dezembro 26, 2007

Mesmice


Nada muda.Todo ano é a mesma coisa.
As lojas esticam o horário em que se mantém abertas e continuam sempre abarrotadas. Os mesmos pinheirinhos artificiais cheios de penduricalhos que os chineses parecem, a cada ano, aprimorar.
E haja ohs! diante de "árvores", cada vez mais inusitadas.
Deparei-me com uma que trazia todos os tons do cor-de-rosa. Isto mesmo! De onde tiram a idéia de que uma árvore, seja do hemisfério norte ou daqui de debaixo do equador, pode ter aquelas cores e laços e ainda continuar sendo chamada de "árvore"? Parece que tem que ser assim mesmo.
Fugindo da mesmice, mas não do inusitado, Fortaleza tem, na Praça Portugal, sua árvore cujos galhos são redes (foto), enquanto na Praça da Espanha, em Curitiba, Daniel Marques deu mais um show de criatividade,com a sua árvore feita de embalagens recicláveis.
Mas estas são tentativas, quase isoladas, de escapar do óbvio.
Afinal, a vida e a festa têm que continuar, aqui e alhures, acima e apesar daqueles que, como eu, não sabem o que significa este tal de "espírito natalino".
O jeito é não estragar a festa dos outros, já que todos estão perfeitamente imbuídos da idéia de que há algo a ser comemorado.
Os cumprimentos convencionais, desde que entra dezembro, são substituídos pelo, mais do que desgastado e vazio, "Feliz Natal!" Mesmo quando este já passou!
E são tão efusivos (e repetitivos) nesta manifestação, que acredito deva ter, realmente, um profundo sentido, que está fora do meu alcance e compreensão.
De tanto ouvir, já me flagrei repetindo. Olhei para os lados, temendo que alguma criança mais curiosa, ouvindo, me perguntasse o significado daquilo tudo. Ficaria sem resposta.
Enfim, curada a ressaca de tantas confraternizações, amigos secretos, troca de presentes e da indefectível ceia (por que só tem peru em festa de natal?), goza-se, enfim, de uma pequena pausa e vem o reveillon.
Mas aí é outra coisa.

dezembro 24, 2007

Antonioni


CONTARDO CALLIGARIS

Com ele, aprendi que, no amor, é bom não confundir verborragia com comunicação

DOIS ANOS atrás, assisti a "Eros", filme em três episódios de diretores diferentes: Michelangelo Antonioni, Steven Soderbergh e Wong Kar-wai.
Quase saí bem antes do fim. "Eros" começa com o episódio de Antonioni, que me pareceu de uma mediocridade constrangedora: os atores estão perdidos no set, as legendas são preferíveis aos diálogos e, como se não bastasse, há uma série de estereótipos intoleráveis.
Uma mulher nua em cima de um cavalo é uma metáfora erótica tão defunta que só deveria ser utilizada como farsa (exemplo de uma boa farsa: o nado sincronizado à la Esther Williams na cena primorosa dos Oompa-Loompas no lago da "Fantástica Fábrica de Chocolate" de Tim Burton).
Enfim, por sorte ou obstinação, agüentei firme e fui recompensado pelo episódio de Kar-wai, que é uma obra-prima.
A razão de meu constrangimento era simples: a obra de Antonioni, que morreu na semana passada, aos 94 anos, é das que mais me tocaram e me formaram. Deparar-me com um filme medíocre e assinado por ele (embora, presumivelmente, orquestrado por outros) forçava-me a interrogar o passado: o que eu acharia, hoje, dos filmes de Antonioni de 30 ou 40 anos atrás?
Decidi revê-los. Foi uma aventura de várias noites, que recomendo a todos: únicos e inconfundíveis, os filmes de Antonioni não envelheceram. Sua obra, além de ser cinematograficamente genial, continua valendo como uma extraordinária educação sentimental.
Em matéria de educação sentimental, aliás, ela só compete com a obra de Ingmar Bergman, que também acaba de perder seu jogo de xadrez com a morte. Antonioni e Bergman têm em comum um respeito extremo pela intimidade humana
.
Talvez seja porque ambos tiveram que redescobrir a dignidade da vida depois da grande "aventura" coletiva da Segunda Guerra e a redescobriram na trama dos sentimentos.
Meus Antonionis preferidos se dividem em dois blocos. O primeiro inclui "A Aventura" (1960), "A Noite" (1961) e "O Eclipse" (1962) e foi chamado, na época, de "Trilogia da Incomunicabilidade". Nunca entendi por quê. Continuo não entendendo. Os personagens de Antonioni só podem parecer pouco comunicativos aos olhos de uma cultura que confunda a verborragia com a comunicação, o falar com o dizer.
Tome "A Noite": poucos filmes ou livros nos dizem de maneira tão simples e correta o que é um casal e o que é um amor. E poucos amantes, cinematográficos ou literários, conseguem, como Giovanni (Marcello Mastroianni) e Lidia (Jeanne Moreau), em "A Noite", dizer tudo o que é preciso e NADA MAIS.
Com Antonioni, aprendi que há uma ética da troca amorosa. Por exemplo, num momento do filme, Lidia some pelas ruas de Milão, durante uma tarde inteira. Quando, enfim, ela se manifesta com um telefonema, a discrição de Giovanni não é um drama da "incomunicabilidade", é a reserva de quem, no amor, preserva o respeito pela complexidade do outro.
O cinema é uma boa parte de nosso repertório amoroso. Pois bem, no amor, como num set de filmagem, é necessário, de vez em quando, avisar: "Silêncio! Ação!". Qualquer casal, em crise ou não, que seja tentado pela idéia de sentar e "discutir a relação" poderia (com bastante proveito) sentar e assistir à "Noite".
Meus outros Antonionis preferidos são "Blow Up", de 1966, (misteriosamente traduzido como "Depois Daquele Beijo") e "Profissão: Repórter", de 1975. Esses dois filmes foram a melhor resposta que minha geração recebeu a seus anseios vagos e frustrados por uma "outra" vida, diferente da mesmice acomodada que receávamos para o futuro.
"Goldfinger", o primeiro James Bond com Sean Connery, saiu em 1964, dois anos antes de "Blow Up". "Goldfinger" é o exemplo perfeito da resposta padrão à nossa questão adolescente: podem sonhar todos com a fabulosa vida de agentes secretos, criminosos, detetives e por aí vai. Pistola por pistola, dez anos depois, alguns, inspirados pela mesma proposta hollywoodiana, caíram na clandestinidade armada.
A resposta de Antonioni é mais sutil e diz que, claro, não é possível romancear a vida sem "ser outro constantemente" (a frase é de Fernando Pessoa, mas é também o recado de "Profissão: Repórter"). Agora, para romancear a vida, não é preciso encontrar destinos grandiosos. Basta enxergar o detalhe que sempre está presente num canto escuro da realidade cotidiana, ao alcance de uma ampliação fotográfica.



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ccalligari@uol.com.br

Bergman, o cineasta da alma


A angústia do homem diante da morte, o amor, a solidão e a "infinita tristeza de um mundo sem Deus" são a base para sua obra.


Casais separados, encontros com a morte, ausência de Deus, mas também a magia da vida: o cineasta sueco Ingmar Bergman que morreu durante o ano criou uma obra de grande riqueza emocional na qual levou aos holofotes a trágica condição humana.

Reverenciado no cenário internacional desde os anos 50 ("Sorrisos de uma noite de amor" 1955, "O Sétimo selo" 1956 e "Morangos Silvestres" 1957), Bergman só foi reconhecido por seus compatriotas no fim de sua vida.

Nascido em 14 de julho de 1918 em Uppsala, Ernst Ingmar Bergman, filho de um pastor, segundo de três irmãos, recebeu uma educação restrita e austera, da qual ele não conseguiu se libertar.

Sua infância, que ele mesmo descreveu como "dolorosa e complicada", o marcou profundamente, deixando traços em toda a sua obra que sempre gira em torno de momentos de crise, resolvidos ou não.

Sua carreira começou no início dos anos 1940 no teatro, que continuaria sendo uma grande paixão por toda a sua vida. Nesta época ele fez um curso de diretor na Ópera de Estocolmo.

Antes de se tornar diretor, em 1960, do prestigiado Dramaten, o teatro real de arte dramática, ele escreveu peças, romances e roteiros.

Em 1945, afirmava que o único meio moderno de se exprimir era o cinema: "Fazer filmes é, para mim, um instinto, uma vontade como a de comer, beber ou amar", declarou ele. Ele, então, dirigiu "Crise" a partir de uma peça popular dinamarquesa, mas o filme foi considerado um fracasso. O cinema, então, se torna para ele uma religião.

Em 1955, Bergman conheceu seu primeiro sucesso internacional com "Sorrisos de uma noite de amor", uma comédia que, apresentada no ao seguinte no festival de Cannes, serve de modelo da "nouvelle vague" francesa.

A força do plano aberto, a importância das paisagens, o cuidado com a iluminação, sempre a encargo de Sven Nyqvist (que morreu em 2006), a utilização de flashbacks se tornam a respiração dos filmes bergamanianos.

Seu cinema é freqüentemente trágico. Talvez as melhores ilustrações desta característica sejam "O sétimo selo", prêmio especial do júri de Cannes e especialmente "Gritos e sussurros", com seu jogo de claros e escuros.

Mas diante da gravidade dos temas abordados, o grande público sueco sempre manteve certa distância dos filmes de Bergman, chegando a acusá-lo de ser parcialmente responsável pela fama da Suécia de ser um país de neuróticos.

Bergman nutria uma obsessão pela felicidade na interrogação passional das mulheres, como procurou representar com o fervor que havia em "Jogos de verão" (1950), "Mônica e o desejo" (1952), "Quando as mulheres esperam" (1952) e "Uma lição de amor" (1954).

Cineasta das mulheres, ele daria seus melhores papéis a atrizes como Maj Britt Nilsson, Harriett Andersson, Eva Dahlbeck, Ulla Jacobsson e Liv Ullmann.

Em 1982, depois de viver muitos anos na Alemanha por ter tido problemas com o fisco sueco, Bergman grava "Fanny e Alexander", uma obra-testamento sobre sua infância e sua paixão pelo espetáculo, coroado com quatro Oscars.

Depois deste filme, ele declarou ter se aposentado do cinema. Mas depois de uma pausa de 20 anos, retomou seu lugar atrás das câmeras em 2003 com "Saraband", uma visão escura da velhice, produzido inicialmente para a televisão sueca, mas que posteriormente foi exibido nos cinemas.

Um pouco mais do que o cinema, Bergman amava o teatro. "Eu posso existir sem fazer filmes, mas não posso existir sem fazer teatro", declarou ele.

Em 2002, Bergman dirigiu "Ghost" do norueguês Henrik Ibsen e em 2004, aos 86 anos, ele se despediu dos palcos.

Depois da morte de sua última esposa, Ingrid von Rosen, em 1995, Ingmar Bergman vivia sozinho durante grande parte do ano na ilha Faaro, no mar Báltico, que serviu de cenário ara muitos de seus filmes.

Depois de ter chamado a sua vida de um "inferno suportável", ele deu a enteder numa entrevista à televisão sueca em 2000 que não tinha medo de morrer. "O fato de viver já é pesado. Eu nunca mais verei Ingrid".
ESTOCOLMO, 23 dez 2007 (AFP)

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Nós que os amávamos tanto
WALTER SALLES ANALISA LEGADO DE MICHELANGELO ANTONIONI E INGMAR BERGMAN, ambos mortos em 2007

O tempo não existe. O presente e o futuro são apenas o mesmo instante -um agora" (Bergman).

"O homem vive num equilíbrio instável, que com os anos se estabiliza cada vez mais, até que ele encontra o equilíbrio absoluto, que é a morte" (Antonioni).

Trinta de julho de 2007. Morrem no mesmo dia Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, dois cineastas que definiram o que é o cinema moderno. Não existem coincidências, dizia outro mestre, Borges.
Tanto Bergman quanto Antonioni fizeram filmes que alimentaram sucessivas gerações, que viam o cinema como uma forma de expressão "total" -para usar o termo que Godard elegeu para definir "O Deserto Vermelho".
O ponto de encontro entre a literatura, a filosofia, a arquitetura, e, no caso de Bergman, o teatro e a psicanálise. O conceito de "entretenimento", dominante hoje, não fazia parte da equação.

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Bergman e Antonioni viam o cinema como uma forma de expressão "total"
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Cinqüenta e oito filmes. De tão vasta, a obra de Bergman é dificilmente classificável. Há um fio condutor, no entanto, a permeá-la; uma reflexão sobre a finitude humana, o absurdo da existência, a recusa da culpa protestante, a ausência de um Deus. Seus personagens estão sempre à beira de um abismo, a alma exposta.
Bergman, como Clarice Lispector [1920-1977], não costurava para fora. Costurava para dentro. Por isso, o rosto humano é seu território predileto. Cada recanto da face de seus atores, um mundo.

Desmascarar
"Persona", título escolhido após o filme ter ficado pronto, dá o mapa da mina: em latim, a palavra designa a máscara atrás da qual o ator dissimulava o seu rosto. Toda a obra de Bergman é dedicada a esse desmascaramento impiedoso dos sentimentos.
A gramática cinematográfica que ele instaurou com a ajuda de seu fiel diretor de fotografia, Sven Nykvist, parte sempre do close para o plano geral. Não há espaço, aqui, para aquilo que é morno: o plano médio.
"Morangos Silvestres", obra-prima que ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim em 1958, permitiu que a obra de Bergman ultrapassasse as fronteiras da sua Suécia natal. Mas foi outro filme, "Monika e o Desejo", que rompeu cinco anos antes com a fase romântica que marcou os primeiros anos de trabalho.
Depois vieram os filmes que compuseram a chamada "Trilogia de Farö", ilha onde ele viveu, recluso, grande parte de sua vida: "A Hora do Lobo", "Vergonha", "A Paixão de Ana". Todos de uma violência aguda.
A mesma violência que Bergman tinha consigo mesmo, prova de uma honestidade intelectual sem par. Numa conversa com o cineasta e ex-crítico Olivier Assayas, Bergman disse uma vez que detestava "Sonata de Outono" (1978): "Um crítico francês escreveu que o sr. Bergman começou a fazer filmes a la Bergman. Ele não gostava do filme, como eu, e tinha razão. O desastre, com Tarkovski, foi que ele começou a fazer filmes a la Tarkovski ".

Fantasmas do passado
Na mesma conversa, Bergman também contou que odiava o pai, pastor protestante que tentou inutilmente inculcar-lhe o sentimento da culpa, e não dissimulava o ressentimento que sentia em relação à mãe.
O seu último longa-metragem realizado para o cinema, "Fanny e Alexandre", iria reconciliá-lo com os fantasmas de seu passado. É o filme possivelmente mais acessível de Bergman e também um dos mais extraordinários, o ponto de encontro de toda a sua obra.
Alexandre, o menino que assiste impotente à morte do pai e à ascensão do padrasto, um pastor protestante chamado Vergerus, é o alter ego de Bergman. Todo o embate do filme se dá entre o menino-artista que cria e fabula e o padrasto que tudo castra.
Se existe o ódio, existe também o poder de subjugá-lo por meio da imaginação. E da lanterna mágica, o cinema. Alexandre e seu criador só sobrevivem graças a essa crença salvadora na imagem/imaginação.
Essa mesma fé na força expressiva do cinema e das imagens movia Antonioni.
Desde os seus primeiros documentários, a sua matéria-prima é o homem em crise num mundo em transformação acelerada. Próximo do existencialismo de Camus, Antonioni foi o cineasta que melhor falou da crise de identidade no mundo contemporâneo.
Uma mulher desaparece: "A Aventura", de tão renovador, foi recebido com uivos de reprovação no Festival de Cannes de 1960. Um ano mais tarde, Antonioni ganhou o Festival de Berlim com "A Noite", filme de uma acuidade rara, em que um casal formado por Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau se esfacela numa cidade em constante reconstrução. Era Milão -mas poderia ser São Paulo, hoje.
Seguem-se outros dois filmes que confirmam Antonioni como um mestre do cinema dos anos 60, "O Eclipse" e "O Deserto Vermelho", filmes sobre a coisificação do homem na sociedade pós-industrial.
Mas é com a trilogia formada por "Blow-Up" (perda de identidade), "Profissão: Repórter" (troca de identidade) e "Zabriskie Point" (implosão da identidade) que a obra de Antonioni adquire a sua dimensão mais ampla.
A partir desse momento, o mestre de Ferrara está em perfeita sincronia com seu tempo: seus personagens são condicionados por uma realidade sociopolítica que desconhece fronteiras.
Enquanto para Bergman um casal pode ser um país, para Antonioni a relação dialética entre o artista e o mundo em transformação é essencial. Cinema político, mas nunca dogmático -e que se recusa a julgar. "Não quero apontar com o dedo, quero fazer sentir", dizia Antonioni.

Barthes
Roland Barthes escreveu que "Antonioni deixava o caminho dos sentidos aberto". E, citando o pintor Braque, lembrava que "um quadro só está terminado quando a idéia inicial não está mais à mostra". Poderia, provavelmente, ter escrito o mesmo de Bergman.
O sueco teve o privilégio de acertar o seu ato final. "Sarabanda" (2003) é mais do que um filme-testamento, é uma obra maior. Um acerto de contas de uma extrema violência, mas onde os personagens vividos por Erland Josephson e Liv Ullmann se salvam, mais uma vez, pela força dos afetos. A cena em que os dois ficam nus, frente a frente, pela última vez, é dilacerante -todas as máscaras estão no chão.
Poeta dos sentidos e do indizível, Antonioni não teve a mesma sorte. Em 1985, um acidente vascular cerebral o impediu de continuar a filmar livremente. Os filmes que realizou depois disso não estão a sua altura. Sobram mais de 20 longas-metragens ou documentários feitos antes da perda da fala e raros roteiros não filmados.
O que se perde com o desaparecimento de Bergman e Antonioni? Uma certa idéia do que pode ser o cinema. Uma maneira única de ver o mundo, muitas vezes complexa e dolorosa, mas necessária e reveladora. Sem piedade, bons sentimentos ou sentimentalismo.
Não há, no entanto, razão para nostalgia. Foram vidas plenas, que deixaram uma rica representação de si próprias e, por extensão, de nós mesmos.
E se Bergman, pelo caráter extremamente pessoal de sua obra, não deixou seguidores, o mesmo não aconteceu com Antonioni. Wenders, Angelopolous, Atom Egoyan e Hou Hsiao-hsien que o digam. Sem esquecer aquele que melhor traduz, hoje, a relação entre tempo e espaço tão central à obra de Antonioni: Jia Zhang-ke. (WALTER SALLES)

A inquietação nossa de cada dia....


A paz dos inquietos
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Eles vivem em eterna tensão, para o bem ou para o mal; só não podem é ficar parados. Os caminhos que escolhem são sempre os mais difíceis
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É A INQUIETAÇÃO; ou você nasce com ela ou não, e se nasceu, vai passar a vida inteira com uma pressão no peito e outra na alma, querendo entender e não entendendo, trocando de casa, de objetivo, de marido e de analista, sem chegar, nunca, a uma conclusão.
Um inquieto não tem sossego: se é pobre, gostaria de ser rico, se é rico, acha que o dinheiro atrapalha e que talvez fosse mais feliz se morasse numa pequena cabana. Se é inverno, ele se lembra com saudades do verão, mas se está debaixo do mais lindo sol, pensa em como seria bom se estivesse em Gramado no inverno, de botas, tomando um chocolate quente. Não é que ele queira sempre o que não tem; apenas não consegue viver o momento presente -não em paz. Ou está lembrando do passado ou pensando em como vai ser bom quando o futuro chegar. É duro fazer parte da tribo dos inquietos.
Com eles não há risco de monotonia; acordam te sufocando com beijos e abraços ou na mais fria das indiferenças, e o pior: sem saber o porquê. No meio do dia podem telefonar como a mais dócil das criaturas, sem conseguir explicar por que foram tão insuportáveis horas antes. Nem explicar, nem entender. É dura a vida dos que vivem perto de um inquieto.
Mesmo quando está tudo bem -o amor perfeito e o trabalho legal, alguma coisa atrapalha: é a tranqüilidade. Como é possível alguém viver em paz e em harmonia com as pessoas e com o mundo? Difícil de responder.
Difícil, a vida dos inquietos, e ninguém imaginaria o quanto essas pessoas tão vitais -porque vitalidade é o que não lhes falta- sofrem, mas que ninguém confunda sofrimento com infelicidade. Nada a ver. Para eles nunca há paz; há momentos de intensa e fugaz felicidade, mas paz, nunca. O grande momento dos inquietos é quando eles começam a planejar uma mudança de vida, seja essa mudança quebrar uma parede, mudar de profissão ou de país.
Eles vivem em eterna tensão, para o bem ou para o mal; só não podem é ficar parados. Os inquietos não se conformam com nada que se pareça com a estabilidade, e por isso os caminhos que escolhem, sejam eles quais forem, são sempre os mais difíceis. Os inquietos não sabem viver sem uma complicação, e a luta para eles é sempre melhor que a vitória.
Eles não compram, jamais, uma casa de campo pronta, mas um terreno; levam dois anos para construí-la e mais dois fazendo o jardim, decorando etc. No dia em que ela fica pronta, as flores crescidas, ele sente um grande vazio -que só se resolve quando encontra um comprador.
É que assim eles passam a maior parte da vida, com algumas pausas para refletir por que são assim e como poderiam se aquietar, para serem mais felizes; para encontrar uma certa paz, talvez -só que não conseguem.
Mas um dia eles compreendem que essas pausas foram tempo perdido e teria sido mais simples se tivessem reconhecido, há muito mais tempo, que com eles não há nada a fazer, e que é impossível mudar.
E é melhor que não saibam nunca: se souberem, terão, de uma certa maneira, encontrado a tal da paz -o que para eles pode ser fatal.
Danuza Leão

dezembro 22, 2007

O valor do amanhã


O Valor do Amanhã
Eduardo Gianetti

Durante a vida humana, somos expostos a tomar infinitas decisões, muitas delas se encaixam no problema de escolher entre desfrutar algo hoje ou esperar para saboreá-lo amanhã. Este problema, inerente ao transcorrer da vida na linha do tempo, é abordado com profundidade e elegância no livro O Valor do Amanhã, do economista e filósofo Eduardo Gianetti. Diz-se que o livro trata dos juros. É avaliação superficial. O tema é mais amplo. Como o próprio autor reclama: "A face mais visível dos juros monetários representa apenas um aspecto, ou seja, não mais que uma diminuta e peculiar constelação no vasto universo das trocas intertemporais em que valores presentes e futuros medem forças." Com maestria, Gianetti apresenta o problema das trocas intertemporais que ocorrem em todo o mundo animal. Seus exemplos são magníficos. Afinal, que aperfeiçoamento darwiniano conduziu uma espécie de ratos a estocar alimento para o inverno em quantidade muitas vezes superior à sua capacidade de consumir? Exibindo extremos dos comportamentos de nossa espécie - a avareza, a gula, a entrega às drogas, a dedicação monástica exigida por uma religião – Gianetti explora as variantes do modelo de decisão do tipo "ter agora, pagar depois" versus "pagar agora, para ter mais tarde". É curioso como um modelo de decisão tão simples de ser enunciado se aplica a situações tão distintas. Se aplica à escolha do momento de um investidor realizar os lucros de seus investimentos. Ou à prosaica decisão do comensal que escolhe entre comer o musse de chocolate agora, em detrimento de exibir o abdômen "tanquinho" amanhã.

O pano de fundo do livro é o problema humano retratado na letra de música de Lobão: "viver dez anos a mil ou mil anos a dez?". Como bem sintetiza Gianetti, "a vida é um intervalo finito de duração indefinida". Se houver um deus a quem agradecermos por nossas alegrias e culparmos por nossas agruras, sem dúvida ele deve rir muito de nossa inquietação e insegurança para tratar o problema de como bem viver a vida. Devemos buscar a satisfação imediata? Ter ou fazer hoje o que desejamos, a qualquer custo? Ou nos poupamos, nos guardamos? Buscamos a segurança que nos proverá nos serenos anos da velhice? Mesmo com as promessas de vida eterna das religiões – que Gianetti apresenta com notável isenção – os humanos têm dificuldade em se desapegar da dádiva da vida como conhecemos. Em geral buscamos otimizar nossa experiência de vida terrena. Apesar de toda a pantomima religiosa, não levamos muita fé nas promessas dos messias. Mesmo com o marketing das igrejas, como não há nenhum indício minimamente palpável de que existam as mil virgens que nos prometem no paraíso, a maioria não opta pela solução de dar um tiro na cabeça e passar "dessa para melhor". Temos mesmo que resolver a vida antes de morrer.

No início de um curso de matemática financeira que ministrei, para ilustrar a idéia de juros, usava o exemplo de duas criaturas limites. Uma delas era imortal, suas decisões não se alteravam em relação ao tempo. A outra, chamada "criatura efêmera", acometida de uma doença terminal, tinha pouco tempo de vida para usufruir. As duas tinham que fazer escolhas com relação a um fluxo de recebimentos de recursos. Uma tinha pressa em receber valores. A outra era indiferente em relação aos prazos de entrega dos recursos. Daí surgia o conceito dos custos das trocas intertemporais e a noção de juros. Eduardo Gianetti apresenta arquétipos de decisores mais interessantes e genéricos. Ele utiliza a cigarra e a formiga de Esopo. Gianetti cunha a figura da cigarra límbica, que só se interessa pelos prazeres de curto prazo, e da formiga pré-frontal, planejadora e focada em abrir mão da boa vida agora para garantir seu futuro. A discussão conduzida pelo autor nos leva a pensar se consumimos com perícia o bem limitado e perecível que é o tempo de nossas vidas. Pode parecer pouco importante para os jovens (e realmente não o é, pois eles têm a sensação inebriante de serem imortais), mas o problema da aposentadoria, ou seja, a decisão de quanto deixar de gastar hoje para garantir o amanhã, é preocupação que vai tomar bom tempo de suas vidas. Aos jovens, a mensagem: Aguardem!

Gianetti explora as diversas visões de como viver: a miopia do irresponsável que só atenta para o imediato, e o hipermetrope, que religiosamente (o advérbio se aplica como uma luva) se prepara para um futuro que o prazo indefinido do contrato da vida não lhe assegura. Por isso minha menção ao livro ser um guia de auto-ajuda para pessoas sofisticadas. A colocação do problema e sua exploração em facetas diversas propiciam oportunidade única para cada um pensar: Qual a boa prática para gastar a grande dádiva de viver?

A obra de Gianetti retoma preocupações que ele já abordara em outras ocasiões, como no livro Felicidade. Será a felicidade de um indivíduo um estado de euforia momentâneo decorrente do último prazer ou dor experimentado, ou é a sensação de prazer obtido pela soma das experiências passadas e expectativas futuras de prazer percebidas pela pessoa? A felicidade é a gargalhada do momento ou o sereno sorriso garantido para amanhã? O tempo também é senhor de nossos sentimentos.

Fica a recomendação do livro e autor. A identificação do modelo do problema das trocas intertemporais é elemento importante tanto no nível profissional como pessoal. A inteligência do discurso de Gianetti é hipnotizante. O texto elaborado e elegante embala a leitura. O Valor do Amanhã foi dos melhores lançamentos de 2005, teve muito boa venda, mas é produto que vai vender bem no longo prazo. O livro é mais propício aos maduros saborearem. Em geral, o futuro é assunto que a miopia da juventude despreza: "Pobres moços, eles não sabem o que eu sei." dizia Cartola. Por outro lado, aqueles que já consumiram mais da metade do máximo que esperam viver, terão mais atenção para o assunto.
ernesto friedman

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dezembro 21, 2007

Oscar Wilde




Um amigo enviou-me esta foto, feita em Dublin.
Pouco antes, eu havia revisitado o seu túmulo no Père Lachaise e tinha visto que está, como mostrado no recente filme Paris, je t' aime, todo estampado de beijos, mensagens e flores. Quando de minha visita anterior, ao cemitério, a "vedete" era o Morrison que agora, literalmente, descansa em paz.
O Retrato de Dorian Gray nos vem à cabeça, inevitavelmente, sempre que pensamos em Oscar Wilde.
No romance, o jovem que dá titulo a obra, permanece sempre belo e jovem enquanto que o seu retrato começa a manifestar as feições mais repulsivas de sua consciência. O retrato envelhece enquanto ele permanece eternamente jovem. O retrato sangra enquanto ele apresenta o seu belo rosto à sociedade.
O lado negro de sua alma, que busca ocultar, representa os mais sombrios traços da personalidade humana, não facilmente aceitos por nós, e seria - na linguagem de Jung - a nossa sombra, que tentamos ignorar para viver numa falsa condição de inocência.
Recheada de diálogos memoráveis, que revelam a sarcástica genialidade do autor, a obra revela a nossa tendência de projetar nos outros o que não podemos aceitar em nós mesmos.
As pessoas, como a personagem do romance, incapazes de conviver com suas próprias escolhas, instintos, pensamentos, erros e desejos tendem a projetar nos outros a culpa, com o mesmo cinismo que Adão, no mito bíblico, joga a sua na serpente.
O trabalho com a sombra se inicia com a percepção e a conseqüente - e necessária - aceitação de tudo aquilo que somos.
Este processo de conscientização é lento, gradual, doloroso e exige muita coragem e força de vontade de quem ousar se aventurar para além das máscaras.
É mais cômodo/confortável sermos sempre vítimas, nunca criminosas, sempre inocentes, nunca culpadas, sempre certas, boas, limpas e cordiais.
É mais fácil enxergar nossos demônios nos outros, a fim de que carreguem a culpa por nós.
E é ainda mais fácil, quando retratado em um romance.


"LOUCOS E SANTOS
Escolho meus amigos não pela pele ou outra característica qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.

Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.

Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.

Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto.

Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos , bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."

dezembro 20, 2007

CÂNTICO NEGRO

Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta: Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguem.
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira,
A foto é A.Neves, ambos nascidos em Vila do Conde

BABENCO - O Passado

Nada passa, nunca; tudo o que acontece é indelével, sobretudo em se tratando do amor, por mais que acabem, continuam vivendo, subterrâneos, dentro de nós, porque, bem ou mal, são essas as vivências que mais nos formaram e transformaram.
(C.Galligaris)

O PASSADO, de Hector Babenco, é inspirado no romance homônimo de Alan Pauls: Rímini e Sofía se casam muito jovens e se separam 12 anos depois, amigavelmente.
O filme lembra o "Atração Fatal", só que Sofia, por parecer menos louca, é mais inquietante. A causa do problema estaria na fraqueza de Rímini (Gael García Bernal) que, além de seguir o desejo de todas as mulheres com quem vive, sem nunca descobrir e afirmar o seu, não consegue se livrar das atenções incômodas de sua antiga companheira.
No filme os personagens circulam por interiores abarrotados de restos do passado: livros, fotografias, quadros e objetos que, a cada mudança de casa, confirmam que nunca conseguiram deixar para trás os seus vestígios, cujos rastros sempre assombram o presente e o futuro.

* * * * * *

No filme - O PASSADO- Babenco invoca Adele H. para enfatizar o comportamento patológico da personagem. A história de Adele H. foi filmada por Truffaut com Isabelle Adjani no papel título, em 1975. Adèle Hugo, filha do escritor frances Victor Hugo , tem um rápido romance com o tenente Pinson, por quem estava perdidamente apaixonada e é por ele abandonada. Ele vai servir na base de Halifax, no Canadá e já nem se lembra mais de Adèle. Ela vai à sua procura e o atormenta a ponto de anunciar o casamento dos dois num jornal local, provocando o rompimento da união dele com a filha de um juiz. Doente, sem recursos, ela empreende uma perseguição implacável até que ele é transferido para Barbade. De tão louca, não o reconhece quando cruza com ele na rua. Uma pessoa da cidade a acolhe e a encaminha de volta à França. Internada em Saint-Mandé, morre quarenta anos mais tarde.

AMAR E SER AMADO

Definir o amor tem sido assunto reservado aos poetas. Mas a neurociência, quem diria, já pode dar os seus pitacos -ao menos para explicar por que amar e ser amado são desejos tão fortes e presentes em nossa espécie. Considerados inviáveis dez anos atrás, dada a subjetividade do assunto, exames do cérebro de voluntários que contemplam imagens da pessoa amada ou a abraçam são hoje em dia bem aceitos pela ciência. Esses estudos mostram de que é feita a experiência do amor pelo cérebro. A presença do ser amado ativa o sistema de recompensa, trazendo sensações de prazer, felicidade e bem-estar como um todo, que, de quebra, nos ensinam a associar a tais sensações positivas o objeto de nosso amor e nos fazem querer continuar em sua presença e até ansiar por ela. Essa ânsia é especialmente intensa quando o amor é reforçado por sexo -o bom sexo, voluntário e prazeroso, que, com o orgasmo, leva à liberação de hormônios como a ocitocina, que ativam ainda mais o sistema de recompensa.
Se o amor é correspondido, a presença da pessoa amada é também calmante. Mesmo longe de levar ao orgasmo, um abraço já aumenta a liberação de ocitocina, que, além de estimular o sistema de recompensa, reduz a atividade das estruturas do cérebro responsáveis pelo medo e facilita a aproximação.
Abraços amorosos nos deixam menos temerosos e desconfiados e, por conseguinte, mais confiantes no outro, otimistas e dispostos a abaixar a guarda. Sentir-se amado é um grande ansiolítico. Quem de fato recebe a atenção e os cuidados do objeto do seu amor não se sente sozinho e tende a ter respostas mais saudáveis ao estresse, inclusive com a produção de quantidades menores do hormônio cortisol -aquele responsável pelos estragos do estresse crônico. Receber um abraço dessa pessoa já basta também para diminuir instantaneamente o nível de cortisol no sangue.
Até o sexo é ansiolítico, por levar, com o orgasmo, à liberação de prolactina -uma grande responsável pela sensação de bem-estar e relaxamento físico e mental que se seguem. Dar apoio moral é uma grande demonstração de amor, crucial para manter saudável a resposta ao estresse de quem o recebe. Mas dar carinho a quem se ama é a mais inequívoca demonstração de amor, tão importante que conta com um sistema de nervos específico para detectá-la. Por isso, não basta amar; é preciso fazer o outro se sentir amado.
Um feliz Natal para você, leitor, repleto de abraços das pessoas que você ama!
- Suzana Herculano-Houzel
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SUZANA HERCULANO-HOUZEL, Neurocientista, professora da UFRJ, autora do livro "Fique de bem com o seu cérebro" (Editora Sextante) e do site O Cérebro Nosso de Cada Dia (www.cerebronosso.bio.br)

O vestido revolucionário de Frida Kahlo



O quadro de Frida Kahlo “Meu vestido pendurado ali” não tem despertado o mesmo interesse nem a atenção como outras de suas pinturas. Talvez porque, aparentemente, a artista _cujos centenário de nascimento se comemora neste ano_ não esteja lá, no quadro, pelo menos não tão visceralmente presente como em muitas de suas pinturas.

Nos anos 90, revistas femininas nos Estados Unidos (“Elle”, “Vogue”) “traduziam” Frida Kahlo (1907-1954) em suas páginas em estilo mexicano, transformando seus vestidos em roupas atraentes nos corpos de belas modelos, posando em casas ensolaradas e supostamente também mexicanas. Queriam transformar a difícil obra dessa mulher em imagem palatável, pronta para ser consumida. Retocavam suas veias, o sangue, as cicatrizes, os pelos de sua face e a morte.

Em vez de sua imagem real, manequins esguias a retratavam com exagerada maquiagem, vestidos provocantes e pernas nuas. Ela era representada nesses novos vestidos e nos cabelos soltos das modelos. Parecia que a única maneira de introduzir Frida Kahlo nos Estados Unidos era fazê-la passar por essa lavagem cultural, como se fosse pintora da moda, bela e aceitável ao gosto dominante. Atualmente, alguns de seus quadros estão cotados em até um US$ 1 milhão.

Entretanto, nem todos gostam do que ela pintava e nem todos a reconheceram pelos olhares de “Elle” ou “Vogue”. Ao comentar com uma amiga sobre Frida, a reação não demorou: “Não é aquela pintora com bigodes, que trata de temas melancólicos? Ela é demasiadamente estropiada!”.

Nessa asserção, o que fica de Frida parece ser somente as marcas fortes de seu rosto e seus símbolos de morte. Talvez por isso, aquilo que parece ser uma enorme crueza e intensa feiúra na obra de Frida é rechaçado ou necessariamente revisado e embelezado, para torná-la aceitável aos padrões da classe média norte-americana. A própria definição que André Breton fez de Frida e de sua arte -“uma fita ao redor de uma bomba”- acaba por fazer quase o mesmo das revistas norte-americanas. Ao enlaçar a bomba com uma fita, a fita distrai a bomba e a bomba acaba por ser um mero elemento para mostrar a fita.

Se em Breton a bomba precisa da fita para traduzir beleza, nas revistas de moda o caminho é mais fundo, tentando redimir Frida de si mesma, de seus tormentos e pensamentos de morte. Uma vez redimida, sua obra torna-se sexy, colorida, bela, e ao final de tudo, mais consumível. Nas revistas, os tons revolucionários, nacionalistas e marxistas presentes em suas pinturas parecem nunca terem existidos.


Vestidos com compromissos

Os vestidos de Frida não eram escolhidos por causa apenas da beleza, mas expressavam compromissos culturais com os povos indígenas, principalmente astecas, com os quais se identificava. Sua arte envolvia e revolvia recursos intelectuais e experiências dos contextos que ela gostaria de verem refletidos em seu país.

No quadro citado (“Meu vestido pendurado ali”), ela usa um vestido tehuana. Janice Helland comenta: “É provável que a imagem dos vestidos das mulheres zapotecas que representam ideais de liberdade e de independência econômica tenham, por isso, chamado a atenção de Kahlo” 1.

Seus vestidos e colares fazem relembrar os vínculos de Frida com seu povo. Ao usar vestidos tehuanos de mulheres zapotecas, além de colares que traziam o imaginário azteca, Frida parece querer lembrar que são essas mulheres, esses povos colocados à margem da universalização cultural (não fora da estrutura, mas nas margens) que estão ali pendurados, colocados entre as fronteiras da assimilação, do extermínio, mas da resistência.

No quadro citado, uma enormidade de referências culturais, políticas, sociais, religiosas e econômicas são postas em relação e tensão, e entre essas referências mundos cheios de história e materialidade são construídos, coabitados, transformados e destruídos. Helland descreve o quadro: “Um vestido, um telefone, um troféu esportivo, a figura de um dólar ao redor da cruz entrando num edifício federal, como símbolo financeiro, e Mae West, no papel da fantasia de Hollywood. Essas fotografias destacam o destino dos desempregados da era da grande Depressão na parte inferior do quadro e mostram o contraste entre a riqueza e a pobreza na sociedade americana” 2.

O vestido tehuano de Frida pendurado num cabide, num varal de fita de laço, entre os Estados Unidos e o México, reflete a vida de povos inteiros, ao mesmo tempo presentes e ausentes, em meio a diálogos surdos e medidas culturais e econômicas excludentes que essas mesmas fronteiras constroem e destroem.

Os vestidos das mulheres zapotecas vão parar nas revistas de moda sem que nunca se saiba da significação que se dá “no chão mesmo da América Latina de uma tradição-tradução de memória libertadora de mulheres” a respeito das “variações e as rupturas com as linguagens de conhecer o corpo no mundo e o nosso, devorá-los como aprendizagem sexuada e cultivar alternativas de produção e reprodução da vida: economia, erótica, ecológica, epistêmica, ética e estética” 3.


As roupas e as fronteiras

A obra de Frida se situa entre fronteiras. Muitas vezes desenvolve uma estrutura dualista, mas sempre desafia os lados, os espaços de dentro e de fora, o que é de lá e o de cá. Mulheres têm seus órgãos internos colocados para fora, o sangue corre tanto por fora quanto por dentro das veias, duas e várias partes de nós mesmos são colocadas lado a lado, como uma coisa só e, ao mesmo tempo, quase distintas. O amor, a traição, a natureza (viva ou morta?), o suicídio, a dor, a morte -tudo acontece em meio à vida sempre pulsante de seus quadros.

Sua arte demonstra clara consciência da presença fulcral da fronteira, especialmente das conseqüências desse espaço tênue em que se situa a luta do povo mexicano por identidade. No final dos anos 20, o México esforçava-se para criar um sentimento de nacionalismo e de orgulho em seu povo. Os Estados Unidos pareciam já mostrar que a cultura “norte-americana” era dona de uma geografia excludente, invasiva (partes do México foram roubados pelos Estados Unidos) e parâmetro da cultura civilizada, universal e hegemônica 4.

Como tentativa de resistir a esse sistema solapador e mesmo tentar subvertê-lo e desfazer os aportes universais da cultura americana, o México foi buscar em seus elementos culturais pré-hispânicos e indígenas formas de se conscientizar, preservar, amparar e desenvolver uma cultura que fosse verdadeiramente nacional. Estas tentativas, entretanto, acabaram por abusar de elementos indígenas, e os mexicanos acabaram por criar caricaturas de si mesmos 5.

As fronteiras regulam, contêm e excluem. São aparatos de controle, concretos e simbólicos, paradoxais e determinados, misturando espaço, poder, conhecimento, economia e identidade. Têm a ver com espaços limítrofes e imaginários: margens, territórios, articulações geopolíticas, linhas e limiares em constante relação, separando, demarcando e costurando lugares e posições.

São espaços nervosos, cheios de ansiedade 6, e permeáveis ao que ainda não conhecem. Sua proteção está sempre ameaçada pela chegada do inesperado, e suas bordas vulneráveis. Nas palavras de Roxanne L. Doty, “as fronteiras já são ameaçadas desde seu aparecimento. A possibilidade sempre presente de serem atravessadas é inerente à sua instituição, coisa que as torna indecidíveis, indistintas e ameaçadas” 7.

Os vestidos de Frida vestem e despem as partes porosas das fronteiras religiosas, culturais, políticas e sexuais, não só do México e dos Estados Unidos, mas de todo o continente americano. Nada é categórico; tudo se desenvolve no vento de referências e bases culturais escolhidas.

Suas roupas tornam as fronteiras “categóricas” em passagens permeáveis e em possibilidades de práticas transgressoras, produtoras de conexões fronteiriças que tornam as linhas divisórias e invisíveis em visíveis e ideológicas.

Da mesma forma que os vestidos, Frida vestia também os “rebozos”, que eram chales feitos de vários tipos de material (algodão, seda ou lã), bordados com longas franjas e usado por mulheres de todas as classes sociais. Em diferentes fotos, Frida usa vários destes “rebozos”, por vezes de seda, próprio das classes mais altas e também de algodão, como as “revolucionarias soldaderas” 8.

Novamente, a roupa con-fundia as noções de revolucionária, de “soldadera”, de classe, de cultura, de colônia e de nação. Da mesma forma ela confunde noções quando em seu quadro “Auto-retrato na fronteira entre México e Estados Unidos”, de 1932, e pintado em Detroit, ela usa um vestido colonial, com colar de estilo coatlicue da deusa da terra azteca, ao mesmo tempo que veste luvas de laço e sem dedos.

Para Rebecca Block e Lunda Hoffman-Jeep, “Kahlo se coloca na encruzilhada, elaborando e concretizando posições pessoais e políticas... Existe uma considerável ironia na maneira satírica que Kahlo faz da manipulação da cultura” 9.

Novamente, há uma enormidade de justaposições entre sua roupa, seus adereços, a bandeira de parada cívica do México, o bico dos seus seios visíveis e os enormes símbolos da cultura moderna presente ao lado dos Estados Unidos, como a Ford, os maquinários, a poluição e a pré-modernidade vivenciada no lado do Mexico, com seus templos e símbolos religiosos pré-colombianos ligados à terra.

Assim, os vestidos e as formas de vestir de Frida se misturam com a vida inteira. Eles anunciam fraquezas e forças, carregam referências culturais, econômicas, sociais, econômicas, sexuais e nacionais. São mais do que a fita na bomba que é o corpo. Permeiam, interagem, e relacionam peles, lugares, povos, toques, visões e cheiros de mundo. Como disseram Block e Hoffman-Jeep, “Kahlo era particularmente consciente da habilidade que as roupas tinham em comunicar informação acerca de gostos, princípios, carácter e sentimentos de uma nação” 10.

Seus vestidos marcam as condições das possibilidades da construção de cada país e do relacionamento entre eles, como a maneira de cada um estabelecer suas estruturas culturais e escolher seus valores simbólicos. Os vestidos apontam para corpos que o vestem ou que estão nus, de roupas que mobilizam a indústria da moda e como esta estabelece noções, que vão desde as medidas ideais do corpo até os critérios de alimentação, de ênfases econômicas e consequentemente de classes sociais.

Assim, os vestidos também indicam a fragilidade do corpo feito forte e desmesuradamente belo, o desequilíbrio, o inóspito, os lugares inabitáveis. O vestido de Frida veste uma realidade ao mesmo tempo oculta, perturbadoramente clara, e demasiada densa e complicada. Os vestidos pedem a atenção do nosso olhar entre as tantas referências. Os quadros de Frida fazem nossos olhos tornarem-se performáticos, ritualizando os contornos entre o imaginário e o real. Como diz Ronald Grimes, “Ritualizamos para tornar real o evento” 11.

Esse mapeamento dos encontros humanos e vivos anuncia, denuncia, acumula e precipita uma situação que é nossa, no mundo, encarnada nas vísceras, veias e peles de nosso próprio corpo. Nossas roupas e nossos vestidos se desgastam, perdem o lugar na moda, se modificam, são re-usados, assim como nossas referências todas. O corpo também se esvai, assim como se escoam a fama e os corpos das modelos. O que fica, ou parece ficar, é o poder econômico “que ergue e desfaz coisas belas”, que faz viscejar e renovar o eternamente novo, re-usável, banalizado, a cada nova temporada do fashion week.


Costurando mitos e religião

A referência religiosa nas obras de Frida vinha de povos abandonados e marcados pela probreza. Em seus quadros e fotos, seus vestidos e colares eram rodeados e mesmo marcados por aspectos religiosos presentes na cultura mexicana. Em seu quadro “Auto-retrato na fronteira entre México e Estados Unidos”, seu vestido está ao lado de elementos como o sol, lua, templo, caveira, sangue, o ciclo vida-morte azteca, e outros elementos da terra que servem para compor referências culturais, religiosas e teológicas do México.

Além das expressões religiosos pré-colombianas, a obra de Frida faz fortes referências ao catolicismo popular, como as coleções de milagres, os “retablos”, que Frida guardava. A Virgem Maria e os santos, Jesus Cristo, seu sofrimento e todo o imaginário católico são símbolos recorrentes na sua obra.

Andrea Kettenmann diz que Frida “via os quadros religiosos que utilizava como expressões de crenças essencialmente populares, que não dependiam, pelo seu significado, da Igreja Católica. Assim, podia utilizar livremente o imaginário cristão para seus próprios fins e apresentar-se a ela própria no papel de mártir”

O que parecia interessar Frida em meio à questão religiosa, eram os movimentos desvinculados do poder central, unívoco, de controle absoluto das religiões. Os símbolos das religiões pré-colombianas eram sinais de independência e autonomia de um povo que construiu seu mundo, autenticava o passado e sinalizava vínculos necessários do povo mexicano.

Para Frida, essa força religiosa nativa tinha muito mais a ver com a identidade mexicana, e deveria criar resistência à força e aos vínculos de feitio e feitiço econômico-religioso interconnectados nas fronteiras entre os Estados Unidos e o México. Também não interessava a Frida o catolicismo romano oficial com suas doutrinas corretas e posições teológicas, mas, sim, a recriação que o povo fazia com os elementos oficiais do cristianismo recebido pelos conquistadores.

Assim, as religiões pré-colombianas e o catolicismo popular carregavam uma verve imaginária, uma outra teologia, sem o “teos” (Deus) necessariamente autorizado, e a “logia” (lógica, conhecimento) tradicional do Ocidente. Ao contrário, a teologia popular é o engendramento do sagrado a serviço da vida em suas expressões mais agudas, em seus desejos de materialidade, bênção e festa. A teologia popular traduz um outra tradição-tradução, um outro conhecimento, da vida e de Deus, e se dá continuamente ao refazimento que for, dependendo das necessidades do povo.

Os vestidos das mulheres mexicanas traziam essas referências religiosas, fazendo com que a religião ficasse dependurada no e com os vestidos. Assim, Frida desenvolve uma religiosidade e mesmo uma teologia que era nascida e fomentada a partir de experiências sincréticas e das vicissitudes do povo, em continuidade, contraste e oposição à religião oficial. Seus vestidos talvez se empenhem em contemplar uma fé dependurada, paradoxalmente incerta, não fixa, que se dá continuamente na materialidade do roçar do vestido com o corpo, corpo sexuado ambíguo, para recriar o mundo do jeito que quiserem.

Assim, o vestido de Frida, das mulheres mexicanas do norte, do centro e do sul da america está pendurado ali. E nós também. O vestido não está ali por acaso mas sim em meio a um redemoinho de fronteiras, limites e referências que a traduzem e silenciam. É revolucionário porque desfaz e confunde os limites estabelecidos e anuncia uma outra possibilidade, enviezada da oficialmente anunciada.

O vestido está pendurado ali sem seu corpo quebrado. Que faz com que o vestido esteja lá, pendurado, e nos assegure que lá esteja ainda? O vestido pendurado nas fronteiras desarma as formas de conhecimento, incluindo o conhecimento religioso. O vestido fala da transitoriedade, da resistência, da fragilidade e da força do vento, coisas mais ligadas à religiosidade popular do que aos sistemas de fé oficiais e sistemáricos.

O vestido desse quadro traz uma identidade de um “lá/aqui” indefinível. Esse vestido parece ocultar o que não se pode saber; está aqui mas também em outros lugares (aqui, cá, lá, acolá, aqui ali, além). Está pendurado lá, num contexto complexo, possivelmente vulnerável a negociações infindas. O vestido fala e silencia corpos ausentes, desterritorializados, jogados para algum lado invisível na malha de relações das fronteiras. Eles servem de sinalizador de algo que se foi, ou que ainda está ali mas renunciado, negado, escondido.

Por fim, acredito que Frida nos dá um instrumento teológico novo: um vestido! E um lugar: “lá.” Nossa tarefa talvez seja a de discernir o vestido, os corpos presentes-ausentes e o lugar desterritorializado onde estão os vestidos e os corpos. Assim, os vestidos falarão de nós mas a partir dos corpos e os vestidos dos outros, entre as fronteiras de nós mesmos e das nações que nos cercam, aqui e lá, sendo esse lá onde quer seja. O vestido de Frida está lá na fronteira, mas nós também.

Claudio Carvalhaes
É doutor em teologia, liturgia e artes no Union Theological Seminary e Universidade Columbia. É autor de "Transgressões: Religião, Performance e Arte" (ed. Emblema). Site: www.claudiocarvalhaes.com.br

Longevidade

MINHA AVÓ AOS 100 ANOS
Há uma série de estudos afirmando que um estilo de vida saudável é uma das chaves da longevidade. Confira alguns deles:

1. CASE-SE. Segundo estudo publicado no Health Psychology Journal, dos Estados Unidos, as pessoas que se mantêm em longas e bem-sucedidas uniões têm uma expectativa de vida maior em comparação àquelas que se casam novamente ou terminam a vida divorciadas (desde que estejam juntas por amor e não por aparência, conveniência ou obrigação social ).
2. EXPRESSE SUAS EMOÇÕES. De acordo com o Journal of Clinical Psychology, da Inglaterra, aqueles que manifestam suas emoções por meio de alguma atividade artística, como cantar, escrever e pintar, são mais saudáveis do que as pessoas que não o fazem.
3. TENHA HORÁRIOS. Evite a prática de exercícios entre as 11 da manhã e a 1 da tarde, principalmente em lugares reconhecidamente poluídos. É quando a produção de adrenalina atinge seu pico. O sangue fica mais grosso do que o normal, a pressão arterial sobe e o batimento cardíaco se eleva.
Durante essas duas horas, é maior a probabilidade de uma placa de gordura se romperem um vaso, o que pode provocar derrame cerebral ou infarto no coração.
4. SEJA SOLIDÁRIO. Segundo estudo publicado na revista Psychology Science, dar apoio físico ou emocional a outras pessoas reduz em até 60% o risco de morte prematura no idoso.
5. PREFIRA AS COMÉDIAS. O riso espontâneo promove a dilatação dos vasos e melhora o fluxo sanguíneo. Também reduz os níveis de adrenalina e cortisol no sangue e aumenta a liberação de endorfinas, hormônios ligados às sensações de bem-estar e prazer. Quer mais? Ainda emagrece. Estudos da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, concluíram que dar boas risadas por um período de dez a quinze minutos faz uma pessoa queimar, em média, 50 calorias.
6. USE O FIO DENTAL. De acordo com pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, a inflamação bacteriana da gengiva, causada pelo acúmulo de resíduos alimentares entre os dentes, aumenta em 72% o risco de doença cardiovascular.
7. IMITE OS BRITÂNICOS. Ser pontual é bom, mas beber chá é ainda melhor. De acordo com o jornal Phytotherapy Research, o hábito cultivado pelos ingleses pode ajudar no combate à doença de Alzheimer. Estudos indicam também que o consumo de chá reduz os riscos de câncer. O chá verde é o que promete maiores benefícios.
8. LARGUE O CIGARRO. Fumantes regulares vivem, em média, dez anos menos do que um não-fumante. Cerca de 90% dos casos de câncer nos pulmões, a neoplasia que mais mata no Brasil, estão relacionados ao tabagismo.
9. TENHA FÉ ( Crer com embasamento e não por fé cega ). Segundo o International Journal of Psychiatry and Medicine, ter uma crença forte em algo ajuda a combater o stress e problemas emocionais.
10. BEBA COM MODERAÇÃO. Estudos mostram que o consumo diário de até duas taças de vinho deve fazer parte da receita para uma vida longa. Até a cerveja, quando consumida moderadamente, pode trazer benefícios à saúde, apontam pesquisas recentes.
11. COMA MENOS. Um estudo comparou cinqüentões que viviam de dieta com outros que consumiam, em média, 2000 calorias por dia. A conclusão foi que o primeiro grupo teve uma expectativa de vida cerca de 30% maior, além de aparentar ser mais jovem do que os congêneres da mesma idade.
12. MORE PERTO DE UM PARQUE. Um estudo realizado por pesquisadores japoneses concluiu que a expectativa de vida dos idosos que moram próximo a áreas verdes é maior do que a daqueles que vivem cercados de arranha-céus.
13. VÁ DE VERDES. Vegetais verde-escuros, como espinafre, rúcula e brócolis, são ricos em ácido fólico, uma substância que ajuda a manter a integridade do DNA.
14. MANTENHA A MENTE ATIVA. Pesquisas mostram que a doença de Alzheimer tem maior incidência entre as pessoas com baixo nível de instrução.
Estudo publicado no New England Journal of Medicine relaciona a leitura, os jogos de cartas e de tabuleiro e as palavras cruzadas com a redução do risco de demência em pessoas com mais de 75 anos.
15. TOME VITAMINAS. Cápsulas de vitamina C são as mais indicadas. Seu consumo ajuda a prevenir a degeneração macular, que afeta 3 milhões de brasileiros e é a maior causa de cegueira em pessoas com mais de 50 anos.
Consulte seu médico sobre a dosagem.
16. CURTA O CHOCOLATE. Em pequenas quantidades, ele pode ser benéfico à saúde. Segundo estudo do King's College, de Londres, a quantidade de flavonóides encontrada em 50 gramas de chocolate é equivalente à de seis maçãs, duas taças de vinho ou sete cebolas. Os flavonóides têm sido apontados como importantes armas no combate aos radicais livres.
17. DÊ PREFERÊNCIA AOS PESCADOS. Peixes de água profunda, como salmão e anchova, são ricos em ômega 3. Esse poderoso antioxidante, segundo o jornal da Associação Médica Americana, pode reduzir em até 81% o risco de morte súbita no homem.
18. FAÇA SEXO. A atividade sexual traz sensações de prazer e bem-estar, combate o stress, aumenta a auto-estima e ainda queima calorias. Estudos mostram que as pessoas sexualmente ativas são mais saudáveis. Segundo a OMS, o sexo é um dos quatro pilares da qualidade de vida, ao lado do prazer no trabalho, da harmonia familiar e do lazer.
19. SEJA OTIMISTA. Após dez anos estudando como a personalidade de uma pessoa pode influir no aumento ou na diminuição da expectativa de vida, pesquisadores holandeses concluíram que ter uma atitude positiva pode diminuir em até 55% o risco de morte prematura.
20. NÃO PULE O CAFÉ-DA-MANHÃ. Pesquisa do Instituto de Gerontologia da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, averiguou que os centenários não costumam dispensar a primeira refeição do dia.
21. TENHA UM ANIMAL DE ESTIMAÇÃO. O conselho foi seguido por operadores da bolsa de valores de Nova York,avaliados em um estudo. Foi tão eficaz no combate ao stress que metade deles suspendeu o uso de medicamentos contra a hipertensão. Quem tem um bichinho em casa vai ao médico com menor freqüência, afirmam pesquisadores da Universidade de Cambridge, na Inglaterra.
22. REDUZA O SAL. Essa medida é importante no tratamento e na prevenção da hipertensão arterial, um dos fatores de risco para doença cardiovascular.
Evite mais de 6 gramas por dia, o equivalente a uma colher de chá.
23. INVISTA EM CULTURA. Depois de acompanhar 12 000 pessoas por nove anos, pesquisadores suecos observaram que, em média, as chances de uma pessoa alcançar a longevidade foram 36% maiores naquelas que cultivavam o hábito de realizar programas culturais, como visitar galerias de arte, assistir a peças de teatro e freqüentar concertos musicais.
24. SINTA-SE EM CAPRI. Está provado que uma dieta mediterrânea, rica em vegetais, peixes e azeite de oliva, pode afastar doenças como hipertensão, diabetes e obesidade, capazes de encurtar a vida em até dez anos. A pesquisa foi feita com 1 507 homens e 832 mulheres, entre 70 e 90 anos, em onze países europeus.
25. ABUSE DO MOLHO DE TOMATE. ( Não industrializado) Pesquisas conduzidas pelo médico americano Michael Roizen, autor do livro Idade Verdadeira e fundador do Real Age Institute, um dos mais respeitados centros de estudo da saúde e do metabolismo humano, mostram que dez colheres de molho de tomate ingeridas semanalmente podem reduzir pela metade o risco de ocorrência de onze tipos de câncer. O tomate é rico em licopeno, um antioxidante encontrado nos vegetais vermelhos.
26. DURMA BEM. Estudos sugerem que a falta de sono crônica pode ter um impacto negativo nas funções metabólicas e endócrinas. Quando se dorme menos de cinco horas, há um desequilíbrio no metabolismo.
27. CONTE ATÉ CINCO. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, esse é o número mínimo de porções de frutas e vegetais que uma pessoa deve comer por dia. A OMS defende que uma alimentação balanceada e rica em vitaminas, fibras e minerais pode reduzir em até 40% o risco de câncer.
28. VÁ AO OFTALMOLOGISTA. Depois dos 50 anos, a chamada vista cansada se torna ainda mais comum. Com a idade, também aumentam os riscos de glaucoma e catarata.
Além disso, alterações de fundo de olho podem indicar a presença de diabetes e hipertensão.
29. MODERAÇÃO COM A CARNE VERMELHA. Pesquisa sobre hábitos alimentares em dez países europeus concluiu que o consumo diário de carne vermelha aumenta o risco de câncer de intestino em até 35%. Mas não a evite.
Proteínas são essenciais para quem faz atividade física regularmente, não só porque dão resistência mas também porque ajudam a tornear os músculos.
30. MOVA-SE. De acordo com a Associação Americana do Coração, o sedentarismo, por si só, aumenta o risco de doença coronariana em, pelo menos, uma vez e meia.
Exercícios diários moderados ajudam a aumentar o tempo de vida em até seis anos.

Fonte: Revista Psychology Science, Journal of Clinical Psychology, Universidade Vanderbilt, Universidade Harvard, Associação Médica Americana, International Journal of Psychiatry, Phytotherapy Research, New England Journal of Medicine, Journal of the American Medical Association, King´s College, Universidade de Cambridge, Federação Mundial de Cardiologia e Organização Mundial de Saúde, RealAge Institute, Universidade da Geórgia e Universidade de Loma. --- Adriani F. Zadrozny Psicóloga

Lucio Cardoso



Consta que Clarice teria mantido com Lucio Cardoso uma "ligação amorosa platônica" , nos anos 60. E que "... Cardoso era "mais ou menos abertamente" homossexual, o que se traduziu na sua obra como mais uma instância particular do tema geral da redenção possível de uma humanidade ontologicamente pecaminosa..."(!?)


À uma estrela

Meu domínio é o do sonho,
minha alegria é a do céu que a tormenta obscurece,
meu futuro é aquele que amanhece à luz do desespero.
Só tu saberás o segredo da minha predestinação.
Só tu saberás a extensão de tantas caminhadas,
só tu conhecerás a casa humilde em que morei.
Quem saberia romper o sortilégio que me cerca,
ó sol vermelho, aurora dos agonizantes.



Mas não reflitas nunca o gesto que condena.
Ai, este país é o da eterna aridez!
Se da altura a estrela não baixar o olhar ao pântano,
maior será a sua impiedade que o seu esplendor.



E só tu Vésper, só tu aplacarás o meu desejo,
só tu poderás depositar, nesta carne crispada,
o beijo que nas trevas dá ao sono a serenidade do repouso.





OLHE AO REDOR
Clarice Lispector

Olhe para todos a seu redor e veja o que temos feito de nós.
Não temos amado, acima de todas as coisas.
Não temos aceito o que não entendemos porque não queremos passar por tolos.
Temos amontoado coisas, coisas e coisas, mas não temos um ao outro.
Não temos nenhuma alegria que já não esteja catalogada.
Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas.
Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.
Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda.
Temos procurado nos salvar, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes.
Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de ciúme e de tantos outros contraditórios.
Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível.
Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa.
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada.
Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos o que realmente importa.
Falar no que realmente importa é considerado uma gafe.
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses.
Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz.
Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos.
Temos chamado de fraqueza a nossa candura.
Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo.
E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.

SILÊNCIO

É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembranças de palavras. Se és morte, como te alcançar. É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível - sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro - tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz.
A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes.
Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.
Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.
O coração bate ao reconhecê-lo.
Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta - como ardemos por ser chamados a responder - cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga - como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.
Até que se descobre - nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio.
Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror - o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.
Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.
Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.
Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo - de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia - ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.

Clarice Lispector- "Onde estivestes de noite?"
7ª Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro – 1994.