dezembro 22, 2007

O valor do amanhã


O Valor do Amanhã
Eduardo Gianetti

Durante a vida humana, somos expostos a tomar infinitas decisões, muitas delas se encaixam no problema de escolher entre desfrutar algo hoje ou esperar para saboreá-lo amanhã. Este problema, inerente ao transcorrer da vida na linha do tempo, é abordado com profundidade e elegância no livro O Valor do Amanhã, do economista e filósofo Eduardo Gianetti. Diz-se que o livro trata dos juros. É avaliação superficial. O tema é mais amplo. Como o próprio autor reclama: "A face mais visível dos juros monetários representa apenas um aspecto, ou seja, não mais que uma diminuta e peculiar constelação no vasto universo das trocas intertemporais em que valores presentes e futuros medem forças." Com maestria, Gianetti apresenta o problema das trocas intertemporais que ocorrem em todo o mundo animal. Seus exemplos são magníficos. Afinal, que aperfeiçoamento darwiniano conduziu uma espécie de ratos a estocar alimento para o inverno em quantidade muitas vezes superior à sua capacidade de consumir? Exibindo extremos dos comportamentos de nossa espécie - a avareza, a gula, a entrega às drogas, a dedicação monástica exigida por uma religião – Gianetti explora as variantes do modelo de decisão do tipo "ter agora, pagar depois" versus "pagar agora, para ter mais tarde". É curioso como um modelo de decisão tão simples de ser enunciado se aplica a situações tão distintas. Se aplica à escolha do momento de um investidor realizar os lucros de seus investimentos. Ou à prosaica decisão do comensal que escolhe entre comer o musse de chocolate agora, em detrimento de exibir o abdômen "tanquinho" amanhã.

O pano de fundo do livro é o problema humano retratado na letra de música de Lobão: "viver dez anos a mil ou mil anos a dez?". Como bem sintetiza Gianetti, "a vida é um intervalo finito de duração indefinida". Se houver um deus a quem agradecermos por nossas alegrias e culparmos por nossas agruras, sem dúvida ele deve rir muito de nossa inquietação e insegurança para tratar o problema de como bem viver a vida. Devemos buscar a satisfação imediata? Ter ou fazer hoje o que desejamos, a qualquer custo? Ou nos poupamos, nos guardamos? Buscamos a segurança que nos proverá nos serenos anos da velhice? Mesmo com as promessas de vida eterna das religiões – que Gianetti apresenta com notável isenção – os humanos têm dificuldade em se desapegar da dádiva da vida como conhecemos. Em geral buscamos otimizar nossa experiência de vida terrena. Apesar de toda a pantomima religiosa, não levamos muita fé nas promessas dos messias. Mesmo com o marketing das igrejas, como não há nenhum indício minimamente palpável de que existam as mil virgens que nos prometem no paraíso, a maioria não opta pela solução de dar um tiro na cabeça e passar "dessa para melhor". Temos mesmo que resolver a vida antes de morrer.

No início de um curso de matemática financeira que ministrei, para ilustrar a idéia de juros, usava o exemplo de duas criaturas limites. Uma delas era imortal, suas decisões não se alteravam em relação ao tempo. A outra, chamada "criatura efêmera", acometida de uma doença terminal, tinha pouco tempo de vida para usufruir. As duas tinham que fazer escolhas com relação a um fluxo de recebimentos de recursos. Uma tinha pressa em receber valores. A outra era indiferente em relação aos prazos de entrega dos recursos. Daí surgia o conceito dos custos das trocas intertemporais e a noção de juros. Eduardo Gianetti apresenta arquétipos de decisores mais interessantes e genéricos. Ele utiliza a cigarra e a formiga de Esopo. Gianetti cunha a figura da cigarra límbica, que só se interessa pelos prazeres de curto prazo, e da formiga pré-frontal, planejadora e focada em abrir mão da boa vida agora para garantir seu futuro. A discussão conduzida pelo autor nos leva a pensar se consumimos com perícia o bem limitado e perecível que é o tempo de nossas vidas. Pode parecer pouco importante para os jovens (e realmente não o é, pois eles têm a sensação inebriante de serem imortais), mas o problema da aposentadoria, ou seja, a decisão de quanto deixar de gastar hoje para garantir o amanhã, é preocupação que vai tomar bom tempo de suas vidas. Aos jovens, a mensagem: Aguardem!

Gianetti explora as diversas visões de como viver: a miopia do irresponsável que só atenta para o imediato, e o hipermetrope, que religiosamente (o advérbio se aplica como uma luva) se prepara para um futuro que o prazo indefinido do contrato da vida não lhe assegura. Por isso minha menção ao livro ser um guia de auto-ajuda para pessoas sofisticadas. A colocação do problema e sua exploração em facetas diversas propiciam oportunidade única para cada um pensar: Qual a boa prática para gastar a grande dádiva de viver?

A obra de Gianetti retoma preocupações que ele já abordara em outras ocasiões, como no livro Felicidade. Será a felicidade de um indivíduo um estado de euforia momentâneo decorrente do último prazer ou dor experimentado, ou é a sensação de prazer obtido pela soma das experiências passadas e expectativas futuras de prazer percebidas pela pessoa? A felicidade é a gargalhada do momento ou o sereno sorriso garantido para amanhã? O tempo também é senhor de nossos sentimentos.

Fica a recomendação do livro e autor. A identificação do modelo do problema das trocas intertemporais é elemento importante tanto no nível profissional como pessoal. A inteligência do discurso de Gianetti é hipnotizante. O texto elaborado e elegante embala a leitura. O Valor do Amanhã foi dos melhores lançamentos de 2005, teve muito boa venda, mas é produto que vai vender bem no longo prazo. O livro é mais propício aos maduros saborearem. Em geral, o futuro é assunto que a miopia da juventude despreza: "Pobres moços, eles não sabem o que eu sei." dizia Cartola. Por outro lado, aqueles que já consumiram mais da metade do máximo que esperam viver, terão mais atenção para o assunto.
ernesto friedman

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dezembro 21, 2007

Oscar Wilde




Um amigo enviou-me esta foto, feita em Dublin.
Pouco antes, eu havia revisitado o seu túmulo no Père Lachaise e tinha visto que está, como mostrado no recente filme Paris, je t' aime, todo estampado de beijos, mensagens e flores. Quando de minha visita anterior, ao cemitério, a "vedete" era o Morrison que agora, literalmente, descansa em paz.
O Retrato de Dorian Gray nos vem à cabeça, inevitavelmente, sempre que pensamos em Oscar Wilde.
No romance, o jovem que dá titulo a obra, permanece sempre belo e jovem enquanto que o seu retrato começa a manifestar as feições mais repulsivas de sua consciência. O retrato envelhece enquanto ele permanece eternamente jovem. O retrato sangra enquanto ele apresenta o seu belo rosto à sociedade.
O lado negro de sua alma, que busca ocultar, representa os mais sombrios traços da personalidade humana, não facilmente aceitos por nós, e seria - na linguagem de Jung - a nossa sombra, que tentamos ignorar para viver numa falsa condição de inocência.
Recheada de diálogos memoráveis, que revelam a sarcástica genialidade do autor, a obra revela a nossa tendência de projetar nos outros o que não podemos aceitar em nós mesmos.
As pessoas, como a personagem do romance, incapazes de conviver com suas próprias escolhas, instintos, pensamentos, erros e desejos tendem a projetar nos outros a culpa, com o mesmo cinismo que Adão, no mito bíblico, joga a sua na serpente.
O trabalho com a sombra se inicia com a percepção e a conseqüente - e necessária - aceitação de tudo aquilo que somos.
Este processo de conscientização é lento, gradual, doloroso e exige muita coragem e força de vontade de quem ousar se aventurar para além das máscaras.
É mais cômodo/confortável sermos sempre vítimas, nunca criminosas, sempre inocentes, nunca culpadas, sempre certas, boas, limpas e cordiais.
É mais fácil enxergar nossos demônios nos outros, a fim de que carreguem a culpa por nós.
E é ainda mais fácil, quando retratado em um romance.


"LOUCOS E SANTOS
Escolho meus amigos não pela pele ou outra característica qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.

Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.

Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.

Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto.

Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos , bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."

dezembro 20, 2007

CÂNTICO NEGRO

Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta: Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguem.
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira,
A foto é A.Neves, ambos nascidos em Vila do Conde

BABENCO - O Passado

Nada passa, nunca; tudo o que acontece é indelével, sobretudo em se tratando do amor, por mais que acabem, continuam vivendo, subterrâneos, dentro de nós, porque, bem ou mal, são essas as vivências que mais nos formaram e transformaram.
(C.Galligaris)

O PASSADO, de Hector Babenco, é inspirado no romance homônimo de Alan Pauls: Rímini e Sofía se casam muito jovens e se separam 12 anos depois, amigavelmente.
O filme lembra o "Atração Fatal", só que Sofia, por parecer menos louca, é mais inquietante. A causa do problema estaria na fraqueza de Rímini (Gael García Bernal) que, além de seguir o desejo de todas as mulheres com quem vive, sem nunca descobrir e afirmar o seu, não consegue se livrar das atenções incômodas de sua antiga companheira.
No filme os personagens circulam por interiores abarrotados de restos do passado: livros, fotografias, quadros e objetos que, a cada mudança de casa, confirmam que nunca conseguiram deixar para trás os seus vestígios, cujos rastros sempre assombram o presente e o futuro.

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No filme - O PASSADO- Babenco invoca Adele H. para enfatizar o comportamento patológico da personagem. A história de Adele H. foi filmada por Truffaut com Isabelle Adjani no papel título, em 1975. Adèle Hugo, filha do escritor frances Victor Hugo , tem um rápido romance com o tenente Pinson, por quem estava perdidamente apaixonada e é por ele abandonada. Ele vai servir na base de Halifax, no Canadá e já nem se lembra mais de Adèle. Ela vai à sua procura e o atormenta a ponto de anunciar o casamento dos dois num jornal local, provocando o rompimento da união dele com a filha de um juiz. Doente, sem recursos, ela empreende uma perseguição implacável até que ele é transferido para Barbade. De tão louca, não o reconhece quando cruza com ele na rua. Uma pessoa da cidade a acolhe e a encaminha de volta à França. Internada em Saint-Mandé, morre quarenta anos mais tarde.

AMAR E SER AMADO

Definir o amor tem sido assunto reservado aos poetas. Mas a neurociência, quem diria, já pode dar os seus pitacos -ao menos para explicar por que amar e ser amado são desejos tão fortes e presentes em nossa espécie. Considerados inviáveis dez anos atrás, dada a subjetividade do assunto, exames do cérebro de voluntários que contemplam imagens da pessoa amada ou a abraçam são hoje em dia bem aceitos pela ciência. Esses estudos mostram de que é feita a experiência do amor pelo cérebro. A presença do ser amado ativa o sistema de recompensa, trazendo sensações de prazer, felicidade e bem-estar como um todo, que, de quebra, nos ensinam a associar a tais sensações positivas o objeto de nosso amor e nos fazem querer continuar em sua presença e até ansiar por ela. Essa ânsia é especialmente intensa quando o amor é reforçado por sexo -o bom sexo, voluntário e prazeroso, que, com o orgasmo, leva à liberação de hormônios como a ocitocina, que ativam ainda mais o sistema de recompensa.
Se o amor é correspondido, a presença da pessoa amada é também calmante. Mesmo longe de levar ao orgasmo, um abraço já aumenta a liberação de ocitocina, que, além de estimular o sistema de recompensa, reduz a atividade das estruturas do cérebro responsáveis pelo medo e facilita a aproximação.
Abraços amorosos nos deixam menos temerosos e desconfiados e, por conseguinte, mais confiantes no outro, otimistas e dispostos a abaixar a guarda. Sentir-se amado é um grande ansiolítico. Quem de fato recebe a atenção e os cuidados do objeto do seu amor não se sente sozinho e tende a ter respostas mais saudáveis ao estresse, inclusive com a produção de quantidades menores do hormônio cortisol -aquele responsável pelos estragos do estresse crônico. Receber um abraço dessa pessoa já basta também para diminuir instantaneamente o nível de cortisol no sangue.
Até o sexo é ansiolítico, por levar, com o orgasmo, à liberação de prolactina -uma grande responsável pela sensação de bem-estar e relaxamento físico e mental que se seguem. Dar apoio moral é uma grande demonstração de amor, crucial para manter saudável a resposta ao estresse de quem o recebe. Mas dar carinho a quem se ama é a mais inequívoca demonstração de amor, tão importante que conta com um sistema de nervos específico para detectá-la. Por isso, não basta amar; é preciso fazer o outro se sentir amado.
Um feliz Natal para você, leitor, repleto de abraços das pessoas que você ama!
- Suzana Herculano-Houzel
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SUZANA HERCULANO-HOUZEL, Neurocientista, professora da UFRJ, autora do livro "Fique de bem com o seu cérebro" (Editora Sextante) e do site O Cérebro Nosso de Cada Dia (www.cerebronosso.bio.br)

O vestido revolucionário de Frida Kahlo



O quadro de Frida Kahlo “Meu vestido pendurado ali” não tem despertado o mesmo interesse nem a atenção como outras de suas pinturas. Talvez porque, aparentemente, a artista _cujos centenário de nascimento se comemora neste ano_ não esteja lá, no quadro, pelo menos não tão visceralmente presente como em muitas de suas pinturas.

Nos anos 90, revistas femininas nos Estados Unidos (“Elle”, “Vogue”) “traduziam” Frida Kahlo (1907-1954) em suas páginas em estilo mexicano, transformando seus vestidos em roupas atraentes nos corpos de belas modelos, posando em casas ensolaradas e supostamente também mexicanas. Queriam transformar a difícil obra dessa mulher em imagem palatável, pronta para ser consumida. Retocavam suas veias, o sangue, as cicatrizes, os pelos de sua face e a morte.

Em vez de sua imagem real, manequins esguias a retratavam com exagerada maquiagem, vestidos provocantes e pernas nuas. Ela era representada nesses novos vestidos e nos cabelos soltos das modelos. Parecia que a única maneira de introduzir Frida Kahlo nos Estados Unidos era fazê-la passar por essa lavagem cultural, como se fosse pintora da moda, bela e aceitável ao gosto dominante. Atualmente, alguns de seus quadros estão cotados em até um US$ 1 milhão.

Entretanto, nem todos gostam do que ela pintava e nem todos a reconheceram pelos olhares de “Elle” ou “Vogue”. Ao comentar com uma amiga sobre Frida, a reação não demorou: “Não é aquela pintora com bigodes, que trata de temas melancólicos? Ela é demasiadamente estropiada!”.

Nessa asserção, o que fica de Frida parece ser somente as marcas fortes de seu rosto e seus símbolos de morte. Talvez por isso, aquilo que parece ser uma enorme crueza e intensa feiúra na obra de Frida é rechaçado ou necessariamente revisado e embelezado, para torná-la aceitável aos padrões da classe média norte-americana. A própria definição que André Breton fez de Frida e de sua arte -“uma fita ao redor de uma bomba”- acaba por fazer quase o mesmo das revistas norte-americanas. Ao enlaçar a bomba com uma fita, a fita distrai a bomba e a bomba acaba por ser um mero elemento para mostrar a fita.

Se em Breton a bomba precisa da fita para traduzir beleza, nas revistas de moda o caminho é mais fundo, tentando redimir Frida de si mesma, de seus tormentos e pensamentos de morte. Uma vez redimida, sua obra torna-se sexy, colorida, bela, e ao final de tudo, mais consumível. Nas revistas, os tons revolucionários, nacionalistas e marxistas presentes em suas pinturas parecem nunca terem existidos.


Vestidos com compromissos

Os vestidos de Frida não eram escolhidos por causa apenas da beleza, mas expressavam compromissos culturais com os povos indígenas, principalmente astecas, com os quais se identificava. Sua arte envolvia e revolvia recursos intelectuais e experiências dos contextos que ela gostaria de verem refletidos em seu país.

No quadro citado (“Meu vestido pendurado ali”), ela usa um vestido tehuana. Janice Helland comenta: “É provável que a imagem dos vestidos das mulheres zapotecas que representam ideais de liberdade e de independência econômica tenham, por isso, chamado a atenção de Kahlo” 1.

Seus vestidos e colares fazem relembrar os vínculos de Frida com seu povo. Ao usar vestidos tehuanos de mulheres zapotecas, além de colares que traziam o imaginário azteca, Frida parece querer lembrar que são essas mulheres, esses povos colocados à margem da universalização cultural (não fora da estrutura, mas nas margens) que estão ali pendurados, colocados entre as fronteiras da assimilação, do extermínio, mas da resistência.

No quadro citado, uma enormidade de referências culturais, políticas, sociais, religiosas e econômicas são postas em relação e tensão, e entre essas referências mundos cheios de história e materialidade são construídos, coabitados, transformados e destruídos. Helland descreve o quadro: “Um vestido, um telefone, um troféu esportivo, a figura de um dólar ao redor da cruz entrando num edifício federal, como símbolo financeiro, e Mae West, no papel da fantasia de Hollywood. Essas fotografias destacam o destino dos desempregados da era da grande Depressão na parte inferior do quadro e mostram o contraste entre a riqueza e a pobreza na sociedade americana” 2.

O vestido tehuano de Frida pendurado num cabide, num varal de fita de laço, entre os Estados Unidos e o México, reflete a vida de povos inteiros, ao mesmo tempo presentes e ausentes, em meio a diálogos surdos e medidas culturais e econômicas excludentes que essas mesmas fronteiras constroem e destroem.

Os vestidos das mulheres zapotecas vão parar nas revistas de moda sem que nunca se saiba da significação que se dá “no chão mesmo da América Latina de uma tradição-tradução de memória libertadora de mulheres” a respeito das “variações e as rupturas com as linguagens de conhecer o corpo no mundo e o nosso, devorá-los como aprendizagem sexuada e cultivar alternativas de produção e reprodução da vida: economia, erótica, ecológica, epistêmica, ética e estética” 3.


As roupas e as fronteiras

A obra de Frida se situa entre fronteiras. Muitas vezes desenvolve uma estrutura dualista, mas sempre desafia os lados, os espaços de dentro e de fora, o que é de lá e o de cá. Mulheres têm seus órgãos internos colocados para fora, o sangue corre tanto por fora quanto por dentro das veias, duas e várias partes de nós mesmos são colocadas lado a lado, como uma coisa só e, ao mesmo tempo, quase distintas. O amor, a traição, a natureza (viva ou morta?), o suicídio, a dor, a morte -tudo acontece em meio à vida sempre pulsante de seus quadros.

Sua arte demonstra clara consciência da presença fulcral da fronteira, especialmente das conseqüências desse espaço tênue em que se situa a luta do povo mexicano por identidade. No final dos anos 20, o México esforçava-se para criar um sentimento de nacionalismo e de orgulho em seu povo. Os Estados Unidos pareciam já mostrar que a cultura “norte-americana” era dona de uma geografia excludente, invasiva (partes do México foram roubados pelos Estados Unidos) e parâmetro da cultura civilizada, universal e hegemônica 4.

Como tentativa de resistir a esse sistema solapador e mesmo tentar subvertê-lo e desfazer os aportes universais da cultura americana, o México foi buscar em seus elementos culturais pré-hispânicos e indígenas formas de se conscientizar, preservar, amparar e desenvolver uma cultura que fosse verdadeiramente nacional. Estas tentativas, entretanto, acabaram por abusar de elementos indígenas, e os mexicanos acabaram por criar caricaturas de si mesmos 5.

As fronteiras regulam, contêm e excluem. São aparatos de controle, concretos e simbólicos, paradoxais e determinados, misturando espaço, poder, conhecimento, economia e identidade. Têm a ver com espaços limítrofes e imaginários: margens, territórios, articulações geopolíticas, linhas e limiares em constante relação, separando, demarcando e costurando lugares e posições.

São espaços nervosos, cheios de ansiedade 6, e permeáveis ao que ainda não conhecem. Sua proteção está sempre ameaçada pela chegada do inesperado, e suas bordas vulneráveis. Nas palavras de Roxanne L. Doty, “as fronteiras já são ameaçadas desde seu aparecimento. A possibilidade sempre presente de serem atravessadas é inerente à sua instituição, coisa que as torna indecidíveis, indistintas e ameaçadas” 7.

Os vestidos de Frida vestem e despem as partes porosas das fronteiras religiosas, culturais, políticas e sexuais, não só do México e dos Estados Unidos, mas de todo o continente americano. Nada é categórico; tudo se desenvolve no vento de referências e bases culturais escolhidas.

Suas roupas tornam as fronteiras “categóricas” em passagens permeáveis e em possibilidades de práticas transgressoras, produtoras de conexões fronteiriças que tornam as linhas divisórias e invisíveis em visíveis e ideológicas.

Da mesma forma que os vestidos, Frida vestia também os “rebozos”, que eram chales feitos de vários tipos de material (algodão, seda ou lã), bordados com longas franjas e usado por mulheres de todas as classes sociais. Em diferentes fotos, Frida usa vários destes “rebozos”, por vezes de seda, próprio das classes mais altas e também de algodão, como as “revolucionarias soldaderas” 8.

Novamente, a roupa con-fundia as noções de revolucionária, de “soldadera”, de classe, de cultura, de colônia e de nação. Da mesma forma ela confunde noções quando em seu quadro “Auto-retrato na fronteira entre México e Estados Unidos”, de 1932, e pintado em Detroit, ela usa um vestido colonial, com colar de estilo coatlicue da deusa da terra azteca, ao mesmo tempo que veste luvas de laço e sem dedos.

Para Rebecca Block e Lunda Hoffman-Jeep, “Kahlo se coloca na encruzilhada, elaborando e concretizando posições pessoais e políticas... Existe uma considerável ironia na maneira satírica que Kahlo faz da manipulação da cultura” 9.

Novamente, há uma enormidade de justaposições entre sua roupa, seus adereços, a bandeira de parada cívica do México, o bico dos seus seios visíveis e os enormes símbolos da cultura moderna presente ao lado dos Estados Unidos, como a Ford, os maquinários, a poluição e a pré-modernidade vivenciada no lado do Mexico, com seus templos e símbolos religiosos pré-colombianos ligados à terra.

Assim, os vestidos e as formas de vestir de Frida se misturam com a vida inteira. Eles anunciam fraquezas e forças, carregam referências culturais, econômicas, sociais, econômicas, sexuais e nacionais. São mais do que a fita na bomba que é o corpo. Permeiam, interagem, e relacionam peles, lugares, povos, toques, visões e cheiros de mundo. Como disseram Block e Hoffman-Jeep, “Kahlo era particularmente consciente da habilidade que as roupas tinham em comunicar informação acerca de gostos, princípios, carácter e sentimentos de uma nação” 10.

Seus vestidos marcam as condições das possibilidades da construção de cada país e do relacionamento entre eles, como a maneira de cada um estabelecer suas estruturas culturais e escolher seus valores simbólicos. Os vestidos apontam para corpos que o vestem ou que estão nus, de roupas que mobilizam a indústria da moda e como esta estabelece noções, que vão desde as medidas ideais do corpo até os critérios de alimentação, de ênfases econômicas e consequentemente de classes sociais.

Assim, os vestidos também indicam a fragilidade do corpo feito forte e desmesuradamente belo, o desequilíbrio, o inóspito, os lugares inabitáveis. O vestido de Frida veste uma realidade ao mesmo tempo oculta, perturbadoramente clara, e demasiada densa e complicada. Os vestidos pedem a atenção do nosso olhar entre as tantas referências. Os quadros de Frida fazem nossos olhos tornarem-se performáticos, ritualizando os contornos entre o imaginário e o real. Como diz Ronald Grimes, “Ritualizamos para tornar real o evento” 11.

Esse mapeamento dos encontros humanos e vivos anuncia, denuncia, acumula e precipita uma situação que é nossa, no mundo, encarnada nas vísceras, veias e peles de nosso próprio corpo. Nossas roupas e nossos vestidos se desgastam, perdem o lugar na moda, se modificam, são re-usados, assim como nossas referências todas. O corpo também se esvai, assim como se escoam a fama e os corpos das modelos. O que fica, ou parece ficar, é o poder econômico “que ergue e desfaz coisas belas”, que faz viscejar e renovar o eternamente novo, re-usável, banalizado, a cada nova temporada do fashion week.


Costurando mitos e religião

A referência religiosa nas obras de Frida vinha de povos abandonados e marcados pela probreza. Em seus quadros e fotos, seus vestidos e colares eram rodeados e mesmo marcados por aspectos religiosos presentes na cultura mexicana. Em seu quadro “Auto-retrato na fronteira entre México e Estados Unidos”, seu vestido está ao lado de elementos como o sol, lua, templo, caveira, sangue, o ciclo vida-morte azteca, e outros elementos da terra que servem para compor referências culturais, religiosas e teológicas do México.

Além das expressões religiosos pré-colombianas, a obra de Frida faz fortes referências ao catolicismo popular, como as coleções de milagres, os “retablos”, que Frida guardava. A Virgem Maria e os santos, Jesus Cristo, seu sofrimento e todo o imaginário católico são símbolos recorrentes na sua obra.

Andrea Kettenmann diz que Frida “via os quadros religiosos que utilizava como expressões de crenças essencialmente populares, que não dependiam, pelo seu significado, da Igreja Católica. Assim, podia utilizar livremente o imaginário cristão para seus próprios fins e apresentar-se a ela própria no papel de mártir”

O que parecia interessar Frida em meio à questão religiosa, eram os movimentos desvinculados do poder central, unívoco, de controle absoluto das religiões. Os símbolos das religiões pré-colombianas eram sinais de independência e autonomia de um povo que construiu seu mundo, autenticava o passado e sinalizava vínculos necessários do povo mexicano.

Para Frida, essa força religiosa nativa tinha muito mais a ver com a identidade mexicana, e deveria criar resistência à força e aos vínculos de feitio e feitiço econômico-religioso interconnectados nas fronteiras entre os Estados Unidos e o México. Também não interessava a Frida o catolicismo romano oficial com suas doutrinas corretas e posições teológicas, mas, sim, a recriação que o povo fazia com os elementos oficiais do cristianismo recebido pelos conquistadores.

Assim, as religiões pré-colombianas e o catolicismo popular carregavam uma verve imaginária, uma outra teologia, sem o “teos” (Deus) necessariamente autorizado, e a “logia” (lógica, conhecimento) tradicional do Ocidente. Ao contrário, a teologia popular é o engendramento do sagrado a serviço da vida em suas expressões mais agudas, em seus desejos de materialidade, bênção e festa. A teologia popular traduz um outra tradição-tradução, um outro conhecimento, da vida e de Deus, e se dá continuamente ao refazimento que for, dependendo das necessidades do povo.

Os vestidos das mulheres mexicanas traziam essas referências religiosas, fazendo com que a religião ficasse dependurada no e com os vestidos. Assim, Frida desenvolve uma religiosidade e mesmo uma teologia que era nascida e fomentada a partir de experiências sincréticas e das vicissitudes do povo, em continuidade, contraste e oposição à religião oficial. Seus vestidos talvez se empenhem em contemplar uma fé dependurada, paradoxalmente incerta, não fixa, que se dá continuamente na materialidade do roçar do vestido com o corpo, corpo sexuado ambíguo, para recriar o mundo do jeito que quiserem.

Assim, o vestido de Frida, das mulheres mexicanas do norte, do centro e do sul da america está pendurado ali. E nós também. O vestido não está ali por acaso mas sim em meio a um redemoinho de fronteiras, limites e referências que a traduzem e silenciam. É revolucionário porque desfaz e confunde os limites estabelecidos e anuncia uma outra possibilidade, enviezada da oficialmente anunciada.

O vestido está pendurado ali sem seu corpo quebrado. Que faz com que o vestido esteja lá, pendurado, e nos assegure que lá esteja ainda? O vestido pendurado nas fronteiras desarma as formas de conhecimento, incluindo o conhecimento religioso. O vestido fala da transitoriedade, da resistência, da fragilidade e da força do vento, coisas mais ligadas à religiosidade popular do que aos sistemas de fé oficiais e sistemáricos.

O vestido desse quadro traz uma identidade de um “lá/aqui” indefinível. Esse vestido parece ocultar o que não se pode saber; está aqui mas também em outros lugares (aqui, cá, lá, acolá, aqui ali, além). Está pendurado lá, num contexto complexo, possivelmente vulnerável a negociações infindas. O vestido fala e silencia corpos ausentes, desterritorializados, jogados para algum lado invisível na malha de relações das fronteiras. Eles servem de sinalizador de algo que se foi, ou que ainda está ali mas renunciado, negado, escondido.

Por fim, acredito que Frida nos dá um instrumento teológico novo: um vestido! E um lugar: “lá.” Nossa tarefa talvez seja a de discernir o vestido, os corpos presentes-ausentes e o lugar desterritorializado onde estão os vestidos e os corpos. Assim, os vestidos falarão de nós mas a partir dos corpos e os vestidos dos outros, entre as fronteiras de nós mesmos e das nações que nos cercam, aqui e lá, sendo esse lá onde quer seja. O vestido de Frida está lá na fronteira, mas nós também.

Claudio Carvalhaes
É doutor em teologia, liturgia e artes no Union Theological Seminary e Universidade Columbia. É autor de "Transgressões: Religião, Performance e Arte" (ed. Emblema). Site: www.claudiocarvalhaes.com.br

Longevidade

MINHA AVÓ AOS 100 ANOS
Há uma série de estudos afirmando que um estilo de vida saudável é uma das chaves da longevidade. Confira alguns deles:

1. CASE-SE. Segundo estudo publicado no Health Psychology Journal, dos Estados Unidos, as pessoas que se mantêm em longas e bem-sucedidas uniões têm uma expectativa de vida maior em comparação àquelas que se casam novamente ou terminam a vida divorciadas (desde que estejam juntas por amor e não por aparência, conveniência ou obrigação social ).
2. EXPRESSE SUAS EMOÇÕES. De acordo com o Journal of Clinical Psychology, da Inglaterra, aqueles que manifestam suas emoções por meio de alguma atividade artística, como cantar, escrever e pintar, são mais saudáveis do que as pessoas que não o fazem.
3. TENHA HORÁRIOS. Evite a prática de exercícios entre as 11 da manhã e a 1 da tarde, principalmente em lugares reconhecidamente poluídos. É quando a produção de adrenalina atinge seu pico. O sangue fica mais grosso do que o normal, a pressão arterial sobe e o batimento cardíaco se eleva.
Durante essas duas horas, é maior a probabilidade de uma placa de gordura se romperem um vaso, o que pode provocar derrame cerebral ou infarto no coração.
4. SEJA SOLIDÁRIO. Segundo estudo publicado na revista Psychology Science, dar apoio físico ou emocional a outras pessoas reduz em até 60% o risco de morte prematura no idoso.
5. PREFIRA AS COMÉDIAS. O riso espontâneo promove a dilatação dos vasos e melhora o fluxo sanguíneo. Também reduz os níveis de adrenalina e cortisol no sangue e aumenta a liberação de endorfinas, hormônios ligados às sensações de bem-estar e prazer. Quer mais? Ainda emagrece. Estudos da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, concluíram que dar boas risadas por um período de dez a quinze minutos faz uma pessoa queimar, em média, 50 calorias.
6. USE O FIO DENTAL. De acordo com pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, a inflamação bacteriana da gengiva, causada pelo acúmulo de resíduos alimentares entre os dentes, aumenta em 72% o risco de doença cardiovascular.
7. IMITE OS BRITÂNICOS. Ser pontual é bom, mas beber chá é ainda melhor. De acordo com o jornal Phytotherapy Research, o hábito cultivado pelos ingleses pode ajudar no combate à doença de Alzheimer. Estudos indicam também que o consumo de chá reduz os riscos de câncer. O chá verde é o que promete maiores benefícios.
8. LARGUE O CIGARRO. Fumantes regulares vivem, em média, dez anos menos do que um não-fumante. Cerca de 90% dos casos de câncer nos pulmões, a neoplasia que mais mata no Brasil, estão relacionados ao tabagismo.
9. TENHA FÉ ( Crer com embasamento e não por fé cega ). Segundo o International Journal of Psychiatry and Medicine, ter uma crença forte em algo ajuda a combater o stress e problemas emocionais.
10. BEBA COM MODERAÇÃO. Estudos mostram que o consumo diário de até duas taças de vinho deve fazer parte da receita para uma vida longa. Até a cerveja, quando consumida moderadamente, pode trazer benefícios à saúde, apontam pesquisas recentes.
11. COMA MENOS. Um estudo comparou cinqüentões que viviam de dieta com outros que consumiam, em média, 2000 calorias por dia. A conclusão foi que o primeiro grupo teve uma expectativa de vida cerca de 30% maior, além de aparentar ser mais jovem do que os congêneres da mesma idade.
12. MORE PERTO DE UM PARQUE. Um estudo realizado por pesquisadores japoneses concluiu que a expectativa de vida dos idosos que moram próximo a áreas verdes é maior do que a daqueles que vivem cercados de arranha-céus.
13. VÁ DE VERDES. Vegetais verde-escuros, como espinafre, rúcula e brócolis, são ricos em ácido fólico, uma substância que ajuda a manter a integridade do DNA.
14. MANTENHA A MENTE ATIVA. Pesquisas mostram que a doença de Alzheimer tem maior incidência entre as pessoas com baixo nível de instrução.
Estudo publicado no New England Journal of Medicine relaciona a leitura, os jogos de cartas e de tabuleiro e as palavras cruzadas com a redução do risco de demência em pessoas com mais de 75 anos.
15. TOME VITAMINAS. Cápsulas de vitamina C são as mais indicadas. Seu consumo ajuda a prevenir a degeneração macular, que afeta 3 milhões de brasileiros e é a maior causa de cegueira em pessoas com mais de 50 anos.
Consulte seu médico sobre a dosagem.
16. CURTA O CHOCOLATE. Em pequenas quantidades, ele pode ser benéfico à saúde. Segundo estudo do King's College, de Londres, a quantidade de flavonóides encontrada em 50 gramas de chocolate é equivalente à de seis maçãs, duas taças de vinho ou sete cebolas. Os flavonóides têm sido apontados como importantes armas no combate aos radicais livres.
17. DÊ PREFERÊNCIA AOS PESCADOS. Peixes de água profunda, como salmão e anchova, são ricos em ômega 3. Esse poderoso antioxidante, segundo o jornal da Associação Médica Americana, pode reduzir em até 81% o risco de morte súbita no homem.
18. FAÇA SEXO. A atividade sexual traz sensações de prazer e bem-estar, combate o stress, aumenta a auto-estima e ainda queima calorias. Estudos mostram que as pessoas sexualmente ativas são mais saudáveis. Segundo a OMS, o sexo é um dos quatro pilares da qualidade de vida, ao lado do prazer no trabalho, da harmonia familiar e do lazer.
19. SEJA OTIMISTA. Após dez anos estudando como a personalidade de uma pessoa pode influir no aumento ou na diminuição da expectativa de vida, pesquisadores holandeses concluíram que ter uma atitude positiva pode diminuir em até 55% o risco de morte prematura.
20. NÃO PULE O CAFÉ-DA-MANHÃ. Pesquisa do Instituto de Gerontologia da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, averiguou que os centenários não costumam dispensar a primeira refeição do dia.
21. TENHA UM ANIMAL DE ESTIMAÇÃO. O conselho foi seguido por operadores da bolsa de valores de Nova York,avaliados em um estudo. Foi tão eficaz no combate ao stress que metade deles suspendeu o uso de medicamentos contra a hipertensão. Quem tem um bichinho em casa vai ao médico com menor freqüência, afirmam pesquisadores da Universidade de Cambridge, na Inglaterra.
22. REDUZA O SAL. Essa medida é importante no tratamento e na prevenção da hipertensão arterial, um dos fatores de risco para doença cardiovascular.
Evite mais de 6 gramas por dia, o equivalente a uma colher de chá.
23. INVISTA EM CULTURA. Depois de acompanhar 12 000 pessoas por nove anos, pesquisadores suecos observaram que, em média, as chances de uma pessoa alcançar a longevidade foram 36% maiores naquelas que cultivavam o hábito de realizar programas culturais, como visitar galerias de arte, assistir a peças de teatro e freqüentar concertos musicais.
24. SINTA-SE EM CAPRI. Está provado que uma dieta mediterrânea, rica em vegetais, peixes e azeite de oliva, pode afastar doenças como hipertensão, diabetes e obesidade, capazes de encurtar a vida em até dez anos. A pesquisa foi feita com 1 507 homens e 832 mulheres, entre 70 e 90 anos, em onze países europeus.
25. ABUSE DO MOLHO DE TOMATE. ( Não industrializado) Pesquisas conduzidas pelo médico americano Michael Roizen, autor do livro Idade Verdadeira e fundador do Real Age Institute, um dos mais respeitados centros de estudo da saúde e do metabolismo humano, mostram que dez colheres de molho de tomate ingeridas semanalmente podem reduzir pela metade o risco de ocorrência de onze tipos de câncer. O tomate é rico em licopeno, um antioxidante encontrado nos vegetais vermelhos.
26. DURMA BEM. Estudos sugerem que a falta de sono crônica pode ter um impacto negativo nas funções metabólicas e endócrinas. Quando se dorme menos de cinco horas, há um desequilíbrio no metabolismo.
27. CONTE ATÉ CINCO. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, esse é o número mínimo de porções de frutas e vegetais que uma pessoa deve comer por dia. A OMS defende que uma alimentação balanceada e rica em vitaminas, fibras e minerais pode reduzir em até 40% o risco de câncer.
28. VÁ AO OFTALMOLOGISTA. Depois dos 50 anos, a chamada vista cansada se torna ainda mais comum. Com a idade, também aumentam os riscos de glaucoma e catarata.
Além disso, alterações de fundo de olho podem indicar a presença de diabetes e hipertensão.
29. MODERAÇÃO COM A CARNE VERMELHA. Pesquisa sobre hábitos alimentares em dez países europeus concluiu que o consumo diário de carne vermelha aumenta o risco de câncer de intestino em até 35%. Mas não a evite.
Proteínas são essenciais para quem faz atividade física regularmente, não só porque dão resistência mas também porque ajudam a tornear os músculos.
30. MOVA-SE. De acordo com a Associação Americana do Coração, o sedentarismo, por si só, aumenta o risco de doença coronariana em, pelo menos, uma vez e meia.
Exercícios diários moderados ajudam a aumentar o tempo de vida em até seis anos.

Fonte: Revista Psychology Science, Journal of Clinical Psychology, Universidade Vanderbilt, Universidade Harvard, Associação Médica Americana, International Journal of Psychiatry, Phytotherapy Research, New England Journal of Medicine, Journal of the American Medical Association, King´s College, Universidade de Cambridge, Federação Mundial de Cardiologia e Organização Mundial de Saúde, RealAge Institute, Universidade da Geórgia e Universidade de Loma. --- Adriani F. Zadrozny Psicóloga

Lucio Cardoso



Consta que Clarice teria mantido com Lucio Cardoso uma "ligação amorosa platônica" , nos anos 60. E que "... Cardoso era "mais ou menos abertamente" homossexual, o que se traduziu na sua obra como mais uma instância particular do tema geral da redenção possível de uma humanidade ontologicamente pecaminosa..."(!?)


À uma estrela

Meu domínio é o do sonho,
minha alegria é a do céu que a tormenta obscurece,
meu futuro é aquele que amanhece à luz do desespero.
Só tu saberás o segredo da minha predestinação.
Só tu saberás a extensão de tantas caminhadas,
só tu conhecerás a casa humilde em que morei.
Quem saberia romper o sortilégio que me cerca,
ó sol vermelho, aurora dos agonizantes.



Mas não reflitas nunca o gesto que condena.
Ai, este país é o da eterna aridez!
Se da altura a estrela não baixar o olhar ao pântano,
maior será a sua impiedade que o seu esplendor.



E só tu Vésper, só tu aplacarás o meu desejo,
só tu poderás depositar, nesta carne crispada,
o beijo que nas trevas dá ao sono a serenidade do repouso.





OLHE AO REDOR
Clarice Lispector

Olhe para todos a seu redor e veja o que temos feito de nós.
Não temos amado, acima de todas as coisas.
Não temos aceito o que não entendemos porque não queremos passar por tolos.
Temos amontoado coisas, coisas e coisas, mas não temos um ao outro.
Não temos nenhuma alegria que já não esteja catalogada.
Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas.
Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.
Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda.
Temos procurado nos salvar, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes.
Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de ciúme e de tantos outros contraditórios.
Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível.
Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa.
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada.
Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos o que realmente importa.
Falar no que realmente importa é considerado uma gafe.
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses.
Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz.
Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos.
Temos chamado de fraqueza a nossa candura.
Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo.
E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.

SILÊNCIO

É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembranças de palavras. Se és morte, como te alcançar. É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível - sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro - tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz.
A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes.
Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.
Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.
O coração bate ao reconhecê-lo.
Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta - como ardemos por ser chamados a responder - cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga - como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.
Até que se descobre - nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio.
Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror - o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.
Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.
Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.
Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo - de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia - ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.

Clarice Lispector- "Onde estivestes de noite?"
7ª Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro – 1994.

dezembro 18, 2007

MÁRIO DE LIMA


EQUÍVOCOS
Espero equivocar-me várias vezes
Sou contra o pedantismo de estar sempre certo,
Ter sempre razão e deixar sempre aborrecidos os que me rodeiam.

Espero admitir meus erros,
Corrigir-los quando for possível
Ou manter-me errado quando não conhecer a resposta mais apropriada.

Quero seguir imperfeito,
Aprendendo a cada dia.
Nem que ao final descubra que não aprendi quase nada desse mundo imperfeito e belo.


Quero descobrir num sorriso sem dentes
A alegria mais pura
E o perfeito sentimento que nos leva a rir sem nos preocuparmos com dentes perfeitos.


Quero descobrir num olhar enrugado
A beleza dos dias passados
Sabendo que cada vinco nessa pele representa uma experiência vivida.


Vou descobrir em um simples lampejo
O mais brilhante dos sentimentos,
Pois já sei que um segundo pode justificar toda uma existência.


BARCELONA É MAIS QUE UM PORTO
Vago pelas noites, Barcelona.
Meu corpo é mais que sólido, líquido e ar.
Vago sem rumo, sem objetivo, sem norte.
Vago pelas ruas da velha cidade
Como quem busca o que sempre soube achar.
Quem já perdeu o que nunca quis
Porque tentar de novo encontrar?

Vago pelas ruas, Barcelona,
Sem querer ao menos encontrar.
Sigo as luzes em busca do nada,
Sigo um nada que não me pode justificar.
Como quem,
Desconectado da ausência,
Insiste na presença como se fosse ancorar.
Como se âncora do nada fosse a existência
Como se a existência do nada pudesse se auto-explicar.

Vago pela luz, Barcelona
Em busca do escuro da sabedoria.
Como quem tenta
Num primeirúltimo esforço
Das águas da vidência se libertar.
Como se fosse fácil,
Depois da tempestade,
Um porto seguro encontrar.
Como se não fosse último
Esse olhar que se perde no mar.
Como se a beleza das coisas que não existem
Fosse maior que a inteligência dos que buscam
O que, sabem, nunca poderão encontrar

Rylke


Sobre a arte:
"Pois arte é infância. Arte significa saber que o mundo já existe, e fazer um. Não destruir nada do que se encontra, mas simplesmente não achar nada pronto. Nada mais que possibilidades. Nada mais que desejos. E, de repente, ser realização, ser verão, ser sol. Sem que se fale disso, involuntariamente. Nunca ser terminado. Nunca ter o sétimo dia. Nunca ver que tudo é bom. Insatisfação é juventude. Deus era muito velho no início, creio eu. Do contrário, ele não teria parado no fim da tarde do sexto dia. Nem no milésimo dia. Nem hoje ainda. Esse é todo o argumento que tenho contra ele. Que ele pôde se consumir. Que ele achou que seu livro tinha chegado ao fim com os homens, e então pôs de lado a pena e esperou para ver quantas edições teria. Que ele não foi artista, isso é tão triste. Que ele ainda não era artista."



Sobre religião:
"Religião é algo infinitamente simples, simplório. Não é conhecimento, nem conteúdo de nossas emoções (pois todos os conteúdos já foram acrescentados desde o início, onde quer que um ser humano se envolva com a vida). Não é dever, nem renúncia;não é limitação, mas, na perfeita vastidão do universo, ela é uma direção do coração. Assim como um ser humano anda e pode perder-se para a direita e para a esquerda, e tropeçar e cair e levantar-se, e cometer injustiça aqui e sofrer injustiça ali, e ser maltratado aqui e querer mal e maltratar e entender mal alhures, tudo isso se transfere para as grandes religiões e conserva e enriquece nelas o deus que é seu centro. E o homem, ainda vivendo na periferia extrema de tal círculo, pertence a esse centro poderoso ainda que tenha voltado o semblante para ele apenas uma vez, às vésperas da morte. Que o árabe em determinadas horas se volte para o Oriente e se prostre, isso é religião. Dificilmente é “fé”. Não tem um contrário. É um movimento natural dentro de uma existência pela qual o vento de Deus desliza três vezes por dia se somos pelo menos isto: flexíveis" (Cartas do Poeta sobre a Vida)

Numa carta para Lou Salomé:

"Permaneço no escuro como um cego
Porque meus olhos não te encontram mais
A faina turva dos dias para mim
não é mais que uma cortina que te dissimula.
Olho-a, esperando que se erga
esta cortina atrás da qual há minha vida
a substância e a própria lei da minha vida
e, apesar disso, minha morte.
Tu me abraçavas, não por desrazão
mas como a mão do oleiro contra o barro
A mão que tem poder de criação.
Ela sonhava de algum modo modelar
depois se cansou,
se afrouxou
deixou-me cair e me quebrei.
Eras para mim a mais maternal das mulheres,
eras um amigo como são os homens,
eras, a te olhar, mulher realmente, mas também, muitas vezes, criança.
Eras o que conheci de mais terno
e mais duro com que tenho lutado.
Eras a altura que me abençoou
te fizeste abismo e naufraguei."

Ambroise Vollard


Olho de mercador
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Ambroise Vollard foi crucial para a afirmação da arte moderna: basta lembrar que 678 quadros pintados por Cézanne passaram por suas mãos -dois terços da produção desse mestre


A mulher mais bonita do mundo nunca teve seu retrato pintado, gravado, desenhado mais vezes do que Vollard por Cézanne, Renoir, Rouault, Bonnard, Forain." A frase de Picasso sobre o marchand Ambroise Vollard poderia ter juntado ainda Maurice Denis, Félix Valloton, Dufy, Brassaï (em fotografia) e a si próprio, Picasso, que o figurou várias vezes.
Entre outras, Picasso elaborou a imagem de Vollard numa tela de 1909, obra-prima cubista feita de tantos prismas em intersecção: em meio a eles emerge o rosto, concentrado e perfeitamente reconhecível do amigo.


Vollard viveu no período mais efervescente das criações modernas em arte. Morreu num desastre de carro aos 73 anos, esmagado, dizem, por uma prancha de gravura ou, talvez, por um bronze de Maillol ou, ainda, quem sabe, por ambos. Muito jovem, em 1888, decidiu comprar e vender obras de arte. Começou com gravuras.



Em 1894 investiu seriamente na pintura de vanguarda, adquirindo, a preço muito baixo, parte do espólio do Père Tanguy, que continha quadros excepcionais. Tanguy fora o proprietário de uma loja de telas, tintas e pincéis, que aceitava quadros de obscuros pintores a título de pagamento. Entre os que Vollard obteve estavam Van Gogh, Cézanne e Gauguin.
Até sua morte, Vollard foi amigo dos artistas, que confiavam nele mesmo quando, para rir, faziam trocadilho com seu nome, cuja sonoridade lembra a palavra francesa "voleur", ladrão. Émile Bernard inventou o apelido "Vole-art", que quer dizer "rouba-arte".

Caverna

Vollard não era um vendedor agressivo; preferia, muitas vezes, esconder seus quadros. Porém, em algumas décadas, tornou-se o mais rico marchand da França. A aposta que fez nos modernos foi vencedora. Comprava em massa a produção de um artista cujo sucesso futuro pressentia, desembolsando o menos possível.
Aguardava então que as obras aumentassem de valor. Promovia a arte de vanguarda com exposições importantes: organizou as primeiras retrospectivas consagradas a Cézanne e Van Gogh.
Vivia sem luxo, em apenas dois cômodos de uma casa grande, que entupia de obras, empilhadas em desordem e cobertas de poeira. Conta, num livro de memórias, sua vida em meio às artes: "Souvenirs d'un Marchand de Tableaux" (Lembranças de um Comerciante de Quadros, ed. Albin Michel).

Feitor

Vollard foi crucial para a afirmação da arte moderna. Basta lembrar que 678 quadros pintados por Cézanne passaram por suas mãos, o que significa dois terços da produção desse grande mestre.
Estendeu a rede internacional de colecionadores para quem fornecia obras soberbas: Morosov e Schukin na Rússia, Barnes, Havemeyer, nos EUA.
Induziu grandes museus a comprar quadros "arriscados", ou seja, de autores cuja consagração ainda não viera. Gostava de estimular os artistas, sugerindo que tentassem práticas diferentes daquelas que eram as suas: insiste em que Bonnard, pintor, experimente a escultura, leva Rodin à gravura e, sobretudo, promove a edição de maravilhosos livros ilustrados. Entre eles está "A Obra-Prima Desconhecida", de Balzac, com 90 estupendas imagens criadas por Picasso, tesouro precioso dos grandes bibliófilos.

Conjunção
Talvez o ano em que estamos, terminado em sete, tenha sugerido ao Metropolitan em Nova York e ao museu D'Orsay, em Paris, a idéia de uma exposição sobre Vollard, que nasceu em 1866 e morreu em 1939. Ela se encerrou em Paris no dia 16 de setembro. Reuniu 167 obras que pertenceram a Vollard, escolhidas a dedo em coleções do mundo todo.
JORGE COLI

Eugénio de Andrade


Conheci o Eugénio de Andrade, só recentemente, em minha última viagem à Portugal, mais precisamente, ao Porto, onde este grande poeta viveu e morreu em 2005.
Sua poesia me chegou pelas mãos de Antonio (Neves, para alguns) que me presenteou com sua obra completa. Esta pessoa especial, além de nos mostrar o Porto, (toda sua história e belezas naturais) , nos fez amar a pequena Vila do Conde ( sua aldeia), olhar Viana do Castelo de seu ponto mais estratégico ( o espetáculo que foi aquele por de sol!), visitar Esposende (os pastéis no Fão!!), enfim , todo o litoral norte de seu amado Portugal.
Com a sensibilidade de um artista (embora faça da fotografia apenas um passatempo) nos fez apreciar cada detalhe, ou o mesmo, sob luminosidade diversa, experimentar as delícias da culinária e dos vinhos portugueses (que tal um Monte Velho, Huguinho?), ouvir ( para mim significou conhecer) a música portuguesa da atualidade e desfrutar de sua companhia. Quem o conhece, sabe de que estou falando...
Mas era do poeta Eugénio de Andrade que queria falar.
Como sua poesia fala por si, transcrevo esta, colhida aleatoriamente:

SOBRE AS ERVAS
Respiras
como se pela garganta
deslizasse todo o azul de Espanha
a noite
a língua do vento

sem outras mãos

outros olhos
para beber no escuro.

Deita-te
sobre o meu peito
inclina
até ao chão
as frágeis
hastes da beleza.

As palavras
Onde te escondes

altas
passam

passam as águas
dóceis
do verão.

É tempo
já as amoras sangram
é tempo ainda

abre-me as portas do teu corpo
ó meu amor

deixa-me entrar.

Já sobre ti
de aroma em aroma
os lábios todos
caem

nupciais ou mortais os corpos
são para penetrar
lenta
oh!
lentamente .

As mãos
sobre a nuca
delicadas .

Sobre as ervas
o leite
espesso do silêncio

O SORRISO, OUTRA VEZ
Tu partiste nos quatro versos
que antecederam estas linhas;
ou partiu o teu sorriso, porque tu
sempre moraste no teu sorriso,
chuva breve nas folhas, o teu sorriso,
bater de asas no pulso, o teu sorriso,
e o sabor, esse ardor da luz
sobre os lábios, quando os lábios são
rumor de sol nas ruas, o teu sorriso.

FOZ DO DOURO
É outra vez abril
- e tão perfeito é o azul
que o estendo
ao longo do meu corpo.
Não sei de ninguem tão bem vestido!

ARTE DE NAVEGAR
Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.

Domingo, amigos e Clarice

Encontrei domingo ( em jantar na casa de amigos comuns), o José Castello. (Não o via, desde o seminário promovido pelo sindicato dos jornalistas, a propósito dos 500 anos do Brasil, em participação brilhante, ao lado da Tizuko, do Natchergaele e do Tom Zé, dentre outros). Castello, além de escritor, jornalista, crítico literário, é um dos maiores especialistas na obra de Clarice.
Para mim, simples mortal, fã de ambos, foi uma delícia encontrá-lo.
Castello considera explorar a literatura de Clarice uma aventura arriscada e perturbadora. E, por isso mesmo, obrigatória.
Não aceita (óbvio!) o lugar-comum que define Clarice como um escritora hermética e entende que ela apenas expandiu seus limites e mostrou que a realidade é algo muito mais amplo, complexo e perturbador do que nossas vidinhas cotidianas e interesses imediatos.
Segundo ele, que considera A Hora da Estrela seu livro-testamento ( diga aí Lucinha!) o que ela questiona é a pretensão realista de dar conta do mundo , de capturá-lo e retratá-lo. O real que é aquilo que sempre nos ultrapassa, aquilo diante de que sempre fracassamos e aquilo que nos torna humanos.
Na sua visão, com a qual só nos resta concordar, o século 21 é o século das editoras profissionais, dos grandes best-sellers , de uma literatura feita na base do raciocínio do custo-benefício, da literatura-mercadoria.
Daí ser tão importante ler Clarice hoje: seus livros “desprofissionalizam “ a literatura e fazem dela o que deve ser “um instrumento de interpretação e perturbação do mundo”.
E a conversa foi por aí ....

PARIS CONTINUA UMA FESTA ?

A alusão ao PARIS É UMA FESTA não é por acaso.
Hemingway, como nós, amava Paris.

Lá viveu e a ela voltou muitas vezes ao longo de sua vida. Nos seus últimos dez anos, fez de cada temporada parisiense uma tentativa, cada vez mais desesperada, de reviver as experiências parisienses, vividas entre 1921/26.
Em uma dessas visitas, em novembro de 1956, fez uma descoberta surpreendente de textos esquecidos em duas pequenas malas que estavam guardadas no subsolo do Ritz, desde que ele deixara Paris para viver na Flórida em 1928.
Além dos textos escritos à máquina encontrou suas cadernetas com anotações e registros de coisas vistas e vividas, recortes de jornais, livros e peças de roupas que completavam o que foi considerado um verdedeiro tesouro.
Assim, Paris é uma festa foi baseado em fatos, realçados por sua imaginação e inspirado pelo material encontrado no Ritz e pelas visitas que ele fez a alguns de seus lugares favoritos, na primavera de 1960, onde reencontra traços de suas vivências na cidade que amava.
Em Paris Hemingway melhorava da depressão e parecia recomeçar a viver, o que não o impediu de, em julho de 1961, suicidar-se aos 62 anos.

PARIS É UMA FESTA foi lançado em Paris em 1964, mas suas descrições nostálgicas continuam atuais:
"Paris n'a jamais de fin. Nous y sommes toujours revenues, et peut importait que nous étions, chaque fois, ou comment il avait changé, ou avec quelles difficultés - ou quelles commodités- nous pouvions nous y rendre. Paris voulait toujours la peine, et vous reciviez toujours quelque chose en retour de ce que vous lui donniez".

É assim que ele termina o último capítulo.

dezembro 17, 2007

Essa tal de felicidade....

Felicidade, em latim, "bona hora". Em francês, (no masculino) "le bonheur".
A BOA HORA, nem cedo demais, nem muito tarde. "Juste comme il faut".
A felicidade interessa a todo mundo. Todos os homens, sem exceção, desejam ser felizes. Para Pascal, seria este o motivo de todas as ações, de todos os homens, "inclusive dos que vão se enforcar..."
Desde sempre, a felicidade faz parte dos objetos privilegiados da reflexão filosófica. Mas, filosofar sobre a felicidade? Donde vem a idéia de que felicidade é coisa de filósofo ? Será que a felicidade necessita de especialistas, quando se sabe que muita gente não é filósofo e isto não as impede de serem felizes, enquanto que muitos filósofos têm seus problemas? Em que sua filosofia lhes ajuda?
Sabe-se que, na música, ninguém resiste a idéia de que, para tocar um instrumento, necessita aprender com um professor. Quando se trata de filosofia funciona do mesmo modo. Pensar se aprende. Saber construir "la pensée" requer anos de trabalho.
Filósofos ou não, diante da vida, somos todos iguais.
O que precisamos, urgentemente, é parar de nos perguntar se a filosofia é necessária. Ela é indispensável. Para saber o que fazemos, para compreender quem somos, enfim, para aprendermos que nossa existência é aberta para um espaço interior sem limites, oferecido a todos que por ele se aventurem.
Filósofo não é este ou aquele professor, este ou aquele escritor, mas nós mesmos. Cada um de nós traz dentro de si um filósofo escondido .
Devemos nos interrogar, com profundidade, o que fazemos para compreender em que consiste a tal da felicidade para nós modernos.
O certo é que, a felicidade não é um luxo, mas uma necessidade...
E, segundo A. Comte-Sponville,(em A felicidade, desesperadamente) "a sua busca é a coisa mais bem distribuída no mundo".

(inspirada nas conversas com Ma Lúcia)