janeiro 01, 2008

Carrington - filme de 1995 que só vi em 2007


A pura energia de um amor de perdição Jurandir Freire Costa



Christopher Hampton estréia no cinema com o pé direito. "Carrington" é um filme fora de série. Antes desta primeira experiência como diretor, Hampton fez o roteiro de "Ligações Perigosas", de Stephen Frears, a partir de uma peça de sua autoria, baseada no clássico de Choderlos de Laclos. Já então emergia a qualidade de seu talento.

Fazendo do genial moralismo de Laclos uma análise seca da vida de corte, Hampton anunciava "Carrington".

"Ligações Perigosas" conclui-se com a marquesa de Merteuil enfrentando corajosamente a humilhação que lhe fora imposta pelos pares aristocratas. Embora derrotada, ela manteve-se fiel à crença na imagem do mundo como teatro de aparências, desafiando o moralismo sentimental que se tornaria historicamente vencedor. O que em Laclos era signo de maldade e ressentimento tornava-se, em Hampton, lealdade à tradição. O apelo romântico passava ao segundo plano. O enigma das "Ligações Perigosas" era a paixão por um estilo de vida moribundo que conseguira dobrar a força do amor burguês.

"Carrington" leva ao paroxismo a insensatez de Merteuil. A história é desnorteante. Carrington, a personagem central, apaixona-se por Lytton com uma dedicação cega. Lytton morre e Carrington abre mão da vida como quem joga fora uma muleta sem utilidade. O episódio foi real, e parece tanto [56] mais extravagante quanto Lytton não tinha interesse sexual por mulheres. Como entender o despropósito, o sem-sentido de um amor tão estranho. O que queria Carrington? Qual o desejo de uma mulher que não se contenta apenas em ser mãe, amante, esposa ou artista e quer amar o outro com um amor alucinado que pede somente para ser reconhecido como amor?

Para nossa mentalidade, saturada de Rousseau ou do freudismo de manual, não faltam explicações: loucura histérica, loucura a dois; masoquismo feminino; masoquismo moral; erotismo da coisa real; gozo que não se inscreve na castração; fusão simbiótica; psicose branca; erotomania; "homossexualidade latente" etc. Talvez alguma coisa disto tudo tivesse, de fato, existido. Mas não é o que interessa a Hampton. Seu objetivo não é o de explicar as razões da desrazão. O importante é seguir o ritmo deste amor desmesurado.

Carrington desconcerta porque não é o outro familiar. Sua vida não tem o fascínio literário de vidas trágicas nem exemplifica o sofrimento miúdo das heroínas de folhetim. A paixão que experimenta não é feita de gestos gregos ou de soluços ao pé do ouvido. Do mesmo modo, seu amor nem é edificante nem escandaloso; é canino na constância, místico na intensidade, sereno no excesso e por isso mesmo não busca encontrar precursores ou fazer seguidores.

Carrington entrega-se a ele num claro delírio, sem chance de passo atrás. O que ela sentia - ela sabia - era único, desoladoramente único. Só Lytton podia entender e receber o que ela tinha para dar.

Numa verdadeira genealogia cinematográfica da moral, Hampton observa, atônito e maravilhado, o milagre do evento irrepetível. A vida, em sua variação cega, criou um amor sutil, improvável, imprevisto e que, no entanto, aconteceu. Carrington e Lytton apegam-se um ao outro como hera em paredão. Aquele amor, mostra Hampton, é pedido e doação; alienação e individuação; zero e infinito. Perto de Lytton, Carrington sonha, pinta, ri, sai de férias, casa, descasa, faz [57] amor e amizades; longe dele, esquece de si, pensa em negro, estanca o fluxo da alma até revê-lo e voltar a viver. Um amor tão grande, voraz e silencioso é uma afronta às paixões que aprendemos a idolatrar. Nosso imaginário amoroso é brasa dormida diante deste incêndio.

Enfim, como sabemos, um dia tudo passa. Lytton não é mais; Carrington não quer mais ser. Começa o ritual de despedida. O andamento do filme muda. O tema de amor estreita-se, retomado por lembranças que se atropelam. Pouco a pouco, tudo é abandonado: esperanças, desejos, lágrimas e, finalmente, palavras. "Sem, ti, diz ela, escrevo num livro em branco, choro num quarto vazio". Depois é só música. A câmara de Hampton fala dor, seu intérprete é Schubert.

O adágio do quinteto para cordas invade a tela. Cada nota é a legenda do que é visto sem poder ser dito. A doçura do cantabile é o fim da partida; seu último significante, um estampido.

No Ocidente inventamos o amor a Deus, o amor-paixão, o amor-sexual etc, todos produtos de fantasias masculinas. Depois do romantismo, sobretudo, estas figuras do amor condensaram-se num sentimentalismo que calou por muito tempo as vozes das mulheres.

Agora Hampton traz à luz uma inusitada manifestação do amor feminino. Esta devoção rebelde que recusa consolo ou objeto substituto; este amor sem dívida, culpa ou temor de transgressão; este impulso para perder-se no outro e só assim viver, não é sacrifício, padecimento, passividade ou submissão. É atividade pura; é pura energia expansiva; é puro milagre da linguagem; é puro clamor nietzscheano: "A grandeza do Homem é que ele é uma ponte e não um termo; o que podemos amar no Homem é que ele é transição e perdição". Carrington amou assim; viveu assim; morreu assim. O que pode querer uma mulher? Dentre os homens, mostra Hampton, só Lytton pôde aceitar um dom de amor oferecido no feminino singular.


Texto encontrado no livro "Razões públicas, emoções privadas". Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

dezembro 31, 2007

VIVA 2008!!!!!!


RECEITA DE ANO NOVO
Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)



Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.



Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

BOM DIA ANGÚSTIA!!!

"Por que alguma coisa em vez de nada ?
Por que isto em vez de outra coisa ?
Eu em vez de outro ?
Viver em vez de morrer ?
Assim e não de outra maneira ?

Mas ninguém para salvar e é a própria salvação.
É preferir dizer o mal que é do que o bem que não é.

A Moral não pertence a ninguém.
Mas a esquerda não a pode dispensar enquanto a direita
como tal, não precisa dela.

O que o dinheiro nos ensina não é que somos egoístas,
mas a que ponto somos.
O valor de um ser humano, sua dignidade é o que nele não está a venda, o que não tem preço. Se tudo se vende é porque nada vale.

Como o coração humano é oco e cheio de lixo.

O dinheiro não é um bem dentre outros, é o equivalente a todos. Não é um bem real, é o acesso indefinido a todos os bens possíveis. Não é, ou não somente, uma posse presente é a posse antecipada do futuro.
O dinheiro que temos é a promessa de tudo que teremos.
Já o usufruímos no imaginário pelo que a riqueza é também um prazer.
Ser rico é usufruir no presente de todo futuro disponível.

No entanto, mas vale amar o dinheiro pelo descanso que ele permite do que por aquele que ele faz perder.

Um gosto de morte, um gosto de solidão, um gosto de verdade, um gosto de vaidade, um gosto de decepção, um gosto de cansaço, um gosto de lassidão e tudo se mescla com os prazeres, envolve-os, acompanha-os, mascara-os ou ressalta-os conforme os momentos.

O corpo é um bom juiz e o único.

Não se morre uma vez, afinal de contas, morre-se todos os dias, cada instante de cada dia. A criança que eu era está morta no adulto que me tornei, aquele que eu era ontem está morto hoje ou sobrevivem em mim apenas na medida em que lhes sobrevivo, cada qual transporta seu cadáver consigo e jamais retornarão os amores antigos.

Nenhum SE é real.

O amor decepciona, a política decepciona, a arte decepciona, a filosofia decepciona. Pelo menos decepcionam primeiro e por muito tempo até o dia em que os amamos pelo que são, pelo que realmente são, pelo que são apesar de tudo e já não pelo que se tinha esperado deles.
Não se trata de acreditar.
Trata-se de conhecer e amar.

toda esperança é decepcionada sempre
Só existe felicidade inesperada.

Amar é aceitar, suportar quando preciso
Alegrar-se quando se pode
Sabedoria trágica é a única que não mente.

Felicidade e infelicidade
Vida e morte
Prazer e sofrimento

Aquele que só amasse a felicidade não amaria a vida e com isso se proibiria de ser feliz. A vida não é um supermercado cujo os clientes seríamos nós. O universo nada tem para nos vender e nada diferente para oferecer senão ele próprio, nada diferente senão tudo.

Como a vida tem gosto de felicidade assim a felicidade tem gosto de desespero.
A vida é o contrário de uma utopia.
A vida é o conjunto das funções que resistem a morte."

(Este texto é parte do livro do mesmo nome, do filósofo contemporâneo francês André Comte-Sponville)

Os inconformados

A maldição dos que não se conformam

Cada vez que fazem o que se costuma fazer nas datas certas, como todo mundo, sofrem, e muito.

NINGUÉM DECIDE ser inconformado; eles nascem assim, ou não.
O universo dos que não se conformam é único. Sem nem se dar conta, eles compram as revistas de moda só para fazer exatamente o contrário do que elas mandam. Se foi decretado que o amarelo é a cor desse verão, o inconformado não precisa nem pensar: antes de sair de casa, tudo funciona no piloto automático, e até que o amarelo saia de moda ele não será visto convivendo com nada dessa cor; talvez nem coma mais bananas, até a onda passar.
Ele estará sempre ou muito à frente do seu tempo, ou lá atrás, bem longe. Um inconformado não iria, por dinheiro nenhum, passar o Réveillon ou o Carnaval em Salvador ou Trancoso; para ele, isso é coisa de um passado remoto, já vivido, ou talvez de um futuro, um dia. Recentemente foi obrigado a deixar de lado o vinho rosé, de que gostava tanto -e até bebia com duas pedrinhas de gelo- para não fazer parte da turma que descobriu, em 2007, esse tão antigo vinho da Provence. Teve que rever seus gostos, pelo menos por aqui, para não fazer parte do mundo dos que seguem a moda de perto demais. Os inconformados sofrem.
Não que sejam pessoas difíceis; elas apenas gostam de andar na contramão, e isso em tudo. Um inconformado só freqüenta praias no inverno, não vai a restaurantes da moda, e seu roteiro internacional é, geralmente, um pouco de Paris, Veneza, Marrakech ou Capri -fora de estação, é claro. Nunca pisaram em Bali e estão esperando que passe a febre da Índia para poderem voltar a esse país tão lindo, hoje tão banalizado; preferem ficar em casa, inteiramente sós, a fazer parte de qualquer grupo que se guia por modismos.
Um inconformado detesta datas; não sabe do dia do aniversário de nenhum amigo e gostaria que esquecessem do dele. Quando pode, pega um avião, vai para bem longe e só volta uns dez dias depois da "data querida", mas nem sempre consegue se livrar; tem sempre um amigo ou uma amiga que lembra e dá os parabéns quando ele volta. E tem mais: se ninguém se lembrar, o inconformado é capaz de sofrer, se achando um rejeitado. Se não é fácil entender um inconformado, mais difícil é ser um deles.
O fim de ano dos inconformados é um verdadeiro suplício; quando vê um gorrinho de Papai Noel, os comerciais na TV anunciando o Natal, as guirlandas de luzinhas piscando, ele passa mal, e se alguém mandar um cartão de feliz Natal ou uma lembrancinha, quer se atirar pela janela. Passa tudo adiante imediatamente, mas felizmente empregadas domésticas e porteiros estão aí para isso mesmo. Entre 20 de dezembro e 6 de janeiro, em suas casas não entra uma só castanha, um só panetone, nada que lembre, de longe, o tal do Natal; e, se conseguir, durante esse prazo nem atende o telefone. Um problema, entender um inconformado.
Eles até tentam, mas não conseguem -e não por falta de esforço; a cada vez que fazem o que se costuma fazer nas datas certas, como todo mundo, sofrem, e muito. Depois de algumas tentativas, desistem, ficam como são, e pronto; mas fácil não é.
Basicamente, os inconformados não suportam ter que viver da maneira que foi determinada, seja lá por quem for, mas têm, pelo menos, um mérito: não obrigam ninguém a fazer o que eles querem, seja lá o que for.
Só um inconformado compreende outro inconformado, e como eles são poucos, geralmente passam a vida sós; sós e sofrendo, porque eles sofrem -mas preferem assim. Mas, de alguma maneira, não escapam de desejar, a amigos e a todos, um feliz Ano Novo.
Sendo assim, feliz 2008.
Danuza Leão
Chega de Saudade

"Vai, minha tristeza, e diz a ela que sem ela não pode ser..." A gravação da canção de Tom e Vinicius por João Gilberto completa 50 anos em 2008. Nunca mais seríamos tão modernos. Mas alguns podem dizer: "Chega de saudade!".
O próprio Ruy Castro, que sabe dessas coisas, escreveu anteontem uma coluna deliciosa -"Bom era antes"-, em que mostrava como cada geração fixou, em algum lugar do passado, a sua imagem idílica do Rio, anterior à decadência que viria desaguar na conflagração atual.
Seja como for, 1958 funciona como ano-símbolo de um período memorável. Foi quando o gênio de Pelé surgiu para o mundo, na Copa da Suécia -nossa primeira taça.
Mas foi sobretudo a época em que tomou forma e se tornou tangível um esforço coletivo de construção nacional. Uma utopia brasileira -por que não?- que tinha em Brasília sua síntese e seu ponto de fuga.
A bossa nova, Guimarães Rosa, a poesia concreta são testemunhos desses anos que prometiam integrar passado e futuro numa sociedade mais harmonizada. Diante do milagre visual que são as bandeirinhas de Volpi, como não enxergar um país reconciliado, enraizado e livre, interior e moderno, fiel às tradições e acolhedor do novo?
Um grande amigo vê nessa nostalgia a ilusão retrospectiva e sentimental de uma pequena elite litorânea. De fato, em 1958 o país tinha 1/3 da população atual, menos da metade (45%) nas cidades.
Quando a Constituição de 1988 fixou direitos e garantias sociais em grau inédito, já éramos uma sociedade urbana de massas. Fomos então atropelados pelo trem-bala da nova ordem econômica mundial e passamos 20 anos atrás do prejuízo, agarrados à segunda classe.
Gente que respeito está agora mais otimista com nossas perspectivas. Observo, como Riobaldo, desconfiado. E, por teimosia, vou para o mato, levando meus CDs do Tom Jobim. Volto de férias em fevereiro. Estou me guardando pra quando o Carnaval chegar. Feliz 2008!
Fernando de Barros e Silva

Bom era antes
Ruy Castro
Outro dia, uma querida cantora interrompeu seu show de bossa nova para se referir ao Rio dos anos 70 como a cidade "ainda maravilhosa", em que se podia andar "de olhos fechados". Em seguida, retomou o repertório cantando "Carta do Tom", em que Jobim dizia: "Rua Nascimento Silva, 107/ Eu saio correndo do pivete/ Tentando alcançar o elevador..." Uma canção dos anos 70.
Nessa época, já se via a década anterior, a de 60, como a dos "anos dourados", em que Ipanema, segundo Vinicius, "era só felicidade". Para o exigente Paulo Francis, no entanto, a decadência do Rio começara, olha só, em 1960. Bom era antes, até 1959, quando ele flanava por Copacabana com Antonio Maria e Ivan Lessa. Ali, sim, dizia Francis, o Rio era a Cidade Maravilhosa.
Mas, ao pesquisar material de 1955, quando morreu Carmen Miranda, li várias entrevistas de amigos de Carmen lembrando-se de que a tinham conhecido em 1930, "quando o Rio ainda era a Cidade Maravilhosa". Quer dizer que o Rio de 1955 não era mais a Cidade Maravilhosa, e sim o de 1930?
Ao recuar para 1930, vejo Di Cavalcanti, com 33 anos, queixando-se da "destruição do Rio", principalmente de Copacabana, pelos edifícios que começavam a ser construídos -justamente os palácios art déco que, um dia, iriam empolgar Paulo Francis. Para Di Cavalcanti, o Rio paradisíaco era o de sua juventude, cerca de 1915, com uma Copacabana ainda toda areal, pré-Copacabana Palace.
Será? Pois, em 1915, Lima Barreto estava esbravejando contra a superurbanização da cidade, o desmonte dos morros e a inocência perdida em 1904 com o bota-abaixo do prefeito Pereira Passos. Bom era antes. E por aí vai. O carioca não se contenta nunca, e não é de hoje. Aliás, no tempo de Estácio de Sá, em 1565, o pessoal já reclamava à beça.

dezembro 29, 2007

LELOUCH um contador de histórias

No seu novo filme, CRIMES DE AUTOR, ele consegue misturar diversas tramas numa só, atraindo o espectador ao ponto de que não queira piscar os olhos para não correr o risco de perder uma pista importante.
O filme começa com a entrevista de uma escritora num programa de televisão, em que apresenta o seu mais novo livro, considerado um best-seller em potencial. Em seguida, num flash-back, dentro do carro, um homem de meia idade, dirige no meio da chuva enquanto ouve notícias no rádio. Um fato curioso acaba sendo narrado pelo radialista: um serial killer tinha acabado de fugir da cadeia.
O viajante pára o automóvel num posto de gasolina onde encontra Huguette, uma cabeleireira que fora largada pelo namorado na beira da estrada. A partir daí, essa três histórias começam a se cruzar, misturando suspense, romance e road movie.
Fanny Ardant interpreta a escritora, e por mais que esteja na pele de uma megera, continua deslumbrante. Ainda que Lelouch consiga nos aproximar do perigo iminente, a doçura de cada personagem atenua bastante essa insegurança e deixa a narrativa tensa, engraçada e curiosa ao mesmo tempo.

A CORAGEM DE AMAR

Lançado após o policial Crimes de Autor, esta comédia dramática de histórias que se entrelaçam, traz à tona questões humanas:o cotidiano de figuras como uma esposa que trai seu marido policial, um morador de rua que afirma ser Deus, uma empregada doméstica que trabalha para uma atriz, apaixonada pelo seu motorista e pela dono de uma pizzaria, uma dupla de cantores de rua com idades bem distantes.

RETRATOS DA VIDA ( Les uns et les autres)
O filme se passa durante a Segunda Guerra Mundial, quatro família de distintos países - Estados Unidos, França, Alemanha e Rússia - se cruzam em circunstâncias históricas e se unem através da dança e do drama.
Consagra o clássico Bolero de Ravel na coreografia marcante de Jorge Donn em pleno Trocadero parisiense. A música tornou-se uma verdadeira febre na época, sendo quase impossível ouvi-la sem associá-la ao filme.
Tem no elenco: James Caan, Robert Houssein, Geraldine Chaplin, Nicole Garcia, Fanny Ardant .

Quatro meses, tres semanas e dois dias

4 Mois, 3 Semaines et 2 Jours est le deuxième long-métrage d’un jeune réalisateur roumain, Cristian Mungiu, auteur en 2002 d’Occident. Dans ce nouveau film, il revient sur le passé récent de son pays, à travers l’histoire d’une jeune fille, Gabita, qui souhaite se faire avorter -ce qui est à l’époque interdit. Avec l’aide d’une amie, Ottila, elle fait appel à un certain M. Bebe, mais l’une comme l’autre ignorent tout de la terrible épreuve qui les attend.

« 4 Mois, 3 Semaines et 2 Jours est avant tout une histoire de choix personnels », précise le réalisateur. « C’est aussi une histoire sur les conséquences subtiles et souvent invisibles de l’endoctrinement (…) Mais c’est principalement une histoire sur l’avortement, à une époque où cela était considéré comme un acte de liberté et de protestation contre le régime communiste qui interdisait l’avortement afin d’augmenter la main d’œuvre disciplinée.»



4 MOIS, 3 SEMAINES ET 2 JOURS réalisé par Cristian MUNGIU
ROUMANIE - Palme d'Or, 2007

Cristian Mungiu : « Je n’ai pas voulu faire un film sur l’avortement ou le communisme, je pense que le film va au-delà de cela. Mais il y a beaucoup d’allusions au communisme, par exemple dans la scène du repas. L’avortement me semblait un bon exemple pour parler de l’influence qu’ont sur nous la propagande et l’éducation qu’on reçoit, même si on ne s’en rend pas compte sur le moment. »

dezembro 27, 2007

Mario Quintana


Olho as Minhas Mãos

Olho as minhas mãos: elas só não são estranhas
Porque são minhas. Mas é tão esquisito distendê-las
Assim, lentamente, como essas anêmonas do fundo do mar...
Fechá-las, de repente,
Os dedos como pétalas carnívoras !
Só apanho, porém, com elas, esse alimento impalpável do tempo,
Que me sustenta, e mata, e que vai secretando o pensamento
Como tecem as teias as aranhas.
A que mundo
Pertenço ?
No mundo há pedras, baobás, panteras,
Águas cantarolantes, o vento ventando
E no alto as nuvens improvisando sem cessar.
Mas nada, disso tudo, diz: "existo".
Porque apenas existem...
Enquanto isto,
O tempo engendra a morte, e a morte gera os deuses
E, cheios de esperança e medo,
Oficiamos rituais, inventamos
Palavras mágicas,
Fazemos
Poemas, pobres poemas
Que o vento
Mistura, confunde e dispersa no ar...
Nem na estrela do céu nem na estrela do mar
Foi este o fim da Criação !
Mas, então,
Quem urde eternamente a trama de tão velhos sonhos ?
Quem faz - em mim - esta interrogação ?

Canção do Amor Imprevisto

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E minha poesia é um vicio triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com tua boca fresca de madrugada,
Com teu passo leve,
Com esses teus cabelos...
E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...
A súbita alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!


Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

FRIDA KAHLO


Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón nasceu em Coyoacán, México, em 6 de julho de 1907 (faleceu em Coyoacán, 13 de julho de 1954).Era filha de um fotógrafo judeu-alemão Guilhermo Kahlo e de Matilde Calderón y Gonzalez.
Ao tres anos contrai poliomielite, sendo esta a primeira de uma série de enfermidades, acidentes, lesões e operações que sofre ao longo de sua vida. A poliomielite deixa uma lesão em seu pé direito.Ganha o apelido Frida pata de palo (ou seja, Frida perna de pau) e a partir disso começa a usar calças, depois, longas e exóticas saias, que vieram a ser uma de suas marcas registradas.
Ao contrário de muitos artistas, Kahlo não começou a pintura em uma idade precoce. Embora seu pai encarasse a pintura como um passatempo, sua filha não estava particularmente interessada na arte como uma carreira e não a perseguia seriamente.
Entre 1922 e 1925 frequentou a Escola Nacional Preparatória do Distrito Federal do México e assiste a aulas de desenho e modelado.
Em 1925, aos 18 anos, aprende a técnica da gravura com Fernando Fernandez. Porém sofreu um grave acidente quando o ônibus em que viajava chocou-se com um bonde. Em consequência, usou um colete de gesso por muito tempo e submeteu-se a várias cirurgias que a deixaram muito tempo presa em uma cama. Começou a pintar durante essa longa convalescência.
Em 1928, ingressou no Partido comunista mexicano onde conheceu o muralista Diego Rivera, com quem se casou no ano seguinte. Sob a influência da obra do marido, adotou o emprego de zonas de cor amplas e simples num estilo propositalmente reconhecido como ingênuo. Procurou na sua arte afirmar a identidade nacional mexicana, adotando com muita freqüencia temas do folclore e da arte popular do México.
De 1930 a 1933 viveu em Nova Iorque e Detroit com Rivera. Retornam ao México e entre 1937 e 1939 quando Leon Trotski morou em sua casa de Coyoacan.
Em 1938, André Breton qualifica sua obra de surrealista em um ensaio a propóosito da exposição de Kahlo na galeria Julien Levy de Nova Iorque. No entanto, ela mesma, mais tarde, declara: "Acreditavam que eu era surrealista, mas não o era. Nunca pintei meus sonhos. Pintei minha própria realidade".



Expos em Paris, em 1938, na galeria Renón et Colle. E, a partir de 1943, passa a dá aulas na escola La Esmeralda, no D.F. (México).
A Galeria de Arte Contemporânea desta mesma cidade organiza, em 1953, uma mportante exposição de seus quadros. Alguns de seus primeiros trabalhos incluem o "Auto-retrato em um vestido de veludo" (1926),"retrato de Miguel N. Lira" (1927), "retrato de Alicia Galant" (1927) e "retrato de minha irmã Christina" (1928).


Depois de algumas tentativas de suicídio, em 13 de julho de 1954, Frida Kahlo foi encontrada morta. Seu atestado de óbito registra embolia pulmonar como a causa da morte. Mas não se descarta que ela tenha morrido de overdose, que pode ter sido acidental ou não. A última anotação em seu diário que diz "Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar - Frida" .



Diego Rivera descreveu em sua auto-biografia que o dia da morte de Frida foi o mais trágico de sua vida.


Quatro anos após a sua morte, sua casa, conhecida como "Casa Azul", transforma-se no Museu Frida Kahlo. Reconhecida tanto por sua obra quanto por sua vida pessoal, ganhou retrospectiva de suas obras, com objetos e documentos inéditos, além de fotografias, desenhos, vestidos e livros.

"A Casa Azul", residência de Frida e Diego.



Almodovar



Balé do final do filme Hable con ella


El éxito de sus películas en todo el mundo le han consagrado, a partir de la década de 1980, como uno de los cineastas más sólidos del panorama cinematográfico español.
Pedro Almodóvar nació en Calzada de Calatrava (Ciudad Real) el 25 de septiembre de 1949. A los diecisiete años se trasladó a Madrid, y trabajó varios años como empleado de la Compañía Telefónica. Destacado representante del movimiento conocido como la movida madrileña, después de varios cortometrajes realizó su primera película, Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón (1980). En ¿Qué he hecho yo para merecer esto? (1984), su cuarta película, realizó un retrato memorable de una maltratada, pero indomable, ama de casa, magistralmente interpretada por Carmen Maura, que también protagonizaría sus dos siguientes producciones, La ley del deseo (1986) y Mujeres al borde de un ataque de nervios (1987). Esta última, en la que abandona su mundo habitual de personajes marginales, es una frenética comedia en la que refleja muy bien el mundo y los personajes de la España de los años ochenta en pleno boom económico y social, la nueva España surgida tras la muerte del general Francisco Franco. Además de ser uno de los mayores éxitos de público de la historia del cine español, Mujeres al borde de un ataque de nervios fue nominada al Oscar en 1988 a la mejor película extranjera. Átame (1989) y Tacones lejanos (1991), protagonizadas por Victoria Abril, supusieron una nueva vuelta de tuerca en el mundo de Almodóvar. Kika (1993), historia de una coqueta maquilladora, interpretada por Verónica Forqué, tuvo una dispar acogida, por la carga misógina que según algunos contenía. Las películas de Almodóvar, que tienen normalmente como protagonistas a personajes femeninos en crisis, aunque de fuerte carácter, han sabido captar los avatares de la sociedad española de los años ochenta y noventa, en la que se ha pasado de una euforia que parecía no tener límites en los ochenta, a una crisis de valores y a una gran desorientación en los noventa, como refleja en su última realización hasta ahora, La flor de mi secreto (1995), protagonizada por la actriz Marisa Paredes, en la que narra la historia de una escritora de novelas rosas, que a pesar de gozar de un gran éxito profesional, su vida personal es un desastre. Pedro Almodóvar también ha publicado varios libros entre los que destacan Fuego en las entrañas (1982) y Patty Diphusa y otros textos (1991) y su obra ha sido ya objeto de varios estudios, como El cine de Pedro Almodóvar (1989) de Nuria Vidal.
Galardones:
Príncipe de Asturias (2006)
3 Goya - Mujeres al borde de un ataque de nervios, 1988 - Todo sobre mi madre, 1999 - Volver, 2006
1 Oscar - Todo sobre mi madre, 1999
2 Felix - Todo sobre mi madre, 1999 - Hable con ella, 2002

Artur da Távola - sobre o amor e ter ou não ter namorado

SOBRE O AMOR

Se o amor existe, seu conteúdo já é manifesto. Não se preocupe mais com ele e suas definições. Cuide agora da forma. Cuide da voz. Cuide da fala. Cuide do cuidado. Cuide do carinho. Cuide de você. Ame-se o suficiente para ser capaz de gostar do amor e só assim poder começar a tentar fazer o outro feliz.

Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos de saudades, quatro de ódio, seis espécies de inveja. O AMOR É ÚNICO, como qualquer sentimento, seja ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus.

Entre casais que se unem, visando à longevidade do matrimônio, tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, um tempo pra cada um. Tem que haver confiança. Certa camaradagem, às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. É preciso entender que união não significa, necessariamente, fusão. E que amar "solamente", não basta.

O amor é grande, mas não são dois. Tem que saber se aquele amor faz bem ou não, se não fizer bem, não é amor. É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência. O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta.


TER OU NÃO TER NAMORADO

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil.

Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.

Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.

Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.

Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.

Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.

Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.

Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.

Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.

Enlou-cresça.


A ALMA DOS DIFERENTES

"... Ah, o diferente, esse ser especial!
Diferente não é quem pretenda ser.
Esse é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser diferente.
Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora, momento e lugar errados para os outros.
Que riem de inveja de não serem assim.
E de medo de não agüentar, caso um dia venham, a ser.
O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.
O diferente nunca é um chato.
Mas é sempre confundido por pessoas menos sensíveis e avisadas.
Supondo encontrar um chato onde está um diferente, talentos são rechaçados; vitórias, adiadas; esperanças, mortas.Um diferente medroso, este sim, acaba transformando-se num chato.
Chato é um diferente que não vingou.
Os diferentes muito inteligentes percebem porque os outros não os entendem.
Os diferentes raivosos acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro.
Diferente que se preza entende o porque de quem o agride.
Se o diferente se mediocrizar, mergulhará no complexo de inferioridade.
O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer - alterando algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores.
O diferente suporta e digere a ira do irremediavelmente igual: a inveja do comum; o ódio do mediano.
O verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que está sempre certo.
O diferente começa a sofrer cedo, já no primário, onde os demais de mãos dadas, e até mesmo alguns adultos por omissão, se unem para transformar o que é peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura.O que é percepção aguçada em: "Puxa, fulano, como você é complicado".
O que é o embrião de um estilo próprio em: "Você não está vendo como todo mundo faz?
"O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações os quais acaba incorporando.
Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram (e se transformam) nos seus grandes modificadores.
Diferente é o que vê mais longe do que o consenso.
O que sente antes mesmo dos demais começarem a perceber.
Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno agridem e gargalham.
É o que engorda mais um pouco; chora onde outros xingam; estuda onde outros burram.
Quer onde outros cansam.
Espera de onde já não vem.
Sonha entre realistas.
Concretiza entre sonhadores.
Fala de leite em reunião de bêbados.
Cria onde o hábito rotiniza.
Sofre onde os outros ganham.
Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera.
Aceita empregos que ninguém supõe.
Perde horas em coisas que só ele sabe ser importantes.
Engorda onde não deve.
Diz sempre na hora de calar.
Cala nas horas erradas.
Não desiste de lutar pela harmonia.
Fala de amor no meio da guerra.
Deixa o adversário fazer o gol, porque gosta mais de jogar do que de ganhar.
Ele aprendeu a superar riso, deboche, escárnio, e consciência dolorosa de que a média é má porque é igual.
Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, machucados, engordados, magros demais, inteligentes em excesso, bons demais para aquele cargo, excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande, de roupas erradas, cheios de espinhas, de mumunha, de malícia ou de baba.
Aí estão, doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, sendo muito mais.
A alma dos diferentes é feita de uma luz além.
Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir e entender.
Nessas moradas estão tesouros da ternura humana.
De que só os diferentes são capazes.
Não mexa com o amor de um diferente.
A menos que você seja suficientemente forte para suportá-lo depois".

Fim de ano


Da janela, apesar do verão, tudo cinza.
Na alma, nenhuma esperança possível...
só o esforco para cumprir os rituais.
Os abraços em quem não nos abraçou o ano inteiro
nem nos abraçará no próximo.
Até que volte a ser Natal.
A troca dos presentes previstos nas listas anunciadas on line .
Os ecos dos muitos ohs! de surpresa.
Afinal, sem ela a festa não tem graça !!!

Um não gostar de expressar meus sorrisos por sinais de pontuação,
nem de trocar por exclamações o brilho do olhar impossível.
Não são bons estes tempos...
Mas, se haviam outros melhores, onde estão?
E por que nada deixaram?

Nem é inverno, tempo em que alguns se dizem tristes (penso em ti).

O Natal está aí,
festas e confraternizações.
Encontrar amigos para quem não se quis ter tempo o ano inteiro
os que se quis (poucos) a gente encontrou.
A promessa (vã) de que no próximo ano será diferente...
A certeza de que são palavras, faladas a esmo,
à falta de outras que não se tem para dizer,
além dos lugares-comuns, dos votos:
paz e amor nos corações
Os clichês nas publicidades,
o velhinho, símbolo muito coca-cola para o meu gosto...

A desgastada afirmação dos mais velhos de que o ano passou rápido demais
O olhar incrédulo dos jovens,
para quem o tempo demora a trazer os seus sonhos...

dezembro 26, 2007

Mesmice


Nada muda.Todo ano é a mesma coisa.
As lojas esticam o horário em que se mantém abertas e continuam sempre abarrotadas. Os mesmos pinheirinhos artificiais cheios de penduricalhos que os chineses parecem, a cada ano, aprimorar.
E haja ohs! diante de "árvores", cada vez mais inusitadas.
Deparei-me com uma que trazia todos os tons do cor-de-rosa. Isto mesmo! De onde tiram a idéia de que uma árvore, seja do hemisfério norte ou daqui de debaixo do equador, pode ter aquelas cores e laços e ainda continuar sendo chamada de "árvore"? Parece que tem que ser assim mesmo.
Fugindo da mesmice, mas não do inusitado, Fortaleza tem, na Praça Portugal, sua árvore cujos galhos são redes (foto), enquanto na Praça da Espanha, em Curitiba, Daniel Marques deu mais um show de criatividade,com a sua árvore feita de embalagens recicláveis.
Mas estas são tentativas, quase isoladas, de escapar do óbvio.
Afinal, a vida e a festa têm que continuar, aqui e alhures, acima e apesar daqueles que, como eu, não sabem o que significa este tal de "espírito natalino".
O jeito é não estragar a festa dos outros, já que todos estão perfeitamente imbuídos da idéia de que há algo a ser comemorado.
Os cumprimentos convencionais, desde que entra dezembro, são substituídos pelo, mais do que desgastado e vazio, "Feliz Natal!" Mesmo quando este já passou!
E são tão efusivos (e repetitivos) nesta manifestação, que acredito deva ter, realmente, um profundo sentido, que está fora do meu alcance e compreensão.
De tanto ouvir, já me flagrei repetindo. Olhei para os lados, temendo que alguma criança mais curiosa, ouvindo, me perguntasse o significado daquilo tudo. Ficaria sem resposta.
Enfim, curada a ressaca de tantas confraternizações, amigos secretos, troca de presentes e da indefectível ceia (por que só tem peru em festa de natal?), goza-se, enfim, de uma pequena pausa e vem o reveillon.
Mas aí é outra coisa.