atenas, ao pé da Plaka, ao pé da Acrópole, que amorosa nos contempla.
Te dar numa viagem os castelos do Loire, e sair comendo e rindo juntos no roteiro gastronômico franco-italiano, ali comendo e aqueles vinhos bebendo, de tudo nos esquecendo, sobretudo dos remorsos tropicais de quem tem sempre ao lado um faminto desamparado, de culpa nos ferindo.
Te darei flores. Sempre planejei fazer isto. Tão simples: de manhã acordar displicente e começar a colher flores sob a cama. Ir tirando buquês de rosas, margaridas, vasos de íris, orquídeas que estão desabrochando e uma a uma, de flores ir te cumulando. E amanhecendo dirás: o amado hoje está mel puro, seu amor aflorou e está me perfumando.
Escrever bilhetes pela casa inteira, metê-los entre roupas, armários, prateleiras, para que na minha ausência comeces a descobrir recados daquele que nunca se ausentou, embora esse ar de quem vive partindo, mas se alguma vez partiu, partido foi para reunido regressar.
Te dar um gesto simples. Passar a mão de repente sobre tua mão, como se apalpa a vida ou fruto, que pede para ser colhido.
Te dar um olhar, não aquele olhar distraído, alienado de quem chegou inteiro e que se entrega enternecido e desamparado dizendo: olha, sou teu, agora veja lá o que vai fazer comigo.

janeiro 01, 2008

Carrington - filme de 1995 que só vi em 2007


A pura energia de um amor de perdição Jurandir Freire Costa



Christopher Hampton estréia no cinema com o pé direito. "Carrington" é um filme fora de série. Antes desta primeira experiência como diretor, Hampton fez o roteiro de "Ligações Perigosas", de Stephen Frears, a partir de uma peça de sua autoria, baseada no clássico de Choderlos de Laclos. Já então emergia a qualidade de seu talento.

Fazendo do genial moralismo de Laclos uma análise seca da vida de corte, Hampton anunciava "Carrington".

"Ligações Perigosas" conclui-se com a marquesa de Merteuil enfrentando corajosamente a humilhação que lhe fora imposta pelos pares aristocratas. Embora derrotada, ela manteve-se fiel à crença na imagem do mundo como teatro de aparências, desafiando o moralismo sentimental que se tornaria historicamente vencedor. O que em Laclos era signo de maldade e ressentimento tornava-se, em Hampton, lealdade à tradição. O apelo romântico passava ao segundo plano. O enigma das "Ligações Perigosas" era a paixão por um estilo de vida moribundo que conseguira dobrar a força do amor burguês.

"Carrington" leva ao paroxismo a insensatez de Merteuil. A história é desnorteante. Carrington, a personagem central, apaixona-se por Lytton com uma dedicação cega. Lytton morre e Carrington abre mão da vida como quem joga fora uma muleta sem utilidade. O episódio foi real, e parece tanto [56] mais extravagante quanto Lytton não tinha interesse sexual por mulheres. Como entender o despropósito, o sem-sentido de um amor tão estranho. O que queria Carrington? Qual o desejo de uma mulher que não se contenta apenas em ser mãe, amante, esposa ou artista e quer amar o outro com um amor alucinado que pede somente para ser reconhecido como amor?

Para nossa mentalidade, saturada de Rousseau ou do freudismo de manual, não faltam explicações: loucura histérica, loucura a dois; masoquismo feminino; masoquismo moral; erotismo da coisa real; gozo que não se inscreve na castração; fusão simbiótica; psicose branca; erotomania; "homossexualidade latente" etc. Talvez alguma coisa disto tudo tivesse, de fato, existido. Mas não é o que interessa a Hampton. Seu objetivo não é o de explicar as razões da desrazão. O importante é seguir o ritmo deste amor desmesurado.

Carrington desconcerta porque não é o outro familiar. Sua vida não tem o fascínio literário de vidas trágicas nem exemplifica o sofrimento miúdo das heroínas de folhetim. A paixão que experimenta não é feita de gestos gregos ou de soluços ao pé do ouvido. Do mesmo modo, seu amor nem é edificante nem escandaloso; é canino na constância, místico na intensidade, sereno no excesso e por isso mesmo não busca encontrar precursores ou fazer seguidores.

Carrington entrega-se a ele num claro delírio, sem chance de passo atrás. O que ela sentia - ela sabia - era único, desoladoramente único. Só Lytton podia entender e receber o que ela tinha para dar.

Numa verdadeira genealogia cinematográfica da moral, Hampton observa, atônito e maravilhado, o milagre do evento irrepetível. A vida, em sua variação cega, criou um amor sutil, improvável, imprevisto e que, no entanto, aconteceu. Carrington e Lytton apegam-se um ao outro como hera em paredão. Aquele amor, mostra Hampton, é pedido e doação; alienação e individuação; zero e infinito. Perto de Lytton, Carrington sonha, pinta, ri, sai de férias, casa, descasa, faz [57] amor e amizades; longe dele, esquece de si, pensa em negro, estanca o fluxo da alma até revê-lo e voltar a viver. Um amor tão grande, voraz e silencioso é uma afronta às paixões que aprendemos a idolatrar. Nosso imaginário amoroso é brasa dormida diante deste incêndio.

Enfim, como sabemos, um dia tudo passa. Lytton não é mais; Carrington não quer mais ser. Começa o ritual de despedida. O andamento do filme muda. O tema de amor estreita-se, retomado por lembranças que se atropelam. Pouco a pouco, tudo é abandonado: esperanças, desejos, lágrimas e, finalmente, palavras. "Sem, ti, diz ela, escrevo num livro em branco, choro num quarto vazio". Depois é só música. A câmara de Hampton fala dor, seu intérprete é Schubert.

O adágio do quinteto para cordas invade a tela. Cada nota é a legenda do que é visto sem poder ser dito. A doçura do cantabile é o fim da partida; seu último significante, um estampido.

No Ocidente inventamos o amor a Deus, o amor-paixão, o amor-sexual etc, todos produtos de fantasias masculinas. Depois do romantismo, sobretudo, estas figuras do amor condensaram-se num sentimentalismo que calou por muito tempo as vozes das mulheres.

Agora Hampton traz à luz uma inusitada manifestação do amor feminino. Esta devoção rebelde que recusa consolo ou objeto substituto; este amor sem dívida, culpa ou temor de transgressão; este impulso para perder-se no outro e só assim viver, não é sacrifício, padecimento, passividade ou submissão. É atividade pura; é pura energia expansiva; é puro milagre da linguagem; é puro clamor nietzscheano: "A grandeza do Homem é que ele é uma ponte e não um termo; o que podemos amar no Homem é que ele é transição e perdição". Carrington amou assim; viveu assim; morreu assim. O que pode querer uma mulher? Dentre os homens, mostra Hampton, só Lytton pôde aceitar um dom de amor oferecido no feminino singular.


Texto encontrado no livro "Razões públicas, emoções privadas". Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

dezembro 31, 2007

VIVA 2008!!!!!!


RECEITA DE ANO NOVO
Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)



Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.



Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

BOM DIA ANGÚSTIA!!!

"Por que alguma coisa em vez de nada ?
Por que isto em vez de outra coisa ?
Eu em vez de outro ?
Viver em vez de morrer ?
Assim e não de outra maneira ?

Mas ninguém para salvar e é a própria salvação.
É preferir dizer o mal que é do que o bem que não é.

A Moral não pertence a ninguém.
Mas a esquerda não a pode dispensar enquanto a direita
como tal, não precisa dela.

O que o dinheiro nos ensina não é que somos egoístas,
mas a que ponto somos.
O valor de um ser humano, sua dignidade é o que nele não está a venda, o que não tem preço. Se tudo se vende é porque nada vale.

Como o coração humano é oco e cheio de lixo.

O dinheiro não é um bem dentre outros, é o equivalente a todos. Não é um bem real, é o acesso indefinido a todos os bens possíveis. Não é, ou não somente, uma posse presente é a posse antecipada do futuro.
O dinheiro que temos é a promessa de tudo que teremos.
Já o usufruímos no imaginário pelo que a riqueza é também um prazer.
Ser rico é usufruir no presente de todo futuro disponível.

No entanto, mas vale amar o dinheiro pelo descanso que ele permite do que por aquele que ele faz perder.

Um gosto de morte, um gosto de solidão, um gosto de verdade, um gosto de vaidade, um gosto de decepção, um gosto de cansaço, um gosto de lassidão e tudo se mescla com os prazeres, envolve-os, acompanha-os, mascara-os ou ressalta-os conforme os momentos.

O corpo é um bom juiz e o único.

Não se morre uma vez, afinal de contas, morre-se todos os dias, cada instante de cada dia. A criança que eu era está morta no adulto que me tornei, aquele que eu era ontem está morto hoje ou sobrevivem em mim apenas na medida em que lhes sobrevivo, cada qual transporta seu cadáver consigo e jamais retornarão os amores antigos.

Nenhum SE é real.

O amor decepciona, a política decepciona, a arte decepciona, a filosofia decepciona. Pelo menos decepcionam primeiro e por muito tempo até o dia em que os amamos pelo que são, pelo que realmente são, pelo que são apesar de tudo e já não pelo que se tinha esperado deles.
Não se trata de acreditar.
Trata-se de conhecer e amar.

toda esperança é decepcionada sempre
Só existe felicidade inesperada.

Amar é aceitar, suportar quando preciso
Alegrar-se quando se pode
Sabedoria trágica é a única que não mente.

Felicidade e infelicidade
Vida e morte
Prazer e sofrimento

Aquele que só amasse a felicidade não amaria a vida e com isso se proibiria de ser feliz. A vida não é um supermercado cujo os clientes seríamos nós. O universo nada tem para nos vender e nada diferente para oferecer senão ele próprio, nada diferente senão tudo.

Como a vida tem gosto de felicidade assim a felicidade tem gosto de desespero.
A vida é o contrário de uma utopia.
A vida é o conjunto das funções que resistem a morte."

(Este texto é parte do livro do mesmo nome, do filósofo contemporâneo francês André Comte-Sponville)

Os inconformados

A maldição dos que não se conformam

Cada vez que fazem o que se costuma fazer nas datas certas, como todo mundo, sofrem, e muito.

NINGUÉM DECIDE ser inconformado; eles nascem assim, ou não.
O universo dos que não se conformam é único. Sem nem se dar conta, eles compram as revistas de moda só para fazer exatamente o contrário do que elas mandam. Se foi decretado que o amarelo é a cor desse verão, o inconformado não precisa nem pensar: antes de sair de casa, tudo funciona no piloto automático, e até que o amarelo saia de moda ele não será visto convivendo com nada dessa cor; talvez nem coma mais bananas, até a onda passar.
Ele estará sempre ou muito à frente do seu tempo, ou lá atrás, bem longe. Um inconformado não iria, por dinheiro nenhum, passar o Réveillon ou o Carnaval em Salvador ou Trancoso; para ele, isso é coisa de um passado remoto, já vivido, ou talvez de um futuro, um dia. Recentemente foi obrigado a deixar de lado o vinho rosé, de que gostava tanto -e até bebia com duas pedrinhas de gelo- para não fazer parte da turma que descobriu, em 2007, esse tão antigo vinho da Provence. Teve que rever seus gostos, pelo menos por aqui, para não fazer parte do mundo dos que seguem a moda de perto demais. Os inconformados sofrem.
Não que sejam pessoas difíceis; elas apenas gostam de andar na contramão, e isso em tudo. Um inconformado só freqüenta praias no inverno, não vai a restaurantes da moda, e seu roteiro internacional é, geralmente, um pouco de Paris, Veneza, Marrakech ou Capri -fora de estação, é claro. Nunca pisaram em Bali e estão esperando que passe a febre da Índia para poderem voltar a esse país tão lindo, hoje tão banalizado; preferem ficar em casa, inteiramente sós, a fazer parte de qualquer grupo que se guia por modismos.
Um inconformado detesta datas; não sabe do dia do aniversário de nenhum amigo e gostaria que esquecessem do dele. Quando pode, pega um avião, vai para bem longe e só volta uns dez dias depois da "data querida", mas nem sempre consegue se livrar; tem sempre um amigo ou uma amiga que lembra e dá os parabéns quando ele volta. E tem mais: se ninguém se lembrar, o inconformado é capaz de sofrer, se achando um rejeitado. Se não é fácil entender um inconformado, mais difícil é ser um deles.
O fim de ano dos inconformados é um verdadeiro suplício; quando vê um gorrinho de Papai Noel, os comerciais na TV anunciando o Natal, as guirlandas de luzinhas piscando, ele passa mal, e se alguém mandar um cartão de feliz Natal ou uma lembrancinha, quer se atirar pela janela. Passa tudo adiante imediatamente, mas felizmente empregadas domésticas e porteiros estão aí para isso mesmo. Entre 20 de dezembro e 6 de janeiro, em suas casas não entra uma só castanha, um só panetone, nada que lembre, de longe, o tal do Natal; e, se conseguir, durante esse prazo nem atende o telefone. Um problema, entender um inconformado.
Eles até tentam, mas não conseguem -e não por falta de esforço; a cada vez que fazem o que se costuma fazer nas datas certas, como todo mundo, sofrem, e muito. Depois de algumas tentativas, desistem, ficam como são, e pronto; mas fácil não é.
Basicamente, os inconformados não suportam ter que viver da maneira que foi determinada, seja lá por quem for, mas têm, pelo menos, um mérito: não obrigam ninguém a fazer o que eles querem, seja lá o que for.
Só um inconformado compreende outro inconformado, e como eles são poucos, geralmente passam a vida sós; sós e sofrendo, porque eles sofrem -mas preferem assim. Mas, de alguma maneira, não escapam de desejar, a amigos e a todos, um feliz Ano Novo.
Sendo assim, feliz 2008.
Danuza Leão
Chega de Saudade

"Vai, minha tristeza, e diz a ela que sem ela não pode ser..." A gravação da canção de Tom e Vinicius por João Gilberto completa 50 anos em 2008. Nunca mais seríamos tão modernos. Mas alguns podem dizer: "Chega de saudade!".
O próprio Ruy Castro, que sabe dessas coisas, escreveu anteontem uma coluna deliciosa -"Bom era antes"-, em que mostrava como cada geração fixou, em algum lugar do passado, a sua imagem idílica do Rio, anterior à decadência que viria desaguar na conflagração atual.
Seja como for, 1958 funciona como ano-símbolo de um período memorável. Foi quando o gênio de Pelé surgiu para o mundo, na Copa da Suécia -nossa primeira taça.
Mas foi sobretudo a época em que tomou forma e se tornou tangível um esforço coletivo de construção nacional. Uma utopia brasileira -por que não?- que tinha em Brasília sua síntese e seu ponto de fuga.
A bossa nova, Guimarães Rosa, a poesia concreta são testemunhos desses anos que prometiam integrar passado e futuro numa sociedade mais harmonizada. Diante do milagre visual que são as bandeirinhas de Volpi, como não enxergar um país reconciliado, enraizado e livre, interior e moderno, fiel às tradições e acolhedor do novo?
Um grande amigo vê nessa nostalgia a ilusão retrospectiva e sentimental de uma pequena elite litorânea. De fato, em 1958 o país tinha 1/3 da população atual, menos da metade (45%) nas cidades.
Quando a Constituição de 1988 fixou direitos e garantias sociais em grau inédito, já éramos uma sociedade urbana de massas. Fomos então atropelados pelo trem-bala da nova ordem econômica mundial e passamos 20 anos atrás do prejuízo, agarrados à segunda classe.
Gente que respeito está agora mais otimista com nossas perspectivas. Observo, como Riobaldo, desconfiado. E, por teimosia, vou para o mato, levando meus CDs do Tom Jobim. Volto de férias em fevereiro. Estou me guardando pra quando o Carnaval chegar. Feliz 2008!
Fernando de Barros e Silva

Bom era antes
Ruy Castro
Outro dia, uma querida cantora interrompeu seu show de bossa nova para se referir ao Rio dos anos 70 como a cidade "ainda maravilhosa", em que se podia andar "de olhos fechados". Em seguida, retomou o repertório cantando "Carta do Tom", em que Jobim dizia: "Rua Nascimento Silva, 107/ Eu saio correndo do pivete/ Tentando alcançar o elevador..." Uma canção dos anos 70.
Nessa época, já se via a década anterior, a de 60, como a dos "anos dourados", em que Ipanema, segundo Vinicius, "era só felicidade". Para o exigente Paulo Francis, no entanto, a decadência do Rio começara, olha só, em 1960. Bom era antes, até 1959, quando ele flanava por Copacabana com Antonio Maria e Ivan Lessa. Ali, sim, dizia Francis, o Rio era a Cidade Maravilhosa.
Mas, ao pesquisar material de 1955, quando morreu Carmen Miranda, li várias entrevistas de amigos de Carmen lembrando-se de que a tinham conhecido em 1930, "quando o Rio ainda era a Cidade Maravilhosa". Quer dizer que o Rio de 1955 não era mais a Cidade Maravilhosa, e sim o de 1930?
Ao recuar para 1930, vejo Di Cavalcanti, com 33 anos, queixando-se da "destruição do Rio", principalmente de Copacabana, pelos edifícios que começavam a ser construídos -justamente os palácios art déco que, um dia, iriam empolgar Paulo Francis. Para Di Cavalcanti, o Rio paradisíaco era o de sua juventude, cerca de 1915, com uma Copacabana ainda toda areal, pré-Copacabana Palace.
Será? Pois, em 1915, Lima Barreto estava esbravejando contra a superurbanização da cidade, o desmonte dos morros e a inocência perdida em 1904 com o bota-abaixo do prefeito Pereira Passos. Bom era antes. E por aí vai. O carioca não se contenta nunca, e não é de hoje. Aliás, no tempo de Estácio de Sá, em 1565, o pessoal já reclamava à beça.

dezembro 29, 2007

LELOUCH um contador de histórias

No seu novo filme, CRIMES DE AUTOR, ele consegue misturar diversas tramas numa só, atraindo o espectador ao ponto de que não queira piscar os olhos para não correr o risco de perder uma pista importante.
O filme começa com a entrevista de uma escritora num programa de televisão, em que apresenta o seu mais novo livro, considerado um best-seller em potencial. Em seguida, num flash-back, dentro do carro, um homem de meia idade, dirige no meio da chuva enquanto ouve notícias no rádio. Um fato curioso acaba sendo narrado pelo radialista: um serial killer tinha acabado de fugir da cadeia.
O viajante pára o automóvel num posto de gasolina onde encontra Huguette, uma cabeleireira que fora largada pelo namorado na beira da estrada. A partir daí, essa três histórias começam a se cruzar, misturando suspense, romance e road movie.
Fanny Ardant interpreta a escritora, e por mais que esteja na pele de uma megera, continua deslumbrante. Ainda que Lelouch consiga nos aproximar do perigo iminente, a doçura de cada personagem atenua bastante essa insegurança e deixa a narrativa tensa, engraçada e curiosa ao mesmo tempo.

A CORAGEM DE AMAR

Lançado após o policial Crimes de Autor, esta comédia dramática de histórias que se entrelaçam, traz à tona questões humanas:o cotidiano de figuras como uma esposa que trai seu marido policial, um morador de rua que afirma ser Deus, uma empregada doméstica que trabalha para uma atriz, apaixonada pelo seu motorista e pela dono de uma pizzaria, uma dupla de cantores de rua com idades bem distantes.

RETRATOS DA VIDA ( Les uns et les autres)
O filme se passa durante a Segunda Guerra Mundial, quatro família de distintos países - Estados Unidos, França, Alemanha e Rússia - se cruzam em circunstâncias históricas e se unem através da dança e do drama.
Consagra o clássico Bolero de Ravel na coreografia marcante de Jorge Donn em pleno Trocadero parisiense. A música tornou-se uma verdadeira febre na época, sendo quase impossível ouvi-la sem associá-la ao filme.
Tem no elenco: James Caan, Robert Houssein, Geraldine Chaplin, Nicole Garcia, Fanny Ardant .

Quatro meses, tres semanas e dois dias

4 Mois, 3 Semaines et 2 Jours est le deuxième long-métrage d’un jeune réalisateur roumain, Cristian Mungiu, auteur en 2002 d’Occident. Dans ce nouveau film, il revient sur le passé récent de son pays, à travers l’histoire d’une jeune fille, Gabita, qui souhaite se faire avorter -ce qui est à l’époque interdit. Avec l’aide d’une amie, Ottila, elle fait appel à un certain M. Bebe, mais l’une comme l’autre ignorent tout de la terrible épreuve qui les attend.

« 4 Mois, 3 Semaines et 2 Jours est avant tout une histoire de choix personnels », précise le réalisateur. « C’est aussi une histoire sur les conséquences subtiles et souvent invisibles de l’endoctrinement (…) Mais c’est principalement une histoire sur l’avortement, à une époque où cela était considéré comme un acte de liberté et de protestation contre le régime communiste qui interdisait l’avortement afin d’augmenter la main d’œuvre disciplinée.»



4 MOIS, 3 SEMAINES ET 2 JOURS réalisé par Cristian MUNGIU
ROUMANIE - Palme d'Or, 2007

Cristian Mungiu : « Je n’ai pas voulu faire un film sur l’avortement ou le communisme, je pense que le film va au-delà de cela. Mais il y a beaucoup d’allusions au communisme, par exemple dans la scène du repas. L’avortement me semblait un bon exemple pour parler de l’influence qu’ont sur nous la propagande et l’éducation qu’on reçoit, même si on ne s’en rend pas compte sur le moment. »